Por que sou assim?
Aspirivaldo olhou para o próprio corpo enquanto aguardando na fila era detalhado pela curiosidade da criançada, adiante e atrás de si.
“-Por que mamãe teve que ceder à pessoa? “ – Questionou o momento íntimo havido entre sua mãe e seu pai biológico – ‘E ainda mais: por que eu prevaleci?’ – Inquiriu a si, a agilidade e bravura de ter sido o primeiro e ter como louros da vitória o direito de fecundar o óvulo de sua mãe.
Atrás de si outros olhinhos ávidos e curiosos:
- Papai, quanto anos será que esse menino tem? – Um guri duns 6 interrogava o pai apontando-lhe o dedo.
- Caique, ele não é um menino – Respondeu o pai ainda jovem, porém constrangido.
-Uai, papai! Então o que ele é? – Surpreendeu o garoto com o indicador ainda apontando em riste.
Aspirivaldo já se acostumara com essas cenas. Aliás, Aspirivaldo estava acostumado com tantas coisas nessa vida que a observação do garoto nada mais era que um fato corriqueiro, desprovido de qualquer preconceito ou maldade. Porém algo o atormentava, e quase sempre ele acordava aos suores, sobressaltado por pesadelos onde vislumbrava o momento da cópula do mãe com o pai, para depois, sem mesmo ter um porquê se ver deitado na mesma cama com outras três mulheres, sem a presença dos pais. E as mulheres mordiam seus lábios e engalfinhavam-se a ele, insistentemente incitando à penetrá-las até que ele, urrando com leão ferido de morte as fazia ter orgasmos múltiplos. Então, cansados, saciados pelo gozo supremo, todos adormeciam. Como não passassem esses pesadelos, e acreditando piamente que isso pudesse ser coisa do mal, à conselhos de amigos procurou uma igreja evangélica e converteu-se: pelo menos agora havia um Pai para ele.
Ali na fila os pensamentos de Aspirivaldo eram dedicado a Igreja e a esses pesadelos quando fitou o garotinho que meio amedrontado se agarrava às pernas das calças do pai. Chateado por perceber que atemorizara o guri desviou seu olhar e imaginou se um dia haveria esperanças para si: queria saber quem era, de onde viera. Sobre o seu passado apenas um grande espaço vazio, uma lacuna em branco da qual pouco ou quase nada sabia: A mãe ainda em vida jamais gostara de tocar no assunto do pai. Bom filho e respeitador da hierarquia familiar para não vê-la aflita aos poucos deixou de tocar na ferida de ambos, até não mais fazerem menção sobre ele.
E assim que ela se foi, ele, órfão aos 15 foi obrigado a gerir sua vida e sustento.
Evidente, sem qualquer qualificação ou estudo abraçou a carreira de engraxate, um lustrador dos bons, preferido entre outros garotos que trabalhavam numa pequena engraxataria de bairro: A preferência talvez se desse por acharem engraçado o fato de ele se encaixar como uma luva na caixa de engraxate sem precisar encolher as pernas quando sentado em sua ferramenta de trabalho.
Isso perdurou até os 17, quando num dia de jogo do time de bairro fora descoberto pelo técnico adversário: um profissional do sexo.
Naquele dia, Aspirivaldo, o mascote do Cruzeiro F.C. ao trocar de roupa após a partida no único vestiário existente , permitiu que o técnico do time adversário visse o tamanho descomunal do seu membro.
Este, impressionado e com idéias lhe fervilhando a cabeça, ao sair do vestiário entregou um cartão ao pequeno homem, onde se lia: “PornoStar Produções Artísticas e Cinematográficas”.
- Se te interessar, me procure. Há um futuro brilhante para você! – Comunicou com ar pomposo. Ao que, Aspirivaldo, um tanto constrangido, respondeu:
-Mas, não tenho experiência alguma. Eu nunca fiz aquilo, sabe.... – O rapaz sorriu: Estava ali alguém fácil de manejar. Antes de apertar a mão do nosso anão, em despedida disse:
-Isso é muito interessante!
Assim que ele se foi, Aspirivaldo sonhou. Era justo que progredisse, que pretendesse ter uma vida melhor: estava cansado de morar em quartos de pensão, enjoado de ter aquelas graxas negras, marrons entrando pelos vãos das unhas e que lhes davam aspecto nauseante.
De lá para alguma glória foi um pulo – As pessoas gostavam de ver o pau imenso do anãozinho penetrando aquele amontoado de loiras com caras de vadias. Porém, com a falta de outras novidade os negócios e cenas nebulosas do staff foram deixando de causar interesse. E sem outras inovações que aguçassem o interesse daquele tipo de público, os filmes deixaram de se manter no topo, portanto começaram a se empoeirar nas prateleiras das locadoras, abreviando assim a carreira de sucesso do mini ator pornô.
Precavido, Aspirivaldo, sabendo que aquilo talvez não durasse para sempre economizou o suficiente para montar uma revenda de água e gás. E ainda hoje na sua empresa não são poucos os clientes que, sorridentes pedem para que ele pose para fotos ao lado dos garrafões azulados e das cotas de gás, num contraste insólito e divertido.
-Mamãe, que garoto estranho. Tem cara de egente grande e parece um homem! – Ouviu de uma outra garotinha que esticava o braço em sua direção – Ele riu - Nâo se esqueciam dele - A mãe sequer deu atenção à menininha e a puxou bruscamente pela mão afim de livrar-se do assunto incômodo.
Catracas liberadas, Aspirivaldo riu enquanto caminhava à passos curtos na direção da entrada principal – para ele aquilo era tão normal –
Ao entrar procurou um lugar nas arquibancadas onde pudesse ter ótima visão do espetáculo. Repentinamente surgiu alguém:
-Prezado público! Temos a honra de anunciar mais uma tarde de alegrias! Estarão com vocês os maiores artistas circenses desse país! – Exclamou o anão vestido num terno vermelho e com uma ostensiva gravata borboleta amarela dependurada no pescoço, bem ali, no centro do picadeiro
Assim que fez o anúncio a banda soou alto e as atrações daquele circo vindo de Pernambuco.foram adentrando à arena, até tê-la repleta.
Aspirivaldo olhava para todos de forma apaixonado e via as atrações se apresentarem uma a uma: a garota da corda bamba, o atirador de facas, o trapezista, os palhaços, o domador e seus leões, tigres. Aquilo o deixou extremamente feliz: - Ele sempre quisera ser um homem de circo –
E as atrações se sucediam uma após o outra até chegar a vez dos palhaços.
-Querido público, agora com vocês, Pimpolho Louco e os Chicletes Selvagens!! – Anunciou o nanico de terno berrante.
Tão logo anunciou, se desfez das roupa encarnada que vestia, mostrando que por baixo havia outra de um azul forte e com bolas imensas, coloridas de vermelho e laranja – No peito, uma faixa se via: O nanico das multidões
E tão rápido quanto se desfizera das roupas ele pulava e dava cambalhotas enquanto a turma do Chiclete entrava em cena, surgidos repentinamente por detrás das cortinas.
Enquanto todos faziam peraltices um dos anões da turma do Chiclete disparou na direção do Pimpolho Louco e virando para a platéia, em tom jocoso perguntou:
-Criançada! Vocês sabem qual é o nome desse sujeito enorme e de pernas curtas?
A gurizada não deixou por menos:
-Nãoooooooooooooooo! – Ao que ele retomou:
-Então eu vou contar! – E chegando próximo da primeira fileira, como se confidenciasse seus pecados, gritou numa voz engraçada: - O nome desse abestalhado do Pimpolho Louco é ASPIRIVALDOOOOOOOOOO!
Foi o suficiente para a gurizada explodir numa gargalhada. Entretanto o Pimpolho Louco não queria deixar por menos, e como ir à forra era necessário correu para o lado oposto onde fora o outro e instigou a gurizada:
-Ele fala de mim. Masssssssssssssss. Vocês sabem o nome dessa lagartixa descascada?
-Nãooooooooooooooooo! – Divertiu-se a meninada
-O nome dessa coisa enorme é ARISCRAUDIOOOO ! – Gritou o Pimpolho Louco, para depois dar piruetas, gargalhando.
A gurizada explodiu num alarido enquanto o nosso anão permanecia atônito, perdido entre o público. - Era ele! Era seu pai! – Coincidência assim jamais seria possível –
Seu coraçaozinho batia loucamente num ritmo que ele jamais sentira. Parecia que o órgão queria lhe sair pela boca –
-Meu Deus! Meu coração parece maior que eu! – Sussurrou para si –
Foi quando começou a sentir-se mal : uma dor lancinante como se fosse um raio invisível a varar-lhe o peito. As vistas escureceram e a dor o fez perder os sentidos – Estava enfartando - Momentaneamente o burburinho tomou conta daquela parte da platéia e as pessoas se aglomeravam à sua volta – Por momentos o show foi interrompido, e mesmo havendo a rápida intervenção dos paramédicos mantidos de plantão, de nada adiantou. Como nada mais havia a se fazerele foi envolto por um grosso e negro plástico. Eles o retiravam numa maca enquanto lá de longe, no centro do picadeiro, os seis anões ajoelhados e de mãos postas rezavam uma Ave Maria para o assistente desconhecido.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Um dia de chuva e as Testemunhas de Jeová
Apressado eu desci as escadas de casa numa tarde de muito vento e promessa de temporal. Pra variar, a pressa naquele momento era maior que a minha vontade de viver. E a insofismável prova que meus dias de há muito não eram dos melhores estava lá, nas insistentes palmas de duas senhoras ao portão. Usavam vestidos simples, folgados e longos. Os rostos sem qualquer maquiagem, os fartos cabelos puxados para trás, enrolados no alto e atrás num coque fazia de suas feições algo ameaçador. Elas estavam bem mais ansiosas que eu.
- Por favor meu filho! Tem um minutinho para nós?
-Sim! Do que se trata? Perguntei ao me aproximar
Ela me olhava com um sorriso estranho, forçado, quase fanático.
-Deus veio falar com você! – Respondeu-me.
-Glória Jesus! Hoje é dia de júbilo. Deus veio até você! – Exclamou a mais encorpada. Olhei para ela, e ela me pareceu tão estranha quanto a outra.
Paradas e a espera que eu tivesse alguma reação eu me ative nelas e nos negros e grossos livros que traziam debaixo do braço e tive a certeza: Eram Testemunhas de Jeová. Quase ao mesmo tempo retiraram as bíblias do sovaco e abriram numa das páginas. Evidente, nem aguardaram pela minha resposta: já estava estourando o minuto a que se propuseram.
Talvez tenha sido a minha surpresa ou o meu olhar assustado que foram tomados por elas como de alguém que necessitava de alguma salvação. E eu apesar de não ser religioso e nem praticante não me julgava incrédulo em Deus nem no seu filho de belos olhos azuis, porém estava tão desencantado com a vida que desistira de qualquer vínculo com Ele - eu nunca fora um homem de muita fé - E isso mantinha-me convicto que ele, sem alternativas, aceitara a minha desistência.
E antes que elas retomassem, antecipei-me :
-Olha dona, sei de tudo que ele irá me falar. Mas pra ser sincero com a senhora o que eu necessito é de alguma ajuda com isso aqui! – Exclamei espalhafatoso ao abrir o portão e chacoalhar no ar alguns papéis em minha mão, na vã esperança que me dessem passagem.
A mais bunduda e curiosa se interpôs na minha frente e esticou o pescoço na tentativa de ver o que diziam os papéis - Eram avisos do cartório de protesto ameaçando a minha integridade enquanto cidadão – E o motivo era um só - Eu estava desempregado há cinco meses, alvo fácil de credores e principalmente do Sr. Samuel, das Casas Bahia. E nesses casos, como é de esperar, os homens de negócios são capazes de tudo e até de nos fazerem perder de um momento para outro tudo aquilo que lhes pagamos com tanta dificuldade. E isso me preocupava sobremaneira: havia uma a esposa furiosa que por conta da situação já não trepava e nem me amava como antes. Portanto, ficar sem o televisor e a sua novelas das 8, sem o fogão e os seus ovos bem passados seriam motivos, a seu ver, mais que suficientes para nos levar cada um para o seu lado. Se justa ou não, essa não seria a primeira vez que esse pessoal de crediário nos causava constrangimentos – Porém, acreditar que mais uma vez ela se rendesse ao meu poder de persuasão parecia-me tão impossível quanto ganhar sozinho na megasena.
Diante dos motivos e da minha exaltação a pregadora, estática e surpresa foi incapaz de esboçar qualquer reação. A outra, a de bunda menor, mais frívola e calculista, percebendo que a colega deixava escapar a ovelha pelos vãos dos dedos abriu a bíblia, provavelmente na página que se fazia o carro chefe da sua pregação e, severa no olhar e na voz, solenemente me alertou: “ Só a palavra do Senhor será a tua salvação “ – Eu a olhei aturdido. Talvez para minar definitivamente a minha resistência, ela culminou ameaçadoramente : “ Sem ela não haverá luz e tua alma se consumirá nos caminhos das trevas”.
-Glória Jesus! - Comungou cúmplice a que me deixara escapar do laço, revitalizada pelo providencial auxílio da colega. E ela, agora recomposta e denotando ternura na voz, concluiu procurando uma outra página da bíblia. O tom professoral aguardava a minha rendição:
-Veja, oh filho do homem: Deus é o pai. O Senhor quer testemunhar a sua ressurreição de um mundo profano. O Pai celestial quer ser fiador da tua fé, e não das suas dívidas!
O diálogo insano e surreal e os pingos de chuva, agora mais encorpados que escorriam pelo alto da minha testa como se fossem moleques brincando num tobogã de parque aquático foram demais para mim:
- Ai meu Jesus Cristo! Não me falta mais nada! – Exclamei alto com certo desespero.
Porém elas não desistiam, nunca:
-Falta sim meu filho! - Respondeu uma delas aproveitando o “gancho” que eu lhes dera. E depois completou, altiva:
- Falta a sabedoria do Pai misericordioso em tua vida, irmão! – Disse à procura de outra página que pudesse estocar ainda mais a minha dilacerada sensibilidade
Acuado, atrasado para o compromisso eu não podia dar-me ao luxo de enlouquecer.
Intuitivamente, diante do quadro que me parecia irreversível só me restou folgar o cinto da calça e abaixar o zíper enquanto as fixava com olhos de demente - Eu fazia pressão na lateral para que ela cedesse quando se deram conta do que eu estava fazendo - Então, horrorizadas reagiram com toda a fúria que Deus lhes deu:
-QUE HOMEM HORRÍVEL, PROFANO. HÁS DE ARDER NO FOGO DO INFERNO, SATÃ! –
Dito, descerem a rua de paralelepípedos em passos largos e apressados.
Sem ação aguardei que se afastassem. E aquilo o suficiente para que eu caísse numa estrondosa gargalhada depois de muitos dias de sisudez.
Eu me divertia observando seus pesados corpos caminhando rápidos e trôpegos pelo desnivelamento dos pequenos blocos de concreto. Me divertia com seus vastos cabelos em obsoletos coques. Das celulites que pareciam redemoinhos em suas peles e da flacidez das coxas dentro dos largos vestidos florais. E principalmente, gargalhei da forte rajada de vento, que intensa esvoaçou seus vestidos deixando à mostra suas desbotadas e broxantes calçolas de algodão.
‘Eu não posso assegurar, talvez eu houvesse me tornando insano por alguns momentos, mas ao ser castigado pela inclemente chuva olhei para o céu carregado e seria capaz de jurar que o tinha visto entre as névoas acinzentadas - E ELE me pareceu sorrir num riso cúmplice e compreensível como se me dissesse com sua voz de trovão: “Ok garoto, tudo bem! Na vida há que ter um pouco de diversão”
E submerso nestas impressões e atolado no temporal imprimi velocidade nos passos e ao longe e no fim da ladeira eu via partir o ônibus que me levaria á cidade - Tudo conspirava contra mim e era mais que certo que o Sr. Samuel não ficasse satisfeito comigo naquele fim de tarde - E tendo que aguardar o próximo ônibus era mais que provável que não houvesse tempo de pegar o cartório funcionando, pois antes teria que passar na Caixa Econômica pra penhorar alguns anéis e correntes de ouro.
Minha sábia e falecida avó, além dessa pequena herança familiar me deixara outras repletas de erudição e lucidez – Num delas ela dizia : “QUE SE VÃO OS ANÉIS, MAS QUE FIQUEM OS DEDOS”.
E saboreando o legado eu sorri ironicamente - Ela teria sido uma testemunha de Jeová, do rabo -
- Por favor meu filho! Tem um minutinho para nós?
-Sim! Do que se trata? Perguntei ao me aproximar
Ela me olhava com um sorriso estranho, forçado, quase fanático.
-Deus veio falar com você! – Respondeu-me.
-Glória Jesus! Hoje é dia de júbilo. Deus veio até você! – Exclamou a mais encorpada. Olhei para ela, e ela me pareceu tão estranha quanto a outra.
Paradas e a espera que eu tivesse alguma reação eu me ative nelas e nos negros e grossos livros que traziam debaixo do braço e tive a certeza: Eram Testemunhas de Jeová. Quase ao mesmo tempo retiraram as bíblias do sovaco e abriram numa das páginas. Evidente, nem aguardaram pela minha resposta: já estava estourando o minuto a que se propuseram.
