Recordo uma oacasião em que estava com a perna estirada sobre uma banqueta almofada na sala de casa, irritado naquela hibernação que me fazia perder o período das férias do trabalho. Lembro também que, ocioso e com poucas alternativas para matar o tempo me afundei em DVDs das locadoras e nos programas de TVs, principalmente os policialescos como o Cidade Alerta. Sim, ja fora agendade e eu iria para um lugar bacana, afinal como todo bom sedentário paulistano já me via no litoral com a barriga grudada num daqueles quiosques à beira de praia onde cervejas e espetinhos de camarão me fariam companhia. Óbvio, era para ter estado lá misturado àquele oceano de gente, bronzeando a pele num sol que não daria uma única mancada assim como os funcionários exemplares. Porém não foi daquela feita que meus pés se cravaram nas cristalinas areias de Boiçucanga e nem os olhos fincaram embevecidos no azul do mar ou nas curvilíneas garotas a bordo de ínfimos e coloridos biquínis.
Bem, o que poderia ser aprendido com aquela nova decepção? Nada, salvo ficar atento numa próxima vez para não destruir meu carro na traseira dum automóvel qualquer. Todavia poderia ter sido pior se evetualmente fosse um caminhão o veículo que estivesse à frente. Claro, pior, afinal era bem provável que não somente a perna e braço esquerdos estivessem fraturados, pois iria para debaixo dele. E assim de molho, a ociosidade junto dos filmes e reportagens me definhava quando tive estúpida idéia de exigindo da memória buscar nomes de pessoas que de certa forma transitaram em minha vida. Evidente, eu nem sabia porque resolvera aquilo, mas que, decido, liguei o notebook e abrindo o Word iniciei por uma ordem alfabética. Estava quase pela hora do almoço e até então com mais de 120 nomes catalogados quando me deparei com letra “G”. Digitei alguns nomes quando me surgiu Girkins
Ao relembrá-lo meu sorriso retroagiu no tempo, talvez uns cinco ou seis anos, época bacana e importante para minha vida. Era uma fase das mais produtivas onde conheci poetas e escritores, pessoas que tinham nas veias não o plasma e células, mas sim a literatura. Girkins, claro, fizera parte daquilo. Lembro-me de quando conheci aquele sujeito falante e de sorriso franco ao estar juntamente com um primo numa dessas confraternizações de comunidades literárias em sites de relacionamentos. E o acompanhava não somente por ter me convidado, mas por também gostar de literatura. Naquela noite os meus sorrisos tímidos e palavras gentis foram apresentados ao pessoal. E eles me pareciam legais, inteligentes e espirituosos, tanto que acabei por me comprometer em fazer parte da comunidade que freqüentavam. Assim lá estava eu pedindo a minha inclusão comunitária, interagindo, discutindo, discordando e até saboreando as primeiras desavenças literárias, porém nada que matasse a mim ou oponentes. Contudo foi impossível continuar nela e logo após o primeiro ano eu a abandonei ao concluir que não sobreviveria à guerra dos egos, pois mais que a literatura se fazia necessário ter nervos de titânio. Bem, retornando ao Girkins sei que após àquela reunião e intereação na comunidade voltamos a nos encontrar outras vezes e em cada uma delas eu notava que ele se perdia da parte gentil do olhar, distanciando-se das palavras justas e do incentivo. Enfim, mesmo longe eu acompanhava a sua trajetória na comunidade, e alguma coisa o transformava e não o deixava se dar conta que suas zombarias não eram o sinônimo de sinceridade. E assim persistia e aborrecia pessoas, ora se contradizendo, renegando coisas que um dia disse gostar para render-se às outras que dizia repudiar. E eu apenas percebia a sua movimentação e supunha existirem nele fatores mais relevantes que suas falácias e hesitações. Porém quais?
Claro, à época da comunidade ainda tentei compreentendê-lo já que ao procuramos o lado racional das mutações se torna corriqueiro nos atermos a quem ou no que o indivíduo possa estar envolvido. Inclusive porque o lugar comum dessas mutações geralmente sinaliza para o seu meio, o habitat em que se relaciona. Todavia eu tinha a plena certeza que poderiam existir outros fatores que perturbassem a paz dum sujeito, assim como ocorre numa situação inesperada da sucesso meteórico. batendo à sua porta. Afinal, é impossível não levar em onsideração que o oba oba do prestígio e fama são capazes de modificar e em muito os valores do ser.
Portanto poderiam me questionar se o Girkins teria se tornado um dos grandes, best sellers, um novo "mago" ou no pior das hipóteses ter títulos seus publicados em um ou dois países do Cone Sul. Sim, poderiam arguir sobre tais fatos, porém, no caso de Girkins, asseguro, nada disso se materializou. Houve sim um livro, porém nada de especial, uma dessas publicações comumente financiadas pelo próprio bolso e que mais têm por finalidade a vazão da vaidade pessoal que propriamente a intenão de ser flagrar sucesso editorial. Evidente, sei que haverão exceções, contudo na maioria das vezes eles serão apenas escritores independentes sonhando com o interesse das grandes editoras. Todavia não há como alegar que esses mesmos autores desconheçam que a frieza do leitor relegará suas obras às prateleiras empoeiradas das pequenas livrarias ou empurrará seus título para as bancas promocionais dos sebos de R$1,99. Sim, sei que é uma forma rude de se analisar, porém e invariavelmente é assim que acontece.
Bem, talvez eu pudesse estar queimando a própria língua, afinal o mercado editorial é tão espantoso e imprevisível quanto o jogo do bicho e reviravoltas poderão acontecer tanto o quanto o argumento dos otimistas que diz que um dia jamais será igual ao outro, o que é absoluto. Enfim, se a negação do sucesso não se fizesse o motivo das suas questões então poderia ser qualquer outro, talvez até algum não notado pela percepção. Porém fosse o que fosse, aquilo estava incrustrado nele e parecia conturbá-lo, e isso ficou patente na noite do nosso último encontro numa festa onde travamos um diálogo insano, talvez até por culpa da bebida. E sobre a festa eu recordo que fazia um bom tempo que estava por la e tudo começou no esbarrão que casualmente nos demos na cobertura de mais de 800m2 de um grande editor. Fazia um bom tempo que não via Girkins, e assim olhamo-nos discretos e apertamos nossas mãos. Depois sorrimos com alguma simpatia num mesmo instante que Girkins interpelava o garçom que se passava ao seu lado. É bom frisar que tanto ele quanto eu éramos ótimos bebedores. Portanto também pedi o meu. Óbvio, Girkins desconhecia, mas eu ja havia tragado uns cinco ou seis copos daquele ótimo uísque 12 anos. Portanto após retirar o drink da bandeja girei as esferas de gelo no interior do copo para que se fundissem rapidamente à excelência do malte escocês.
E assim diante do nosso silênio e com uma gélida sensação nas pontas dos dedos permaneci brincando com o copo e com as pequenas bolas de gelo, supondo que a qualquer instante Girkins fosse desistir de mim. Ao contrário, e o tiro saiu pela culatra ao sentir o pousar da sua mão em meu ombro e, depois o meneio de sua cabeça num chamamento para que eu o seguisse. Ainda com a mão direita em meu ombro e um copo na outra Girkins me guiou ao meio do mar de gente até atravessarmos a sala e darmos na sacada daquele apê de oito suítes e piscina privativa.
Ao ganhar a dependência aberta fui tocado no rosto por um vento frio enquanto Girkins num gesto de mão me pediu que sentasse numa daquelas seis poltronas que estavam à nossa frente. Ao me perceber acomodado sentou-se enquanto eu acendi um cigarro de filtro amarelo, démodé inclusive. Sentados, Girkins, inesperadamente me pareceu desconcentrado e os seus olhos perambularam por todos os cantos, porém sem que se afixassem em algo, ao menos que notasse. Repentinamente e talvez relembrando que me deixara ali observando suas atitudes insólitas dirigiu o olhar na minha direção. Olhamo-nos profundamente. Talvez Girkins procurasse respostas não par si, mas para o seu estado de embriaguês, apesar de também não me considerar em boas condições.
-Sabe Bradlley... - Ele começou - Tudo o que eu queria é que alguém afirmasse: Vai, Girkins, faça desse jeito e tudo vai dar certo e você será um cara feliz e realizado! – Finalizou exclamando num tom grave e pastoso, quase profético.
E conforme seus lábios se moviam detalhei a sua estampa e percebi algo diferente na sua compleição. Parecia que Girkins havia ganhado massa muscular, fato tão comum aos usuários das academias. E digo por que os músculos dos seus braços se sobressaiam naquela camiseta negra e de mangas curtas com um “Simple Plan” estampado ao centro. Realmente Girkins estava em grande forma, e a sua aparência nos remetia a Maglok, um herói troglodita, já que seus cabelos acastanhados, antes curtos e agora longos e ao meio das costas davam esta impressão. Enfim, super-herói ou não ele parecia aguardar minha resposta. Pensei e não sabia o que responder, e talvez a sinceridade fosse meu melhor caminho.
-Bem meu caro Girkins, não me sinto capaz decifrar o enigma colocado. Sabe, igualmente à você acometo-me de fragilidades existenciais, talvez não as mesmas que as suas,mas...fragilidades – Ponderei reticente. Ele me olhou popr uns bons 20 segundos antes de responder.
-Ah sim, posso deduzir a sua conclusão – Foi a sua resposta num tom de certo desânimo. Depois me chamou para si e curvando o peito sussurrou como segredasse tese conspiratória.
- Sabe Bradlley... depois de tantas procuras descobri que não mais acredito na ordem estabelecida e nem nos valores impostos pelas classes dominantes. Quero e preciso manter distância dos juízes, padres, conselheiros, e toda essa corja. São uns farsantes que se supõem os donos da verdade - Divagou com a mão tremula enquanto a bebida dançava em seu copo.
Pensei sobre as suas colocações e elas me pareceram preconceituosas, afinal se fosse para protestar ou deixar de crer em algo deveríamos questionar a humanidade como um todo, e não somente as autarquias ou as igrejas, ou mesmo os pastores evangélicos. Afinal, pelo que sacramentara era mais que provável que Girkins os tivesse na conta de nefastos formadores de opinião e opressores da pobre e incauta humanidade. E outra; Era estranho sentir um Girkins fragilizado daquele jeito, aliás, um anarquista fragilizado, ainda mais pelo fato de passar a imagem de um sujeito durão, debochado e irreverente. Bem, ele fazía-me pensar apesar de continuar sem respostas para as suas questões. Entretanto lá estava o seu olhar tenso, inquiridor, buscando-me como se eu fosse um transgressor.
E ele apenas aguardava, aguardava. Sem saber o que dizer tentei sair-me com uma besteira qualquer.
-Bom, Girkins, talvez a sua salvação fosse o Jim Jones. Mas o cara tá longe, muto longe – Repliquei com um sorriso nos lábios; eu tentava suavizar a relação. Ele apenas ficou me olhando enquanto eu me perguntava qual fora o diabo que colocara a idiotice em minha boca. Depois dos seus olhos se desfazerem da surpresa ele pareceu se interessar por Jim Jones.
-Ué Bradlley! Porque você disse... ta longe, muito longe? Por acaso esse tal de Jim mora no Saara? - Perguntou irônico. Essa era uma das formas dele tentar soar engraçado mesmo que se esforçando em manter a cabeça e o tórax eretos. Sim, aquele era o Girkins, e continuava afiado como sempre.
-Não Girkins, Jim não mora e nunca morou no Saara – Repliquei - Pra te falar a verdade, numa hora dessa o cara deve estar pregando no inferno. Jim Jones era americano e fundador de uma seita religiosa denominada Templo do Povo
-Templo do Povo? Pregando no no inferno? Como assim, Bradlley? Não entendi bulufas. – Ele devolveu enfastido. Eu achava engraçado vê-lo tentando manter o corpo rígido, um super-herói resistindo ao avanço da embriaguês.
- Assim Girkins... Esse tal Jim Jones se proclamava um reverendo. Porém era um fanático insano e morreu junto dos seus 900 perturbados seguidores. Foi suicídio em massa, todos envenenados em 1978 na Guiana Francesa. Ah sim, todos exceto o grande Jones que se negando morrer daquela forma tão estúpida meteu-se um tiro nos miolos, afinal, era ele papai da turma.
-Ah... que interessante, suicídio em massa na Guiana Francesa, sei, sei – Divagou. Depois avançou – Bem, esquecendo essa bobagem de Jones, talvez o Bukowski pudesse ser o cara e tivesse algo pra falar. Mas o filho da puta tinha que morrer num leito de hospital em L.A leucêmico e com tripas adormecidas na bebidas? – Reclamou num tom dramático e mórbido.
Sim, para nossa sorte ou azar tínhamos em comum o fato de gostarmos das coisas do Velho Safado. Ele sorriu, eu sorri, amarelos. Depois pigarreou e perguntou, aliás, caçoou no estilo de sempre:
-Ah, por falar em Buk... continua escrevendo aquelas merdas que tentam imitá-lo? – Fiz que não escutei o seu mais recente surto de sinceridade. Porém Girkins ainda não estava contente.
-Por mais que tente jamais escreveu bem. Sempre soube disso, não é? – Concluiu sacástico. Achei curiosa a afirmação, ainda mais para alguém que abominava dedos apontados. E além do mais eu até poderia concordar com ele. Não faria a menor ou qualquer diferença.
Todavia aquele clima obscuro acompanhado da sua nervosa angústia me fez perceber que Girkins passava por sérios problemas, afinal, como que um sujeito em sã consciência poderia ver em Buk o atalho para mitigar incertezas de quem quer que fosse? Antes pedisse a ajuda de Kurt Cobain, talvez fosse mais produtivo – Concluí em pensamento - Sim, Kurt, lembram-se dele? Kurt Cobain, o fundador do Nirvana, aquele mesmo sujeito que cuspiu na lente duma câmera da TV brasileira. Ah, que besteira a minha! Kurt também não resolveria; Kurt estava morto por um tiro dado por sua própria mão. Morte que, dizem as más línguas, frustrada, pois ao que parece o maluco beleza descobriu que Courtney Love andava trepando com criador do maior Fã-Clube da banda. E o pior; Kurt conhecia o sujeito e até o julgava meio assexuado - Concluo no sorriso cretino dos meus delírios quando outra vez os meus desvairamentos são decepados pelas irritantes dúvidas do Girkins.
-Onde estão os loucos, os livres, os rebeldes? Responda-me Bradlley! Não haverá ninguém para me salvar? – Insistia agora numa tonalidade alterada de voz. Eu achava estranho e inusitado o fato dum anarquista procurar por um salvador da pátria.
- Ah não sei Girkins, realmente nem sei o que te falar – Devolvi lacônico e sem paciência num mesmo momento que o garçom veio até nós e nos ofereceu uma nova rodada de scotch. Servimo-nos, afinal de 12 em 12 anos nunca se sabe se havera uma nova chance.
Ficamos olhando um para o outro e eu bebericava o drink com as suas tolas questões me acabrunhando. Agora eu era o testemunho do quanto Girkins estava mal, muito mal. É muito ruim quando não temos as respostas para as perguntas que nos pareçam importantes, mesmo que estúpidas. Po fim, muitos poderão se questionar - Por que minha mulher traiu? Por que meu time perdeu? Por que meu filho bateu o carro? Por que a empresa demitiu? - Enfim, são e serão tantos os porquês das questões que jamais findam. Sim, e pensando noss "por ques" viajei numa antiga peça publicitária da IBM, talvez uma das mais inteligentes criadas. Dizia ela algo mais ou menos assim: O mundo não move nas respostas, mas sim em perguntas. E aquilo parecia fazer sentindo, afinal, quantas balas perfuraram miolos que apenas se perguntaram? – Eu não sabia, aliás, ninguém sabia - E aquilo me pela primeira vez me preocupou eu temi por sua integridade. Caraca! Repentinamente passou-me pela mente que Girkins poderia terminar como um Lennon. Não, que bobagem a minha! Girkins jamais seria assassinado pelo tiro certeiro de algum anti-fã ou por invejosos de plantão. Não, nada disso! Não haveria fã com suficiente coragem ou invejosos com um ranço de tanta violência. Não, não, é o oposto, literatos quando colocados sob pressão resolvem suas pendengas assim como as meninas futriqueiras, dessas que fazem beicinhos, fofocam no ouvido das amigas, colocam as mãos na cintura para ao fim darem tudo por resolvido. E outra, Girkins não se curvaria tão fácil. Girkins jamais fora um coração de pudim diet.
Não, definitivamente Lennon estava fora dos planos. Por que fora relembrar de Lennon? Antes, Jim Jones, depois Kurt, e agora Lennon? Não, não! Eu só podia estar fora de mim ou me acometer de insanidades temporárias ao supor Girkins na pele do beatle. Imaginem Girkins pousando para fotos aos seus milhões de fãs num desses hoteis decadentes de N.Y. Deixem a imaginação transcender e o vejam num ambiente claro, paredes alvas, tão brancas como a cor da paz. Não, era muita loucura pois jamais vislumbraria Girkins num terno branco, camisa branca, tênis e os cadarços brancos, apesar de na cena existir uma mulher nada branca, mas amarela, oriental. Enfim, apesar de toda aquela loucura a mulher também se encontraria lá, mas igualmente estaria fora de propósito.
Não, eu tinha que mudar o foco das minhas tenebrosas premonições, afinal, Girkins jamais fora um sujeito do tipo afrescalhado, desses que só usam roupas e sapatos brancos e meias brancas que combinem com suas cuecas brancas . Não! Girkins era macho, tinha estilo, um desbravador, um contestador anarquista, apesar das suas leves andanças pelo selvagem mundo capitalista, incluindo o editorial.
Que merda! Girkins tinha que persistir naquele seu blábláblá em encontrar um salvador? Catzo, será que o sujeito não percebia que estava me deixando maluco com aquela conversa mole? Olhei pra ele e o mesmo tom inconformado continuava impregnado nele. Girkins clamava por respostas, e sem tê-las entupia-me de perguntas:
-Onde estamos todos nós senão procurando alguém que nos guie? Até você, Bradlley, precisa de alguém pra te guiar! - Agora ele quase que berrava numa expressão insana e de quem tinha certeza que eu necessitava do meu Malcolm X existencial.
-Vamos Bradlley, me diga, aonde vamos achar esse sujeito? Aonde se esconde o miserável, a pústula? – Girkins gritava demente enquanto seus olhos faiscavam loucura
-Fale Bradlley, por favor! Se souber me fale onde está o salvador? – Ele ofegava.
Porra! O cara era um perfeito mala! Eu poderia ter citado para duas dezenas de salvadores como o Elvis, Brian Jones, Jim Morrison, Hendrix, Joplin, Freddie Mercury, Bonham, Moon e tantos outros, afinal eu confiava mais no pessoal do rock que propriamente nos sujeitos temperamentais e volúveis da literatura, afinal quem acreditaria piamente naquilo que dissesse um Celine ou Ginsberg?
Sim, haveria saída para Gurkins se não fosse ele tão radical. Verdade! havia salvação para ele, e ela poderia ser encontrada nas linhas bíblicas, porém Girkins jamais dera ouvidos ou acreditara naquelas conversas de céu e inferno, de Deus e o Diabo.
Todavia eu também estava me enganando, afinal sabia que não existiria saída para ele exceto a complexidade dum sucesso imprevisto e meteórico. Porém aonde se escondia nele a fluência e a criatividade? Não, infelizmente inexistiam, não porque eu ou qualquer outro quisesse, mas sim pela própria limitação a que se impunha, vela boa desperdiçada com defunto sepulto. Era mais que chegada a hora de dar um basta naquele seu desvairamento.
-Girkins, você já pensou em comprar um bar? Mas... to falando dum bar de verdade. Acredito que você daria um excelente dono do boteco. Sabe, um desses que jamais fecham. Já esteve em algum? – Perguntei-lhe à queima-roupa denotando austeridade na voz. Ele me pareceu surpreso e reticente, depois respondeu:
-Um bar que jamais fecha? Como assim..jamais fecha, Bradlley? –
-Assim, Girkins... um boteco 24hrs, do tipo caixa eletrônico, um lugar onde você comercializaria bebidas, aturaria bêbados, venderia rabos-de-galo, cachaças, sardinhas escabeche e picles em conserva, desses que vêm em enormes potes de plásticos... você deve saber – Sugeri num tom mais leve, amuando os ombros
-Cara você só pode estar ta louco! – Fuzilou-me Girkins. Seus olhos faiscavam – Minha praia é outra, sabe disso, é a literatura. Você acredita que ser dono de bar me faria encontrar respostas? – Acredita mesmo nisso? – Perguntou-me com olhos esbugalhados. Ele estava furioso.
-Não! Pra falar a verdade, acredito não, Girkins! Mas... você quer a máxima sinceridade, não é? – Perguntei calmamente. Eu jamais poderia supor que o simples fato de sugerir a compra dum bar pudesse repressar tamanha ira.
-Claro Bradlley, sempre máxima sinceridade! É justo diante da estupidez da tua proposta. Que vantagem eu poderia levar ao ter um bar? Vamos, fale! -
-Você? Bem, Girkins... você talvez nenhuma... mas em contrapartida sairia de um pouco de circulação, daria um tempo, uma folga, um break... – Respondi na estampa de um sorriso cretino.
Girkins apenas ficou me olhando perplexo. Levantei, dei alguns passos e sai dali. Ganhando o ambiente da sala e perdido entre mais de 200 pessoas trombei com o garçom e ele me pareceu familiar.
-Ta lembrado de mim? – Perguntei
-To sim senhor! – Ele respondeu com um sorriso desbotado nos lábios. Ele me parecia cansado. - Bem, há algum problema se eu me servir de dois desses três copos que estão na sua bandeja? – Perguntei.
