segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Um dia de fúria - By Véio China

Definitivamente aquele não foi o meu dia de sorte. Novamente eu subia ao apartamento, só que dessa vez para trocar as calças e por um fato absurdo. Lembro-me que ao descer do 13º andar o elevador estacionora no 5º onde adentraram a dona Izolda e seu cachorrinho chihuahua, um loirinho  enegrecido com cara de retardado. Claro,estou me refirindo ao cachorrinho e não propriamente à dona a dona Izolda, apesar dela por vezes me parecer uma autêntica cadela.
Dona Izolda,  mulher do síndico, dona de estrutura enorme e tetas 58,  e uma bunda imensa, parecida com túnel  Rebouças, tamanha  a profundidade. Eu a achava ainda mais apavorante que o seo Virgílio, o marido síndico. Pra falar a verdade, sobre eles ( síndicos) eu sempre tivera mais medo deles que dos batedores de carteira. Afinal, com os ladrões de carteira o lance sempre foi  pacífico, já que nos lesam sem ao menos percebermos.
Em todo caso o Paquito (nome da cãozinho) houve por bem confundir a minha calça acinzentada com um poste de rua, desbravando assim uma mijada espetacular. Recordo que ao entrar no elevador não me senti confortável com a presença deles, e assim eu fitava a placa luminária presa ao teto quando senti algo em minhas calças e o chihuahua retardado jactando nela..
Eu achei extremamente agressivo a forma displicente, descarada e polida com a qual dona Izolda reprimiu seu problemático animal:

-Paquito! Tenha modos e não urine na barra da calça do cavalheiro!

Puta que pariu! Eu tive vontade de chutar o rabo dos dois.

Chegando ao térreo não houve como não rir as ver  ambos a minha frente. Elas caminhavam lado a lado e tudo neles combinavam, até o desengonçado e ridículo rebolado.
Antes de seguir pelo corredor do saguão bato as mãos no bolso e não encontro minha carteira. - “Porra! Seu cabeça de asno” Xingo-me. Subo ao apartamento, e localizo a carteira e saio.
Novamente na descida o elevador estaciona, dessa vez no 7º andar.
Um calafrio me percorre o corpo. Ali, em minha frente, dona Sara e sua famigerada cria, Brigite, uma garotinha loira dos seus sete anos. Obviamente ela tinha problemas comigo;

-Mãe, olha o moço com nariz de... – Prontamente interrompi a chatinha e terminei por ela.

-De palhaço, não é? Sei, sei! - Devia ser a 15ª vez naquele ano (e ainda estávamos no início do 2º semestre) que eu a ouvia se referir assim ao meu nariz, enorme e um tanto avermelhado, confesso. E ainda mais para mim oriundo germânico.

-Filha, já te falei diversas vezes! Não deve se referir assim às pessoas, mesmo que tenha motivo! –
Se havia coisa que admirava em dona Sara era o seu espírito conciliador. Era-me de grande valia naqueles momentos de aflição.
O resto do percurso foi feito sem grandes atropelos. A menina esqueceu-se do meu nariz e apertou os botões de todos os andares sob a complacência da mãe. “Ah, Noêmia, aí vou eu!” Eu sussurrei para mim ao chegar no térreo. Um pouco mais e eu saia pelo portão e me encaminhava para meu veículo estacionado em frente ao prédio.

-Ops! Esqueci as chaves do carro! –
Novamente ralhei comigo ao bater a mão na presilha da calça e dar pela falta do chaveiro.
Mais uma vez eu retornava para o interior do prédio. 
 Aquele não era mesmo  o meu dia de sorte....

-Mãeee! Olha o moço com nariz de palhaço de volta! –  Dona Sara a olha com severidade, bem, e o resto nós ja sabemos:

-Filha, eu já te falei. Não se importe com o enorme  nariz do moço!

Por Deus! Eu não merecia aquilo. Sem olhá-las atravessei a recepção e me dirigi ao elevador e dali ao meu apartamento.
Dentro de  casa e procuro as chaves do carro e as encontro em cima da estante da sala. Estou de saída quando o telefone toca. “Deve ser a Noêmia” – digo para mim – Afinal, eu já deveria estar em sua casa há mais de 10 minutos.

-Alo! –
Não. Não era a Noêmia. Era sim uma voz grave e de um soberbo afetamento.

-Sim, pois não! – Respondo

-É o Kaká? – Me pergunta o sujeito.
 Bem, meu nome era Carlos. Carlos Brickmann, pra ser exato. Porém não me recordava de ser chamado por Kaká por qualquer pessoa.
-Sim, Carlos, Carlos Brickmann falando! – Devolvo, como se incentivando a pessoa a me tratar num tom mais formal.

