terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Your Song

Eu me encontrava em casa com o olhar cravado no infinito, agitando o pulso para ver as pedras girando no interior do copo. O líquido de tonalidade ferrugem se digladiava com os cubos de gelo que se debatiam no copo, guizando que nem cascáveis. Eu continuava pensando no nada enquanto  emborcava uma generosa dose de Jack Daniels,  mastigando algumas uvas passas que eu encontrara num  pacote dentro do refrigerador.

O que mais restava a fazer se não beber? O dia me trazia algo de um apelo nostálgico que me fez permanecer ali. Lentamente e ainda com a bebida na mão me dirigi ao system  que aodormecia num canto da sala e coloquei um antigo Cd do Neil Diamond pra rodar. Os primeiros acordes de “September Morn” mais uma vez desafiavam o que poderia haver de sensato em mim. E com os tons veio as recordação e sensação de quando ouvi a canção pela primeira vez. Uma sensação que me sensibilizara fazendo-me chorar sem que soubesse o porquê.
Lembro ainda que após chorar eu apenas sorri. Mais que certom se me vissem naquele estado de melancolia poderiam supor que eu passava por sérios problemas emocionais. Talvez nem isso. Talvez supusessem que ali estava um sujeito exposto ao descontrole emocional, já que,  para a maioria das pessoas é inconcebível ver um sujeito passado dos 40 se debulhando em lágrimas sem que saiba o motivo.

E Mr. Diamond  não esteve nem aí para o meu pranto como não está agora e persiste cantando com sua voz de veludo, trazendo-me  idêntica tristeza e choro, tratando-me como uma criança birrenta ou um ateu no lumiar da crença. Talvez o fato de eu estar sentido a  mesma sensação fosse necessário para abrandar a dureza do meu espírito. Entretanto, eu torcia para  que esses momentos levassem de vez o anonimato das minhas decepções.
Ainda permanecia nessa cachoeira de instrospecções quando o celular toca  devolvendo-me à vida:

-Por favor, é o doutor Adriano? – Pergunta a uma voz de tonalidade feminina, suave, quase sussurrada.

-Pois não! É ele – Confirmei esfregando a manga da camisa num dos olhos. Depois mudei o celular de mão e passei o pano no outro olho.

 -Doutor, aqui é a Mariela Cintra. Desculpe estar ligando no seu celular. É que fui indicada por um amigo; o senhor Paulo Herberth.  O senhor conhece?

Sim. Eu conhecia o Paulo Herberth. Eu o havia defendido com sucesso numa ação movida por um ex-funcionário seu de mais de 20 anos de casa e que pretendia arrancar o seu couro. Antes mesmo de confirmar  o conhecimento da pessoa ela interrompe:

-Doutor, poderíamos marcar um encontro para hoje? É urgente! Estou muito aflita!

-Claro! Às 17,30 no meu escritório, pode ser? – Perguntei ante o seu repentino manifesto. Ela assentiu, e então lhe passei o endereço.

-Estarei lá sem falta. Até! – Ela se despediu e desligou.

Algo me incomodou naquela voz. Era dramática demais, felina demais, quente demais. E a tonalidade sensual me levou a imaginá-la. Como ela seria; Loira, morena, negra, mestiça?
Ainda divagando ligo para Carolina. Carolina era a minha secretária.

-Carolina, boa tarde! –  Cumprimento sem dar tempo para que relatasse tudo que acontecera na parte da manhã. E continuo  – Por favor, poderia dar uma ajeitadinha na minha sala? É que tenho uma cliente maracada pras 17,30.

-Ihhh, eu já sabia! Quando o doutor telefona e pede pra arrumar a sala, sei que tem rabo de saia envolvido! Aposto que é com uma que ligou agora pouco com voz de manteiga derretida.

-Deixou o nome? – Pergunto interrompendo; eu queria a confirmação se era a mesma pessoa.

-Deixou sim! Uma tal de Mariela. Eu disse que o senhor não estava. E aí,  ela, toda abusada, respondeu - “Pode deixar moça, abaixo do telefone do escritório tem o número do celular dele. Eu tento ligar”  -  Depois desligou sem se despedir - Carolina relata com ares de reprovocação.

- Ah Carolina, me poupe! Esqueça isso e só faça aquilo que pedi. Somente isso, por favor, ok?