-Claro que não, senhor! Se quiser pode beber todos! - Ele respondeu solícito e sem denotar espanto,
-Ok, valeu! - Agradeci ao retirar os dois copos de uísque da bela peça de prataria. talvez eu não tenha me apossado do trio por não ter três mãos. Pensei comigo mesmo.
Pensei no garçom e concluí que certo estava ele. Ele e a sua paciência em servir todos aqueles caras esnobes, pedantes, arrogantes. A necessiadade o obrigava estar ali batendo o seu ponto, ganhando um dinheiro honesto, mas aquilo que ansiava estava fora dali, e ele queria dar no pé o mais breve, se possível antes das duas da madrugada prum último e solitário ônibus das três no terminal do Parque Dom Pedro. Aposto que naquele instante seus pensamentos se concentravam na sua casa de periferia. E agora ele entrava pela porta da sala e se dirigia ao quarto. E mesmo estando aqui era como se ele pudesse sentir a fragrância da lavanda impregnando os lençóis azuis da sua cama onde a esposa de banho tomado o aguardava ansiosa e preocupada. Ainda o vi bailando pelo salão com a bandeja e seus pensamentos quando resolvi me retirar dali com um copo em cada uma das mão e estacionei num putro ponto da sala, talvez há dez ou doze metros donde estava. Com um olhar que afirmava ainda não estar ébrio levantei o braço da direita e dei um gole na bebida. Provavelmente me imaginassem um cara ridículo com aqueles dois copos nas mãos, porém eu olhava para as pessoas e elas pareciam não se importar, e continuavam falando, gesticulando quando virei o corpo e olhei à direção da sacada e o Girkins não mais se encontrava por lá. Procurei-o ao redor e o vi conversando com um sujeito idoso, talvez uma recente vítima que estivesse em condições de lhe indicar o novo gurú, messias, ou fosse lá o nome que se desse ao fantástico salvador. A conversa entre ambos desenrolava não tão próxima de onde eu estava, mas o velho sorria bastante e eles pareciam navegar por mares tranquilos. Repentinamente eu vi a sua mão direita pousar no ombro do velhote, e eles calmamente seguiram para a sacada. Chegando lá o senhor ajeitou-se numa daquelas confortáveis poltronas estofadas num um couro grená enquanto Girkins já havia se acomodado e parecia procurar por algo que só ele sabia o que era e onde estava. Eu olhei para a cena e sorri. E sorrindo elevei agora o braço o esquerdo, e curvando o pulso centrei o copo à boca e traguei outro gole do uísque que tingiu o vidro numa tonalidade à caminho do ferrugem.
As coisas não me pareceram tão ruins quando uma loira muito assemelhada à uma Ana Hickmann em menor escala grudou em minha estampa e não mais desviou o seu olhar. Eu olhei pra ela e retribui. A seguir notei que a amiga se retirou do seu lado, talvez me deixando lvire o caminho. Sem pressa alguma e ainda com um copo em cada mão me dirigi até ela. A garota continuou sorrindo, depois me pediu licença e pegou o copo que estava na minha mãoda esquerda e deu um delicioso gole feminino. Eu olhava para ela e observava a sensualidade dos seus lábios mordiscando um ao outro com o intuito de evitar o acúmulo do malte escocês sobre o batom cintilante e de tom claro. Ainda persistíamos sorrindo um para o outro, simpáticos e receptivos.
-Muito prazer, meu nome é Bradlley! - Apresentei-me com feição impressionada
-Prazer! O meu é Ana Beatriz! - Ela devolveu expondo a dentição alva e perfeita. Eu sorri; A garota se chamava Ana além de ter os dentes bonitos.
Sutilmente inspecionei-a dum jeito mais apurado e, se se houvesse coisas que conhecia bem eram os olhos e olhares. Portanto, apesar de serem lindas, aquelas contas esverdeadas não eram suas, afinal eu trabalhara sete longos anos no balcão de uma grande ótica da cidade. Porém as suas lentes eu reconhecia, inclusive a excepcional qualidade. Tudo se caminhava promissor quando repentinamente me veio à mente o filme "Easy Rider" lançado no Brasil com o título de "Sem destino". Porém eu não era Peter Fonda e nem ela o Dennis Hopper. Entretanto não conseguia me desvencilhar das imagens das Harley Davidson, do amor e nem vento mimando o rosto da pequena Hickmann. Sim, era mais uma viagem minha, uma das tantas que eu tinha. Continuei sorrindo e depois traguei outro gole quando o gelo colidiu com meus dentes tornando-os sensíveis. Aquilo não me incomodou e nem eu pretendia ser clichê, mas a noite era e seria uma eterna criança. Falávamos e nossos rostos estavam tão próximos que um pressentimento me dizia que as coisas ainda iriam esquentar.
Aquele seria o meu último drink da noite, decidi. Eu percebia claramente que deveria poupar energias.
Copirraiti22Set2012
Véio China©
sábado, 22 de setembro de 2012
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
À noite todos os gatos são pardos
Wal ainda não sabia a fria que estava entrando, porém começava desconfiar.
O bip do celular da moça indicava mais uma mensagem; Era a quarta em menos de meia hora. As três primeiras ela achou melhor ignorar e aguardar por um momento mais apropriado para responder, talvez ao voltar para casa.
Sim, Wal pensou em desligar o aparelho, mas como a vida é repleta de imprevistos poderia surgir a qualquer instante algum recado ou ligação importante, assim o manteve em funcionamento.
Todavia a insistência dos rápidos tons fizeram-na mais uma vez pedir licença aos amigos de mesa num bar para ler a mensagem.
“Loira, pq ñ respondeu, eim? Já sei! comendo fgo à passarim e com seus dedos engordurados. Ah, alguém está te paquerando? rs” – Queria saber o amigo emissor.
Aliás, nem amigo seu era, mas apenas um conhecido, um sujeito vinte e tantos anos mais velho que ela conhecera através da internet. E o conhecimento se deu numa dessas comunidades literárias de Orkut onde ambos participavam escrevendo e comentando textos de outros autores. Sim, Wal, aliás, Walkiria era escritora e o sujeito também dizia ser, ao menos era o que sugeria ao escrever parecido com um. Como ele parecia ser uma pessoa legal e o relacionamento literário cercado de coisas espirituosas e divertidas, Wal, cedeu á solicitação do homem e passou o seu número de celular.
E ele ligou, e naquela primeira ligação ao fim duma tarde mormacenta conversaram por um bom tempo, falaram sobre literatura, relacionamentos e algo de suas vidas pessoais.
Sim, fora um papo agradável, divertido e que até gerou algum interesse.
-Então Alberto. Nesse próximo sábado vou sair com uns amigos, beber alguma coisa e conversar um pouco para espairecer dessa minha vida louca e atribulada. Quando estou “zen” consigo escrever melhor, as idéias surgem com mais facilidade – Ela disse naquela ligação.
-Ah, vai sair, é? Que bom! Adoro quando as pessoas espairecem – Respondeu antes que amistosamente se despedissem ao celular.
E agora era isso. Depois de dois dias do telefonema e decorridos nem 30 minutos de estar no bar atendia a quarta mensagem diante dos amigos, interrompidos pelos frenéticos e sonoros “bips” do aparelho.
Bem... o melhor era resolver a situação – Wal comunicou a si mesma já que não via razoabilidade no ficar entretida às mensagens dum sujeito que a deixava distante dos papos da turma.
“Alberto, é o seguinte...estou com amigos, bebendo e conversando um pouco. Há gente bacana, médico, advogado, até um delegado de polícia. Um beijo de boa noite para você. Até!. rs” – Wal enviou a resposta sem as costumeiras abreviações. Era bom dar um chega-pra-lá no rapaz, e talvez agora Alberto percebesse que poderia estar interferindo
-Wal, quem é o sujeito dos bips? – Pergunta-lhe Silvio, um dos presentes na mesa, um advogado atento ás suas atitudes.
-Ah... é um amigo meu. Conheci numa comunidade literária. Ele mora em São Paulo.
-Poxa Wal! Não poderia encontrar um xarope que estivesse mais próximo de você? – Na outra ponta da mesa, Gilberto graceja para o divertimento da turma. Óbvio, o mais “próximo” foi mera alusão ao fato de Alberto estar há quase 3.000 km de distância dali.
-Ah, ele não é chato não, e além do... – Wal pretendia justificar o amigo paulista quando foi novamente interrompida pelo som do bip. Mais uma vez os colegas se entreolham com um certo desconforto. Wal pela quinta vez pede licença, puxa a cadeira para o lado direito e lê a mensagem curta, descabida até
“Loira, por acaso esse médico que ta falando é ginecologista?”
Na mesa os amigos sussurram e ela ouve pequenos risos ao virar-se repentinamente e pegá-los numa expressão de gozação. Gilberto, em flagrante de delito tenta disfarçar ao procurar por alguma coisa no bolso do paletó pendurado no encosto da cadeira. Achado, faz o uso dos objetos.
-Não fui eu quem disse que teu amigo é um chato! – Defende-se o médico à bordo dum óculos de armação quadrada, enorme, plástica e sem lentes. Nas narinas ele carrega uma meia bola vermelha onde faz desfilar um perfeito nariz de palhaço.
Convém frisar que os adereços estavam em seu rosto porque naquela mesma tarde ele fora visitar o asilo, onde, para divertir os velhinhos fazia coisas engraçadas, coisas de um verdadeiro palhaço. E como as suas palhaçadas não tinham fim ali estava ele a suas micagens no celular, simulando alguém que enviava e recebia mensagens. Evidente, todos se divertiam com suas fanfarronices.
Wal, sem graça, novamente pede licença arrastando a cadeira um pouco mais adiante e redige a mensagem.
“Alberto, o médico é o Gilberto, aliás, um caso raro na medicina. Ele clinica em duas especialidades. É um verdadeiro gênio. rs” – Claro, ela se reportava ao amigo ginecologista/ urologista apesar de não mencioná-lo na mensagem.
Sim, poderia ter dito também que ela e Gilberto foram namorados na juventude e quase noivaram, que só não ocorreu porque à época ela se apaixonou por um outro rapaz, porém não vinha ao caso. Antes de enviar, Wal relê cada uma das palavras a procura de alguma inexatidão, e a mensagem está prestes a ser enviada quando um novo toque sonoro se ouve. Todos se olham. Nervosa, Wal imprime um dos dedos no teclado e libera o torpedo que acabava de entrar.
“Wal, esqueci de falar q detesto urologistas e ginecologistas. Os urol. São estúpidos, insensíveis com os dedos. E os ginecos pq são canalhas. Teve um gineco, um palhação que em 80 roubou uma noiva que tive. Torço pra esse q taí seja um pediatra duns 73 anos. rs”
Foi o suficiente pra Walkíria irromper numa estrondosa gargalhada. Pra falar a verdade Wal acabou por engasgar de tanto rir. Depois, tentando findar o surto brincou com o médico na outra ponta da mesa:
-Gil, tem horário para ambas especialidades na segunda? Barba e cabelo! Pode ser?
-Ulala! Claro meu anjo! Pra você sempre tenho tudo! – Respondeu piscando os olhos dum palhaço gozador e descarado.
Wal continuou rindo e depois um pouco mais tranqüila pede outra vez licença e vira a cadeira para o lado e se promete a uma última mensagem. Novamente passa as vistas à procura de lapsos e estando em tudo em ordem a envia.
“Alberto, desculpe, mas avisou tarde demais. Já marquei tuas consultas pra segunda. Agendei com o gineco na manhã e com o urologista à tarde. Ah! Tava quase me esquecendo de falar... Gilberto também é um palhaço sacana nas horas vagas! Ah..você me lembra “Le Postiche”
Depois, sorriu para a turma, enfiou o celular na bolsa de grife e tomou o seu drink tranquilamente. Seria a plenitude de um sábado que começava a se tornar perfeito se não fosse o som de um novo bip no interior da sua Louis Vuitton negra – “Não acredito” – Murmurou baixinho. Contrariados os seus olhos cerraram e não faltou para ela a vontade de retirar o pequeno aparelho do conforto da bolsa e espatifá-lo ao meio da rua. Antes que se permitisse a tal agressivo prejuízo retira o celular e lê o mais recente recado.
“Nossa! Le Postiche, ñ é a Lj de cart. e mochilas? E esse papo d consultas, palhaços, o q é? Vc é mto doida! Gosto gente divertida! Sabia q t amo, loira?” – Realmente, Alberto não tinha percepção do que se passava”
Wal lê e ri um riso debochado, nervoso. O babaca se esquecera de mencionar que, além de carteiras, mochilas, cintos e acessórios, a famosa loja era no país uma das maiores revendedoras de malas de viagem. Malas de todos tamanhos, de todas as cores, de todos sabores.
Ainda continuava sorrindo quando desligou o aparelho e o voltou à bolsa para agora sim se divertir sem restrições. Porém ela sabia que havia algo que apesar de não fazer diferença agora, deveria ser providenciado na segunda feira ao ir para o escritório; A compra de um novo chip para o seu celular.
Copirraiti03Set2012
Vío China©
O bip do celular da moça indicava mais uma mensagem; Era a quarta em menos de meia hora. As três primeiras ela achou melhor ignorar e aguardar por um momento mais apropriado para responder, talvez ao voltar para casa.
Sim, Wal pensou em desligar o aparelho, mas como a vida é repleta de imprevistos poderia surgir a qualquer instante algum recado ou ligação importante, assim o manteve em funcionamento.
Todavia a insistência dos rápidos tons fizeram-na mais uma vez pedir licença aos amigos de mesa num bar para ler a mensagem.
“Loira, pq ñ respondeu, eim? Já sei! comendo fgo à passarim e com seus dedos engordurados. Ah, alguém está te paquerando? rs” – Queria saber o amigo emissor.
Aliás, nem amigo seu era, mas apenas um conhecido, um sujeito vinte e tantos anos mais velho que ela conhecera através da internet. E o conhecimento se deu numa dessas comunidades literárias de Orkut onde ambos participavam escrevendo e comentando textos de outros autores. Sim, Wal, aliás, Walkiria era escritora e o sujeito também dizia ser, ao menos era o que sugeria ao escrever parecido com um. Como ele parecia ser uma pessoa legal e o relacionamento literário cercado de coisas espirituosas e divertidas, Wal, cedeu á solicitação do homem e passou o seu número de celular.
E ele ligou, e naquela primeira ligação ao fim duma tarde mormacenta conversaram por um bom tempo, falaram sobre literatura, relacionamentos e algo de suas vidas pessoais.
Sim, fora um papo agradável, divertido e que até gerou algum interesse.
-Então Alberto. Nesse próximo sábado vou sair com uns amigos, beber alguma coisa e conversar um pouco para espairecer dessa minha vida louca e atribulada. Quando estou “zen” consigo escrever melhor, as idéias surgem com mais facilidade – Ela disse naquela ligação.
-Ah, vai sair, é? Que bom! Adoro quando as pessoas espairecem – Respondeu antes que amistosamente se despedissem ao celular.
E agora era isso. Depois de dois dias do telefonema e decorridos nem 30 minutos de estar no bar atendia a quarta mensagem diante dos amigos, interrompidos pelos frenéticos e sonoros “bips” do aparelho.
Bem... o melhor era resolver a situação – Wal comunicou a si mesma já que não via razoabilidade no ficar entretida às mensagens dum sujeito que a deixava distante dos papos da turma.
“Alberto, é o seguinte...estou com amigos, bebendo e conversando um pouco. Há gente bacana, médico, advogado, até um delegado de polícia. Um beijo de boa noite para você. Até!. rs” – Wal enviou a resposta sem as costumeiras abreviações. Era bom dar um chega-pra-lá no rapaz, e talvez agora Alberto percebesse que poderia estar interferindo
-Wal, quem é o sujeito dos bips? – Pergunta-lhe Silvio, um dos presentes na mesa, um advogado atento ás suas atitudes.
-Ah... é um amigo meu. Conheci numa comunidade literária. Ele mora em São Paulo.
-Poxa Wal! Não poderia encontrar um xarope que estivesse mais próximo de você? – Na outra ponta da mesa, Gilberto graceja para o divertimento da turma. Óbvio, o mais “próximo” foi mera alusão ao fato de Alberto estar há quase 3.000 km de distância dali.
-Ah, ele não é chato não, e além do... – Wal pretendia justificar o amigo paulista quando foi novamente interrompida pelo som do bip. Mais uma vez os colegas se entreolham com um certo desconforto. Wal pela quinta vez pede licença, puxa a cadeira para o lado direito e lê a mensagem curta, descabida até
“Loira, por acaso esse médico que ta falando é ginecologista?”
Na mesa os amigos sussurram e ela ouve pequenos risos ao virar-se repentinamente e pegá-los numa expressão de gozação. Gilberto, em flagrante de delito tenta disfarçar ao procurar por alguma coisa no bolso do paletó pendurado no encosto da cadeira. Achado, faz o uso dos objetos.
-Não fui eu quem disse que teu amigo é um chato! – Defende-se o médico à bordo dum óculos de armação quadrada, enorme, plástica e sem lentes. Nas narinas ele carrega uma meia bola vermelha onde faz desfilar um perfeito nariz de palhaço.
Convém frisar que os adereços estavam em seu rosto porque naquela mesma tarde ele fora visitar o asilo, onde, para divertir os velhinhos fazia coisas engraçadas, coisas de um verdadeiro palhaço. E como as suas palhaçadas não tinham fim ali estava ele a suas micagens no celular, simulando alguém que enviava e recebia mensagens. Evidente, todos se divertiam com suas fanfarronices.
Wal, sem graça, novamente pede licença arrastando a cadeira um pouco mais adiante e redige a mensagem.
“Alberto, o médico é o Gilberto, aliás, um caso raro na medicina. Ele clinica em duas especialidades. É um verdadeiro gênio. rs” – Claro, ela se reportava ao amigo ginecologista/ urologista apesar de não mencioná-lo na mensagem.
Sim, poderia ter dito também que ela e Gilberto foram namorados na juventude e quase noivaram, que só não ocorreu porque à época ela se apaixonou por um outro rapaz, porém não vinha ao caso. Antes de enviar, Wal relê cada uma das palavras a procura de alguma inexatidão, e a mensagem está prestes a ser enviada quando um novo toque sonoro se ouve. Todos se olham. Nervosa, Wal imprime um dos dedos no teclado e libera o torpedo que acabava de entrar.
“Wal, esqueci de falar q detesto urologistas e ginecologistas. Os urol. São estúpidos, insensíveis com os dedos. E os ginecos pq são canalhas. Teve um gineco, um palhação que em 80 roubou uma noiva que tive. Torço pra esse q taí seja um pediatra duns 73 anos. rs”
Foi o suficiente pra Walkíria irromper numa estrondosa gargalhada. Pra falar a verdade Wal acabou por engasgar de tanto rir. Depois, tentando findar o surto brincou com o médico na outra ponta da mesa:
-Gil, tem horário para ambas especialidades na segunda? Barba e cabelo! Pode ser?
-Ulala! Claro meu anjo! Pra você sempre tenho tudo! – Respondeu piscando os olhos dum palhaço gozador e descarado.
Wal continuou rindo e depois um pouco mais tranqüila pede outra vez licença e vira a cadeira para o lado e se promete a uma última mensagem. Novamente passa as vistas à procura de lapsos e estando em tudo em ordem a envia.
“Alberto, desculpe, mas avisou tarde demais. Já marquei tuas consultas pra segunda. Agendei com o gineco na manhã e com o urologista à tarde. Ah! Tava quase me esquecendo de falar... Gilberto também é um palhaço sacana nas horas vagas! Ah..você me lembra “Le Postiche”
Depois, sorriu para a turma, enfiou o celular na bolsa de grife e tomou o seu drink tranquilamente. Seria a plenitude de um sábado que começava a se tornar perfeito se não fosse o som de um novo bip no interior da sua Louis Vuitton negra – “Não acredito” – Murmurou baixinho. Contrariados os seus olhos cerraram e não faltou para ela a vontade de retirar o pequeno aparelho do conforto da bolsa e espatifá-lo ao meio da rua. Antes que se permitisse a tal agressivo prejuízo retira o celular e lê o mais recente recado.
“Nossa! Le Postiche, ñ é a Lj de cart. e mochilas? E esse papo d consultas, palhaços, o q é? Vc é mto doida! Gosto gente divertida! Sabia q t amo, loira?” – Realmente, Alberto não tinha percepção do que se passava”
Wal lê e ri um riso debochado, nervoso. O babaca se esquecera de mencionar que, além de carteiras, mochilas, cintos e acessórios, a famosa loja era no país uma das maiores revendedoras de malas de viagem. Malas de todos tamanhos, de todas as cores, de todos sabores.
Ainda continuava sorrindo quando desligou o aparelho e o voltou à bolsa para agora sim se divertir sem restrições. Porém ela sabia que havia algo que apesar de não fazer diferença agora, deveria ser providenciado na segunda feira ao ir para o escritório; A compra de um novo chip para o seu celular.
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Vío China©
terça-feira, 24 de julho de 2012
- Quadrophenia - Os headphones da morte
Para ele seria um sábado como outro qualquer se não fosse aquela sensação de amargura além do comum, algo como um estivador que, no porto carregasse não as caixas para exportação, mas o peso do mundo. Acordara irritado, boca amarga, seca, mais pelas angústias que propriamente do fígado já debilitado. Sim, além da melancolia aflorava nele uma sensação nostálgica e um vazio interior repleto de negações daquilo que consistia sua vida. Olhou para os lados e a vida mais se assemelhada a uma ilha, imensa, e ele um navio que, sobrevivido às intempéries do tempo se via submergir por um pequeno rombo de 20 cm de diâmetro no seu casco. O que seria a raça humana senão um enorme navio? Sim, para ele éramos embarcações constutuidas de ossos, águas e carnes e um sopro de vida à espera do momento de ir à pique, as vezes sem avisos ou lamentos. Por mais que procurasse alguma saída sabia que não havia porto seguro para o homem, alias, havia sim um único, o não existir.
