sábado, 22 de setembro de 2012

Sobre literatura e donos de bares

Recordo uma oacasião em que estava com a perna estirada sobre uma banqueta almofada na sala de casa,  irritado naquela hibernação que me fazia perder o período das férias do trabalho. Lembro também que, ocioso e com poucas alternativas para matar o tempo me afundei em  DVDs das locadoras  e nos  programas de TVs, principalmente os policialescos como o Cidade Alerta. Sim, ja fora agendade e eu iria para um lugar bacana, afinal como todo bom sedentário paulistano já me via no litoral com a barriga grudada num daqueles quiosques à beira de praia onde cervejas e espetinhos de camarão me fariam companhia. Óbvio, era para ter estado lá misturado àquele oceano de gente, bronzeando  a pele num sol que não daria uma única mancada  assim como os funcionários exemplares.  Porém não foi daquela feita que meus pés se cravaram nas cristalinas areias de Boiçucanga e nem os olhos  fincaram embevecidos no azul do mar ou nas curvilíneas garotas a bordo de ínfimos e coloridos biquínis.

Bem, o que poderia ser aprendido com aquela nova decepção? Nada, salvo ficar atento numa próxima vez para não destruir meu carro na traseira dum automóvel qualquer. Todavia poderia ter sido pior se evetualmente fosse um caminhão o veículo que estivesse à frente. Claro, pior, afinal era bem provável que não somente a perna e  braço esquerdos estivessem fraturados,  pois iria para debaixo dele. E assim de molho, a ociosidade  junto dos filmes e reportagens me definhava quando tive estúpida idéia de exigindo da memória buscar  nomes de pessoas que de certa forma  transitaram em minha vida. Evidente, eu nem sabia porque resolvera aquilo, mas que, decido,  liguei o notebook e abrindo o Word iniciei por uma ordem alfabética. Estava quase pela hora do almoço e até então com mais de 120 nomes catalogados quando me deparei com letra “G”. Digitei alguns nomes quando me surgiu Girkins

Ao relembrá-lo meu sorriso retroagiu no tempo, talvez uns cinco ou seis anos, época bacana e importante para minha vida. Era uma fase das mais produtivas onde conheci poetas e escritores, pessoas que tinham nas veias não o plasma e células, mas sim a literatura. Girkins, claro, fizera parte daquilo. Lembro-me de quando conheci aquele sujeito falante e de sorriso franco ao estar juntamente com um  primo numa dessas confraternizações de comunidades literárias em sites de relacionamentos. E o acompanhava  não somente por ter me convidado, mas por também gostar de literatura. Naquela noite os meus sorrisos tímidos e palavras gentis foram apresentados ao pessoal. E eles me pareciam legais, inteligentes e espirituosos, tanto que acabei por me comprometer em fazer parte da comunidade que freqüentavam. Assim lá estava eu pedindo a minha inclusão comunitária, interagindo, discutindo, discordando e até  saboreando as primeiras desavenças literárias, porém nada que matasse a mim ou oponentes. Contudo foi impossível continuar  nela e logo após o primeiro ano eu a abandonei ao concluir que não sobreviveria à guerra dos egos, pois mais que a literatura se fazia necessário ter nervos de titânio. Bem, retornando ao Girkins sei que após àquela reunião e intereação na comunidade voltamos a nos encontrar outras vezes e em cada uma delas eu notava que ele se perdia da parte gentil do olhar, distanciando-se  das palavras  justas e do incentivo. Enfim, mesmo  longe eu acompanhava a sua trajetória na comunidade, e alguma coisa o transformava e não o deixava se dar conta que suas zombarias não eram o sinônimo de sinceridade. E  assim persistia e  aborrecia  pessoas, ora se contradizendo,  renegando coisas que um dia disse gostar para render-se às outras que dizia repudiar. E eu apenas percebia a sua movimentação e supunha existirem nele fatores mais relevantes que suas falácias e hesitações. Porém quais?

