sexta-feira, 9 de março de 2007

Um velho que não se deixa pegar.



A vida se torna agressiva na velhice, como se conspirasse contra todo processo de normalidade biológica, anos a fio.
E conspira contra todos os velhos, principalmente com os de fala pausada, de frases imprecisas, pernas trêmulase e movimentos desconexos. Hostiliza-os, agride-os e é implacável com os seus corpos e na deterioração lenta e progressiva da função dos seus orgãos. Mas tão inquestionável quanto morrer é o nascer, então há de se partir para que outros tenham a oportunidade de chegar. E, já que a partida é inevitável, que tentemos ao menos ir da maneira mais digna e normal possível.
E a normalidade não se constitui de regras ou padrões pré-definidos e sim naquilo que nos faça bem e nao nos torne infeliz
E é bom envelhecermos, fazendo-nos compreender, sendo compreendidos e acompanhados pelos bons amigos e pela dignidade de haver conseguido atravessar o caminho tão longo e árduo. Envelhecermos em nossas casas, mesmo que sós, urinando de 7 a 10 vezes por dia e, engolido por dois comprimidos de Atenolol. Envelhecermos com estirpe, com um notebook no quatro e a Playboy debaixo da cama. Envelhecermos com um certo estilo, jogando damas na pracinha da bibioteca.
Envelhecermos com classe, sempre, exalando o ar da modernidade, enquadrando, deixando-se enquadrar e, quem sabe até, acompanhado por uma loira de peitos redondos e bunda empinada e com idade de ser sua neta. Envelhecermos também com os vinhos, cervejas e conversas fiadas, jogadas fora com amigos de bar. Há algum problema nisso?
Acredito que não.
Enfim, envelhecermos bravamente tal qual os indômitos heróis, como se fossemos um Don Quixote, um Lancelot, um Cassius Clay. Envelhecermos dando roles por aí e pitando "um" se for necessário. Envelhecermos protestando, empunhando bandeiras contra aqueles que nos oprimem e agridem a nossa cidadania. Envelhecermos e não nos deixarmos pegar (sempre querem nos pegar) ou, no pior das hipóteses, envelhecermos embriagados e até o apagar da consciência numa festa andrógina e de alguns garotos insanos mas legais. Envelhecermos na glória, na missão cumprida da velhice normal, cercado de filhos, assistido por um plano-saúde quitado até a última prestação ou, infrlizmente, num posto de saúde ou na fila do INSS ( se der tempo).
Então que envelheçamos! Envelheçamos ricos e milionários, num caixão de 50 salários, ou pobres, miseráveis, largados na dura realidade das pontes e dos viadutos, em barracos de madeiras ou rastejando em casas de papelão. Que envelheçamos no rosto sulcado, vincado em expressões que hoje deprimem mas que foram vibrantes um dia. E pra esses, que o envelhecer nunca os deixe esquecer que a crueza da vida e as chances que nunca chegaram só foi o transitório entre o começo e o fim, a vida e a morte.
E cada um envelhe ao seu modo e ao meu. E envelheço aqui, a cada dia, cada hora, cada segundo, nesse mundo hostil, divertido, perdido, surrado, surrando, espanando o pó de de alguma literatura, respirando o mesmo ar desses garotos espertos e meninas safadas, que me invadem, me tomam, me divertem e me excitam.
E eu envelheço no cotidiano, no rodar dos ponteiros que avisam que o meu cronômetro biológico há muito já foi disparado, e que eu continue lutando sempe e, que sobreviva ao leão de cada dia, que ruge, que mostra as garras, desfilas os dentes, mas sei, e eu não me iludo, um dia há me pegar.
Apenas isso. E eu me olho no olho e percebo-ne refletido prlo espelho da vida e constato que o brilho já não reluz como antigamente. Reparo na pele e não há a mesma textura e oleosidade de outrora. E feição, um tanto pálida, começa a não dar conta do cansaço. E assim, eu percebo estar envelhecendo, sem hostilidade ainda mas, envelhecendo.

Um comentário:

Guilherme disse...

Achei seu blog, Véio. Massa, cara.