Bem... Esse era o tributo que eu deveria pagar. Afinal, Carolina era minha  funcionária há mais de 18 anos. Evidente que decorrido tanto tempo e intimidade ela se dava o direito de palpitar naquilo que me era pessoal. Às vezes eu tinha quase a certeza que era por ciúme e demasiada proteção.

-Ah, doutor! É bom que o senhor tenha muito cuidado nessas horas! Como dizia minha finada avó; Caldo de galinha e sopa de mocotó não faz mal a ninguém. E também porque o senhor ainda não deve ter esquecido de como sofreu nas mãos daquela lambisgóia morena...aquela megera...

-Carolinaaaaaa! Para  com isso! Diga só se entendeu o que te pedi! - Interrompi irritado dessa vez.

-Entendi sim, doutor! E torço para que o senhor não caia nas garras daquelas com boca carnuda, nádegas avantajadas e seios proeminentes. Parece que o doutor tem verdadeiro fascínio por mulheres lascivas e de formas, digamos... arredondadas – Devolveu num tom debochado, porém repreensivo.

-Não, Carolina! Dessa vez um pressentimento me diz que a próxima será um anjo e que me amará por toda a vida - Mal termino a frase eu imagino Carolina com os olhos arregalados. Então,finalizo:

-Mas te prometo, Carolina! Se a que vier não tiver um belo par de asas a gente manda logo pros quintos do inferno. Prometo, tá ! – Brinquei com ela antes de desligar o telefone.

O que seria a minha vida se não fosse Carolina?  Nada! Absolutamente nada.
Ela sabia aonde encontrar cada linha dos meus processos, cada um dos meus cheques, do saldo bancário,  compromissos, e principalamente,  dos falidos cartões de crédito. Enfim, sem Carolina eu seria um aboluto nada.

Abandono o celular e  me dirijo ao banheiro onde tomo uma ducha e faço a barba.
Pontualmente às 16,30 o elevador me deixa no andar do escritório. Entro no conjunto e um cheiro de frescor invade meus pulmões. Um odor ótimo, algo silvestre, amazônico; Carolina caprichara dessa vez.
Ela me vê entrar e nada fala. Eu percebo a sua indiferença num olhar  que me ignora. Eu  a provoco com o mesmo silêncio; “ Vaca amarela...” - Sorri - Acredito que estivéssemos participando de um jogo de atitudes pensadas, algo próximo ao ensaio dos enxadristas. Por fim ela abre a brecha para que se quebre o gelo.

-O doutor gostou do cheirinho? – Pergunta deslizando o indicador pela mobília como se querendo mostrar a eficiente limpeza e a remoção do pó.

-Ótimo, Carolina! Ficou ótimo! – Concordei levantando o polegar.

Ela sorriu. Um sorriso bom, de agradecimento, daquele de quem sabe que está protegendo a cria.
Eu gostava de vê-la sorrindo, e então, por alguns instantes fiquei estático e apenas olhando para ela; o que teria acontecido com Carolina que não encontrara ninguém nessa vida? Uma vida que eu testemunhava árdua, de trabalho, sem família, sem qualquer par de filhos para se matricular na escola.

E essas questões me propuseram um retorno no tempo.  Recordei a primeira vez que a vi. Foi no dia da entrevista. Na época eu estava com 30 e tantos, formado a mais de dez,  e necessitando de alguém que tomasse conta da esbórnia que era o meu escritório. E  para mim era uma fase promissora, de muitos clientes e de sonhos que não se exauriam, advogando causas, algumas importantes, por vezes movendo valores extraordinários  e que requeriam estratégias miraculosas. E por um algum tempo elas aconteceram,  todavia a minha desorganização emperrava aquilo que poderia ter sido muito maior. Relembro bem daquele dia da entrevista.E é como se eu possa vê-la sentada à minha frente; jovem, talvez uns 22, 23 anos, olhar tímido, aparência ingênua e decorada por um vestido floral  justo nos quadris e que valorizava estupendamente o talho do seu lindo corpo. Inexperiente, ela vinha de uma cidade do oeste paulista e  hospedara-se na casa duma prima à procura de alguma chance, óbvio, inexistente em sua cidade e  região.
 Ao fim da conversa, gostando daquele olhar sincero e do sotaque delicioso e interiorano acabei por contratá-la.