Claro, à época da comunidade ainda  tentei compreentendê-lo já que ao procuramos o lado racional das mutações  se torna corriqueiro nos atermos a quem ou no que o indivíduo possa estar envolvido. Inclusive porque o lugar comum dessas mutações geralmente sinaliza para o  seu meio,  o habitat em que se relaciona. Todavia eu tinha a plena certeza que poderiam  existir outros fatores que perturbassem a paz dum sujeito, assim como ocorre numa situação inesperada da sucesso  meteórico. batendo à  sua porta. Afinal, é impossível não levar em onsideração que o oba oba do prestígio e fama são capazes de modificar e em muito os valores do ser.
Portanto poderiam me questionar se o Girkins teria se tornado um dos grandes, best sellers, um novo "mago" ou no pior das hipóteses ter títulos seus  publicados em um ou dois países do Cone Sul. Sim, poderiam arguir sobre tais fatos, porém, no caso de Girkins, asseguro, nada disso se materializou. Houve sim um livro, porém nada de especial, uma dessas publicações comumente  financiadas pelo próprio bolso e que mais têm por  finalidade a vazão da vaidade pessoal que propriamente a  intenão de ser flagrar  sucesso editorial. Evidente, sei que haverão exceções, contudo na maioria das vezes  eles serão apenas escritores independentes sonhando com o interesse das grandes editoras. Todavia não há como alegar que esses  mesmos autores desconheçam que a frieza do leitor relegará suas obras às prateleiras empoeiradas das pequenas livrarias ou empurrará seus título para as bancas promocionais dos sebos de R$1,99. Sim, sei que é uma forma rude de se analisar, porém e invariavelmente é assim que acontece.

Bem, talvez eu pudesse estar queimando a própria língua, afinal o mercado editorial é tão espantoso e imprevisível quanto o jogo do bicho e reviravoltas poderão acontecer tanto o quanto o argumento dos otimistas que diz que um dia jamais será igual ao outro, o que é absoluto. Enfim, se a negação do sucesso não se fizesse o motivo das suas questões então  poderia ser qualquer outro,  talvez até algum não notado pela percepção. Porém fosse o que fosse, aquilo estava incrustrado nele  e parecia conturbá-lo, e isso ficou  patente na noite do nosso último encontro numa festa onde travamos um diálogo insano,  talvez até por culpa da bebida.  E sobre a festa eu recordo que fazia um bom tempo que estava por la e tudo começou no esbarrão que casualmente nos demos na cobertura de mais de 800m2 de um grande editor. Fazia um bom tempo que não via Girkins, e assim olhamo-nos discretos e apertamos nossas mãos. Depois sorrimos com alguma simpatia num mesmo instante que  Girkins interpelava o garçom que se passava ao seu lado. É bom frisar que tanto ele quanto eu éramos ótimos bebedores. Portanto também pedi o meu. Óbvio, Girkins desconhecia, mas eu ja havia tragado uns cinco ou seis copos daquele ótimo uísque 12 anos. Portanto após retirar o drink da bandeja girei as esferas de gelo no interior do copo para que se  fundissem rapidamente  à excelência do malte escocês.

E assim diante do nosso silênio e com uma gélida sensação nas pontas dos dedos permaneci brincando com o copo  e com as pequenas bolas de gelo, supondo que a qualquer instante Girkins fosse desistir de mim. Ao contrário, e o tiro saiu pela culatra ao sentir o pousar da sua mão em meu ombro e, depois o meneio de sua cabeça num chamamento para que eu o seguisse. Ainda com a mão direita em meu ombro e um copo na outra Girkins  me guiou ao meio do mar de gente até atravessarmos a sala e darmos na sacada daquele apê de oito suítes e piscina privativa.
Ao ganhar a dependência aberta fui tocado no rosto por um vento frio enquanto Girkins num gesto de mão me pediu que sentasse numa daquelas seis poltronas que estavam à nossa frente. Ao me perceber acomodado sentou-se enquanto eu acendi um cigarro de filtro amarelo, démodé inclusive. Sentados, Girkins, inesperadamente me pareceu desconcentrado e os seus olhos perambularam por todos os cantos, porém sem que se afixassem em algo, ao menos que notasse. Repentinamente e talvez relembrando que me deixara ali observando suas atitudes insólitas dirigiu o olhar na minha direção. Olhamo-nos profundamente. Talvez Girkins  procurasse  respostas  não par si, mas para o seu estado de embriaguês, apesar de também não me considerar em boas condições.