-Catzo, novamente essa amargura me torrando o saco? Mas que merda! Tinha que ser eu o porra do girino mais forte naquela noite de amor?- Exclamou em bom tom. Depois pensou no pai, na mãe e naquele instante.
-Talvez nem tenha sido amor - Murmurou reticente
Na verdade, nem o seu amargor ou as surpreendentes comparações em que se metia traduziam-se em grandes novidades, afinal, analisar suas insólitas questões existenciais por vezes eram bem divertido. Assim também como não era surpresa seu abatimento causado por um monstro que, sabia, permitia alimentar-se em si. Levantou, caminhou poucos passos e abriu cortinas e janela. Dali mesmo olhou para a estante e o relógio-despertador apontava 07h30min. Curvou o corpo, pôs a cabeça para fora da janela da sala e foi tocado por tépidos raios de sol. Olhou para o alto e o céu se manifestava num azul claro e uniforme, indicando que o dia seria terrivelmente tórrido, provavelmente até mais que o anterior. Os raios aqueciam seus braços quando sorriu macambúzio e sem expectativas; Tinha consciência do calor regando vidas, porém não a dele. Voltou à cabeça, fez um meio giro de corpo e recostou o traseiro na base da janela e continuou inspecionando a sala. Ele relembrava o início e de como fora parar naquela casa. Aliás, imóvel que não era sua e sim alugado. Uma casa pequena, de quarto/sala, cozinha, e um diminuto banheiro no lado externo, além de um comprido quintal que se estendia até a divisa com a casa vizinha. Talvez se não fosse pelo nome da rua e a numeração da casa nem houvesse registro seu nesse planeta. Aliás, sobre o imóvel e ilegibilidade dum contrato amarelecido pelo tempo, há mais de 20 anos não resgatava os alugueis. Não! Jamais fora mau pagador, nada disso, apenas deixa de quitá-los por questões circunstanciais. Rememora que procurava um lugar para ficar quando se interessou pelo imóvel e ligou para o número de um telefone indicado no anúncio de jornal. Queria obter maiores informações.
-Alôuuuu, com quem queria falar? - A pessoa se antecipou e o atendeu amistosa. Era a tonalidade de voz duma mulher de certa idade.
-Por favor, dona, aqui é o Brodowski falando. Foi daí que anunciaram uma casa pra alugar? – Ele perguntou sem se preocupar com a construção gramatical.
-Sim, foi sim moço, a minha! É uma casa pequena, mas muito aconchegante. Ah! ela está totalmente pintada e tem estacionamento para dois carros - Reforçou com o intuito de mantê-lo ainda mais atraído.
-Ah, estacionamento? Que bom! É que eu tenho o Clapton - Ele devolveu contido. Silêncio do outro lado. Após 15 segundos a mulher replica
-Moço, acho que não me entendeu bem... Eu disse que tem lugar para guardar dois carros – Talvez o homem estivesse problemas de audição - Deduziu
-Opa, desculpe dona! Clapton é o fusquinha 73 que comprei no mês passado. Esse nome é em homenagem ao Eric Clapton. É rebaixado, conta-giros, faróis de milha e rodas de magnésio. Só vendo! - Respondeu com certo orgulho
-Quem? Esse tal de "Clépitos"? - Assustou-se a mulher
-Não dona! To falndo do meu fusquinha.
-Ah... que interessante! - Retorquiu com os olhos arregalados. Do quê aquele sujeito poderia estar falando? - Se perguntou -Bem, que cada louco ficasse com as suas manias - Concluiu repuxando os lábios num dos cantos da boca.
Antes que desligassem e tendo em vista o seu interesse marcaram um encontro à frente da casa para aquela mesma tarde. Na hora marcada entraram e inspecionaram o imóvel.
-Qual é o aluguel, dona? - Perguntou
-Bem, Sr. Brodowski, o aluguel é CR$ 340.000,00. Se não tiver fiador aceito três meses de aluguel como fiança
-Fechado! – Ele assentiu.
Ali mesmo a mulher solicitou algumas informações pessoais como a firma que trabalhava, o enderço comercial, valor de salário e a apresentação dos seus documentos originais. Depois transcreveu todos os dados num caderno espiral de 50 folhas. Estando acertados apertaram suas mãos e após três dias ele foi à casa da proprietária e assinou o contrato de locação. Por fim entregou-lhe o valor da fiança. Ao sair ainda ouviu dela:
-Seu Brodowski, algo me diz que o senhor vai morar nessa casa por toda a vida. O senhor vai ver!
-Ah, vou sim. Até o meu último dia - Respondeu num sorriso frouxo de quem apenas quis ser gentil.
-Imagina... morar numa casa de aluguel por uma vida inteira? Resmungou alto ao entrar no fusquinha e atirar o contrato no banco do passageiro. Aquela mulher só podia estar brincando ou não era boa da cachola.
Isso fora há 31 anos - Relembrou - Depois praticando outros exercícios de memória recordou que ao entrar no 11o. ano de locação deixou de receber os avisos de cobrança do aluguel. Passados três meses e sem que houvesse notícia dirigiu-se à residência da locadora. Lá chegando encontrou o imóvel fechado apesar de ter insistido na companhia por bons 10 minutos, sem resposta. Todavia a vizinha alertada por sua andança na frente da casa foi ao seu encontro. Após se apresentar e dizer à mulher o motivo de estar ali foi que soube.
-Então moço, a pobrezinha da dona Mercedes morreu há quatro meses. Morreu como um passarinho, encolhidinha, eu vi. Também, né? 82 anos...E ela foi assim, sem deixar parentes, filhos ou um marido. Ninguém!
Ele agradeceu e retornou para casa desacreditando naquilo que a mulher falara e esperou que algum eventual herdeiro reclamasse o imóvel, o que jamais aconteceu.
-Merda! Que importância pode ter isso agora? – Censurou-se ante as lembranças. Depois, em movimentos irrequietos passou a notar os detalhes do ambiente e em tudo o que era seu.
E reparou principalmente nos seus aparelhos eletrônicos da década de 70 como um Receiver Gradiente Pró1200, um potente amplificador que por algumas vezes necessitou de reparos. “É um belo aparelho” - escutara do técnico naquelas ocasiões. Foi o que novamente ouviu agora ao retirá-lo com os potenciômetros restaurados.
Deixando o amplificador de lado passou em revista o piso e as pinturas das paredes e dirigiu os olhos na direção do teto onde um esmaltado globo giratório, quase réplica de uma nave espacial, expunha um par de luzes de aparência extravagante, além de uma dessas lâmpadas comuns. No lado oposto ao que estava, um baú, uma peça bonita e pintada à mão num estilo psicodélico que, presenteada por um amigo artesão emprestava ao lugar um quê de despojo. Sim, não foram tempos totalmente maus – Concluiu ao acariciar a espalhafatosa pintura da arca e erguer o tampo sob o ranger do par de dobradiças. Escancarado foi inevitável deixar de exalar um cheiro de coisa velha, mistura de mofo, bolor e algumas descoradas pedras de naftalinas. Abanou a mão diante do nariz como fosse dissipar o odor com aqueles movimentos e ajoelhou-se diante do baú e passou a vistoriar o seu interior no aguardo de encontrar coisas mais interessantes que o cheiro da velhice. Revirando a mala com lentidão reviu coisas que há muito tempo estavam esquecidas na memória. Estavam lá as calças Wanglers, dois números menores aos de hoje e algumas camisetas amarelecidas com estampas de rock. Sorriu com certa tristeza ao tocá-las e recordar que havia comprado no fim de 1972, numa feira hippie da Praça da República - Tirou uma delas da arca e sorriu tão amarelo quanto ela -
-Que foda, o tempo não perdoa nada. Elas eram brancas! – Disse num balançar de cabeça.
Também reencontrou dentro dum saco plástico o seu desgastado par do tênis Adidas.
- Como essas essas três listras foram famosas - Sussurrou ao passar o indicador por elas.
Ao lado do par de tênis, num pote vazio da Margarina Delícia, algumas pequenos broches de metal. Eram os seus botons de personas ilustres que ali representavam a nata do rock do final dos anos 60; Bob Dylan, Hendrix, Joplin, Jim Morrison, e outros como o de Che Guevara, Martín Luther King e Malcolm X, comprados em épocas distintas numa lojinha da Galeria do Rock.
Riu ao se recordar que o trio causava espanto a um colega de serviço, também roqueiro e que não compreendia aquelas presenças no meio de tantos astros do rock. Óbvio que o nosso amargurado amigo tinha plena consciência que o velho Che, tanto quanto os falantes Martín e Malcon nada tinham em comum com o mundo da música, o que não lhes negava suas relevâncias num planeta efervescido por guerrilhas, racismos e a estúpida atuação americana na guerra da Coréia.
E daquela guerra algo que jamais saíra da sua lembrança; A foto duma menina coreana, talvez de 7 anos, totalmente nua e em prantos pelos pais dizimados. Era isso que relembrava naquele instante, algo que doía até hoje, e que nos fazia compreender o seu carinho e o cuidado com cada um daqueles broches. Zelo e proteção que denunciava nele uma natureza rebelde, contestadora, politicamente mais alinhada à esquerda, padrão que à época infestava o pensamento jovem, também compreensível, afinal estávamos em tempos de insurgimentos e rebeldias como o visto no festival de Woodstock.
-Porra! Woodstock foi foda! - Exclamou, agora com entusiasmo.
Dele lembra-se do filme visto no cinema, festival de irreverência, guitarras distorcidas, cabelos ensebados e compridos e as transas de casais nus sobre relvas. Lembra também das suas camisetas, palavras de ordem, pulseiras e medalhas com os dizeres das mais novas filosofias dos jovens: "Paz & Amor" e "Faça amor, não faça guerra”.- Sorriu -
De certa forma, e mesmo estando longe daquilo ele apoiava aquelas posições, portanto também fora revolucionário, um rebelde que agora revisitava o passado e as nuances dum tempo que não mais volta, mas que o incentivava a fazer o que agora fazia ao alfinetar o broche de Che Guevara à camisa - “"Sonha e serás livre de espírito. Luta e serás livre na vida " - Dizia uma das frases do argentino-cubano. Refletiu sobre elas e saboreou a frase por duas vezes até sussurrar numa pergunta:
- Psiuuu, Ernesto, em que porra de mundo você vivia, eim? - Depois sorriu cúmplice ao contornar o botom com o polegar direito, talvez na espera que o médico-revolucionário pudesse reavaliar seus conceitos - Esperou mais alguns instantes e diante o silêncio de Che, desistiu.
Deixando de lado os super stars e contestadores continuou inspecionando o interior do baú até encontrar debaixo dum velho blusão de moletom uma pequena caixa de madeira com antigos ingressos de eventos, alguns com as bordas carcomidas pelo tempo. O seu interior ainda trazia um tênue odor dos ótimos charutos cubanos que ali estiveram, dados à época pelos colegas de escritório num outro de seus aniversários.
Sutilmente manuseou os ingressos e teve a impressão que a fragilidade do papel desmancharia o registro de um grande show. Aliás, que show!
Recordou-se então da noite gélida no Ginásio do Ibirapuera, em 1977 – Genesis - Era o seu primeiro concerto internacional e como num flashback voltou à mente a euforia de poder ver a banda que arrebatava o mundo, mas que chegava ao Brasil sem o seu fantástico camaleão; Peter Gabriel. Relembrou que isso lhe trouxera certa frustração, contudo alguns detalhes mantinham-se vivos como a iluminação de palco, onde nuvens de fumaças vermelhas e de outras cores que, convergindo para o mesmo local davam a impressão duma invasão alienígena. Também resistiu na sua lembrança o duo de bateristas. Sim, Phil Collins cuidava de uma delas além do vocal enquanto um sujeito negro e encorpado se responsabilizava pelas outras baquetas num show de duas horas e de tanta ovação que a banda se viu obrigada a voltar ao palco para alguns números extras.
-Ei cara! Foi um show muito foda! – Disse para si ao fechar a arca.
Em seguida cravou os olhos em cada centímetro daquelas quatro paredes. Nelas, além de pontos de umidade, enormes caixas Polivox de 200 w se fixavam por hastes de ferro, mantendo-se cada uma delas na parte alta dos cantos. Depois voltou o olhar para a cama de solteiro e ao lado onde uma estante com cinco prateleiras abrigava os seus velhos LPs. Talvez se acumulassem uns 400 volumes da mais pura rebeldia do rock britânico. Sim, claro! Ele era generoso no cuidado com seus discos do Zeppelin, Floyd, Crimson, Tull, Genesis, Clapton, Sabbath, Purple e tantos outros dos bons. E zelo se notava nas duas capas plásticas que cobriam os vinis e as capas originais dos Lps.
Abandonando seus modestos bens tentou penetrar na verdade de si; Há muito não havia amigos, mulheres, namoradas ou parentes. Aliás, mulher houvera sim, uma ex, há coisa de 28 anos, sem cerimônia civil, padres e presentes, mas apenas as concordâncias em "juntar os trapos" com alguém que não gosta de recordar e nem saber o paradeiro. Dela, lembra-se apenas dos peitos fartos e duma noite de chuva intensa e que ao voltar do trabalho pegou a casa às escuras, armários vazios, e na gaveta da cômoda a falta dos documentos do fusquinha 73. Lembra ainda que om a boca seca e tremulo rumou à escuridão do quintal e o Fusca azul pavão também não estava lá
-Puta trairagem das grossas que essa dona fez com a gente, Clapton! – Murmurou à época, desalentado. Em que pesou a sua decepção à época, achou por bem não registrar um B.O.
Mudando o foco procurou esquecer a sacanagem e os sedutores peitos de Jucineide ao questionar-se sobre seus parentes. Sim, tinha alguns, distantes, lá pelas bandas de Santa Catarina ou Rio Grande do Sul, nem ele sabia ao certo. Todavia era gente com parentesco por parte de pai e que ele jamais conhecera, portanto, não tinha parentes.
Olhou novamente para tudo, para o legado que deixaria como herança, acrescido duma sobra demissionária no valor de 230 reais, e que adormecia no fundo do seu bolso direito da calça de microfibra negra.
- Duzentos e trinta reais.. - Murmurou reticente:
Evidente, aquele valor tivera algum peso ao acordar, a aflição que se somava ao nó no peito, à falta de saliva, uma angústia e a vontade de chorar e não encontrar uma lágrima no poço de si. Enfim, foi naquele instante que se manifestou, mais que nunca, a sua intenção de morrer. Sobre a morte já há algum tempo vinha meditando sobre ela, aliás, adiando a sua execução. Porém, o pensamento necessitava se desprender do mundo psíquico e tornar-se atitude, factível, palpável, ainda mais agora transbordado em lamentos dos tristes acontecimentos daquele ano. Acontecimentos repletos de mágoas e abatimentos que se acrescentavam no inconformismo das demissões e da falta de oportunidades. Era assim que ele se via, carta fora do baralho, um sujeito que só ao olhar notava-se não compensar investir nele um centavo sequer. E para piorar aquela amargura, crescia em seu peito uma dor incontrolável, inexplicável; A saudade de Gilmour.
Como poderi amar tanto? Não, não. Gilmour não era um filho distante ou falecido. Não, jamais teve filhos. Gilmour era um negro e inacreditável pitbull de 10 anos que estava com ele desde filhote. Gilmour fora atropelado por um caminhão, bem à frente de sua casa. Não, Gilmour jamais fora um filho, porém era como se fosse.
“Ah, Gilmour! Tá difícil” - Lamentou-se. Era difícil recordá-lo ainda filhote, dono de um voraz apetite de leite e tanta força nas mandíbulas que pareciam pretender estraçalhar o bico da mamadeira. Recorda que foi no dia-a-dia que domou a agressiva natureza do animal até transformá-lo numa quase criança. “Ah, Gilmour!” Lastimou agora ao rememorar a fatalidade para um cão que passou por ele como se fosse uma flecha ganhando a calçada, e travesso foi àquilo que lhe pereceu diversão.
-Gilmour, seu bostal! Por que teve que sair correndo atrás da maldita bola? Você jamais gostou de brincar com elas! - Praguejou à época
Depois se sentou na calçada e lá ficou por um bom tempo, perplexo, chocado, apenas olhava o corpo do animal e a poça se sangue, e os carros que se desviavam dele. Porém de nada adiantaria ficar ali, não traria Gilmour de volta, e assim foi para dentro e retornou com três reforçados sacos de 100 litros e levou o animal para o fundo do quintal e o enterrou ali, ironicamente o mesmo lugar que guardava o Clapton. Relembra que após uma semana de saudade e corroído por um sentimento de culpa desmantelou a casinha do cachorro à marteladas, acondicionando as madeiras na caçamba duma construção próxima.
-Gilmour, seu burro! Tu eras como eu, rock e cervejas, e jamais o futebol!- Lamentou-se agora ao recolocar a cabeça para fora da janela e olhar na direção onde o cão estava enterrado.
Mais que nunca se sentia responsável por não ter preso Gilmour à coleira e ainda ter permitido que portão ficasse aberto enquanto varria a calçada.
Era dura a saudade e, não mais querendo conviver com ela afastou o cão das lembranças dele, um sujeito que todos imaginavam frio. Mas não era frieza, era o desencanto, o abatimento de se ver sozinho e mendigando serviços temporários como os das últimas vezes. Enfim, empregos estúpidos e humilhantes que só poderiam ser destinados e aceitos por pessoas como ele, velhas. Tantas vezes se viu disputando vagas com idosos que nada tinham e assim como ele eram obrigados a trabalhar 10 ou mais horas carregando nas costas, além das suas idades pesadas placas de publicidade. Enfim, eram apenas pobres diabos convertidos à outdoors humanos, zanzando com cartazes coloridos que anunciavam compra de ouro por um preço justo, entre tantas coisas - Quanta mentira e sujeira! -
Claro, poderiam existir alternativas como a de ficar plantado em semáforos, distribuindo folhetos de magazines, centros automotivos, hipermercados, além de outros que ofereciam unidades habitacionais para uma classe média depauperada. Porém aqueles patrões não davam a mínima para eles, nem pros seus reumatismos ou varizes, inclusive negavam o dinheiro do transporte, além de algum valor inexpressivo para um marmitex de arroz, feijão e ovo. Se ao menos houvesse dignidade naqueles serviços, mas não havia nenhuma. E além do mais não seriam aqueles miseráveis salários que fariam cessar as dificuldades que ameaçavam invadir a sua casa pela porta da frente.
Era doído e deprimente ter a certeza que chegara naquela idade sem sentir na pele as necessárias esperanças que apaziguam e mantém alguma chama dentro do homem.
Todavia não mais acreditava em promessas, afinal, autocrítico tinha ciência que seus modos e sua aparência poderiam exalar um quê de displicência e antipatia. Não foram poucos os "nãos" e as portas batidas nas fuças. Talvez a sua estampa endurecida causasse receio àquele pessoal. Porém mal sabiam que as derrotas e decepções assimiladas ao largo dos anos foram responsáveis pelo envelhecimento precoce daqueles seus 61 que pareciam bem mais de 70. Talvez estivessem com a razão, reconheciam nele um resto da altivez, talvez dos velhos tempos, presunção que hoje se tornara modesta ao admitir que ficara pelo caminho tudo o que fora seu. Um caminho mais árduo que nunca, sem diplomas, títulos, ou o conformismo duma aviltante aposentadoria ou auxílio pensão -"O passado é brasa apagada que não mais inflama" – Sempre concluia em pensamento. Não! Definitivamente não necessitava comiseração de ninguém, ainda mais a de si para si.
- Duzentos e trinta reais... Que faço? Vou à Paris? – Perguntou irônico para as duas pequenas gotas que se criavam nos olhos. Ah, antes tivessem ceifado sua cabeça com a lâmina da guilhotina.
Não, não havia sentido e nem necessitava de mais humilhações, e a morte parecia ser coerente e irreversível, principalmente naquela manhã onde ela foi se incrustando de forma obsessiva. Sequer houve um dia nos últimos trinta, que não pensou nela. Sim, e como a desejava! Agora é que podia compreender o drama vivido por um personagem num dos filmes de TV que vira e o impressionara – DESPEDIDA EM LAS VEGAS – Era o nome. Nele, Nicolas Cage era um fracassado escritor de roteiros de cinema. Relegado, se viu ultrapassado por idéias criativas de um novo time de roteiristas. E eles encantavam produtores, diretores e estúdios Assim, não restou qualquer caminho que não fosse o bilhete azul, a sua demissão. Após, procurou alguma coisa mais sentiu as portas se lacrarem para ele. Sem saída e depressivo decidiu limpar sua conta do banco e sair pelas estradas do país até chegar à Las Vegas, onde beberia até morrer. Sim, isso mesmo, o roteirista decidira que morreria bebendo. Óbvio, se assim ele o fizesse seria nada mais que coisa comum, clichê, porém era assim que queria a morte. Todavia haveria diferenças, ele não era cage, portanto não havia grana, carro, estradas, e muito menos Las Vegas.
- Cara! qualquer dia é dia bom pra se morrer. E o dia bom é o de hoje, Brodowski! - Sentenciou-se na decisão.
E não seria tão difícil, afinal a vida jamais apresentou variações àquelas sabidas. Existir era nada mais que nascer e morrer, avaliar o bem e o mal, sentir-se culpado ou inocente e estar entre Deus e o diabo. E outra... Nem necessitaria sair de casa, pois seria ali na própria sala que suportara suas esquisitices por 31 anos. Também fora dos planos estaria a presença de qualquer rampeira de 50 pratas prum boquete de cinco minutos enquanto a sua vida acenava um goodbye.
- Sim, vai ser hoje! – Acabrunhado admitiu. Repentinamente seus olhos brilham de forma estranha.