-Ai Kaká, aqui é a Rogéria! Sabia que você é delicioso? Já estou sentindo falta desse corpinho ao meu lado na cama – Disse num tom espalhafatoso e feminino..

Claro, eu não era um gênio, mas tinha a sabedoria suficiente para reconhecer as afetações de um travesti.

-Escuta aqui seu Rogério não sei das quantas! Você ligou pro número errado, pro cara errado. E a porra do meu nome não é Kaká. É Carlos! – E bati o telefone.

Já estava fechando a porta quando o telefone toca novamente – “É a Noêmia” – Exclamei - Provavelmente puta da vida comigo  – pensei -
Retiro o telefone do gancho, coloco no ouvido. No fundo ouço uma daqueles canções  canção de Gloria Gaynor que se identificaram no movimento gay.

-Kaká, você é um grosso! – Outra vez alguém bate o telefone, mas desta feita não fui eu. E além do mais aquele sujeito esteva com muita sorte “Ah se eu tivesse um identificador de chamadas” – Lamentei.

Novamente estou no hall quando o elevador chega. Entro e aperto o “T”.
Outra vez em descida ele para agora no 8º andar. Nele entra um dos sujeitos mais temidos do pedaço. Wolf Hocken. Wolf é um careca de quase dois metros, uns vinte dois anos e um monte de banha distribuída em seus mais de 140 quilos. A sua negra camiseta GG com uma suástica em vermelho vivo conferem-lhe uma aparência atemorizadora.

-Sieg Heil! Camarada Brickmann! –

Ele me cumprimenta com o braço em riste enquanto toca os pés de ambos os coturnos ocasionando um som de tonalidade grave.
Traduzindo, ele me saudara com um “Salve a Vitória” como se eu fosse um companheiro ideológico. Além de Wolf misturar Vladimir Lenin e Adolf Hitler, ele deixava-me furioso; final, quem poderia ter dito ao babaca que eu descendia de alemães?
Merda viu!
Saímos do elevador e ele segue apressado pelo saguão. Olhando-o pelas costas vejo que figura agressiva ele se tornou. Uma agressividade desnecessária, maltratora de minorias sociais, enfim, dessas que geram violência que por vezes terminam em morte.
Wolf seguia em frente e cada vez mais rápido até quase desaparecer das minhas vistas.
“Ah Noêmia, aí vou eu! Agora ninguém nos segura!” – Convenci-me finalmente.

Entro no meu Tipo 96 e sigo em frente. Eu estava louco pra mostrar o meu novo carro pra Noêmia, adquirido por suados 7.500 reais. Ansioso, vencia as ruas, ultrapassava os carros deixando para trás alguns faróis vermelhos contando com a fiscalização precária dos sábados. Em exatos 20 minutos estou em frente do seu prédio num bairro Judeu.
O edifício relativamente simples abriga garagens coletivas. O porteiro, ao ver-me, acostumado com a minha presença abre o portão automático e eu entro.
“Ah Noêmia! Estou chegando, mais alguns andares!” -

E a minha carência era enorme. Carência dos seus carinhos, dos seus beijos melados e de cada curva daquele moreno corpo judeu. Há mais de 20 dias não fazíamos sexo, geralmente por minhas ausências a serviço da empresa em que trabalhava. – E quando juntos, exceto um dia ou outro ela tinha o hábito religioso de dormir extremamente cedo. Não raras vezes me expulsou do seu apartamento ou tive que levá-la correndo do meu – “Amor, preciso dormir, descansar. Entenda, por favor,” – Ela costumava comunicar antes mesmo de começar a novela das oito, que por  ironia começava às nove. Bem, fora esse insignificante detalhe, eu e ela nos dávamos muito bem, numa convivência tão boa ao ponto de pensar num compromisso, mas sério, coisa lógica para quem está junto há quase um ano. - “Ah, Noêmia, Noêmia, estou a poucos metros de você! - Aguarde!” –

Chegando ao seu  andar segui para a porta e toquei a campanhia. Nada. Apertei o botão e outra vez ninguém atendeu. Mantive os ouvidos grudados á madeira e nem barulho eu ouvia do interior. - “Talvez ela esteja no toalete”! – Pensei comigo mesmo – Aguardei mais 5 minutos e toco novamente a campainha. Insatisfeito pressiono o botão sem folgá-lo do dedo.
Talvez o ruído tenha sido tão irritante que a vizinha saiu à porta.

-Ei moço! Quer parar de tocar campainha? Noêmia não está aí. Ela saiu faz ½ hora, mais ou menos – Me comunicou laconicamente e um tanto desinteressada.