-Sabe Bradlley... - Ele começou - Tudo o que eu queria é que alguém afirmasse: Vai, Girkins, faça desse jeito e tudo vai dar certo e você será um cara feliz e realizado! – Finalizou exclamando num tom grave e pastoso, quase profético.

E conforme seus lábios se moviam detalhei a sua estampa e percebi algo diferente na sua compleição. Parecia que Girkins havia ganhado massa muscular, fato tão comum aos usuários das academias. E digo por que os músculos dos seus braços se sobressaiam naquela camiseta negra e de mangas curtas com um “Simple Plan” estampado ao centro. Realmente Girkins estava em grande forma, e a sua aparência nos remetia a  Maglok, um herói troglodita,  já que seus cabelos acastanhados, antes curtos e agora longos e ao meio das costas davam esta impressão.  Enfim, super-herói ou não ele parecia aguardar minha resposta. Pensei e não sabia o que responder, e talvez a sinceridade fosse meu melhor caminho.

-Bem  meu caro Girkins,  não me sinto capaz decifrar o enigma colocado. Sabe, igualmente à você acometo-me de fragilidades existenciais, talvez não as mesmas que as suas,mas...fragilidades –  Ponderei reticente. Ele me olhou popr uns bons 20 segundos antes de responder.

-Ah sim, posso deduzir a sua conclusão – Foi a sua resposta num tom de certo desânimo. Depois me chamou para si e curvando o peito sussurrou como segredasse tese conspiratória.

- Sabe Bradlley... depois de tantas procuras descobri que não mais acredito na ordem estabelecida e  nem nos valores impostos pelas classes dominantes. Quero e preciso manter distância dos juízes, padres, conselheiros, e toda essa corja. São uns farsantes que se supõem os donos da verdade - Divagou com a mão tremula enquanto a bebida dançava em seu copo.

Pensei sobre as suas colocações e elas me pareceram preconceituosas, afinal se fosse para protestar ou deixar de crer em algo deveríamos questionar a humanidade como um todo, e não somente as autarquias ou as igrejas, ou mesmo os pastores evangélicos. Afinal, pelo que sacramentara era mais que provável  que Girkins os tivesse na conta de nefastos formadores de opinião e opressores da pobre e incauta  humanidade. E outra; Era estranho sentir um Girkins fragilizado daquele jeito, aliás, um anarquista fragilizado, ainda mais pelo fato de passar a imagem de um sujeito durão, debochado e irreverente. Bem, ele fazía-me pensar apesar de continuar sem respostas para as suas  questões. Entretanto lá estava o seu olhar tenso, inquiridor, buscando-me como se eu fosse um transgressor.
E ele apenas aguardava, aguardava. Sem saber o que  dizer tentei sair-me com uma besteira qualquer.

-Bom, Girkins, talvez a sua salvação fosse o Jim Jones. Mas o cara tá longe, muto longe  – Repliquei com um sorriso nos lábios; eu tentava suavizar a relação. Ele apenas ficou me olhando enquanto eu me perguntava qual fora  o diabo que colocara a idiotice em minha boca. Depois dos seus olhos se desfazerem da surpresa ele pareceu se interessar por Jim Jones.

-Ué Bradlley! Porque você disse... ta longe, muito longe? Por acaso esse tal de Jim mora no Saara? - Perguntou irônico. Essa era uma das formas dele tentar soar engraçado mesmo que se esforçando em manter a cabeça e o tórax eretos. Sim, aquele era o Girkins, e continuava afiado como sempre.

-Não Girkins, Jim não mora e nunca morou no Saara – Repliquei - Pra te falar a verdade, numa hora dessa o cara deve estar pregando no inferno. Jim Jones era americano e fundador de uma seita religiosa denominada  Templo do Povo

-Templo do Povo? Pregando no no inferno? Como assim, Bradlley? Não entendi bulufas. – Ele devolveu enfastido. Eu achava engraçado vê-lo tentando manter o corpo rígido,  um super-herói  resistindo ao avanço da embriaguês.