Talvez tenha sido a minha surpresa ou o meu olhar assustado que foram tomados por elas como de alguém que necessitava de alguma salvação. E eu apesar de não ser religioso e nem praticante não me julgava incrédulo em Deus nem no seu filho de belos olhos azuis, porém estava tão desencantado com a vida que desistira de qualquer vínculo com Ele - eu nunca fora um homem de muita fé - E isso mantinha-me convicto que ele, sem alternativas, aceitara a minha desistência.
E antes que elas retomassem, antecipei-me :
-Olha dona, sei de tudo que ele irá me falar. Mas pra ser sincero com a senhora o que eu necessito é de alguma ajuda com isso aqui! – Exclamei espalhafatoso ao abrir o portão e chacoalhar no ar alguns papéis em minha mão, na vã esperança que me dessem passagem.
A mais bunduda e curiosa se interpôs na minha frente e esticou o pescoço na tentativa de ver o que diziam os papéis - Eram avisos do cartório de protesto ameaçando a minha integridade enquanto cidadão – E o motivo era um só - Eu estava desempregado há cinco meses, alvo fácil de credores e principalmente do Sr. Samuel, das Casas Bahia. E nesses casos, como é de esperar, os homens de negócios são capazes de tudo e até de nos fazerem perder de um momento para outro tudo aquilo que lhes pagamos com tanta dificuldade. E isso me preocupava sobremaneira: havia uma a esposa furiosa que por conta da situação já não trepava e nem me amava como antes. Portanto, ficar sem o televisor e a sua novelas das 8, sem o fogão e os seus ovos bem passados seriam motivos, a seu ver, mais que suficientes para nos levar cada um para o seu lado. Se justa ou não, essa não seria a primeira vez que esse pessoal de crediário nos causava constrangimentos – Porém, acreditar que mais uma vez ela se rendesse ao meu poder de persuasão parecia-me tão impossível quanto ganhar sozinho na megasena.
Diante dos motivos e da minha exaltação a pregadora, estática e surpresa foi incapaz de esboçar qualquer reação. A outra, a de bunda menor, mais frívola e calculista, percebendo que a colega deixava escapar a ovelha pelos vãos dos dedos abriu a bíblia, provavelmente na página que se fazia o carro chefe da sua pregação e, severa no olhar e na voz, solenemente me alertou: “ Só a palavra do Senhor será a tua salvação “ – Eu a olhei aturdido. Talvez para minar definitivamente a minha resistência, ela culminou ameaçadoramente : “ Sem ela não haverá luz e tua alma se consumirá nos caminhos das trevas”.
-Glória Jesus! - Comungou cúmplice a que me deixara escapar do laço, revitalizada pelo providencial auxílio da colega. E ela, agora recomposta e denotando ternura na voz, concluiu procurando uma outra página da bíblia. O tom professoral aguardava a minha rendição:
-Veja, oh filho do homem: Deus é o pai. O Senhor quer testemunhar a sua ressurreição de um mundo profano. O Pai celestial quer ser fiador da tua fé, e não das suas dívidas!
O diálogo insano e surreal e os pingos de chuva, agora mais encorpados que escorriam pelo alto da minha testa como se fossem moleques brincando num tobogã de parque aquático foram demais para mim:
- Ai meu Jesus Cristo! Não me falta mais nada! – Exclamei alto com certo desespero.
Porém elas não desistiam, nunca:
-Falta sim meu filho! - Respondeu uma delas aproveitando o “gancho” que eu lhes dera. E depois completou, altiva:
- Falta a sabedoria do Pai misericordioso em tua vida, irmão! – Disse à procura de outra página que pudesse estocar ainda mais a minha dilacerada sensibilidade
Acuado, atrasado para o compromisso eu não podia dar-me ao luxo de enlouquecer.
Intuitivamente, diante do quadro que me parecia irreversível só me restou folgar o cinto da calça e abaixar o zíper enquanto as fixava com olhos de demente - Eu fazia pressão na lateral para que ela cedesse quando se deram conta do que eu estava fazendo - Então, horrorizadas reagiram com toda a fúria que Deus lhes deu:
-QUE HOMEM HORRÍVEL, PROFANO. HÁS DE ARDER NO FOGO DO INFERNO, SATÃ! –
Dito, descerem a rua de paralelepípedos em passos largos e apressados.
Sem ação aguardei que se afastassem. E aquilo o suficiente para que eu caísse numa estrondosa gargalhada depois de muitos dias de sisudez.
Eu me divertia observando seus pesados corpos caminhando rápidos e trôpegos pelo desnivelamento dos pequenos blocos de concreto. Me divertia com seus vastos cabelos em obsoletos coques. Das celulites que pareciam redemoinhos em suas peles e da flacidez das coxas dentro dos largos vestidos florais. E principalmente, gargalhei da forte rajada de vento, que intensa esvoaçou seus vestidos deixando à mostra suas desbotadas e broxantes calçolas de algodão.
‘Eu não posso assegurar, talvez eu houvesse me tornando insano por alguns momentos, mas ao ser castigado pela inclemente chuva olhei para o céu carregado e seria capaz de jurar que o tinha visto entre as névoas acinzentadas - E ELE me pareceu sorrir num riso cúmplice e compreensível como se me dissesse com sua voz de trovão: “Ok garoto, tudo bem! Na vida há que ter um pouco de diversão”
E submerso nestas impressões e atolado no temporal imprimi velocidade nos passos e ao longe e no fim da ladeira eu via partir o ônibus que me levaria á cidade - Tudo conspirava contra mim e era mais que certo que o Sr. Samuel não ficasse satisfeito comigo naquele fim de tarde - E tendo que aguardar o próximo ônibus era mais que provável que não houvesse tempo de pegar o cartório funcionando, pois antes teria que passar na Caixa Econômica pra penhorar alguns anéis e correntes de ouro.
Minha sábia e falecida avó, além dessa pequena herança familiar me deixara outras repletas de erudição e lucidez – Num delas ela dizia : “QUE SE VÃO OS ANÉIS, MAS QUE FIQUEM OS DEDOS”.
E saboreando o legado eu sorri ironicamente - Ela teria sido uma testemunha de Jeová, do rabo -
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
A Garota de Beijim
- Papai Sam! Sabia que fez bem para Liu Twai? – Disse-me a princesa de Beijim fitando-me os olhos num misto de ternura e exaustão.
Eu a conhecera num bar situado no lado leste da cidade, num local que bem poderia ser um braço da máfia chinesa no Brasil. Foi numa noite de sexta logo após eu sair dum boteco, onde com alguns colegas da fábrica eu bebera o suficiente para me enfiar no primeiro ônibus que surgiu. Claro, como para todo bêbado que se preza, o destino não fazia a menor diferença, desde que tivesse algum lugar para largar o corpo e adormecer a mente.
-Hei! – Chamou o cobrador chacoalhando-me bruscamente pelos ombros – Ponto final! – Exclamou entediado.
Despertei assustado; Eu fora parar a mais de 30 kms de de casa. Olhei pelas janelas envidraçadas e reconheci aquele local singular – Xangaitow – um bairro de colônia chinesa em São Paulo, afinal eu já estivera por lá umas duas ou três vezes. Parado numa via transversal à avenida principal notei algumas construções que obedeciam certa semelhança com a arquitetura chinesa, e o que tornava o lugar um tanto insólito.
Tentando me colocar em pé voltei o olhar para a porta de entrada e uns 3 ou 4 passageiros subiam e tomavam seus assentos em silêncio. Persistindo em manter-me sóbrio fixei no relógio de pulso e os ponteiros de uma cor verde-limão me diziam que era meia noite e meia –
“ Acho que retornarei nesse” – Avaliei. Aquela seria a última viagem da noite, e se eu não permanecesse ali só poderia fazê-lo as 5 da madruga, quando a frota voltava a circular. Flexionando fortemente as pernas eu me levantei e permaneci olhando pela janela enquanto mais adiante alguns clarões coloridas chamaram a minha atenção como me seduzissem. Resolvido, desci e caminhei os 80 metros que me mantinham distante das luzes vermelhas e azuis que piscavam freneticamente. A noite gélida e o vento cortante faziam que eu ofegasse e que desprendesse de minha boca lufadas de névoas e com elas as lembranças das tórridas cenas vividas por Humprey Bogart e Grace Kelly no filme Cassino Royale. O ar úmido e as rajadas de vento me fizeram ajustar a jaqueta de brim ao corpo, mas apesar do incômodo não era o frio ou as névoas que importavam naquele momento; Eu necessitava fugir de mim mesmo e da mesmice que se tornara a minha vida - Eu estava com medo do mundo e dos sentimentos - Era chegada a hora de respirar outros ares além do cheiro mofo da minha casa. Passara da hora dos meus olhos se interessarem em outras coisas além do torno mecânico ou as esporádicas saídas para bebedeiras.
Definitivamente eu precisava me divorciar das paredes do meu quarto, pois me deprimia. Talvez as desilusões do passado e a falta de uma nova e boa garota me obrigavam a compenetrar na figura de Yashim, sempre próximo a lâmpada do teto, como ele fosse todas as cores do meu mundo.
Se a minha existência era entediante, o que deduzir da vida daquela pobre aranha? Ela e sua compulsiva calma , sempre à espreita, confiante na estupidez das moscas e de alguns tolos insetos que mais cedo ou mais tarde acabavam por se enredar nas suas teias. E o tudo demasiadamente previsível afetava a minha tolerência. Eu esperava mais dela – Ansiava que não aceitasse tudo tão passivamente. Esperava que algo a despertasse, que um novo destino insurgisse contra sua mórbida natureza da mesma forma que o cobrador fizera ao me acordar, mesmo que para isso tivesse que se engalfinhar com lagartixas jamaicanas, ou mesmo, bater em retirada diante da emboscada de marimbondos furiosos.
Mas, não, não havia esperanças para ela. Era o imutável lengalenga de sempre. Era o não foder e nem sair de cima, atos inacabados que se tornaram sua resignação, sua sina. Talvez ela pensasse o mesmo sobre mim e a minha solidão.
E a merda de afogar-me naquele isolamento é que ele me tornava amargo e calculista como o Yashin. E sem me comover com as pequenas coisas do dia-a-dia distanciáva-me das pessoas normais, atolando-me nas vísceras da insanidade. E eu, um reles misantrópico não via outra saída que não fosse acolher a companhia daquela aranha, gostasse ou não de tudo que estava a nossa volta
Lembro-me também que ao acordar naquela mesma sexta estava determinado a arrumar um cachorro. Eu queria a sinceridade de um amigo que me oferecesse a cabeça para ser acariciada toda vez que ele ou eu nos sentíssemos melancólicos. Porém ao imaginá-lo zanzando pela casa, defecando merdas por todos os cantos, fez-me sepultar a intenção.
-Yashim, vê se não apronta nada até eu voltar! – Recomendei antes de fechar a porta e deixá-lo às voltas com a sua certeza de erros.
Ainda pensava nele quando aproximei das luzes coloridas de um excêntrico bar - “Osaka Pub” - Dizia o nome no letreiro de neon que piscava incandescente. Ainda trôpego, mas tentando manter-me coordenado achei descabido o nome japonês para um bar chinês. E além disso eu jamais imaginaria um Pub ao fiel estilo britânico nas formiguentas ruas de Pequim.
-Amigo, são 35 mangos! – Me disse o chinês ao perceber minha presença. Olhei pra sua compleição forte e pra sua enorme barriga de chopp e o supus o segurança do local.
-Caracas, china! 35 mangos só pra entrar? – Reclamei perplexo - Ele me fitou severo.
-Sim! 35 pratas só pra entrar – Se não tiver a fim... vá dando o fora – Respondeu secamente. A testa enrugada e a cara de poucos amigos se fez certeza: era o leão de chácara do lugar.
Como a recepção não fora nada amistosa, somada ao fato que o “couvert” era um tanto salgado pro meu bolso, mais uma vez pensei em retornar. Porém, justamente naquele instante o ônibus atravessou a avenida e veloz seguiu em frente num ritmo que não pudesse ser alcançado por minhas pernas. Indeciso considerei de momento uma corrida de táxi, mas, ela custaria bem mais que o dobro do ingresso, portanto, resolvi entrar.
O sujeito ainda me olhava desconfiado ao me ver remexer no bolso traseiro à procura de algo. Assim que consegui retirar a carteira, abri e algumas notas de cinqüenta mantinham-se agrupadas às custas do salário que fora pago naquele dia. Contei o dinheiro aparentando um ar de superioridade e lhe passei as 35 mangos. Ele pareceu não satisfeito com a empáfia, mas, como negócios eram negócios acabou por escorregar na minha mão uma espécie de cupom onde eu li: “Consumação mínima R$ 35,00 - Gratuidade 2 doses uísque e 2 cervejas” Olhando atentamente para o cartão vi grafado uma fileira de pequenos quadrados que seriam assinalados caso eu bebesse mais que a cota concedia. - “Dois uísques e duas cervejas” - ruminei. Bem, já era alguma coisa – conformei-me.
Ao atravessar a pesada porta de imbuia com um dragão esculpido em alto relevo ao centro, adentrei num enorme salão com dezenas de lampadas vermelhas rosqueadas em arandelas laterais. Nas mesas, as fumaças de cigarros transpassadas pelo tom escarlate das luzes causavam um efeito sombrio ao percebê-las rumando na direção do teto. Não haveria exagero imaginar que saído daquela névoa carmim pudesse surgir uma banda de garotos cabeludos e que guitarras em punho fizessem o rock comer solto. Mas não havia no local nenhuma banda de rock pesado e sim uma potente e pragmática jukebox repousada ao lado do balcão do bar, e onde uma mulher de cabelos estranhos colocava suas fichas. Assim que a moedas foram introduzidas – “ Georgia on my mind” foi cantada com voz rouca e grave de um conhecido astro americano, ao mesmo tempo que focos multicoloridos eram golfados pela máquina.
Numa das muitas mesas algumas garotas e rapazes mais tagarelavam que bebiam. Ao atravessar a parte central do salão era visível presa ao teto uma imensa serpente metálica que lançava simultâneos flashes estroboscópicos, através das cavidades em sua extensão. Os efeitos psicodélicos e instantâneos dos raios faziam que os rostos surgissem e desaparecessem em frações de segundo. Sem conseguir ver o chão me senti desorientado, perdido que estava por não descobrir o lugar que eu ocupava no espaço. Assim que a música e os efeitos cessaram procurei por um lugar tranqüilo e fui encontrá-lo num canto, longe da mesa dos garotos falantes.
Sentei e acendi um cigarro e expeli uma longa baforada que subindo ocasionou o mesmo efeito sombrio que eu percebera ao entrar.
Mais ao fundo, num pequeno palco, algumas garotas magricelas tentavam excitar os freqüentadores num show stripper. Porém poucos pareciam se interessar, afinal dançavam com a parte de baixo da langerie. Permaneci fixado numa que tinha uns peitos enormes, iluminados por potentes focos que, lançados sobre os seios os deixavam com coloração pálida, como se fossem feitos de marfim. Terminado o número voltei o olhar e me deparei com a presença de uma garçonete. Indiscretamente inspecionei o seu corpo e reparei no seu traje: jaqueta prateada e uma saia vermelha. Da saia, justa, um corte lateral deixava à mostra um apetitoso naco da sua coxa cadavez que os trocava passos. A jaqueta, de corte militar e ombros quadrados mantinha-se fechada por botões negros que começando logo abaixo do queixo desciam e terminavam na altura dos quadris.
Ela me fitava enquanto eu continuava a dedicar-me às linhas do seu corpo. Esguia, pernas bem torneadas e um volumoso par de seios, sufocados pela insinsível túnica militar. No alto sobressaiam seus cabelos negros e compridos. Logo abaixo a surpresa: o rosto delicado de uma princesa chinesa. Ao permanecer fixa em mim eu senti seu olhar lançar labaredas com a mesma intensidade dos seus dragões mitológicos. O perfeito contorno da boca, os lábios, carnudos e tingidos de escarlate, mesmo mudos, sussurravam: “ Sexo, sexo, sexo”. Sem dúvida: sozinha ela era uma constelação.
- O que o moço vai querer? – Perguntou-me gentilmente com um sotaque carregado de quem está a poucos anos no Brasil.
-Por favor, uísque e cerveja – Respondi apresentando meu cupom.
Ela anotou o “x” nos retângulos que indicavam as minhas bebidas.
Mais rápido que me atendera, ela voltava. Assim que colocou as bebidas sobre a mesa entornei a dose de uísque numa única talagada e isso me fez constatar a péssima procedência da bebida- ”será que fabricam isso numa das banheiras ao fundo do bar?” – questionei.
O uísque havia descido rasgado, ardendo mais na alma que no esôfago.
Ao terminar estralei a boca – ela me olhava curiosa – Eu precisava de um gole gelado pra rebater aquela sensação horrível que a bebida deixara. Assim que dei o primeiro gole na cerveja ela se retirou e encaminhou para próximo do balcão, e por lá permaneceu me fitando por debaixo dos cabelos negros. Assim que terminei a cerveja lhe fiz um novo sinal. Pouco após voltou com uma nova e a meu pedido, inexplicável é certo, com outra dose do uísque: talvez eu e minha vida estivéssemos acostumados com coisas ordinárias – deduzi –.
