domingo, 29 de abril de 2012

Marcela, Eu, e um fim de semana na roça;

Eu e Marcela continuávamos a nos corresponder normalmente, dessa vez por celular. Tornou comum falarmos diariamente por horas, algo quase parecido com a dependência química do drogado.
Eu podia sentir a emoção em cada palavra que trocávamos, cada carinho ofertado em cada poema que recitava para ela. Marcela adorava poesias, flores, pássaros. Adorava o sensível ao truculento, testemunhado em muitas das fotos que publicava no seu blog, onde além das fotografias registrava  poemas de ótimos e desconhecidos escritores, desses que não vivem da fama e nem do status conseguido no mercado literário, prém,  donos de uma nova forma de sentir e poetizar.
Eu relembrava o dia que nos conhecemos na fila de supermercado e do quanto ela era fã do Velho Zina, o personagem central do meu único e fracassado livro. Permanecíamos ao telefone e eu recordava que desde aquela época ela nunca mais me chamara pelo nome, mas sim pela alcunha carinhosa de “véinho”

-Véinho, vem cá! Estou pensando em me dar um belo fim de semana e...

-E... – Retruquei

-E... bem...To pensando em ir pro meu sítio. Acho que nunca te falei dele. É um lugar lindo, herança de uma tia. Acho que você adoraria passar o fim de semana por la... Quase todas as minhas fotos foram tiradas nele....

Um sítio? Ora, eu não sabia que Marcela tinha um sítio. Claro, havia suas fotografias de vales, montanhas, gente humilde, dessas da roça, mas supunha que fossem marcas de suas andanças por um mundo seu que não o meu.

-Bem... sei não se vai dar pé! Domingo tenho jogo pelo campeonato paulista de bocha – Balancei os ombros numa espécie de “ta difícil”.

-Por Fróid, campeonato de bocha é foda, véim! Só comigo que acontece essas coisas!  – Ela protesta num tom de desencanto.

Pelo visto a contrariedade foi tanta que eu podia ouvir-lhe a respiração nervosa após o obstáculo colocado. E pra falar a verdade talvez nem fosse uma boa idéia e eu simplesmente não estava acostumado com o reino rural, e o máximo que conhecia dele fora em criança  quando passei uma ou outra férias numa fazenda de cana e açúcar onde meu tio era o contador do escritório.

-Ah véinho! Larga de má vontade. Você vai adorar, aposto! Dá pra pegarmos um sábado todinho. E não se preocupe, no domingo na hora marcada estaremos de volta para o seu campeonato de... de ....bocha.

-Hum... você acha que dá mesmo? – Pergunto tentando disfarçar a ansiedade.

Talvez fosse o receio de estar ao lado dela por mais tempo que o gasto com a sessão de cinema que por vezes  íamos, ou às peças de teatro que tanto queria ver, e assim mesmo depois de muito insistir.
E essa apreensão nada tinha ver com as vacas que talvez estivessem zanzando pelo pasto. Porém, a possibilidade de ficar bem próximo daquela garota avivava em mim uma esperança desenfreada, afinal eu a queria bem mais que longas conversas por celulares ou as rápidas sessões de cinema e teatro. E outra, e isso sim me preocupava; Ela não sabia que me apaixonara por ela e que ansiava por cada uma de nossas conversas como se fosse detendo à espera da clemência do governador que evitasse a cadeira elétrica.  "Cadeira elétrica?" - Sussuro comigo mesmo e depois rio da comparação única e sem fundammento.

-Bem... Acho que vai  ficar  muito em cima da hora. E se a gente deixasse pra semana que vem?  – Propus para não parecer demasiadamente interessado.

-Semana que vem uma pinóia! Tem que ser agora, nesse momento! – Ele responde com um daqueles seus gritinhos eufóricos- Te dou duas horas pra arrumar as coisas, passo por aí e te pego.

Por todos os santos! – Pensei - Eu jamais conhecera alguém assim tão louca e impulsiva. Enfim, sexta feira, nenhuma idéia sobre o que escerver, era pegar ou largar.

-Pego! Ops, quero dizer, então vamos, va! – Disse-lhe como se fosse minha única opção.

