domingo, 13 de abril de 2014
Nunca antes na história deste país... (Avô & Neto em simplismos políticos)
-Vô, sabe, ouvi dizer lá na escola que a presidente foi terrorista. Se foi terrorista, como pode ser nossa presidente? – Pergunta o garoto, talvez uns 13 ou 14 anos.
Sobre o menino podemos considerar que é um desses como muitos que andam por aí, e que estão numa fase de desinteresse pelo futebol, entretanto antenados e de olhos bem abertos para as garotas na escola, o Facebook, e surpreendentemente, no universo político tupiniquim, talvez até pelo fator "Black Blocs" o qual, sem discernimentos diz achar "movimento firmeza”
-Inácio, leve a mal não, mas não acha que és muito garoto para tanto interesse político? – Questiona o avô ao olhá-lo firmemente nos olhos.
-Assim, sabe vô, lá na nossa classe a dona Izilda estava falando sobre a vida de Che Guevara, e a professora disse que o PT e a presidente tem tudo tem a ver com ele, pois todos militaram na esquerda. Perguntei a ela o que era ser de esquerda, direita, e ela explicou, portanto me interessei.
-Eita! E por que esse interesse repentino por esquerda, direita, e ainda mais pela dona Vilma? – O avô insiste, surpreso.
-Ah vô, nem é tanto o interesse por ela, pois do jeito que o pessoal mete o pau nela no Face, acho que deve ser por não estar fazendo grande coisa pelas pessoas....
-Hum, entendi...então vocês acham que ela não está lá fazendo aquelas coisas...sei. Mas, me diga Inácio, lá na tua escola estudam a política nacional?
-Ah vô, não! Não há aula falando de política não. É que a dona Izilda parece ser plugada nesses lances e gosta de descer o pau no governo. Sabe, gosto dela!
-Hum, e é bonita a sua professora de história?
-Eee vô! Tu sempre querendo saber se as mulheres são bonitas! Certo, o que posso dizer é que ela é de geografia, e que também é meio barrilzinho, mas tem uns olhos azuis maravilhosos!
-Eita! Dos olhos azuis, além de ser gordinha até que entendi, mas, como assim... professora de geografia? – Surpreende-se o velho.
-Uai, como assim....ora! geografia, vô...Ge o gra fi a! - O fedelho responde separando as sílabas
-Nossa, que coisa! Imagino então que nas aulas de história vocês aprenderão sobre o curso do Rio Amazonas, o quanto é pitoresco o Sena, e ainda as rotas das pirâmides no Egito. Pelo amor de Deus, o ensino neste país tá de brincadeira! O que pode ter a ver o cu com as calças? – O velho resmunga demonstrando seu descontentamento com a qualidade dos professores do país.
-Ô vô, vê se não me enrola! Para com esse papo sobre rios e rotas e me diga; A presidente Vilma foi ou não foi terrorista? – O garoto insistiu na pergunta. O velho o olha aturdido; Que assunto chato fui me meter! – Ruminou em pensamento. Depois muniu-se de alguma coragem e seguiu adiante.
-Assim meu filho, vamos por parte. Primeiro, a presidente não foi terrorista, mas, revolucionária, guerrilheira, apesar de muitos verem terrorismo nas atitudes tomadas por aqueles grupos. Claro, naquele tempo ela jamais se imaginou detentora de algum poder, afinal as esquerdas não tinham voz e nem vez no país... – O velho relata. Entretanto, antes mesmo de terminar as suas falas é bruscamente interrompido pelo neto.
-Uai, como é que pode isso, vô? Uma esquerda ser fraca e eleger um presidente? – O menino questiona de olhos arregalados –
O avô o olha e coça a cabeça e murmura entre dentes. “E agora José, como explicar isso pra esse fedelho curioso que o curso da história mudou?” – Depois decide; “Já que entrei no jogo não é justo deixa-lo na metade. Decide antes de disparar suas costumeiras metáforas.
-Bom...é que no meio do caminho surgiu um barbudinho que encantou a mídia e os intelectuais desse país. Já ouviu falar sobre uma poesia de Drummond, chamada “No meio do caminho?”
-Ah, já sim, vô! Aquela que diz " E agora José/A festa acabou/A luz apagou" A professora de matemática vive recitando essa daí e muitos outros poemas.
-Hum...professora de matemática recitando "José"? – Outra vez o velho se surpreende, primeiro, pela confusão do garoto ao vê-lo referir-se a outro poema do imortal Drummond. Segundo, porque também não entendia a mestra de matemática ministrando aulas de literatura no lugar daqueles, para ele, incompreensíveis cálculos.
-É sim, vô! Ela é a nossa professora de matemática! - O garoto confirma
-Tá certo, Inácio. Apesar de você não estar se referindo ao poema que mencionei, confesso, o efeito é praticamente o mesmo. Portanto pegue a "No meio do caminho tinha uma pedra/Tinha uma pedra no meio do caminho" e substitua a palavra pedra e no seu lugar coloque“barbudinho” e aí sim terá uma poesia política afeita ao nosso tempo.
-Ta bom vô, vamos ver como fica; "No meio do caminha tinha um barbudinho/Tinha um barbudinho no meio do caminho" – O garoto ouve o som da própria frase. Porém, repentinamente o sobressalta: Mas...epa! O que pode ter a ver entre o barbudinho, o poder e a pedra? – Protesta o garoto num espanto que se fez cristalino.
- A princípio, nada, Inácio. É apenas brincadeira minha. Já reparou como um dos seus nomes é idêntico ao do barbudo? De diferente só o Ruis e o Nilva? – O velho compartilha num tom professoral.
-Ah é mesmo vô! Quem ainda não ouviu falar no nome de Ruis Inácio da Nilva? – O menino consente.
-Sim, mas voltando ao assunto o fato é que esse barbudinho se tornou conhecido nacionalmente por Tula. Ele foi um obstinado, e mesmo semi analfabeto já lhe sentíamos o dom da esperteza, pois sabia estar na mídia como ninguém, inclusive, evidência que se deu na conta dos levantes da classe metalurgica, isso no ABC, e em plena década de 70.
-Mas, o que ele pretendia, vô? – Evidente, o garoto se mostrava interessadíssimo pelo assunto.
- O que posso dizer Inácio, é que à época ele brigava por melhores salários, direitos e melhores condições de trabalho.
-Nossa vô, então podemos concluir que ele foi um sujeito corajoso?
-Podemos sim Inácio! Pra falar a verdade, esse barbudinho foi um osso duro de roer, um grevista de mão cheia que lotava os estádios com as assembleias que promovia com a sua classe.
-Ah, que legal! O vô, é verdade que Tula não tem um dos dedos?
-É verdade sim Inácio. Inclusive sobre ele contam algumas línguas que ele decepou propositadamente o dedo numa prensa da fábrica onde trabalhava.
-Como assim vô, quem seria louco de cortar o próprio dedo? Mas... por que ele faria isso? – O garoto questiona intrigado.
-Bem, nem eu sei, pois com ele parece que tudo sempre foi e será possível – O velho devolveu num tom tão sarcástico que acabou por gerar dúvidas no guri.
-Ô vô, te conheço, né! Para de esconder o ouro de mim! – Ele olhava firmemente para o avô, e como esse nada respondeu, continuou -
-Sabe, a minha professora revelou que admirava muito esse tal de Tula, mas que agora não admira mais. Ela diz que ele traiu diversas promessas e princípios que fizeram ele chegar no poder. Ela disse ainda mais... Disse que hoje ele posa dando tapinhas nas costas de parceiros políticos, pessoas que no passado sempre alcunhou de corruptas e que lesavam o Brasil.
-Pois é Inácio. Assim como a tua professora há milhões de brasileiros que tem a mesma impressão sobre ele, e não são poucos os que não suportam nem que lhes digam o nome.
-Tô sabendo vô! – O guri respondeu divertido – Sabe, tenho um colega de classe que disse que o vô dele contou que à época muita gente tinha medo do barbudinho, e que os militares pregavam que ele seria capaz de comer criancinhas vivas, se essas dessem moleza! Cada louco, né vô? – O menino finalizou num riso divertido.
-Então, Inácio, foi mais ou menos isso. É que à época tanto a direita como o centro morriam de medo dele. Bem, mas isso não importa, e o que a história conta é que que ele acabou se elegendo e se tornou o nosso presidente.
-Caraca vô, então esse tal de Lula era um sujeito porreta, mesmo!
-Era sim, Inácio. E me lembro do dia da sua posse, e foi uma tarde de muitas festas, e o povo saiu à rua, pois pela primeira vez um homem do povo, miserável, se tornava o presidente do Brasil.
- E o senhor, vô? Acha que ele foi um bom presidente? –
-O que posso responder? Assim, diria que fez alguma coisa pelas pessoas mais carentes. Entretanto, a partir do 2º ano do seu governo começou a mostrar suas verdadeiras intenções ao lutar tenazmente contra tudo que defendeu. Inclusive contra o plano vigente das aposentadorias. Sobre isso ele modificou prazos, estendeu contribuições, faixas etárias.
-Nossa vô! Fale numa língua que eu possa entender, né! Mas, em todo o caso, e se foi o que entendi, é muito doido isso de ser trabalhador e lutar contra os interesses do próprio trabalhador? – O garoto raciocinou alarmado
-Então Inácio, foi assim mesmo. Ah, ele também sempre foi fã de aviões e viagens, inclusive fez a União comprar aviãozinho que nos custou os olhos da cara! - O velho respondeu indignado.
- Epa, espera, to me esquecendo de contar algo bobo...O Tula adorava entornar umas branquinhas.
Dizem que foi sob o efeito do álcool que pretendeu expulsar do país um jornalista estrangeiro que o taxou de alcoólatra. Entretanto, fora as cachaças procedeu algumas medidas no âmbito social, estendendo bolsas esmolas para uma legião de miseráveis, aliás, ideia que nem do seu governo partiu, mas do anterior.
Mas foi aí que demonstrou o quanto era sabichão ao perceber que seria ali onde se concentraria o poder de barganha com um povo sofrido. E essa barganha é que os mantém no poder até hoje, já que ganham as eleições às custas da miséria e das esmolas dadas aos miseráveis.
-Puxa vô! É verdade isso?
-É sim. Quem olha de fora seria capaz de imaginar que isso traz felicidade e bem estar para esse povo. É mentira, não traz, pois não há planos para a educação e nem oportunidades pera eles, infelizmente! Claro, é de pura demagogia, pois ele sempre soube que jamais resolveria a questão da pobreza, assim como a educação, saúde e moradia. Portanto criou esses auxílios esmolas e os distribuiu aos milhões para essas pessoas. E todos sabemos que foi golpe eleitoreiro para se perpetuar no poder, pois para os miseráveis qualquer quantia é uma benção.
-Poxa, que sujeito esperto, eim vô? – O garoto sorri.
-Sim, espertíssimo! Entretanto ele decepcionou as pessoas que detém algum grau de conhecimento, brasileiros que, como eu acreditaram piamente em suas promessas dum governo comprometido com moralidade, e à caça de corruptos e corruptores. E a maior das verdades é que, lamentavelmente o barbudo não combateu aqueles que assaltaram o povo, ao contrário, parece ter se aliado a eles, cerrando os olhos para isso e pra quilo, para depois, mesmo que descobertos os golpes implantados por seu guru político, ter a coragem de vir a nação e confessar que foi traído e de que nada sabia. Foi lamentável o fato.
-Uauu, que bacana! Gostei do esquemão! Um presidente que nada sabe deve ser um cara fantástico! Bem que poderia ser assim na escola, né?
-Como assim Inácio, não entendi! Explique melhor. –
-Assim vô; Quando há prova oral e fico com cara de besta ao não ter a resposta para certas perguntas. E assim sou obrigado a ouvir o riso dos que se julgam mais inteligentes,e eles me chamam de burro na cara dura, de toupeira, e essas coisas assim. Portanto seria bacana logo ir dizendo; Professora, eu nada sei! E todos me olhariam compreensivos diante a manifestação da professora, numa coisa tipo assim; Nossa, que bom, Inácio! Parabéns, você nunca sabe de nada, estamos orgulhosos de você! – O menino respondeu de forma matreira, e ambos se olhando, sorriram e depois gargalharam. Amainado os risos o velho prosseguiu:
-Pois é Inácio, esse foi o mandatário que se julgou traído, aliás, traição e traidores que trabalhavam na sala ao lado da sua, ali bem diante de sua barba grisalha! E foi esse o pessoal que implantou pagamentos, uma espécie de“mensalão” para os políticos que votassem na Câmara de acordo com os interesses do governo petista.
-Nossa vô, que trama incrível - Novamente interrompe o garoto. Depois continua: -Merecia um filme isso! – Mas, o que acabou acontecendo com esse pessoal, vô? – Intrigado o garoto questionou.
-Bem...o esquema foi descoberto porque um desses políticos parece não ter recebido o que lhe prometeram, e então ele botou a boca no trombone. Depois que o escândalo estourou, o traidor da sala ao lado, junto de muitos outros pegos com a boca na botija foram julgados e condenados pela mais alta corte da justiça nacional. Entretanto, com uma nova composição de ministros os quadrilheiros conseguiram um novo julgamento e O STF absolveu alguns da acusação de formação de quadrilha. Entendeu?
-Eu não, vô! Não entendi muito bem esse negócio de “quadrilha” ser absolvida pelo crime de “formação de quadrilha” Isso não me pareceu nada lógico. E outra, nem sei o que quer dizer esse ST e mais alguma coisa, esse que o senhor acabou de se referir.
-Ah, é a sigla do Supremo Tribunal Federal. Como eu disse, é um colegiado que reúne diversos juízes, e eles se tornam ministros e são nomeados pelo presidente da república. No caso do novo julgamento, e sobre a sentença absolvendo os apontados por “formação de quadrilha” aconteceu o fato dos dois novos juízes serem recentemente nomeados pela presidente Vilma. Muitos afirmam que houve "mutreta" neste novo julgamento, inclusive apontando que um dos novos empossados recebeu uma nota preta por assessoria prestada a União. Portanto, os novos membros votaram à favor da absolvição, tornando sem efeito o julgamento anterior, e no qual haviam sido condenados.
-Nossa vô! Que rolo é esse negócio de Poder! –
-Pois é, Inácio. Pois é! – O velho solta os braços em sinal de desânimo.
-Poxa vida vô, agora to percebendo como parte das coisas andam nesse país. Acho que eu também ficaria decepcionado.
-Exatamente Inácio, Eu fiquei e muitos outros ficaram! Porém coisas estranhas acontecem diariamente nesse Brasil. Não te espantes, ainda verás muito disso na tua jornada e nesta terra onde canta o sabiá. Ah,e por falar em coisas estranhas...por acaso você não pretende montar uma pequena empresa, sem capital, talvez até na área da informática? E por que não uma empresa onde nada se cria, nada fabrica? Empresa onde não há empregados, escritório, endereço fixo e clientes. Empresa onde verdadeiramente não haverá nada, mas que poderemos vender por milhões e milhões de reais para uma eventual compradora, quem sabe uma concessionária do setor das telecomunicações. Sabe, Inácio, uma coisa te garanto; Ficaremos milionários do dia pra noite! Topas?
-Uauuu! Claro que topo vô! Mas... é possível uma barbada dessa? – O garoto pergunta entusiasmado.
-Aqui é totalmente possível! Sabe, Inácio, pressinto coisas boas para você. Acho que você ainda nem sabe, mas ainda serás o bambambã nos negócios de nossa família.
E não te impressiones se um dia tiveres que limpar merda de girafa num zoológico qualquer. Não te impressiones mesmo! Tudo, tudo, tudo será transitório, acredite em mim! - O velho se entusiasma, antes mesmo de desferir o bordão fatal.