Ansioso, bebia demasiadamente rápido, e isso me fazia surgir os efeitos que álcool em mim. E a bebida, entornada outra vez num único trago me encorajou a convidá-la para um drink. Surpresa, disse o que não poderia aceitar sem que fosse autorizada pelo homem que estava atrás do balcão. Dito isso, pediu-me alguns instantes e foi ter com um grisalho senhor chinês,. Após cochicharem por alguns segundos pude perceber a sisudez e a relutância do chinês com aquilo que ela lhe dizia. Mais que isso: pude vê-lo menear negativamente a cabeça em desaprovação. Mas o fato dela lhe dar as costas e vir em minha direção significava que ele não fora bem sucedido.
Aquilo me alegrou. E eu não sabia discernir quais os motivos que me impediam de desgrudar os olhos do seu enigmatismo.
Novamente parou em minha frente a sua imponência oriental, e isso me tornava refém dos devaneios. - imaginei possuindo-a em cima duma daquelas mesas - Ao sentar sorriu-me como se fosse eu o imperador e ela a vassala a mercê do seu soberano.
-Posso pedir uma bebida ? – Pediu. Estava na cara que a brincadeira poderia me custar os olhos da cara. Mas para mim havia uma única saída: era pegar ou largar.
-Claro! Sem problemas– Concordei com um sorriso – Eu acabara de fazer a minha escolha.
A garota fez sinal para uma das muitas garçonete que prontamente veio nos atender. Ela anotou os pedidos e retornou com eles. No centro da mesa colocou o seu drink: uma coloração ora se mostrando verde, ora azul. Ela o bebeu com competência enquanto eu deixava o meu fazer arder a alma, novamente. Aquela coisa de indecifrável procedência parecia exercer em mim um efeito quase que alucinógeno, e mesmo não sendo droga, me fazia sentir como fosse.
Bebidas terminadas e eu não me desvencilhava dela e nem do odor do suave perfume de mulher que ela exalava em todo ser.
Comigo, algo inusitado estava acontecendo, afinal eu jamais me interessara ou tivera qualquer “affair” com mulheres de descendência oriental.
Foi então que nos sentindo mais á vontade começamos a conversar. Julia, o seu nome de guerra – Liu Twai, de batismo –. No início, Julia parecia um pouco tímida, porém logo após a 2ª dose mostrou-se mais desinibida, Aí, mais solta falou-me de si e de algumas partes da sua vida: estava com 26 e a 8 anos no Brasil.
Adolescente, Liu Twai, oriunda de um pequeno e provinciano vilarejo ao norte da China, fora negociada por seus pais. De lá, na companhia de um mercador fora levada para Pequim, onde teve que se prostituir à troca de quase nenhum dinheiro. Neste prostíbulo travou conhecimento com um próspero empresário local que dizia manter alguns negócios no Brasil. Outra vez negociada e aqui chegando foi enviada para uma espécie de clube prive, exclusivo para homens de negócios com descendência da terra mãe.
Um pouco mais tarde e ainda numa de suas camas, conheceu senhor Lee Pen Shao, um sessentão apaixonado que acabou por tornar-se o seu amante. Foi assim, outra vez moeda de troca que veio parar nos balcões e mesas do “Osaka Pub”. E a finalidade do bar não era unicamente a de servir bebidas ou entreter as pessoas. Não, esse era somente o pano de fundo. No Osaka havia o agenciamento de prostituição, e todos tinham o seu preço. As garconetes, as strippers, e principalmente a estrela da companhia: a caríssima Liu Twai. Foi com olhos de orgulho que ela me disse que seu preço equivalia ao de 5 garotas de lá. Portanto, ela não era pro bico de qualquer um.
Claro, as confidências de Julia me deixaram incomodado ao ponto dela notar:
-Não se preocupe com o Shao. Aqui, negócios são tratados como negócios – Ela sorriu procurando me tranqüilizar, enquanto por debaixo da mesa acariciava minhas coxas na altura da virilha.
O sombrio senhor Shao percebia que ela deslizava as mãos em minhas pernas. Julia, notando a contrariedade do velhote fez-lhe sinal para que deixasse de ser tão ostensivo. Incomodado, ele foi sentar-se na extremidade oposta do balcão. Vez ou outra ele nos procurava com o olhar. Porém a sua resignação me fez perceber quem comandava as coisas por ali.
Ainda assim me sentia um tanto inquieto, já que sempre fora cismado com os chineses.
-Fique na boa, Sam! – Ele apenas está estranhando porque você é brasileiro – Disse contemplando profundamente os meus olhos.
-Como assim? – Perguntei sem perder o chinês de vista
Ela sorriu.
– É que jamais me relaciono com pessoas de outra nacionalidade. – Respondeu num sussurro como confessasse um segredo – E depois continuou:
-Mas com Sam foi diferente. Sam despertou os olhos de Liu, e os olhos de Liu não costumam sorrir facilmente para sujeitos que não são chineses - Sua confissão me fez sorrir - Foi um dos raros momentos naquela noite em que a preocupação foi derrotada pelo meu ego.
Continuamos a conversar e Julia mandava bem nos drinks, talvez tanto quanto eu.
A sua voz soava doce e ébria, mas seus olhos jamais perdiam a lucidez e o fogo.
Os olhos puxados, os lábios sensuais e os seios que arfavam nervosamente por debaixo da jaqueta militar estavam me deixando excitado. Aos poucos os freqüentadores foram se retirando, e quando demos por conta, às três e dez da madruga só estávamos os três.
-Liu, está na hora de fecharmos – Inquietou-se o senhor Shao, dedilhando nervosamente a madeira do balcão, voltando da outra extremidade do balcão. Julia pareceu se contrariar.
-Shao...feche e vá na frente! Logo mais irei – Comunicou secamente.
-Mas...... – O senhor Shao tentava argumentar, mas as frases que poderiam surtir algum efeito não lhes surgiam.
Ela nada respondeu. O velho e sisudo chinês a olhava resignado e vencido:
- Então....Por favor, não demore, Liu! – Disse, juntando o dinheiro da movimentação noturna e a colocando numa bolsa de couro reforçado.
Liu levantou-se e foi ter com ele e o acompanhou até a porta. Lá, parece que tiveram um pequeno entrevero, pelo tanto que o senhor Shao gesticulava. Todavia, demonstrando quem era quem, ouvimos o som da chave ao ser girada na imponente fechadura. O senhor Shao nos deixou sós. Julia sorria ao retornar. Atravessando o salão foi apagando luz por luz até sobrar uma única no fim do salão. Lá, eu a vi sumir na escuridão Repentinamente após um agudo estampido um potente foco de luz surgiu. E o facho centrou-se na numa longa mesa de um veludo verde. De lá onde estava pude ouvi-la me chamar:
-Venha Sam! Eu te quero – Ela solicitava a minha presença flexionando os dedos de ambas as mãos, num vai-e-vem.
Eu me levantei empunhando a garrafa de cerveja e caminhei em sua direção. Liu me aguardava em pé, escorada na mesa de bilhar.
Ao chegar, ela me abraçou e abruptadamente apertou o seu corpo no meu, excitando-me. No ar o cheiro dos cigarros ainda se mantinha soberano . No centro da mesa o foco se tornava o sol e desnudava sem as imperfeições do tecido verde. A sua boca percorria meu pescoço e seus dedos contornavam-me suavemente. Ela ofegava quando levou as mãos na parte frontal da minha calça e me encontrou latejando. Seus dedos, agora mais ansiosos faziam pressão no ziper da calça. Ouvi o ruído ao ceder e com a braguilha aberta, Julia ajoelhou-se e cuidadosamente resgatou o meu membro e acariciou sua extensão. Assim que o percebeu livre ofegou enquanto volteava a glade com a ponta da língua. Sua boca, felina e em chamas me consumia quando o abocanhou num alucinante vai-e-vem. Delicadamente, enquanto brincava com ele foi se desfazendo da jaqueta. Ao ver a túnica jogada num canto eu pude notar a magnífica exuberância dos seios. Dois lindos orfãos espremidos por um fino sutiã de reandas brancas.
Delicadamente estendi-lhe a mão e a trazendo lentamente a coloquei em pé e depois deslizei os dedos pelos contornos do seu corpo. Excitado, enfiei a mão pela abertura da saia e acariciei suas coxas e o centro da dimuta calcinha - Ela gemia - Sutilmente voltei a mão e pressionei o saia pelos lados e para baixo até que ela, em seus calcanhares me permitiu vislumbrar a calcinha - Fazia parte do lindíssimo conjunto - Ansiosos e apressados ajudamo-nos a nos desvencilhar das nossas roupas que ainda persistiam até estarmos totalmente nus. Julia empurrou com os pés as peças que se encontravam no chão e tolhiam a liberdade de movimentos. Assim que não mais atrapalhavam deitou-se suavemente sobre o veludo, sem perder-me de vista. Magicamente suas coxas foram se separando o foco de luz refletia em seu sexo. Excitado como um leão que presente o gosto do sangue da presa fui ao encontro dele. O peito de Liu arfavam e os seios ganhavam dimensão maior com sua ofegante respiração.
Inclemente e a sentindo molhada eu a penetrei de uma única vez e ela grunhiu de prazer ao cravou as unhas nas minhas costas. Permanecemos copulando como felinos até que lasciva ela virou e deitou-se de bruços. Estendida sobre o veludo, lentamente ela remexia as ancas numa ritual profana e excitante, me convidando a desvendá-la.
Deslumbrado com suas formas e com aquele jogo de sedução eu segui em frente e a penetrei insanamente. Nós gemíamos, sussurrávamos, dizíamos coisas obscenas, intercaladas por frases que ela proferia em chinês, e as quais só ela sabia o significado. Intensamente e cada vez mais a sua bunda subia e descia rapidamente e num presságio que o momento estava próximo. Repentinamente os espasmos, os murmúrios devassos, o retesamento dos corpos e gozo supremo exaurindo nossas forças.
Arfantes, tentávamos nos refazer. Deitados e olhando para cima evitávamos que o foco atingisse nossos rostos. Repletos de silêncio curtíamos os momentos de paz, concedidos às feras fartadas.
Nada falávamos, apenas dois sujeitos estirados sobre o veludo e que se completavam na ausência das palavras.
Repentinamente eu virei para seu lado e fiquei a admira-la. Recíproca, voltou-se para mim e me fez sentir-se se feliz ao me deixar vislumbrar a magia do sorriso e os olhos que agora não ardiam. Foi permitindo que aquele sentimento me penetrasse que pude compreender todo o ciúme do senhor Shao. Talvez, ele mais do que eu seria capaz de tudo por ela Com a delicadeza milenar das orientais ela me beijou a boca e desceu da mesa e num ritual quase sagrado repôs o seu traje. Recoloquei a minha roupa sem tanta cerimônia. Daí, prontos, ela pegou em minha mão e levou-me até o balcão. Gentilmente me fez sentar numa das banquetas em frente a ele enquanto caminhando um pouco mais adentrou na parte interna dele. Atrás dele a proprietária comunicava ao cliente que era chegada a hora de fechar.
-Quanto lhe devo, Julia? – Perguntei retirando a carteira do bolso.
Eu torcia para que me sobrasse ao menos o dinheiro do aluguel.
Ela, curvou-se no balcão e retirou do escaninho a comanda que descriminava a minha conta. Assim que encontrou o meu cupon fez nele algumas anotações.
-Vejamos....3 cervejas, 4 doses de uísque, 3 drinks Hong-Kong. É isso?
Eu tentava imaginar o preço não dos seus préstimos profissionais, e me preocupei - Talvez o meu dinheiro não fosse o suficiente -
Como ela poderia reagir?
Em todo o caso ela esperava a minha confirmação.
-Sim, sim, é isso – Confirmei. Ela retomou o assunto:
- Papai Sam,! Sabia que fez bem para Liu Twai? E como fez bem para Julia, o uísque e as cervejas são por conta da casa. – Disse sorrindo. E continuou:
-Agora....quanto ao ritual de acasalamento com Liu, você gozará de um desconto promocional, desde que prometa uma coisa...
-Sim, o que? – Perguntei ansioso. Ela olhou-me nos olhos e deslizou os dedos pelo meu rosto quando respondeu:
- Papai Sam não pagará nada desde que prometa voltar outras vezes –
Dito isto me entregou a comanda. Olhei no pequeno pedaço de papel e lá havia algo manuscrito em chinês, e que logo abaixo ela traduziu, - “Volte sempre porque Liu Twai te quer” - Um pouco mais abaixo da delicadeza de sua letra havia um número de telefone.
Eu sorri e lhe devolvi carícias nas faces. Era um momento mágico, mas que sabíamos não poder durar.
Certamente eu gostaria de visita-la outras vezes, porém eu deveria calcular os riscos que o velho Shao representava, afinal não podemos prever as reações daqueles que se sentem humilhados, principalmente por amor. Por alguns segundos permaneci com o cupom preso entre os dedos e depois o deslizei para o bolso da jaqueta. Sem nada falarmos nos dirigimos para a porta de saída. Aberta e já lá fora olhamo-nos e sorrimos cúmplices e nos beijamos timidamente. Em seguida ela quebrou a sua esquerda e pouco mais adiante entrou num táxi. Eu esperei que ele partisse e então virei para minha direita. Olhei no relógio e ele marcava 4:25 da manhã. Caminhando reto eu me segui na direção do ponto de ônibus, já que em breve eles voltavam a circular. Chegando, me apoiei no ponto e tocando ritimadamente o calcanhar no centro da madeira pintada eu ouvia o som oco que ressoava no silêncio da noite. Persisti nas estocadas por algum tempo até me desinteressar delas. O ar de uma madrugada ainda mais gélida era exalado em meus pulmões e isto me causava uma sensação boa, a gratidão pelo presente que a noite me dera .
Nada havia do que eu pudesse me queixar: eu bebera num bar chinês que homenageava o Japão. Aliás, não era um bar qualquer, não.
Era um pub, não um autêntico, londrino, mas chinês e num lugar distante na cidade de São Paulo. E o insólito: freqüentado por descendentes do oriente, mas admiradores dos negros cantores americanos
-À Ray Charles! – Brindei ao esticar o braço para o ônibus que chegara.
" Georgia on my mind" - Em meu peito todas as canções de guerra foram entoadas. Eu deixava para trás um olhar de fogo e as magníficas pernas de Liu. Provavelmente naquele momento Julia deveria estar exausta sob mantas de cetim. Sábia que era, milenar nas atitudes e na gratidão, naquele momento deveria estar deixando-se bolinar pelo velho Shao, como lhe conferindo um prêmio de consolação. Certamente, por sua garota de Beijim o velho chinês teria sido capaz de enfrentar os tanques de Deng Xiaoping, na Praça da Paz Celestial. Anti-herói, eu não teria me atrevevido a tanto. Mas isso era passado, só uma amarga recordação de 1989 e que agora fazia mais parte da história que das minhas preocupações.
Subi os seus degraus e seguindo pelo corredor inspecionei cada um dos rosto dos que viajavam nele. Passando por uma insinuante jovem de olhos rasgados eu tentei vislumbrar o rosto de Julia – impossível, havia o sorriso, mas não as labaredas – Eu me perguntei o por que procura - Caminhando mais alguns metros paguei minha passagem e fui me acomodar na última fileira de bancos. O frio não cedia e o silêncio só era entrecortado pelo ruído do motor que se tornava mais agudo conforme a marcha engrenada. A cada ponto que ele parava mais e mais pessoas entravam. Ao deixarmos Xangaitow outras raças foram misturadas numa miscelânea dos mais variados credos e cores.
Encolhido próximo à janela eu percebia o trânsito ficar mais denso enquanto o sono me pegava nas pálpebras pesadas –
Apesar da sonolência eu ansiava chegar em casa – Havia um monte de vantagens que teriam de ser contadas para Yashin. –
“Será que dessa vez ele se orgulhará de mim?” – Foi a última pergunta que me fiz antes do sono fazer pender minha cabeça e apoiá-la no ombro de uma senhora que viajava ao meu lado.
Incomodada ela se remexeu e isso me despertou. Olhei para o relógio: Seis e dez da manhã -
Procurando não mais incomodá-la virei o corpo para o lado da vidraça e voltei a dormir - O trabalho das oito me aguardava -
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Crônica - Os Anônimos Assassinos & Psicanálise -
- Tic-tac-tic-tac - Olhei pro relógio e ele me piscou nervosamente - “Velhinho, qual é a sua? São cinco e trinta e cinco da manhã!” – O tom austero soou demasiadamente crítico -
Desinteressado eu o ignoro apesar de não conseguir me esconder da sua surpresa: o que eu poderia estar fazendo acordado? – Na verdade nem eu mesmo sabia. Sabia sim que há sobre a falta ou do excesso de sono um estudo científico que diz que pessoas senis têm por hábito dormir e acordar mais cedo que as outras. Porém, mesmo que verídico essa regra não se aplicava a mim. Exceção, um cara atormentado por hábitos que me mantêm distante de tudo que possa me tornar um sujeito razoável, espreguiço-me, ajeito os ombros e ligo o computador e dedilho no teclado sem a genialidade ou maestria de um Schuberth ou Tchaikovskyi. Ao contrário, mantendo-me calmo e reflexivo vou intercalando pensamentos, usufruindo das minhas terminações nervosas enquanto observo as idéias se tornarem realidade nos minúsculos caracteres cibernéticos, impressos ali na tela do meu computador
Porém, apesar de tentar tapear o inevitável como se fosse um atrapalhado bailarino russo a espera dum impossível 10 na Marquês de Sapucaí, a pergunta insistiu não calar. E não silenciando, questiono-me do porque do sono ter ido embora as três da madruga. Inconcluso, digo ao relógio que não faço a menor idéia de ter acordado assustado, caminhado à geladeira e me servido de um refrescante copo de água gasificada. Boca estalada, feição cerrada devido ao gás que pareceu queimar minha garganta, saio pelo corredor e vou ao banheiro para uma mijada noturna e previsível. Terminado, lavo as mãos (certamente) e me encaminho ao quarto, onde a tempo assisto pela TV um filme pra lá de interessante: a trama de 5 sujeitos que mataram um velho que julgavam morto por enfarte, emocionado que estava por um bilhete vencedor de loteria – US$ 6 milhões o prêmio -
O filme teve como pano de fundo um ambiente de bar. Foi muito triste e desolador ver o velhote, olhos esbugalhados, desabado numa das mesas.
