terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Coca-Cola admite!


Eu andava por aí. A vida não estava fácil, nada fácil, sem emprego e com dois meses de aluguel atrasado.
Como quase todo cidadão comum recorri aos classificados e achei um que pareceu encaixar como uma luva

-Frigorífico admite trabalhador para corte. Não se exige experiência anterior–

Algo me pareceu esquisito no anúncio lido ás seis horas da manhã daquele dia,  principalmente o fato de o anunciante não requisitar experiência no ramo. Pensei por alguns minutos e deduzi que seria melhor se estivessem à procura dum executivo para Coca-Cola, inclusive sem experiência, se é que isso fosse possível. Porém não era a Coca-Cola que estava à procura do sujeito num requintado terno cinza da Hugo Boss, camisa branca e gravata grená Pierre Cardin, mas sim o frigorífico à cata dum trabalhador que conseguisse dar umas machadadas em partes de vaca. Portanto, munido de coragem e da minha melhor roupa social tomei dois ônibus e antes das oito já estava na sede do frigorífico com meus documentos pessoais e duas fotos 3x4. Talvez a disposição e a disponibilidade causassem uma ótima impressão.
Eram oito e vinte quando o proprietário puxou duas cadeiras e me pediu para sentar. Ele olhava para mim enquanto checava minha documentação. Eu me sentia deslocado diante um cheiro de carne crua emanado duma imensa perna de vaca que, ao lado aguardava para ser desossada. Também não compreendi o fato de estarmos falando sobre o emprego ali, e não no seu escritório de vidros espelhados no mezanino do galpão.

-Qualé teu nome, gajo? - O homem do bigode esquisito me pergunta.

-Patropi Floriano Peixoto- Respondi incontinente. Não entendi o motivo da pergunta, afinal ele estava passando os olhos pelos meus documentos.

-Ó Patropi, tu queres aprender a desossar uma baca?- “Ó Patropi" - "baca”? -  Matei na hora, não, não matei a vaca, ela já estava morta, o que quero dizer é que percebi na hora que o seu Manuel era português  dos legítimos.

-Bem, posso tentar, Aliás, tentar não, eu posso desencarnar sim! Ops, descarnar!- Confirmei. Depois mentalmente questionei o "desencarnar". Apesar de passar batido pelo português  o engano cometido me remeteria a uma dessas sessões mediúnicas. Contudo e o que importa é que me posicionei à tempo de não perder o emprego que parecia estar conquistando

-É assim que se fala é gajo! Então estás empregado. Vais lá pro “bestiário” e colocas esta roupa, mais o “abental”, este par de botas, e esta luva de “sugurança” – O Sr. Manuel me orientou com aquele seu estranho bigode grosso, estranho, coam as extremidades voltadas para cima.

Eu disfarcei o riso apesar de ter conseguido a vaga.  Bem, o que quero salientar é que achava engraçado o seu modo de falar, determinando cada coisa por “este” “esta” além do sotaque carregado, apesar do "sugurança" ter sido imbatível.
Agradeci ao seu Manuel por ter acreditado em mim e fui para o vestiário colocar o traje de guerra. A verdade é que se ele tivesse fornecido um desses capacetes de Fórmula Um eu sairia de lá me achando um daqueles personagens de Guerra nas Estrelas. Com tudo arrumado eu me sentia na pele de um domador de almas em curtume, todo de branco e com uma estranha luva de malha metálica enfiada na mão direita. Apresentei-me a ele:

-Ó Patropi, ficaste muito boa essa roupa em você! – Ele disse fazendo-me girar sobre o próprio eixo – Depois completou: Agora bamos a baca! – Por fração de segundos eu me senti na passarela do Morumbi Fashion.

Pensei que fosse chegada a grande hora e eu ganharia um daqueles imensos facões reluzentes, porém não foi o que aconteceu, e ele me levou para mais adiante e entramos por uma porta enorme, talvez duns três metros de largura e o mesmo de altura. Ao adentrar o ambiente meu corpo sentiu um clima gélido enquanto eu via partes de vacas dependuradas em anzóis gigantescos. Foi então que percebi que ali era a câmara frigorífica, o local onde as peças se mantinham conservadas sob uma temperatura bem abaixo de zero, mas sem que soubesse precisar. Aliás, o que sabia com certeza absoluta era que jamais havia estado num local tão frio.