Dito isso fechou a sua porta sem esperar qualquer pergunta minha.
“Caraca! Acho que ela deve estar muito puta comigo!” – Deduzi. Enfim, Noêmia, depois de tanto esperar deve ter cansado e saiu, provavelmente para me irritar.

-Ah meu Deus! Que saudades daquele rabo, do  par de coxas fenomenal, dos peitos EG! – Disse para mim em alto e bom som ao sair do elevador, já no saguão.

-Como, peitos EG? Foi o que o senhor disse, seo Carlos? – Pelo jeito eu não estava sozinho, e o maldito funcionário se colocará atrás duma coluna sem que eu percebesse.

-Foi nada não Expedito! Esqueça! – Finalizei. Provavelmente ele jamais entenderia o significado daquilo.

Despedi do porteiro com um aceno de mão e me dirigi para o carro. Quase seis da tarde e a noite se precipitava, bela, mormacenta. Na rua as pessoas zanzavam de um lado pra outro, esperançosas e no aguardo que coisas boas acontecessem. Estava tentando enfiar as chaves na porta do veículo quando sinto algo chocando dolorosamente em minhas costelas.

- Ei tio! É um assalto! Quietinho! –  O sujeito disse numa voz  ameaçadora. Apesar do tom percebo que se trata de um jovem. Eu tinha medo desses garotos e dos seus dedos nervosos.

- Não, não! Tudo bem! Eu não vou reagir. Pode levar a grana e o carro, mas, por favor, não faça nada de mal! – Respondi com voz trêmula.

Por qualquer bobagem aquele fedelho poderia estourar os meus miolos.
Alguns segundos que pareceram a eternidade e eu apenas sentia o cano do seu revolver nas minhas costas. Ele nada respondeu,   parecia estar perdido em algum pensamento, até que se pronunciou:

-É o seguinte, tio! O Tipo fica com o senhor e a grana vai com a gente. Tira a grana do bolso, rapidinho, anda! – E estocou-me mais uma vez a costela.

Temeroso, enfiei a mão no bolso e retirei a carteira. Havia 300 paus em notas de 50, e alguns trocados.

-Olha aí tio! Fica com esse trintão! Prum pneu furado deve dar! Boa sorte com o Tipo, tio! – Naquele instante eu tive a ligeira impressão que ele estava me gozando.

Não mais que 15 segundos e surge um rapaz numa moto e freia ao nosso lado. Evidente, era o comparsa. O meu rapaz enfia rapidamente o capacete, sobe na garupa e saem em disparada. Ainda o vi acenar para mim assim que a moto partiu
Trêmulo enfio a chave na porta e ela se abre. Eu entro, aspiro e inspiro um bom bocado de ar e parto na direção da Delegacia de Polícia mais próxima: não seria eu a colaborar com a impunidade no Brasil e nem fazer parte das pessoas que não lavram ocorrência de algum tipo de delito
Porém, participar das corretas estatísticas nesse país custa um preço, e caro; Saí de lá às 22 h envolto pelo descaso e falta de respeito da máquina pública. No tempo que permaneci nas dependências da polícia eu vi de tudo por lá. Vi bandidos algemados,  baleados, ouvi gritos de horror e tantas outras barbaridades. Enfim, foi deprimente.

O meu dia fora um fracasso absoluto. Eu ficara sem Noêmia e suas coxas grossas. Ficará sem uns bons trocados, mas, por sorte ainda permanecera com o Tipo, relegado jocosamente pelo criminoso. “Ah Noêmia! Eu queria tanto te mostrar o carro novo!”
Está certo que não um modêlo moderno, mas em excelente estado de conservação. Tinha até um toca-discos Pioneer, antigo, mas um bom toca-discos.

Antes de ir pra casa a saudade de um tempo outrora me levou à Rua Augusta, no centro da cidade. Eu queria  relembrar a década de 80, as casas de shows eróticos e as prostitutas da rua. Naquela época eu costumava percorrer os quarteirões pecaminosos com uma Brasília amarela. Não é necessário dizer que eu apenas gastava gasolina e pneus indo de um lado para outro. Por mais que eu quisesse transar com uma daquelas mulheres eu jamais consegui. Eu achava deprimente vê-las vendendo o corpo, rabos de fora,  mostrando as calcinhas, vermelhas, verdes, em ordem, furadas, etc, etc.

E também porque achava horrível e de mau gosto aquelas suas maquiagens pesadas, duras, meras mortas-vivas pintadas. Porém, naquela noite eu estava com vontade de retroceder no tempo. Lembro que fiz os mesmos percursos de antes e nada parecia ter mudado. Suas bundas, suas tetas, seus rostos coloridos continuavam nas vitrines das aberrações.