-Doutor, tenha muito cuidado com essas clientes de hoje em dia. Muitas delas são donas de olhares singelos,  pernas sensuais, mas são completamente caloteiras! –  Me adverte ao retirar-me do passado.

-Ara sô! Larga de besteira, Carolina! –  Eu ri. Se não era ciúme, o que seria?

Um sorriso timido acompanhava meus lábios quando entrei na minha sala. Por mais que Carolina batalhasse para manter a ordem, sobre a minha mesa avolumavam-se cópias e cópias de processos, muitos deles com anotações ao pé das páginas, observações essas que ressaltavam algum fato importante para a formação de novas contestações. Contudo a vida de um profissional da lei não é composta apenas de sucesso e sorrisos. Não, não é, nela também se incluem as derrotas. Derrotas que, sacramentadas,  nos fazem avaliar  vícios profissionais,  os erros cometidos na linha da defensa ou de acusação. Porém, muitos dos meus insucessos não  permitiram que os mesmos enganos  fossem cometidos numa próxima vez.
E na verdade,  eu me orgulhava mais dos  meus fracassos que dos triunfos. Com eles aprendi que sempre haverá a possibilidade de irmos para o alto  mesmo que o momento nos faça a boca amarga.
O oposto, no triunfo, aí é onde espocam os sorrisos falsos, os tapinhas nas costas, que,  apesar de  acariciarem nosso ego, não nos deixam outras alternativas que não seja a ladeira abaixo.  E por vezes a descida  poderá ser tão cruel e vertiginosa que abalará a autoconfiança, a eficiência, tornando-nos uns náufragos de nós mesmos.

-O doutor não quer um café? – Carolina interrompe novamente meus pensamentos na tentativa de  injetar-me algum ânimo.

Ela conhecia todos os meus olhares, todas expressões,  bem mais que a sua própria imagem refletida no espelho. Ante sua gentileza faço um sinal afirmativo. Decorridos menos de 10 minutos lá estava o cafezinho, fresco, saboroso, misturado ao aroma da limpeza.  Ela serviu o meu, o seu,  e sentou-se à minha frente  com a persistência no olhar; Talvez o seu pressentimento de mulher  dissesse que algo não ia bem comigo. Ficamos nos olhando, quando pela primeira vez a vejo,  não com olhos do patrão, do amigo, mas sim com o olhar do  homem que busca  respostas. E os seus castanhos olhos,  ainda marcados por um ranço de menina insistiam no fitar, num me mostrar coisas que não mais conseguia ver. Pena que aquelas contas adornadas por discretas olheiras chegaram fora de hora, de tempo, um prazo de validade vencido, já que o próprio tempo solidificou em mim um sentimento que se nutre por irmãos. Portanto, não havia lacuna para qualquer dos meus devaneios.

-Tenho certeza que é a solidão que te corrói. A solidão e um misto de melancolia... não é? –  Carolina insistia. Ela percebia o meu desconforto.

A pergunta intimista veio à queima roupa, uma flecha no centro da maçã. Aliás, não era uma pergunta, e sim a confirmação. Ali não era a funcionaria que me questionava, mas sim a mulher que agora tocava no meu calcanhar de Aquiles, um dedo na  ferida que não cicatrizava. Eu era apenas um ser humano que apesar dos  tantos relacionamentos não encontrara um amor para ser perpetuado.
E isso me incomodava, aborrecia. Todavia a questão ficaria sem resposta já que ouvíamos os sons dos pequenos sinos afixados na parte interna da porta de vidro da na entrada. Era o aviso que gente ganhava as dependências do escritório. Carolina levantou-se apressada, recolheu as xícaras, ajeitou seus cabelos com as mãos e rumou à recepção.
Ali da minha mesa ouvi alguns sussurros de uma voz feminina e a  firme tonalidade da minha secretária:

-Um minuto, por favor! O Doutor Adriano já irá atendê-la. - Eu reconhecia o timbre. Algo me dizia que repentinamente Carolina se flagrou irritada. Em seguida os seus passos vieram até à minha sala.

-Doutor, a senhora Mariela Cintra está aqui para a reunião das 17,30 –  Sua voz soava austera, contrariada, combinando perfeitamente  com um olhar de poucos amigos.

