terça-feira, 21 de junho de 2011

Uma trepada dos infernos

Acordei de sobressalto. Minha cama ardia. Como era possível? Estava num chalé à beira lago, São Joaquim, Rio Grande do Sul.
Os termômetros previram 3 graus negativos praquela madrugada e talvez estivesse fazendo mais frio de que afirmava a previsão. Com o corpo em brasas procuro o interruptor do abajur. Encontro, aperto e surge a tênue claridade de uma lâmpada 20 w de tom azulado. A parca luminosidade clareia parte dos móveis antigos que decoravam aquele chalé alugado. Alguma coisa sombria e tenebrosa escorre no lugar sem que eu saiba exatamente o que fosse ou porque era. Firmo os olhos na direção de cada peça do mobiliário e percebo os contornos de um Buda que se acomoda na prateleira de uma pequena estante. Ele é aterrorizador. Evidente, Budas não são aterrorizadores, mas aquele em especial, era. Eu podia distinguir claramente os contornos rechonchudos da divindade de mais ou menos 30 centímetros de altura e outros tantos de circunferência. Ele me incomoda, então desvio o olhar e me atenho no celular que repousa na mesinha de cabeceira junto ao abajur. Ligo-o; 3:00 hrs. da manhã, indica.

Com o corpo ainda em chamas jogo para fora da cama os três cobertores que me agasalhavam e me levanto. Dirijo-me à janela onde pequenas camadas de gelo grudam nas partes externas das vidraças. La fora o breu da noite e os raios que iluminam o quarto não me trazem qualquer interesse. Talvez se houvesse alguns lobos uivando ansiosamente a fim de sentir o gosto da minha carne, me sentisse melhor. Todavia não existiam lobos em São Joaquim, e sim cãos indefesos e vadios com tanto frio quanto os turistas e seus agasalhos multicoloridos. Turistas que, diferentes de mim vasculhavam cada centímetro daquela cidade como se estivessem no quintal de suas casas. Entediado saio do quarto e sigo em direção à pequena sala, anexa. Ali um cheiro forte e ácido impregna o ar sem que possa saber onde se origina. Um novo trovejar e a  claridade dos raios iluminam outra parte da sala. Foi então que eu o vi.

-Vieil homme, pourquoi avez-vous quitté le lit? – Fala-me uma voz um pouco grave, porém com entonação feminina.

Por sorte e à custa de uma falecida avó francesa eu consigo entender o que dissera.
Ela queria saber o porquê de ter-me saído do leito. Atônito e sem muito entender novamente os trovões e raios proporcionam uma luminosidade tão intensa que é o suficiente para que eu o distinga perfeitamente. Ali sentada na poltrona de frente às esquadrias da sala eu encontro nada mais, nada menos que o Diabo. Aliás, mais que um diabo. Um diabo fêmea!

-Avez-vous peur, ma chère? – Ela pergunta.

Desta feita o tom de sua voz soa um pouco mais feminina. Feminina e um tanto sensual. Claro, eu estava apreensivo, porém, machos não devem ter medo de mulheres, mesmo que sendo diabas.

-Não não, meu amor! Medo nenhum! - Respondi tropeçando na língua. Não iria entregar-me à sua intenção de me amedrontar.

-Oui! De ce que je vois, eux aussi, un galant homme - Ela replica.

Eu não sabia o motivo, mas ela me tomava por um homem galanteador. Não que eu não fosse, mas jamais imaginei sê-lo com um ser das profundezas
Repentinamente ela se levanta e eu estremeço. A diaba devia ter o tamanho de um pivô de basquete, algo próximo ou maior que 2 metros de altura. O seu corpo era integralmente vermelho, da cor de um sangue vivo. Ela se mantinha nua da cintura para cima e ostentava um par de seios fenomenal, pra não dizer satânico. Abaixo dos quadris as longas e perfeitas pernas deixavam à mostra, ao centro, um pequeno triângulo, uma minúscula calcinha em tule, decorada nas extremidades com delicadas rendas, todos no mesmo  tom carmim.
A visão inusitada e voluptuosa me excita e eu não consigo desgrudar os olhos nela. Eu jamais conseguiria imaginar-me hipnotizado por algum “coisa ruim”. Mas, era isso o que ocorria.

Novos raios e agora eu percebo claramente o seu rosto e paradoxalmente sua feição é angelical apesar da coloração grená e dos pequenos chifres que afloram na cabeça. O diabo vem em minha direção. A sala, agora totalmente clara diante de raios que parecem ter a intenção que aquilo jamais termine.

O meu pavor se faz latente quando ela me pega pelas laterais da cabeça e com mãos fortes e ágeis e leva a leva na direção dos seus protuberantes mamilos

- Suck, maintenant! – Ela me ordena.

A voz soa magnânima e eu não tenho como desobedecê-la, e nem há a vontade para que isso ocorra.
O mamilo penetra em minha boca e eu o sugo com vontade. Ela murmura algo com “Ai, que gostoso!” enquanto eu chupo aquele bico como se fosse um bebê. Eu me sinto estranho, afinal com o corpo ereto e até ao ponto de minha cabeça correspondiam à altura dos seus peitos. Eu sugava com o rosto virado para o alto para ver a sua expressão quando que, com certa rudeza ela arranca o mamilo de minha boca e a leva até o outro. Ao mínimo toque da minha língua, o bico enrijece.

-De moi! - Ela grita. Ela quer ser possuída.