Desligamos o telefone a uma hora da tarde e Marcela recomendou que não ma atrasasse, pois queria chegar antes do anoitecer. Lá íamos nós para Minas Gerais, precisamente para o sul, coisa duns 350 km de Sampa.
No horário marcado Marcela estava na frente do meu prédio, calça jeans, justa, camiseta floral ao estilo baby look, além das escuras lentes do seu habitual Rayban. Olhei para ela, para sua rebeldia, para toda a sua juventude e foi inevitável compará-la a Bonie, a famosa personagem que junto de Clyde atemorizou boa parte dos bancos americanos.
 Às pressas eu fizera minha mala e nela jogara duas calças, camisas de mangas longas, camisetas, bermudas, e três pares de meias brancas, afinal sempre tivera predileção por aquela cor.

-Véinho... onde você pensa que vai?

-Ué! Como assim? – Ela olhou meticulosamente para mim e riu. E eu fiquei me perguntando o que podia de haver errado com o meu terno da Garbo. E olha que eu nem havia colocado a gravata de seda, vermelha.

-Véio, tu é uma figuraça! – Ela disse num tom de gozação enquanto eu acomodava a mala no porta bagageiro do veículo.

Chegamos ao seu sítio no fim do entardecer em impressionantes três horas de viagem. Até hoje me pergunto como alguém podia ter o pé tão pesado e dirigir daquele jeito irresponsável. Não houve  paradas, sequer um café, um biscoito, ou o necessário esvaziamento da bexiga. E o pior, por duas ou três vezes cheguei a pensar na dama de negro e que ela  viera me buscar tal a fúria e velocidade daquele modelo esportivo de ótima pegada. Na última delas eu disse um “Deus, perdoai esse pecador” arrependendo-me  por cada pecado que não cometi quando os pneus gemeram numa curva de alta, talvez a uns 140 por hora. Ao descermos do carro o suor escorria pelo meu rosto pálido, descorado, e uma vontade enorme de ir ao banheiro me agoniava.

-Ta tudo okey com você, véinho? – Ela pergunta ao estirar o corpo e espreguiçar as costas.

-Claro, claro! Ta tudo bem comigo, sempre to bem! - Era bom que ela soubesse que ali tinha um  macho,  pedigree de ranço italiano, apesar das malditas cólicas intestinais.

A noite chegou  e nela conversamos um bocado. Falamos sobre nossas vidas, expectativas, alegrias e tristezas. Falamos sobre o amor e de algumas marcas que ele sempre deixa em nós. Era mais que provável que eu e Marcela fossemos dois sujeitos a espera de algo bom, e isso se percebia em nossos olhares. Estávamos nos tornando demasiadamente sensíveis quando por volta das 22 horas, ela sentencia que ia dormir. Sim, Marcela cultivava hábitos normais, vida normal cercada de coisas normais, exceto eu.
Assim que ela se foi me dirigi para a varanda e admirei a noite.
No céu salpicado de estrelas algumas reluziam mais que outras. Não havia o barulho dos motores, os irritantes sons das buzinas e nem das pessoas discutindo no apartamento ao lado. Não havia o odor da poluição misturado aos sabores da minha devastadora insônia. Eu me entregava à escuridão e ela me dava mais que os faróis dos carros ou as luzes de saída de incêndio, ofertando-me pequenos vaga-lumes que piscavam no noite como se as fossem diminutas lâmpdas numa árvore de natal .

E era esta a atmsofera onde sorvia os cheiros do mato, da  terra orvalhada,  e a eles se misturavam o ar gélido que  impregnava minhas narinas, talvez afetando a sanidade dos meus pulmões tão afeitos à degradação da cidade grande. Naquele silêncio entrecortado  apenas pelo estritor dos grilos  ajeitei-me na cadeiras de balanço e no vaivén dos seu movimento traguei um, dois, três, quase meio maço de cigarros,  ato injusto de macular a perfeição que me cercava ,já  que vingava dentro de mim a natureza dum homem descuidado das coisas do campo.
Permaneci por ali  pensando na vida, questionando as fantástocas  maluquices de Marcela e no que o tempo poderia estar tramando para nós. Quando nada mais houve a pensar coloquei os dimintos fones de ouvido do celular e fiquei ouvindo as canções do Genesis,  safra  de 76, uma de minhas bandas favoritas. As canções em mp3 transportavam nostálgias, e talvez fossem 4 horas da madrugada quando os olhos pesaram e me retirei para o quarto. E foi deitado, revirando-me na cam que adormeci sonhando com carneirinhos de lãs brancas e grossas, quando...

