terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A casca do ovo


-Porra! Tu não vai me atender não? – O homem da barba grisalha reclama ao barman. Óbvio, queria mais uma dose da bebida predileta.

Era estranho e mesmo após a sétima dose de vodca o homem parecia firme como uma rocha apesar das palavras abandonarem a sua boca num tanto de arrasto. A feição tolerante do barman, um sujeito atencioso e  de talvez uns 25 anos sugeria preocupação que se confirmava no franzido da testa e na pergunta que dele não se omitia - “E se o homem morrer de overdose alcoólica bem aqui no meu balcão?” – Sim, era o seu temor, mas tinha a plena certeza que homens morressem de excesso alcoólico numa única noite. Não, ele não sabia, afinal, há menos de três meses ele estava atrás daquele balcão e próximo dos seis que completara o curso numa autarquia nacional. Contudo e mesmo no seu exíguo conhecimento dos limites humanos pressentiu que era tempo de tomar alguma atitude:

-Senhor, desculpe a intromissão, mas está pedindo a oitava dose de vodca. O senhor não tem medo que possa ter um “piripaque”? –  Perguntou-lhe com toda a educação. O homem ao ouvir a questão cerrou o semblante de pedra e rangeu os dentes.

-Hum.. piripaque? Ta de gozação comigo? Que porra que é isso garoto? – Respondeu irritado e num tom grave e lamacento. O rapaz procurava ser o mais simpático possível.

-Ah meu senhor, queira me desculpar... esse era o termo que a minha falecida avó usava para dizer que as coisas poderiam sair erradas – Ele se justificava no mesmo momento que fazendo uso da garrafa de Smirnoff  serviu a a dose reclamada por aquele sujeito ríspido.

-Ah! Frases e frases! Sim, frases, afinal no encontramos na era das frases de efeito. Cada qual cria a sua ou a busca no baú das antiguidades e com elas pretende sobressair-se mais que o outro. Quer saber, garoto? Eu acho o fato uma perfeita merda! – Exclamou para depois concluir reticente: Há pouco tempo me disseram que quebrei a casca de um ovo...

O rapaz do balcão compenetrou-se à da lamúria do cliente, porém não sabia traduzir o sentimento. Será que  aquele senhor falava do ato  físico ao se quebrar um ovo? Não, não sabia, portanto a sua ansiedade voltou-se para as três da manhã, horário que retornaria para casa afim de descansar, afinal estava ali desde ás 18 horas. Porém em sua mente retumbava “casca de ovo.. casca de ovo”  E aquilo o deixava curioso, e tão curioso que foi inevitável a pergunta:

-Como assim meu senhor? O senhor quebrou os ovos de alguém?

-Jesus Cristo! - Foi a crua resposta - :Não quebrei a porra da casca ou ovo algum! Eu usei apenas de metáfora!– Vociferou o homem a bordo duma feição mais rude ainda.

-Desculpe senhor, mas não foi isso que entendi - O barman se defendeu da grosseria e persistiu: O que o senhor dexou a entender foi que havia quebrado a casca do ovo de alguém – Todavia o homem ainda não se dava por satisfeito, tinha encontrado a sua válvula de escape:

- PQP garoto!  Agora é que percebo que o teu negócio é unicamente servir bebidas e rebolar esse cantil com tuas mentas, anis, cerejas, cremes de morango, chantilis e todas essas frescuras que as mulheres tanto gostam! A tua compreensão é pequena, diminuta – O sujeito respondeu de forma bruta, embriagada e o pior, denotando chacota.

Sim, parecia bem claro que o cantil que o homem referia seria a coqueteleira, e que o tal “rebolado” nada mais era que a frenética agitação dos braços na misturar dos ingredientes. Porém o sujeito denotava estar cada vez mais inconformado e o barman apenas mantinha atento a todos os seus movimentos – “Ai meu Deus, e se esse sujeito tem um infarto aqui na minha frente, o que eu faço?” – Enquanto o rapaz se perdia em medos o homem cravou o olhar no cedro do balção. Depois desviou o olhar do cedro e reparou no novo copo com a bebida colocado ao seu lado. Os seus olhos pareciam sombrios ao emborcar com sofreguidão a sua mais nova dose. Depois da bebida terminada simplesmente lançou seu olhar ao teto e ficou  olhando alguma coisa por la, talvez o grafite desenhado por um desses artistas de rua.. Ao  descer o olhar a sua voz assumiu a gravidade de sempre, mas que se vestia agora num amargor visceral

-Meu Deus... como fui quebrar a casca e não perceber? . Como não notei?  Por tanto tempo eu disse a ela que, nós os humanos cedemo-nos a insensibilidade, apesar de sempre estarmos á procura  de alguém que nos quebre a “casca do ovo, nos fazendo retornar”. Então...como não fui me dar conta? – O homem murmurava num outro lamento.

-Senhor, está tudo bem? – O barman perguntou receoso. O seu cliente parecia transtornado com aquela conversa sobre a casca do ovo.

