Sim senhores, apresento-lhes Dolores “A Espanhola”. É uma história tanto complicada,e só sei que veio da Espanha, região basca propriamente dito e está entre nós há pelo menos dois anos, aportada no Brasil atrás dum prometido casamento duma louca história de Internet. História que com o passar do pouco tempo que nos conhecemos acabei por conhecer, confidenciado ´para mim num privilégio dado aos melhores dos seus clientes. Sei que tudo começou em Dezembro de 2008 e perdurou até em Março de 2009, quando..........
-Dô! - Ele disse com voz adocicada ( era assim que o vagabundo chamava a Dolores) - De nada vai adiantar você trazer esse tanto de dinheiro ao Brasil já que é quase certo que a Federal vai confiscá-lo assim que você desembarcar....Aqui os federais são espertos. Sabe amor... esses caras da lei vasculham tudo, inclusive seus órgãos femininos para ver se abrigam drogas no interior... - Reforçou na argumentação para impressioná-la naquela última conversa que mantiveram pelo computador.
O efeito de suas colocações foi devastador e ela se manteve reflexiva até explodir na questão que ele ansiosamente aguardava:
- Sí, mi amor. Entonces, qué podemos hacer? Puede usted decirme ?
E o golpe de misericórdia veio, dado por um canalha que a convenceu de fazer uma ordem de pagamento em seu nome e a ser sacado numa agência dum banco da Avenida Paulista.
Obvio, nome falso, conta fria.
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-Istógio? A senhola ta loca? Aqui num tem Istógio nenhum! Aqui é loja de ganha pão de Chang – Protestou um irritado chinês. Ele se assustara ante a mulher de corpo farto e brava como o demônio.
Sim, ela conferira duas, três vezes e estava no endereço que ele lhe passara. Na placa ainda se via o mesmo número telefonico para o qual ela ligava esporadicamente. Porém alguma coisa se mantinha fora do seu entendimento; Ali era o endereço de uma lan house, uma pequena loja de duas portas numa rua de pouco comércio no bairro do Bixiga.
A pendenga perdurou e o chinês tentou convencê-la, e ela, por mais que tentasse não o entendia e muito menos se fazia entender. De certo só o a insistente negativa do chinês em dizer que conhecia o tal "Eustógio". E o fato a deixou ainda mais nervosa.
- Mi San Antonio,usted no entiende, chino ... pero este fue el número de teléfono que Eustógio me respondió ! – Argumentava.
Só que desta feita o chinês compreendeu a última de suas colocações.
-Ahan aham! Mas... Chang nada a ver, né? Esse telefone num é desse Istógio. Chang apenas empresta telefone pra freguês! Freguês tem que fornecer o número do telefone da pessoa e assim que ligam, Chang chama cliente para atender - Ele tentava explicar apontando para o aparelho telefônico com o identificador de chamadas.
Ela se atinha aos lábios do chinês porém não conseguia compreender o que dizia aquele sujeito. Por fim, exausta, Dolores desistiu e ficou olhando o ambiente e aquelas máquinas navegadas por garotos que jogavam games, e eles gritavam e o alarido, unido aos tiros de metralhora e outros de efeitos sonoros acabaram por causar-lhe desespero, como se fosse ela o alvo daquelas balas. Foi então que o rosto se fechou numa tristeza imensa; tinha caído a ficha.
- Que gran hijo de puta esse Eustógio! – Bradou angustiada e abandonou a lan house sem ao menos despedir-se do chinês,
Portanto assim, naquela fria e melancólica segunda feira que, Dolores, a recém chegada em terras tupiniquins descobriu que havia sido passada para trás, lesada num 1.7.1 internético.
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-Cómo pude ser tan ingenua e estúpida?" – Ela interrompe num sofrível portunhol a nossa "espanhola" de 50 pratas num movimento irritadiço de torax que fez escapulir o meu pau do meio dos seus peitos;
- Ah mio charmoso Cristiano Ronaldo... como yo soy tonta e abestalhada! – Ela insiste no lamento. Óbvio, me irritei.