-Ó Patropi, perceba agora que vou carregaire um traseiro de baca para tu beres como que é. Tens que fazer assim, tu te posiciones com as costas debaixo da peça a faça ter o máximo de aderência ao teu corpo, então firme as pernas e dê impulso às costas e subas com força erguendo o traseiro. Depois leves o braço ao alto e retires o gancho para ter a peça livre. Entendeste bem como que é?

-Sim, claro, fácil! – Respondi confiante.

E assim ele o fez e aquele monte de carne se ajustou às suas costas. Logo após com o corpo arcado pelo peso da carne atravessou a porta e rumou para o setor ao lado  e despejou a carne acima da enorme mesa de  alumínio opaco e com muitas marcas e riscos de cortes.

-Agora é a tua bez! Bamos lá, Patropi! – Bem, como aquilo que fizera não me parecia tão difícil voltamos à câmara. Eu persistia otimista.

Da forma como orientou, posicionei-me logo abaixo da carne fazendo a superfície das costas ter o máximo contato com ela. Depois impulsionei as pernas e as costas, estirei o braço e com a mão direita desengatei o imenso anzol:

-Hum. hum.hum – Gemi três vezes. Aliás, quatro.

No quarto gemido eu estava ao chão acompanhado daquele nojento traseiro. Por Deus! Aquilo deveria pesar mais de cento e trinta quilos – imaginei - Vendo aquele monte de carne desabado no piso o senhor Manuel não se conteve:

-Ó que gajo mais burro e moleirão! Tu queres me levar á falência ó Patropi? Não sabes que há bactérias por todos os lados e principalmente no chão?
Agora bamos ter que lavar esta peça. Tempo é dinheiro meu rapaz! – Ele berrou para mim. Depois ouvi outro do seu grito: - Ó Firmino, dá um pulinho aqui!

Não demorou nem 30 segundos e lá estava ao nosso lado um negro imenso e musculoso, talvez o capataz do negócio. Olha, não seria de duvidar que o crioulo pesasse 130 quilos ou mais.
O negrão agarrou a peça com as duas mãos como se levantasse dois pacotes de Açúcar União e depois volveu a parte mais encorpada da peça com seus braços e ejetando os membros para o alto como se fosse halteres enganchou o traseiro no suporte. Fiquei olhando bestificado, perplexo, talvez o crioulo tivesse força suficiente pra derrubar o campeão mundial dos pesos-pesados.
Peça colocada ficaram olhando para mim talvez na intenção de fazerem-se sentir um bunda mole, coisa que eu não era.

-Agora eu consigo seu Manoel. É que não estava devidamente concentrado! – Justifiquei-me com o orgulho ferido

-Então bamos la e pegues a mesma peça. Se caíres do novo pelo menos é a que já está com bactérias no cu! - O seu Manuel disse num tom de zombaria

Endireitei  o corpo  e meneei o tórax como se fosse um lutador, dei alguns “jabs” e coloquei-me debaixo da peça e impulsionei pernas e costas com revigorada determinação.

-Hum..hum – Dessa vez o chão veio mais rápido e nem foi necessário o terceiro gemido. Era duro admitir, mas me sentia numa situação extremamente vexatória, pois agora a peça estava sobre o meu corpo e sem que conseguisse desvencilhar, fazê-la se mover dali.

-Ó Firmino, dê um jeito nisso! – O portuga balançava a cabeça desanimadamente ao ordenar para o seu braço direito. E lá se foi o Firmino outra vez levantando a parte da vaca com a mesma facilidade que faria com malditos pacotes de açúcar. Logo após recolocou-a no gancho. Terminado, o negro olhou para mim com certo desdém.

-Branquelo fracote de merda! - Exclamou num sorriso descarado antes de se retirar. Olhei para ele com raiva. Eu não poderia ter uns 60 quilos a mais?