- Assim Girkins... Esse tal Jim Jones se proclamava um reverendo. Porém era um fanático insano e morreu junto dos seus 900 perturbados seguidores. Foi suicídio em massa, todos envenenados em 1978 na Guiana Francesa. Ah sim, todos exceto o grande Jones que se negando morrer daquela forma tão estúpida meteu-se um tiro nos miolos, afinal, era ele papai da turma.

-Ah... que interessante, suicídio em massa na Guiana Francesa, sei, sei – Divagou. Depois avançou – Bem, esquecendo essa bobagem  de Jones, talvez o Bukowski pudesse ser o cara e tivesse algo pra falar. Mas o filho da puta tinha que morrer num leito de hospital em L.A leucêmico e com tripas adormecidas na bebidas? – Reclamou num tom dramático e mórbido.

Sim, para nossa sorte ou azar tínhamos em comum o fato de gostarmos das coisas do Velho Safado. Ele sorriu, eu sorri, amarelos. Depois pigarreou e perguntou, aliás, caçoou no estilo de sempre:

-Ah, por falar em Buk... continua escrevendo aquelas merdas que tentam imitá-lo? –  Fiz que não escutei o seu mais recente surto de sinceridade. Porém Girkins ainda não estava contente.

-Por mais que tente jamais escreveu bem. Sempre soube disso, não é? – Concluiu sacástico. Achei curiosa a afirmação, ainda mais para alguém que abominava dedos apontados. E além do mais eu até poderia concordar com ele. Não faria a menor ou qualquer diferença.

Todavia aquele clima obscuro acompanhado da sua nervosa angústia me fez perceber que Girkins passava por sérios problemas, afinal,  como que um sujeito em sã consciência poderia ver em  Buk o atalho para mitigar incertezas de quem quer que fosse?  Antes pedisse a ajuda de Kurt Cobain, talvez fosse mais produtivo – Concluí em pensamento -  Sim, Kurt,  lembram-se dele? Kurt Cobain, o fundador do Nirvana, aquele mesmo sujeito que cuspiu na lente duma câmera da TV brasileira. Ah, que besteira  a minha! Kurt também não resolveria; Kurt estava morto por um tiro dado por sua própria mão. Morte que, dizem as más línguas, frustrada, pois ao que parece o maluco beleza descobriu que Courtney Love andava trepando com criador do maior Fã-Clube da banda. E o pior; Kurt conhecia o sujeito e até o julgava meio assexuado  - Concluo no sorriso cretino dos meus delírios quando outra vez os meus desvairamentos são decepados pelas irritantes dúvidas do Girkins.

-Onde estão os loucos, os livres, os rebeldes? Responda-me Bradlley!  Não haverá ninguém para me salvar? – Insistia agora numa tonalidade alterada de voz. Eu achava estranho e inusitado o fato dum anarquista procurar por um salvador da pátria.

- Ah não sei Girkins, realmente nem sei o que te falar – Devolvi lacônico e sem paciência num mesmo momento que o garçom veio até nós e nos ofereceu uma nova rodada de scotch. Servimo-nos, afinal de 12 em 12 anos nunca se sabe se havera uma nova chance.

Ficamos olhando um para o outro e eu bebericava o drink com as suas tolas questões me acabrunhando. Agora eu era o testemunho do quanto Girkins estava mal, muito mal. É muito ruim quando não temos as respostas para as perguntas que nos pareçam importantes, mesmo que estúpidas. Po fim, muitos poderão se questionar - Por que minha mulher traiu? Por que meu time perdeu? Por que meu filho bateu o carro? Por que a empresa demitiu? - Enfim, são e serão tantos os porquês das questões que jamais findam.  Sim, e pensando noss "por ques" viajei numa antiga peça  publicitária da IBM, talvez uma das mais inteligentes criadas. Dizia ela algo mais ou menos assim:  O mundo não move nas respostas, mas sim em perguntas. E aquilo parecia fazer sentindo,  afinal, quantas balas perfuraram miolos que apenas se perguntaram? – Eu não sabia, aliás, ninguém sabia - E aquilo me  pela primeira vez me preocupou eu temi por sua integridade. Caraca! Repentinamente passou-me pela mente que Girkins poderia terminar como um Lennon. Não, que bobagem a minha! Girkins jamais seria assassinado pelo tiro certeiro de algum anti-fã ou por invejosos de plantão. Não, nada disso! Não haveria fã com suficiente coragem ou invejosos com um ranço de tanta violência. Não, não, é o oposto,  literatos quando colocados sob pressão  resolvem suas pendengas assim como as meninas futriqueiras, dessas que fazem beicinhos, fofocam no ouvido das amigas, colocam as mãos na cintura para ao fim darem tudo por resolvido.  E outra, Girkins não se curvaria tão fácil. Girkins jamais fora um coração de pudim diet. 