-Véinho é hora de acordar! Seis e meia! – Ela sentencia adentrando o  quarto com estardalhaço.

-Hããã... Eu sou inocente, juro! - Respondo sonolento,  balbuciando  idéias embaralhadas, e  sem saber ao certo o porquê o último carneirinho não ultrapassou a cancela

-Inocente uma ova, véio! Borá levantar e acabar com essa moleza porque temos coisas importantes para fazer! E rápido porque ja estou terminando o café! – Ela exclama e depois bate a porta e sai.

-Por Deus! Que vida miserável é essa que fui arrumar? – Rumino um tanto mal humorado ao olhar as horas no celular –

Porém a cama estava tão quente e gostosa que cinco minutinhos a mais não fariam o mundo se acabar. Assim decidi viro para o outro lado e me agasalhar até o queixo com a maciez dum grosso cobertor com fibras antialérgicas.

-Não é possível! Não acredito no que estou vendo! –  Outra vez ela me acorda junto à porta e com a mão na cintura.

Só que dessa feita a voz é autoritária. Olho  novamente para o celular e percebo que os cinco minutos que me dei não duraram nem quatro, aliás, três minutos e vinte segundos. Raios! A vida sempre seria um oceano de incompreensão - Deduzí irritado.
Ela sai do quarto e eu me levanto e olho no espelho. Os cabelos fartos atrás e inconsistentes na frente estão espetados. A feição é cansada e as olheiras me marcam como a um vampiro acordado em hora imprópria para o breakfast. Olho novamente para mim e rio da cueca samba-canção azul marinho com  motivos amarelos do Piu-Piu que me fora dada por uma ex namorada - Ai amor, eu achei tão linda! - Judite me dissera à época. Assustado olho na direção da porta; Ninguém dessa vez. Ufa! Ainda bem que Marcela não me viu! – Sorrio sem jeito,  espreguiço o corpo e caminho  para o banheiro onde toalhas felpudas e coloridas me aguardam. Tomo um banho, escovo os dentes e penteio os cabelos. Enrolado na toalha apresso os passos no corredor e entro no quarto e me visto. Assim que saio  persigo o  cheiro do queijo e de café que sufocam a casa. Entro na cozinha no momento que ela retira do forno duas dezenas de pequenos pães de queijo.  Olho para a mesa e  pergunto-me se seria  hóspede dessas pousadas de algum gabarito. Na mesa guarnecida por uma bonita e branca toalha de linho se acomodam diversas frutas, broas, leite, frios, até uma embalagem do Sucrilhos Kellogs, além da  tradicional aveia Quacker.  Olho para Marcela e ela irradia frescor, juventude.

-O véinho dormiu bem?  - Me pergunta com olhos avivados.

-Claro, claro! Dormi como uma pedra! –  Confirmo bocejante - Era bom que ela soubesse que ali  estava um fantástico "estou pronto pra todas"

-Veinho, bora parar com essa moleza! Engula logo esse café e vamos cuidar do pomar. Temos que aparar os galhos de algumas árvores para que elas produzam bons frutos.

Concordando sentei à mesa e servi-me de café preto e do pão de queijo enquanto ela me inspeciona. Permaneci olhando para ela e os seus lábios repuxados num dos cantos da boca me diziam que algo não estava bem.

-Véinho, sinceramente? - Ela me promove a pergunta com seriedade no olhar - Depois continua: -   To vendo que você ta legauzinho com a camiseta do Doors, bermudas de ginástica em tactel, mas... por favor, tire os sapatos e essas horrorosas  meias brancas. Aqui na roça se anda com os pés no chão que é para sentir a força da natureza,  para permitir que ela entre em você...

-Okey, okey! –  Concordei depois de me inspecionar e verificar que aquilo era ridículo.