-Ó rapaz, parece que tu não levas jeito pra coisa! – Exclamou o seu Manuel ao colocar a mão em meu ombro e empurrar-me para o fundo da câmara fria.

Sim, mas onde me levava? Descobri ao voltar empurrando uma poderosa lavadora de pressão Karcher. Antes porém enroscamos a mangueira à saída de água e conforme íamos voltando eu olhava para trás e a mangueira me lembrava a história de João e o pé de feijão, afinal íamos deixando aquela borracha negra pelo caminho como se fosse forma de demarcação.

-Manda bala, ó gajo! Dê um banho nesta peça –  Assim que nos posicionamos defronte dela o seu Manuel ordenou.

Óbvio, eu jamais tinha manipulado uma lavadora tão potente como aquela, exceto no lava - rápido que trabalhei, todavia a lavadora talvez não tivesse nem a metade da potência. Mas também não faria diferença, afinal eu era suficientemente inteligente para colocar a lavadora em ação, bastando apenas saber apertar um único botão com as funções; ligar/desligar
Porém o que não percebi foi que destravei o gatilho ao manipulá-la, portando ao ligar a máquina, à pressão da água foi tanta que fez o gatilho escapulir da minha mão e a mangueira serpenteou loucamente para todos os lados, jactando água como se fosse uma cascavel furiosa cuspindo veneno.

-Seu filho duma puta! – O seu Manuel xingou ao se ver ensopado, enquanto tentava e sem sucesso escapar da furiosa borracha.

-Desliga essa porra, ó infeliz! – Ele berrava ao sentir que o jato se dirigia à sua cabeça, inclusive tentava proteger o rosto

Bem, eu tentei desligar a máquina, mas o botão repentinamente emperrou e não respondeu ao meu comando. Claro, a mangueira fazia uma confusão dos diabos, deixando-me uma última alternativa de atirar-me sobre ela como se fosse uma bola de futebol e eu um goleiro de terceira divisão. Assim que me joguei contra o gatilho o jato d’água surpreendentemente cessou. Não compreendi a situação e olhei para os lados a procura do seu Manuel, quando ouvi os seus gritos furiosos, vindos dum lugar distante:

-Olha aqui ô burro! Aqui, ó toupeira! – Eu procurava o local de onde vinha a voz, até que o encontrei ao final da câmara com o fio da lavadora liberto da tomada de força. O pesadelo chegava ao fim.

Enfim, passado menos de 40 minutos eu devolvia a sua roupa de Guerra nas Estrelas. Foi uma despedida sem sorrisos, sem agradecimentos, sem ao menos o pagamento do meu tempo trabalhado.
Saía da empresa quando um carro importado estacionou numa das vagas do estacionamento interno que dava para frente do edifício. Olhei na direção e uma placa indicativa orientava: Proibido estacionar Diretoria –
Uma garota de talvez uns 27 ou 28 que descendo do automóvel me permitia admirar aqueles deliciosos nacos de coxas. Ao passar por mim ela sorriu. Ela era linda e tinha classe, muita classe. Ela passou e eu olhei para trás e pude perceber a elegância daquela garota nuns saltos 10 e meias de seda nas pernas. Sim, ela vestia meias de seda. Meias que hoje estão em desuso, mas que dão a mulher um toque de classe, algo de sensual.

E conforme andava as nádegas se movimentavam excitantemente enquanto os cabelos negros bailavam no meio das costas relembrando o estilo de Lady Di num conjunto blêizer/saia, finíssimo, expondo o belo par de coxas numa saia com cinco dedos acima dos joelhos. Afixei-me outra vez em seu traseiro e ele era mágico e em nada me remetia às malditas bundas de vacas dependurados naquela câmara frigorífica que me congelaram os ossos. E assim ela sumiu pela porta de entrada e eu a supus filha do português estressado. Não demorou mais que 30 ou 40 segundos o Sr. Manuel surgiu na porta e empurrou os cinco dedos da mão direita na minha direção, como se dissesse "Ó peste, ainda estás aí?"  Por segundos pensei em seus gestos  e apontei meu dedo médio para o alto e novamente ouvi a sua voz - "Ó Firmino, dê um pulinho aqui que temos um engraçadinho aqui" - Tudo bem, eu não queria confusão e além do mais seria uma luta injusta, desumana, algo tão desproporcionou como o pequeno David contra gigante Golias, apesar que David, na versão do catilicismo venceu o grandalhão com os pés nas costas. Entretanto quem acreditaria piamente em tudo o que se diz na Bíblia? - Pelo menos eu jamais acreditei em boa parte daquilo que se narra ali.