-Tu Inácio, tu és um gênio, Inácio e serás o nosso "Neymar" nos negócios!
Copirraiti12Mar2014
Véio China©
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Reminiscências Contemporâneas (Hippies, Black Blocs & Iphones e muito mais)
Olhando em seus olhos logo percebi que seria um desses garotos que jamais saberão o que é o mar.
Talvez estivesse lembrando do mar por estar vindo dum domingo de praia e de um ótimo quarto
de pousada. Como todo bom paulistano procurei esquecer o solado dos sapatos sociais raspando no concreto e fiquei os pés nas areias macias e cravei a vista tão distante quanto a idade
podia me permitir, já que sempre me causou inveja essas lanchas de rico ancoradas próximas á praia. Entretanto como jamais fui um comandante ou lobo domar retornei a São Paulo na segunda de manha e cá estou eu numa estação de metrô às seis e meia da tarde, hora de rush, instante que o deixei junto de suas parafernálias urbanas.
Logo, ele e eu e outros milhões de usuários somos trens de metrô e estamos na estação Estação Sé apinhada de gente, enfim, uma raça humana que, plagiando o gado retorna para os seus lares.Talvez o garoto não soubesse, mas eu fora tão jovem quanto ele, desses sujeitos normais que se flagram nas feiras livres consumindo porções de yakisoba e pastéis de palmito. E como não sabia dos pastéis, não haveria de saber que eu fora um sujeito posto à prova pela vida, apesar de minha inequívoca vontade de progredir. Porém, mesmo que houvesse a vontade, a verdade é que nunca dei muita sorte com qualquer coisa, inclusive com os empregos, pois raras foram as respostas dos curriculum vitae que enviei pela existência toda. E o fato não me espanta, pois talvez à época os engomadinhos daqueles escritórios de poltronas confortáveis acreditassem que eu fosse meramente um preenchedor de formulários.
Logo, ele e eu e outros milhões de usuários somos trens de metrô e estamos na estação Estação Sé apinhada de gente, enfim, uma raça humana que, plagiando o gado retorna para os seus lares.Talvez o garoto não soubesse, mas eu fora tão jovem quanto ele, desses sujeitos normais que se flagram nas feiras livres consumindo porções de yakisoba e pastéis de palmito. E como não sabia dos pastéis, não haveria de saber que eu fora um sujeito posto à prova pela vida, apesar de minha inequívoca vontade de progredir. Porém, mesmo que houvesse a vontade, a verdade é que nunca dei muita sorte com qualquer coisa, inclusive com os empregos, pois raras foram as respostas dos curriculum vitae que enviei pela existência toda. E o fato não me espanta, pois talvez à época os engomadinhos daqueles escritórios de poltronas confortáveis acreditassem que eu fosse meramente um preenchedor de formulários.
E por falarmos em fichas para emprego lembro uma daquelas ocasiões que levantei ainda de madrugada e peguei dois ônibus lotados para tentar uma boa vaga numa multinacional. Bem, ao fim de duas horas e meia espremido como laranja prestes a se tornar suco, desci próximo da empresa, mas acabei me dando mal, já que não conhecendo o lugar adentrei por numa viela com casas desocupadas, talvez até pelo fato de algum grande empreendimento estivesse sendo planejado para o local.
Então continuei seguindo pela viela com os passos apertados, e era mais que certo que alguns dos meus concorrentes já andavam pelos corredores da empresa entregando suas qualificações. Lembro que ao passar pelas casas eu as olhava rapidamente, porém não tardou e vigorosos passos de dois sujeitos logo se aproximaram. Assim que me alcançaram alinharam-se um de cada lado - "Devagar irmãzinho!" Um deles disse ao surgir com um calibre 22 na mão direita e retirado às pressas por debaixo do seu enorme camisão de flanela. Bom, exposto à arma de bandido, que poderia ser até plástica, não me surgiu outra ideia que não a de me ajoelhar na tentativa de salvar a minha pele. "Por favor, não me mate" - Roguei com os mesmos olhos piedosos dos mendigos -
Claro, nós os comuns sempre tivemos medo, muito medo, portanto nada mais previsível que nos subjugamos à ousadia dos marginais, ou às suas eventuais armas de PVC ou de ferro pintado.
Sem saída e naquela circunstância só me restou venerar o marginal como se fosse ele o Jesus Cristo, afinal, eu jamais acreditaria que e o filho de Deus atirasse contra um dos seus irmãos.
O que se postava à esquerda e que parecia ser o mais calmo olhou para mim e me mandou levantar do chão com uma frase que nunca mais esquecerei. Ele disse - "Calma irmãozinho, não matamos ninguém antes da hora do almoço. Apenas me passe o que tem nos bolsos e estará tudo bem" - Depois ainda enfiou no meu bolso o dinheiro da passagem e me mandou andar. E eu andei, andando, trêmulo, passo após passo até novamente sentir as pernas firmes e me dirigi à empresa que, até hoje não me convocou para uma segunda entrevista ( E olha que lá se vão mais de 32 anos)
Então continuei seguindo pela viela com os passos apertados, e era mais que certo que alguns dos meus concorrentes já andavam pelos corredores da empresa entregando suas qualificações. Lembro que ao passar pelas casas eu as olhava rapidamente, porém não tardou e vigorosos passos de dois sujeitos logo se aproximaram. Assim que me alcançaram alinharam-se um de cada lado - "Devagar irmãzinho!" Um deles disse ao surgir com um calibre 22 na mão direita e retirado às pressas por debaixo do seu enorme camisão de flanela. Bom, exposto à arma de bandido, que poderia ser até plástica, não me surgiu outra ideia que não a de me ajoelhar na tentativa de salvar a minha pele. "Por favor, não me mate" - Roguei com os mesmos olhos piedosos dos mendigos -
Claro, nós os comuns sempre tivemos medo, muito medo, portanto nada mais previsível que nos subjugamos à ousadia dos marginais, ou às suas eventuais armas de PVC ou de ferro pintado.
Sem saída e naquela circunstância só me restou venerar o marginal como se fosse ele o Jesus Cristo, afinal, eu jamais acreditaria que e o filho de Deus atirasse contra um dos seus irmãos.
O que se postava à esquerda e que parecia ser o mais calmo olhou para mim e me mandou levantar do chão com uma frase que nunca mais esquecerei. Ele disse - "Calma irmãozinho, não matamos ninguém antes da hora do almoço. Apenas me passe o que tem nos bolsos e estará tudo bem" - Depois ainda enfiou no meu bolso o dinheiro da passagem e me mandou andar. E eu andei, andando, trêmulo, passo após passo até novamente sentir as pernas firmes e me dirigi à empresa que, até hoje não me convocou para uma segunda entrevista ( E olha que lá se vão mais de 32 anos)
Sim, são coisas como estas que me deixam farto da vida. A impaciência se torna fúria, não só com a bandidagem estabelecida, das armas ou da política, mas também com aquele garoto que destilava ódio em sua expressão, a qual respondi com uma fisionomia acabrunhada, dessas que dizem o quanto andamos de saco com todos. Talvez alguns me julguem ranzinza, mas se há coisa que não suporto são esses olhares que te olham como estivessem vendo um monte de estrume E era essa a impressão que ele me causava, e eu o achava imbecil, e odiava o fato tanto quanto os gatunos que nos rouba, lesam, e agem como se fôssemos uns otários, e que estão fazendo um grande favor ao nos assaltar.
Sobre isso, e apesar de ser revoltante engolir sapos, é bom que saibamos da necessidade de, vez ou outra nos munirmos de paciências, pois há ocasiões que as esperas são sábias ao apontarem que a existência não se sublima no valor das posses, no calor do sol, ou nas fases da lua. Não, definitivamente não, pois a vida é muito mais que palavras bonitas ou os mimos num rosto de mulher, pois também resplandecemos nas dificuldades, nos patamares difíceis e nos degraus mais altos, já que existirão coisas que poderão nos marcar, assim como o amor bem feito com a mulher que se quer, mesmo que no derradeiro murmúrio da madrugada.
E assim é a vida e o exercício continua, e não será fácil para quem quer que seja, pois às vezes ela nos maltrata e coloca-nos para fora da cama ás 5,30 da manhã através do despertador que tocará irritantemente, e fazendo lembrar que há trabalho lá fora. Portanto você se levantará e irá ao banheiro e constatará que a sua respiração embaçou o espelho, e isso significa que há batimentos em seu coração, apesar duma aparência horrível. Depois é só tomar a ducha, escovar os dentes, pentear os cabelos e sair para a rua sabendo que a vida está de olho em você, mesmo que não sejam aquelas as sua últimas horas, assim por dizer; o dia da tua paz definitiva.
Todavia é esta isenção de paz que não me deixa acomodar para as coisas que não fazem sentido, assim como a prostituição e um bando de garotas com o rabo de fora congestionando as esquinas com michês de 50 pratas.
Evidente, há outras tantas aberrações, e uma delas é este desprezível quebra-quebra generalizado que vivemos, assim como a abundante bandalheira praticada, e tão comum às pessoas poderosas. E a maior das verdades seja dita, pois a sociedade pensante está anestesiada, prostrada diante da anarquia que reina absoluta, estupefata com governantes que afundam um país à custas das esmolas clientelistas.
Sim, por outro lado também estou perplexo com os atos desses garotos mascarados, e eles poderiam estar produzindo, estudando, amando, ou sei lá o que nais, porém, tempo perdido, já que não se despem da violência ou do vandalismo, pois lhes deve parecer "um negócio da China" depredar não só o patrimônio privado, mas igualmente o público, um evidente “foda-se” às instituições.
E isso me deixa puto da vida, pois talvez os black blocks tenham nascido numa época imprópria, pois a minha era foi duma geração submissa, mas que acabou herdando o mundo, e tudo num piscar de olhos. E essa herança não nos veio de graça, foi com luta, com protestos, mas sem que promovêssemos destruições ou aniquilássemos pessoas. Todavia isso é uma outra história, coisas do meu tempo e duma velha guarda fascinada pela retórica dos grandes pacifistas, e que fazem lembrar do mundo jovem dizendo NÂO à guerra do Vietnã, além do repudiar o preconceito e as questões racistas.
Logo, o garoto do metrô jamais imaginaria que esse foi o quadro pintado na minha geração, e que daquele ponto em diante foi um juntar de forças, inclusive com os imensos dinossauros da mídia, gente assim como os Beatles, Rolling Stones, Morrison, Dylan, e tantos outros, para enfim chegarmos onde chegamos, praticamente a lugar algum. Enfim, algo de errado aconteceu lá atras, e mesmo ansiando por mundo melhor e mais justo os jovens da época se perderam pelo caminho, dispersaram santificando e consumindo drogas que mataram não só a eles, mas também muitos de nossos ídolos.
Finalizando o resumo diria que fomos o estardalhaço jovem que pouco ou quase nada soube fazer com o poder da própria voz.
Ah, e já que estou passeando pelo passado volto aos pequenos detalhes daquela época e relembro a Praça da República e as feiras hippies, e à um domingo especial, onde ao percorrer as curtas alamedas ouvi e pela primeira vez o inacreditável Jimi Hendrix. Ainda me era um tempo intermediário, dividido entre o garoto que saia da infância para ganhar a juventude, e eu à época no cargo de office boy e junto do meu tênis Rainha percorria que nem louco as ruas de São Paulo enfrentando filas, encarando ônibus lotados, desafiando enchentes que, por vezes me tinham-me pela cintura. Ah, e como esquecer dos almoços à preços módicos num imenso salão no centro da cidade, lugar mais conhecido como o "Bandejão da Juventude Católica". E tudo me parecia tão claro e justo, e no fim do mês havia aquilo que eu julgava a recompensa, então corria à Galeria Pajé, e meus olhos se mantinham frenéticos, era como procurassem uma miss, talvez até a de São Paulo, mas não era uma garota de corpo escultural o motim do meu desejo, mas sim uma calça de um jeans diferenciado e de sucesso global; Levi Strauss era a marca. E ela me deixava feliz, e com ela dobrada no interior duma sacola plástica é que deixava no bolso do comerciante todo o meu salário do mês, pois usar uma daquelas era sinal de status, e as garotas amavam os garotos enturmados.
Sim, é verdade, e uma coisa levando à outra relembro o romantismo do tempo e a excitação ao tocar a mão da namorada, a ansiedade nos dedos umedecidos de suor, depois o rubor corando meu rosto ao toque mais ousado, sem esquecer do coração que batia afoito, afinal era tão fácil se apaixonar naquela época. Talvez nem acreditem, mas essa coisa da ansiedade sexual me foi cobrada pouco antes das calças favoritas. Sim, surgiu na frequência das missas dominicais celebradas pelo Padre Damião. Talvez eu estivesse na casa dos 12 ou 13, o que não apaga de minha memória as pernas jovens no interior das recentes minissaias, um mundo de hábitos novos, e essas pernas ali na presença de Cristo me deixavam agitado. Entretanto nem nesses momentos escapei impune, já que persistiam em mim os resquícios duma severa educação cristã, ensinamentos que foram ministrados num colégio de padres que estudei até os 10 anos. E sendo eu o pecador carregava tantas culpas, e elas precisavam ser redimidas, portanto me aproveitava de estar na casa do Senhor e caminhava até ao confessionário, e lá acertava as minhas contas com um daqueles que me diziam ser o representante do Pai aqui na terra. E assim eu saia de lá leve e carregando na consciência a obrigação de rezar não sei quantas Aves-Maria e Padres-Nosso, e agora eu podia tocar as asas dos anjos, pois quase nada devia a Deus.
E quando divago sobre o fim da infância e o início da fase jovem faço-me as mesmas perguntas de sempre: A minha alma já estava perdida? E por onde andariam os meus amigos da "divisão dos menores" do Liceu Salesiano de Campinas, junto das lembrança de tudo que vivenciei por lá?
Eu nunca mais soube, mas deduzo que muitos estão por aí com suas famílias, avôs em situações estáveis, instáveis, talvez em asilos, ou mortos, nem eu mesmo sei.
Bem, depois do colégio interno e já em Sampa adentrei a fase musical e só pensava em canções e nos cabelos iguais aos dos rapazes de Liverpool. E sobre as canções muitas delas me marcaram (Poucos devem lembrar de Vandré e a Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores) Não há como negar, e já naquela época demonstrava algum inconformismo, e isso se percebia nos meus gostos musicais, nas revistas em quadrinhos que devorava, principalmente aquela produzida por gente que tirava um barato do autoritarismo, portanto, do Regime Militar, já que esses jamais excluirei da lembrança (beijos, Fradim, Bode Orelana, Graúna, Henfil, Jaguar e Ziraldo)
E estando em tempos difíceis o normal era aceitar que o pior andava à espreita, assim como nos dias
de hoje, pois o o mal destrói como traição entre marido ou mulher. Todavia o tempo foi caminhando, e ao fim daquela década o Regime jogou pesado coibindo manifestações, principalmente as estudantis. Mas elas persistiram e foi um festival de borrachadas, e a polícia, sem dó ou piedade desceu o cassetete na juventude. Com o movimento de rebeldia (principalmente dentro das faculdades) vieram grupos e foi formada a célula guerrilheira e um projeto que supomos clamar por liberdades e direitos civis.
Convenientemente se anota que as camadas mais esclarecidas apoiaram irrestrita tais movimentos (mesmo estando longe da militância) e fomos muitos os que acreditaram em seus ideais, e eu, mesmo sendo jovem e inexperiente apoiei, pois jamais acreditei em liberdade tendo os militares e os atos de força no comando do país.