Eu já estava desistindo quando vi uma delas escorada num portão de grade de um estacionamento fechado e  num local de pouca iluminação. Olhei na direção daqueles longos cabelos loiros e eles combinavam magicamente com a saia e blusa, ambas negras. Claro, a saia bem acima do joelho, mas nem tanto escandalosa como as das outras garotas. Dei o farol alto na tentativa de vê-la melhor. De onde eu estava ela me parecia linda, mesmo com aqueles traços e maquiagem pesada rebocando o seu rosto. A princípio ela se sentiu incomodada pelo farol que a cegou por momentos. Percebi e o incômodo e desliguei o farol e o motor do carro. Ela resvalava suavemente as palmas das mãos junto dos olhos e se  encaminhava na direção do carro, no sentido da porta do passageiro. Agora mais próxima, ao passar na frente do carro ela excitou-me sobremaneira. O corpo da prostituta era simplesmente divino e me surpreendia o fato de não estar gemendo em alguma cama dos hotelecos da região.

Ainda na penumbra ela se debruçou sobre a janela oposta à minha. Claro que ela não distinguira a minha fisionomia ao se oferecer:

-E aí garotão! O que vai ser pra hoje? Um boquete ou uma transa completa?

Eu conhecia aquela voz. Estarrecido, exclamei:

-Noêeeeeeeeeeeemia!

Por um bom tempo foi a última vez que nos vimos. Passado quase um ano  voltei à Augusta e reencontrei Noêmia. Dessa vez não houve exclamação e nem surpresa. Houve sim uma mulher com traços de algum envelhecimento precoce e que confessou numa das camas daqueles pardieiros que se dera mal ao não recusar a primeira fumada de crack ofertada por um dos seus clientes.
Evidente, eu não transei com ela, apenas ouvi os relatos da sua perdição e o quanto sentiu-se mal na noite da dolorosa descoberta.

Enfim... foram apenas relatos  isentos de qualquer pretensão. Lembro de ter  voltado mais algumas vezes e a olhos nus eu a via definhar cada vez mais. Nunca mais fomos ou freqüentamos aqueles quartos fedorentos, mas sempre lhe deixei algum dinheiro que pudesse ajudar em suas despesas. Recordo-me que na última vez ela nao estava mais la.
Preocupei-me e perguntei do seu paradeiro para uma de suas colegas. A resposta foi objetiva, dura e até óbvia:

- A Noêmia já era, moço!

Lembro que saí de la um tanto desorientado. Doía saber que uma mulher de pouco mais de 30  sucumbira às drogas. E assim foi para ela e assim é  e sera para outros milhões de dependentes  e sem que possamos fazer grandes coisas.
Dilacerado desci a Augusta no seu lado mais central e estacionei o Tipo dinte dum boteco fuleiro. Ali alguns bebuns de meia idade e bocas-moles cantavam algumas canções de Roberto Carlos, seguindo as músicas tocadas numa jukebox caindo aos pedaçsos.
Sentei numa das mesinhas e pedi rabo-de-galo e cerveja. Tomei o primeiro numa única talagada. Os demais sorvi com maior paciência e persistência. Embebedar-me era inevitável e questão de tempo.

Talvez estivesse pelo quarto drink quando me juntei aos bêbados; Entre a meninice e a  adolescência eu ouvira as canções de Roberto Carlos, pois minha mãe nutria adoração por elas. Portanto, de tanto ouví-las algumas eu recordei, outras, em partes. Mesmo que não mais façam o meu gênero  existe todo saudosismo por suas letras românticas e rítimos apaixonados. Claro, jamais seria ingênuo de admitir que alguém cantou o amor tanto quanto ele.  O amor que transbordava de suas composições mas, o amor que eu não tinha, e assim não ofertava.
Passava das duas da manha quando abandonei o boteco e zigzagueei  junto com o Tipo pela Radial. Leste. Por sorte na via expressa havia pouquíssimo trânsito e isso talvez tenha evitado que me envolvesse em acidentes.
Chegando em casa e sem conseguir estacionar abandonei o veículo em cima da calçada bem em frente ao portão. Entrei trôpego e devo ter pisado em algumas formigas  enquanto a morte  me fitava com um riso de sarcasmo na face que  não via.
Ela e eu sabíamos que eu apenas necessitava de uma boa noite de sono.


Copirraiti 15Ago2011
Véio China©

2 Clique e Comente:

Uma Telles disse...

Muito bom....Engraçado e verdadeiro......a arte imitando a vida......quem mais além do China para fazer tamanha proeza rss...vc é singular.....o que determina sua importância....Parabéns.

Raquel Ordones disse...

amarradona na tua escrita

show!