A cena dilacerou qualquer bom senso, esbofeteou-me as faces, como me questionando: Hei velhinho, você não quer participar dessa mamata? – Pensei muito a respeito e não soube o que responder. Afinal tudo parecia tão plausível e justificável praquela cambada de perdedores a fim de se dar bem na vida. E de todos havia a que sobressaia: uma pretensiosa e petulante garota (que invariavelmente dizia: Sou uma advogada) que terminou por sufocar o velhote diante da perplexidade dos outros. Porém, crime cometido, a grana falou mais alto e eles se esforçaram em descobrir um jeito de sumir com o corpo, principalmente diante do enervante vai-e-vem de dois policiais, que por um ou outro motivo sempre retornavam ao bar – “O velhote desmaiou de porre” - diziam pra eles – Pois é! A maionese começava a desandar -
Evidente, a trama me deixou sensibilizado. Foi então que percebi que quando divorciado da coisa real, os filmes e livros detém o poder de nos confundir e colocar nossos indecifráveis “EUS” sob pressão.
Mais que isso, tecendo tramas como aranhas que aguardam suas indefesas presas, eles embaralham nossos discernimentos e faz assimilarmos pontos de vistas insustentáveis, inclusive justifica-los com a mais inequívoca das convicções. Quantas vezes lendo um livro não nos apaixonamos pelos personagens, vivemos suas angustias e assumimos suas posições? Ou mesmo, assistindo filmes onde a ingênua e quase romântica maquiagem do bandido obrigou-nos a torcermos descaradamente por ele?
Muitas e muitas vezes, suponho.
E o exemplo disso me fez retornar a um filme que assisti na adolescência e que tratava da trajetória de um marginal de fama nacional - “O Bandido da luz vermelha” – Em sã consciência, acho que não houve um único cidadão nesse país que não tenha torcido por ele, pelo menos nas telas do cinema.
E isso fez questionar novamente: Eu também não poderia ter me tornado um?
A pergunta me angustia. E angustia-me principalmente por não saber como funciona a redoma de sensações movidas na mente de um bandido. Talvez para eles, primeira bala cravada no corpo de alguém seja a resposta para tudo. Talvez essa bala lhe represente a surpresa de constatar que é possível apertar o gatilho e, mais ainda, que isso acabe se tornando o vício que não se livra, tal qual o primeiro dos mais de 40.000 cigarros que fumei em toda minha vida. Há o remorso para tanta nicotina que envenena meu corpo? Claro, sempre haverá, mas, viciados são permissivos e suficientemente coniventes com qualquer tipo de devastação.
Talvez isso tenha a ver com o estigma que cada um traz ao nascer. E eu não consigo supor que seja outro o motivo de tanta gente se enfileirar nos quadros efetivos da polícia militar ou civil. Como talvez também seja mais provável que policiais e bandidos consigam conviver com esse dilema de forma mais serena, afinal os seus dedos são colocadas à prova a todo momento. E outra vez eu me pergunto: Eu poderia ter me tornado num deles? Não, eu jamais seria um ou outro, pois a minha irritante natureza pacífica jamais permitiria – E mesmo assim, dono dessa tranqüilidade toda já matei muita gente. Já dizimei pessoas onde meu sentimento julgou-se ferido de morte – Porém esses assassinatos foram cometidos no plano do espírito, sem violência, relegada que foi, uma ou outra vez nos sopapos dos tempos de garotão, nas brigas de rua e sob ao som da “Do you wanna dance” do Johnny Rivers.
De lá pra cá muitas tempestades se formaram suficientes para me acostumarem com a morte rondando a mim e a todos nós. E ela nos cerca nas manchetes de jornais, nos programas de rádio e nos noticiários da TV – é um vírus infectando por todos os lados - E quando ela vem, beija por vezes doce e meigamente. Um beijo de quem não escolhe o sujeito e que poderá ser dado num coração doente, num fígado putrefato, nos de velhice natural ou mesmo naqueles que se descuidam ao atravessar o asfalto. E ela, insaciável clamará por mais vítimas, induzirá governos e insensíveis decretos: morre-se mais pela desumana omissão e pelo pouco caso, que propriamente pelos estampidos das armas de fogo.
E apesar de eu nunca ter matado alguém a dúvida permanece: E se houvesse o meu primeiro tiro ou se estivesse naquele bar? Seria eu a mesma matéria de todos os guaranás?
Talvez ao me lerem se perguntem: mas de que porra o China ta falando? - Talvez me vejam matéria para analistas, terapeutas grupais e esses babados todos. Evidente, eu nem queria entrar no mérito, mas, se assim insistirem.... considero sim as opiniões alheias. Porém se persistirem em me entregar nas mãos da psicanálise, sinceramente, a minha opinião? Estarão errados! - Optaria por gastar o meu dinheiro numa das montanhas russas do Hopi Hari. E isso, necessariamente, não quer dizer que haja qualquer preconceito da minha parte com os psicanalistas – eu os respeito tanto quanto aos que acreditam neles e que crêem piamente que seus problemas serão resolvidos logo após abandonarem seus divãs. Talvez também esse meu ceticismo se deva ao fato de ser tão antiquado quanto aos guarda-chuvas de 16 varas revestidos de nylon tão grosso que não se corrompia nem mesmo com brasas de cigarro.
Mais: Acho que da mesma forma que somos capazes de criar nossos problemas, muitos de nós somos possíveis em resolvê-los. Porém, como os tempos são outros e a indiscriminada cultura de entorpecer nossos corpos e mentes com alguma coisa, achamos por bem entregar todos os nossos problemas e bens nas mãos da ciência, num típico “Toma que o filho é teu”, um claro lavar de mãos, um Pôncio Pilatos subjugado à multidão - E isso aos nossos olhos justificará dividirmos responsabilidades na esperança que esse alguém enquadre nossas angustias e encontre todas respostas, comparadas que serão aos volumosos casos contidos nos anais da psicanálise.
Geralmente é assim que funciona, e isso satisfará a muitos dos abastados que aliciados surfarão nessa praia: Pagar-se-á para ser menos infeliz -
Porém, em simples e leigo resumo, o trato da psicanálise é para mim nada mais, nada menos que um convidativo e caríssimo produto de consumo, uma finíssima roupa de seda exposta numa vitrine de cristal. Uma fuga alucinante e desesperada de muitos que procurarão nos espelhos do seu passado o angulo onde possivelmente a roupa não lhe vestiu bem. O exato número do dado, o segredo do cofre, algo ou alguém a que se impute toda ou parte da responsabilidade. Talvez o trevo da sorte, a possibilidade de encontrar, uma em um milhão, o prendedor de gravatas de safiras e brilhantes entre as finas areias do Saara.
Desinteressado eu o ignoro apesar de não conseguir me esconder da sua surpresa: o que eu poderia estar fazendo acordado? – Na verdade nem eu mesmo sabia. Sabia sim que há sobre a falta ou do excesso de sono um estudo científico que diz que pessoas senis têm por hábito dormir e acordar mais cedo que as outras. Porém, mesmo que verídico essa regra não se aplicava a mim. Exceção, um cara atormentado por hábitos que me mantêm distante de tudo que possa me tornar um sujeito razoável, espreguiço-me, ajeito os ombros e ligo o computador e dedilho no teclado sem a genialidade ou maestria de um Schuberth ou Tchaikovskyi. Ao contrário, mantendo-me calmo e reflexivo vou intercalando pensamentos, usufruindo das minhas terminações nervosas enquanto observo as idéias se tornarem realidade nos minúsculos caracteres cibernéticos, impressos ali na tela do meu computador
Porém, apesar de tentar tapear o inevitável como se fosse um atrapalhado bailarino russo a espera dum impossível 10 na Marquês de Sapucaí, a pergunta insistiu não calar. E não silenciando, questiono-me do porque do sono ter ido embora as três da madruga. Inconcluso, digo ao relógio que não faço a menor idéia de ter acordado assustado, caminhado à geladeira e me servido de um refrescante copo de água gasificada. Boca estalada, feição cerrada devido ao gás que pareceu queimar minha garganta, saio pelo corredor e vou ao banheiro para uma mijada noturna e previsível. Terminado, lavo as mãos (certamente) e me encaminho ao quarto, onde a tempo assisto pela TV um filme pra lá de interessante: a trama de 5 sujeitos que mataram um velho que julgavam morto por enfarte, emocionado que estava por um bilhete vencedor de loteria – US$ 6 milhões o prêmio -
O filme teve como pano de fundo um ambiente de bar. Foi muito triste e desolador ver o velhote, olhos esbugalhados, desabado numa das mesas.
A cena dilacerou qualquer bom senso, esbofeteou-me as faces, como me questionando: Hei velhinho, você não quer participar dessa mamata? – Pensei muito a respeito e não soube o que responder. Afinal tudo parecia tão plausível e justificável praquela cambada de perdedores a fim de se dar bem na vida. E de todos havia a que sobressaia: uma pretensiosa e petulante garota (que invariavelmente dizia: Sou uma advogada) que terminou por sufocar o velhote diante da perplexidade dos outros. Porém, crime cometido, a grana falou mais alto e eles se esforçaram em descobrir um jeito de sumir com o corpo, principalmente diante do enervante vai-e-vem de dois policiais, que por um ou outro motivo sempre retornavam ao bar – “O velhote desmaiou de porre” - diziam pra eles – Pois é! A maionese começava a desandar -
Evidente, a trama me deixou sensibilizado. Foi então que percebi que quando divorciado da coisa real, os filmes e livros detém o poder de nos confundir e colocar nossos indecifráveis “EUS” sob pressão.
Mais que isso, tecendo tramas como aranhas que aguardam suas indefesas presas, eles embaralham nossos discernimentos e faz assimilarmos pontos de vistas insustentáveis, inclusive justifica-los com a mais inequívoca das convicções. Quantas vezes lendo um livro não nos apaixonamos pelos personagens, vivemos suas angustias e assumimos suas posições? Ou mesmo, assistindo filmes onde a ingênua e quase romântica maquiagem do bandido obrigou-nos a torcermos descaradamente por ele?
Muitas e muitas vezes, suponho.
E o exemplo disso me fez retornar a um filme que assisti na adolescência e que tratava da trajetória de um marginal de fama nacional - “O Bandido da luz vermelha” – Em sã consciência, acho que não houve um único cidadão nesse país que não tenha torcido por ele, pelo menos nas telas do cinema.
E isso fez questionar novamente: Eu também não poderia ter me tornado um?
A pergunta me angustia. E angustia-me principalmente por não saber como funciona a redoma de sensações movidas na mente de um bandido. Talvez para eles, primeira bala cravada no corpo de alguém seja a resposta para tudo. Talvez essa bala lhe represente a surpresa de constatar que é possível apertar o gatilho e, mais ainda, que isso acabe se tornando o vício que não se livra, tal qual o primeiro dos mais de 40.000 cigarros que fumei em toda minha vida. Há o remorso para tanta nicotina que envenena meu corpo? Claro, sempre haverá, mas, viciados são permissivos e suficientemente coniventes com qualquer tipo de devastação.
Talvez isso tenha a ver com o estigma que cada um traz ao nascer. E eu não consigo supor que seja outro o motivo de tanta gente se enfileirar nos quadros efetivos da polícia militar ou civil. Como talvez também seja mais provável que policiais e bandidos consigam conviver com esse dilema de forma mais serena, afinal os seus dedos são colocadas à prova a todo momento. E outra vez eu me pergunto: Eu poderia ter me tornado num deles? Não, eu jamais seria um ou outro, pois a minha irritante natureza pacífica jamais permitiria – E mesmo assim, dono dessa tranqüilidade toda já matei muita gente. Já dizimei pessoas onde meu sentimento julgou-se ferido de morte – Porém esses assassinatos foram cometidos no plano do espírito, sem violência, relegada que foi, uma ou outra vez nos sopapos dos tempos de garotão, nas brigas de rua e sob ao som da “Do you wanna dance” do Johnny Rivers.
De lá pra cá muitas tempestades se formaram suficientes para me acostumarem com a morte rondando a mim e a todos nós. E ela nos cerca nas manchetes de jornais, nos programas de rádio e nos noticiários da TV – é um vírus infectando por todos os lados - E quando ela vem, beija por vezes doce e meigamente. Um beijo de quem não escolhe o sujeito e que poderá ser dado num coração doente, num fígado putrefato, nos de velhice natural ou mesmo naqueles que se descuidam ao atravessar o asfalto. E ela, insaciável clamará por mais vítimas, induzirá governos e insensíveis decretos: morre-se mais pela desumana omissão e pelo pouco caso, que propriamente pelos estampidos das armas de fogo.
E apesar de eu nunca ter matado alguém a dúvida permanece: E se houvesse o meu primeiro tiro ou se estivesse naquele bar? Seria eu a mesma matéria de todos os guaranás?
Talvez ao me lerem se perguntem: mas de que porra o China ta falando? - Talvez me vejam matéria para analistas, terapeutas grupais e esses babados todos. Evidente, eu nem queria entrar no mérito, mas, se assim insistirem.... considero sim as opiniões alheias. Porém se persistirem em me entregar nas mãos da psicanálise, sinceramente, a minha opinião? Estarão errados! - Optaria por gastar o meu dinheiro numa das montanhas russas do Hopi Hari. E isso, necessariamente, não quer dizer que haja qualquer preconceito da minha parte com os psicanalistas – eu os respeito tanto quanto aos que acreditam neles e que crêem piamente que seus problemas serão resolvidos logo após abandonarem seus divãs. Talvez também esse meu ceticismo se deva ao fato de ser tão antiquado quanto aos guarda-chuvas de 16 varas revestidos de nylon tão grosso que não se corrompia nem mesmo com brasas de cigarro.
Mais: Acho que da mesma forma que somos capazes de criar nossos problemas, muitos de nós somos possíveis em resolvê-los. Porém, como os tempos são outros e a indiscriminada cultura de entorpecer nossos corpos e mentes com alguma coisa, achamos por bem entregar todos os nossos problemas e bens nas mãos da ciência, num típico “Toma que o filho é teu”, um claro lavar de mãos, um Pôncio Pilatos subjugado à multidão - E isso aos nossos olhos justificará dividirmos responsabilidades na esperança que esse alguém enquadre nossas angustias e encontre todas respostas, comparadas que serão aos volumosos casos contidos nos anais da psicanálise.
Geralmente é assim que funciona, e isso satisfará a muitos dos abastados que aliciados surfarão nessa praia: Pagar-se-á para ser menos infeliz -
Porém, em simples e leigo resumo, o trato da psicanálise é para mim nada mais, nada menos que um convidativo e caríssimo produto de consumo, uma finíssima roupa de seda exposta numa vitrine de cristal. Uma fuga alucinante e desesperada de muitos que procurarão nos espelhos do seu passado o angulo onde possivelmente a roupa não lhe vestiu bem. O exato número do dado, o segredo do cofre, algo ou alguém a que se impute toda ou parte da responsabilidade. Talvez o trevo da sorte, a possibilidade de encontrar, uma em um milhão, o prendedor de gravatas de safiras e brilhantes entre as finas areias do Saara.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
O Sindicato dos Mendigos
- E aí companheiro, como foi a féria de hoje?
-Xi..uma porcaria, 15 mangos no máximo.
-E a minha então? Hoje em dia os caras não estão nem aí pras nossas necessidades básicas!
-Iés mai best head! Nunca estão aí com a gente -
-Parceiro, a situação não pode continuar do jeito que está. Mais um mês e vamos quebrar – Concluiu o primeiro, afrouxando os ombros em desânimo.
Esses eram os inseparáveis Dallas e Betoven que, juntos há quase 20 anos faziam parte da história e do folclore local. Amigos fiéis reconheciam-se de olhos fechados, como de olhos cerrados identificariam quaisquer umas daquelas íngremes vielas percorridas de forma fatigante. Pedintes e sabedores que jamais sobreviveriam das esmolas nunca recusaram qualquer trabalho que surgisse, mesmo que carregando as pesadas sacolas de supermercados para madames e a custo duns poucos trocados.