Voltei para o quarto e reapareci descalço. Antes de sairmos ela retirou o enorme sombreiro que estava preso a um prego na parede da sala e o enfiou em minha cabeça

–Foi o presente duma amiga que esteve no México! - Confirmou diante da minha surpresa - Depois concluiu: -Sol em demasia queima  miolos dos seres  urbanos! – Concluiu apontando o indicador para um sol  das sete e vinte da manhã, Evidente, poucas horas depois o astro rei se tornaria inclemente. 

Com aquela coisa medonha metida na cabeça voltei para o quarto e novamente me inspecionei no espelho. O que vi me deixou profundamente revoltado.

-Puta que pariu cara! Tu ta parecendo o Pancho Villa de Goiás! - Porém não era bom contrariá-la.

 Depois olhei para os meus pés e pros dedos branquelos e lamentei -

-Putz grila! Eu devia ter comprado um  All Star!

Com tudo pronto saímos, travamos a porta da sala e atravessamos a varanda. Ah, que maravilha aquele ar puro nos pulmões - Assenti ao exalar a pureza do oxigênio do campo até arder-me as narinas. Entusiasmado desci os quatro lances da escada de madeira  e caminhei no chão de terra. Poucos passos dados, e...

-Ai, ui, ai, ai –

-Nossa! Que gemeção é essa véim?

-São esse maledetos e pontiagudos pedregulhos – Reclamo olhando com mais atenção o terreno que pisava.

-Ara véinho, larga de frescura, vá! – Ela exclamou e disparou na minha frente dentro de bermudas jeans e uma comoda camiseta rosa.

Marcela deslizava por entre as pequenas pedras como se elas fossem a maciez do veludo. Eu a olhava se distanciar e via a leveza da garça naquelas pernas bem torneadas e no bumbum  arrebitado. Via mais, via poesia em seus movimentos,  nos cabelos loiros que esvoaçavam ao vento, matéria transformando-se numa deusa de poderes estranhos, que me dobravam, que eclodiam na imensidão do meu amor - Ah... se ela soubesse como eu gostava dela! Ah... se soubesse!-
E Marcela continou rápida até chegar adiante e me chama com seus gritinhos estridentes e quase juvenis:

-Venha logo véinho, Rápido, venha!

E eu fui, e as pedras ainda me incomodavam, mas eu era macho, muito macho, bom que jamais esquecesse disso. Assim que nos encontramos andamos na direção de um pé de laranja, próximo.
Que beleza! Eram enormes, apetitosas, apresentando uma coloração avivada, abóbora.

-Véinho, pegue uma pra gente! – Ela pediu retirando um pequeno canivete que trazia dentro da mochila.

Olhei para a laranjeira e as frutas estavam tão próximas e baixas que seria a maior moleza pegar meia dúzia delas, quem sabe até mais. Cheio de estilo me coloquei ao lado de umas encorpadas e levei a mão ao galho, com vontade, avidez, um prazer enorme de livrá-la do julgo dos galhos: Eu haveria de dar a Marcela a mais atraente delas.

-Ai, ui, ai! Puta que pariu! – Gemi novamente

-Que foi véinho, que aconteceu agora? – Ela perguntou assustada.

-Porra, Marcela! Por que você não falou que essas merdas são cheias de espinhos? –

-PQP digo eu, véio! To começando me arrepender de ter te trazido. Você reclama de tudo! – Ela devolve com raiva. Logo depois esquece o tom azedo e abre um dos seus lindos sorrisos.

-Ta certo meu véinho! Você não está acostumado com essas coisas do campo! –

Então ela se aproximou e inspecionou o ferimento e constatou que um espinho ferira a palma de minha mão, ocasionando um pequeno veio de sangue que me escorria na direção do pulso.
Marcela olhou atentamente o ferimento e em seguida retirou da mochila um lenço limpo e um frasco com líquido e o derramou desinfetando o local.

-Aiiiiiiiii! À puta que pariu de novo! – Estrebuchei atirando o sombreiro para longe.