 Peça-para entrar, por favor, Carolina! – Pedi desviando-me do seu olhar.

E assim que Mariela entrou, estremeci. Estremeci por tanta beleza e amabilidade. Simpatissíma e bela, conversamos por um bom tempo; era como se nos conhecêssemos há anos. Ela trouxera os problemas da sua empresa com uma multinacional dos cosméticos que a acionara por espionagem industrial; A concorrente pretendia provar que a fórmula de um produto anti-rugas da minha cliente fora copiada do seu laboratório. Evidente, antecpando-se à multinacional, o produto comercializado pela empresa de Mariela  passou a ser de  grande procura,  devido principalmente a um ótimo preço de aquisição, num excepcional retorno financeiro.

- O que eles questionam, procede, dona Mariela? – Pergunto

-Jamais doutor! Nunca roubaria nada de ninguém! - Protestou irritada. Depois sorriu nervosamente e solicitou - Doutor,  retire o “dona” por favor – .

Era o que eu pretendia ouvir. Ao bem da verdade, no momento, tanto a pergunta quanto a resposta se fariam inócuas, pois eu a defenderia à qualquer preço. Aquela mulher viera pra bagunçar a minha cabeça, já que à sua entrada em minha sala fizera o coração descompassar. Repentinamente eu o sentia pulsando no céu da  boca. Nela não encontrei os indícios e nem os exageros apontados por Carolina. Havia sim a doçura de um anjo, cabelos loiros, voz macia e uma aparência tão suave quanto as das porcelanas chinesas e um recio de quebrá-la com um simples toque das minhas mãos.
E ela continuava a me olhar e a sorrir daquele seu jeito mágico, devastador, levando-me a acreditar que depois de passarmos juntos por quase duas horas as duas horas eu pudesse segui-la desvairadamente, acompanhá-la até os quintos do inferno se fosse necessário. E aquilo assustáva-me.

Terminada a reunião trocamos os nossos números de celulares e  cumprimentos.
Talvez até tenha me excedido no abraço àquilo que deveria ter sido um simples aperto de mão. Por outro lado ela também deixava transparecer uma certa receptividade. Mais uma vez eu viajava na cauda de um sonho, e  talvez estivesse ali a mudança das mesmices cotidianas, dos relacionamentos com mulheres que, apesar de interessantes  nada trouxeram de novo, atolado que sempre estive em  profundas incertezas. Com ela parecia diferente; O olhar exalava tanta vida, esperança,  romance, ao ponto de vislumbrar a possibilidade do amor e do apaixonado que fui um dia. Eu me via susceptível, escancarado para a vida que me remete ao jogo de poker,  onde só se leva se for pra arriscar. Evidente, sempre existirá a possibilidade do blefe, doo risco que traz a vitória ou a derrota.
E é, e sempre será assim com tudo. É assim quando se arrisca  nas bolsas de valores, nos outros jogos de sorte ou de azar. É assim quando saímos de nossas casas sem sabermos se retornaremos. É assim quando se ama ou deixa de amar. Em tudo,  absolutamente tudo haverá o risco, um contrato de clásulas imprecisas e a inexorável possibilidade de se pretender o céu para acabar se lamentando no inferno....

-Ai Adriano, adorei   a nossa conversa!  Percebo que estarei em excelentes mãos! – Ela exclama ao inciar as despedias. Sorrio ao retornar de mais um camalhamaço de minhas instrospecções. Ela também sorri ao nos encaminharmos  para a recepção. Educada, Mariela se despede da minha secretária:

-Boa noite,dona.....

-Carolina! Carolina  Frydmann! –  Carol responde secamente.

Faço que não percebo, e então delicadamente toco no ombro de Mariela com intuito de encaminhá-la a saída.  Saindo pela a porta de vidro caminhamos a passos lentos percorrendo os poucos metros que a deixaria na entrada dos elevadores.
Já defronte a eles olho para o placa eletrônica incrustrada na parede e reparo que o elevador que serve meu andar encontra-se no parado no andar térreo. Como estávamos no 28º andar avalio que demoraria uns 5 minutos até sua chegada. Olho para ambos oa lados do corredor e ali não há nada senão  solidão e o ar frio da noite. Num impulso me achego bem próximo do seu corpo e sinto a delicada fragrância do seu perfume de mulher. Chanel 5, disse para mim.  Discretamente  exalo o buquê e ela percebe.