A guerrilha desenvolveu e em que pese as patentes militares envolvidas, mas la estava o anonimato dos nossos heróis perdido entre as matas, lutando por algo que nem mais sabia o que era. Evidente, houve o rastro da morte, e alguns se foram até pelo próprio e desconhecido habitat que enfrentavam. Passou-se pouco tempo e os militares dizimaram a guerrilha, afinal, a maioria daqueles garotos jamais tinha tocado numa arma de fogo.
Depois de vencidos muitos dos guerrilheiros se exilaram por aí, e é neste ponto que reside a triste ironia dos fatos; Alguns desses sobreviventes estão hoje por cima da carne seca. E a decepção fica por conta de agora sabermos que foi a guerrilha mentirosa, combatentes acoitando entre si um bando de falsos revolucionários.
E agora tudo me parece tão claro apesar da ficha ter demorado para cair, pois a mentira é tão contundente, e os pseudos guerrilheiros tinham por único objetivo a tomada do poder e se dar bem na vida, um poder que, diga-se, hoje se mostra quase tão totalitário quanto o dos tempos militares..
Logo, muitos de nós nos dias atuais têm a consciência que pagamos demasiadamente caro por termos acreditado e colocado no poder a ignorância demagógica de um semi analfabeto. Assim é que nos sentimos, impotentes, e eles se multiplicam e dividem o produto das falcatruas entre si num vilipêndio do erário público que mal deixa as digitais dos dedos inescrupulosas, mas que sabemos; transferem boa parte dos seus golpes milionários para seletas carteiras abarrotadas de testas de ferro.
Bem, como política é algo que me causa nojo, a deixo de lado e retorno ao garoto de olhar duro, e ele continua me olhando, empinado, e seu nariz parece ter alcançado o mesmo status das nuvens no céu.
E esses olhares atravessados aconteceram pelo nosso resvalo acidental à porta da saída do metrô. Evidente, velhos carregam guarda-chuvas nas mãos, e não Ipods ou Iphones. E o estrago se fez no instante do choque, porém meu guarda-chuva escapou ileso. Ainda na intenção de ajudá-lo me agachei e peguei o seu aparelho, sem não antes notar que o vidro frontal do Aplle havia se espatifado, e duas ou três peças juntas da bateria se esparramaram pelo piso. Olhei atentamente para os pequenos pedaços e se eu fosse alguém confiável na área de assistência técnica de celulares lhe diria sem constrangimento que talvez o caso fosse o da perda total. Entretanto o momento e as circunstâncias não me pareceram apropriadas para alertá-lo, portanto silenciei.
-E aí tio! Tu vai ressarcir o meu aparelho? – Ele perguntou aproximando o rosto, resvalando seu tórax em meu peito.
-Como assim? Você está ficando louco, guri? – Respondo. O que mais podia dizer?
Logo o bonitão percebeu que do meu mato não sairia coelho
-Tio, quer mesmo saber? – Ele me fulminou. Eu sinto sua ira
-Quero! É justo que digas! – Devolvi, afinal é assim que nos fortalecemos para a democracia.
-Tu é um babaca reacionário – Ele devolveu com todas as letras. É estranho, mas os jovens de hoje sempre acham que os sujeitos com mais de 60 anos são reacionários, de direita, fascistas, ou do TFP e outras barbaridades. Eu apenas sorri para ele.
-E tu, sabes o que acho? Tu és nada mais que um filho de camundongo! – Replico com um risinho de desdem impregnado nos lábios.
O garoto apenas me olhou, e agora o seu ódio era mortal. Talvez estivesse lá pelos 20 ou 21 anos, um touro de academia, a montanha de músculos talvez adquirida nos anabolizantes, "ou não", como sempre dirá o sábio Caetano.
Seu olhar continuava desafiador, porém eu sabia que se tratava de reles pressão psicológica, pois poderia me trucidar se assim o quisesse.
Mas não o fez, talvez porque seus músculos pensassem, talvez pelo Estatuto do Idoso, ou por ter desconfiança que acabaria se metendo em mais complicações das que provavelmente estava.
-Garoto, escute! Vamos colher lagostas e mergulhar com as sereias? – Propus para ele num tom amistoso, fornecendo um sorriso mais que aceitável
-Hããã? Você está louco, velhote? – Foi a sua resposta-pergunta. Tudo bem, inclusive eu a previa.
Antes de desistirmos olhamos um para o outro pela última vez.
Ele, talvez pensando na reposição do aparelho, e de como chegaria no pai com a melindrosa conversa que um bando de “reacionários" quebrou o seu Ipod" intencionalmente ao darem conta da vermelha estrela petista cravada no peito da negra camiseta (à esquerda,bem próxima ao coração)
Eu, por meu lado apenas abandonei as dependências do metrô e olhei para o firmamento à procura de tempestade.
Como o céu estava repleto de nuvens negras que não desaguavam suas lágrimas, pensei nas lagostas e nas tais sereias que, por aquela hora poderiam estar me aguardando nas profundezas do mar.
Eu apenas sorri quando voltei com o corpo e o vi recolhendo os pedaços do aparelho para guardá-los em sua mochila de grife.
De fato! Aquele Mister Qualquer Coisa jamais saberia o que era o mar.
Copirraiti16Fav2014
Véio China©
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Porfírio - Um detetive dos diabos
Eram precisamente vinte e duas horas e trinta minutos quando parei debaixo de um poste. Estávamos em pleno inverno e a luz ofuscada por um ainda discreto nevoeiro dava certa notoriedade ao meu terno de corte panamenho. Certamente para mim a noite é e sempre será uma linda mulher que adormece e se acordada com um beijo, e eu estava ali priorizando trabalho que me fazia mergulhar em seus seios, e eu e os meus olhos de lince permanecíamos atentos e.à disposição de causas boas ou ruins, não importava, desde que resultasse em algum dinheiro. E após cada serviço executado o comum era verme-me num bar e encostar o umbigo no balcão e beber. Depois e de cara cheia tentava apenas não morrer espatifado num poste ao deslizar os pneus do carro nas esburacadas ruas de Sampa.
Enfim, eu gostava dos odores da madrugada.e de sentir o cheiro do asfalto molhado numa cidade que necessitava ser limpa, enquanto, na mesma hora a maioria dos mortais aguardava em seus leitos a alarme dos despertadores nas primeiras horas da manhã. E agora, ali plantado com a minha garota de vapores gélidos e olhar desestrelado jogava a bituca do meu cigarro na calçada quando repentinamente surgem três ou quatro prostitutas que, provavelmente faziam ponto nas imediações. Elas tagarelavam e riam alto quando uma de voz estridente me propõe:
-E aê, tiozinho, tas afim dum programinha legal?
Olhei para a criatura e ela não era de se jogar fora, porém eu não estava ali para trepar, mas sim para dar cabo às minhas responsabilidades, apesar do tesão que me causou aquelas pernas otimamente torneadas. Pigarrei, olhei-a com alguma simpatia, mas acenei negativamente a cabeça, porém sem perder do olhar a janela do 3° andar do prédio em frente.
E sobre estar ali às vezes me perguntava meus motivos para abraçar aquela profissão, ainda mais porque ser detetive é prostituir-se diariamente tanto quanto a puta de coxas grossas. Sobre essa questão digo apenas que jamais desprezei a profissão de qualquer pessoa, mas nunca me dobrei à falsidade, já que muitos não se dão aquilo me que dou, a mão à palmatória, afinal entendia que poderiam sentir repugnância pelo que eu era; um safado alcaguete. E quando você se torna um dedo duro profissional perde um pouco do amor próprio e somatiza para si a antipatia da maioria das pessoas, pois qual de nós gostaria de ter sua privacidade vasculhada?
Bem, gostassem ou não era essa a minha profissão, e se detetive sou a culpa cabe a mim, pois sempre viverá em minha memória os meus tempos de juventude e os insistentes apelos dos meus velhos; “Filho, estude! - Eles rogavam. Entretanto jamais dei ouvidos a eles, e eles queriam apenas que eu fosse um bom advogado. E talvez essa urgência fosse a do meu pai, hoje um humilde octogenário aposentado. Certamente ele pretendeu realizar em mim aquilo que não conseguiu ao cursar até o 2° do Direito, abandonando os estudos para sustentar irmãos em fase escolar e a mãe que acabara de enviuvar, isso quando era noivo de mamãe. Lógico, tal qual ele no começo tentei saciar suas vontades ao concluir os dois primeiros semestres numa faculdade privada. E sobre ela recordo-me do correr daquele ano, e lá estando aos poucos fui percebendo que não era a minha intenção tornar-me um homem das leis, ser o justo da balança, pois as aptidões para um bom advogado jamais tive. E assim concluí ao notar que o que me prendia naqueles bancos eram aquelas garotas com sorrisos malandros e toda a viabilidade de algumas trepadas gratuitas.
Bem, e já que estou aqui num jogo da verdade e de confessar a mea-culpa é bom que eu seja mais íntegro e revele duas das principais verdades; A primeira é que à época o meu grande sonho foi o de ser motorista de caminhão. Claro, podem achar engraçado, mas eu me imaginava na boleia daqueles brutamontes como os Mercedes ou os FNM. E a segunda é que os dois semestres na faculdade trazem-me ótimas lembranças, notadamente as festas patrocinadas pelos filhinhos de papai que lá estudavam. Festas que sempre contavam com a presença das garotas do curso e outras levadas dos inferninhos que frequentavam. Festas celebradas em bairros nobres e em mansões de jardins suntuosos. E ali, entre brados da mocidade rolava whisky do bom, 25 anos, além de farta putaria. E uma coisa sempre levava a outra, então nos embebedávamos e semi desnudos nadávamos em suas piscinas de 10 por 15, para ao fim ser as mesmas sacanagens de sempre, inclusive algumas trepadas relâmpago que, sem qualquer cerimônia se expunham nos gramados, banheiros de empregados, ou, no melhor das hipóteses nos bancos traseiros dos carrões estacionados em suas garagens.
E sobre estar ali às vezes me perguntava meus motivos para abraçar aquela profissão, ainda mais porque ser detetive é prostituir-se diariamente tanto quanto a puta de coxas grossas. Sobre essa questão digo apenas que jamais desprezei a profissão de qualquer pessoa, mas nunca me dobrei à falsidade, já que muitos não se dão aquilo me que dou, a mão à palmatória, afinal entendia que poderiam sentir repugnância pelo que eu era; um safado alcaguete. E quando você se torna um dedo duro profissional perde um pouco do amor próprio e somatiza para si a antipatia da maioria das pessoas, pois qual de nós gostaria de ter sua privacidade vasculhada?
Bem, gostassem ou não era essa a minha profissão, e se detetive sou a culpa cabe a mim, pois sempre viverá em minha memória os meus tempos de juventude e os insistentes apelos dos meus velhos; “Filho, estude! - Eles rogavam. Entretanto jamais dei ouvidos a eles, e eles queriam apenas que eu fosse um bom advogado. E talvez essa urgência fosse a do meu pai, hoje um humilde octogenário aposentado. Certamente ele pretendeu realizar em mim aquilo que não conseguiu ao cursar até o 2° do Direito, abandonando os estudos para sustentar irmãos em fase escolar e a mãe que acabara de enviuvar, isso quando era noivo de mamãe. Lógico, tal qual ele no começo tentei saciar suas vontades ao concluir os dois primeiros semestres numa faculdade privada. E sobre ela recordo-me do correr daquele ano, e lá estando aos poucos fui percebendo que não era a minha intenção tornar-me um homem das leis, ser o justo da balança, pois as aptidões para um bom advogado jamais tive. E assim concluí ao notar que o que me prendia naqueles bancos eram aquelas garotas com sorrisos malandros e toda a viabilidade de algumas trepadas gratuitas.
Bem, e já que estou aqui num jogo da verdade e de confessar a mea-culpa é bom que eu seja mais íntegro e revele duas das principais verdades; A primeira é que à época o meu grande sonho foi o de ser motorista de caminhão. Claro, podem achar engraçado, mas eu me imaginava na boleia daqueles brutamontes como os Mercedes ou os FNM. E a segunda é que os dois semestres na faculdade trazem-me ótimas lembranças, notadamente as festas patrocinadas pelos filhinhos de papai que lá estudavam. Festas que sempre contavam com a presença das garotas do curso e outras levadas dos inferninhos que frequentavam. Festas celebradas em bairros nobres e em mansões de jardins suntuosos. E ali, entre brados da mocidade rolava whisky do bom, 25 anos, além de farta putaria. E uma coisa sempre levava a outra, então nos embebedávamos e semi desnudos nadávamos em suas piscinas de 10 por 15, para ao fim ser as mesmas sacanagens de sempre, inclusive algumas trepadas relâmpago que, sem qualquer cerimônia se expunham nos gramados, banheiros de empregados, ou, no melhor das hipóteses nos bancos traseiros dos carrões estacionados em suas garagens.
Porém este universo de devassidão não foi o bastante para segurar-me lá, e
eu, obrigado a trabalhar para manter os estudos, e o pior, ganhando pouco, acabei por me estressar e mandar tudo e a todos à puta que pariu. E ao abandonar a faculdade, jovem e inexperiente, houve a certeza que me livrara de toda futilidade, além do massacre psicológico que me era imposto por aqueles presunçosos professores.
Enfim, o que não faço é chorar o leite derramado, e eu exerço apenas a minha profissão, e com ela me defendendo de unhas e dentes, pois sempre haverá gente melhor em serviços piores que o meu. Bem, deixando as lembranças de lado aguardo por mais 40 minutos com os olhos grudados na janela do 3° andar sem que surja qualquer novidade. Eu estava cansado, as putas também pareciam exaustas, e as minhas pernas doíam e estavam num estágio de dormência, enquanto elas, coitadas, arrastavam seus saltos no asfalto, acenando ou correndo atrás de cada todo carro que passava. Não demorou muito, e elas acabaram por sentar-se numa mureta do terreno da esquina.
Pelo meu lado as pernas formigavam causando-me incômodo, portanto bati vigorosamente as solas dos sapatos na calçada, e tão logo as penas se sentiram donas de si próprias caminhei uns 30 metros até o boteco mais próximo. Entrando pude sentir o cheiro a coisa podre vindo pelo corredor, certamente do banheiro que nele se findava. Olhei bem para as dependências do boteco, e ali numa das três mesas existentes uma negra bebia algo de uma forte coloração ferrugem, talvez “Fogo Paulista” uma bebida rampeira e de absurdo teor alcoólico. Aliás, não só a negra bebia, mas também os dois sujeitos que e sentavam ao seu lado. Acomodei-me no balcão da frente sem descuidar-me da janela do apartamento, pois a visão dali era excelente.
Enfim, o que não faço é chorar o leite derramado, e eu exerço apenas a minha profissão, e com ela me defendendo de unhas e dentes, pois sempre haverá gente melhor em serviços piores que o meu. Bem, deixando as lembranças de lado aguardo por mais 40 minutos com os olhos grudados na janela do 3° andar sem que surja qualquer novidade. Eu estava cansado, as putas também pareciam exaustas, e as minhas pernas doíam e estavam num estágio de dormência, enquanto elas, coitadas, arrastavam seus saltos no asfalto, acenando ou correndo atrás de cada todo carro que passava. Não demorou muito, e elas acabaram por sentar-se numa mureta do terreno da esquina.