- Será que eles ainda estão bons? - Questionou
Para saber se estavam ou não foi à gaveta da cômoda e passou a mão debaixo das cuecas e meias e retirou de lá os dois cigarros de maconha. Fazia algum tempo que eles estavam ali, deixados pelo Fredinho Ruela, um guardador de carros das imediações do Fórum Trabalhista, próximo dali
- Pode aguentar esse bagulho pra mim, tio? A coisa ta ruim pro meu lado e acho que os hómi tão na minha cola - Foi a sua súplica que ele fizera. Além do pedido prometia buscar o "bagulho" em dois ou no máximo três dias.
Sim, naquele dia ele ouviu as sirenes da polícia no mesmo momento que quebrava o galho de rapaz e escondia a muamba debaixo das cuecas e meias limpas . E isso fora há mais de quatro meses, e o Fredinho nunca mais apareceu, nem pra buscar os seus baseados, nem ao menos para os seus esporádicos "oi". Talvez Fredinho estivesse preso, morto, presunto, assassinado por alguma gang que o sentenciou por achar que ele interferia nos negócios de furto de toca-Cds e Dvds automotivos. “-” Pode ter sido isso? "- Perguntou-se outra vez, afinal, nunca mais vira a cara do malandro simpático que abria portas de carros com um sorriso de orelha á orelha, ofertando pirulitos quando percebia crianças nos bancos traseiros dos veículos - "Ah, vai ver está tudo bem, e não é bem assim!”– Ainda tentou se convencer ao relembrar o dia que o safado se apresentou a ele depois de passar à sua frente numa desabalada carreira, dar meia volta, retornando e se colocando diante de si:
- Dotô, eu já vi o senhor batendo pernas por aí. E tenho certeza que o senhor também já me viu. Meu nome é Jeffrey! Pra ser mais "perimpistório" é Jeffrey Thomaz ou Fredinho Ruela, para os manos umais chegados. É o seguinte tio, to numa bronca e sem direito à "lábias cópos". Será que o "meretrísmo" pode dar uma forcinha pro sangue bom aqui?
Claro, não houve como deixar de sorrir naquela primeira vez, pois ficava tão evidente o envolvimento do flanelinha com advogados e termos forenses, mesmo que pronunciados do seu jeito. Sim, fora aquele dia que Jeffrey esteve mais rápido que nunca. E assim foi porquê tentava escapar dum sujeito musculoso, provavelmente um desses advogados fanáticos por academia, que pretendia surrá-lo sob a alegação que fora ele o ladrão do seu toca - CDs enquanto estivera no Fórum. E de nada adiantou os protestos de Fredinho, pois doutor partiu pra cima dele aos socos e pontapés, os quais Fredinho se safava pulando de um lado para outro. Porém o que o doutor não contava era que Jeffrey Thomaz era muitíssimo bom de pernas e correu os 300 metros até que chegar ao seu portão num tempo espetacular. Sim, era verdade, o Jeffrey não mentira: Ele já tinha visto o "flanelinha" pelas redondezas, e agora, mesmo achando engraçado se assustava com aquele crioulinho de 28 ou 29 anos que num estado ofegante clamava por sua ajuda. Fora uma decisão difícil, e ele olhou nos olhos do Jeffrey e sem saber o motivo empurrou o guardador para o lado de dentro do portão, pois um pressentimento dizia que ele não era ladrão. Um pouco depois as sirenes de polícia soaram e Fredinho, além de se tornar eternamente grato, aparecia por la uma ou outra vez para dar apenas um alô. Portanto, a última vez fora há quatro meses, dia que Jeffrey rogou para que ele guardasse os cigarros de maconha.
Bem, as incertezas sobre o que poderia ter acontecido com Fredinho faziam parte da história, e sendo assim, passado, e de certo mesmo apenas duas considerações; A de agora estar com uma bagana de maconha entre os dedos, e outra que dizia pra ele que a ultima vez que fumara um baseado fora há coisa de 22 ou 23 anos. E foi sem saber qual seria a reação aos efeitos da erva que ele rumou até a cozinha com o bagulho na boca e o acendeu com os fósforos. Após, bateu duas tragadas profundas e tossiu e repetiu a dose bloquendo a respiração. Sim, lembrava-se de alguns dos macetes no trato com a erva. Ainda mantinha os pulmões sem ar quando retornou à sala com o baseado entre os dedos e só dispensou o toco ao sentir o polegar e o indicador queimados pela brasa da "Marieta". A princípio sentiu-se estranho, como estivesse pisando em nuvens, numa dimensão outra, depois a enorme vontade de rir, apesar de não saber o porquê e nem pra quê. De repente o seu mundo se pinta de doido, com todas as cores, e se veste numa calça boca de sino, ou se aperta abaixo dos quadris num modelo Saint Tropez, e mesmo não havendo motivos para rir, repentinamente tudo lhe pareceu hilário. E ele ria de todas as coisas, cada vez num tom maior e a ponto de entranhar a prórpia voz pois há tempos não gargalhava daquele jeito. Após o primeiro surto de risos outros vieram mais fáceis.
Ele parecia tragado pelo delírio.
- Ihuuu, a morte é linda! A morte é o ventilador debaixo do vestido branco da Marylin - Ah, que bagulho doido! – Ele gritava.
- Jimi, seu filho da puta, eu bem sei que tu traçava a Janis" Eu sei! Eu sempre soube! - Ele concluía gargalhando.
Repentinamente a morte ganha outra dimensão em sua mente, agora não era a sua única fixação, e ele retorna à cômoda e deslizando os dedos no fundo da gaveta retira o segundo pacau debaixo das cuecas descoradas. E de lá ganha a cozinha e novamente usa os fósforos e dá tragadas e as retem nos pulmões. E ele num desespero compulsivo o fuma todo, tragada por tragada, gargalhada por gargalhada.
- Ihuuuu, Fredinho! No meu tempo a "Marieta" não era tão boa assim" E outra; Os Beatles não acabaram por causa das brigas da Linda com a Ono. Mentira! É que John descobriu que a senhora Yoko Lennon o estava traindo com o galante McCartney – Gargalhava.
E sentia outras sensações como as dos seus pés não tocando o chão apesar de estarem fincados nele até á raiz. Ah, como era bom falar merda, ser livre e gargalhar. Novamente a brasa do cigarro queima os seus dedos e ele pensa como seria se pudesse escolher a sua morte. E ele imagina e delira, imagina e os efeitos da erva criam o surreal.
..... Morreria como um astro do rock. Um ídolo que agitaria em grande estilo o mundo das manchetes ao ser encontrado morto por uma camareira de quartos de hotel. Evidente, mais que o corpo de um astro seria o espírito que estaria ali, um fantasma a rir do pavor da serviçal. Ghost... lembram-se? E ele continuaria gargalhando ao ver o jeito da mulher apavorada diante seus olhos esbugalhados. E ela faria três vezes o sinal da cruz e ungiria a testa e os peitos flácidos por ter a meio metro de si duas garrafa vazias de vodka,russa, tombada e empapando parte do carpete vermelho. Aliás, astro uma pinóia, apenas um bêbado desgraçado que deixou em funcionamento um system de 2.000 dólares num último volume, e o pior, tocando a "Coming Back To Life" do Pink Floyd. Um baita azar pra pobre, justo para ela fã incondicional de Frank Sinatra e Tony Bennett. Ah, meu Deus! como ele gargalharia. Mas não quereria que as coisas parassem por ali. A festa em celebração existia, e sendo assim teria que continuar e ele gargalharia até contrair a barriga ao ver policiais e duas dezenas de paparazzi tomando de assalto a saguão do hotel diante os assustados olhares dos hóspedes que temeriam ser vítimas dum ataque de um barbudinho do Talibã. Quanta risada ele daria, e o seu ego ansiosamente aguardaria pelas manchetes do dia seguinte. E lá estaria ele estampado nos quatro cantos do mundo, comoção geral e um funeral tão concorrido que contaria com a presença de gente mais lendária que ele. Ali estariam Mick Jagger, Bono Vox, David Bowie e Robert Plant. Mas era pouco, queria mais, muito mais, então a sua morte seria a primeira capa na Rolling Stone - “O MUNDO LAMENTA! MEGA ASTRO MORRE DE OVERDOSE DE BEBIDAS E ROCK" - Prantearia a revista sob o abatimento de jovens do mundo todo.......
Enfim, era bom sonhar. Porém, mesmo sob o efeito da maconha sabia que a vida é mais pesadelo que quimera, e morrer desse jeito era nada mais que delírio, e ele não era um astro, e não haveria publicidade, e nem mesmo o sepultamento dum sujeito com as narinas afogadas pelo pó da cocaína ou de ácido como geralmente ocorre com a maioria dos grandes ídolos. Não, não! Desapareceria do mapa sob o som das guitarras selvagens do bom e velho rockinroll, e beberia, até transbordar o fígado, se é que ainda houvesse algum, e depois morreria em paz. Enfim, era o máximo que poderia fazer por si numa situação daquela.
E foi exatamente num quase delírio e em cumprimento da sentença que se dera foi que ele rumou à cozinha. Estava impressionado, pois a maconha instigara a sua fome e ele preparou um café forte e comeu os três últimos pãezinhos com margarina e creme de amendoim. Para ele, maconha, morte e falta de apetite, contrastavam. Depois do café da manhã providenciou baldes, água e sabão e outros produtos de limpeza e se preparou para fazer a melhor faxina da sua vida. Sentia-se disposto e forte como nunca, e também seria nojento morrer num lugar imundo, fétido, desleixado. E ele trampou duro, lavou, secou, lustrou e em quase quatro horas a sua casa cheirava limpeza. Depois de um bom banho, lá pras 13h foi que o efeito da maconha amenizou e não mais gargalhava. E quase sem a ingerência dela saiu de casa e estacionou seus sapatos na Lanchonete do Mané, para pegar um marmitex de feijoada. Mané o cumprimentou com certa cerimônia, pois há algum tempo ele não dava as caras por lá. Ele estava faminto, e aguardava a feitura da comida quando imaginou os milhares de pessoas que poderiam estar morrendo famintas naquele mesmo momento.
- Porra! o presidente deveria promulgar uma lei; É proibido morrer de bucho vazio - Disse num tom de contestação, balançando a cabeça em negação.
-Como? O que você disse? - Perguntou Mané, surpreso. Ele não havia notado o dono da lanchonete a metro e meio de si.
-Nada não Mané. Coisas aqui da minha cabeça - Respondeu sem graça.
Antes que o homem entregasse a feijoada ele pediu para que caprichassem na "espremidinha". Assim Mané o fez e ele pagou os 20 reais pela comida e retornou para casa com duas embalagens metálicas.
Já na cozinha consumiu em três longos goles o copo da "espremidinha" e depois lambeu os beiços ao degustar o almoço nas próprias embalagens, sem deixar sequer um grão de arroz. Terminado, lavou os talheres e acondicionou as embalagens e outros detritos em sacos de lixo e os colocou na calçada para que os lixeiros levassem. Ainda no portão olhou para os lados e não vendo ninguém soltou dois ou três flatos e voltou para o quarto e deitou-se; Tinha 60 minutos para um bom descanso. Eram 15 horas quando seguiu para o mercadinho e de la retornou com quatro garrafas de vodkas vagabundas. Deixou 50 reais no caixa do mercado e tão logo entrou em casa acomodou três garrafas na geladeira e sentando ao chão da sala abriu a primeira e serviu-se de uma dose dupla. Ao lado das pernas empilhou alguns dos seus Lps e escolheu o disco que iria ouvir. Não foi difícil; Resolveu que no derradeiro dia de sua vida seria justo o reconhecimento ao The Who, sua banda de coração. Passou disco por disco e separou um dos seus mais famosos - Who Next -. Devolveu para a estante os discos que não seriam ouvidos. Ele sabia que quando ligasse o amplificador deixaria seus vizinhos furiosos, pois o volume que a banda de Pete Townshend tocaria seria tão avassalador que seus próprios ouvidos protestariam
– Fodam-se os vizinhos! Vou explodir essa bagaça! - Praguejou irônico erguendo o dedo médio.
Aproveitou e retirou o plástico externo do disco e abrindo o álbum olhou detalhadamente para o encarte. Seus olhos se fixavam numa das fotos quando bateu um sentimento de perda; Moon e Entwistle riam um para o outro num dos ensaios da banda.
- Pena não estarem aqui pra voarmos nessa viagem - Disse num lamento ao erguer o copo num brinde para os amigos falecidos.
Depois engoliu o conteúdo do copo em outros três ou quatro goles e girou o potenciômetro do amplificador até atingir uma das últimas marcas. Tudo pronto, repousou o vinil no toca-discos. O pouso hidráulico do braço foi suave e a agulha deslizou e as primeiras sensações vieram quando o som abandonou as caixas num volume assustador: "Baba O'Riley" - "Bargain" - "Behind Blue Eyes" – espalhavam riffs e vocais inacreditáveis. Era o início da orgia e os níveis de adrenalina aumentaram quando Pete fez as bases e depois os solos de um rock efervescente onde um violino e o sintetizador análogo inovavam o som da banda. Ali naquele quarto/sala se dava o início, não o da brincadeira de um bêbado, mas o do fim da sua vida, talvez o único o caminho duma paz que tanto procurava.
As doses e as músicas se consumiam quando ao fim da primeira garrafa meditou e tentou compreender a morte. Completamente ébrio pensou nela e do jeito que ela se apossava e de como as pessoas reagiam. Gostaria que a morte fosse igual a um carro que roda toda a sua possibilidade e repentinamente pára com o motor fundido. Contudo, nada era como ele gostaria que fosse, e assim a morte poderia aportar sádica, vil, causar sofrimentos desnecessários assim como faz às vezes com doentes desenganados, como no câncer em estado avançado, onde a benevolência das doses de morfina diz que aquele sujeito poderia ter sofrido menos.
-Não, comigo não será assim, será do jeito que está sendo - Afirmou.
E a afirmação veio num instante que faixa reproduzida retumbava um dos maiores momentos do rock - “Won't Get Fooled Again" - Os nível de adrenalina à custa da guitarra arrepia o seu corpo magro e ele segue cambaleante para o centro da sala. Lá, bate os pés e ergue a garrafa acima da cabeça e entorna o líquido que se derrama nos seus cabelos
- Sim! Sou um campeão, o mais louco dos campeões!- Ele grita tropeçando em vogais e consoantes.
A vodka escorre pelo seu rosto e desce até ao peito onde ensopa parte da área frontal da camisa; Ele se sente um animal, e sendo animal não há a necessidade de discernimento. E ele persiste dançando e as pernas não se mantêm tão fortes que consigam suportar o próprio peso. Sem qualquer coordenação e como um aspirador de pó fora de controle ele traga doses de vodka com a mesma simplicidade que tomamos um copo de água para saciar a sede. Talvez a sua vida estivesse esvaindo pelo ralo, mas ele parecia não se dar conta. Todavia a bebida sempre cobra um preço e ele se manifestava na exaustão do corpo, onde as pernas parecem pesar toneladas. Caminha com dificuldades até a cama e lá se deixa cair pesadamente. No leito sente a falta de ar e depois a cabeça gira e náuseas se manifestam ao manter o olhar fixado num ponto do teto.
Não perdera completamente a razão, portanto sabia que enjôo sempre é prenúncio do vomito, e assim levantou-se apressado e esbarrando nas coisas atravessou poucos metros até chegar á porta da cozinha; A intenção era alcançar o banheiro. Não houve tempo. Ao abrir a porta o primeiro jato de vômito se deu ali, na soleira da porta da cozinha. A golfada empapa o peitoril da camisa dum líquido viscoso e que num cheiro acre chocava contra o chão como a queda duma cachoeira. Vieram outras contrações e ele se dobrou e grunhiu feito porco, porém não havia líquido, só espumas esbranquiçadas que pareciam singelas. Ele ofegava à cata do oxigênio quando limpou a baba num dos punhos da camisa branca.
-Maldito vômito! - Praguejou ao retornar bambeando para dentro da casa.
De passagem pela cozinha e num movimento ébrio puxou em falso a porta do refrigerador e o seu corpo em desequilíbrio foi ao chão. Praguejou. Tenta novamente a consegue destravá-la e retira de lá a nova garrafa e enche outro copo, e evita a náusea travando o sistema respiratório. Assim se dá e não mais sente o sabor da vodka e nem de nada, apenas algo de temperatura fria descendo pela garganta, queimando suas entranhas – “Melhor assim" – Conforma-se com cara imbecil.
Naquele instante o seu estado poderia ser considerado crítico quando sentiu a primeira sensação gélida percorrer o corpo. Logo após teve a impressão de um bafejo nas faces, assim como colocasse o rosto sobre a panela com água fervente. Ele sorri - "The wind of death?”- Todavia, mesmo se fosse o vento da morte ele não pretendia se deixar levar assim; Ainda era cedo.
- Calma dona morte tenha um pouco mais de consideração por mim!- Ele negocia.
Não seria necessário muito para aniquilá-lo de vez, ele sabia. – Há forma melhor de morrer? – A pergunta não é dita, é pensada e dirigida para um pingüim de porcelana que se mantém em cima da geladeira e ao lado de um espremedor manual de laranjas. E o pinguim apenas o olha com aquele mesmo olhar de anos, sem emoção, sem lágrimas, sem alegrias ou lamentos. Não há nada, apenas ele e o pingüim, um enfeite de porcelana ganhado há anos no jogo de argolas num parquinho de diversão que se instalou próximo dali. Ele permaneceu olhando para o pinguim e um sorriso incompreensível confirmava que não havia mágoa e nem cobranças.
Desolado ele retorna á sala, pousa a garrafa na mesinha de cabeceira e novamente desaba na cama por quase 10 minutos. Olhava para o teto, para as caixas e agora elas não rodam - Tenta sorrir - Com ele era assim, depois de passado o primeiro surto, o resto era apenas o resto. Ainda mirava o teto quando acreditou estar melhor e tentou até conseguir levantar-se e caminhar trôpego para onde esconde o seu maior tesouro; A imagem do grande amor da sua vida. E ele a pega. Não era a foto da ex-mulher ou de alguma piranha da Rua Augusta. Não, nada disso. Era a fotografia-capa do álbum “Quadrophenia"- um LP duplo, motivo da sua idolatria, o maior disco de rock de todos os tempos – E seus olhos bêbados agora lacrimejam e ele se recorda de quando comprou o LP na mesma Galeria do Rock.
Recorda que ao olhar a capa do disco questionou a imagem sombria e misteriosa dum garoto solitário sentado em cima duma Vespa. O que ele poderia estar fazendo em meio ao nevoeiro de Londres? Não sabia, portanto persistiu na capa do álbum, depois pagou a compra e abandonou a loja. Ainda no ônibus retirou o disco da sacola com o logo da loja e outra vez se questionou dos motivos da solidão e de tanta amargura.
Não, não sabia, mas hoje não necessita questionar, já sabe. O corpo bambeia e ele tenta firmar-se, e se equilibra com o álbum em mãos, depois retira os discos e os coloca no mecanismo de retenção dos discos.
As músicas se seguem, uma após outra - "I am the Sea" - The Real Me" - The Rock" - “Helpless Dancer” - “Bell Boy” – E vieram outras num mesmo volume destruidor e somente no intervalo de um disco para o outro é que ele se dá conta que na lá na rua o seu portão é agredido com murros e chutes. Era um som horrível, metálico, de folhas de zinco sendo espancada por sapatos de números 35, 40, 44, e sabem-se lá quantos mais. E ele ouvia o alarido e não compreendia o que diziam seus vizinhos furiosos e violentos.
- Cambada de filhos da puta! - Em resposta ele berrava bêbado e incompreensível. Naturalmente, jamais poderiam ouvi-lo. Ao som da nova música a selvageria dos vizinhos perde a importância
- Vão chutar os rabos de vossas mães! Ele xinga tropeçando nas palavras. Depois sorri satisfeito.
Sim! A morte, além de inexorável poderia ser uma ótima companheira. Portanto ele bebeu e dançou até desaparecer a última dose da garrafa. Aliás, aquilo não era dança, e ele apenas batia com fúria as ponteiras dos sapatos sociais contra o piso ante a pulsação do rock. E era engraçado vê-lo agredir seus sapatos de quinta enquanto os braços e as mãos solavam uma guitarra imaginária, e depois uma sua vã tentativa de imitar os mesmos pulos de Pete executava nos palcos. E não conseguindo abandonou os pulos e se concentrou ainda mais na bebida e curtia um inacreditável solo do contrabaixo de John, um cara que tocava baixo como se fosse guitarra, um gênio que fazia a música tomar o seu corpo, o corpo dum diabo entregando sua alma a preço de banana. Aos riffs somava-se a voz de Daltrey e as batidas de Moon, e a banda latejava o mais denso rock que se têm notícia, pra ele essência de liberdade. Ele jamais se sentiu assim tão livre. Ah, se os amigos pudessem estar com ele, agora. Amigos? Ele tinha esquecido; ele não tinha amigos. Tinha vizinhos chatos que chutavam e esmurravam o seu portão.
- Malditos filhos da puta! Quero que vocês se ferrem! - Ele rugia bêbado.
Talvez nem mais compreendesse o que falava.
E o pesadelo travestido de sonho dizia para ele que era bom estar ali e continuar assim. Dizia mais; Não tenha culpa, nem remorsos. Agora nem as pernas pareciam extensão de si, e se esbarravam e desequilibravam o seu corpo alto que tombava ao chão, uma pedra ao precipício. E lá no piso frio ele ria e com a língua pra fora da boca lambia ao as cerâmicas do chão relembrando as idiotices de Gilmour.