Em fases que a falta de oportunidades desafiavam suas sobrevivências era comum vê-los aparando os jardins das casas mais imponentes, ou efetuando pequenos reparos em portões de madeira, cercas de arame farpado e até chuveiros elétricos. Figuras populares, os apelidos caiam-lhes na medida: Dallas, por jamais separar-se de um encardido e amassado chapéu de cowboy, além de sempre ter nos lábios alguma frase cuja pronúncia vagamente lembrava o inglês. Betoven, assim no bom português sustentava o cognome não por o terem pelo imortal predecessor pianista, mas pelo simples fato da sua cabeça descomunal dar a impressão de ser soldada ao corpo obeso e atarracado por um desses maçaricos de fundição.
Com efeitos, a observação do companheiro deixara Dallas reflexivo. Há bom tempo ele fazia não notar a velhice que agora chegara, denunciada no reflexo no espelho que apontava para sua pele cada vez mais enrugada e os cabelos quase que amplamente esbranquiçados. Porém não Dallas não se movia na mesquinhez e também se preocupava pelos outros mendigos que como eles vagavam a esmo pelas calçadas de cimento cru. Sim, Betoven estava coberto de razão – Eles afundariam se algo não acontecesse ou se permanecessem de braços cruzados, deixando-se enterrar vivos – Dallas ruminava todos esses pensamentos quando embaralhado pelas cinzas das reflexões a idéia tanto amalucada surgiu:
- Ôu mai gódi! E se nós fundássemos um sindicato, Betoven?- Perguntou Dallas após uns bons minutos de reflexão
-Como assim? Um sindicato? – Questionou o surpreso amigo.
-Sim, um sindicato! Por que não? Precisamos de algo que nos alimente mais que as ilusões – Concluiu Dallas, abandonando de vez a introspecção que se metera.
Por sorte ninguém presenciara a sua insólita propost que, se ouvida levaria o pessoal supor que se tratasse dum quadro de humor para um programa de televisão. Porém não se tratava de um humorístico e nem de piadas sem graça. Todavia Dallas se expandia, dando formas ao objeto de sua alucinação:
-Pensando aqui na a sigla...Hummm...SIMESP, o Sindicato dos Mendigos de São Paulo – Disse com o braço direito estirado enquanto sua mão acariciava suavemente o ar ao ir de um lado para outro como se apresentando ao amigo a fachada do prédio sindical.
-Poxa, o nome é imponente! SI MES PE – Confirmou Betoven ao saboreá-lo em sílabas. Depois completou: Bem, poderíamos, além de promover a primeira assembléia geral na frente à Paróquia do Bom Menino Jesus, pedir ao padre que abençoasse o nosso movimento. O que acha?
-Iés mai béste head! Você está coberto de razão. Nessas horas sempre é sempre bom ter Deus a favor – Consentiu Dallas ao ajustar no corpo um desgastado sobretudo de lã que lhe fora dado pelo padre, fruto de uma das campanhas do agasalho promovidas pela paróquia.
Ainda pensavam sobre aquilo enquanto retornavam para dentro da casa algumas tralhas que estavam largadas junto à entrada. Bem, na verdade aquilo não era propriamente uma casa: era mais um tipo de depósito fechado com madeiras compensadas, pregadas a alguns rufos de sustentação. Ali, debaixo do viaduto onde moravam não havia esgoto e nem água encanada, mas apenas enormes garrafões de plásticos que eram abastecidos nas torneiras dos quintais dos vizinhos próximos. E não havendo água, os banhos quando lembrados se tomavam num minúsculo banheiro externo junto à moradia do vigário, na igreja. Banhos que para a comodidade dos pobres pedintes eram tomados em água quente, pois até o chuveiro elétrico o padre providenciara. Porém por vezes de nada adiantava o pequeno luxo já que o pároco vivia ralhando para que mantivessem seus corpos limpos e asseados. Jamais se constituiria exagero afirmar que o padre Zezinho, mais que um servidor de Deus, representava para eles a família que há muito deixaram de ter.
Bem, com as tralhas acomodadas no barraco e numa noite extremamente fria eles friccionavam as mãos ininterruptamente à procura de algum aquecimento enquanto névoas se expeliam de suas narinas. Mas também não era somente o frio, havia a fome quando Betovem propôs:
-Dallas, vamos la na paróquia filar a bóia? – Peguntou ao amigo ao vestir um esgarçado blusão numa cor de um laranja queimado, onde um Homem-Aranha se estampava nas costas.
-Ah, não mai frend! To de saco cheio da sopa do Padre Zezinho – Rejeitou Dallas –
Na verdade Dallas estava enfastiado do caldo de legumes grosso e insosso que distribuíam aos pobres da comunidade. Porém, ele pensava e parecia ter outros planos praquela noite:
-Que tal uma comida chinesa, Betoven? – Perguntou ao companheiro circulando lentamente o estômago com a mão direita.
-Hum...boa pedida, heim! – Entusiasmou-se Betoven - No Ping Lee ou no Tai Wuan?
Dallas após pensar por instantes, decidiu:
-Vamos ao Ping Lee. No Tai Wuan ultimamente andam demasiadamente miseráveis. Parece comida pra quem está de regime.
Definido por um dos chinêses saiu à passos largos acompanhado com dificuldades por Betoven: geralmente no inverno a sua perna esquerda se acometia de artrose reumática. Dallas percebendo que o companheiro ficara para trás folgou o passo até ser alcançado pelo amigo. Caminhando com mais lentidão foram surpreendidos por fortes relâmpagos que riscavam os céus denunciando que a chuva não tardaria. O vento rajou forte ao atravessarem um descampado terreno da Prefeitura, justamente onde um dia se erguera um bonito e florido parque, mas que hoje em completo abandono só servia para abrigar lixos, bugigangas como a carroceria de um detonado Fusca 62 que se encontrava por lá. Atravessando a praça seguiram por alguas ruas até darem ao Ping Lee. Pararam diante do restaurante e olhando através das imensas janelas de vidros da fachada e perceberam que a casa estava lotada. Ficaram zanzando na frente de uma delas quando foram interropidos.
-Psiuuu! Caiam fora! – Bronqueou o manobristas do restaurante incomodado com a presença dos mendigos.
Dallas olhou-o com altivez, porém estava acostumado. Ao saírem dali para ganhar a rua sem saída ao lado e que servia para entrega de mercadorias, assim como de entrada de serviço, Betoven até então silencioso apontou o dedo médio para o alto e o mostrou ao guardador de carros. Sim, era uma ofensa, mas o rapaz, atabalhoado com o acúmulo de serviço fez que que não percebeu. Entrando pela viela caminharam alguns metros até se verem defronte a escada que acessava o restaurante. Subindo os cinco degraus e bateram suas mãos na pesada porta de ferro sem que fossem atendidos. Insatisfeitos, estocaram-na com mais vigor até que foi aberta por um senhor vestido numa túnica grená de botões dourados. Todos se olharam, pois se conheciam muito bem.
-Dallas, Dallas! Chang aposta vinte Manaus que Dallas veio filar bóia de chinês, né? – Disse num tom de ironia. O senhor era Chang, o proprietário do Ping Lee.
-Claro que viemos seu Pequim! Eu e meu sócio somos parte de sua publicidade. É como se fossemos outdoors ambulantes divulgando o seu estabelecimento pela redondeza. – Respondeu Dallas como se estivesse justificando o pedido do jantar. O chinês o olhou com um ar malandro do tipo "que conversa mais fiada". Dallas sabia que deveria ser mais convincente com aquele chinês parada dura.
- Sabe Chang... Sempre que nos perguntam onde se degusta a melhor comida chinesa da cidade... – Dallas foi bruscamente interrompido pelo chinês:
-Chang sabe! Cês falam pra freguês que é no Ping Lee, não é? – Presunçoso completou o chinês
-Certíssimo Mister Pequim! Inclusive orientamos não irem ao Tai Wuan, um restaurante que não zela pela boa qualidade da comida, higiene, essas coisas assim - Disse Dallas num tom de enfado
-Ah é? - Surpreedeu-se o dono do Ping Lee.
-É sim! Sempre temos a máximo prazer em indicar o seu estabelecimento porque aqui, além da ótima comida o atendimento é espetcular. Coisa de primeiro mundo – Dallas mudou o tom e respondeu no bom e charmoso estilo de outrora.
O malandro tentava impressionar o Sr. Chang, enquanto o Betoven meneava positivamente a imensa cabeça em confirmação às colocações do parceiro
-Ta bom, ta bom... convenceram Chang! Chang já volta – Comunicou o chinês ao dar meia volta e desaparecer juntamente com um estranho gorro para o interior do restaurante.
Passados não mais de 10 minutos, Chang voltava equilibrando duas refeições, uma em cada palma da mão. Chamou-os:
-Bom, aqui está comida do cara de pau do Dallas, e do puxa-saco Betoven. Hoje esses dois malandros vão comer melhor comida de Chang – Disse-lhes num ar de soberba, narrando os seus dotes culinários.
Claro, podíamos perceber os brilhos nos olhos dos esfomeados. Betoven mordiscava e lambia os próprios lábios enquanto Dallas acariciava a barriga. Porém teriam que esperar mais alguns minutos, afinal Chang ainda não terminara a apresentação dos seus pratos.
-Vejam, aqui temos aqui um maravilhoso arroz branco. Ao lado do ótimo arroz um encorpado yaksoba feito com pimentões de Mogi Mirim. Percebam agora esses dois camarões rosa empanados em farinha de rosca de Minas Gerais. Para completara bóia desses dois miseráveis essa suculenta e apetitosa porção de frango xadrez. Nunca falaria para ninguém que o segredo do espetacular frango de Chang é uma finíssima erva aromática de Caruaru– O chinês narrava pomposamente identificando cada item do cardápio.
Tudo seria ao nível da narrativa se não fosse a simplicidade dos pratos já desgastados e dos talheres plásticos que acompanhavam. Evidente, Dallas e Betoven não eram clientes preferenciais, desses que pagam suas próprias refeições. Assim que o chinês proferiu a última frase apenas um dos malandros se deu ao trabalho de inspecionar se cada uma das iguarias relatadas estava por lá. – Conferidas, estavam todas lá – Porém, Dallas de bobo nada tinha e um tanto observador por ter sido um exímio freqüentador de ótimos restaurantes notou que a comida servida pelo Sr. Chang nada mais era que as sobras das refeições dos seus clientes. Fato notório inclusive porque remexendo sua porção de arroz lá estavam misturados pequenos pedaços de tilápia à doré e de lombo frito.
Antes de Chang dar-lhes as costas e recomendar que tomassem cuidado com os pratos e que se desfizessem dos talheres plásticos ainda ouviu uma última solicitação de Betoven:
-Seu Tókio, não dá pra liberar uma cervejinha?
Chang nada respondeu afinal o pobre mendigo nem sabia onde ficava o Japão. Assim apenas virou as costas e sorriu sem que vissem. Um pouco adiante o chinês entrou porta de serviço e não mais voltou - Definitivamente aqueles dois eram os clientes mais sacanas que o dono dum restaurante chinês poderia desejar –
Assim que se viram sozinhos desceram os degraus da escada e sentaram no primeiro degrau.
-Dallas, esse nosso Sindicato será dos bons? – Perguntou Betoven enfiando abruptamente o garfo à boca onde se notava a misturas de parte de arroz, frango e macarrão.
-Claro Betoven! O Sindicato será o melhor deles! – Rpondeu servindo-se de um pedaço do camarão empanado, atacado na primeira garfada – E, olhando para frente e para o alto como se novamente vislumbrasse o edifício sindical, devaneou:
-O SEMESP terá a sede com seis andares. Lá no último andar estarão às salas da diretoria. Numa delas você cuidará da parte burocrática, das assembléias, assistência médica, e principalmente da manutenção da nossa sede de campo.
Na outra cuidarei das questões relacionadas à parte jurídica e dos direitos dos nossos associados. Sentarei á mesa de negociação e intermediarei junto com os representantes dos ricos sindicatos patronais os novos pisos salariais e a diminuição das contribuições sindicais. – Dallas sonhava não para si próprio, mas também para Betoven. Ele gostava das reações do amigo, daqueles seus olhos que brilharam ao vê-lo tratar dos seus tantos temas com afinco e entusiasmo. E assim continuou:
-Para os garotos dos semáforos e lavadores de pára-brisa talvez possamos estudar algo junto ao sindicato das montadoras de veículos, final, os carros são deles. Para os guardadores de carros quem sabe consigamos algo interessante com o sindicato das tecelagens; acho bacana qando colocam aqueles coletes sinalizadores. Porém teremos que propor para a categoria que deixe de roubar os toca CDS dos cientes. Agora, a classe que quero dedicar maior atenção é a dos mendigos – Dallas delirava para a felicidade de Betoven–
-Principalmente os da 3ª idade. Pra esses vamos lutar pra que nunca falte o prato comida e o remédio da pressão. Quem sabe possamos firmar algum tipo de convênio com o governo. Poderíamos propor ao pessoal da Receita Federal a isenção de parte dos impostos das indústrias desde que ajudassem a manter as casas de repouso. – Depois concluiu:
-Talvez Betoven, talvez hoje estejamos vislumbrando o projeto que ocasionará a maior revolução social já vista nesse país! - Exclamou com um estranho brilho no olhar.
O fato engraçado ficava por conta de Dallas se entusiasmar a tal ponto que repentinamente parecia acreditar no fato mais que o próprio parceiro, e se mantinha tão compenetrado na oratória que simplesmente se esquecera da comida - Até o frango xadrez parecia surpreso com a retórica–
E Dallas prosseguiu. Simplesmente ele se tornara uma máquina de calcular ao prever aposentadorias, reajustes, proporções de tempo de serviço, limites de idade, planos de assistência à saúde, incluindo-se neles as próteses dentárias e pontes de safena. Dallas falava da Previdência e o que poderia ser subsidiado pela União. E Dallas exprimia principalmente o projeto mor: a digna aposentadoria para todos velhos que, maltrapilhos ou não se tornarem mendigos.
Sim, Dallas sempre fora um sujeito extremamente arguto apesar de nunca ter cursado faculdade. A princípio um corretor da Bolsa, posteriormente sócio duma Corretora de Valores, a convite de um amigo que respondia pelo capital. Sim, e Dallas era habilíssimo nas negociações, e dono de um convencimento fácil tornou-se um sujeito de sucesso aos 30 e empobreceu aos 38, destroçado pela trama do mesmo sócio. Diante do rombo ardilosamente arquitetado pelo inescrupuloso sócio se viu desmoralizado perante o mercado de capitais. E assim com a sua corda puxada foi expelido para o esgoto como se fosse um fétido dejeto qualquer – Depois disso nunca mais conseguiu um emprego que valesse a pena, afinal era um sujeito marcado. E não foi apenas isso; Com o fato veio o abandono da mulher que amava, a bebida, a dependência alcoólica, e um longo internamento num manicômio, pois o supunham louco. A grande verdade sempre foi a que Dallas jamais conseguiu se reerguer -
Betoven, infinitamente limitado parou seus estudo à epoca no terceiro ano ginasial. Porém não havia prazer maior que ouvie com atenção a contagiante oratória do amigo. E Dallasfalava e ele, apenas embevecido não consegiu se conter:
-Dallas, você deveria ser o ministro da justiça! – Exclamou para o companheiro que naquele momento não mais se dava conta da sua existência
Dallas, fora de si persistia no discorrer os ideais de um louco. Sonhos, tão somente sonhos que eram blasfemados por seus lábios, frases na boca de um fracassado à procura de alguma redenção. Dallas era o delírio, era as fantasias que jamais se tornam realidade. Sim, Dallas sabia das utopias de uma nação longe de desgraças, misérias e tragédias. Porém Dallas era apenas delírios que se viam reféns duma serpente desumana que, enrolada à falta de senso esmagava gente miserável e desvalida. Dallas era isso, quimeras que se permitia sonhar, bastava apenas fechar os olhos e as visões estavam la, uma a uma.
E o extraordinário Dallas deixava-se perder em fantasias enquanto os restos reutilizados da boa comida de Chang esfriavam na solidão num daqueles ordinários pratos desgastados.
Copirraiti24Jun2009
Véio China©
segunda-feira, 15 de junho de 2009
O trem - Uma estória de amor -
Eu acabava de ler uma poesia no trem em que viajava. As frases escritas na porta do toalete davam conta de uma feitura em caneta esferográfica, linhas inclusive que jamais acabariam por abandonar minhas lembranças. Lembro-me de ter ficado impressionado já que se tratava de uma poesia que parecia pretender me cortar aos pedaços ou dilacerar aquilo que eu tinha por sentimentos. Impactado a transcrevi numa pequena agenda que trazia num dos bolsos do paletó. Talvez a repentina fixação pelo texto expusesse o inferno e as mazelas do pobre diabo que eu era. Aliás, um inferno que não me fora imposto - eu me impus - afinal, as coisas pareciam estar nos lugares errados e distantes donde gostaria que estivessem. Saindo do toalete rumei para uma direção oposta a que estava e segui pelo corredor estreito e mal iluminado. Talvez na oitava ou nona carreira de poltronas me deparei com uma moça descansando num dos solitários bancos da composição.