E la se foi o Pancho Villa, primeiro no ar, depois rolando á merce do vento, se ralando na terra, sendo esfaqueado pela sorte. O que Marcela despejara em meu dedo era álcool, álcool do mais puro grau, do mais ardido, do mais corrosivo. Desta feita não fora tão macho e nem ela se abalara com os meus dengos mas,  apenas riu e depois gargalhou. Eu também sorri ao ver o  Pancho Villa se acalmando ao estacionar num aclive do terreno.
O decorrer do dia foi mais ameno apesar do sol escaldante. Eu estava feliz por poder compartilhar cada um dos momentos. Andamos pelas redondezas, atravessamos, vales, riachos, tiramos fotos; fotos minha e dela sentados em pedras, deitados na relva, mergulhados em cachoeiras. Nós estávamos no paraíso, ela,  Eva, eu,  Adão. Um paraíso onde eu torcia para que não surgisse a serpente e amaldiçoasse tanta felicidade. Aliás, surgiu uma, não a serpente, mas uma pequena cobra que me fez correr o que não deveria ter corrido, afinal,  mais assustada que eu  esgueirou-se  rapidamente embrenhando-se num mato próximo.

E o paraíso sorria ante um sol que secava nossas roupas molhadas, testemunahndo a alegria e a cumplicidade de um amor que, agora indisfarçável parecia brotar. Nos tornamos sorrisos, gentilezas, e eu nem mais sentia as pedras me incomodarem os pés. Quem sabe eu não fosse tão urbano quanto imaginava.
Depois de secos fomos ver algumas de suas vacas no sítio vizinho. Foi então que soube que Marcela aplicava boa parte das economias nos seus estimads bovídeos. Aliás, o vizinho nunca tivera o que reclamar, afinal era regiamente recompensado pelo serviço de guarida e pasto. Após andanças e a constatação da perfeita saúde de suas vacas a fome fazia roncar meu estomago quando voltamos para a casa por volta das cinco da tarde.
Ao chegarmos cada um tomou o seu banho e depois nos dirigimos à cozinha onde Marcela preparou-nos um espetacular espaguete ao sugo.

Já caia a noite quando estacionamos na varanda. Novamente a escuridão nos brindava com os faróis dos vaga-lumes e o cheiro de mato parecia mais perfumado que nunca. Instintivamente coloquei meu celular para tocar algumas músicas. Ao som do Nokia um rosário de sucessos de minha fase progessiva foi curtido, ali, sentados um de frente para o outro relembrando o dia, rindo bastante ao recordarmos o caso da cobra. Foi então que Marcela levantou-se da cadeira e disse que voltava logo. Não passaram dois minutos e la estava ela com um bom vinho entre as mãos. Vinho rubro, encorpado, dádiva de Deus acompanhada de duas taças que cintilavam tímidas ao serem refletidas pela lâmpada presa ao teto. Aberto o Bourbon enchemos nossas taças e bebemos  nos olhavando fixamente. A noite parecia especial, e a garrafa se foi e em pouco menos de meia hora e ela voltava com outro vinho. Vinho que descia fácil, deixando na boca um gosto de pecado diante da sua voz, que,  ligeiramente ebria dizia que as faces estavam em brasas. Contrário, eu precisava muito mais daquilo  para que isso pudesse me acontecer. Novamente Marcela se levanta e diz:

-Véim, vou buscar um negócio! – A sua voz soou divertida e a marota.

Foi engraçado vê-la perder o equilíbrio ao levantar-se da sua cadeira de balanço. Com alguma dificuldade ela acertou os passos, atravessou a sala e rumou para o seu quarto. Na sua volta algo de estranho acontecia já que um cheiro forte, de erva,  alastrava-se por todos os cantos da casa. Eu conhecia o  odor ácido e levemente adocicado. Surpresa!  Era a legítima cannabis sativa!

-Óia aí veinho! Esse unzinho é pra nós! – Ela disse num sorriso instigador e esticando o braço, oferecendo-me o cigarro que se consumia entre os dedos da sua mão direita.

Relutei em aceitá-lo ja que recordei anos antes e da  última vez que eu dera um tapa num treco daqueles tinha ficado mal, talvez até por tê-lo misturado à bebidas como o absinto e a vodka.
Porém agora não havendo o poder daquelas bebidas peguei o cigarro e dei duas fortes tragadas retendo a fumaça nos pulmões. Em seguida ficamos intercalando aquele pacau enorme, consumindo juntamente com os goles de vinho. Talvez estivesse pela nona ou décima tragada quando me surgiu a  vontade de gargalhar. E gargalhei, gargalhei até não mais poder e querer.
No fim, como se acometidos de insanidades gargalhávamos sem que houvesse qualquer motivo aparente, uma piada do tipo que o país se livrara dos corruptos e corruptores. Mais uma vez os sorrisos cessaram quando Marcela me fixou demoradamente.

