segunda-feira, 21 de julho de 2008

Bêbados conversam com Deus



Ele tentava livrar-se de si, desesperadamente. E quanto mais se debatia, mais viá-se alçado ao fundo, numa descida vertiginosa. E tudo lhe parecia surreal e ele nem podia se dar conta se era sonho, pesadelo, ou mesmo, realidade. Seus pulmões já davam à falta de ar. Na louca descida, pareceu ter visto salamandras, sereias e até o palhaço Piolim. " Isso só pode ser um pesadêlo" - tentava se convencer - Só isso justificaria o terror do qual se via refém. Ainda de posse do seu último ar, pareceu dar-se por vencido e então questionou não se sabe à quem:

-Vais me deixar matar a mim? – A frase, balbuciada, apesar de difícil assimilação, foi ouvida. Provavelmente dialogava com Deus

Birinha, seu amigo de porre, também um tanto alterado, sentado ao seu lado numa mesa de Bar, percebeu que o amigo, momentaneamente perdera os sentidos e entrara numa epécie de transe. Com se fosse possível resolver a questão do amigo, interferiu:

-Sabe o que é, Astolfo? É que você é demasiadamente permissivo. Quando as coisas estão feias pro seu lado, geralmente você foge de si mesmo –

Astolfo, acordado pelo colega se deu conta que havia tido um pesadelo, ali mesmo, sentado na cadeira. Certamente o teor alcoólico que corria em suas veias era provavelmente quinze vezes superior ao recomendado pelo Ministério da Saúde. Mas como isso não lhe fazia a menor diferença, Astolfo tratou de voltar ao mundo real e das luminárias sobre as mesas de bar.

-Cento e vinte reais – Comunicou o garçom com as comandas em mãos e diante daquela imensidão vazia de garrafas de cervejas, copos de caipirinhas, amendoins torrados e frangos à passarinho.

- O que? Cento e vinte reais? – Horrorizou-se Astolfo enquanto tentava conferir os papéis que caqiam das suas mãos.

Novamente Astolfo pareceu cair num profundo sono e voltou à debater-se. Sua respiração estava como antes; um tanto ofegante,forçada, que fazia rarear o ar que deveria abastecer os seus velhos e cansados pulmões. Ele permanecia com olhos fechados e da sua boca, aberta, escorria um filete de baba, espesso, nojento e esbranquiçado. Os lábios tremeram e então a sua voz, mole e bêbada, questionou-se outra vez:

-Vais me deixar matar a mim? – Ele recomeçava de onde parara um dos seus infindáveis diálogos com o Todo Poderoso.

Birinha, ao seu lado, apenas sorriu. Sorriu como um bêbado acostumado. E um tanto capenga, mas ainda discernindo o valor do dinheiro, pagou a conta e sumiu.

2 comentários:

alvarêz dewïzqe disse...

e O melhor da biritagem é o esquecimento envolvido durante e após a trama.

Sandra disse...
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