Encolhida rente à janela ela mantinha os olhos fechados e o pescoço envolto por um grosso e lilás cachecol de lã, afinal um frio cortante fustigava a sutileza de nossas almas num inverno vigoroso que há muito não se sentia – Ela ainda não se tinha dado conta da minha presença, e a sua solidão me lembrava a nostalgia dos filmes em P & B de Humprey Bogart e Lauren Bacall e os seus amores conturbados. De certa forma achei tão bela a cena que me mantive fixado nela por alguns instantes como se admirando uma obra de arte. Porém o seu ressonar foi bruscamente interrompido pelo destempero da minha perna estabanada que ao mudar o passo chocou-se contra o banco. Desperta e assustada olhou-me como quem pedisse para ser poupada de um mal maior.
Seu olhar, além de aflito me parecia-me triste, desses que abrem mão de alguma esperança –
-Perdão senhorita – Desculpei-me sem graça.
Ela continuou me olhando sem nada dizer. Educadamente perguntei se poderia sentar-me do seu lado. Sem responder, ela apenas ajustou o corpo ao banco e meneou a cabeça num consentimento. Ajeitei minha bagagem ao maleiro e me sentei à poltrona onde um suave odor dum perfume adocicado desprendia da de mulher. Enquanto me ajeitava, de soslaio percebi que insistia o olhar em mim. Repentinamente virei e penetrei os meus olhos em suas pupilas. Constrangida ela desviou o olhar e fitou o chão sob seus pés – Talvez se sentisse perturbada tanto quanto eu – supus-
- A senhorita está indo para onde? – Perguntei a fim de quebrar o silêncio desconfortante.
Ela apenas me fitou embaraçada e com o indicador apontando na direção dos lábios fez um sinal, para logo após sinalizar a negação. Continuei sem compreender a exatidão dos seus gestos até que se levantando e vasculhou por algo na valise acomodada na sua parte do bagageiro acima do banco. Parecendo encontrar o que procurava sentou-se e então foi que percebi o caderno e uma caneta em suas mãos. Delicadamente ela abriu o volume espiral e escreveu algo no seu interior. Depois me mostrou a folha como se pedindo para que eu lesse Apesar de suas bonitas e diminutas letras a parca luminosidade do corredor criava-me alguma dificuldade. Ajustando o foco da visão consegui ler suas frases.
“Muito prazer! Meu nome é Ana Laura. Desculpe-me não responder. Sou deficiente e não falo - E continuou– Estou indo para Nova Esperança, para casa de alguns parentes à procura de uma vida nova e melhor. E o senhor para aonde vai?” -
Assim que li procurei por seus olhos e eles continuavam a me fitar. Dessa vez sorria, gentilmente. Eu fiz gestos como se pedisse o caderno para que pudesse responder ao que ela negou. Novamente escreveu algo e o devolveu para mim.
“Se o senhor falar calmamente poderei ler seus lábios. Sou boa nisso!” – Olhei para ela e sorri. Alguma coisa naquela mulher dos seus 28 ou 29 anos me incomodava.
Ana Laura se manteve atenta aos meus lábios e expressões quando respondi estava indo para um lagar mais além do seu. Expliquei que igual a ela eu estava indo para um novo emprego e uma vida melhor, algo que não me concederam até então. Ela permaneceu sorrindo até estacionar em algum ponto sombrio de sua vida, o que fez sua expressão tornar-se séria. Depois virou o rosto na direção da janela e se manteve atenta à transparência do vidro – Eu podia sentir a sua melancolia ao retornar seu olhar para o caderno ao colo e começar a escrever pausadamente – Terminado, entregou-me para ler.
“Deixo São Paulo por não ter condições de permanecer na mesmo cidade do meu ex-noivo. Há muita mágoa em meu peito e não quero ser o motivo de chacota para as pessoas que souberam da sua traição com uma garota que talvez nem tenha completado a maioridade. Foram mais de nove anos de um relacionamento que julguei sólido e que, infelizmente terminou assim. Porém, mesmo com o acontecido ele não me deixa em paz”
Ao acabar de ler eu não sabia o que responder. Permaneci fixado nas letras bonitas e depois voltei o olhar para Ana Laura, saboreando a sua figura, atento às suas roupas e àquela delicada blusa azul que, apesar de modesta permanecia em perfeito alinho. Insistindo em sua estampa encontrei um lindo rosto e um par de fantásticos olhos negros. Novamente Laura sorriu sem se mostrar incomodada. Conforme fomos nos correspondendo já não constrangia o fato dela não poder interagir através da fala, aliás, não fazia a menor diferença. Ana Laura parecia ser sensível, e a delicadeza dos seus gestos denunciava a feminilidade acima de qualquer suspeita. Sim, claramente ali estava uma mulher que há muito eu não via.
Descontraídos e mais à vontade continuamos a corresponder pela madrugada afora – uma conversa agradável e insólita – Eu nunca me relacionara com uma mulher que se correspondia pela escrita – Li as suas tantas anotações quando surgiu a parte mais dolorosa – A sua mudez – Ana Laura perdera as cordas vocais aos 11 anos, e numa infecção que não cedeu aos antibióticos e aos poucos recursos da sua família. Inclusive a infecção disseminou por alguns órgãos e quase lhe retirou a vida. Incansável, Laura escrevia folhas inteiras. Relatou fatos curiosos e engraçados que me fizeram rir – E era tão gostoso ver sua expressão sorridente a cada comentário que eu fazia. Óbvio, isso me instigava. E conforme escrevia eu me fixava em seus olhos e eles, escuros e expressivos pareciam ter a própria voz- Era como se Laura pudesse escrever e decifrar a minha alma apenas com a força do olhar.
Passavam das quatro da manhã quando os seus olhos me pareceram exaustos – O cansaço a derrotava – Lentamente e sem que quisesse ou se esforçasse o seu olhar foi se fechando lentamente, e pouco depois eu ouvia a suavidade da sua respiração nos instante que antecede ao sono. Cuidadosamente retirei a sua caneta do vão dos dedos e a voltei para o bagageiro juntamente com o caderno – Acordada pelo meu movimento apenas sorriu agradecida e cerrou os olhos - No chão e em cima da sua pequena valise repousava uma manta de lã numa tonalidade vermelha e negra – Sem denotar gestos que a retirasse do pré-sono, cuidadosamente peguei a manta e a cobri do pescoço até aos calcanhares – Talvez ao sentir a maciez das fibras, infantilmente se aninhou para dentro dela comprimindo o corpo na intenção de aquecer-se o mais rapidamente.
Aquecida, delicadamente inclinou a cabeça para o onde eu estava e a abandonou em meu ombro, num repouso. Por Deus! Que sensação prazerosa o seu ato me ofertou, ainda mais porque o perfume parecia desprender dos seus cabelos acastanhados. Suavemente encostei a minha face em sua cabeça enquanto trem tenazmente perseguia seu destino. Ah, que sensação maravilhosa e reconfortante estar ali e ao seu lado. Sutilmente reclinei o meu banco e meneando discretamente os ombros fiz seu rosto deslizar para o meu peito. Mesmo sonolenta Ana Laura percebeu e se aconchegou nele. Eu senti a sua respiração descompassada ao seu toque do dedo que penetrou um dos vãos da minha camisa, acariciando-me.
Em seguida e com a respiração mais acelerada desabotoou três dos meus botões, penetrando a sua mão num ato repleto de sensualidade e carinho.
O trem persistia varando a imensidão da madrugada, deixando para trás campos, vales e planícies e um cheiro de mato e flores. O incessante ranger das rodas sobre os trilhos preenchia com sons os meus ouvidos como se fosse sangue bombeado e levado até ao coração. Eu não me compreendia.
O que poderia estar se passando com o sujeito que jamais demonstrava afeição ou sentimentos por quem quer que fosse? - Eu não sabia - Apenas me sentia perplexo ante àquela onda de “não sei o que” me invadindo num ato de carinho extremo ao roçar o rosto naqueles cabelos das mil fragrâncias. Apenas isso e simples assim. Ressalvadas as devidas proporções, Ana Laura me fazia sentir quase um ser medieval, uma especie de Dom Quixote de La Mancha, um bravo, um herói a duelar por sua donzela contra a magia de bruxos e feiticeiras e a força dos moinhos de ventos.
A mão de Laura permanecia aninhada em meu peito quando cuidadosamente procurei no bolso do paletó e dele retirei a pequena agenda onde escrevera a poesia do toalete. Centrei o pequeno caderno diante dos olhos para melhor poder ler.
Sou eu
Que te ouço
Açoitar a alma
Sou eu
As chibatadas
Destes devaneios
Sou eu
A lúdica sanidade
Das tuas novas verdades
Sou tudo o que te restou
Alguém por quem, saberás
Valerá a pena viver
Sussurrei o poema ao seu ouvido. Laura, acordada por meu murmúrio e com a sensibilidade à flor da pele, num misto entre o sonho e a realidade irrompeu num discreto soluço. O sensível lamento não foi capaz de debelar um cristalino par de lágrimas que desceu por suas faces, deslizou até queixo, desaguando nas cores da manta xadrez. Comovida, a suavidade dos seus dedos comprimia-me o peito com maior vigor e carinho. Porém, e como era de se esperar, decorridos alguns minutos, exausta, os dedos afrouxaram e se ampararam no tecido entre o vão dos botões. Um ou dois minutos o inevitável – Ana Laura adormeceu pesadamente – Uma feição serena e feliz emoldurava aquele rosto de doçura indescritível, enquanto eu, como um cão fiel, permaneci ali zelando o descanso do dono.
Jesus! Havia magia no ar, e eu era como um menino saboreando o perfume dos cabelos da primeira namorada, rogando à divindade que não nos abandonasse numa hora daquela. A maior das minhas verdades sempre fora aquela que a intransigência jamais me permitiu aceitar; Eu jamais me curvara ao amor. Olhando na direção da janela e a transparência do vidro nada me ofertava, salvo a negritude e um cheiro de natureza. Um novo dia estava a caminho e sol brilharia forte e dissiparia as sonolentas gotículas de orvalhos que ingenuamente amanheceram impregnadas nelas.
E com os raios de sol o mundo se agitaria e se inundaria de seres latejando vida por todos os poros, sujeitos nervosos, calmos, com amores para serem resolvidos, uniões, separações, lágrimas e risos. Muitos de nós aguardaríamos apenas a oportunidade desumana ato de sobrevivermos somente a mais um dia, apenas um dia.
E eu queria ser essa pessoa, necessitava do amanhecer. Queria ter a oportunidade de abrir as janelas e impor o rosto para fora deixar o vento me açoitar e respirar o mais puro ar dos eucaliptais. Sim, não desconhecia que o insensível e frenético trem perseguiria o destino, interrompido apenas por breves paradas. Sabia que nessas vezes um silvo seria um claro sinal para que novas e velhas esperanças se estampassem nos rostos das pessoas. Pessoas que se chegando ao destino se desfariam de sua viagem enquanto outras ganhariam os degraus metálicos e tomariam os assentos deixados por aquelas.
Nada fora tão simples como agora parecia ser, e tudo se traduzia na crença do vencer ou deixar-se tombar qual um peixe na beira de barranco, anzol na boca e um canivete atolado nas tripas. Tudo era apenas uma questão de escolha.
A madrugada rapidamente cedia o espaço para o dia, e ele vinha a passos largos, avassalador, e sabia que outra vez me desafiaria. E era essa a minha a chance e eu tinha que aproveitar e cravar as garras como a dum gavião que mata para sobreviver. Era a minha chance, talvez a derradeira, e era esse o meu momento, pois sem que o dia percebesse estava me concedendo os segredos revelados na madrugada. Sim, uma vantagem e tanto e mais que nunca eu necessitava surpreender este desafio, já que me cansara de ser abatido como a vítima da ave de rapina que nem soube por que morreu. Não, agora era a minha vez, sem surpresas, sem ardis, sem enganos, a minha vez de apenas viver e tentar ser feliz e esperar que o futuro se mantivesse receptivo às tantas mudanças, fossem quais fossem.
“Sou eu o cara por quem valerá a pena ter vivido” Segredei novamente no ouvido de Ana Laura. Talvez o sussurro tenha ocasionado algum incômodo e ela se remexeu, abriu e fechou os olhos e depois voltou a dormir com um sorriso impregnado nos lábios. Por fração de segundos permaneci extasiado diante do incômodo que me permitiu descansar o olhar naquele sorriso e nos olhos maravilhosamente negros.
Eu apenas sorri para tudo– Eles eram mágicos -
Copirraiti15Jun2009
Véio China©
domingo, 7 de junho de 2009
Paris & Texas - By Véio China -
“Despida de roupas e pudores a louca profana foi fecundada por quinze homens de gesso nas melancólicas corredeiras do rio Saigon”
Glória era do tipo de mulher que via poesia até em gibis do Fantasma. Evidente, eu tanto mais severo, sabia que aquela frase não mantendo compromisso com a coerência mais se assemelhava a um amontoado de palvaras.
-Pai, a sua viagem será no fim do mês? Você havia dito que queriam sua palestra numa universidade do nordeste.
-Não. Não será mais – Respondi secamente – No dia anterior eu recebera a comunição da universidade dispensando-me da apresentação.
“Prezado senhor Bodawski
Cordiais saudações
Por questões de calendário estamos cancelando sua
palestra, talvez para uma data oportuna.
Comunicaremos qualquer decisão”
Certamente eu não acreditava que houvesse alguma verdade ali. O mais provável é que eu tivesse sido alvo de preconceitos de alguma associação da localidade, quem sabe uma moção de repúdio das Senhoras da Liga Católica, afinal é comum ao reitor nordestino alimentar estreitos laços com a Igreja e suas representações locais. Portanto aqueles garotos e garotas acostumados aos shows de sertanejos universitários dos parques de exposições teriam que esperar nova oportunidade para se haverem com o grande escritor.
Claro que compreendi, ainda mais pelo fato de minha literatura ser considerada porngráfica.
Aliás, verdadeiramente nunca me tive na excelência de um escritor, mas apenas um sujeito que escrevia o que desse na telha deixando questões gramaticais para aos revisores da língua mãe.
Eu jamais seria um Celine, Fante, Faulkner ou mesmo o velho Hemingway . Entendia perfeitamente que me encontrava há duas galáxias de Machado de Assis ou José de Alencar. Afinal, eu era apenas o escritor tido como "O senhor das prostitutas" – um marginal no mundo das letras.
Glória, percebendo o meu desencanto insistiu seus olhos em mim por alguns segundos para depois se manifestar.
-Tsc, tsc, tsc – Nesse país não há compromisso com nada! Não há respeito por ninguém!- Ela disse tentanto levantar o meu astral. Olhei pra ela com carinho.
Glória estava comigo há oito anos – Recordo que a conhecera numa tarde de autógrafos em uma pequena livraria do centro de Curitiba. Na época os rapazes das universidades me achavam o máximo. Porém o fato jamais se constituiu novidade, afinal esses garotos são fissurados por estórias de prostitutas, bêbados e suas bebedeiras. Todavia nós os escritores do submundo tivemos o nosso tempo e agora nos pegávamos à marginalidade, ao fracasso de vendas e público, uns pobres devassos a mercê das cópias gratuitas e piratas de obras disponibilizadas na internet. Porém isso não vinha ao caso e observava Glória se arrumar e a mesma magia do olhar e do seu corpo ainda estavam lá, intactas Repentinamente ela me rapta dos pensamentos.
-Caraca, pai! Essa foi de lascar! Justo nesse mês? Foi muita falta de consideração desse pessoal. – Disse num lamento de quem sabia que estava suportando as despesas de casa.
Glória continuou a se arrumar já que pegaria no trabalho nas próximas duas horas – Sim, era um emprego bem remunerado na supervisão do departamento de tecidos importados num grande magazine de São Paulo. E a sua função, mais que merecida, afinal Glória se ralara por bons três anos até galgar a posição, um justo reconhecimento ao esforço e competência.
-Sabe...o Nicolau continua dirigindo gracejos para mim. Aquele idiota não se manca! – Reclamou ao rumar à cômoda para escolher bijuterias que adornariam o seu rosto. Glória estava especialmente linda naquela saia justa de tom esverdeado e inspecionava-se ao espelho deslizando as mãos pelo traseiro a fim de assentar o tecido ao corpo – Eu pensava sobre o que dissera sobre Nicolau, o gerente geral do magazine.
-Bem..esse cara sempre foi e será um escroto. Lembro do caso que você me contou, da menina do departamento pessoal e do bilhete azul por ter dado um tapa na cara do safado - Respondi. Glória assentiu com a cabeça ao ultimar os detalhes do seu ritual.
Era estranho e eu me embevecia ao flertá-la sem perder qualquer dos seus detalhes e movimentos, nem mesmo a franjinha que conferia a ela um ar maroto e excitante. Eu podia entender a dificuldade de Nicolau e da maioria dos homens com quem ela trabalhava, afinal, impossível não se deslumbrar diante dum bumbum tão perfeito e que se acentuava sob o tecido nas marcas das pequena calcinhas que vestia. E antes de borrar os grossos lábios num batom vermelho encarnado ela me beijou e enfiou sua língua em minha boca – Sorri para ela deslizando minhas mãos no seu traseiro; Me excitava o gosto da hortelã impregnado em sua língua após escovar os dentes–
-Daw, hoje eu to muito, muito a fim mesmo! – Sentenciou ao findar os ritos da vaidade. De quebra, novamente mordiscou meus lábios e apertou o meu pau. Ah sim! Vez ou outra Glória usava parte do meu nome para chamar-me de Daw.