Não, definitivamente Lennon estava fora dos planos. Por que fora relembrar de Lennon? Antes, Jim Jones, depois Kurt, e agora Lennon? Não, não! Eu só podia estar fora de mim ou me acometer de insanidades temporárias  ao supor Girkins na pele do beatle. Imaginem Girkins pousando para fotos aos seus milhões de fãs  num desses hoteis decadentes de N.Y. Deixem a imaginação transcender e o vejam num ambiente claro, paredes alvas, tão brancas como a cor da paz.  Não, era muita loucura pois jamais  vislumbraria Girkins num terno branco, camisa branca, tênis e os cadarços brancos, apesar de na cena existir uma mulher nada branca, mas amarela, oriental. Enfim, apesar de toda aquela loucura a mulher também se encontraria lá, mas igualmente estaria fora de propósito.
Não, eu tinha que mudar o foco das minhas tenebrosas premonições, afinal, Girkins jamais fora um sujeito do tipo afrescalhado, desses que só usam  roupas e sapatos brancos e meias brancas que combinem com suas cuecas brancas .  Não! Girkins era macho, tinha estilo, um desbravador, um contestador anarquista, apesar das suas leves andanças pelo selvagem mundo capitalista, incluindo o editorial.

Que merda! Girkins tinha que persistir naquele seu blábláblá em encontrar um salvador? Catzo, será que o sujeito não percebia que estava me deixando maluco com aquela conversa mole? Olhei pra ele e o mesmo tom inconformado continuava impregnado nele. Girkins clamava por respostas, e sem tê-las entupia-me de perguntas:

-Onde estamos todos nós senão procurando alguém que nos guie?  Até você, Bradlley, precisa de alguém pra te guiar! - Agora ele quase que berrava numa expressão insana e de quem tinha certeza que eu necessitava do meu Malcolm X existencial.

-Vamos Bradlley, me diga, aonde vamos achar esse sujeito? Aonde se esconde o miserável, a pústula? – Girkins gritava demente enquanto seus olhos faiscavam loucura

-Fale Bradlley, por favor! Se souber me fale onde está o salvador? – Ele ofegava.

Porra! O cara era um perfeito mala! Eu poderia ter citado para duas dezenas de salvadores como o Elvis, Brian Jones, Jim Morrison, Hendrix, Joplin, Freddie Mercury, Bonham, Moon e tantos outros, afinal eu confiava mais no pessoal do rock que propriamente nos sujeitos  temperamentais e volúveis da literatura, afinal quem acreditaria piamente naquilo que dissesse um Celine ou Ginsberg?
Sim, haveria saída para Gurkins se não fosse ele tão radical. Verdade! havia salvação para ele, e ela  poderia ser encontrada nas linhas bíblicas, porém Girkins jamais dera ouvidos ou acreditara naquelas conversas de céu e inferno, de Deus e o Diabo.
Todavia eu também estava me enganando, afinal sabia que não existiria saída para ele exceto a complexidade dum sucesso imprevisto e meteórico. Porém aonde se escondia nele a fluência e a criatividade? Não, infelizmente inexistiam,  não porque eu ou qualquer outro quisesse, mas sim pela própria limitação a que se impunha, vela boa desperdiçada com defunto sepulto. Era mais que chegada a hora de dar um basta naquele seu desvairamento.