Pelo meu lado as pernas formigavam causando-me incômodo, portanto bati vigorosamente as solas dos sapatos na calçada, e tão logo as penas se sentiram donas de si próprias caminhei uns 30 metros até o boteco mais próximo. Entrando pude sentir o cheiro a coisa podre vindo pelo corredor, certamente do banheiro que nele se findava. Olhei bem para as dependências do boteco, e ali numa das três mesas existentes uma negra bebia algo de uma forte coloração ferrugem, talvez “Fogo Paulista” uma bebida rampeira e de absurdo teor alcoólico. Aliás, não só a negra bebia, mas também os dois sujeitos que e sentavam ao seu lado. Acomodei-me no balcão da frente sem descuidar-me da janela do apartamento, pois a visão dali era excelente.
Fiquei sambando os dedos no tampo do balcão imitativo dum o mármore italiano enquanto espantava o pouco que sobrara da dormência das pernas. Eu olhava para o sujeito atrás do balcão.
-Por favor meu chapa, quero um conhaque, e meia cerveja quente e
outra meia da gelada – Pedi - O dono do bar me olha de forma estranha. Firmo os olhos em sua figura e ele parece carregar nos
traços algo da herança portuguesa, fato que confirmo ao seu comentário
inoportuno.
-Ai Jesus! Será que é mais um gajo para encher o rabo de
pinga e me torrar as paciências? – Ele reclamou justificando a sua
preocupação apontando o indicador para a crioula e para os dois sujeitos, assim como me dissesse: "Olhe a merda aí". Evidente, mesmo que bêbada a mulher se ligava nas atitudes do português, e claramente se sentiu ofendida.
-Porra! Do que você tá falando portuga? Por acaso num to pagando a despesa? – Retruca aborrecida e escandalosa. E o seu protesto foi o suficiente para um dos sujeitos também se sentir golpeado.
-Isso mesmo, Lustosa! A dama está pagando a conta, e a sua obrigação é
servir a gente, e não ficar aí com esse papo furado! Um deles devolve. Foi o necessário para que o outro companheiro de copo criasse coragem e também se manifestasse:
-É isso mesmo, Lutosa! Está tudo lá no Código do Consumidor! – Apelou o segundo, inclusive o que estava em piores condições. que me obrigou a apurar os ouvidos para entender as suas falas embaralhadas.
-É isso mesmo, Lutosa! Está tudo lá no Código do Consumidor! – Apelou o segundo, inclusive o que estava em piores condições. que me obrigou a apurar os ouvidos para entender as suas falas embaralhadas.
A fala enrolada do sujeito me obrigou a apurar ou ouvidos. Pensei por segundos sobre a veemência bêbada e me questionei; Será que o ouvi direito? Foi mesmo o Código de Defesa do Consumidor que o bebum alardeou? – Puta que pariu! Era, não havia dúvida, pois mesmo com a dificuldade fora exatamente o que ele dissera.
-Código do consumidor é a puta que te pariu! - Vociferou o português. Ele estava irado, pois senti no timbre da sua voz.
Fiquei olhando para a cena e tive vontade de gargalhar; o bebum só podia estar doido, ainda mais ao enfrentar aquele português, nada mais e nada menos que fera de seus 120 quilos distribuídos em provável metro e oitenta e cinco de estatura – Entretanto eu nada tinha com aquilo, e assim segurei a minha onda. Todavia, o portuga que de bobo nada tinha, afinal, e aliado à sua experiente de balcão sabia e muito bem dos levantes e das malandragens dos bêbados, e tanto que sumiu das minhas vistas ao procurar algo debaixo do balcão.
-Código do consumidor é a puta que te pariu! - Vociferou o português. Ele estava irado, pois senti no timbre da sua voz.
Fiquei olhando para a cena e tive vontade de gargalhar; o bebum só podia estar doido, ainda mais ao enfrentar aquele português, nada mais e nada menos que fera de seus 120 quilos distribuídos em provável metro e oitenta e cinco de estatura – Entretanto eu nada tinha com aquilo, e assim segurei a minha onda. Todavia, o portuga que de bobo nada tinha, afinal, e aliado à sua experiente de balcão sabia e muito bem dos levantes e das malandragens dos bêbados, e tanto que sumiu das minhas vistas ao procurar algo debaixo do balcão.
-Ó aqui o bebunzada do carálios! Vocês vão querer
encarar? – Berrou para eles surgindo com um daqueles cassetetes de borracha maciça,
provavelmente auferido da Guarda Municipal, afinal, esses malacos arrumam tudo e por todos os preço.
Os bebuns, assustados olharam para ele e nada mais protestaram. Também
olhei e achei a sua ameaça física algo desproporcional, mas nada comentei, pois a minha vida já era demasiadamente problemática para
arrumar novas aporrinhações. Com as bebidas servidas matei o conhaque numa
tragada só. Depois o homem abriu ambas as cervejas e eu intercalava os goles
entre a quente e a fria. Na extensão do balcão outras três ou quatro pessoas tragavam suas bebidas e me olhavam
curiosos. Eu sabia que o meu jeito de beber chamava a atenção das pessoas, já que era um estranho ritual aquele que eu praticava. Óbvio, e isso não era ferramenta do meu
ofício, pois o que menos um detetive necessita é que prestem atenção em sua estampa. Não, não foi essa a minha intenção, contrário, pois seria eu a me ater deveria aos mínimos detalhes de um flagrante, e nisso podia garantir, era bom e nada escapava aos meus olhos de lince.
Logo, fiquei por ali terminando as minha as bebidas enquanto ouvia as conversas fiadas daqueles três bebuns. E lá vinham eles, o que parecia estar em situação melhor:
-Hei, sabiam que noutro dia fui no enterro dum amigo meu? - Ele pergunta para a negra e o outro, e eles olham perplexo para ele. E o bêbado continua: - Sim, fui eu e um amigo meu, bebum também.Aliás, éramos todos bebuns, até o morto era, e eu nem sabia que ele tinha morrido, e assim que chegamos lá, olhei pra ele no
caixão, e a mulher dele chorava muito. Perguntei para ela de que ele tinha morrido e a
mulher dele apenas chorava, chorava, e aí respondeu “ Olha moço, ele morreu como um passarinho” - A crioula e o amigo ouviam a narrativa espantados, até que ela, curiosa, perguntou num atropelo de palavras - "Como assim; o seu amigo morreu como passarinho? – Sim, definitivamente a negra mergulhara de cabeça naquela louca história de velório, tanto que deixou escapar da mesa o cotovelo direito que lhe sustentava o rosto. O narrador da história cinematograficamente exprimia um ar condoído quando lhe respondeu: - Bem, nem eu e nem meu amigo entendemos muito bem aquela história de se morrer como passarinho, portanto ficamos por lá olhando pro defunto até que surgiu do nada um outro amigo nosso, bebum também, e nos reconhecendo perguntou para o amigo que estava ao meu lado:
“Sebastião, que coisa, que notícia horrível! Por acaso você sabe de que morreu o Odorico?” – Bem, como a pergunta não foi feita para mim achei melhor ficar quietinho, e meu amigo ficou lá matutando o que responder para o outro, até que se saiu com algo que lhe pareceu lógico; "Morreu duma estilingada!" – Sim! acreditem amigos, foi isso mesmo o que ele respondeu. – A negra o olhava perplexa, o outro também, foi então que o narrador da história caiu na mais profunda gargalhada. E assim eles perceberam que estavam sendo sacaneados
-Duma estilingada é, seu filho da puta? Duma estilingada vai
morrer tu, tá saben.... – A negra foi interrompida por um grave barulho de algo que se chocava contra uma superfície lisa.
-Cês vão encarar? - Era o portuga ressurgindo com o cassetete em punho.
-Cês vão encarar? - Era o portuga ressurgindo com o cassetete em punho.
Foi o suficiente para os três voltarem para as suas bebidas, e em silêncio. Depois olharam uns para os outros, e seus olhares eram tão marotos que não impossível conterem o riso, risos que logo após se transformaram em gargalhada, e para desespero do português:.
-Ai carálios, acho que devo merecer! – Reclamou devolvendo o cassetete para o lugar de origem.
Eu ri, discretamente, era uma piada manjada, de bêbado, mas foi engraçado a naturalidade de ver uma piada de bêbado ser contada para outros bêbados. Peço mais uma cerveja e percebo as luzes da janela do terceiro andar se acenderem. Pouco adiantou a safada ter saído de casa com sua naturalidade morena e seus cabelos acastanhados, ter trocado de carro no estacionamento, e agora estar loira e fodendo com um zé mané num prédio de apartamentos de classe média baixa, e que nem elevador possuía. Eu não era aquilo que poderiam rotular dum Zé Arruela qualquer, e ela que fosse enganar outros otários, mas não eu, portanto corro para o prédio e subo os degraus pulando-os de dois em dois, e me escondo atrás de uma das pequenas coluna que dividiam todos os oito apartamentos de cada andar andar. Permaneci atento, e um pouco mais ouço vozes que brincam com a outra, e barulhos de saltos de sapatos que descem do pavimento superior. Uau! Foi então que a pude ver direito, carne e osso, aliás, pecaminosamente mais carne que osso. Pessoalmente o deslumbramento loiro da mulher resplandeceu mesmo que falsificado, porém o fato de estar tingida parecia deixar suas pernas mais apetitosas, ainda mais na posse daquele rabo que faria qualquer demônio gemer. Sem que me vissem, e antes que alcançassem o primeiro pavimento eu registrei o fato na minha ótima Polaroid comprada numa feira de segunda mão, isso no ano de 1975.
Eu ri, discretamente, era uma piada manjada, de bêbado, mas foi engraçado a naturalidade de ver uma piada de bêbado ser contada para outros bêbados. Peço mais uma cerveja e percebo as luzes da janela do terceiro andar se acenderem. Pouco adiantou a safada ter saído de casa com sua naturalidade morena e seus cabelos acastanhados, ter trocado de carro no estacionamento, e agora estar loira e fodendo com um zé mané num prédio de apartamentos de classe média baixa, e que nem elevador possuía. Eu não era aquilo que poderiam rotular dum Zé Arruela qualquer, e ela que fosse enganar outros otários, mas não eu, portanto corro para o prédio e subo os degraus pulando-os de dois em dois, e me escondo atrás de uma das pequenas coluna que dividiam todos os oito apartamentos de cada andar andar. Permaneci atento, e um pouco mais ouço vozes que brincam com a outra, e barulhos de saltos de sapatos que descem do pavimento superior. Uau! Foi então que a pude ver direito, carne e osso, aliás, pecaminosamente mais carne que osso. Pessoalmente o deslumbramento loiro da mulher resplandeceu mesmo que falsificado, porém o fato de estar tingida parecia deixar suas pernas mais apetitosas, ainda mais na posse daquele rabo que faria qualquer demônio gemer. Sem que me vissem, e antes que alcançassem o primeiro pavimento eu registrei o fato na minha ótima Polaroid comprada numa feira de segunda mão, isso no ano de 1975.
Assim que saíram pelo andar térreo desci e rumei diretamente para o bar. Já estava postado na porta do boteco quando os vi se separarem com um beijo e eles se dividiram e ela rumou para o seu automóvel estacionado um pouco
mais adiante do cruzamento. Postada à frente dele a mulher abriu a porta e fez menção de entrar, no entanto não
entrou. Em seguida fechou a porta, acionou o alarme e atravessou a rua vindo na direção do bar. Por questões da segurança do caso dei as costas para a rua, pois o que mais preza no verdadeiro detetive
é o seu rosto jamais ser conhecido pelo objeto da investigação, já que obrigatoriamente ela
teria que passar por mim. Repentinamente uma fragrância de um suave perfume
feminino ganha o espaço em que estava, e sinto alguém tocar os meus ombros.
Olho e lá está ela; a mágica loira dona do rabo descomunal
- Porfírio, que porra de detetive é você? - Ela me ri zombeteira
Eu nada disse. Os bêbados nos olham assustados, o portuga
cola os cotovelos no tampo do balcão, e todos prestam atenção em nós. Não havia qualquer saída, e ela me fez sentir constrangido. Novamente os seus olhos faiscavam como os curtos circuitos que incendiam residências e
estabelecimentos comerciais. Ela continua me olhando, e então joga os seus cabelos para trás e seus lábios carnudos e tingidos num batom grená se abrem devoradores:
-Porfírio, toma lá. É isso é para você! Ah...e mande um beijo para a Aurélia!
– Diz numa expressão de quem sabe das coisas do mundo.
Um beijo para Aurélia? - Pergunto-me incrédulo. Caracoles! Eu
estava amasiado com Aurélia há menos de três dias! Como ela poderia ter sabido?
Bem...depois abriu a sua bolsa de couro de crocodilo
australiano e dentro dela retirou 8.000 pratas, as quais colocou em minhas mãos. Aliás, o valor que ela me dava correspondia à quase duas vezes e meia o preço que o seu marido me contratara.
-Entendeu tudo mesmo, Senhor Porfírio? – Questionou num induzido sorriso biscate –
E agora ouça-me com atenção – Ela continuou ao chamar-me mais próximo. Então sussurrou para que os curiosos da mesa não a ouvissem;
-Agora nós vamos inverter o jogo e o meu marido será a caça, e você o seu caçador. Há
coisas importantes que quero que descubra sobre ele, e te aviso; essas coisas valem uma boa grana. Portanto senhor Porfírio, considere-se contratado, já que jamais levantaria suspeita. -
Finalizou
-Sim, entendi tudo e muito bem minha senhora! Conte comigo, um criado ao seu dispor– Respondi da mesma forma que Humprey Bogart faria, algo no estilo e olhares dos anos 50, truque que sempre causou algum efeito.
-Ah...E por favor, a Polaroid de 1975 agora é minha e fica comigo. Ah, claro, as fotos também,
pois estão inclusas no preço – Disse-me ao retirar a mochila das minhas costas,
lugar onde eu guardava a máquina Porém ela ainda não tinha terminado - E
outra coisa Porfírio...Pare de me olhar desse jeito, já que não há nada mais cafona que este seu olhar! Modernize-se, homem! Há tantos caras interessantes por aí, Tarantino, Brad Pitt, Banderas,
Pacino, De Niro, pô! Mas..Humprey Bogart não, pelo amor de Deus! – Disse-me num tom de gozação. Caracas! Aquela mulher
devia ter parte com o diabo - Imaginei.
-E agora...finalizando... Aguarde minhas instruções, pois em hora apropriada farei contato
com você - Sentenciou num sorriso que não mostrava a perfeição dos seus dentes. Em seguida me
passou seu cartão de visita e lá constava o celular.
Poxa, nada mal! Eu acabara de arrumar uma nova patroa, e se os espiões mais competentes desse planeta f fizeram jogo
duplo, triplo, quádruplo, por que um mero detetive não faria? Olhamo-nos por mais alguns instantes, e ela chamou-me mais
intimamente ainda como se quisesse dizer-me algo no ouvido. Talvez o meu olhar de
Humprey Bogart estivesse surtindo efeitos retardados.
-Porfírio, sinceramente, o melhor para você teria sido o motorista de caminhão, pois seria um péssimo advogado tanto quanto o sofrível detetive que é. O diabo é que tu está acima de qualquer suspeita, logo, você é imprescindível –
Como? Motorista de caminhão? - Por Jesus Cristo! - Sim, foi o que ela falou. Definitivamente, aquela mulher só podia ser coisa do mal, pois jamais confessei a alguém que meu sonho foi o de estar na boleia dum colossal FNM.
Bem, ela falava e a sua
voz soava como veludo, e após escancarar a minha fantasia sorriu dum jeito ordinário, desses de quem sabe que está com dois pássaros voadores na mão.
Copirraiti16Dez2013
Véio China©
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Olhos de Vidro.