E ele persistia rindo e lambendo o piso quando - “Doctor Jimmy” tocou. Os riffs, a bateria e a voz esganiçada de Daltrey diziam para ele que ele era rei. Depois disseram que era um general dos tempos romanos, e ele empunha a guitarra imaginária como se fosse a mais poderosa espada e desferia golpes para os lados, depois abandona a arma e se apossa da garrafa e a ergue; era a cabeça do seu mais poderoso oponente, talvez o crânio de Santoro, o mais filho da puta de todos os vizinhos – Era a vitória e agora ele era um herói – Um herói que não recebia medalhas, pois a garrafa vazia não faz ninguém beber, e ele tinha que continuar bebendo.
E outra vez voltou á cozinha espalmando as mãos nas paredes, se escorando na geladeira.
-Ei garoto, você está indo bem! Vai morrer às pampas! Dizia para si. A voz soa incompreensível. E ele ri, o louco ri.
Sentou-se ao chão e abriu outra garrafa e ficou por um bom tempo tragando doses em pequenos goles. Ele se sentia estranho, perdido, sem saber pelo que esperar. Era uma sensação de impotência, a vida se esmolambando ante seus olhos como as pedras que imaginamos fortes e que se esfarelam num simples apertar de nossas mãos. Repentinamente algo chama a sua atenção; A imagem da tarde se despedindo confessa, exposta em parca luminosidade na janela da cozinha. E ela se rendia largando o seu turno com a pontualidade dum operário. E se ia talvez como numa doce poesia, dessas que não se queixam e nem requerem decisões.
E ele continuou lá por uns bons minutos permitindo a penumbra banhar o seu ser, serpente trocando as peles bem debaixo dos seus olhos, tarde-cobra se esgueirando aos limites que se impõem na natureza. E a tarde acenava, se despedia e era doce e não negava os seus rastros e nem os murmúrios das suas tantas feridas.
Deslumbrado apenas manteve o olhar à janela enquanto tentava compreender o esplendor de algo tão majestoso e indecifrável - Por que somente agora ao se aproximar o fim é que fora dar conta de tanta grandiosidade? – Questionou-se - Os olhos estavam tão ébrios que persistiram embevecidos e sorriram ao se sentirem acariciados pelas sombras que consumiam o tempo lentamente. Sim, havia ali toda a poesia da morte que se consente, essa mesma que re retorna à vida e liberta a doçura dos amantes revelados ao fim da noite.
Sim, jamais haveria como negar, era pura sedução o ato de possessão. Era magnânimo o poder da noite subjugando o ocaso sem arrogância e num ato tão pleno de paixão assim como uma lágrima de mulher que se derruba por amor.
E o que seria ele comparado a tanta grandeza? Nada, simplesmente nada! Apenas um bêbado que se deixaria morrer ouvindo seus juvenis rock in roll, torcendo para não perturbar demasiadamente o sossêgo alheio - Forever Young! Lembram-se? Sim, ele se lembrava, mas não era mais um jovem e sim o ébrio que, entorpecido nas desilusões tomaria de assalto as vestes da tarde e se deixaria morrer sem queixas ou objeções. Não! Não haveria lamentos seus assim como não houve na poesia que sonhou e não soube escrever - Concluiu com circunspecção-
E agora a noite viera de dez e apoderava-se do todo e trazia consigo a irônica lembrança das contradições dos seus conceitos de outrora, dos absolutismos que sempre o fizeram repudiar o suicídio e aqueles que o tinham como rota final. Para ele, livra-se da própria vida constituia um ato vil e covarde praticado por aqueles que não encontram motivos que se justifiquem. Contudo, apesar da contradição, a partir daquele instante nada deveria interferir. Não havia espaço para culpas, medos e nem remorsos. Sim, que lhe afligisse na pele e retornasse a mesma sensação gélida que agora se apossava do seu corpo como se fosse ele parte dum iceberg.
Todavia o ranger dos dentes e o fremir do corpo não iriam impedir a sua volta à sala e para a sua banda. Seu corpo persistiu tilintando ao tentar e não consegue se erguer do chão. Nova tentativa e imprimiu força às pernas e ao não atingir seu objetivo girou o corpo lateralmente até se pegar de quatro, um Gilmour da vida que arrastava suas dores na direção da sala. E ele não ia só, com ele uma garrafa pela metade, vidro estocando o piso num compasso manco e impreciso. Ao alcançar a porta da sala ele sentia horríveis dores nos joelhos, e tenta levantar-se, porém não havia forças para impulsionar as pernas. Com os pensamentos confusos ele pretende resolver a situação e então espalma fortemente uma das mãos na parede e nela se apóia e impulsiona as pernas e conseguiu içar como um barco à meia vela.. Com as pernas semi dobradas ele se ajoelha rente à parede e estendendo o braço tenta alcançar com o indicador os dois dos botões na placa de interruptores. Foi necessária uma terceira tentativa para que as luzes se acendessem de vez.
Ah, como era belo o efeito da luz negra - Ele sorria com o efeito da outra, a estroboscópica que, conferia à sala um clima underground e depravado como num "inferninho"– E agora acesas elas permitiram a sua viagem, e ele viajou e aportou num instante do passado. Ele relembrou os amigos, as namoradas, os bailes e até pôde ver um copo de cuba libre no balcão de madeira de um bar provisório E revivendo o momento materializou pessoas de sua convivência. Era como se elas estivessem ali na sua frente, carne e osso. Marly continuava insinuante e com um gosto de cio nos lábios vermelhos e ordinários que beijara algumas vezes. Também relembrou a Neusinha e o seu pai carrancudo à espera dela na saída do baile, e o que reduzia drasticamente as suas chances com a garota perfumada e das pernas grossas. Nela jamais esquecerá o sorriso meigo e sincero que causava nele uma sensação de “É muita areia pro meu caminhão” Claro, a frase era um dos bordões da daquela década, pois o que havia era apenas um pai com um olhar de dobermann, sinalizando que a filha jamais seria pro bico dele - Admitiu ao levar Neusinha pra longe dos seus pensamentos – Livre da garota pôde rememorar alguém muito especial.
Seus olhos brilhavam ao vê-la à sua frente. O nome era Leila, e era com ela que sentia o coração acelerar. Garota legal, divertida, além de linda e gostosa, aliás, "Bolindosa" o cognome sugerido por seus amigos que queriam num único apelido incluir todos os atributos da garota - boa, linda, gostosa - E Leila, sem pai para esperá-la, dona de uma liberdade relativa, fato de exceção à época, seguramente era a garota certa pra ele. E eles se encontravam nos bailes de sábado e ficavam se olhando furtivamente, ela junto das amigas, e ele com os perversos companheiros, até o momento dos primeiros acordes de alguma música lenta e romântica. Então ele se dirigia até onde ela estava e a tirava para dançar. E eles dançavam e colavam os rostos e seus corpos, e se tocavam com tanto carinho e desejo que os olhos se cruzavam patéticos e apaixonados. E eles mal mexiam seus corpos sob os efeitos daquelas luzes onde a negra causava um efeito de fosforescência em roupas brancas, inclusive nos dentes que cintilavam azulados como peças de neon enquanto. Por outro, a estroboscópica piscava freneticamente criando a ilusão ótica de corpos estarem em movimentos incessantes. Sorriu triste dessa vez; Na época Leila fora de mudança pra Recife numa maldita transferência profissional do seu pai, um alto funcionário da petroleira estatal
Logo se esqueceu de Leila e se esforçou para relembrar outros fatos e detalhes quando, uma a uma as imagens foram se dissipando na sua mente. Foram embora os amigos, namoradas, e até o copo e o balcão do bar. Ele olhava para si e para os efeitos das luzes e elas fosforesciam em sua camisa um mesmo tom azulado e neon, exceto nos locais manchados pela bebida e vomito. Ele sorriu; O revolucionário ainda se mantinha alfinetado à camisa e tão fosforescido quanto ele. E ele olhava para o próprio corpo e a felicidade o tomava, era uma sensação de paz, assim, de estar num outro plano, numa outra vida. E ele persistia embevecido ao persistir olhando os efeitos que as luzes causavam em si quando fremiu descontrolado; Termicamente era uma sensação que o seu corpo estivesse dentro dum copo de água junto de oito pedras de gelo. Ele tremia tão frenético quando o coração latejou rápido e descompassado. Ele se assustou, podia sentir os latejamentos no céu da boca. O corpo se empreende num estado de êxtase, algo catártico, surreal, e o absurdo volume nas caixas não passava agora dum quase um murmúrio, sonoridade se tornou distante no momento que ela chegara - E ela se aportou soberana, trazendo o colapso ao corpo do homem, e uma dor tão devastadora que o obrigou a cuspir um resto de bebida que estava em sua boca. –
Sim, ela! Era a leal amiga. Não mentiram, nem ela, nem ele. O raio do enfarto atingiu o peito, em cheio, e ele tentou levar a garrafa à boca para um último gole, sem sucesso, pois a garrafa tombou junto com ele e se espatifou no chão lançando cacos irregulares e incolores para boa parte do piso. Fora a dor mais infame da sua vida. Por instantes ele sentiu algo rasgando o seu peito, a lâmina do estilete esquartejando sem dó, sem critérios, sem emoção.
Não havia mais nada quando o The Who o homenageou com a última faixa do Quadrophenia – "Love, Reign O’er Me” – Era a canção – "Um mendigo, um hipócrita. Amor reine sobre mim" – Implorava parte da letra.
No alto as luzes persistiam fosforescendo o rosto magro dum homem alto com a aparência semelhante a Ian Anderson, do Jethro Tull. No bolso direito da sua calça 160 reais e algumas moedas de centavos, um resto de herança sem herdeiros, No peito a mão espalmada repousava no lado superior esquerdo enquanto sob os seus dedos o broche de Che Guevara se consternava diante da complacência azulada duma falsa camisa neon.
No seu olhar parcialmente cerrado foi possível reconhecer o fim de uma vida. Um pouco mais abaixo os lábios numa tonalidade levemente arroxeada pareciam exibir um melancólico sorriso de quem aceitou sem contestação o termino da louca viagem. Mais que nunca ele era à tarde e também foi tragado.
Nos quatro cantos altos da sala as caixas permaneceram silenciosas. Ao lado da cama a estante de cinco divisões e os de mais de 400 volumes mantiveram-se unidos e perfilados lado a lado. No toca-discos um ruído eletrônico da eficiente tecnologia britânica fazia o braço retornar automaticamente à posição de origem. Ainda no seu prato o solitário lado B do disco dois se mantinha adormecido. Talvez o The Who fizesse o minuto de silêncio.
No chão a capa do "Quadrophenia" insistia na solitude do garoto da Vespa, e ele mais parecia perdido nas desilusões que propriamente ao denso nevoeiro da cidade de Londres. Também não havia a loucura dos cigarros contraventores e um system de 2.000 dólares, muito menos copeiras de quartos de hotéis, mas sim a sensação de limpeza e um bom odor de lavanda em que pese o cheiro azedo impregnado em sua camisa social. La fora um silêncio isento de chutes e murros enquanto no refrigerador a única garrafa de vodka permanecia intacta e solitária. Em cima dela o pingüim recebido como prêmio num parquinho de diversões persista impassível e com o mesmo olhar frívolo de antes.
Na casa nenhum som, mais existia o rock. Aliás, o rock existirá para sempre, pois o que se extingue é a vida, é o homem e as embarcações de si
Copirraiti24Julh2012
Veio China©
-Catzo, novamente essa amargura me torrando o saco? Mas que merda! Tinha que ser eu o porra do girino mais forte naquela noite de amor?- Exclamou em bom tom. Depois pensou no pai, na mãe e naquele instante.
-Talvez nem tenha sido amor - Murmurou reticente
Na verdade, nem o seu amargor ou as surpreendentes comparações em que se metia traduziam-se em grandes novidades, afinal, analisar suas insólitas questões existenciais por vezes eram bem divertido. Assim também como não era surpresa seu abatimento causado por um monstro que, sabia, permitia alimentar-se em si. Levantou, caminhou poucos passos e abriu cortinas e janela. Dali mesmo olhou para a estante e o relógio-despertador apontava 07h30min. Curvou o corpo, pôs a cabeça para fora da janela da sala e foi tocado por tépidos raios de sol. Olhou para o alto e o céu se manifestava num azul claro e uniforme, indicando que o dia seria terrivelmente tórrido, provavelmente até mais que o anterior. Os raios aqueciam seus braços quando sorriu macambúzio e sem expectativas; Tinha consciência do calor regando vidas, porém não a dele. Voltou à cabeça, fez um meio giro de corpo e recostou o traseiro na base da janela e continuou inspecionando a sala. Ele relembrava o início e de como fora parar naquela casa. Aliás, imóvel que não era sua e sim alugado. Uma casa pequena, de quarto/sala, cozinha, e um diminuto banheiro no lado externo, além de um comprido quintal que se estendia até a divisa com a casa vizinha. Talvez se não fosse pelo nome da rua e a numeração da casa nem houvesse registro seu nesse planeta. Aliás, sobre o imóvel e ilegibilidade dum contrato amarelecido pelo tempo, há mais de 20 anos não resgatava os alugueis. Não! Jamais fora mau pagador, nada disso, apenas deixa de quitá-los por questões circunstanciais. Rememora que procurava um lugar para ficar quando se interessou pelo imóvel e ligou para o número de um telefone indicado no anúncio de jornal. Queria obter maiores informações.
-Alôuuuu, com quem queria falar? - A pessoa se antecipou e o atendeu amistosa. Era a tonalidade de voz duma mulher de certa idade.
-Por favor, dona, aqui é o Brodowski falando. Foi daí que anunciaram uma casa pra alugar? – Ele perguntou sem se preocupar com a construção gramatical.
-Sim, foi sim moço, a minha! É uma casa pequena, mas muito aconchegante. Ah! ela está totalmente pintada e tem estacionamento para dois carros - Reforçou com o intuito de mantê-lo ainda mais atraído.
-Ah, estacionamento? Que bom! É que eu tenho o Clapton - Ele devolveu contido. Silêncio do outro lado. Após 15 segundos a mulher replica
-Moço, acho que não me entendeu bem... Eu disse que tem lugar para guardar dois carros – Talvez o homem estivesse problemas de audição - Deduziu
-Opa, desculpe dona! Clapton é o fusquinha 73 que comprei no mês passado. Esse nome é em homenagem ao Eric Clapton. É rebaixado, conta-giros, faróis de milha e rodas de magnésio. Só vendo! - Respondeu com certo orgulho
-Quem? Esse tal de "Clépitos"? - Assustou-se a mulher
-Não dona! To falndo do meu fusquinha.
-Ah... que interessante! - Retorquiu com os olhos arregalados. Do quê aquele sujeito poderia estar falando? - Se perguntou -Bem, que cada louco ficasse com as suas manias - Concluiu repuxando os lábios num dos cantos da boca.
Antes que desligassem e tendo em vista o seu interesse marcaram um encontro à frente da casa para aquela mesma tarde. Na hora marcada entraram e inspecionaram o imóvel.
-Qual é o aluguel, dona? - Perguntou
-Bem, Sr. Brodowski, o aluguel é CR$ 340.000,00. Se não tiver fiador aceito três meses de aluguel como fiança
-Fechado! – Ele assentiu.
Ali mesmo a mulher solicitou algumas informações pessoais como a firma que trabalhava, o enderço comercial, valor de salário e a apresentação dos seus documentos originais. Depois transcreveu todos os dados num caderno espiral de 50 folhas. Estando acertados apertaram suas mãos e após três dias ele foi à casa da proprietária e assinou o contrato de locação. Por fim entregou-lhe o valor da fiança. Ao sair ainda ouviu dela:
-Seu Brodowski, algo me diz que o senhor vai morar nessa casa por toda a vida. O senhor vai ver!
-Ah, vou sim. Até o meu último dia - Respondeu num sorriso frouxo de quem apenas quis ser gentil.
-Imagina... morar numa casa de aluguel por uma vida inteira? Resmungou alto ao entrar no fusquinha e atirar o contrato no banco do passageiro. Aquela mulher só podia estar brincando ou não era boa da cachola.
Isso fora há 31 anos - Relembrou - Depois praticando outros exercícios de memória recordou que ao entrar no 11o. ano de locação deixou de receber os avisos de cobrança do aluguel. Passados três meses e sem que houvesse notícia dirigiu-se à residência da locadora. Lá chegando encontrou o imóvel fechado apesar de ter insistido na companhia por bons 10 minutos, sem resposta. Todavia a vizinha alertada por sua andança na frente da casa foi ao seu encontro. Após se apresentar e dizer à mulher o motivo de estar ali foi que soube.
-Então moço, a pobrezinha da dona Mercedes morreu há quatro meses. Morreu como um passarinho, encolhidinha, eu vi. Também, né? 82 anos...E ela foi assim, sem deixar parentes, filhos ou um marido. Ninguém!
Ele agradeceu e retornou para casa desacreditando naquilo que a mulher falara e esperou que algum eventual herdeiro reclamasse o imóvel, o que jamais aconteceu.
-Merda! Que importância pode ter isso agora? – Censurou-se ante as lembranças. Depois, em movimentos irrequietos passou a notar os detalhes do ambiente e em tudo o que era seu.
E reparou principalmente nos seus aparelhos eletrônicos da década de 70 como um Receiver Gradiente Pró1200, um potente amplificador que por algumas vezes necessitou de reparos. “É um belo aparelho” - escutara do técnico naquelas ocasiões. Foi o que novamente ouviu agora ao retirá-lo com os potenciômetros restaurados.
Deixando o amplificador de lado passou em revista o piso e as pinturas das paredes e dirigiu os olhos na direção do teto onde um esmaltado globo giratório, quase réplica de uma nave espacial, expunha um par de luzes de aparência extravagante, além de uma dessas lâmpadas comuns. No lado oposto ao que estava, um baú, uma peça bonita e pintada à mão num estilo psicodélico que, presenteada por um amigo artesão emprestava ao lugar um quê de despojo. Sim, não foram tempos totalmente maus – Concluiu ao acariciar a espalhafatosa pintura da arca e erguer o tampo sob o ranger do par de dobradiças. Escancarado foi inevitável deixar de exalar um cheiro de coisa velha, mistura de mofo, bolor e algumas descoradas pedras de naftalinas. Abanou a mão diante do nariz como fosse dissipar o odor com aqueles movimentos e ajoelhou-se diante do baú e passou a vistoriar o seu interior no aguardo de encontrar coisas mais interessantes que o cheiro da velhice. Revirando a mala com lentidão reviu coisas que há muito tempo estavam esquecidas na memória. Estavam lá as calças Wanglers, dois números menores aos de hoje e algumas camisetas amarelecidas com estampas de rock. Sorriu com certa tristeza ao tocá-las e recordar que havia comprado no fim de 1972, numa feira hippie da Praça da República - Tirou uma delas da arca e sorriu tão amarelo quanto ela -
-Que foda, o tempo não perdoa nada. Elas eram brancas! – Disse num balançar de cabeça.
Também reencontrou dentro dum saco plástico o seu desgastado par do tênis Adidas.
- Como essas essas três listras foram famosas - Sussurrou ao passar o indicador por elas.
Ao lado do par de tênis, num pote vazio da Margarina Delícia, algumas pequenos broches de metal. Eram os seus botons de personas ilustres que ali representavam a nata do rock do final dos anos 60; Bob Dylan, Hendrix, Joplin, Jim Morrison, e outros como o de Che Guevara, Martín Luther King e Malcolm X, comprados em épocas distintas numa lojinha da Galeria do Rock.
Riu ao se recordar que o trio causava espanto a um colega de serviço, também roqueiro e que não compreendia aquelas presenças no meio de tantos astros do rock. Óbvio que o nosso amargurado amigo tinha plena consciência que o velho Che, tanto quanto os falantes Martín e Malcon nada tinham em comum com o mundo da música, o que não lhes negava suas relevâncias num planeta efervescido por guerrilhas, racismos e a estúpida atuação americana na guerra da Coréia.
E daquela guerra algo que jamais saíra da sua lembrança; A foto duma menina coreana, talvez de 7 anos, totalmente nua e em prantos pelos pais dizimados. Era isso que relembrava naquele instante, algo que doía até hoje, e que nos fazia compreender o seu carinho e o cuidado com cada um daqueles broches. Zelo e proteção que denunciava nele uma natureza rebelde, contestadora, politicamente mais alinhada à esquerda, padrão que à época infestava o pensamento jovem, também compreensível, afinal estávamos em tempos de insurgimentos e rebeldias como o visto no festival de Woodstock.
-Porra! Woodstock foi foda! - Exclamou, agora com entusiasmo.
Dele lembra-se do filme visto no cinema, festival de irreverência, guitarras distorcidas, cabelos ensebados e compridos e as transas de casais nus sobre relvas. Lembra também das suas camisetas, palavras de ordem, pulseiras e medalhas com os dizeres das mais novas filosofias dos jovens: "Paz & Amor" e "Faça amor, não faça guerra”.- Sorriu -
De certa forma, e mesmo estando longe daquilo ele apoiava aquelas posições, portanto também fora revolucionário, um rebelde que agora revisitava o passado e as nuances dum tempo que não mais volta, mas que o incentivava a fazer o que agora fazia ao alfinetar o broche de Che Guevara à camisa - “"Sonha e serás livre de espírito. Luta e serás livre na vida " - Dizia uma das frases do argentino-cubano. Refletiu sobre elas e saboreou a frase por duas vezes até sussurrar numa pergunta:
- Psiuuu, Ernesto, em que porra de mundo você vivia, eim? - Depois sorriu cúmplice ao contornar o botom com o polegar direito, talvez na espera que o médico-revolucionário pudesse reavaliar seus conceitos - Esperou mais alguns instantes e diante o silêncio de Che, desistiu.
Deixando de lado os super stars e contestadores continuou inspecionando o interior do baú até encontrar debaixo dum velho blusão de moletom uma pequena caixa de madeira com antigos ingressos de eventos, alguns com as bordas carcomidas pelo tempo. O seu interior ainda trazia um tênue odor dos ótimos charutos cubanos que ali estiveram, dados à época pelos colegas de escritório num outro de seus aniversários.