Bem, antes que o Firmino apontasse seus músculos pela porta afora eu achei melhor sumir dali e me encaminhar para o ponto de ônibus mais próximo, mesmo arcando com o prejuízo das quatro passagens que o maldito emprego me causou. Antes de  chegar no ponto entrei num boteco fuleiro e comi dois bolinhos de queijo e uma caçulinha da Antártica. Lembro do dono do bar ter perguntado antes: “Quer de carne meu rapaz?” – Ao que respondi “Por favor, não me diga essa palavra!”
Depois peguei o ônibus e notei dentro dele outros sujeitos com feições desanimadas, mal amanhecidas, expressões do desemprego. Ao fundo, no último banco percebi três rapazes em atitudes e olhares suspeitos, mas nada de grave aconteceu salvo suas linguagens dos subterrâneos - “é isso aí mano, é o seguinte mano” -  Enfim, três pontos adiante saltaram desembestados pela porta traseira sem pagarem as passagens e sumiram na esquina mais próxima. O cobrador, um sujeito franzino  e provavelmente das Minas Gerais ainda deixou o seu protesto lançado ao nada  - " Esses trem ruim é um causde poliça!"- Eu dei risada e ele não gostando me enquadrou - "Ocê ta rindique hómi?" -  Olhei pra ele, pros meus 80 quilos e imaginei que teria uma ótima chance contra seus prováveis  55 ou 56. Mas não queria nada disso e apenas continuei olhando para ele farto das confusões - "Orra meu, to rindo de nada não cara. Na boa, paz" -  Devolvi  e ele me pareceu satisfeito e voltou a recontar o dinheiro de seu caixa.
Eu apenas queria voltar para casa e esquecer aqueles nauseantes traseiros de vaca.

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Estava indo para o meu quarto mês de aluguel em atraso quando me deparei com outro anúncio.

-Coca-Cola admite pessoal para o setor de distribuição - Sem experiência  -

Sorri um sorriso amarelo, afinal, experiência para carregar caixas de Coca-Cola? Talvez fosse questão onde predominasse a força física ao jeito. Todavia não era um anúncio para executivo sem experiências, mas sim para meros carregadores de caixas de cervejas e refrigerantes. Pensei por alguns minutos sobre o anúncio e brinquei com as mãos num - “minha mãe mandou bater nessa daqui” - Mentalmente decidi que se a última sílaba significaria o SIM para o meu alistamento desde que caísse na mão esquerda. Porém assim as forças da precaução não o permitiram e o "qui" recaiu sobre a direita. E o "qui" sendo destro e desafeto das revoluções parecía-me a mais pura das redenções. E isso sinalizava para que permanecesse do lado de fora e que a dores nas costas não compensariam o salário. Por fim só me restou sorrir; A Coca-Cola não precisava e jamais do meu esforço!
Portanto,  seria mais um mês de aluguel em atraso

Copirraiti08Out2012
Véio China©.





3 comentários:

Wasil Sacharuk II disse...

Gostei muito, Véio. Esse narrador é muito engraçado.

Véïö Chïñä‡ disse...

Valeus, Wazil!

Grato pela opinião.

Valéria Cruz disse...

Prezado companheiro do mundo virtual. Estou aqui para compartilhar um mimo que ganhei do amigo RioSul do blog Ô Trocyn Bão. Fui indicada por ele ao SELO DARDOS e a mim, foi confiada a difícil tarefa de compartilha-lo com outros amigos. Por esse motivo, estou aqui para dizer que está disponível no blog. Lhe convido a participar dessa “onda”, se voce for do seu interesse, é claro!
Desejo uma boa semana e um brinde a todos os navegantes que proporcionam a disseminação da cultura.
Bjão V.