Sim, agora ele percebia que o que doía no homem era a dor do amor. E ele apesar de não ter aquela idade, talvez nem a metade, sabia algumas coisas sobre as pontiagudas paixões. E compreendia o homem e sabia que a bebida também era uma das alternativas para este tipo de ferimento. Não que ela curasse, não curava, mas funcionava como morfina, poderoso sedativo que entorpece e que  engana a dor, ludibria as sensações.
E assim e sem que o homem o solicitasse serviu para ele a nona e depois a décima dose. E veio a outra e o homem grisalho tentava desesperadamente dar cabo dela, porém já sem qualquer coordenação motora naquelas palavras que escapuliam da sua boca e soavam incompreensíveis, exceto a queixa Mater  -“Como não fui perceber?”-

Com a metade da dose restando no copo e de posse de alguma altivez ou a que dela restou o cliente pediu o valor da conta e ao tentar pagá-la derrubou ao chão todo o dinheiro que havia no bolso. O barman percebendo a sua dificuldade deu a volta no balcão e recolheu as notas pelo chão e retirou o valor necessário e retornou o restante para o bolso do homem. Era patético o olhar do homem e a sua necessidade de manter-se equilibrados. E apesar da força de vontade o que o senhor grisalho sugeria era parecer-se  com um equilibrista que num domingo de circo espanta a garotada ao tentar manter-se numa corda bamba.

Foi assim com alguma tristeza que  o rapaz companhou a figura do homem deixando o estabelecimento. Ele prestava atenção a cada um dos seus passos e o homem mais parecia agora um coqueiro em dia de tempestade. Claro, era  impossível não compadecer-se daquele sujeito acabrunhado. A esta altura o bar estava completamente vazio e faltavam 15 minutos para encarrar o expediente, e o cliente ao alcançar a porta de saída engasgou num pranto. O rapaz das bebidas se preocupou e foi até ele, então ouviu o seu lamento. Talvez tenha sido a emoção que fez o homem da barba grisalha a falar, mesmo que claudicante, ao menos, de forma audível :

-Sim, garoto... foi o que ela disse... Ela me disse assim...você quebrou a minha casca e não percebeu! E depois numa mesma tristeza de ave que perde  filhotes para predadores desaguou a sua decepção num choro -  "Se você não percebeu é porque a sensibilidade jamais esteve com você" - Ana finalizou e foi embora para nunca mais voltar.

Vomitado o sentimento ele se calou e insistiu no manter-se equilibrado. E agora livre daquilo que o matava o homem saiu pela porta enquanto o barman pensando na "casca do ovo" notou as semelhanças com algumas das suas questões com uma ex-namorada,  alguem por quem ainda era apaixonado; Ela se queixava da sua falta de sensibilidade ao dizer que nele a única e  fantástica suscetibilidade  “trepar”.
E ele, tanto quanto o homem que agora sofre pensou que enlouqueceria ao sentir-se abandonado. Porém o mundo sempre se reverencia à luz do dia, e agora ele estava ali num serviço com bebidas e salários de 1.500 pratas que, se não o deixaria rico, ao menos evitaria que passasse necessidades

Terminando o seu turno e ao sair pela porta qual não foi a sua surpresa ao flagrar o cliente deitado à sarjeta há uns 10 metros distantes dali. Sensibilizado tentou ajudar o homem e notou que os forros dos bolsos da calça estavam para fora, e isso denunciava o assaltado. Apesar do roubo e das escoriações num rosto ralado pelo asfalto, o sujeito ainda tentava manter-se lúcido, porém fraquejava e ria e ria até que gemeu sua dor num novo soluço

-Jesus, eu não percebi. Quebrei a casca do ovo e não percebi! Ah!  Ela estava apaixonada por mim e eu não notei – Logo após voltava a  voltava e socava o próprio peito e depois confessava com a fala mole: Eu era bem mais velho e tinha medo que sabendo a afastasse do meu amor - Ele gemeu

Consternado, o rapaz foi á rua lado onde estacionava o seu carro e retornou com um Uno 93 de lataria avariada e motor prestes a fundir. Com alguma dificuldade conseguiu ajeitar o homem no banco do passageiro e rumou para a solidão do seu quarto/cozinha alugado. Sim, em casa que morasse, por menos que fosse sempre existiria um colchão sobrando.

E no caminho de casa e atento aos semáforos vermelhos pensou em todos os ovos que jamais se quebram. Pensou na prepotência das pessoas, nas suas mentiras, meias verdades, seus egos, na idolatria da própria trapaça, e, principalmente na falta de tato do semelhante ao interagir com o seu próprio semelhante quer seja em amizades, família, local de trabalho e até mesmo nessa coisa confusa que chamamos de amor.
Chegando ao destino e num novo esforço deitou o sujeito no colchão que sempre existe e o homem fazia ruídos com a garganta e repentinamente passava a silvar feito cobra para terminar num ronco grave e persistente. Sim, ele sabia; seria aquela uma noite muito difícil.

Depois de algum tempo e antes de ferrar no sono pensou nas mesmices de sempre, mas se animava em seguir adiante. Ele sabia que o amanhã, chegaria e depois viria um outro, e mais outro e mais outros, e também haveria ovos e a delicadeza de suas cascas e novas oportunidades para serem quebrados por  sensibilidades.
E isso o fez divagar: Será que aquele homem voltaria a encontrar seus novos ovos? E ele mesmo? Também teria pelo caminho finas cascas a serem rompidas?
Sim, fora essa a exata e última pergunta que se fez antes de cerrar os olhos e dormir profundamente.
Não demorou muito e ambos roncavam.

Copirraiti04Dez2012
Véio China©


Um comentário:

Joana Martilio disse...

Caramba emocionei...na ironia da casca precisar d mt pressão p ser rompida i MSM assim ser tao fácil