Sutilmente manuseou os ingressos e teve a impressão que a fragilidade do papel desmancharia o registro de um grande show. Aliás, que show!
Recordou-se então da noite gélida no Ginásio do Ibirapuera, em 1977 – Genesis - Era o seu primeiro concerto internacional e como num flashback voltou à mente a euforia de poder ver a banda que arrebatava o mundo, mas que chegava ao Brasil sem o seu fantástico camaleão; Peter Gabriel. Relembrou que isso lhe trouxera certa frustração, contudo alguns detalhes mantinham-se vivos como a iluminação de palco, onde nuvens de fumaças vermelhas e de outras cores que, convergindo para o mesmo local davam a impressão duma invasão alienígena. Também resistiu na sua lembrança o duo de bateristas. Sim, Phil Collins cuidava de uma delas além do vocal enquanto um sujeito negro e encorpado se responsabilizava pelas outras baquetas num show de duas horas e de tanta ovação que a banda se viu obrigada a voltar ao palco para alguns números extras.
-Ei cara! Foi um show muito foda! – Disse para si ao fechar a arca.
Em seguida cravou os olhos em cada centímetro daquelas quatro paredes. Nelas, além de pontos de umidade, enormes caixas Polivox de 200 w se fixavam por hastes de ferro, mantendo-se cada uma delas na parte alta dos cantos. Depois voltou o olhar para a cama de solteiro e ao lado onde uma estante com cinco prateleiras abrigava os seus velhos LPs. Talvez se acumulassem uns 400 volumes da mais pura rebeldia do rock britânico. Sim, claro! Ele era generoso no cuidado com seus discos do Zeppelin, Floyd, Crimson, Tull, Genesis, Clapton, Sabbath, Purple e tantos outros dos bons. E zelo se notava nas duas capas plásticas que cobriam os vinis e as capas originais dos Lps.
Abandonando seus modestos bens tentou penetrar na verdade de si; Há muito não havia amigos, mulheres, namoradas ou parentes. Aliás, mulher houvera sim, uma ex, há coisa de 28 anos, sem cerimônia civil, padres e presentes, mas apenas as concordâncias em "juntar os trapos" com alguém que não gosta de recordar e nem saber o paradeiro. Dela, lembra-se apenas dos peitos fartos e duma noite de chuva intensa e que ao voltar do trabalho pegou a casa às escuras, armários vazios, e na gaveta da cômoda a falta dos documentos do fusquinha 73. Lembra ainda que om a boca seca e tremulo rumou à escuridão do quintal e o Fusca azul pavão também não estava lá
-Puta trairagem das grossas que essa dona fez com a gente, Clapton! – Murmurou à época, desalentado. Em que pesou a sua decepção à época, achou por bem não registrar um B.O.
Mudando o foco procurou esquecer a sacanagem e os sedutores peitos de Jucineide ao questionar-se sobre seus parentes. Sim, tinha alguns, distantes, lá pelas bandas de Santa Catarina ou Rio Grande do Sul, nem ele sabia ao certo. Todavia era gente com parentesco por parte de pai e que ele jamais conhecera, portanto, não tinha parentes.
Olhou novamente para tudo, para o legado que deixaria como herança, acrescido duma sobra demissionária no valor de 230 reais, e que adormecia no fundo do seu bolso direito da calça de microfibra negra.
- Duzentos e trinta reais.. - Murmurou reticente:
Evidente, aquele valor tivera algum peso ao acordar, a aflição que se somava ao nó no peito, à falta de saliva, uma angústia e a vontade de chorar e não encontrar uma lágrima no poço de si. Enfim, foi naquele instante que se manifestou, mais que nunca, a sua intenção de morrer. Sobre a morte já há algum tempo vinha meditando sobre ela, aliás, adiando a sua execução. Porém, o pensamento necessitava se desprender do mundo psíquico e tornar-se atitude, factível, palpável, ainda mais agora transbordado em lamentos dos tristes acontecimentos daquele ano. Acontecimentos repletos de mágoas e abatimentos que se acrescentavam no inconformismo das demissões e da falta de oportunidades. Era assim que ele se via, carta fora do baralho, um sujeito que só ao olhar notava-se não compensar investir nele um centavo sequer. E para piorar aquela amargura, crescia em seu peito uma dor incontrolável, inexplicável; A saudade de Gilmour.
Como poderi amar tanto? Não, não. Gilmour não era um filho distante ou falecido. Não, jamais teve filhos. Gilmour era um negro e inacreditável pitbull de 10 anos que estava com ele desde filhote. Gilmour fora atropelado por um caminhão, bem à frente de sua casa. Não, Gilmour jamais fora um filho, porém era como se fosse.
“Ah, Gilmour! Tá difícil” - Lamentou-se. Era difícil recordá-lo ainda filhote, dono de um voraz apetite de leite e tanta força nas mandíbulas que pareciam pretender estraçalhar o bico da mamadeira. Recorda que foi no dia-a-dia que domou a agressiva natureza do animal até transformá-lo numa quase criança. “Ah, Gilmour!” Lastimou agora ao rememorar a fatalidade para um cão que passou por ele como se fosse uma flecha ganhando a calçada, e travesso foi àquilo que lhe pereceu diversão.
-Gilmour, seu bostal! Por que teve que sair correndo atrás da maldita bola? Você jamais gostou de brincar com elas! - Praguejou à época
Depois se sentou na calçada e lá ficou por um bom tempo, perplexo, chocado, apenas olhava o corpo do animal e a poça se sangue, e os carros que se desviavam dele. Porém de nada adiantaria ficar ali, não traria Gilmour de volta, e assim foi para dentro e retornou com três reforçados sacos de 100 litros e levou o animal para o fundo do quintal e o enterrou ali, ironicamente o mesmo lugar que guardava o Clapton. Relembra que após uma semana de saudade e corroído por um sentimento de culpa desmantelou a casinha do cachorro à marteladas, acondicionando as madeiras na caçamba duma construção próxima.
-Gilmour, seu burro! Tu eras como eu, rock e cervejas, e jamais o futebol!- Lamentou-se agora ao recolocar a cabeça para fora da janela e olhar na direção onde o cão estava enterrado.
Mais que nunca se sentia responsável por não ter preso Gilmour à coleira e ainda ter permitido que portão ficasse aberto enquanto varria a calçada.
Era dura a saudade e, não mais querendo conviver com ela afastou o cão das lembranças dele, um sujeito que todos imaginavam frio. Mas não era frieza, era o desencanto, o abatimento de se ver sozinho e mendigando serviços temporários como os das últimas vezes. Enfim, empregos estúpidos e humilhantes que só poderiam ser destinados e aceitos por pessoas como ele, velhas. Tantas vezes se viu disputando vagas com idosos que nada tinham e assim como ele eram obrigados a trabalhar 10 ou mais horas carregando nas costas, além das suas idades pesadas placas de publicidade. Enfim, eram apenas pobres diabos convertidos à outdoors humanos, zanzando com cartazes coloridos que anunciavam compra de ouro por um preço justo, entre tantas coisas - Quanta mentira e sujeira! -
Claro, poderiam existir alternativas como a de ficar plantado em semáforos, distribuindo folhetos de magazines, centros automotivos, hipermercados, além de outros que ofereciam unidades habitacionais para uma classe média depauperada. Porém aqueles patrões não davam a mínima para eles, nem pros seus reumatismos ou varizes, inclusive negavam o dinheiro do transporte, além de algum valor inexpressivo para um marmitex de arroz, feijão e ovo. Se ao menos houvesse dignidade naqueles serviços, mas não havia nenhuma. E além do mais não seriam aqueles miseráveis salários que fariam cessar as dificuldades que ameaçavam invadir a sua casa pela porta da frente.
Era doído e deprimente ter a certeza que chegara naquela idade sem sentir na pele as necessárias esperanças que apaziguam e mantém alguma chama dentro do homem.
Todavia não mais acreditava em promessas, afinal, autocrítico tinha ciência que seus modos e sua aparência poderiam exalar um quê de displicência e antipatia. Não foram poucos os "nãos" e as portas batidas nas fuças. Talvez a sua estampa endurecida causasse receio àquele pessoal. Porém mal sabiam que as derrotas e decepções assimiladas ao largo dos anos foram responsáveis pelo envelhecimento precoce daqueles seus 61 que pareciam bem mais de 70. Talvez estivessem com a razão, reconheciam nele um resto da altivez, talvez dos velhos tempos, presunção que hoje se tornara modesta ao admitir que ficara pelo caminho tudo o que fora seu. Um caminho mais árduo que nunca, sem diplomas, títulos, ou o conformismo duma aviltante aposentadoria ou auxílio pensão -"O passado é brasa apagada que não mais inflama" – Sempre concluia em pensamento. Não! Definitivamente não necessitava comiseração de ninguém, ainda mais a de si para si.
- Duzentos e trinta reais... Que faço? Vou à Paris? – Perguntou irônico para as duas pequenas gotas que se criavam nos olhos. Ah, antes tivessem ceifado sua cabeça com a lâmina da guilhotina.
Não, não havia sentido e nem necessitava de mais humilhações, e a morte parecia ser coerente e irreversível, principalmente naquela manhã onde ela foi se incrustando de forma obsessiva. Sequer houve um dia nos últimos trinta, que não pensou nela. Sim, e como a desejava! Agora é que podia compreender o drama vivido por um personagem num dos filmes de TV que vira e o impressionara – DESPEDIDA EM LAS VEGAS – Era o nome. Nele, Nicolas Cage era um fracassado escritor de roteiros de cinema. Relegado, se viu ultrapassado por idéias criativas de um novo time de roteiristas. E eles encantavam produtores, diretores e estúdios Assim, não restou qualquer caminho que não fosse o bilhete azul, a sua demissão. Após, procurou alguma coisa mais sentiu as portas se lacrarem para ele. Sem saída e depressivo decidiu limpar sua conta do banco e sair pelas estradas do país até chegar à Las Vegas, onde beberia até morrer. Sim, isso mesmo, o roteirista decidira que morreria bebendo. Óbvio, se assim ele o fizesse seria nada mais que coisa comum, clichê, porém era assim que queria a morte. Todavia haveria diferenças, ele não era cage, portanto não havia grana, carro, estradas, e muito menos Las Vegas.
- Cara! qualquer dia é dia bom pra se morrer. E o dia bom é o de hoje, Brodowski! - Sentenciou-se na decisão.
E não seria tão difícil, afinal a vida jamais apresentou variações àquelas sabidas. Existir era nada mais que nascer e morrer, avaliar o bem e o mal, sentir-se culpado ou inocente e estar entre Deus e o diabo. E outra... Nem necessitaria sair de casa, pois seria ali na própria sala que suportara suas esquisitices por 31 anos. Também fora dos planos estaria a presença de qualquer rampeira de 50 pratas prum boquete de cinco minutos enquanto a sua vida acenava um goodbye.
- Sim, vai ser hoje! – Acabrunhado admitiu. Repentinamente seus olhos brilham de forma estranha.
- Será que eles ainda estão bons? - Questionou
Para saber se estavam ou não foi à gaveta da cômoda e passou a mão debaixo das cuecas e meias e retirou de lá os dois cigarros de maconha. Fazia algum tempo que eles estavam ali, deixados pelo Fredinho Ruela, um guardador de carros das imediações do Fórum Trabalhista, próximo dali
- Pode aguentar esse bagulho pra mim, tio? A coisa ta ruim pro meu lado e acho que os hómi tão na minha cola - Foi a sua súplica que ele fizera. Além do pedido prometia buscar o "bagulho" em dois ou no máximo três dias.
Sim, naquele dia ele ouviu as sirenes da polícia no mesmo momento que quebrava o galho de rapaz e escondia a muamba debaixo das cuecas e meias limpas . E isso fora há mais de quatro meses, e o Fredinho nunca mais apareceu, nem pra buscar os seus baseados, nem ao menos para os seus esporádicos "oi". Talvez Fredinho estivesse preso, morto, presunto, assassinado por alguma gang que o sentenciou por achar que ele interferia nos negócios de furto de toca-Cds e Dvds automotivos. “-” Pode ter sido isso? "- Perguntou-se outra vez, afinal, nunca mais vira a cara do malandro simpático que abria portas de carros com um sorriso de orelha á orelha, ofertando pirulitos quando percebia crianças nos bancos traseiros dos veículos - "Ah, vai ver está tudo bem, e não é bem assim!”– Ainda tentou se convencer ao relembrar o dia que o safado se apresentou a ele depois de passar à sua frente numa desabalada carreira, dar meia volta, retornando e se colocando diante de si:
- Dotô, eu já vi o senhor batendo pernas por aí. E tenho certeza que o senhor também já me viu. Meu nome é Jeffrey! Pra ser mais "perimpistório" é Jeffrey Thomaz ou Fredinho Ruela, para os manos umais chegados. É o seguinte tio, to numa bronca e sem direito à "lábias cópos". Será que o "meretrísmo" pode dar uma forcinha pro sangue bom aqui?
Claro, não houve como deixar de sorrir naquela primeira vez, pois ficava tão evidente o envolvimento do flanelinha com advogados e termos forenses, mesmo que pronunciados do seu jeito. Sim, fora aquele dia que Jeffrey esteve mais rápido que nunca. E assim foi porquê tentava escapar dum sujeito musculoso, provavelmente um desses advogados fanáticos por academia, que pretendia surrá-lo sob a alegação que fora ele o ladrão do seu toca - CDs enquanto estivera no Fórum. E de nada adiantou os protestos de Fredinho, pois doutor partiu pra cima dele aos socos e pontapés, os quais Fredinho se safava pulando de um lado para outro. Porém o que o doutor não contava era que Jeffrey Thomaz era muitíssimo bom de pernas e correu os 300 metros até que chegar ao seu portão num tempo espetacular. Sim, era verdade, o Jeffrey não mentira: Ele já tinha visto o "flanelinha" pelas redondezas, e agora, mesmo achando engraçado se assustava com aquele crioulinho de 28 ou 29 anos que num estado ofegante clamava por sua ajuda. Fora uma decisão difícil, e ele olhou nos olhos do Jeffrey e sem saber o motivo empurrou o guardador para o lado de dentro do portão, pois um pressentimento dizia que ele não era ladrão. Um pouco depois as sirenes de polícia soaram e Fredinho, além de se tornar eternamente grato, aparecia por la uma ou outra vez para dar apenas um alô. Portanto, a última vez fora há quatro meses, dia que Jeffrey rogou para que ele guardasse os cigarros de maconha.
Bem, as incertezas sobre o que poderia ter acontecido com Fredinho faziam parte da história, e sendo assim, passado, e de certo mesmo apenas duas considerações; A de agora estar com uma bagana de maconha entre os dedos, e outra que dizia pra ele que a ultima vez que fumara um baseado fora há coisa de 22 ou 23 anos. E foi sem saber qual seria a reação aos efeitos da erva que ele rumou até a cozinha com o bagulho na boca e o acendeu com os fósforos. Após, bateu duas tragadas profundas e tossiu e repetiu a dose bloquendo a respiração. Sim, lembrava-se de alguns dos macetes no trato com a erva. Ainda mantinha os pulmões sem ar quando retornou à sala com o baseado entre os dedos e só dispensou o toco ao sentir o polegar e o indicador queimados pela brasa da "Marieta". A princípio sentiu-se estranho, como estivesse pisando em nuvens, numa dimensão outra, depois a enorme vontade de rir, apesar de não saber o porquê e nem pra quê. De repente o seu mundo se pinta de doido, com todas as cores, e se veste numa calça boca de sino, ou se aperta abaixo dos quadris num modelo Saint Tropez, e mesmo não havendo motivos para rir, repentinamente tudo lhe pareceu hilário. E ele ria de todas as coisas, cada vez num tom maior e a ponto de entranhar a prórpia voz pois há tempos não gargalhava daquele jeito. Após o primeiro surto de risos outros vieram mais fáceis.
Ele parecia tragado pelo delírio.
- Ihuuu, a morte é linda! A morte é o ventilador debaixo do vestido branco da Marylin - Ah, que bagulho doido! – Ele gritava.
- Jimi, seu filho da puta, eu bem sei que tu traçava a Janis" Eu sei! Eu sempre soube! - Ele concluía gargalhando.
Repentinamente a morte ganha outra dimensão em sua mente, agora não era a sua única fixação, e ele retorna à cômoda e deslizando os dedos no fundo da gaveta retira o segundo pacau debaixo das cuecas descoradas. E de lá ganha a cozinha e novamente usa os fósforos e dá tragadas e as retem nos pulmões. E ele num desespero compulsivo o fuma todo, tragada por tragada, gargalhada por gargalhada.
- Ihuuuu, Fredinho! No meu tempo a "Marieta" não era tão boa assim" E outra; Os Beatles não acabaram por causa das brigas da Linda com a Ono. Mentira! É que John descobriu que a senhora Yoko Lennon o estava traindo com o galante McCartney – Gargalhava.
E sentia outras sensações como as dos seus pés não tocando o chão apesar de estarem fincados nele até á raiz. Ah, como era bom falar merda, ser livre e gargalhar. Novamente a brasa do cigarro queima os seus dedos e ele pensa como seria se pudesse escolher a sua morte. E ele imagina e delira, imagina e os efeitos da erva criam o surreal.
..... Morreria como um astro do rock. Um ídolo que agitaria em grande estilo o mundo das manchetes ao ser encontrado morto por uma camareira de quartos de hotel. Evidente, mais que o corpo de um astro seria o espírito que estaria ali, um fantasma a rir do pavor da serviçal. Ghost... lembram-se? E ele continuaria gargalhando ao ver o jeito da mulher apavorada diante seus olhos esbugalhados. E ela faria três vezes o sinal da cruz e ungiria a testa e os peitos flácidos por ter a meio metro de si duas garrafa vazias de vodka,russa, tombada e empapando parte do carpete vermelho. Aliás, astro uma pinóia, apenas um bêbado desgraçado que deixou em funcionamento um system de 2.000 dólares num último volume, e o pior, tocando a "Coming Back To Life" do Pink Floyd. Um baita azar pra pobre, justo para ela fã incondicional de Frank Sinatra e Tony Bennett. Ah, meu Deus! como ele gargalharia. Mas não quereria que as coisas parassem por ali. A festa em celebração existia, e sendo assim teria que continuar e ele gargalharia até contrair a barriga ao ver policiais e duas dezenas de paparazzi tomando de assalto a saguão do hotel diante os assustados olhares dos hóspedes que temeriam ser vítimas dum ataque de um barbudinho do Talibã. Quanta risada ele daria, e o seu ego ansiosamente aguardaria pelas manchetes do dia seguinte. E lá estaria ele estampado nos quatro cantos do mundo, comoção geral e um funeral tão concorrido que contaria com a presença de gente mais lendária que ele. Ali estariam Mick Jagger, Bono Vox, David Bowie e Robert Plant. Mas era pouco, queria mais, muito mais, então a sua morte seria a primeira capa na Rolling Stone - “O MUNDO LAMENTA! MEGA ASTRO MORRE DE OVERDOSE DE BEBIDAS E ROCK" - Prantearia a revista sob o abatimento de jovens do mundo todo.......
Enfim, era bom sonhar. Porém, mesmo sob o efeito da maconha sabia que a vida é mais pesadelo que quimera, e morrer desse jeito era nada mais que delírio, e ele não era um astro, e não haveria publicidade, e nem mesmo o sepultamento dum sujeito com as narinas afogadas pelo pó da cocaína ou de ácido como geralmente ocorre com a maioria dos grandes ídolos. Não, não! Desapareceria do mapa sob o som das guitarras selvagens do bom e velho rockinroll, e beberia, até transbordar o fígado, se é que ainda houvesse algum, e depois morreria em paz. Enfim, era o máximo que poderia fazer por si numa situação daquela.
E foi exatamente num quase delírio e em cumprimento da sentença que se dera foi que ele rumou à cozinha. Estava impressionado, pois a maconha instigara a sua fome e ele preparou um café forte e comeu os três últimos pãezinhos com margarina e creme de amendoim. Para ele, maconha, morte e falta de apetite, contrastavam. Depois do café da manhã providenciou baldes, água e sabão e outros produtos de limpeza e se preparou para fazer a melhor faxina da sua vida. Sentia-se disposto e forte como nunca, e também seria nojento morrer num lugar imundo, fétido, desleixado. E ele trampou duro, lavou, secou, lustrou e em quase quatro horas a sua casa cheirava limpeza. Depois de um bom banho, lá pras 13h foi que o efeito da maconha amenizou e não mais gargalhava. E quase sem a ingerência dela saiu de casa e estacionou seus sapatos na Lanchonete do Mané, para pegar um marmitex de feijoada. Mané o cumprimentou com certa cerimônia, pois há algum tempo ele não dava as caras por lá. Ele estava faminto, e aguardava a feitura da comida quando imaginou os milhares de pessoas que poderiam estar morrendo famintas naquele mesmo momento.
- Porra! o presidente deveria promulgar uma lei; É proibido morrer de bucho vazio - Disse num tom de contestação, balançando a cabeça em negação.
-Como? O que você disse? - Perguntou Mané, surpreso. Ele não havia notado o dono da lanchonete a metro e meio de si.
-Nada não Mané. Coisas aqui da minha cabeça - Respondeu sem graça.
Antes que o homem entregasse a feijoada ele pediu para que caprichassem na "espremidinha". Assim Mané o fez e ele pagou os 20 reais pela comida e retornou para casa com duas embalagens metálicas.