Eu tive tudo para ser feliz, aliás, em termos até que fui, entretanto, não mais estou aqui. Lembro-me daquele tempo e do apartamento, e de que nele havia um grande quarto, e na
sala o conforto dum desgastado sofá de couro, e atrás dele uma ensolarada janela de vidros
largos, onde em alguns dias do mês eu aproveitava os raios e banhava os meus pelos. O edifício em que morávamos deveria ter, talvez, uns 30 anos de vida, e dentro daquele dormitório com as pinturas descascadas jamais me foi dado o castigo da solidão, pois ao meu lado tinha amigos como o Pateta e o manso Leão da Montanha, personas inseparáveis e que sempre me foram gratas. Provavelmente estejam pensando a confusão que deveria existir entre
tão distintas figuras, porém garanto; jamais ocorreram problemas de ordem física entre o Leão e eu, assim como nunca me favoreci das garras afiadas, mesmo que plásticas, para cravá-las nos fundilhos das calças do risonho Pateta, mesmo que eu o estivesse incomodando. Assim posto, é verdadeiro o quanto vivianos pacificamente e numa camaradagem respeitosa, e acima de tudo, engraçada. Contudo é bom frisar que não estávamos ali gratuitamente, arrematados que fôramos numa loja de brinquedos usados, ali na rua 25 de Março, em pleno pulmão de São
Paulo.
E hoje, passados pouco mais de 10 anos ainda se mantém em meu espírito a lembrança do dia
que aquele senhor de óculos escuros nos comprou. Talvez à época ele já estivesse beirando a casa dos 50, e ele entrou na loja e nos viu sentados numa empoeirada prateleira de uma das vitrinas internas.
- Garota, quanto estão pedindo por esse botafoguense? – Ele perguntou
para a vendedora apontando o dedo para mim.
Talvez não se apercebera, mas eu era um Urso Panda, e não um jogador de futebol, e só um tempo mais tarde é que fui a saber que o termo "botafoguense" motivou-se na alva estrela solitária que trazia estampada no meio do meu .peito.
-Este urso está saindo por 20 reais, meu senhor! – Foi a gentil resposta da moça.
-Que merda! 20 reais por um bicho de pelúcia amorfanhado e
de segunda-mão? – Grosseiramente o sujeito devolveu. Ela o olhou surpresa, pois algo dizia que poderia estar à frente dum legítimo chato de galochas.
Os seus maus modos e o achincalhe com a minha aparência contribuíram para me deixar pensativo, pois não há nada pior
para um urso de pelos mofados saber por boca de outra pessoa que se está a caminho do velho e
amorfanhado. Olhei para o sujeito com certa revolta, e meu senso de auto-preservação passou a estudá-lo, minucioso, linha por linha do seu corpo; Estava lá e era evidente o enrugamento da pele, alguns pés de galinha, os cabelos em franco processo grisalho, além da baixa estatura e um indisfarçável grau de obesidade. Claro, a inspeção me confortou, pois seria do meu direito e faria justiça se lhe devolvesse, não os mesmos, mas predicados piores. No entanto sabia que seria perda de tempo, afinal, os ursos
de pelúcias não falam, apenas pensam. Em seguida ele olhou para outros bichos de pelúcia que me ladeavam, e meneou negativamente a cabeça. Os seus passos iam e vinham, ansiosos; talvez ainda não tivesse achado aquilo procurava.
-Ah! E esse Leão? E o Pateta. Qual é o preço? – Perguntou lacônico ao notá-los na prateleira abaixo.
Antes de responder a moça ainda tentou cativá-lo:
-Por favor senhor, poderia me dizer seu nome? – Óbvio, a
sua intenção era de quebrar o gelo, suavizar as riscas daquela testa franzida.
O sujeito a olhou de baixo à cima, e sisudamente respondeu.
-Mocinha, não estou aqui para que saiba o meu nome, mas apenas para
comprar essa coisa! – Protestou numa tonalidade moderada batendo a ponta do indicador no vidro, e em minha direção.
Definitivamente olhei para o homem, e ele
não me parecia uma dessas pessoas que envelhecem à bordo das frases compreensíveis ou gentis. Diante da sua rudeza a moça apenas desviou-se do seu olhar furtando o sorriso que instantes antes impregnava os seus lábios. Assim, deu-lhe apenas a ciência dos valores:
-O leão está por 25 reais, e o Pateta, 30. – Ele ouviu calado e
persistiu com o olhar no par de pelúcias. Após alguma avaliação cravou os olhos em
mim e decidiu:
-Levarei os três.
Sim! Não havia como negar, o fato de ter nos comprado me
feriu em particular, pois me senti discriminado, já que não coube ao Leão e o Pateta qualquer fator de depreciação, inclusive nenhuma pechincha no preço. Refleti sobre aquilo por instantes e percebi algo novo em minha natureza; a vaidade.Talvez
Freud explicasse, o que não impediu que durante algum tempo eu sentisse um
certo grau de inferioridade com referência a eles, entretanto, pouco mais tarde o fato foi esquecido. Mas, retomando o momento da compra recordo que o homem pegou a sua nota de compra, e
dirigindo-se ao caixa quitou os 85 reais por três vidas de pelúcia. A
vendedora ainda pareceu preocupada quando o sujeito disse que gostaria de dar uma palavra
com o gerente. Receosa ela apontou para o fundo da loja onde um
senhor de aparência severa conferia algumas mercadorias. Lembro também de ter ouvido o
lamento da vendedora ao confidenciar para a colega de serviço tão logo o homem ter se distanciado:
-Poxa vida, Antonieta, hoje não é mesmo o meu dia de sorte. Fiz tudo para atendê-lo com delicadeza, e lá está o homem falando com o chefe. Certamente deve estar se queixando do meu atendimento. – Balbuciou para a outra num tom de desânimo.
Evidente, talvez estivesse certa, pois ela olhava para eles
e percebia que o sujeito gesticulava ostensivamente para o seu superior. Depois, e
ainda com os mesmos olhos ansiosos viu o cliente retornar e passar por ela meneando discretamente a cabeça. Assim, e com os passos apressados foi que o homem saiu
da loja levando numa grande sacola plástica todos nós, seus futuros amigos do nada. E tão logo desapareceu pela porta o gerente chamou a funcionária, e ela foi ter com ele esperando o pior, talvez a demissão.
-Marta, o senhor que acabou de sair veio falar sobre você, e disse que ficou satisfeito com o seu atendimento. Parabéns, continue assim! – Disse a ela num tom de comemoração. A garota abriu um sorriso de surpresa e feliz voltou para a sua função.
Foi ali naquele momento que reparei também que o sujeito surfava a vida nos mares dos enfrentamentos e contradições. E esta era a sua marca, nada mais que linha mestra do seu perfil, pois há anos convivi com ele, e assim sempre foi, e assim sempre seria assim.
Agora, deixemos o passado atrás das velhas linhas do horizonte e passemos a falar das contemporaneidades que vivenciei ao lado dele. E começando vou
contar-lhes algo que ainda não sabem; O meu verdadeiro nome foi dado por ele - “Doutor Panda” - E assim me batizou por sempre me carregar pelos braços e levar-me ao seu quarto afim que eu
escutasse as suas histórias. Por motivos que jamais poderia elucidar, ele se apegou a mim, deixando de lado os meus amigos. Talvez fosse carência, essa carência dependente de atenções, essa que faz algumas pessoas, principalmente as solitárias, a agarrarem-se a algo. Portanto será comum vermos muitas dessas pessoas tratando os seus cães, gatos, e outros animais menos domesticáveis como se fossem membros do seu clã. Não que a comparação me seja pertinente,
mas o meu dono houve por bem eleger-me como o seu bichinho de estimação, afinal, eu era o seu bom psicanalista, o analista que ele precisa, um urso de pelúcia isento de voz, mas com um bom par de peludas orelhas para escutá-lo.
Ele estava muito dependente de mim quanto tivemos a nossa última conversa, aliás, a mais
importante delas. E por ironia ela ocorreu numa noite onde me foi concedido e retirado o dom da vida. Ah vida...e por falar nela sempre a vida se reverenciará às pinceladas do tempo, para alguns, muito longa, para outros, essencialmente breve. Sim, não a concebo assim como vocês; carne, pele, ossos e deslocamentos, já que a vida nada mais é que movimento e decisão. E decisão foi o que esteve presentes naquela noite em que chegou chapado
de bebida e pegou-me pelo braço e fomos para o seu quarto. Ali, deitou-se colocando-me sentado em sua barriga. Ele estava muito mal, nunca o vi tão devastado.
-Porra! Por que você não fala comigo, Doutor Panda? Estava irritado
e se embaralhava com as palavras.
Óbvio, no momento eu entraria numa fria ao reafirmar, e talvez
pela centésima vez que, ursos de pelúcias jamais falam, mas, apenas pensam.
Portanto fiquei olhando para ele, assim como também fizeram o da Montanha e o
Pateta, ambos sentados à estante bem defronte da sua cama.
-Porque você está me olhando com essa cara de idiota? –
Inquiriu ao olhar para a mobília e dar de cara com o amigo do Mickey.
Pateta persistiu com aquela sua cara de bobo e divertido.
Depois olhou para mim com os olhares que só os brinquedos entendem, pois mesmo
a resignação em seu olhar não evitava que eu captasse a bondade em sua alma,
apesar de vocês jamais suporem que bichos de pelúcia possam levar uma. Sem
respostas e ainda irritado, tirou-me de sua barriga, e colocando-me de lado
levantou-se. De pé a sua coordenação era quase nula, mas mesmo assim pousou os
olhos no Leão da Montanha e fez algumas micagens para ele. A relação desses dois
sempre foi estranha, assim, como se um não confiasse no outro. Então para
finalizar o show apenas rodopiou o corpo ébrio e obeso para o lado direito na
direção onde estava o Leão, e exclamou:
-Saída pela esquerda! –
O tombo foi inevitável, e foi muito engraçado ver o velhote
perder o equilíbrio e estatelar-se ao chão, arremessando o par de lentes escuras
para debaixo da estante. Constrangido pelo tombo a lamúria foi inevitável:
-Que merda! Esse leão não serve pra porra nenhuma -Após, e
com algum esforço levantou-se apoiando a mão direita na estante.
Lá da cama fiquei olhando para ele, e sinceramente nem sempre
foi assim. Porém, com o passar dos anos algo foi se quebrando dentro dele,
talvez a esperança, ou mesmo, o encanto. Recordo que logo que viemos morar aqui
era comum ver algumas garotas zanzando pela casa. Muitas vezes eu as ouvi insistes,
dedo na campainha, querendo ter com o escritor. Sim, não também não lhes
contei; Ele era um escritor, autor de quase nenhum sucesso, é verdade, um
desses sujeitos que escrevem sobre histórias sórdidas, coisas dos subterrâneos existenciais,
e lido, principalmente, por alguns garotos desajustados, geralmente,
universitários. Entretanto, por vezes a sua escrita tentava ser divertida, sarcástica,
e isso chamava a atenção das pessoas, principalmente das garotas que o
imaginavam um Che Guevara das letras. Todavia, muitas vieram e transitaram por
sua vida, porém, nenhuma ficou. E foi no intervalo dessas carências que ele se
apegou a mim. Talvez porque eu fosse o único a olhá-lo de forma única,
penetrante, como se eu pudesse ler as entrelinhas dos seus pensamentos. Foi
exatamente naquela noite de muito álcool que insistiu o seu olhar nos meus
olhos de vidro:
-Seu filho da puta, ainda espero a tua resposta – E eu não
pude fazer a não ser saber das suas angústias.
Depois de algum tempo, desistiu de mim e foi para a cozinha
e voltou com um enorme copo de vodca.
Evidente, e o que já não estava bom, tinha tudo para piorar
miseravelmente. Por meu lado, fazia de tudo para conter o riso, pois mesmo que
não me ouvisse rir, a minha consciência me incriminaria, pois os bêbados não merecem
zombarias, mas, comiseração.
E esse eu risse, certamente o meu riso estaria concentrado nos
contrastes de suas pernas, onde algumas veias em alto relevo e duma coloração
azul esmaecida lembravam as rotas de assalto entre o México e a terra do Tio
Sam. Porém o mais engraçado não ficava por conta das pernas azuladas e
flácidas, mas sim objetivava a sua cueca samba-canção verde-limão com bolinhas
vermelhas. Aliás, ele tinha outras cuecas divertidas, como uma num tom
azul-bebê com triângulos alaranjados, e outra num vermelho vivo, onde
sobressaiam algumas nuvens brancas e um abrasador sol num tom amarelado. Todavia ele não abria mão das suas campeãs, e elas me divertiam a valer; uma, estampava
o rosto e os seios de Brigitte Bardot. Para quem não sabe, ela era francesa,
deusa nas telas dos cinemas nos anos 60. E a outra? Bem, a outra era ridícula,
pois em azul pavão levava na frente a gravura dum peru, onde acima líamos “Glu
Glu Glu”
Enfim...para mim sempre foi normal aquele festival de aberrações,
portanto olhei-o ao chegar no quarto com o copo de bebida na mão. Ele sorveu um
longo gole, descansou o copo na mesinha de cabeceira e novamente ele se deitou
e me colocou em sua barriga. Definitivamente, naquela noite algo o
incomodava terrivelmente:
-Vamos, Doutor Panda! Não desista de mim. Aqui estamos apenas
eu e você, e talvez por ser inexperiente não saiba que na vida tudo é possível.
A vida é repleta de mentiras, verdades. Há o feio e o bonito, sem esquecermos a
água e o fogo. Mas...será que posso ser sincero com você? – Ele inquiriu.
Olhei pare ele, e dessa vez o sentia conflitante. Não era
apenas o seu estado alcoólico, pois com aquele eu estava acostumado. Eu o
percebia oposto a ele mesmo, assim como se no seu olhar nada existisse, como se
a esperança estivesse a nado e contrária a correnteza. E as minhas impressões se
confirmaram diante da sua quase súplica:
-Vamos Doutor Panda. Diga para mim por onde anda essa tal
felicidade? Por acaso ela gosta de nos pregar peças? Será que ela se sente
menos infeliz ao esconder-se de nós? – Ele insistia.
Sua aparência estava péssima,
e ele transpirava muito, e a melancolia era tanta que, se o escritor não
houvesse morrido há séculos seria capaz de jurar que estava diante do próprio
Shakespeare.
Bem, tanto quanto o “Ser ou não Ser” aquela questão sobre a
felicidade me era difícil, pois para mim ela se resumia pouca, pois aprendi a
me contentar com quase nada, com coisas tolas, mas que significavam muito para
mim, assim como poder sentar ao sofá e jogar conversa fora com aqueles dois.
Não, minha conclusão não era queixa, mesmo que, pouco ou quase nada tivesse
aprendido com eles, mas levava a gratidão nos sorrisos límpidos do Pateta, desses
calmos, serenos, e que jamais verão o lado ruim das coisas, ou mesmo que, vendo,
jamais o admitirão. Quanto ao velho Leão da Montanha, era apenas zero, não havia
as garras e nem os rugidos, mas apenas a melancólica nostalgia, a saudades dos
tempos tenros, duma era que lhe foi dado a majestade, um cravar de garras e o
fincar dos dentes.
E pensando nesses fatos por alguns instantes fiquei
imaginando que talvez ocorria ao velho algo muito próximo da sina do Leão.
Porém sempre é bom dividir responsabilidades, e também era necessário que meu
dono assumisse as suas culpas, já que existiram boas mulheres na sua
trajetória. Obviamente não estou me referindo aquelas garotas que chegavam
chapadas de maconha ou bebidas, e que estavam ali simplesmente para serem
fodidas por um escritor “underground”. Assim como também não levo em conta as
cosias que inflavam o seu ego, suas alegrias transitórias ao se postar ao lado
duma bela garota que lhe fizesse carinho na barba ou mordiscasse suas orelhas.