Eu me excitava quando me dizia coisas daquele tipo dando vazão ao seu instintos felino. Devolvi um sorriso sacana àquele hábito seu de me prevenir da suas vontade, geralmente manisfestas na tradicional apertada do meu pau. Portanto aquela seria a noite de me desdobrar para a satisfazer a minha pantera. Depois com tudo providenciado perguntou-me se estava bonita e pisou fortemente em cada um dos pés para ajustar os saltos de 10 cms aos sapatos – “Estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu” – Ela cantarolou a música ao rumar à direção da porta de saída – Roberto sempre esteve entre os 10 mais no top list de Glória. Eu ria e achava curioso, afinal o que poderia haver de cimum entre ela e Roberto? A inda com um cara que nada tinha a ver co a sua geração? - Nada! absoluatmente nada. Sorri mis uma vez; Não que gostasse de Roberto, mas o respeitava e reconhecia o seu carisma
--Beijos, Daw! Te amo! - Ela de despediu
-Beijos, amor! Também te amo! - Retribui ao fechar a porta e girar a chave. Rapidamente encaixei uma das vistas nio olho mágico e a vi sair pelo pequeno jardim. Ao passar pela roseira, confundi-as.
Assim que se foi eu pensei seriamente sobre o ato de “fazer amor”, e não soube elucidar, mas ultimamente me sentia melhor escrevendo sobre uma boa trepada do que propriamente participando dela. Talvez eu andasse excessivamente desconcentrado, disperso e preocupado com a minha literatura que não mais ia há lugar algum. Também pensava nas diferenças que nos cercavam, principalmente as idades – Ela 28, eu 55 – E isso invariavelmente me fazia comparar os nossos rítmos, performances, e infalivelmente eu concluía que éramos nada mais que motores em funcionamento assim como de um carro, avião ou trator. E sendo máquinas fadavamo-nos ao obsoleto, ao fim, ao largar o posto para um modelo mais novo, assim como os japoneses que, friamente se quedam ao novo ao jogarem no lixo os seus equipamentos ás vezes nem tão velhos.
E isso me preocupava sobremaneira, já que, com um prazo de validade a caminho do fim poderia ser e ter-me como a bola da vez. Recordo de ter tocado nesse assunto com Glória por umas três ou quatro oportunidades, geralmente em estado não tão sóbrio. – “Que pensamento absurdo, Daw!” Ela dizia com um sorriso compreensível nos lábios. Geralmente naquelas ocasiões ficávamos pensativos, porém Roberto Carlos não gostava de ver pessoas circunspectas –“Eu te darei o céu meu bem/E o meu amor também” Foi o que ela e Roberto cantaram para mim naquela noite. Bem, nada mal, afinal aquela noite culminou com juras de amor e gemidos sob os lençóis.
E agora que ela se fora eu sentia saudade e eu nada tive a fazer salvo entreter-me aos pensamentos que diziam à nossa forma de relacionar. Pensamentos que poderiam se transformados em idéias para um ótimo texto, quem sabe até um novo livro, porém nada acontecia nada, e eu nada produzia. Fui para o quarto e me deitei e achei estranho estar ali em plenas duas da tarde, entediado e olhando para o teto como se esperasse das lâmpadas econômicas as soluções para todas as dificuldades.
Inquietei-me, abandonei a cama e fui para a cozinha e sobre a mesa um casal de mosquitos tentavam copular, aliás, o macho insistia em copular. Eu procurei não atrapalhar e assim o mosquito se posicionou em cima dela e vigorosamente agitava suas asas a fim de ajeitar-se numa melhor posição. Ela, arisca, indicando não sentir a menor vontade duma transa relâmpago fugia do cortejador. Porém o mosquito não se dava por vencido até que ela, ligeira, voou para longe do seu instinto reprodutor, acabando com a festa. Aquilo me entreteve por algum tempo, ma percebendo que estavam fadados ao fracasso desinteressei por completo – Será que moscas teriam TPM? – Hã? Sorri de mim mesmo. Um cretino sorrindo de suas cretinices.
Na janela da cozinha a claridade denunciava um sol abrasivo. Saindo pela porta rumei para o pequeno quintal. Na grama, deitado, o gato do vizinho que repousava tranquilamente assustou-se com o meu barulho e em largos pulos ganhou o muro divisório e depois saltou para cima do meu telhado. De lá, persistente e mal encarado ficou a me fitar, como dissesse – “Pô cara, tu é um desmancha prazer” – Eu achei engraçado e também o olhei por algum tempo até que, desinteressado, virou o corpo de pelos negros e seguiu ao longo do telhado e desapareceu das minhas vistas.
Momentaneamente senti vontade de ser ou parecer como ele e então me esparramei no gramado e rente a relva fiquei a observar a existência que havia ali. Impressionei-me com a cadeia produtiva e com as centenas de formigas que como um exército marchava carregando ínfimos pedaços de folhas, para serem depositados no fundo do formigueiro – Um pouco mais adiante mexi e toquei com um graveto em dois caramujos que se recolheram desconfiados. Pouco mais à frente Cid e Nancy, o nosso casal de tartarugas trocava carícias. O bom e velho Cid sempre me pareceu fanático por sexo e se mantinha em plena forma com as pastas sobre o casco da submissa Nancy que, imóvel parecia não querer quebrar o barato do velho companheiro.
“Deus! Será que todos não conseguem pensar em outra coisa?” – Resmunguei - O sexo podia ser visto a olho nu por todos os lugares daquele gramado. Era só ter um pouco de paciência para deparar-se com ele –
Fiquei por lá por quase uma hora com sol tostando meu rosto e braços – Eu sempre fora sensível aos os raios solares – A face e os mebros superiores ardiam quando achei melhor voltar para a casa. Entrando no quarto procurei o controle do DVD e coloquei no aparelho um filme que Glória locara no dia anterior. - Paris-Texas era o nome – Achei o título interessante. Afinal o que poderia significar Paris-Texas? – Assistindo foi que descobri que era o nome dum diminuto vilarejo do interior dos Estados Unidos.
Sim, um filme dramático que contava uma estória emotiva e angustiante, porém sem ser piegas.
Estranhamente me senti na pele do personagem central – Um cara desesperado que saiu à procura da mulher, 27 anos mais nova e que sumira de casa dum momento para outro– E a louca busca terminou depois de muito tempo no puteiro de um lugar escaldante, Paris Texas, onde as únicas diversões eram as garotas e as cascavéis rastejando-se nas terras tórridas à procura de abrigo do sol – E nesse puteiro formado por cabinas individuais as garotas atendiam seus clientes atrás de divisórias de vidros, algo como imensas janelas. E eles ao entrarem eram aguardados por elas e por fortes focos de luzes que, direcionados aos rostos das garotas impediam as feições dos clientes. E os sujeitos impunham-lhe posições, trejeitos, caras e bocas através de orientações pelos microfones. Portanto era apenas uma questão de tempo, e então elas ouviam os gemidos de seus gozos ao chegarem ao ápice. – Contudo foi melancólica e deprimente a cena em que o personagem reconhecendo a esposa pediu para que ela se masturbasse.
Terminado o filme senti que ele roubara alguma coisa de mim nos pensamentos que se intercalavam entre os lixos japoneses e a dolorosa situação vivida por um homem tão perdido como um puteiro no meio de cobras e deserto. Introspectivo e sem conseguir me desvencilhar da cena da masturbação eu perambulei pelos cômodos da casa até decidir tomar algumas cervejas. Por volta das oito da noite e eu havia consumido mais de uma dúzia de latinhas quando a porta se abriu abruptadamente e Glória surgiu. Confirmei no relógio e ela voltara duas horas antes do previsto – Sua feição denotava ódio:
-Aquele filho da puta! Aquele escroto de merda me encurralou nas prateleiras e me pressionou de encontro aos tecidos tentando deslizar a sua mão nojenta em mim – Glória esbravejou contorcendo o corpo, indicando o local onde ele a tocara. Eu a olhei, aturdido. Glória estava furiosa demais para parar:
-Ah, mas ele viu com quantos paus se faz uma canoa – Ah se viu! Empurrei-o para o lado e peguei uma tesoura ao alcance da mão e me fui á sua direção!–
-E conseguiu espetá-lo? – Perguntei preocupado.
-Que nada! O filho duma égua deu sorte. Soraia e mais duas garotas ouvindo os seus pedidos de socorro atracaram-se comigo e tiraram a tesoura da minha mão – Respondeu insatisfeita e com os olhos cuspindo fúria.
-Glória, porque não mandou esse cara se foder? – Argui.
-E você acha que não mandei? – Semana que vem passo lá só para receber o meu cheque
Glória estava tão fora de si que atirou a bolsa de encontro ao sofá ao mesmo tempo em que se desvencilhava dos saltos e da justa saia verde. Depois de alguns momentos ela envolta numa toalha se dirigiu ao banheiro - “Eu sou terrível/ E é bom parar/ De desse jeito/Me provocar” - Eu a ouvi cantar, aliás, esbravejar fora do tom. Logo após ouço o barulho da porta do Box se abrindo – Pra variar, Roberto Carlos, até nas horas mais difíceis continuava soberano -
Assim que escuto o som da eletricidade agindo no chuveiro algo me vem à mente e eu pego o caderno e escrevo: dificuldades para assimilar a que me desafiava:
“Despida de roupas e pudores a louca profana foi fecundada por quinze homens de gesso nas melancólicas corredeiras do rio Saigon” - Leio, releio, e insisto em voz alta.
-Que merda! – Gemi. Eu simplesmente não sabia o que fazer com aquilo.
Depois de 20 minutos Glória sai do banho num transparente baby-doll branco - Ela estava ótima e parecia que o banho quente havia a acalmado. Ela até sorria.
-Daw, vamos pedir uma pizza de escarola e aliche?
-Vamos! E sem esquecer-se da camada extra de mussarela! – Concordei rumando ao telefone - Glória e eu adorávamos o contraste da verdura e o peixe salgado. E também era bom para descontrairmos.
E ela continuava me fitando naqueles imensos olhos negros. E ela sorria um sorriso que conhecia bem, um sorriso lindo em lábios isentos de batom.
-Paizinho, depois da pizza vamos ver esse filme que aluguei? – Disse com o DVD na mão. Depois, indecisa e olhando para a capa do filme questionou:
– Daw... se Paris é na França e Texas, nos Estados Unidos, como pode ser Paris-Texas? –
-Sim, claro que pode. Não só pode como é! – Eu respondi olhando atentamente para formato dos protuberantes seios espremidos por debaixo daquela misericordiosa transparência. Logo após ela vestiu um robe lilás e extremamente feminino –
– Ah, é assim, vou te explicar - Pigarreei ao vê-la dar o nó no tecido.
Então inventei que havia assistido ao filme e ele retratava a época da “Guerra Fria” e contava a estória de dois espiões que se odiavam; um americano e o outro, francês.
E mesmo que trabalhando em conjunto e para uma só causa, cada qual tentava ser mais preciso na espionagem contra a poderosa KGB da ex União Soviética.
- E foi assim... uma estória idiota que termina com cada um planejando a morte do outro – Concluí bocejante para uma Glória atenta ao que eu dizia –
Glória olhou novamente para a capa do DVD com indiferença e calmamente o repousou acima do rack da TV - Ela odiava filmes de ação – Foi bom para mim, pois me livrava de outro momento de depressão.
Caminhando na direção do telefone olhei os outros dois DVDs que ela trouxera e escolhi um de capa engraçada - “Faça a coisa certa” Dizia o título - Um grande filme que narrava de forma divertida e dramática o preconceito americano diante dos negros e emigrantes de descendência latina. Nesse meio tempo Glória estava às voltas com a nossa cama e ajeitava os travesseiros para que pudéssemos assistir à fita.
-Por favor, também mande meia dúzia de cervejas em lata e um Guaraná Diet. de 2 litros– Pedi para o rapaz da pizzaria.
Do telefone fui para o banho e após uns 25 minutos retornei de barba feita e recendendo à água de colônia. Glória já me esperava debaixo do edredom. Ao lado, na mesinha de cabeceira uma redonda caixa de pizza nos aguardava ladeadas por pratos, talheres, cerveja e um copo de refrigerante – Abri a cerveja e a caixa e a pizza e a sua aparência estava ótima. Fechei-a. Ela sorria quando me deitei, dei um gole na cerveja e me ajeitei ao seu lado. Glória persistia sorrindo ao exalar o odor do meu corpo. Suavemente ela roçava a língua em todo o meu peito e, depois, como era de se esperar enfiou a língua em minha boca – Eu sabia o que significava aquilo - Sensualmente entrelaçou suas pernas nas minhas enquanto o disco do DVD em funcionamento apresentava trailers de outros filmes.
Líamos os letreiros do “Faça a coisa certa” quando meus pensamentos voaram para um lugar distante – Eu tentava imaginar como eu faria para possuir alguém nas corredeiras do Rio Saigon – Voltando à realidade, olhei pausadamente para os negros olhos de Glória – Ela estava magnífica – Eu sorria quando me ocorreu que tanto a pergunta como a resposta sempre estivera ali ao meu lado e alcance – Eu achara a solução para o meu grande dilema sem necessitar longe – Por fração de segundos relembrei a decepção do mosquito – Não, comigo não será assim. Disse para mim ao agarrá-la pela cintura e a beijá-la com volúpia deslizando meus dedos por debaixo do robe - Glória estava excitada. Com delicadeza desfiz o nó do roupão apreciei o seu corpo seminu, apenas adornado pelo baby-doll transparente - O filme teria que esperar. “Coisas certas” estavam sendo feitas, não numa corredeira, mas acima de uma cama de imbuia maciça.
Na caixa, a pizza ainda permanecia com os pedaços unidos, porém prontos para serem degustados. Tanto nós como eles sabíamos que a noite seria das melhores.
-Bzzzzzzzzzzzzzzz – Zuni suavemente em seu ouvido.
-Aiiii meu mosquitão! – Exclamou e depois riu suave e feminina.
Eu estava com tudo! Ela apenas me cutucou e riu. Eu também ri e respondi que de certa forma eu sempre fora um díptero. Ela fez uma expressão de quem não compreendera, e o que não evitou que os negros olhos deixassem de ler a minha alma. “Eu te amo, Daw” ela sussurrou enquanto me apertava por cima da braguilha. Uma sensação boa transbordava em mim, e sentia-me capaz de possuí-la nas violentas corredeiras de um rio qualquer, mesmo o de Saigon. Ela continuou sorrindo e pressionando meu corpo cada vez mais forte. Eu a beijei apaixonadamente e selei o seu corpo junto ao meu como se fossemos a extensão um do outro. Eu apenas torcia para que aquele sentimento jamais terminasse e que não houvesse dor que me fizesse reencontrá-la. Para nós, Paris Texas era e seria apenas um lugar distante
CopirraitiSet2009
Véio China ©
Glória era do tipo de mulher que via poesia até em gibis do Fantasma. Evidente, eu tanto mais severo, sabia que aquela frase não mantendo compromisso com a coerência mais se assemelhava a um amontoado de palvaras.
-Pai, a sua viagem será no fim do mês? Você havia dito que queriam sua palestra numa universidade do nordeste.
-Não. Não será mais – Respondi secamente – No dia anterior eu recebera a comunição da universidade dispensando-me da apresentação.
“Prezado senhor Bodawski
Cordiais saudações
Por questões de calendário estamos cancelando sua
palestra, talvez para uma data oportuna.
Comunicaremos qualquer decisão”
Certamente eu não acreditava que houvesse alguma verdade ali. O mais provável é que eu tivesse sido alvo de preconceitos de alguma associação da localidade, quem sabe uma moção de repúdio das Senhoras da Liga Católica, afinal é comum ao reitor nordestino alimentar estreitos laços com a Igreja e suas representações locais. Portanto aqueles garotos e garotas acostumados aos shows de sertanejos universitários dos parques de exposições teriam que esperar nova oportunidade para se haverem com o grande escritor.
Claro que compreendi, ainda mais pelo fato de minha literatura ser considerada porngráfica.
Aliás, verdadeiramente nunca me tive na excelência de um escritor, mas apenas um sujeito que escrevia o que desse na telha deixando questões gramaticais para aos revisores da língua mãe.
Eu jamais seria um Celine, Fante, Faulkner ou mesmo o velho Hemingway . Entendia perfeitamente que me encontrava há duas galáxias de Machado de Assis ou José de Alencar. Afinal, eu era apenas o escritor tido como "O senhor das prostitutas" – um marginal no mundo das letras.
Glória, percebendo o meu desencanto insistiu seus olhos em mim por alguns segundos para depois se manifestar.
-Tsc, tsc, tsc – Nesse país não há compromisso com nada! Não há respeito por ninguém!- Ela disse tentanto levantar o meu astral. Olhei pra ela com carinho.
Glória estava comigo há oito anos – Recordo que a conhecera numa tarde de autógrafos em uma pequena livraria do centro de Curitiba. Na época os rapazes das universidades me achavam o máximo. Porém o fato jamais se constituiu novidade, afinal esses garotos são fissurados por estórias de prostitutas, bêbados e suas bebedeiras. Todavia nós os escritores do submundo tivemos o nosso tempo e agora nos pegávamos à marginalidade, ao fracasso de vendas e público, uns pobres devassos a mercê das cópias gratuitas e piratas de obras disponibilizadas na internet. Porém isso não vinha ao caso e observava Glória se arrumar e a mesma magia do olhar e do seu corpo ainda estavam lá, intactas Repentinamente ela me rapta dos pensamentos.