-Ei ei, Manolita! Que merda que é essa? Não tenho nada a ver com esse teu lance com o tal de “Eustógio”. Eu paguei 50 paus pra ter o meu bibelô no meio das tuas tetas! Portanto... quero o serviço bem feito, entendeu?
Não era um bom momento de devolvê-la à realidade. Senti isso no seu olhar rude e estranho daquela mulher que não levava desaforos para casa.
- Oscar , cuando su pequeño e imbecil “pipi” crescerá ? – Ela debocha do meu pênis à queima-roupa; A ira da espanhola sabia como ferir o orgulho de um homem. Que ela poderia pretender com a gozação fora de hora? Que eu broxasse?
Pois bem! Comigo ela teria que saber que não sou flor que se cheire.
-Sua rameira catalã! Não é meu pau que é pequeno, e sim os teus peitos que são descomunais! – Claro, eu tinha que me defender ante aquele indescritível par de seios, dono de um sutiã, talvez número 62 ou mais. E insinuar que ele pudesse ter as tetas como a da vaca leiteira foi demais para ela.
- No puedes te quejar Oscar ! Usted me paga unicamente la misma proporción de tamaño de su bastonete; Ou seja, quase nada!
Então ela se levanta e recoloca a calcinha amarela de rendas com pequeno furo atrás. Continuo olhando para ela enquanto abotoa o sutiã lilás. Fixo-me na região do colo e sou capaz de apostar a minha vida que naqueles bojos caberiam tranquilamente duas ótimas bolas de boliche. Depois a vejo dirigir-se à penteadeira, uma peça antiga que abriga um espelho com algumas ranhuras de tempo, e aí sim, chora. À princípio é um choro contido e calmo como as mansas ondas depois do vento sul.
Insisto no reflexo do espelho e percebo que nela ainda se emoldura algo da nobreza de antes. Nobreza essa que se esvai diante as visitas de hermanos brazilianos que pagam por seus favores sexuais, permitindo assim que ela sobreviva e quite o aluguel do obscuro quarto de pensão em que mora.
E isso me faz pensar nas desilusões, nas mentiras que cercam esse mundo virtual e suponho que outras pessoas possam estar enganadas e passando, se não pelo mesmo, talvez por coisas bem parecidas. Levanto-me lentamente e visto a calça e a camisa com um botão faltando e ajeito os cabelos; nessa noite não acontecerá nada, eu sei, ela sabe. Como sei também que é o momento da solitude, da sua necessidade de ficar apenas com suas feridas e o medo da deportação caso a peguem. Ela sabe que precisa voltar para casa, mesmo tendo se recusado procurar ajuda na embaixada do seu país - "Prefiro essa vida de cão a me sujeitar ao olhar de desdém dos meus patrícios" - Ela tinha medo que eles vasculhassem sua vida no Brasil e soubessem que uma espanhola se prostituiu - " Não preciso ser humilhada" - E com isso ela finalizava o assunto.
E é deste modo que ela vive, anda e respira entre nós. Dolores é parte dum Brasil de percentuais, de estatísticas, é parte da mentira que tratam dos números da pobreza, dos que dizem sobre a prostituição, dos que dizem que estamos bem e a caminho da felicidade. Enfim..Dolores também é Brasil.