-Ai Adriano! É o Chanel número 5 – Diz ansiosa com voz claudicante.

Eu sorrio e aproximo-me mais. Praticamente tocávamos os nossos corpos quando a enlaço pela cintura e a trago ao meu encontro. O beijo foi dado, apaixonado, calmo no início, selvagem ao fim. Ao toque dos meus lábios Mariela pareceu assustada, porém, cedeu. Eu sentia o sabor da sua boca, o toque da língua e o estremecimento do corpo que se  fundia ao meu. Vingava em mim  a sanidade e a locura dos incautos pegos de surpresa pelo encatamento.

-Adriano, liga pra mim assim que chegar à tua casa?  – Pediu. Aliás, não era um pedido e sim um convite  feito por alguém que ostentava um estranho brilho no olhar

-Ligarei! – Confirmei num mesmo momento que o elevador estacionara no andar. Provavelmente eu deveria estar parecendo um desses tantos bobos acometidos pelo amor.

E desta forma que ela se foi deixando atrás de si a marca de sua personalidade; o apaixonante Chanel 5.
Por alguns instantes permaneci olhando para o indicador luminoso incrustrado na parede – 27º, 26º, 25º... o elevador descia a caminho do térreo. Eu sabia que lá chegando e ao abrir a porta outros homens a estariam olhando com os mesmos olhos de loucos. Homens que poderiam estar usando o seu creme anti-ruga,  agora mero produto  duma feroz batalha judicial. Eu entrava no jogo,  e não era pra perder.

Com  a firmeza de propósitos fiz o caminho de volta para o escritório, porém um barulho assustador me surpreendeu e fez Carolina sobressaltar da sua cadeira executiva. Eu viera tão anestesiado pela sedução daqueles beijos que nem repararei que a porta de vidro se mantinha fechada. Conclusão; choquei minha cabeça violentamente contra o blindex.
E foi  assim me sentindo um pateta que adentrei ao conjunto;  meus dedos acariciavam o rosto. Um rosto constrangido,  imaginando-se um  idiotizado  num mundo de tantos idiotas.
Passado o susto Carolina não sorriu e manteve-se sisuda ao recolher suas coisas e ajeitar a mesa de trabalho. Assim que conseguiu enfiar o mundo na sua bolsa de 30 centímetros, atravessou a porta de vidro e se caminhou para os elevadores.

Auquilo me chateou e um tanto contrafeito reparei que aquela fora uma das raras vezes que ela  foi embora sem despedir de mim - Paciência. Eu não poderia fazer - Agora sozinho, cuidadosamente fechei a porta com a chave e voltava para minha sala quando ouvi nervosas batidas no vidro. Retorno e  dou de cara com Carolina. Provavelmente esquecera algo – imaginei  - Abro a porta, mas ela não pretendia entrar.

-Seu cego, estúpido! Você não percebeu que ela tem celulites? – Disse-me com raiva enquanto suas pálpebras tremulavam.  Descarregado,  deu-me as costas e voltou para os botões  dos elevadores.

À princípio permaneci perplexo, sem ação, para depois cair numa estrondosa gargalhada; Era blefe, pra não falar... mentira deslavada. Carolina, às vezeses priorizava jogos que não podia vencer.
Agitando a cabeça num divertido sinal de recriminação vou à minha sala, agendo coisas  e penso em ligar para ela.  - “ Calma, Adriano! Ela está no meio a un trânsito irritante. Quer estragar tudo?”   - Digo para mim e a esqueço momentaneamente. Ao sair apago todas as luzes, travo a maldita  porta de vidro e desço com mesmo elevador de Mariela. Parece que ainda há um pouco do seu cheiro e do perfume  envolvente impregando nas paredes laminadas. O elevador se movimenta e me deixa no subsolo. La,   pego o carro  e saio do edifício. Na esquina  entro num posto Skell que mantem ao fundo uma loja conveniências, a qual frequento. No interior da loja passeio por pequenos corredores à procura de novidades. Nada. Então compro apenas o trivial; cigarros, revistas e cervejas. Por fim solicito ao meu amigo empacotador e que auxilia o caixa no horário de janta:

-Mané, por favor, 100 pratas em recarga da "Ei".