Não, não são essas as referências; Falo do amor, dos sentimentos, assim como
lhe foi doado por uma dona, talvez uns quinze anos mais jovem, e que esteve
tantas vezes nesse quarto, num caso que durou pouco mais de seis meses.
Lembro-me do início e que, entusiasmado por ela os olhos se iluminavam ao simples
toque da campainha. Geralmente ela e o seu perfume de mulher vinham nas
sextas-feiras á noite, deixando um rastro de beleza e do cheiro bom. E eles
sorriam, pois se gostavam, e assim que ela chegava o velho pedia uma suculenta pizza
e uma garrafa do vinho do bom, ou mesmo, se não comessem em casa saiam abraçados
e na direção de algum restaurante próximo. Naquela época eu gostava do brilho
impregnado em eu olhar, e ele era feliz, principalmente ao fim da noite, quando
em lençóis limpos os gemidos e palavras de amor penetravam nos descascados das
paredes.
No entanto, com ele o bom jamais perdurou, e Silvia também não, e
tudo terminou numa noite que ela veio aqui e não o encontrou, pois ele tinha
ido à farmácia à procura de medicamentos para uma daquelas meninas. E Silvia,
encontrando a porta entreaberta ganhou a sala e deu de cara com três jovens alcoolizadas,
todas aparentando um quê de vulgaridade. Claro, eram as fãs do escritor que
surgiam do nada e nas horas mais impróprias, inclusive testemunhei ocasiões em
que elas apareciam por lá e levavam bebidas para ele, algumas ofereciam-lhe drogas, mas esse lance
de entorpecentes jamais foi com ele, portanto as coloca para correr quando o lance
redundava em maconha ou em papelote da cocaína. Entretanto, Silvia, jamais
imaginaria tais fatos, e assim, instintivamente se dirigiu para o quarto, e ao se
deparar com a jovem esparramada na sua cama acabou por ter um acesso de fúria,
atirando ao chão os enfeites da estante. Sim, os meus amigos a olharam-na
assustados, e sabiam tanto quanto eu que não houve qualquer traição do velho
que, já que a garota e as amigas chegaram em estado de embriaguez, e ele foi
até cuidadoso ao ceder o quarto e ir a farmácia. E foi assim que Silvia se foi,
bateu a porta e jamais voltou. Depois do abandono eu o vi sofrer e sofrer, mas
jamais a procurou para elucidar os fatos, pois o orgulho sempre foi o seu
defeito maior.
E eram esses os fatos que recordava quando fui interrompido
por sua voz pastosa. Dessa vez havia ódio em suas palavras:
-Foi essa merda que você pensou aí Doutor Panda! Não houve
culpa minha, mas sim daquela desnaturada. Eu apenas tinha ido à farmácia... E
agora é com você, já que isso te diz respeito; Orgulhoso é a puta que pariu! Ta?
Fitei- o com os olhos do inacreditável! Seria possível que
estivesse acontecendo aquilo? Por acaso
ele estaria me ouvindo?
-Ouço sim, seu porra! E você pensa num tom exageradamente
elevado, em alta frequência de pensamentos – Resmungou tão embolado que tive
que me esforçar para compreender o fim da frase.
Deus do céu! Aquilo só poderia ser Delirium Tremens! Só não
sabia se dele ou meu.
-E outra seu urso ignorante! Aprenda! Ursos não deliram e
nem desenham nas aquarelas surreais.... Ursos, bem...ursos apenas hibernam! –
Devolveu com a fala amolecida Mesmo perplexo diante do fato fui obrigado a rir.
-Ursos apenas hibernam! – Eu repeti e ri comigo por diversas
vezes. Talvez eu tivesse rido alto demais.
-Que merda Doutor Panda! Quer interagir em baixa frequência! É isso, ou a estante! O que me diz? – Ameaçou
-Desculpe! Na próxima tentarei melhorar – respondi sem graça, afinal, eu não
queria ir para a estante.
-Vai melhorar uma porra, urso imbecil! – Ele berrou – Jamais
imaginei que você me olhasse com olhos tão críticos – Ele disse. Era estranho,
pois suas palavras agora eram de puro ódio.
-Desculpe, eu não pensei que.... – Não me deixou
terminar.
-Se arrependimento matasse, há essas horas eu estaria numa cova profunda – Deveria ter deixado vocês mofarem naquela maldita vitrina empoeirada. Mas não...eu tinha que ter compaixão...Ele ruminou chacoalhando os meus braços violentamente.
-Desculpe, desculpe, eu jamais imaginei que pudesse ler os
meus pensamentos.
-Leio sim, leio agora, e não somente os teus, mas também os daqueles dois idiotas que cochicham na estante por acharem que não posso escutá-los. EU ESTOU OUVINDO VOCÊS – Berrou. Olhei para ele e agora os seus
olhos me causavam pavor.
-Hey, não xinga meu amigo não! Não xinga a gente não! O imbecil é você! – Surpreendentemente
Pateta reagiu em nossa defesa., e mesmo que ele estivesse bravo, ninguém exporia a sua raiva de forma tão divertida.
-É, isso mesmo! Penso exatamente como o Pateta! Se há algum idiota aqui,
esse idiota é você! – Juntou-se a nós o Leão da Montanha - E quer mesmo saber seu escritor de meia pataca?
– O Leão continuava a desafiá-lo– Você é tão imbecil que nem conseguiu cair para o
lado certo quando disse: Saída pela esquerda! Aprenda seu ignorante; quando sair pela esquerda, jamais tombe para a direita! – Finalizou o montanhês com um sorriso vitorioso..
-Ah, é assim que me agradecem cambada de viados? Ao acaso é um lavante, é a revolução dos bichos de pelúcia? - Que medo! - Devolveu ao gargalhar zombeteiramente. Repentinamente sua expressão reassumiu o ódio.
- Todos verão do que o imbecil é capaz - Gritou atirando-me ao chão.
- Todos verão do que o imbecil é capaz - Gritou atirando-me ao chão.
Em seguida
ergueu-se, trôpego, se equilibrava nas pernas, mas mesmo assim ainda conseguiu desferir um chute nas minhas costas. Eu pude sentir a
dor. Depois, com a parte interna do pé direito empurrou-me para próximo da parede, e dirigiu-se à estante e recolheu os meus amigos com inequívoca rudeza. Por fim e com a dupla nos braços catou-me no canto, e num grande abraço acolheu-nos no peito e nos levou à janela.
-Então vejam o que esse imbecil é capaz de fazer! – Sua voz
soou como um estouro de canhão ao atirar-nos por através dela. Estávamos no 13o andar.
Nada mais poderia ser feito, e ao sentirmos no corpo o vento da noite percebemos
que seri o fim, caminho sem volta, rota da morte. E mesmo despencando sorríamos uns para os outros enquanto a brisa gélida acariciava as felpas dos nossos corpos, resvalando suavemente nos olhos de vidro. E foi diante dessa cumplicidade que nos demos as mãos, velhos companheiros unidos até o ato derradeiro e diante da insensibilidade do asfalto que nos aguardava. Seríamos destroçados pelas rodas dos automóveis, ônibus, caminhões? Não sabíamos, e só gostaríamos que tudo fosse tão rápido quanto as pernas de Usain Bolt, a bala humana.
-Saída pela esquerda! O Leão urrou e sorriu resignado.
E o Pateta, aquele que jamais deixou de sorrir persistiu gargalhando, provavelmente sem saber dos motivos, mas achando ótima a sensação do vento lhe tocando as faces.
E o Pateta, aquele que jamais deixou de sorrir persistiu gargalhando, provavelmente sem saber dos motivos, mas achando ótima a sensação do vento lhe tocando as faces.
As horas sempre se acometem rápidas, e a manhã logo chegaria, e ao acordar como se fosse dum pesadelo, o velho traria na boca o amargo sabor da bebida e solidão, e seríamos por ele procurados e ele nem se lembraria daquilo que fez e o porque fez, pois assassinamos a consciência não uma, mas muitas vezes, e a partir da segunda, todas nos parecem iguais.
Foi assim que tudo aconteceu, e mesmo morrendo ainda me houve tempo para sorrir e perdoar.
Era um ciclo que chegara ao fim.
Copirraiti27Nov2013
Véio China©
domingo, 17 de novembro de 2013
O velho e o Mar (By Véio China)
Os sentimentos do pescador, um verdadeiro lobo do mar, naquele dia se concentravam nas tormentas e no infinito das águas azuis, que faziam dançar o seu barco como se fosse dum papel pouco encorpado. Sim, fora avisado pela guarda costeira dos perigos, porém não deu atenção, pois perdidos dentro de si havia o cheiro das tripas dos peixe que, tal qual a natureza humana se misturavam em suas entranhas. Ele navegava solitário, já que e aprendera compactuar com as levezas dos mares calmos, assim como agora defendia-se das poderosas ondas que, bravias e sucessivas pareciam pretender partir ao meio o "Gladiator" seu velho barco de pesca.
Naquela tarde de mar revolto ninguém saíra para pescar, afinal, bom pescador é aquele que respeita o mar, pois sabe que as águas não aceitam desafios. E havia nele toda a compreensão para todos esses ensinamentos, porém, ele sorria. Sorria para o instante, sorria das suas peripécias e maestria ao desafiar o oceano que aguardava por um só por um dos seus deslizes para sepultá-lo de vez naquele cemitério de vagas. Mas também o fato não o impressionava, pois ele não estava ali para pescar, mas sim para morrer, já que lhe parecia romântica a ideia de ir-se tragado pelas águas, pois para ele seria como estar sendo velado no quintal de casa.
Claro, poderia ser tudo mais simples e mais rápido; a bala nos miolos tornaria tudo tão definitivo, mas, o pavor de causar algum transtornos para Helga, a sua boa vizinha de trailer, deixava-o incomodado. Ah Helga! Uma pessoa de coração imenso, e que, apesar da cegueira, ainda encontrava alegrias para viver. Sempre se perguntara por que Helga descobria os infindáveis motivos que permitissem sua batalha perdurar, mesmo que sozinha, aliás, não somente só, mas junto duma modesta pensão deixada pelo falecido marido ferroviário. Lembra de tudo que ocorreu há cinco anos; do rapaz que deu naquela praia dirigindo um trailer e o estacionou ao lado do seu. Lembra ainda que a mulher desceu pela porta tateando as paredes do veículo, e que depois de algum confabulo com o jovem motorista veio até si e pediu autorização para cravar vida ali. "Eu não sou dono da areia, dona! Nem do mar" - Respondeu a ela. Ela sorriu, sim, mesmo que estivesse com óculos escuros pode perceber o sorriso denunciado nos cantos dos lábios. E assim ele pediu para conhece-lo, e contornando seu rosto com as pontas dos dedos foi que travaram o primeiro conhecimento. E de lá para cá nasceram dois irmãos, e ele gostava de voltar do mar e dar a ela um b om peixe, e sentar-se na soleira do trailer para ouvir as boas histórias da velha Alemanha, país natal de Helga.
Fora isso não havia muitas lembranças, salvo a da visita do seu único filho e de quando se viram pela última vez, talvez há uns três anos e meio.
Foi num fim de tarde de domingo quando emborcava o último quarto da sua garrafa de vodca, e foi acordado pelas palavras ditas por alguém de rosto jovial:
“Oi pai, tudo bem com você?” – Assustou-se, e entre encantado e surpreso conseguiu apenas responder um “Tudo bem!”. Porém não houve nem tempo de apresentá-lo a Helga, e Dustin não ficou mais que 30 minutos e se foi tal qual como chegara; sem deixar qualquer endereço ou um número de telefone. Agora ele pensava naquilo; Talvez a culpa tenha sido sua. Talvez não tivesse demonstrado a necessária alegria em vê-lo, talvez a história teria sido diferente e ele tivesse ficado para jantar o melhor dos peixes que um pescador conseguisse preparar.
Então, praticamente com quase nada a se falarem foi que viu a silhueta do filho descer os degraus do trailer e se tornar apenas um ponto caminhante nas areias e desaparecer no horizonte ao fim daquela mesma tarde.
E fora assim naquele mesmo dia que ele decidira da um basta em tudo, portanto estava aqui. Era doído recordar-se da mãe de Dustin e de quanto era bonito o seu sorriso. Dilacerava reviver aquela noite que, voltando do mar não encontrou ninguém no trailer. Depois disso sua vida não buscou realizações, e ele se deixou levar por uns poucos amigos (alguns deles falecidos) e de algumas rameiras de beira de cais Por fim, recordou-se dos homens e da natureza humana e de quanto algumas dessas pessoas possuem o dom de desintegrar qualquer tentativa duma existência pacífica e feliz.
Vivia nesse conjunto de lembranças quando foi acordado pelo surgimento de raios que chicotearam o ar e um vento gélido o fez tremer nos ossos; Seria possível ver o que via? Sim! Não havia a menor dúvida, pois vinda do horizonte ele divisou a formação de uma descomunal onda, talvez a maior da sua vida.
Novamente sorriu, já que sabia que era a onda da sua vida. Repentinamente o céu se acalma e não há mais raios e nem os ventos da tormenta, mas apenas o vagalhão que se aproxima calmo e colossal, e vai ganhando corpo até formar um paredão como se fosse um edifício de alguns andares. E ela veio e “Gladiator” surfou na sua crista, porém o leme já não respondia a qualquer manobra dos seus braços. Evidente, quem seria ele pra enfrentar a imposição do oceano? Não, era pouco, quase nada, mas não se entregaria assim, sem qualquer luta, dignidade, pois o que pouco houvera em vida não ia lhe faltar na morte. E foi então que onda quebrou-se em cima e o barco despencou e desgovernado num mergulho que beirou ao desespero, foi à pique. Livrando-se do barco os seu braços tentaram se debater junto às outras ondas, agora menores, mas já não havia mais qualquer resistência no corpo exaurido, portanto, submergiu.
E o seu corpo afundava e o ar se rareava nos pulmões enquanto percebia a beleza em algumas das exóticas criaturas marinhas. Podia notar a beleza e o bailado dos peixes das tantas espécies, e de como tudo que estava sob a água se movimentava de forma exata e disciplinada. E a cada instante o corpo ganhava as profundezas, pois o soube ao golfar o último ar. No seu rosto insistia o sorriso sereno, e um desejo moribundo. Sim! Estava á porta da morte, e para um moribundo nada se nega, pois foi o que lhe ensinaram em sua existência.
Ainda restava alguma vida em seus olhos quando ela veio; linda, maravilhosa, seios fartos e mamilos generosos. Ao fim do estonteante corpo da criatura não se viam pés, mas a graciosa nadadeira que fazia aquele ser quase humano flutuar com a mesma leveza de um balão à gás. E então ele a admirou, e ela sorriu para ele e estendeu-lhe as mãos alvas e delicadas. Ele, encantado as pegou e ambos sorriam docilmente ao iniciaram o bailado do adeus. Sutilmente, percebendo que não mais havia ar em seus pulmões ternamente se desvencilhou das mãos sedosas e cerrou os olhos, colocou posicionou a mão direita junto ao coração e disse um adeus para Helga.
Ao tocarem o fundo do oceano havia nele um sorriso agradecido.