Antes que eu saia ela já está em pé e veste um robe dum cetim rosa claro que abriga visíveis manchas de gordura. Eu insisto no olhar e percebo uma ainda beleza naqueles seus olhos negros que, aposto, brilharam bem mais que agora. Assim que me coloco à saída ela vem na minha direção com a nota de 50 e a coloca no bolso da minha calça. Faço menção de protestar, de dizer que não quero o dinheiro, porém ela refuta a minha insistência em devolvê-lo. Ao sair, Dolores beija a minha boca e eu sinto um gosto acre como se ela tivesse fartado de salada de alho e atum. Momentaneamente sinto-me nauseado e engulo a saliva e fabrico outra e mais outra na tentativa que o gosto se dissipe. Ouço o bater da porta e a sua sombra desaparecer pela fresta do piso e a madeira. Solitário agora, espero alguns segundos e retiro do meu bolso outra nota de 50 e as coloco juntas e as empurro pelo vão. La dentro as luzes estão apagadas e o que me faz crer que Dolores desagua a dor da distância e se afoga num oceano que
deixa sua alma à deriva.
-Hasta la vista, baby! Juro que não não sei o por que, mas, gosto de você! – Sussurro comigo ao sair pelo portão à caminho do ponto de ônibus mais próximo.
Assim que o coletivo encosta galgo os degraus encapados por uma grossa e negra borracha e acomodo-me no banco do fundo. O ônibus está completamente vazio e ainda há em mim um resquício do gosto do alho. Abro e olho pela janela e vejo as ruas do bairro se desfazerem de suas luzes enquanto as pessoas e a noite preparam-se para descansar. No primeiro semáforo vermelho o veículo faz a parada obrigatória e eu me esforço para fabricar mais uma pequena porção de saliva.
Ainda continuo enjoado.
Copirraiti 22Jan2012
Véio China©
deixa sua alma à deriva.
-Hasta la vista, baby! Juro que não não sei o por que, mas, gosto de você! – Sussurro comigo ao sair pelo portão à caminho do ponto de ônibus mais próximo.
Assim que o coletivo encosta galgo os degraus encapados por uma grossa e negra borracha e acomodo-me no banco do fundo. O ônibus está completamente vazio e ainda há em mim um resquício do gosto do alho. Abro e olho pela janela e vejo as ruas do bairro se desfazerem de suas luzes enquanto as pessoas e a noite preparam-se para descansar. No primeiro semáforo vermelho o veículo faz a parada obrigatória e eu me esforço para fabricar mais uma pequena porção de saliva.
Ainda continuo enjoado.
Copirraiti 22Jan2012
Véio China©

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Putz!!!Te falar...Bilingue agora? To pagando pra ler o teu chinês!!!Bom. Remete uma realidade bem interessante, pouco divulgada mas bem comum, a incessante busca dos sonhos, o escapismo através de escolhas inerente de reflexões. O texto ( não sei se foi proposital )mas traz uma crítica sútil ao cruel costume de agredirmos a todos aqueles que fogem do "padrão" imposto, como no caso da prostituição, onde apenas observamos o que há exposto e não o que esta contido, Dolores é um retrato de mulheres que vivem em busca da chamada felicidade e que seduzidas pelas possibilidades "falsas ou não" das redes sociais levam suas escolhas ao extremo sem~refletir sobre o que esta acerca do que consegue enxergar. E o carinha faz alusão à muitos homens e até mesmo algumas mulheres que se valem das oportunidades e "ingenuidade" de alguns para vivenciarem suas possibilidades antes impossiveis, mas esse "fake" de espertão do gueto cai por terra quando o mesmo sem perceber faz uma auto reflexão sobre si mesmo, suas frustações, solidão e existencia. Na finalização do texto isso fica bem claro...
Bom texto...vlw. Bem escrito também.
Eita! Se não é tu morro à minmgua! hehehe.
sempre acho bacana as coisas que vc capta nos textos que escrevo. Nesse, gostei tanto da crítica que a postei junto com o continho la no Bar do Escritor.
valeus! Sempre vale esse teu olhar atento.
Thanks!
Ah cara! valeu...mas aprendi a ler seus contos com olhar menos ( ai to de cabelo em pé rsss ) Mas inda prefiro poesias... Forte abraço. Vlw
Adorei...
beijos
Déa
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