-Uai, dotô! Num vai ser os “quinzão” de sempre? – Mané pergunta, surpreso, os olhos arregalados

-Não não, Mané! Entrei numa roubada aí.  Sabe...uma baita gata... Mas.. você  ouviu corretamente! Pedi os 100 reais de crédito, mesmo – Confirmei levantando o polegar para o alto.

-Mas, mas, mas  ou dotô num tem telefone em casa?

-Não Mané, hoje as tarifas dos celulares são tão convidativas que nem compensa ter uma linha telefônica em casa.

-Ah, é...  – Ele sorri sem jeito.

Mané, vagarosamente digita os dados do meu celular na maquineta enquanto eu abro uma latinha de cerveja e a tomo no gargalo. Mané olha com um olhar desconfiado. Eu estava tão feliz que seria capaz de contar para ele tudo o que ocorrera naquela tarde.
“O senhor só pode tá louco, dotô!”  – Fatalmente ele sentenciaria. É mais que certo que  Mané não é do tipo do sujeito que acredita em amor à primeira vista.

Pensando nessa possibilidade  resolvo não arriscar e mantenho-me calado apesar das minhas cartas serem insuperáveis.

- Royal Flush! Mané! – Exclamo, alto. Mané se sobressalta

-Qui diabo é isso, dotô? - Ele me pergunta com feição duvidosa. Eu poderia explicar pra ele que era a jogada  vencedora do jogo de poker.

-Ah, Mané! Deixa pra lá! –  E ri o melhor dos meus risos

Em seguida pego o troco das minhas despesas e abandono a loja. Por momentos olho para trás e percebo que Mané ainda me olha e coça a cabeça. - Acho graça -
À caminho do carro uma enorme  vontade de assobiar “ Your Song”  Uma canção de Elton, mas com excepcional interpretação de Rod Stewart. Dizia uma parte da letra.

“E você pode dizer a todos que esta é sua canção
Pode ser bastante simples, mas agora que está feito
Eu espero que você não se importe”

Continuo assobiando a canção para uma noite que se abre tão excitada quanto um  belo par de coxas no aguardo dum  verdadeiro amor. Entro no meu carro, acendo um cigarro e expilo a fumaça para fora da janela, numa mania minha. Ligo o rádio giro o botão e sintonizo um canal de notícias onde reporteres relatam um Brasil de corruptos e corruptores. Claro! sempre haveria exceções. Aquilo me aborrece e vou para uma estação de música clássica. Ali, Chopin é tocado por um exímio pianista.Ele dedilha com maestria a impressionante  "Polonaise".No farol um desses garotos que vendem pequenas guloseimas se aproxima da minha janela com o vidro aberto. A música é tocada alta, e a fusão do piano com alguns outros intrumentos de orquestra soam incompreensíveis praquele  pirralho duns 12 anos.

-Nossa tio! Que louco, isso! - Ele exclama surpreso.

Eu apenas sorrrio e dou o seu "real" sem levar as balas de goma. Ele não perde tempo e avança serelepe para um outro carro. Sim, o Brasil tinha que produzir, trabalhar, não importava o como e nem o porque.
Pelo retrovisor eu vejo o garoto se apoiar na janela do veículo imediatamente atrás enquanto o meu  pianista martela as teclas com a mesma violência que Chopin martelou. E isso me faz relembrar um pouco da  história do grande mestre polonês e sua mágoa com os russos que,  no velho mundo, sempre se meteram em confusões.
Porém , para mim isso não faz a menor diferença.
Há tempos eu não me sentia tão feliz.


Copirraiti 05Dez2011
Véio China©


2 Clique e Comente:

Uma Telles... disse...

Legal....Mas não gostei da Mariella rss...A carol ( viu a intimidade rss ) a Carol seria a melhor opção...mas não se pode mudar uma história, talves os personagens mas não seu desfecho....uma fato....ainda assim prefiro a Carol rss. Bom texto.

Mailton Rangel disse...

Como sempre, Véio, um espetáculo de conto! A surpreendente riqueza de detalhes e e o bom esmiuçamento dos sentimentos dos personagens é sua característica mais cativante.

Abração, amigo!