Era um belo e meigo sorriso preenchido de paz.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Amor...aí vou eu! (4000 km para um boi de cara sonsa)
Era uma dessas noites mormacentas do verão de fevereiro, essas que fazem o suor do rosto gotejar e o lenço ser mantido no bolso traseiro da calça. A noite tinha lá os seus encantos e eu estava com amigos numa mesa de bar, aliás, na última delas. As fortes luzes do lugar apinhado de gente elevavam a temperatura, inclusive a sensação de estar mais quente dentro que fora do bar. Eu e os camaradas continuávamos conversando e cercavam-nos meninos e meninas bonitas, jovens que pareciam estar de bem com a vida vestidos em perfumes importados e roupas de grife. Evidente, não era só, além das flagrâncias e visuais os acompanhavam os gestos espalhafatosos e vozes entusiasmadas, e eles alegravam o ambiente. Claro, o boteco nada tinha de espetacular ou sofisticado como esses que funcionam nas avenidas dos bairros mais nobres, porém em nada se assemelhava aos milhares de pés-de-porcos espalhados pela cidade. Gosto de falar sobre o bar, pois curiosamente ali é o lugar onde retroajo no tempo, algo assim que talvez lembre o filme “De Volta para o Futuro”. Geralmente essas viagens me fazem recordar uma época distante e de algum romantismo, é verdade, mas que também me devolve muitas durezas.
Porém, hoje, quando olho para as suas acomodações deduzo que tanto o estabelecimento quanto eu fomos mais simples, ou menos complexos, assim como eram os bêbados que ali entorpeciam suas almas de aguardente barato. Agora o local foi amplamente reformado nas alvenarias, e a fachada com tijolos aparentes e telhas coloniais emprestaram a casa um certo tom campestre, onde o atraente letreiro em neon vermelho e letras brancas pisca o nome do "Planeta Chico" num indiscutível estilo country.
Sim, são os novos tempos, logo, dispersando das cores do passado juntaram-se às inovações seis modernos freezers com portas de vidro, desses que são cedidos pelas cervejarias. Claro, a brutal concorrência entre essas companhias as obriga esmerar em produtos de alta tecnologia e qualidade, assim como no caso dos freezers, aparelhos com designer futurista, onde no topo notamos pequenos painéis de Led divulgando cada qual a sua marca. Certamente é um aparato visual dos mais interessantes, letras piscando, te chamando "Ei, estou aqui, esperando, sou sua deliciosa loira gelada" - E isso...bem, isso funciona.
Entretanto para o Chico foi pouco, e outras novidades foram incorporadas ao bar além das reformas e dum novo cozinheiro e suas mágicas introduções ao cardápio. Refiro-me a um enorme telão em LCD que, para nossa infelicidade (dos velhos amigos) porém para o delírio geral exibia clipes musicais da MPB assim como outros tantos do enfadonho circuito sertanejo universitário. Diga-se, tais exibições se tinham primordiais para o Chico e para o filho mais novo, já que o velho truque do "popular à qualquer custo" sempre trouxe ótimos dividendos.
E sobre o tal gênero musical é bom destacar que, no telão, as constantes presenças de Luan Santa, Michel Teló, Paula Fernandes e do tomateiro Leonardo, e outros sofríveis, somados a fatores ainda não declinados contribuíram para impregnar no local um ar pretensamente pop e casual, ingredientes insossos sim, mas que fizeram o bar decolar.
Porém, hoje, quando olho para as suas acomodações deduzo que tanto o estabelecimento quanto eu fomos mais simples, ou menos complexos, assim como eram os bêbados que ali entorpeciam suas almas de aguardente barato. Agora o local foi amplamente reformado nas alvenarias, e a fachada com tijolos aparentes e telhas coloniais emprestaram a casa um certo tom campestre, onde o atraente letreiro em neon vermelho e letras brancas pisca o nome do "Planeta Chico" num indiscutível estilo country.
Sim, são os novos tempos, logo, dispersando das cores do passado juntaram-se às inovações seis modernos freezers com portas de vidro, desses que são cedidos pelas cervejarias. Claro, a brutal concorrência entre essas companhias as obriga esmerar em produtos de alta tecnologia e qualidade, assim como no caso dos freezers, aparelhos com designer futurista, onde no topo notamos pequenos painéis de Led divulgando cada qual a sua marca. Certamente é um aparato visual dos mais interessantes, letras piscando, te chamando "Ei, estou aqui, esperando, sou sua deliciosa loira gelada" - E isso...bem, isso funciona.
Entretanto para o Chico foi pouco, e outras novidades foram incorporadas ao bar além das reformas e dum novo cozinheiro e suas mágicas introduções ao cardápio. Refiro-me a um enorme telão em LCD que, para nossa infelicidade (dos velhos amigos) porém para o delírio geral exibia clipes musicais da MPB assim como outros tantos do enfadonho circuito sertanejo universitário. Diga-se, tais exibições se tinham primordiais para o Chico e para o filho mais novo, já que o velho truque do "popular à qualquer custo" sempre trouxe ótimos dividendos.
E sobre o tal gênero musical é bom destacar que, no telão, as constantes presenças de Luan Santa, Michel Teló, Paula Fernandes e do tomateiro Leonardo, e outros sofríveis, somados a fatores ainda não declinados contribuíram para impregnar no local um ar pretensamente pop e casual, ingredientes insossos sim, mas que fizeram o bar decolar.
Porém nem tudo é, foi ou será surpresa no Chico. Bem, quero me referir a velha-guarda do lugar, indivíduos como nós de prazo de validade à míngua, cinquentões irrecuperáveis e desbotados dos ares da vanguarda recente. Nós os veteranos sempre fomos os preteridos, assim como no caso dos vídeos, pois se impostas as nossas certezas, deuses como o Zeppelin, Floyd, Purple teriam o lugar cativo nas lista dos mais vistos . Entrementes e mesmo que gostassem de nós sabíamos que nos tinham por um jogo de cartas vencido, sem votos, trolhas mofadas como a "Voz do Brasil", coisa que hoje ninguém sabe o que é ou pra que serve. Portanto minoria absoluta (cinco ou seis votos entre duzentos ou trezentos possíveis) cabia-nos apenas tamborilar na mesa os dedos descompassados nas vãs tentativas de acompanhar os ritmos dos sujeitos mencionados.
No entanto é bom que se diga; éramos tão autênticos quanto nossas barbas e rostos marcados pelas noites mal dormidas, o que por si só não permitia que minorar nossas importâncias, já que empunhávamos o brasão da remanescência, concedendo ao bar um certo resquício de tradição. Contudo e apesar das carteiras remidas jamais super valorizamos o legado que deixávamos, assim como não fechávamos os olhos para o processo de reciclagem com a qual a juventude nos brindava.
E o importante reporta-se à mútua camaradagem, o fato desses garotos interagirem conosco de jeito pródigo e respeitoso, mesmo que não abrindo mão de suas piadas ou gozações - “O tiozinho vai tirar água do joelho?” geralmente perguntavam quando me viam na fila do mictório, ou, - “Uauu tio! Cê tá gostosão hoje” – ao flagrarem-me bem trajado e no uso do inseparável cheiro do meu Paco Rabanne. Porém não poupavam-me em situações mais amargas onde a nostalgia acometida pelo vício etílico não me era impune - “Hey tiozinho, cê ta carentão hoje? Tu ta precisando é dum bom rabo, uma dona tudo de bom. Sacou cara?” - Eu ouvia seus conselhos e críticas, já que provavelmente não gostavam de me ver bebendo solitário e macambúzio, acariciando o rótulo da minha cerveja como se fosse o rosto de Catherine Deneuve. E eu apenas sorria e eles devolviam em dentes alvos numa cena que sacramentava a cumplicidade havida entre os bons companheiros, assim como no filme Goodfellas, do Scorsese.
No entanto é bom que se diga; éramos tão autênticos quanto nossas barbas e rostos marcados pelas noites mal dormidas, o que por si só não permitia que minorar nossas importâncias, já que empunhávamos o brasão da remanescência, concedendo ao bar um certo resquício de tradição. Contudo e apesar das carteiras remidas jamais super valorizamos o legado que deixávamos, assim como não fechávamos os olhos para o processo de reciclagem com a qual a juventude nos brindava.
E o importante reporta-se à mútua camaradagem, o fato desses garotos interagirem conosco de jeito pródigo e respeitoso, mesmo que não abrindo mão de suas piadas ou gozações - “O tiozinho vai tirar água do joelho?” geralmente perguntavam quando me viam na fila do mictório, ou, - “Uauu tio! Cê tá gostosão hoje” – ao flagrarem-me bem trajado e no uso do inseparável cheiro do meu Paco Rabanne. Porém não poupavam-me em situações mais amargas onde a nostalgia acometida pelo vício etílico não me era impune - “Hey tiozinho, cê ta carentão hoje? Tu ta precisando é dum bom rabo, uma dona tudo de bom. Sacou cara?” - Eu ouvia seus conselhos e críticas, já que provavelmente não gostavam de me ver bebendo solitário e macambúzio, acariciando o rótulo da minha cerveja como se fosse o rosto de Catherine Deneuve. E eu apenas sorria e eles devolviam em dentes alvos numa cena que sacramentava a cumplicidade havida entre os bons companheiros, assim como no filme Goodfellas, do Scorsese.
Também não me seria impróprio confessar que as garotas mais novas gostavam de interagir comigo, e vez ou outra, algumas delas ao me notarem sozinho e introspectivo traziam uma cerveja e sentavam em minha mesa para desabarem suas agruras. Quando não, trocávamos ideias e elas falavam de suas famílias, namorados, estudos, e sobre mais coisas do cotidiano. Enfim, não há exagero ao afirmar que sempre me foi fácil cativá-las, não porque me percebessem na pele de algum Don Juan tupiniquim, não, longe disso, mas talvez porque o meu jeito calado e observador induzisse-lhes algum tipo de proteção, ou que o a minha suposta experiência tivesse muito a lhes ensinar, não sei ao certo.
Todavia nada disso importava naquele momento, pois há duas horas eu e os três dinossauros estávamos na mesa de sempre, um local pouco distante das outras pessoas, gozando assim de um certo grau de
privacidade. E ali sentados consumíamos cervejas e cu-de-burro (suco de limão com sal) E as Serra Malte se denunciavam na fila indiana de vasilhames vazios que se acumulavam no canto da parede. Olhando os cascos perfilados, talvez alcançássemos a marca dos 22 ou 23, número que por si apontava que trafegávamos inexoravelmente na estrada da embriaguez, e ela se evidenciava nas vozes de tons altos, papos de temas imprecisos, alguns sem qualquer nexo, porém isentos de censura.
-Ô Fred, por que tu andas como essa cara de boi sonso? –
Claro, a pergunta tinha certa pertinência, afinal eu estava
apaixonado e com compromisso. Cecília era o nome da garota morena e de talvez uns 28 anos, pernas roliças e bem torneadas. Eu a
conhecera na internet, numa comunidade que versava sobre literatura, e onde percebi a sua sensibilidade não só para os livros, mas para com a vida. Dali revezamos mensagens, trocamos telefones e cá estávamos nós. Era bom ser atingido por aquele sentimento que nos deixa abobados, onde nada interessa, mas somente a mulher amada. E o amor pode chegar de repente, e você deixar de dar a mínima para o que acontece ao redor, e o mundo continua girando e você jamais nota, aliás. Sim, sei que pode estar pensando; Nossa! que papo bobo esse do mundo! Sim, talvez eu até concorde, porém faço uso do movimento de rotação para explanar o emblemático sentimento do amor, pois às vezes ele te pega e você não sabe. Todavia, antes mesmo
que lhe dê a resposta toca o meu celular. Atendo mesmo que diante do
bestial alarido dos frequentadores. Olho no visor o número que me chama, e para
evitar a dispersão coloco meus discretos fones de ouvido.
-Amor, cadê você? – Ela pergunta com a voz arrastada –
Também ouço vozes do outro lado da linha, e são vozes femininas, entretanto a
surpresa da ligação não me faz perguntar onde ou com quem estava.
-Oi amor! .Estou aqui no bar com os amigos, petiscando um
bom filé e tomando umas brejas – Respondo carinhosamente com a voz ébria. Os
amigos me encaram e entreolham entre si.
-Ih, não falei? Olha
o Fred outra vez com aquela cara de boi lambido – Insiste o Lélio. Estar
apaixonado tinha desses inconvenientes; todos percebem e querem tirar uma
lasca.
-Quero te ver agora! – Cecília ordena com voz semelhante à
de alguém que acabou de acordar. A tonalidade de sua voz é incerta e as frases persistem enroladas, porém, mesmo ébria ela fala dum jeito todo
especial, e aquilo me faz imaginar o esturro carinhoso duma onça para um parceiro que chegou com a caça nos dentes.
-Ah é? Então é pra já, vamos dar um jeito nisso – Exclamo.
Bem... vocês devem estar imaginando; o sujeito irá largar os
amigos e as bebidas, pegar o carro e sair voando para a casa da gata. Errado! Apesar de concordar que numa
situação normal assim também suporia, porém temos que dar mão à
palmatória e aderir às modernidades que pulverizam distâncias. Então abro a mochila e coloco o notebook sobre
a mesa, sem não antes solicitar ao garçom que passe o pano seco pelo local. Julinho
o garçom também sorri, o que me leva deduzir que estar apaixonado nos dias de hoje é nada
mais que representar no palco o papel de palhaço para uma platéia entendiada.
-Amor, estou desligando agora. Já nos vemos. Beijos, saiba
que te amo! – Confirmo
-Bye, estou esperando por você amor meu – Ela devolve,
antecipa-se e desliga.
Ligo o notebook e conecto nele os plugs dum eficiente headphone
que me custou os olhos da cara. Olho para o canto direito do monitor e procuro
por conexões de rede e um leque de 12 possibilidades surge. Parece ser meu dia de sorte e no segundo nome
da lista a conexão se estabelece, provavelmente o sujeito deve ter esquecido de configurar a senha.
Entro no Skype e lá está Cecília no aguardo. Repentinamente surge a solicitação
para o webcam e eu aceito. - Puta que pariu! - Ao abrir a imagem Cecília está
cercada por seis ou sete garotas. Elas olham diretamente para o webcam e riem à
beça com taças rubras nas mãos. Vinhos, sim, certamente consumiam vinho.
-Nossa Cê, como ele é bonitão! – Ouço uma falar. Firmo a
vista e percebo que foi a mais baixinha do grupo que, encoberta que estava pelas
estaturas das que estavam à sua frente, propiciando a ela apenas a
possibilidade do frenético agitar de braços para que a notássemos.
-Obrigado, moça! - Agradeço num sorriso tímido, meio sem
graça.
-Hey, hey! Não é com você não. É com esse loirinho que está à
direita logo atrás de você! – Ela protesta, estridente.
Claro, se ouvisse aquela voz num telefone juraria que estava
falando com uma guriazinha dos seus 12 aninhos. - Puta que pariu de novo! - Ela silencia e olhos para trás e os amigos estão às minhas costas, aliás, eles e os copos de cerveja. Que merda!- Rumino - Tiro os fones dos
ouvidos.
-Que zorra é essa?! Sumam daqui! Não posso nem namorar
sossegado? – Bronqueio. Como resposta sou saudado com sonora vaia - “Uuuuuuu” -
Do outro lado as garotas persistem falando alto e gargalham,
e elas me lembravam dum bando de hienas excitadas.
-Amor, que porra que é essa? Que está acontecendo? –
Pergunto invocado ao sentir certa pressão em minhas costas. Novamente olho para
trás e era a barriga de Cesar que, curvado sobre mim pretendia ver algo mais.
-Sabe amor, é a despedida de solteira da minha amiga
Lucinha. Essa aqui ó! – Ela diz puxando para si a garota que se estava do seu
lado direito.
-Oi Fred! – Lucinha se apresenta com voz mais enrolada que a
de Cecília. Por Deus, estavam todas embriagadas!