-Véinho, sabia que você e sua barba branca são parecidos com um macaco prego da cara branca? - Os seus olhos críticos cerraram-se e  ela riu-se a valer. Depois com a fala enrolada e reticente esnobou-me: - Vou ser mais exata com vossa majestade.. és um perfeito Cebus Capucinus.

-Heim? Que diabo é isso de Cebo Caputino? – Sorrie questionei diante de seus risos que pareciam não ter a intenção de ceder. Passados alguns segundos o riso cedeu e ela fez o possível para manter-se sóbria:

-Uai, véim! O dito cujo é um macaco, um lindo espécime de pelos negros que tem na parte superior do corpo os pilosos levemente róseos e esbranquiçados! – Assim que terminou a explanação imergiu numa nova gargalhada.

-Ai meu Jesus Cristinho!  É muita maldição!  Pro meu azar, esqueci que essa diaba além de fotógrafa é zoóloga! - Lamentei-lhe serrando os dentes, fazendo caretas.

Repentinamente o seu riso aniquilou-se por completo e nos tomamos do silêncio do pensamento. Eu parecia não sentir o corpo e nem os pés que  teimavam em tamborilar o piso de tábuas largas. Eu olhava para Marcela e ela era tão linda e seus olhos reluziam tanto que ofuscavam a lucidez e mais tenra claridade do mais bonito dos luares. No celular as mp3 sucediam e Stairway to Heaven do Zeppelin, tocava. Ante a melodia fui tomado por uma vontade indômita de beijar-lhe a boca, de possuir-lhe o corpo, de ter o amor daquela mulher. Tentando manter-me firme levantei da cadeira com o máximo cuidado e estendi a mão na sua direção. Eu queria que ela segurasse em mim e se erguesse. Aliás, quaria bem mais que aquilo;  Queria que ela fosse meu mundo, o meu universo, e, provavelmente,  a minha única razão de viver.
Marcela docilmente se apoiou-se em minha mão e impulsionou o corpo de forma tão abrupta que ao levantar-se se estatelou no chão levando-me consigo.  Após o susto e literalmente vencidos pela lei da gravidade nada restou a fazermos se não nos flagrarmos em nova e estrondosa gargalhada. E nós gargalhamos até doerem nossos estomago, até não mais haver o motivo para o riso, até compreendermos a magia do momento.

Agora, próximos o silêncio dos olhaos nos unia. Eu podia sentir o estremecer do seu corpo ante o toque dos meus dedos. Podia sentir-lhe as formas  ao percorrê-la com a palma da mão, acusar-lhe  as pulsações do coração  e verificar que ele batia tão descompassado quanto o meu – “Querida senhora, pode ouvir o vento soprar? – Plant gemia naquela parte da canção.. 
E era bem isso; Eu queria ser o vento e sussurrar coisas em seus ouvidos.  Queria ser vento e soprar  seus cabelos, refrescar-lhe a delicadeza do corpo. E foi naquele instante,  no piso de tábuas largas que as  bocas se uniram na paixão do beijo, e as línguas se digladiaram furiosas quando, imprevível as luzes da varanda se apagaram deixando-nos a merce das estrelas e dos sussurros das árvores e do vento. E assim foi, testemunhados por vaga-lumes que  nos possuímos ante as preces do amor. Com tudo concretizado acariciamos nossos corpos e sorrimos como dois colegiais flagrados em  atos de amor. No ar apenas a sensação que a paixão em nossos olhares que jamais morreria.

Depois, passado algum tempo entramos e fomos tomar banho. Debaixo do chuveiro ela ria bastante e pedia para ensaboá-la. Eu esborrifei o sabonete líquido por todo o seu corpo e o massageei com delicadeza. Ela fez o mesmo e nós estremecíamos a cada toque das nossas mãos, como se para elas tivéssemos pertencido sempre. No final, já enxaguados,  secamo-nos e rumamos para o seu quarto onde o conforto de uma ótima cama  nos aguardava. Ficamos ali debaixo do edredom cochichando mimos,  tateando a pele, aquecendo-nos na umidade da noite até que o cansaço nos fez adormecer.
Domingo, oito horas da manhã acordamos. Os mesmos sorrisos e beijos estavam lá.