-Girkins, você já pensou em comprar um bar?  Mas... to falando dum bar de verdade. Acredito que você daria um excelente dono do boteco.  Sabe, um desses que jamais fecham. Já esteve em algum? – Perguntei-lhe à queima-roupa denotando austeridade na voz. Ele me pareceu surpreso e reticente, depois respondeu:

-Um bar que jamais fecha? Como assim..jamais fecha,  Bradlley? – 

-Assim, Girkins... um boteco 24hrs, do tipo caixa eletrônico,  um lugar onde você comercializaria bebidas, aturaria bêbados, venderia rabos-de-galo, cachaças, sardinhas escabeche e picles em conserva, desses que vêm em enormes potes de plásticos... você deve saber – Sugeri num tom mais leve, amuando os ombros

-Cara você só pode estar  ta louco! – Fuzilou-me Girkins. Seus olhos faiscavam – Minha praia é outra, sabe disso, é a literatura. Você acredita que ser dono de bar me faria encontrar respostas? – Acredita mesmo nisso? – Perguntou-me com olhos esbugalhados. Ele estava furioso.

-Não! Pra falar a verdade, acredito não, Girkins! Mas... você quer a máxima sinceridade, não é? – Perguntei calmamente. Eu jamais poderia supor que o simples fato de sugerir a compra dum bar pudesse repressar tamanha ira.

-Claro Bradlley, sempre máxima sinceridade! É justo diante da estupidez da tua proposta. Que vantagem eu poderia levar ao ter um bar? Vamos, fale! -

-Você? Bem, Girkins... você talvez nenhuma... mas em contrapartida sairia de um pouco de circulação, daria um tempo, uma folga, um break... – Respondi na estampa de um sorriso cretino.

Girkins apenas ficou me olhando perplexo. Levantei, dei alguns passos e sai dali. Ganhando o ambiente da sala e perdido entre mais de 200 pessoas trombei com o garçom e ele me pareceu familiar.

-Ta lembrado de mim? – Perguntei

-To sim senhor! – Ele respondeu com um sorriso desbotado nos lábios. Ele me parecia cansado. - Bem, há algum problema se eu me servir de dois desses três copos que estão na sua bandeja? – Perguntei.

-Claro que não, senhor!  Se quiser pode beber todos! - Ele respondeu solícito e sem denotar espanto,

  -Ok, valeu! - Agradeci ao retirar os dois copos de uísque da bela peça de prataria. talvez eu não tenha me apossado do trio por não ter três mãos. Pensei comigo mesmo.

Pensei no garçom e concluí que certo estava ele. Ele e a sua paciência em servir todos aqueles caras esnobes, pedantes, arrogantes. A necessiadade o obrigava estar ali batendo o seu ponto, ganhando um dinheiro honesto, mas aquilo que ansiava estava fora dali, e ele queria dar no pé o mais breve, se possível antes das duas da madrugada prum último e solitário ônibus das três no terminal do Parque Dom Pedro. Aposto que naquele instante seus pensamentos se concentravam na sua casa de periferia. E agora ele entrava pela porta da sala e se dirigia ao quarto. E mesmo estando aqui era como se ele pudesse sentir a fragrância da lavanda impregnando os lençóis azuis da sua cama onde a esposa de banho tomado o aguardava ansiosa e preocupada. Ainda o vi bailando pelo salão com a bandeja e seus pensamentos quando resolvi me retirar dali com um copo em cada uma das mão e estacionei num putro ponto da sala, talvez há dez ou doze metros donde estava. Com um olhar que afirmava ainda não estar ébrio levantei o braço da direita e dei um gole na bebida.  Provavelmente me imaginassem um cara ridículo com aqueles dois copos nas mãos, porém eu olhava para as pessoas e elas pareciam não se importar, e continuavam falando, gesticulando quando virei o corpo e olhei à direção da sacada e o Girkins não mais se encontrava por lá. Procurei-o ao redor e o vi conversando com um sujeito idoso, talvez uma recente vítima que estivesse em condições de lhe indicar o novo gurú, messias, ou fosse lá o nome que se desse ao fantástico salvador. A conversa entre ambos desenrolava não tão próxima de onde eu estava, mas o velho sorria bastante e eles pareciam navegar por mares tranquilos. Repentinamente eu vi a sua mão direita pousar no ombro do velhote, e eles calmamente seguiram para a sacada. Chegando lá o senhor ajeitou-se numa daquelas confortáveis poltronas estofadas num um couro grená enquanto Girkins já havia se acomodado e parecia procurar por algo que só ele sabia o que era e onde estava. Eu olhei para a cena e sorri. E sorrindo elevei agora o braço o esquerdo, e curvando o pulso centrei o copo à boca e traguei outro gole do uísque que tingiu o vidro numa tonalidade à caminho do ferrugem.