-Ah Fred, não liga para a Denise não! Ela é a mascote da
turma e nem sabe o que fala. Tenha certeza, ela te achou bonitão sim. E saiba...
você é bonito mesmo – Cecília finaliza e
sorri ao abaixar a cabeça na direção do foco da webcam.
-Oba! Obrigado! Você está sendo generosa! – Agradeço outra
vez, agora ainda mais sem graça.
-Fred, fica sem graça não amor, tu não és de se jogar fora,
porém convenhamos, o loiro é um espetáculo! Um Deus nórdico! – Lucinha exclama divertida e sorri.
Sim, Lucinha era uma boneca e aparentava uns 24. Nela o
vestido justo e vermelho e de decote generoso prenunciava aquilo que eu poderia
denominar como uma possível grande trepada. Lucinha está ébria e se curva ainda
mais na direção do olho do webcam e isso me possibilita uma visão estupenda dos
seios amassados pelo talho do vestido. Eles davam toda a pinta de saltarem
dali, rogavam por liberdade incondicional, nem eu sei ao certo. A cena
desencadeou um frenesi de sensações despudoradas, e o suficiente para ouvirmos a voz do
Junior, aliás, não só a dele, mas da quadrilha que se
mantinha às minhas costas.
-Tira! Tira! Tira!
Lucinha percebeu o frisson que causou. Eu olhava para
Cecília e a via impassível, feição ébria, sem se dar conta das coisas do
momento. Lucinha queria show, atuar, portanto puxou minha namorada pelo braço a
fazendo levantar-se, apossando-se do assento.
-Tira! Tira! Tira! – Persistia a ladainha da matilha de
lobos carentes, atrás de mim.
Lucinha ria, colocava o dedinho na boca e brindava-nos
com um olhar de donzela travessa . Era o sinal, para a largada, luz
verde para o bólido de Formula 1 queimar o asfalto. E assim se inicia o grand-prix da sensualidade, e ela desliza o indicador pelo meio do
decote e acaricia suavemente a tez entre os seios. Sim, era apenas um jogo excitante,
e as garotas riem diante a reação da corja, até que uma delas grita –“ei
Gostosãoooo”- e a corrida continua louca e desenfreada, a bebida que embebeda
lá, embebeda aqui, e Lucinha, o bólido, enfia os três dedos da mão direita no bustier e lentamente o força para baixo. “Uhuuuuu”
delira a cambada de canalhas.
– “Tira! Tira! Tira!” - Eles pedem aos berros. E ela persiste queimando o asfalto nas ruas de algum principado, estreitas, perigosas, sensuais, enquanto os dedos agem para que o pano ceda aos poucos como as esmolas que regulamos para os mendigos.
Foi o bastante para as garotas participarem da insanidade da corrida, e logo imitam Lucinha e fazem bocas e caretas, e aos trejeitos alisam os
seios por cima de suas roupas. Os peitos de Lucinha, agora estão quase descobertos, e eles são
magníficos, e ela insiste em fazer o pano ceder até que se torne visível o início da aureola do seio. Porém, surpreendentemente sobe o pano do tecido e nos fulmina com uma gargalhada de gente à-toa– “Uuuuuuu” os meus amigos deliram
e vaiam desencantados, eles querem mais – Evidente, eu não podia vaiar, mas um “Uuuuuu”
anônimo e silencioso reverbera no peito, afinal eu me excitara tal qual a primeira vez que beijei a boca de uma mulher. Lá, do outro lado da tela
as garotas continuam rindo e persistem nas cenas de um cabaré de terceira. Era óbvio, sabia que estavam gozando de nossas caras,
justo nós uns carentes pobres diabos.
No breve momento que a libido cedeu à razão penso naquilo
tudo e suponho que se fôssemos nós nos lugares delas, a essa altura estaríamos
desfilando de samba-canção colorida, afinal todo macho que se preza é
altamente exibicionista. Lucinha queria mais, muito mais, então se levanta, da
cadeira, distancia-se metro e meio do webcam e remexe os quadris como se fosse
uma passista da Portela. Depois executa meia volta e de perfil soergue o
vestido palmo e meio acima dos joelhos e exibe suas torneadas pernas. Mas
ainda não se satisfaz, portanto gira o corpo até ficar de costas e o
seu vestido está lá no alto próximo à calcinha, e ela chacoalha as estupendas nádegas como cansou de fazer num passado próximo a ex-
bunda número um do Brasil, Carla Perez nos programas do Faustão. Olho para tudo
e me pergunto como terminará aquilo, entretanto as meninas não compartilham da minha apreensão e continuam rebolando, e agora viram as costas e sobem seus
vestidos, e sinais daquilo que sugeriam ser as cores de suas calcinhas surgem e elas insistem e
gargalham enquanto os tais "Uhuuuus” da corja persiste, alto, algazarra que chama a atenção dos clientes e causa certa apreensão ao velho Chico que preocupado nos olha lá do caixa.
Tudo está fora de controle, e elas continuam plagiando Lucinha, e rebolam e os “Uhuuus” persistem
indomáveis até que repentinamente decretam o fim da corrida. Ninguém gargalha e nem remexe os quadris
ou mostra os seios, e Lucinha abandona a cadeira e as garotas somem da cena e Cecilia reassume o posto recolocando seus fones de ouvido.
-Amor, peça para esses vândalos saírem das tuas costas, por
favor? Quero ter um particular com você.
-Cambada, vocês ouviram o que a dona do time ordenou? Portanto...
Fora todo mundo! – Exclamo, ao virar o corpo e dar de cara com os sacanas.
Eles parecem desalentados e abandonam as minhas costas, exceto
o Cesar que, idiotamente persiste num “Uhuuu” solitário, talvez de protesto. Será que o pobre infeliz imaginasse que aquilo ia findar num strip-tease completo e gratuito?
-Cai fora sujeito problemático! - Apresso-o. Cesar me olha e o “Uhuuu”
silencia em sua boca e então ele sai de onde estava e retorna para a sua
cadeira logo à minha frente.
Ajeito-me na minha enquanto os devassos retomando a tagarelice
voltam a mencionar os fantásticos peitos de Lucinha. Evidente, Cecília não fez parte
daquilo. Olho para ela, e ela está meio constrangida, porém sinto que há fogo
em seu olhar. Ela meneia os ombros, pressiona os lábios um no outro e diz:
-Amor, você eu não quero que passe vontade.
Dito, seus olhos escorrem para o meu lado da tela e ela se
certifica que estamos a sós. E vem o momento da surpresa, pois delicadamente
pega o fim da malha do top que deixa os braços e parte do colo nu e o levanta.
A cena me deixa perplexo, pois Cecília não vestia sutiã. Depois me olhou com lascívia e eu não
desgrudei os olhos do seu maravilhoso par de seios. Cecília tinha peitos lindos
e fartos. Suavemente ela toca um dos mamilos e ele desabrocha como se fosse flor
brindando a vida. Ao longe ouço vozes e os risos das garotas, o que significa que
elas estão retornando. Tão de repente quanto mostra Cecília oculta seus seios
ao deixar cair a malha, cobrindo o peito.
-Amor, eu quero você hoje e sempre! Você não faz ideia de
quanto te amo. Estarei em casa por volta da uma da manhã, quando acabar aqui. –
Ela diz daquele jeito que me deixa louco
Aí sorri para mim, diz “boa noite” e um “te amo”. As vozes
das garotas estão agora se fazem mais próximas e eu consigo distinguir algumas
delas quando Cecília comunica:
-Meninas, estou me despedindo dos rapazes.
Foi o decisivo para que as meninas saíssem em desabala e colocando-se diante do webcam. Depois uma delas gargalhou e voltou a bolinar o
corpo. As outras também riram e a imitaram.
-Chame os meninos! Chame os meninos, elas pediam em coro,
algumas delas até assobiavam.
Porém de palhaçadas estava farto, portanto não chamei
ninguém e apenas me despedi delas tocando os lábios com a ponta dos dedos, atirando um beijo coletivo. Por fim desliguei a webcam e pensei sobre
aquilo e olhei para meus amigos, e eles, mesmo embriagados persistem falando
dos peitos de Lucinha. E fico lá, parado, inerte, apenas os olho e suas bocas
falam, não se calam, cães vadios tendo sonhos eróticos com filé mignon. E
aquilo me faz retornar para dentro de mim e admitir o fato de não transar na
real por um bom tempo um bom tempo, não que não houvesse a oportunidades ou
pessoas disponíveis, mas sim porque agora as relações amorosas agora não me
pareciam tão urgentes. Obvio, eu tinha prazer e fornecia prazer, e era assim
era entre eu e Cecília, mesmo que virtualmente, já usávamos do possível . Claro, fazer amor e à cor é e sempre magnífico,
entretanto nesta vida eu fizera amor tantas vezes e saíra de algumas relações tão ou mais vazio de quando entrara. Agora o que eu precisava era alguém que me
inteirasse e que me fizesse sentir que entre nós não haveria interregnos
existenciais. O que ansiava era ter a oportunidade de viver a mulher e a delicadeza que se desfruta em cada folha do seu ser. E essa hoje era a minha maior verdade, talvez procurada com o desespero de alguém que necessita o mais íntegro prazer
de estar com alguém, e sorrir, e beijar, e fazer amor compactuando cumplicidades. Enfim,
alguém que me fizesse compreender que é possível uma excepcional noite de amor ser sucedida
por outra ainda melhor. Logo, Cecília poderia ser essa criatura, apesar dos
mais de 4.000 km que nos separavam. Havia entre nós muitos traços comuns, e ela
simplesmente me deixava louco na hora H, apesar de vingar ao terminar, um gosto amargo de monitor LCD.
Saímos de lá algo além da meia noite. Despedimos na porta do bar e cada qual seguiu o seu destino. Rodo por ruas desertas enquanto em outras alguns poucos automóveis trafegam. Depois de bons 30 minutos estaciono o Palio Weekend numa vaga descoberta garage ao lado da porta de entrada da casa. Saio do carro e abro o capô e retiro um dos cabos de vela, afinal nem todos os ladrões da cidade andam com cabos de velas sobressalentes. Entro na residência e desfaço-me da camisa e calça social e conecto o notebook sem necessitar dessa vez a senha ou a conexão de alguém. Sei o que procuro, portanto abro a página do site e passo os olhos pelas promoções. Achada, retorno ao lugar onde despejei a calça e a camisa e volto com um cartão magnético em mãos. Forço a visão, pois as letras do site são miúdas. Forneço o número e código segurança do meu cartão e efetuo a transação - Era um negócio com uma companhia de peso.
-Manaus, já me sinto pelo caminho! – Exclamo e sorrio para a aranha indolente que no teto praticava algo parecido com bungee jumping.
Agora em meu poder havia uma passagem aérea de ida e sem volta
para o Amazonas. E isso me conforta, pois agora quero viver para o óbvio, ver apenas o que pretendo ver, gozar a vida do jeito e forma que deveria ter vivido e não vivi até aqui. E é justo, pois suponho que também sou filho de Deus.
Penso pouco mais sobre as questões das relações virtuais enquanto a multifuncional emite o localizador da minha passagem. Foi ali que consenti que a distância maior de 4.000 km jamais deveria ultrapassar o tamanho das minhas indefinições.
Penso pouco mais sobre as questões das relações virtuais enquanto a multifuncional emite o localizador da minha passagem. Foi ali que consenti que a distância maior de 4.000 km jamais deveria ultrapassar o tamanho das minhas indefinições.
Continuei no notebook e espionei o meu e outros perfis no Facebook até me sentir entediado.
Entretanto a pergunta não se calava, e eu olhava para a tela e para o jogo de xadrez que acabara de buscar numa das pastas do Windows. Sim, um jogo de xadrez. Permaneci olhando para o monitor até que decidi colocar o dedo sobre a peça branca para dar o inicio ao Match. Sorrio idiotamente ao acreditar que pudesse ganhar da máquina, mas nunca ganhei, e isso me irritava, não que me considerasse alguma sumidade ou dotado de inteligência privilegiada, não, mas tinha sim um bom raciocínio, embora muito pouco para digladiar com aquele programa. Sim, um software abastecido por um campeão. dizem, Bobby Fischer, divindade no universo enxadrístico dos anos 80, um computador humano dotado de fantástica massa cinzenta á municiar os engenheiros de Bil Gates com milhares de combinações vencedoras.
Enfim, verdade ou mentira, com Bobby ou sem Bobby adianto meu peão duas casas pelo centro do tabuleiro e o maldito PC responde abrindo o cavalo da sua dama. Levo outro peão perpendicularmente ao meu na intenção de defendê-lo do hipomorfo, e em resposta campeão adianta o seu peão à frente da torre do Rei. -"Que raios de jogada seria aquela?" - Surpreendo-me. Eu não sabia, e o que sabia era que mais uma vez poderia estar entrando pelo cano; Tudo bem! - Resignei-me, estava pra lá de acostumado.
A casa onde foi parar o peão adversário piscou nervosamente; era o sinal para que eu fizesse o meu movimento. Fico olhando para as frenéticas piscadelas e elas me lembram os incandescentes letreiros de alguns inferninhos da boca do lixo.
-Vá te foder, Bobby! Espere! - Resmungo para o computador
Sem que me haja qualquer motivo olho para o alto e uma aranha solitária parece surpresa com minha bravata. Levanto da cadeira e olho para o teto e ela parece desconfiada, pois talvez tenha o bom senso de jamais confundir moscas e abelhas. Enfim, esperta e até com receio que um desavisado pé do meu sapato involuntariamente seja atirado para o alto acaba por dar o fora dali escalando um pequeno espaço da teia, e esconde-se no interior do globo da luz. Penso na cena e na fuga malandra e outra vez sorrio.
Momentaneamente desvio minha atenção da aranha, do tabuleiro e questiono-me à meia voz:
-Meu Deus, serei o azul do Caprichoso? Cecilia será o oposto, vermelho, do Garantido? -
-Não sei... - Murmuro introspectivo, assim como concluo também não saber se ela ficará feliz com a surpresa, pois não há garantia para nada nesse mundo, excetuando a morte. Penso na morte por mais alguns segundos e me recordo do Azul e a minha predileção pelo Caprichoso. Evidente, concordo, tudo é uma questão de cor, azul, vermelho, um ganhará e o outro perderá. Porém não quero arriscar, vou no campeão, vou no perdedor, serei aquilo que Cecília for, ela é a bola da vez e eu estou cansado da voluntária escolha de jamais colocar a pele em jogo e abrir mão da grande bolada.
-Amor...aí vou eu! - Exclamo para uma aranha sonolenta. Peço desculpas a Bobby e desligo o computador. Procuro uma toalha de banho, e saindo do quarto carrego também um dos meu inseparáveis pijamas curtos. Eu gostava deles, coisa de macho, sem dúvida. Ele era em azul marinho e a blusa com gola em V estampava bolinhas brancas num tecido que nitidamente imitava a seda.
-Sim! Nada mais elementar... pobre, limpo e Caprichoso -
Concluo comigo ao abrir o registro e sentir os efeitos duma ducha Lorenzetti com mais de 10 anos de uso. Os furos por onde sairiam os jatos estão entupidos, já que há mais de meses não os desentupo. A água que se arrisca sair pelo furinhos goteja fervendo e me machuca a pele.
-Merda! Merda! Merda! -
Xingo três quando poderia ter xingado apenas uma. Talvez fosse frescura ao extremo.
Sorrio novamente. - "Será que haverá antropófagos nas florestas do Amazonas?" - pergunto-me. "Vá a merda!" Respondo para o imbecil que se fez a pergunta.
Talvez fosse nada mais que pura ansiedade.
Coporraiti24Set2013
Véio China©
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