Já na cozinha consumiu em três longos goles o copo da "espremidinha" e depois lambeu os beiços ao degustar o almoço nas próprias embalagens, sem deixar sequer um grão de arroz. Terminado, lavou os talheres e acondicionou as embalagens e outros detritos em sacos de lixo e os colocou na calçada para que os lixeiros levassem. Ainda no portão olhou para os lados e não vendo ninguém soltou dois ou três flatos e voltou para o quarto e deitou-se; Tinha 60 minutos para um bom descanso. Eram 15 horas quando seguiu para o mercadinho e de la retornou com quatro garrafas de vodkas vagabundas. Deixou 50 reais no caixa do mercado e tão logo entrou em casa acomodou três garrafas na geladeira e sentando ao chão da sala abriu a primeira e serviu-se de uma dose dupla. Ao lado das pernas empilhou alguns dos seus Lps e escolheu o disco que iria ouvir. Não foi difícil; Resolveu que no derradeiro dia de sua vida seria justo o reconhecimento ao The Who, sua banda de coração. Passou disco por disco e separou um dos seus mais famosos - Who Next -. Devolveu para a estante os discos que não seriam ouvidos. Ele sabia que quando ligasse o amplificador deixaria seus vizinhos furiosos, pois o volume que a banda de Pete Townshend tocaria seria tão avassalador que seus próprios ouvidos protestariam
– Fodam-se os vizinhos! Vou explodir essa bagaça! - Praguejou irônico erguendo o dedo médio.
Aproveitou e retirou o plástico externo do disco e abrindo o álbum olhou detalhadamente para o encarte. Seus olhos se fixavam numa das fotos quando bateu um sentimento de perda; Moon e Entwistle riam um para o outro num dos ensaios da banda.
- Pena não estarem aqui pra voarmos nessa viagem - Disse num lamento ao erguer o copo num brinde para os amigos falecidos.
Depois engoliu o conteúdo do copo em outros três ou quatro goles e girou o potenciômetro do amplificador até atingir uma das últimas marcas. Tudo pronto, repousou o vinil no toca-discos. O pouso hidráulico do braço foi suave e a agulha deslizou e as primeiras sensações vieram quando o som abandonou as caixas num volume assustador: "Baba O'Riley" - "Bargain" - "Behind Blue Eyes" – espalhavam riffs e vocais inacreditáveis. Era o início da orgia e os níveis de adrenalina aumentaram quando Pete fez as bases e depois os solos de um rock efervescente onde um violino e o sintetizador análogo inovavam o som da banda. Ali naquele quarto/sala se dava o início, não o da brincadeira de um bêbado, mas o do fim da sua vida, talvez o único o caminho duma paz que tanto procurava.
As doses e as músicas se consumiam quando ao fim da primeira garrafa meditou e tentou compreender a morte. Completamente ébrio pensou nela e do jeito que ela se apossava e de como as pessoas reagiam. Gostaria que a morte fosse igual a um carro que roda toda a sua possibilidade e repentinamente pára com o motor fundido. Contudo, nada era como ele gostaria que fosse, e assim a morte poderia aportar sádica, vil, causar sofrimentos desnecessários assim como faz às vezes com doentes desenganados, como no câncer em estado avançado, onde a benevolência das doses de morfina diz que aquele sujeito poderia ter sofrido menos.
-Não, comigo não será assim, será do jeito que está sendo - Afirmou.
E a afirmação veio num instante que faixa reproduzida retumbava um dos maiores momentos do rock - “Won't Get Fooled Again" - Os nível de adrenalina à custa da guitarra arrepia o seu corpo magro e ele segue cambaleante para o centro da sala. Lá, bate os pés e ergue a garrafa acima da cabeça e entorna o líquido que se derrama nos seus cabelos
- Sim! Sou um campeão, o mais louco dos campeões!- Ele grita tropeçando em vogais e consoantes.
A vodka escorre pelo seu rosto e desce até ao peito onde ensopa parte da área frontal da camisa; Ele se sente um animal, e sendo animal não há a necessidade de discernimento. E ele persiste dançando e as pernas não se mantêm tão fortes que consigam suportar o próprio peso. Sem qualquer coordenação e como um aspirador de pó fora de controle ele traga doses de vodka com a mesma simplicidade que tomamos um copo de água para saciar a sede. Talvez a sua vida estivesse esvaindo pelo ralo, mas ele parecia não se dar conta. Todavia a bebida sempre cobra um preço e ele se manifestava na exaustão do corpo, onde as pernas parecem pesar toneladas. Caminha com dificuldades até a cama e lá se deixa cair pesadamente. No leito sente a falta de ar e depois a cabeça gira e náuseas se manifestam ao manter o olhar fixado num ponto do teto.
Não perdera completamente a razão, portanto sabia que enjôo sempre é prenúncio do vomito, e assim levantou-se apressado e esbarrando nas coisas atravessou poucos metros até chegar á porta da cozinha; A intenção era alcançar o banheiro. Não houve tempo. Ao abrir a porta o primeiro jato de vômito se deu ali, na soleira da porta da cozinha. A golfada empapa o peitoril da camisa dum líquido viscoso e que num cheiro acre chocava contra o chão como a queda duma cachoeira. Vieram outras contrações e ele se dobrou e grunhiu feito porco, porém não havia líquido, só espumas esbranquiçadas que pareciam singelas. Ele ofegava à cata do oxigênio quando limpou a baba num dos punhos da camisa branca.
-Maldito vômito! - Praguejou ao retornar bambeando para dentro da casa.
De passagem pela cozinha e num movimento ébrio puxou em falso a porta do refrigerador e o seu corpo em desequilíbrio foi ao chão. Praguejou. Tenta novamente a consegue destravá-la e retira de lá a nova garrafa e enche outro copo, e evita a náusea travando o sistema respiratório. Assim se dá e não mais sente o sabor da vodka e nem de nada, apenas algo de temperatura fria descendo pela garganta, queimando suas entranhas – “Melhor assim" – Conforma-se com cara imbecil.
Naquele instante o seu estado poderia ser considerado crítico quando sentiu a primeira sensação gélida percorrer o corpo. Logo após teve a impressão de um bafejo nas faces, assim como colocasse o rosto sobre a panela com água fervente. Ele sorri - "The wind of death?”- Todavia, mesmo se fosse o vento da morte ele não pretendia se deixar levar assim; Ainda era cedo.
- Calma dona morte tenha um pouco mais de consideração por mim!- Ele negocia.
Não seria necessário muito para aniquilá-lo de vez, ele sabia. – Há forma melhor de morrer? – A pergunta não é dita, é pensada e dirigida para um pingüim de porcelana que se mantém em cima da geladeira e ao lado de um espremedor manual de laranjas. E o pinguim apenas o olha com aquele mesmo olhar de anos, sem emoção, sem lágrimas, sem alegrias ou lamentos. Não há nada, apenas ele e o pingüim, um enfeite de porcelana ganhado há anos no jogo de argolas num parquinho de diversão que se instalou próximo dali. Ele permaneceu olhando para o pinguim e um sorriso incompreensível confirmava que não havia mágoa e nem cobranças.
Desolado ele retorna á sala, pousa a garrafa na mesinha de cabeceira e novamente desaba na cama por quase 10 minutos. Olhava para o teto, para as caixas e agora elas não rodam - Tenta sorrir - Com ele era assim, depois de passado o primeiro surto, o resto era apenas o resto. Ainda mirava o teto quando acreditou estar melhor e tentou até conseguir levantar-se e caminhar trôpego para onde esconde o seu maior tesouro; A imagem do grande amor da sua vida. E ele a pega. Não era a foto da ex-mulher ou de alguma piranha da Rua Augusta. Não, nada disso. Era a fotografia-capa do álbum “Quadrophenia"- um LP duplo, motivo da sua idolatria, o maior disco de rock de todos os tempos – E seus olhos bêbados agora lacrimejam e ele se recorda de quando comprou o LP na mesma Galeria do Rock.
Recorda que ao olhar a capa do disco questionou a imagem sombria e misteriosa dum garoto solitário sentado em cima duma Vespa. O que ele poderia estar fazendo em meio ao nevoeiro de Londres? Não sabia, portanto persistiu na capa do álbum, depois pagou a compra e abandonou a loja. Ainda no ônibus retirou o disco da sacola com o logo da loja e outra vez se questionou dos motivos da solidão e de tanta amargura.
Não, não sabia, mas hoje não necessita questionar, já sabe. O corpo bambeia e ele tenta firmar-se, e se equilibra com o álbum em mãos, depois retira os discos e os coloca no mecanismo de retenção dos discos.
As músicas se seguem, uma após outra - "I am the Sea" - The Real Me" - The Rock" - “Helpless Dancer” - “Bell Boy” – E vieram outras num mesmo volume destruidor e somente no intervalo de um disco para o outro é que ele se dá conta que na lá na rua o seu portão é agredido com murros e chutes. Era um som horrível, metálico, de folhas de zinco sendo espancada por sapatos de números 35, 40, 44, e sabem-se lá quantos mais. E ele ouvia o alarido e não compreendia o que diziam seus vizinhos furiosos e violentos.
- Cambada de filhos da puta! - Em resposta ele berrava bêbado e incompreensível. Naturalmente, jamais poderiam ouvi-lo. Ao som da nova música a selvageria dos vizinhos perde a importância
- Vão chutar os rabos de vossas mães! Ele xinga tropeçando nas palavras. Depois sorri satisfeito.
Sim! A morte, além de inexorável poderia ser uma ótima companheira. Portanto ele bebeu e dançou até desaparecer a última dose da garrafa. Aliás, aquilo não era dança, e ele apenas batia com fúria as ponteiras dos sapatos sociais contra o piso ante a pulsação do rock. E era engraçado vê-lo agredir seus sapatos de quinta enquanto os braços e as mãos solavam uma guitarra imaginária, e depois uma sua vã tentativa de imitar os mesmos pulos de Pete executava nos palcos. E não conseguindo abandonou os pulos e se concentrou ainda mais na bebida e curtia um inacreditável solo do contrabaixo de John, um cara que tocava baixo como se fosse guitarra, um gênio que fazia a música tomar o seu corpo, o corpo dum diabo entregando sua alma a preço de banana. Aos riffs somava-se a voz de Daltrey e as batidas de Moon, e a banda latejava o mais denso rock que se têm notícia, pra ele essência de liberdade. Ele jamais se sentiu assim tão livre. Ah, se os amigos pudessem estar com ele, agora. Amigos? Ele tinha esquecido; ele não tinha amigos. Tinha vizinhos chatos que chutavam e esmurravam o seu portão.
- Malditos filhos da puta! Quero que vocês se ferrem! - Ele rugia bêbado.
Talvez nem mais compreendesse o que falava.
E o pesadelo travestido de sonho dizia para ele que era bom estar ali e continuar assim. Dizia mais; Não tenha culpa, nem remorsos. Agora nem as pernas pareciam extensão de si, e se esbarravam e desequilibravam o seu corpo alto que tombava ao chão, uma pedra ao precipício. E lá no piso frio ele ria e com a língua pra fora da boca lambia ao as cerâmicas do chão relembrando as idiotices de Gilmour.
E ele persistia rindo e lambendo o piso quando - “Doctor Jimmy” tocou. Os riffs, a bateria e a voz esganiçada de Daltrey diziam para ele que ele era rei. Depois disseram que era um general dos tempos romanos, e ele empunha a guitarra imaginária como se fosse a mais poderosa espada e desferia golpes para os lados, depois abandona a arma e se apossa da garrafa e a ergue; era a cabeça do seu mais poderoso oponente, talvez o crânio de Santoro, o mais filho da puta de todos os vizinhos – Era a vitória e agora ele era um herói – Um herói que não recebia medalhas, pois a garrafa vazia não faz ninguém beber, e ele tinha que continuar bebendo.
E outra vez voltou á cozinha espalmando as mãos nas paredes, se escorando na geladeira.
-Ei garoto, você está indo bem! Vai morrer às pampas! Dizia para si. A voz soa incompreensível. E ele ri, o louco ri.
E ele continuou lá por uns bons minutos permitindo a penumbra banhar o seu ser, serpente trocando as peles bem debaixo dos seus olhos, tarde-cobra se esgueirando aos limites que se impõem na natureza. E a tarde acenava, se despedia e era doce e não negava os seus rastros e nem os murmúrios das suas tantas feridas.
Deslumbrado apenas manteve o olhar à janela enquanto tentava compreender o esplendor de algo tão majestoso e indecifrável - Por que somente agora ao se aproximar o fim é que fora dar conta de tanta grandiosidade? – Questionou-se - Os olhos estavam tão ébrios que persistiram embevecidos e sorriram ao se sentirem acariciados pelas sombras que consumiam o tempo lentamente. Sim, havia ali toda a poesia da morte que se consente, essa mesma que re retorna à vida e liberta a doçura dos amantes revelados ao fim da noite.
Sim, jamais haveria como negar, era pura sedução o ato de possessão. Era magnânimo o poder da noite subjugando o ocaso sem arrogância e num ato tão pleno de paixão assim como uma lágrima de mulher que se derruba por amor.
E o que seria ele comparado a tanta grandeza? Nada, simplesmente nada! Apenas um bêbado que se deixaria morrer ouvindo seus juvenis rock in roll, torcendo para não perturbar demasiadamente o sossêgo alheio - Forever Young! Lembram-se? Sim, ele se lembrava, mas não era mais um jovem e sim o ébrio que, entorpecido nas desilusões tomaria de assalto as vestes da tarde e se deixaria morrer sem queixas ou objeções. Não! Não haveria lamentos seus assim como não houve na poesia que sonhou e não soube escrever - Concluiu com circunspecção-
E agora a noite viera de dez e apoderava-se do todo e trazia consigo a irônica lembrança das contradições dos seus conceitos de outrora, dos absolutismos que sempre o fizeram repudiar o suicídio e aqueles que o tinham como rota final. Para ele, livra-se da própria vida constituia um ato vil e covarde praticado por aqueles que não encontram motivos que se justifiquem. Contudo, apesar da contradição, a partir daquele instante nada deveria interferir. Não havia espaço para culpas, medos e nem remorsos. Sim, que lhe afligisse na pele e retornasse a mesma sensação gélida que agora se apossava do seu corpo como se fosse ele parte dum iceberg.
Todavia o ranger dos dentes e o fremir do corpo não iriam impedir a sua volta à sala e para a sua banda. Seu corpo persistiu tilintando ao tentar e não consegue se erguer do chão. Nova tentativa e imprimiu força às pernas e ao não atingir seu objetivo girou o corpo lateralmente até se pegar de quatro, um Gilmour da vida que arrastava suas dores na direção da sala. E ele não ia só, com ele uma garrafa pela metade, vidro estocando o piso num compasso manco e impreciso. Ao alcançar a porta da sala ele sentia horríveis dores nos joelhos, e tenta levantar-se, porém não havia forças para impulsionar as pernas. Com os pensamentos confusos ele pretende resolver a situação e então espalma fortemente uma das mãos na parede e nela se apóia e impulsiona as pernas e conseguiu içar como um barco à meia vela.. Com as pernas semi dobradas ele se ajoelha rente à parede e estendendo o braço tenta alcançar com o indicador os dois dos botões na placa de interruptores. Foi necessária uma terceira tentativa para que as luzes se acendessem de vez.
Ah, como era belo o efeito da luz negra - Ele sorria com o efeito da outra, a estroboscópica que, conferia à sala um clima underground e depravado como num "inferninho"– E agora acesas elas permitiram a sua viagem, e ele viajou e aportou num instante do passado. Ele relembrou os amigos, as namoradas, os bailes e até pôde ver um copo de cuba libre no balcão de madeira de um bar provisório E revivendo o momento materializou pessoas de sua convivência. Era como se elas estivessem ali na sua frente, carne e osso. Marly continuava insinuante e com um gosto de cio nos lábios vermelhos e ordinários que beijara algumas vezes. Também relembrou a Neusinha e o seu pai carrancudo à espera dela na saída do baile, e o que reduzia drasticamente as suas chances com a garota perfumada e das pernas grossas. Nela jamais esquecerá o sorriso meigo e sincero que causava nele uma sensação de “É muita areia pro meu caminhão” Claro, a frase era um dos bordões da daquela década, pois o que havia era apenas um pai com um olhar de dobermann, sinalizando que a filha jamais seria pro bico dele - Admitiu ao levar Neusinha pra longe dos seus pensamentos – Livre da garota pôde rememorar alguém muito especial.
Seus olhos brilhavam ao vê-la à sua frente. O nome era Leila, e era com ela que sentia o coração acelerar. Garota legal, divertida, além de linda e gostosa, aliás, "Bolindosa" o cognome sugerido por seus amigos que queriam num único apelido incluir todos os atributos da garota - boa, linda, gostosa - E Leila, sem pai para esperá-la, dona de uma liberdade relativa, fato de exceção à época, seguramente era a garota certa pra ele. E eles se encontravam nos bailes de sábado e ficavam se olhando furtivamente, ela junto das amigas, e ele com os perversos companheiros, até o momento dos primeiros acordes de alguma música lenta e romântica. Então ele se dirigia até onde ela estava e a tirava para dançar. E eles dançavam e colavam os rostos e seus corpos, e se tocavam com tanto carinho e desejo que os olhos se cruzavam patéticos e apaixonados. E eles mal mexiam seus corpos sob os efeitos daquelas luzes onde a negra causava um efeito de fosforescência em roupas brancas, inclusive nos dentes que cintilavam azulados como peças de neon enquanto. Por outro, a estroboscópica piscava freneticamente criando a ilusão ótica de corpos estarem em movimentos incessantes. Sorriu triste dessa vez; Na época Leila fora de mudança pra Recife numa maldita transferência profissional do seu pai, um alto funcionário da petroleira estatal
Logo se esqueceu de Leila e se esforçou para relembrar outros fatos e detalhes quando, uma a uma as imagens foram se dissipando na sua mente. Foram embora os amigos, namoradas, e até o copo e o balcão do bar. Ele olhava para si e para os efeitos das luzes e elas fosforesciam em sua camisa um mesmo tom azulado e neon, exceto nos locais manchados pela bebida e vomito. Ele sorriu; O revolucionário ainda se mantinha alfinetado à camisa e tão fosforescido quanto ele. E ele olhava para o próprio corpo e a felicidade o tomava, era uma sensação de paz, assim, de estar num outro plano, numa outra vida. E ele persistia embevecido ao persistir olhando os efeitos que as luzes causavam em si quando fremiu descontrolado; Termicamente era uma sensação que o seu corpo estivesse dentro dum copo de água junto de oito pedras de gelo. Ele tremia tão frenético quando o coração latejou rápido e descompassado. Ele se assustou, podia sentir os latejamentos no céu da boca. O corpo se empreende num estado de êxtase, algo catártico, surreal, e o absurdo volume nas caixas não passava agora dum quase um murmúrio, sonoridade se tornou distante no momento que ela chegara - E ela se aportou soberana, trazendo o colapso ao corpo do homem, e uma dor tão devastadora que o obrigou a cuspir um resto de bebida que estava em sua boca. –
Sim, ela! Era a leal amiga. Não mentiram, nem ela, nem ele. O raio do enfarto atingiu o peito, em cheio, e ele tentou levar a garrafa à boca para um último gole, sem sucesso, pois a garrafa tombou junto com ele e se espatifou no chão lançando cacos irregulares e incolores para boa parte do piso. Fora a dor mais infame da sua vida. Por instantes ele sentiu algo rasgando o seu peito, a lâmina do estilete esquartejando sem dó, sem critérios, sem emoção.
Não havia mais nada quando o The Who o homenageou com a última faixa do Quadrophenia – "Love, Reign O’er Me” – Era a canção – "Um mendigo, um hipócrita. Amor reine sobre mim" – Implorava parte da letra.
No alto as luzes persistiam fosforescendo o rosto magro dum homem alto com a aparência semelhante a Ian Anderson, do Jethro Tull. No bolso direito da sua calça 160 reais e algumas moedas de centavos, um resto de herança sem herdeiros, No peito a mão espalmada repousava no lado superior esquerdo enquanto sob os seus dedos o broche de Che Guevara se consternava diante da complacência azulada duma falsa camisa neon.
No seu olhar parcialmente cerrado foi possível reconhecer o fim de uma vida. Um pouco mais abaixo os lábios numa tonalidade levemente arroxeada pareciam exibir um melancólico sorriso de quem aceitou sem contestação o termino da louca viagem. Mais que nunca ele era à tarde e também foi tragado.
Nos quatro cantos altos da sala as caixas permaneceram silenciosas. Ao lado da cama a estante de cinco divisões e os de mais de 400 volumes mantiveram-se unidos e perfilados lado a lado. No toca-discos um ruído eletrônico da eficiente tecnologia britânica fazia o braço retornar automaticamente à posição de origem. Ainda no seu prato o solitário lado B do disco dois se mantinha adormecido. Talvez o The Who fizesse o minuto de silêncio.
No chão a capa do "Quadrophenia" insistia na solitude do garoto da Vespa, e ele mais parecia perdido nas desilusões que propriamente ao denso nevoeiro da cidade de Londres. Também não havia a loucura dos cigarros contraventores e um system de 2.000 dólares, muito menos copeiras de quartos de hotéis, mas sim a sensação de limpeza e um bom odor de lavanda em que pese o cheiro azedo impregnado em sua camisa social. La fora um silêncio isento de chutes e murros enquanto no refrigerador a única garrafa de vodka permanecia intacta e solitária. Em cima dela o pingüim recebido como prêmio num parquinho de diversões persista impassível e com o mesmo olhar frívolo de antes.