-Bom dia meu macaquinho prego da cara branca! – Ela brincou enquanto me beijava a boca, sorrindo como uma garotinha que acabara de ganhar a sua primeira Barbie.

-Bom dia “Marijuana”! – Devolvi na mais inequívoca alusão à noite passada.

-Ah seu filho duma puta! – Ela exclama com olhos sacanas ao atirar no meu rosto o travesseiro de penas de ganso.

Em seguida ela ri, eu rio, e nos engalfinhamos outra vez. Ao abandonar o corpo de Marcela eu estava  completamente extenuado.

-Ah garota! Você ainda vai me matar! –  Sussurrei-lhe,.

-Calma véinho, há muito tempo para você morrer!  Talvez nem morra, desconfio até que você seja imortal! - Ela exlama jocosa. Eu sorrio um tanto sem graça e  torço para que  ela esteja certa, não quanto á imortalidade, é óbvio.

Levantamos e ela rapidamente prepara o café para nós. Estávamos famintos, e a mesa farta, como de costume,  era o premio mais que merecido, não para mim, macaco de peito branco ou a zoologa impertinente, mas para nós e os vorazes felinos que nos  tornamos..
Terminado o café  fui para o meu quartos e arrumei s as malas perguntando-me porque diabo havia levado tanta roupa – Deveria vser mania de pessoas à caminho da velhice? –  Divaguei com certa austeridade e sem saber o que me responder.
Tudo pronto,  ajeitamos nossas bagagens no carro e fechamos a casa.
Com Marcela e as chaves na mão  dirigindo-se para a porta do motorista, protestei:

-Mocinha, negativo! As chaves na mão do papai aqui. Saiba que pretendo chegar vivo em São Paulo!

-Ah meu amor, você disse que o jogo começa ás duas da tarde, é isso? - Ela me questiona, incompreensível. Eu não entendera o porque da pergunta.

-Bem....Sim..é isso mesmo,  Marcela - Respondo confirmando.

-Ueba! Então nem se incomode com isso, véinho! Com você ao volante chegaremos à Sampa no horário que estourarem a champanhe para os vencedores! – Exclamou num tom divertido porém sarcástico.E isso me fez pensar -  Caracas! Apesar de pegar pesado,  ela está com a razão! -  Tive que concordar.

-Torneio, estou a caminho! - Digo entusiasta diante a sua surpresa. Depois alardeio sentando-me imediatamente no banco do passageiro:

-Benzinho, ajeita o banco, o espelho retrovisor  e pau na máquina!   

Ela sorri. Naquele instante sem saber os porquês suponho o inferno e os motivos de satã, pois se nos acontecesse algo sabia que nele eu estava garantido. Penso nisso por mais alguns breves instantes e até que os imaginários vaga-lumes me raptam os pensamentos.
Talvez dormissem no momento que a garota dos óculos Rayban sentou-se ao volante e o carro partiu gemendo os quatro pneus. Segurei-me fortemente e depois travei o  cinto de segurança. Eu amava a menina dos pés pesados mesmo que houvesse dentro de mim o medo das próximas curvas e daquilo  que me colocava em xeque: Até quando conseguiria acompanhar o ritmo?
Refleti e previ algumas complicações pelo caminho. Porém, eu era o capitão. E um capitão só abandona o seu barco quando uma última onda o dá por submerso. E além do mais era muito cedo para se saber de todos os caminhos.

E assim num dia perfeito  a velocidade imposta deixava para trás a estrada que pelo retrovisor era nada mais que tempo pretérito. No cd player apenas uma canção que falava de amor enquanto o azul do céu se adornava de nuvens alvas  que,  quando em quando formavam figuras.  Assim como num quebra-cabeça eu olhava para as nuvens e tentava juntar as partes faltantes de um tigre siberiano quando no topo brilhou a sua majestade sol,  incandescente, transpassando nuvens,  aquecendo meu coração ao mesmo momento que, o vento num compasso de amor soprava os nossos rostos, delicadamente.