As coisas não me pareceram tão ruins quando uma loira muito assemelhada à uma Ana Hickmann em menor escala grudou em minha estampa e não mais desviou o seu olhar. Eu olhei pra ela e retribui. A seguir notei que a amiga se retirou do seu lado, talvez me deixando lvire o caminho. Sem pressa alguma e ainda com um copo em cada mão me dirigi até ela. A garota continuou sorrindo, depois me pediu licença e pegou o copo que estava na minha mãoda esquerda e deu um delicioso gole feminino. Eu olhava para ela e observava a sensualidade dos seus lábios mordiscando um ao outro com o intuito de evitar o acúmulo do malte escocês sobre o batom cintilante e de tom claro. Ainda persistíamos sorrindo um para o outro, simpáticos e receptivos.

-Muito prazer, meu nome é Bradlley! - Apresentei-me com feição impressionada

-Prazer! O meu é Ana Beatriz! - Ela devolveu expondo a dentição alva e perfeita. Eu sorri; A garota se chamava Ana além de ter os dentes bonitos.

Sutilmente inspecionei-a dum jeito mais apurado e, se se houvesse coisas que conhecia bem  eram os olhos e olhares. Portanto, apesar de serem lindas, aquelas contas esverdeadas não eram suas, afinal eu trabalhara sete longos anos no balcão de uma grande ótica da cidade. Porém as suas lentes eu reconhecia, inclusive a excepcional qualidade. Tudo se caminhava promissor quando repentinamente me veio à mente o  filme "Easy Rider" lançado no Brasil com o título de "Sem destino".  Porém eu não era Peter Fonda e nem ela o Dennis Hopper. Entretanto  não conseguia me desvencilhar das imagens das Harley Davidson, do amor e nem vento mimando o rosto da pequena Hickmann. Sim, era mais  uma viagem minha, uma das tantas que eu tinha. Continuei sorrindo e depois traguei outro gole quando o gelo colidiu com meus dentes tornando-os sensíveis. Aquilo não me incomodou e nem eu pretendia ser clichê, mas a noite era e seria uma eterna criança. Falávamos e nossos rostos estavam tão próximos que um pressentimento me dizia que as coisas ainda iriam esquentar.
Aquele  seria o meu último drink da noite, decidi. Eu percebia claramente que deveria poupar energias.

Copirraiti22Set2012
Véio China©

4 comentários:

Raquel Ordones disse...

escreve paca, Véio...SHOW!!!

Roberto Hefler disse...

diz-me quem é tua musa inspiradora deste que te direi que és: Veio FDP de sacana!

Valéria Cruz disse...

Ser ou não ser...eis a questão!
Tens muita "lábia" moço, escrita boa escorre, um certo cinismo, talvez...mas agradável de ler.
Gostei...rs
Bjão
V.

Wasil Sacharuk disse...

O parágrafo introdutório ficou bom demais. Logo após, a ambientação é outra. Evidenciou o efeito da viagem da memória.

"Divagou com a mão tremula enquanto a bebida dançava em seu copo". Tu consegues efeitos descricionários mui verossímeis. Um show.

" Ele e a sua paciência em servir todos aqueles caras esnobes, pedantes e arrogantes. A necessiadade o fazia estar ali e ganhar o seu dinheiro honesto, mas o que ansiava poder estar fora dali o mais depressa, se possível ante das duas da madrugada prum último e solitário ônibus no terminal do Parque Dom Pedro. Aposto que naquele instante seus pensamentos se concentravam no seu bairro de periferia, e na sua casa. Mesmo que fosse agora podia sentir a fragrância da lavanda impregnando os lençóis azuis onde uma esposa sonolenta e de banho tomado o aguardava preocupada. " - Po, Véio. Já fui garçom... é assim mesmo que acontece. Mandaste ver.

gostei pacas