E agora me puxa pela gola do pijama flanelado, atravessando a sala e indo na direção da cama. Ao jogar-se nela eu vou junto com seu corpo. Estendida ali ela geme e me fala impropérios e xinga de todos os nomes possíveis. Eu distingo perfeitamente seus palavrões, “filha da puta” “gigolo” “cadelo” e outros adjetivos enquanto se liberta da calcinha num único puxão. Eu estou seduzido e em brasas e talvez meu corpo fosse capaz de fritar filés de dois dedos de altura em questão de segundos.
Era tudo tão louco, insano quando suas enormes mãos se postaram atrás de minha nádegas e me trazem violentamente para dentro dela.

-Aiiiiiiiiiiiiiiiii combien c'est merveilleux! – Ela urra ao sentir o meu pau se aprofundar em sua vagina. O seu corpo freme por completo e eu me sinto como se fosse um elevador de cargas ali em cima do seu ventre, ora subindo, ora descendo, de acordo com a volúpia dos seus desejos e movimentos.

-Ohhhhhhhhhhh! – Ele se contorce num gozo satânico. Era a consumação do ato, aliás, do ato dela. Eu seria capaz de jurar que aquela diaba sofria de gozo precoce já que unicamente ela gozou.

Depois disso e com cara de satisfeita puxou um cigarro dentro do meu Malrboro e o acendeu com a ponta de um dos dedos e deu uma longa baforada. Incrivelmente ela estava plena e satisfeita. Na face, claro, aquele sorriso unicamente destinados aos diabólicos.
Com u pau em chamas e sem gozar limpei aquele líquido esverdeado que se desprendera dela. Talvez fosse sugestão, mas podia jurar que o cheiro desprendido dele era algo parecido com o perfume Anais Anais.

O que me foi uma surpresa por não supor que demônios poderiam cheirar tão bem, ou mesmo que mantivessem relações sexuais.
Um pouco mais tranqüilo deixei-me rolar para o lado e sentei na cama com as costas voltadas para a cabeceira. Inacreditavelmente eu não sentia mais o medo e apenas um desconforto com aquela temperatura. Igualmente retirei um cigarro do maço, acendi com isqueiro e dei uma longa tragada. A diaba completamente silenciosa parecia não querer muita conversa. Eu, com intuito de não me sentir constrangido tentava puxar prosa.

- Então.,..Não me diga! Os diabos são franceses?– Eu tentava questioná-la com o mais idiota dos meus sorrisos. Sua manifestação foi inequívoca. Abismado, estava ali outra coisa que eu jamais poderia imaginar; Diabos eram poliglotas.

-Oui! Autant que Dieu est brésilien! – Devolveu-me a queima roupa, literalmente.

Eu a olhei perplexo. Bati rapidamente as mãos na pequena chama que escapulia pelo bolso do pijama e continuamos tragando nossos cigarros de brasas confortáveis; Elas se sentiam em casa. Vez por outra eu arriscava um rabo de olho e via o contorno daqueles seios fantásticos e das pernas que enlouqueceriam qualquer santo do pau oco. Por alguns instantes ela fechou os olhos e se voltou pra dentro de si como se estivesse em louvor. Talvez esse mundo de crenças, fanatismos, santidades e demônios fosse demasiadamente globalizado e ela conseguia interagir com Deus, de alguma forma. Eu jamais saberia.

Assim que terminei o meu cigarro eu acendi outro na brasa do anterior enquanto ela amassava a sua bituca  num cinzeiro de louça. Ela olhou pra mim e pela primeira vez sorriu, docemente, e o que me foi um espanto pois jamais imaginei coisas ternas partindo deles. Em seguida ela retorna para a sua meditação enquanto eu fico a pensar na razão de tudo aquilo.
Talvez eu houvesse morrido e não tinha sido notificado do meu passamento. Ou talvez ainda eu estivesse sofrendo de alguma síndrome, delírios, convulsões. Todavia era demasiadamente quente e real para deixar de ser verdadeiro. Novamente olhei para os seus seios e os finíssimos pentelhos avermelhados acomodados logo abaixo do seu ventre, e sorri. Provavelmente o “coisa ruim” pretendesse a minha alma e pensasse em alguma proposta em que pouco cedesse.

Desviei dos peitos e das pernas e continuei olhando pra ela e pra sua prece silenciosa. Talvez, se real fosse e retornada do seu transe ela quisesse me possuir, outra vez. Portanto, como com diabos jamais se brinca e eu tinha que me manter tento.
Porém, existia a real possibilidade de que não fosse nada daquilo e eu estivesse excessivamente alcoolizado, afinal, a garrafa de vodca permanecia vazia em cima da estante, próxima à hediondez do Buda. Afinal, quem poderia me garantir que eu não estivesse tendo problemas com distúrbios mentais ou mesmo transtornos com os eventos do sono?

Definitivamente eu não sabia, porém, pelo sim, pelo não e antes que meus olhos se  fechassem  e eu retornasse ao sono que deixava minhas pálpebras pesadas, sorri, tranqüilo. Eu me sentia inteiramente em paz.
Eu nada temia ou deveria temer, afinal, como ela bem dissera, Deus era legitimamente brasileiro. E, sendo assim ela e eu estávamos no mesmo barco, jogando no mesmo time.
Porém, como os diabos são imprevisíveis e antes que meus olhos selassem de vez eu a vi dar um salto da cama e se colocar em posição ereta. O seu corpo se mantinha rijo, os peitos empinados e as penas  sem apresentrem sinais de varizes ou estrias. A sua voz soou melódica, grave e ainda  feminina quando entoou uma canção:

- Allons enfants de la Patrie Le jour de gloire est arrivé !

Era a Marselhesa, o hino da França.



Copirraiti 21Jun2011
Véio China®

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