-Caraca, pai! Essa foi de lascar! Justo nesse mês? Foi muita falta de consideração desse pessoal. – Disse num lamento de quem sabia que estava suportando as despesas de casa.
Glória continuou a se arrumar já que pegaria no trabalho nas próximas duas horas – Sim, era um emprego bem remunerado na supervisão do departamento de tecidos importados num grande magazine de São Paulo. E a sua função, mais que merecida, afinal Glória se ralara por bons três anos até galgar a posição, um justo reconhecimento ao esforço e competência.
-Sabe...o Nicolau continua dirigindo gracejos para mim. Aquele idiota não se manca! – Reclamou ao rumar à cômoda para escolher bijuterias que adornariam o seu rosto. Glória estava especialmente linda naquela saia justa de tom esverdeado e inspecionava-se ao espelho deslizando as mãos pelo traseiro a fim de assentar o tecido ao corpo – Eu pensava sobre o que dissera sobre Nicolau, o gerente geral do magazine.
-Bem..esse cara sempre foi e será um escroto. Lembro do caso que você me contou, da menina do departamento pessoal e do bilhete azul por ter dado um tapa na cara do safado - Respondi. Glória assentiu com a cabeça ao ultimar os detalhes do seu ritual.
Era estranho e eu me embevecia ao flertá-la sem perder qualquer dos seus detalhes e movimentos, nem mesmo a franjinha que conferia a ela um ar maroto e excitante. Eu podia entender a dificuldade de Nicolau e da maioria dos homens com quem ela trabalhava, afinal, impossível não se deslumbrar diante dum bumbum tão perfeito e que se acentuava sob o tecido nas marcas das pequena calcinhas que vestia. E antes de borrar os grossos lábios num batom vermelho encarnado ela me beijou e enfiou sua língua em minha boca – Sorri para ela deslizando minhas mãos no seu traseiro; Me excitava o gosto da hortelã impregnado em sua língua após escovar os dentes–
-Daw, hoje eu to muito, muito a fim mesmo! – Sentenciou ao findar os ritos da vaidade. De quebra, novamente mordiscou meus lábios e apertou o meu pau. Ah sim! Vez ou outra Glória usava parte do meu nome para chamar-me de Daw.
Eu me excitava quando me dizia coisas daquele tipo dando vazão ao seu instintos felino. Devolvi um sorriso sacana àquele hábito seu de me prevenir da suas vontade, geralmente manisfestas na tradicional apertada do meu pau. Portanto aquela seria a noite de me desdobrar para a satisfazer a minha pantera. Depois com tudo providenciado perguntou-me se estava bonita e pisou fortemente em cada um dos pés para ajustar os saltos de 10 cms aos sapatos – “Estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu” – Ela cantarolou a música ao rumar à direção da porta de saída – Roberto sempre esteve entre os 10 mais no top list de Glória. Eu ria e achava curioso, afinal o que poderia haver de cimum entre ela e Roberto? A inda com um cara que nada tinha a ver co a sua geração? - Nada! absoluatmente nada. Sorri mis uma vez; Não que gostasse de Roberto, mas o respeitava e reconhecia o seu carisma
--Beijos, Daw! Te amo! - Ela de despediu
-Beijos, amor! Também te amo! - Retribui ao fechar a porta e girar a chave. Rapidamente encaixei uma das vistas nio olho mágico e a vi sair pelo pequeno jardim. Ao passar pela roseira, confundi-as.
Assim que se foi eu pensei seriamente sobre o ato de “fazer amor”, e não soube elucidar, mas ultimamente me sentia melhor escrevendo sobre uma boa trepada do que propriamente participando dela. Talvez eu andasse excessivamente desconcentrado, disperso e preocupado com a minha literatura que não mais ia há lugar algum. Também pensava nas diferenças que nos cercavam, principalmente as idades – Ela 28, eu 55 – E isso invariavelmente me fazia comparar os nossos rítmos, performances, e infalivelmente eu concluía que éramos nada mais que motores em funcionamento assim como de um carro, avião ou trator. E sendo máquinas fadavamo-nos ao obsoleto, ao fim, ao largar o posto para um modelo mais novo, assim como os japoneses que, friamente se quedam ao novo ao jogarem no lixo os seus equipamentos ás vezes nem tão velhos.
E isso me preocupava sobremaneira, já que, com um prazo de validade a caminho do fim poderia ser e ter-me como a bola da vez. Recordo de ter tocado nesse assunto com Glória por umas três ou quatro oportunidades, geralmente em estado não tão sóbrio. – “Que pensamento absurdo, Daw!” Ela dizia com um sorriso compreensível nos lábios. Geralmente naquelas ocasiões ficávamos pensativos, porém Roberto Carlos não gostava de ver pessoas circunspectas –“Eu te darei o céu meu bem/E o meu amor também” Foi o que ela e Roberto cantaram para mim naquela noite. Bem, nada mal, afinal aquela noite culminou com juras de amor e gemidos sob os lençóis.
E agora que ela se fora eu sentia saudade e eu nada tive a fazer salvo entreter-me aos pensamentos que diziam à nossa forma de relacionar. Pensamentos que poderiam se transformados em idéias para um ótimo texto, quem sabe até um novo livro, porém nada acontecia nada, e eu nada produzia. Fui para o quarto e me deitei e achei estranho estar ali em plenas duas da tarde, entediado e olhando para o teto como se esperasse das lâmpadas econômicas as soluções para todas as dificuldades.
Inquietei-me, abandonei a cama e fui para a cozinha e sobre a mesa um casal de mosquitos tentavam copular, aliás, o macho insistia em copular. Eu procurei não atrapalhar e assim o mosquito se posicionou em cima dela e vigorosamente agitava suas asas a fim de ajeitar-se numa melhor posição. Ela, arisca, indicando não sentir a menor vontade duma transa relâmpago fugia do cortejador. Porém o mosquito não se dava por vencido até que ela, ligeira, voou para longe do seu instinto reprodutor, acabando com a festa. Aquilo me entreteve por algum tempo, ma percebendo que estavam fadados ao fracasso desinteressei por completo – Será que moscas teriam TPM? – Hã? Sorri de mim mesmo. Um cretino sorrindo de suas cretinices.
Na janela da cozinha a claridade denunciava um sol abrasivo. Saindo pela porta rumei para o pequeno quintal. Na grama, deitado, o gato do vizinho que repousava tranquilamente assustou-se com o meu barulho e em largos pulos ganhou o muro divisório e depois saltou para cima do meu telhado. De lá, persistente e mal encarado ficou a me fitar, como dissesse – “Pô cara, tu é um desmancha prazer” – Eu achei engraçado e também o olhei por algum tempo até que, desinteressado, virou o corpo de pelos negros e seguiu ao longo do telhado e desapareceu das minhas vistas.
Momentaneamente senti vontade de ser ou parecer como ele e então me esparramei no gramado e rente a relva fiquei a observar a existência que havia ali. Impressionei-me com a cadeia produtiva e com as centenas de formigas que como um exército marchava carregando ínfimos pedaços de folhas, para serem depositados no fundo do formigueiro – Um pouco mais adiante mexi e toquei com um graveto em dois caramujos que se recolheram desconfiados. Pouco mais à frente Cid e Nancy, o nosso casal de tartarugas trocava carícias. O bom e velho Cid sempre me pareceu fanático por sexo e se mantinha em plena forma com as pastas sobre o casco da submissa Nancy que, imóvel parecia não querer quebrar o barato do velho companheiro.
“Deus! Será que todos não conseguem pensar em outra coisa?” – Resmunguei - O sexo podia ser visto a olho nu por todos os lugares daquele gramado. Era só ter um pouco de paciência para deparar-se com ele –
Fiquei por lá por quase uma hora com sol tostando meu rosto e braços – Eu sempre fora sensível aos os raios solares – A face e os mebros superiores ardiam quando achei melhor voltar para a casa. Entrando no quarto procurei o controle do DVD e coloquei no aparelho um filme que Glória locara no dia anterior. - Paris-Texas era o nome – Achei o título interessante. Afinal o que poderia significar Paris-Texas? – Assistindo foi que descobri que era o nome dum diminuto vilarejo do interior dos Estados Unidos.
Sim, um filme dramático que contava uma estória emotiva e angustiante, porém sem ser piegas.
Estranhamente me senti na pele do personagem central – Um cara desesperado que saiu à procura da mulher, 27 anos mais nova e que sumira de casa dum momento para outro– E a louca busca terminou depois de muito tempo no puteiro de um lugar escaldante, Paris Texas, onde as únicas diversões eram as garotas e as cascavéis rastejando-se nas terras tórridas à procura de abrigo do sol – E nesse puteiro formado por cabinas individuais as garotas atendiam seus clientes atrás de divisórias de vidros, algo como imensas janelas. E eles ao entrarem eram aguardados por elas e por fortes focos de luzes que, direcionados aos rostos das garotas impediam as feições dos clientes. E os sujeitos impunham-lhe posições, trejeitos, caras e bocas através de orientações pelos microfones. Portanto era apenas uma questão de tempo, e então elas ouviam os gemidos de seus gozos ao chegarem ao ápice. – Contudo foi melancólica e deprimente a cena em que o personagem reconhecendo a esposa pediu para que ela se masturbasse.
Terminado o filme senti que ele roubara alguma coisa de mim nos pensamentos que se intercalavam entre os lixos japoneses e a dolorosa situação vivida por um homem tão perdido como um puteiro no meio de cobras e deserto. Introspectivo e sem conseguir me desvencilhar da cena da masturbação eu perambulei pelos cômodos da casa até decidir tomar algumas cervejas. Por volta das oito da noite e eu havia consumido mais de uma dúzia de latinhas quando a porta se abriu abruptadamente e Glória surgiu. Confirmei no relógio e ela voltara duas horas antes do previsto – Sua feição denotava ódio:
-Aquele filho da puta! Aquele escroto de merda me encurralou nas prateleiras e me pressionou de encontro aos tecidos tentando deslizar a sua mão nojenta em mim – Glória esbravejou contorcendo o corpo, indicando o local onde ele a tocara. Eu a olhei, aturdido. Glória estava furiosa demais para parar:
-Ah, mas ele viu com quantos paus se faz uma canoa – Ah se viu! Empurrei-o para o lado e peguei uma tesoura ao alcance da mão e me fui á sua direção!–
-E conseguiu espetá-lo? – Perguntei preocupado.
-Que nada! O filho duma égua deu sorte. Soraia e mais duas garotas ouvindo os seus pedidos de socorro atracaram-se comigo e tiraram a tesoura da minha mão – Respondeu insatisfeita e com os olhos cuspindo fúria.
-Glória, porque não mandou esse cara se foder? – Argui.
-E você acha que não mandei? – Semana que vem passo lá só para receber o meu cheque
Glória estava tão fora de si que atirou a bolsa de encontro ao sofá ao mesmo tempo em que se desvencilhava dos saltos e da justa saia verde. Depois de alguns momentos ela envolta numa toalha se dirigiu ao banheiro - “Eu sou terrível/ E é bom parar/ De desse jeito/Me provocar” - Eu a ouvi cantar, aliás, esbravejar fora do tom. Logo após ouço o barulho da porta do Box se abrindo – Pra variar, Roberto Carlos, até nas horas mais difíceis continuava soberano -
Assim que escuto o som da eletricidade agindo no chuveiro algo me vem à mente e eu pego o caderno e escrevo: dificuldades para assimilar a que me desafiava:
“Despida de roupas e pudores a louca profana foi fecundada por quinze homens de gesso nas melancólicas corredeiras do rio Saigon” - Leio, releio, e insisto em voz alta.
-Que merda! – Gemi. Eu simplesmente não sabia o que fazer com aquilo.
Depois de 20 minutos Glória sai do banho num transparente baby-doll branco - Ela estava ótima e parecia que o banho quente havia a acalmado. Ela até sorria.
-Daw, vamos pedir uma pizza de escarola e aliche?
-Vamos! E sem esquecer-se da camada extra de mussarela! – Concordei rumando ao telefone - Glória e eu adorávamos o contraste da verdura e o peixe salgado. E também era bom para descontrairmos.
E ela continuava me fitando naqueles imensos olhos negros. E ela sorria um sorriso que conhecia bem, um sorriso lindo em lábios isentos de batom.
-Paizinho, depois da pizza vamos ver esse filme que aluguei? – Disse com o DVD na mão. Depois, indecisa e olhando para a capa do filme questionou:
– Daw... se Paris é na França e Texas, nos Estados Unidos, como pode ser Paris-Texas? –
-Sim, claro que pode. Não só pode como é! – Eu respondi olhando atentamente para formato dos protuberantes seios espremidos por debaixo daquela misericordiosa transparência. Logo após ela vestiu um robe lilás e extremamente feminino –
– Ah, é assim, vou te explicar - Pigarreei ao vê-la dar o nó no tecido.
Então inventei que havia assistido ao filme e ele retratava a época da “Guerra Fria” e contava a estória de dois espiões que se odiavam; um americano e o outro, francês.
E mesmo que trabalhando em conjunto e para uma só causa, cada qual tentava ser mais preciso na espionagem contra a poderosa KGB da ex União Soviética.
- E foi assim... uma estória idiota que termina com cada um planejando a morte do outro – Concluí bocejante para uma Glória atenta ao que eu dizia –
Glória olhou novamente para a capa do DVD com indiferença e calmamente o repousou acima do rack da TV - Ela odiava filmes de ação – Foi bom para mim, pois me livrava de outro momento de depressão.
Caminhando na direção do telefone olhei os outros dois DVDs que ela trouxera e escolhi um de capa engraçada - “Faça a coisa certa” Dizia o título - Um grande filme que narrava de forma divertida e dramática o preconceito americano diante dos negros e emigrantes de descendência latina. Nesse meio tempo Glória estava às voltas com a nossa cama e ajeitava os travesseiros para que pudéssemos assistir à fita.
-Por favor, também mande meia dúzia de cervejas em lata e um Guaraná Diet. de 2 litros– Pedi para o rapaz da pizzaria.
Do telefone fui para o banho e após uns 25 minutos retornei de barba feita e recendendo à água de colônia. Glória já me esperava debaixo do edredom. Ao lado, na mesinha de cabeceira uma redonda caixa de pizza nos aguardava ladeadas por pratos, talheres, cerveja e um copo de refrigerante – Abri a cerveja e a caixa e a pizza e a sua aparência estava ótima. Fechei-a. Ela sorria quando me deitei, dei um gole na cerveja e me ajeitei ao seu lado. Glória persistia sorrindo ao exalar o odor do meu corpo. Suavemente ela roçava a língua em todo o meu peito e, depois, como era de se esperar enfiou a língua em minha boca – Eu sabia o que significava aquilo - Sensualmente entrelaçou suas pernas nas minhas enquanto o disco do DVD em funcionamento apresentava trailers de outros filmes.
Líamos os letreiros do “Faça a coisa certa” quando meus pensamentos voaram para um lugar distante – Eu tentava imaginar como eu faria para possuir alguém nas corredeiras do Rio Saigon – Voltando à realidade, olhei pausadamente para os negros olhos de Glória – Ela estava magnífica – Eu sorria quando me ocorreu que tanto a pergunta como a resposta sempre estivera ali ao meu lado e alcance – Eu achara a solução para o meu grande dilema sem necessitar longe – Por fração de segundos relembrei a decepção do mosquito – Não, comigo não será assim. Disse para mim ao agarrá-la pela cintura e a beijá-la com volúpia deslizando meus dedos por debaixo do robe - Glória estava excitada. Com delicadeza desfiz o nó do roupão apreciei o seu corpo seminu, apenas adornado pelo baby-doll transparente - O filme teria que esperar. “Coisas certas” estavam sendo feitas, não numa corredeira, mas acima de uma cama de imbuia maciça.
Na caixa, a pizza ainda permanecia com os pedaços unidos, porém prontos para serem degustados. Tanto nós como eles sabíamos que a noite seria das melhores.
-Bzzzzzzzzzzzzzzz – Zuni suavemente em seu ouvido.
-Aiiii meu mosquitão! – Exclamou e depois riu suave e feminina.
Eu estava com tudo! Ela apenas me cutucou e riu. Eu também ri e respondi que de certa forma eu sempre fora um díptero. Ela fez uma expressão de quem não compreendera, e o que não evitou que os negros olhos deixassem de ler a minha alma. “Eu te amo, Daw” ela sussurrou enquanto me apertava por cima da braguilha. Uma sensação boa transbordava em mim, e sentia-me capaz de possuí-la nas violentas corredeiras de um rio qualquer, mesmo o de Saigon. Ela continuou sorrindo e pressionando meu corpo cada vez mais forte. Eu a beijei apaixonadamente e selei o seu corpo junto ao meu como se fossemos a extensão um do outro. Eu apenas torcia para que aquele sentimento jamais terminasse e que não houvesse dor que me fizesse reencontrá-la. Para nós, Paris Texas era e seria apenas um lugar distante
CopirraitiSet2009
Véio China ©
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