Na casa nenhum som, mais existia o rock. Aliás, o rock existirá para sempre, pois o que se extingue é a vida, é o homem e as embarcações de si
Copirraiti24Julh2012
Veio China©
domingo, 22 de julho de 2012
Psicólatra, o book face para uma nova droga
Ela estava sentada à sua frente, e nem era pra estar ali, afinal, chegara
ás 19 horas e o doutor ainda analisava os detalhes do seu caso. Porém só foi
ele ter uma hora antes confirmado que recebera o resultado do exame para a mulher decidir de imediato: Doutor estou à caminho! – Era o resultado da
tomografia computadorizada do único filho, ainda pequeno. Claro, ele
lembra o que foi relatado por ela; parto trabalhoso, fora de hora, fora de tempo, era balzaquiana quando o guri
nasceu. Todavia ele a achava estranha, dona de contraste intrigante, mulher que, pela segunda vez visitava o consultório, desta vez sem a presença do filho. Estranhos também eram os seus cabelos
platinados de tintura, roupas que, num contraponto cinematográfico
cobriam seu corpo espetacular e o tailleur vermelho de atiçar aiatolás.
Momentaneamente o médico se desvia do exame e soergue os olhos que, rapidamente cruzaram com os dela. Talvez ao ser uma noite de estranhezas justificou-se o incomum o capuz que ela usava, e ele caia sobre as costas de tez clara de alguém que deveria ter 38, mas que não aparentava mais que 27 ou 28.
Por fim ele desvia o olhar do capuz tão vermelho quanto o tailleur e retorna para o papel. Persiste o silêncio.
-Doutor, não me poupe, é muito grave? – Atenta a folha do exame mesmo que longe ela irrompe a clausura estabelecida
-O que mãe? – O médico responde disperso, ainda na análise dos resultados apontados no papel.
-Ai doutor, que é isso?... não sou sua mãe!
-Sim, claro que não é minha senhora, apenas me referi à sua ligação afetiva com seu filho - Respondeu o doutor. Depois divagou, olhou para o nada e completou
- Há controvérsias nesse caso...
-Controvérsias sobre o meu filho? - A mulher questiona de olhos arregalados. Ela pareceu nervosa ao emendar:
- Pois saiba doutor, para mim não há qualquer controvérsia! Ele é meu filho... legítimo - Concluiu irritada
- Claro! Não foi sobre este fato a minha referência. Sei que ele é o seu filho! – Replicou com certo com enfado - "Que mulher idiota" - Ele pensou ao repassar rapidamente os olhos na figura feminina e voltar a se preocupar com o traço apontado na folha pericial.
Havia nele a preocupação científica e olhos inquietos se mantinham cravados no local, pois seria de bom tom que aquela anomalia não estivesse ali. Entretanto a mulher deveria estar viajando por outra galáxia, inclusive soberbava inconformismo ao cismar que o médico usava de entrelinhas para a lançar sobre sua dignidade a possível ilegitimidade do filho
-Pelo jeito que referiu, duvido que possa ter essa certeza, doutor! - Desaguou a sua contrariedade.
-Sim, e não tenho qualquer! - Exclama o médico. Porém ela pretendia passar á limpo a tal história.
-É certo, foi confuso, apesar que a culpa não foi minha, mas sim do laboratório - Ela disse e deu de ombros, pretensiosamente.
-Hã, como assim? - Definitivamente ele não entendia onde a mulher poderia chegar.
-Assim doutor.. Á época um maldito zum zum zum se esparramou entre as funcionárias do laboratório. Foi a faxineira de lá que me contou. Diziam que resultado do DNA do Huguinho dera negativo O senhor. não pode imaginar o que sofri, envolvida que fui numa rede de intrigas. A fofoca chegou aos ouvidos do meu marido que, antes já não acredita que o filho era dele, por conta dum ex-namorado que, descobrindo o número do telefone lá de casa, ligava desenfreadamente. Algumas vezes foi meu marido que atendeu, então o sujeito dizia que eu não prestava, que era meu amante, e essas calúnias todas....
-Poxa...que coisa! - O médico responde sem muito interesse.
- Sim doutor... me humilhei e fiz o exame, pois agora havia uma criança envolvida, e eu não criaria o menino sem um pai. Lembre-se doutor; "O matrimônio é a cova do amor". Portanto...sujeitei-me..
-Nossa, quem diria! - O médico diz de cabeça baixa e sem desgrudar os olhos do papel. - Depois levanta o olhar, e como para preencher o tempo, pergunta; - E como foi que isso foi acontecer?
-Bem doutor...é que um descarado de um médico da clínica me cantou num dos corredores enquanto meu marido se ausentou. Claro, nem dei bola pro escroto. E olha que era um médico muito bonito, mas talvez não sabendo lidar com a rejeição achou por bem criar o mexerico para alguma funcionária. Daí já viu né? Mas no fim tudo acabou em pizza assim como acaba entre os políticos, afinal vocês médicos são corporativistas, maracutaiam mas se acertam!
-Bem, moca, desculpe, mas não foi essa a minha intenção, jamais colocaria em suspeição a legitimidade paterna – Respondeu o médico, irritado dessa feita.
Sim, irritadiço, afinal nem ele sabia o porque dava ouvidos para aquela conversa desprovida de bom senso e pertinência. Claro, não havia dúvida, a mulher era uma anta, e o que tinha de gostosa haveria de burra - Pensou ao empurrar para o lado o exame da tomografia.
-O que, o que? Moça? Ainda mais essa?O senhor acaba de chamar-me de moça? Ah! Agora tenho certeza! Isso é retaliação da sua parte, já que entendi sua ironia com a colocação do "moça", viu doutor! – Ela devolve numa tonalidade irritada.
O médico, perplexo com sua conclusão, simplesmente crava o olhar nela. Afinal, como poderia existir gente sem noção alguma? Porém a cliente nem reparou em seu desencantamento, já que tinha outras coisas para serem ditas, e estas não poderiam esperar:
-Ta bom doutor, não me olhe desse jeito, eu confesso... Na época e bem antes do meu marido eu fui virgem até os 17. Conheci meu marido com 23 anos, porém ainda continuava inexperiente e sonhadora..
-Ai meu Cristo! Agora é que percebo que a tomografia que deveria estar em minha mesa deveria ser de outra pessoa– Respondeu irritado. Definitivamente aquela mulher não batia bem dos miolos.
-Éééé, nem me venha com essa doutor. Estou percebendo tudo! Vai que numa dessa as coisas dão certo e o senhor emplaca, não é?
-Emplacar? Emplacar o que garota? – .Ele devolve num tom elevado e nervoso.
O neurologista expelindo irritação por todos os poros levanta-se da cadeira executiva; A presença da daquela mulher jamais permitiria que ele se concentrasse. Atabalhoado deixa a perna esbarrar no papel à beirada da mesa que, desaba ao chão juntamente com sua paciência.
-Você pode ser mais específica com essa essa coisa do "dar certo"... “emplacar”? – Pergunta-lhe à queima roupa. Que diabos aquela mulher pretendia insinuar? Ele se questiona enquanto ela o olha com autoridade.
-Bem, ja que insiste eu digo! Primeiro o senhor flertou-me como se eu fosse uma mamãezinha abandonada e ansiosa por sexo. Se lhe desse confiança logo viria àquela conversinha do “Senta aqui no colinho do papai”
-Hã, você está louca? - Ele está estupefato.
-É sim, doutor. Não sou ingênua. Depois, percebendo que não dei atenção tentou uma cantada mais madura e tratou-me por “Senhora”. Ainda sem o resultado pretendido quis seduzir a ingênua mocinha que num passado distante liberou a “Layla” numa noite de drogas, e que me custou a virgindade. Maldita casa de swing! Eu tinha apenas 17 anos....17 anos... - Ela replicou em tom choroso, porém aela queria falar mais, muito mais:.
-Como viu que o golpe também não colou, agora e num ato vil e pedófilo vem com essa tua tremenda cara de pau tratar-me como "moça". Não nasci ontem, doutor! Certamente uma garotinha a quem pretende bolinar como bolinaria qualquer Chapéuzinho Vermelho se oportunidades lhe fossem dadas, apenas as intenções de um Lobo Mau devasso, assim como dá conta o livro – Concluiu vulgarmente ao cruzar as pernas no alto, deixando à mostra o sexo. Surpreendentemente ela não usava calcinha e estava bem depilada.
O doutor fez que não percebeu a “Layla” à mostra. Porém tinha bagagem suficiente para ver nela o tipo de pessoa que era. Não era psicólogo ou psiquiatra apesar de também lidar com mentes humanas, todavia em outro patamar. Portanto não demorou para perceber que a mãe do jovem Huguinho era uma dessas criaturas esquizofrênicas e altamente globalizadas. Dessas que criam vínculos psiconeuróticos fortíssimos com ídolos ou com algo que estes leguem á humanidade. E ela era prova cabal, pois em poucas cenas captou nela identificações com mais diversas personalidades da arte. E elas iam de Charles Perrault, passavam por Eric Clapton e terminavam em Sharon Stone. Ainda olhou sutilmente para “Layla” quando se perguntou se a culpa de tanta alienação era da responsabilidade dos meios de comunicação de massa – Pensou sobre a alienação da mulher por alguns instantes e saiu-se com a certeza que ele era o maior dos culpados –
Fodam-se! Ele bradou heroicamente diante do belíssimo ser vermelho encarnado.
Foi então que, desiludido com aquilo tudo abriu a gaveta e deitou sobre o tampo de vidro da mesa uma pequena carreira de um pó branco. Parecia talco, porém não era. E foi assim que repousou a face sobre a mesa enfiando um diminuto canudo numa de suas narinas e cuidadosamente posicionou-o sobre o pó. Depois inspirou fortemente. Não é necessário lembrar que a cena lembrava a ação dum potente aspirador de pó.
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Provavelmente estarão se perguntando: Foi assim que terminou?
Não, não foi.
Antes de cheirar a cocaína simplesmente abriu a porta e enxotou a mulher. Liberto cheirou o pó com o mesmo entusiasmo que um pai de primeira água se orgulha do pingulim do seu bebê. Depois de chapado meditou como Platão e pousando tão sábio como Salomão disse para um gravador de mão posicionado ao lado do notebook, um pequeno registrador de vozes que gravam os andamentos dos casos clínicos para que se acompanhe a evolução:
-Caso UM, SETE, ZERO....Se for pra continuar lidando com esquipáticos, psicóticos, ou gente da laia que fala com os pés fincados em sobrancelhas louras, prefiro desistir da neurologia e passar meus dias como fazem as pessoas do Ficci Buk. Claro, talvez eu não seja a máxima quando se fala em ser cordato, mas sei que há e sempre haverá exceções, porém parece-me que é lá que a soberba mostra as garras de dá conta de quanto há de insanidade nas pessoas e de como elas conseguem pincelar o mundo numa loucura encantada, onde a futilidade e a dispersão imperam naquilo que eles imaginam ser fundamental a vida: VIRTUALIDADE -
Enfim, findada a gravação guardou o pequeno aparelho na última gaveta da esquerda, curvou o corpo e pegou rente ao chão o resultado do Huguinho, e definitivamente as coisas não andavam bem para o garoto. Depois e ainda com o papel em mãos fincou olhares pelas paredes e nelas os vários diplomas além de outros que atestavam a sua presença em cursos de primeira linha, óbvio, testemunhas de um profissional gabaritado. Sorriu levemente para eles e com o resultado do exame limpou meticulosamente um teimoso restinho do pó da narina direita – E para findar o expediente olhou para o Rolex e percebeu que estava atrasado: Às 21 horas teria compromisso; um pagode organizado pelo bom da boca do Morro do Alemão. O show seria abrilhantado por Adarlindo Cruz e Sisiane Araujo, além daquilo que se prometia o convite; muita carne de churrasco bom e a regionalidade das breja da Itaipava, dando o o direito, inclusive, a duas cabrochas por cabeça.
Copirraiti 22Jul2012
Véio China©
Por fim ele desvia o olhar do capuz tão vermelho quanto o tailleur e retorna para o papel. Persiste o silêncio.
-Doutor, não me poupe, é muito grave? – Atenta a folha do exame mesmo que longe ela irrompe a clausura estabelecida
-O que mãe? – O médico responde disperso, ainda na análise dos resultados apontados no papel.
-Ai doutor, que é isso?... não sou sua mãe!
-Sim, claro que não é minha senhora, apenas me referi à sua ligação afetiva com seu filho - Respondeu o doutor. Depois divagou, olhou para o nada e completou
- Há controvérsias nesse caso...
-Controvérsias sobre o meu filho? - A mulher questiona de olhos arregalados. Ela pareceu nervosa ao emendar:
- Pois saiba doutor, para mim não há qualquer controvérsia! Ele é meu filho... legítimo - Concluiu irritada
- Claro! Não foi sobre este fato a minha referência. Sei que ele é o seu filho! – Replicou com certo com enfado - "Que mulher idiota" - Ele pensou ao repassar rapidamente os olhos na figura feminina e voltar a se preocupar com o traço apontado na folha pericial.
Havia nele a preocupação científica e olhos inquietos se mantinham cravados no local, pois seria de bom tom que aquela anomalia não estivesse ali. Entretanto a mulher deveria estar viajando por outra galáxia, inclusive soberbava inconformismo ao cismar que o médico usava de entrelinhas para a lançar sobre sua dignidade a possível ilegitimidade do filho
-Pelo jeito que referiu, duvido que possa ter essa certeza, doutor! - Desaguou a sua contrariedade.
-Sim, e não tenho qualquer! - Exclama o médico. Porém ela pretendia passar á limpo a tal história.
-É certo, foi confuso, apesar que a culpa não foi minha, mas sim do laboratório - Ela disse e deu de ombros, pretensiosamente.
-Hã, como assim? - Definitivamente ele não entendia onde a mulher poderia chegar.
-Assim doutor.. Á época um maldito zum zum zum se esparramou entre as funcionárias do laboratório. Foi a faxineira de lá que me contou. Diziam que resultado do DNA do Huguinho dera negativo O senhor. não pode imaginar o que sofri, envolvida que fui numa rede de intrigas. A fofoca chegou aos ouvidos do meu marido que, antes já não acredita que o filho era dele, por conta dum ex-namorado que, descobrindo o número do telefone lá de casa, ligava desenfreadamente. Algumas vezes foi meu marido que atendeu, então o sujeito dizia que eu não prestava, que era meu amante, e essas calúnias todas....
-Poxa...que coisa! - O médico responde sem muito interesse.
- Sim doutor... me humilhei e fiz o exame, pois agora havia uma criança envolvida, e eu não criaria o menino sem um pai. Lembre-se doutor; "O matrimônio é a cova do amor". Portanto...sujeitei-me..
-Nossa, quem diria! - O médico diz de cabeça baixa e sem desgrudar os olhos do papel. - Depois levanta o olhar, e como para preencher o tempo, pergunta; - E como foi que isso foi acontecer?
-Bem doutor...é que um descarado de um médico da clínica me cantou num dos corredores enquanto meu marido se ausentou. Claro, nem dei bola pro escroto. E olha que era um médico muito bonito, mas talvez não sabendo lidar com a rejeição achou por bem criar o mexerico para alguma funcionária. Daí já viu né? Mas no fim tudo acabou em pizza assim como acaba entre os políticos, afinal vocês médicos são corporativistas, maracutaiam mas se acertam!
-Bem, moca, desculpe, mas não foi essa a minha intenção, jamais colocaria em suspeição a legitimidade paterna – Respondeu o médico, irritado dessa feita.
Sim, irritadiço, afinal nem ele sabia o porque dava ouvidos para aquela conversa desprovida de bom senso e pertinência. Claro, não havia dúvida, a mulher era uma anta, e o que tinha de gostosa haveria de burra - Pensou ao empurrar para o lado o exame da tomografia.
-O que, o que? Moça? Ainda mais essa?O senhor acaba de chamar-me de moça? Ah! Agora tenho certeza! Isso é retaliação da sua parte, já que entendi sua ironia com a colocação do "moça", viu doutor! – Ela devolve numa tonalidade irritada.
O médico, perplexo com sua conclusão, simplesmente crava o olhar nela. Afinal, como poderia existir gente sem noção alguma? Porém a cliente nem reparou em seu desencantamento, já que tinha outras coisas para serem ditas, e estas não poderiam esperar:
-Ta bom doutor, não me olhe desse jeito, eu confesso... Na época e bem antes do meu marido eu fui virgem até os 17. Conheci meu marido com 23 anos, porém ainda continuava inexperiente e sonhadora..
-Ai meu Cristo! Agora é que percebo que a tomografia que deveria estar em minha mesa deveria ser de outra pessoa– Respondeu irritado. Definitivamente aquela mulher não batia bem dos miolos.
-Éééé, nem me venha com essa doutor. Estou percebendo tudo! Vai que numa dessa as coisas dão certo e o senhor emplaca, não é?
-Emplacar? Emplacar o que garota? – .Ele devolve num tom elevado e nervoso.
O neurologista expelindo irritação por todos os poros levanta-se da cadeira executiva; A presença da daquela mulher jamais permitiria que ele se concentrasse. Atabalhoado deixa a perna esbarrar no papel à beirada da mesa que, desaba ao chão juntamente com sua paciência.
-Você pode ser mais específica com essa essa coisa do "dar certo"... “emplacar”? – Pergunta-lhe à queima roupa. Que diabos aquela mulher pretendia insinuar? Ele se questiona enquanto ela o olha com autoridade.
-Bem, ja que insiste eu digo! Primeiro o senhor flertou-me como se eu fosse uma mamãezinha abandonada e ansiosa por sexo. Se lhe desse confiança logo viria àquela conversinha do “Senta aqui no colinho do papai”
-Hã, você está louca? - Ele está estupefato.
-É sim, doutor. Não sou ingênua. Depois, percebendo que não dei atenção tentou uma cantada mais madura e tratou-me por “Senhora”. Ainda sem o resultado pretendido quis seduzir a ingênua mocinha que num passado distante liberou a “Layla” numa noite de drogas, e que me custou a virgindade. Maldita casa de swing! Eu tinha apenas 17 anos....17 anos... - Ela replicou em tom choroso, porém aela queria falar mais, muito mais:.
-Como viu que o golpe também não colou, agora e num ato vil e pedófilo vem com essa tua tremenda cara de pau tratar-me como "moça". Não nasci ontem, doutor! Certamente uma garotinha a quem pretende bolinar como bolinaria qualquer Chapéuzinho Vermelho se oportunidades lhe fossem dadas, apenas as intenções de um Lobo Mau devasso, assim como dá conta o livro – Concluiu vulgarmente ao cruzar as pernas no alto, deixando à mostra o sexo. Surpreendentemente ela não usava calcinha e estava bem depilada.
O doutor fez que não percebeu a “Layla” à mostra. Porém tinha bagagem suficiente para ver nela o tipo de pessoa que era. Não era psicólogo ou psiquiatra apesar de também lidar com mentes humanas, todavia em outro patamar. Portanto não demorou para perceber que a mãe do jovem Huguinho era uma dessas criaturas esquizofrênicas e altamente globalizadas. Dessas que criam vínculos psiconeuróticos fortíssimos com ídolos ou com algo que estes leguem á humanidade. E ela era prova cabal, pois em poucas cenas captou nela identificações com mais diversas personalidades da arte. E elas iam de Charles Perrault, passavam por Eric Clapton e terminavam em Sharon Stone. Ainda olhou sutilmente para “Layla” quando se perguntou se a culpa de tanta alienação era da responsabilidade dos meios de comunicação de massa – Pensou sobre a alienação da mulher por alguns instantes e saiu-se com a certeza que ele era o maior dos culpados –
Fodam-se! Ele bradou heroicamente diante do belíssimo ser vermelho encarnado.
Foi então que, desiludido com aquilo tudo abriu a gaveta e deitou sobre o tampo de vidro da mesa uma pequena carreira de um pó branco. Parecia talco, porém não era. E foi assim que repousou a face sobre a mesa enfiando um diminuto canudo numa de suas narinas e cuidadosamente posicionou-o sobre o pó. Depois inspirou fortemente. Não é necessário lembrar que a cena lembrava a ação dum potente aspirador de pó.
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Provavelmente estarão se perguntando: Foi assim que terminou?
Não, não foi.
Antes de cheirar a cocaína simplesmente abriu a porta e enxotou a mulher. Liberto cheirou o pó com o mesmo entusiasmo que um pai de primeira água se orgulha do pingulim do seu bebê. Depois de chapado meditou como Platão e pousando tão sábio como Salomão disse para um gravador de mão posicionado ao lado do notebook, um pequeno registrador de vozes que gravam os andamentos dos casos clínicos para que se acompanhe a evolução:
-Caso UM, SETE, ZERO....Se for pra continuar lidando com esquipáticos, psicóticos, ou gente da laia que fala com os pés fincados em sobrancelhas louras, prefiro desistir da neurologia e passar meus dias como fazem as pessoas do Ficci Buk. Claro, talvez eu não seja a máxima quando se fala em ser cordato, mas sei que há e sempre haverá exceções, porém parece-me que é lá que a soberba mostra as garras de dá conta de quanto há de insanidade nas pessoas e de como elas conseguem pincelar o mundo numa loucura encantada, onde a futilidade e a dispersão imperam naquilo que eles imaginam ser fundamental a vida: VIRTUALIDADE -
Enfim, findada a gravação guardou o pequeno aparelho na última gaveta da esquerda, curvou o corpo e pegou rente ao chão o resultado do Huguinho, e definitivamente as coisas não andavam bem para o garoto. Depois e ainda com o papel em mãos fincou olhares pelas paredes e nelas os vários diplomas além de outros que atestavam a sua presença em cursos de primeira linha, óbvio, testemunhas de um profissional gabaritado. Sorriu levemente para eles e com o resultado do exame limpou meticulosamente um teimoso restinho do pó da narina direita – E para findar o expediente olhou para o Rolex e percebeu que estava atrasado: Às 21 horas teria compromisso; um pagode organizado pelo bom da boca do Morro do Alemão. O show seria abrilhantado por Adarlindo Cruz e Sisiane Araujo, além daquilo que se prometia o convite; muita carne de churrasco bom e a regionalidade das breja da Itaipava, dando o o direito, inclusive, a duas cabrochas por cabeça.
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