Copirraiti 29Abr2012
Veio China ©

sexta-feira, 23 de março de 2012

Duendes - Um conto quase infantil -

O garoto cismou em ver de perto o homenzinho de cabelos brancos que  nervosamente agitava as mãos para o alto enquanto caminhava ora de um lado, ora para outro.
O seu olhar de criança podia perceber a ineditismo da cena,  bem diferente às que se acostumara. Não há no palco a sua esquina e o sinaleiro que sempre lhe dá algum tempo de manobra, e nem o seu sorriso pedinte junto às janelas dos veículos como se fosse possível com ele convencer os motoristas a comprarem os pacotinhos das suas balas e chicletes. Alguns que, parecendo temer aquele pirralho de não mais de 11 ou 12 anos fechavam seus vidros rapidamente,  mal permitindo ao garoto escutar o “zoom” do motor elétrico acionando as vidraças. E isto, óbvio,o mantinha o guri longe de  rostos carrancudos,  antipáticos,  e sem compaixão alguma.

Porém aquele não era dia de trabalho.  Que se danassem a mochila e os diversos kits das suas humildes guloseimas. Sim! aquele dia ele  instituía como sendo o dia da sua folga!
Já não bastavam as desculpas que teria que inventar para o pai pelo pouco rendimento do dia?
Enfim, não era um dia de se vender balas e nem chicletes, mas de ver as árvores, sentir o aroma das flores, deixar-se largado num dos bancos do parque e ouvir a incompreensível cantoria dos pássaros que tanto acalentava leveza e a paz para o seu espírito. Aliás, ele queria e merecia mais e muito mais! Merecia ver garotos com tenis Nike e  bicicletas coloridas pedalando  pelas vielas arborizadas, bicicleta que diga-se de passagem, um dia ele haveria de ter. Ah! e como haveria!

Mas a presença do homenzinho persistia  intrigando com todos aqueles gestos de braços, de mãos e frases distantes e que ele não conseguia ouvir. Com extrema curiosidade e sem demonstrar receio aproximou-se do velhote e percebeu que ele, além dos gestos,  ralhando um mau humor danado apontava o dedo  para o alto da árvore  à sua frente

-Donavam, seu pirracento! Desça já daí! Aposto que foi você que convenceu Aillen a subir nesses malditos galhos.

O garoto dessa feita se assustou. Desconfiado caminhou para debaixo da árvore e firmou as vistas com o intuito de flagrar as estripulias daqueles meninos de nomes estranhos. Olhou para o alto e nada. Nenhum movimento, nenhum som vindos na direção daqueles galhos. Era estranho, muito estranho ele pensava enquanto ouvia o velho resmungar para o nada. E além do mais, ele desconfiava que o homenzinho poderia estar delirando, ou com algum outro  problema.
Porém como dúvidas não faziam parte do seu cotidiano aproximou-se do senhor e o questionou:

-Ei tio! Com quem o senhor está falando la no alto da árvore?

O senhorzinho o olhou com cara de poucos amigos:

-Ora moleque, não está vendo? Estou falando com Donavam e Aillen!

O menino o olhou com alguma desconfiança. Mais uma vez firmou os olhos, aprumou os ouvidos mas, novamente nada viu ou ouviu.

-Num to entendendo, tiozinho –  Protestou. Aquele senhor só poderia estar de gozação com sua cara, isso sim - pensou.

-Você é surdo, garoto? – O velho mastigava as palavras. Depois continuou – E acho que além de surdinho também é ceguinho! Não vê que estou falando com os duendes?

-Mas como assim tio? Não vejo ninguém nos galhos, e ainda mais... doentes?  –  O garoto argumenta surpreso enquanto crava os olhos na direção dos galhos sem  perceber neles movimento que levasse à presença dos meninos que o velho falava.

-Garoto abestalhado! Tu tens que ser consultado por um otorrino! Eu disse. Dueeeeeeeeende e não... doeeeeente! Duendes Leprechauns! – O velho exclamou irritado numa densa cuspida ao chão

-Duende de Lebre... o que? –  O guri pergunta ao homem com os olhos estalados.

-Duendes Leprechauns! Duendes são criaturas pequeninas e de orelhas pontiagudas! E saiba, são eles que cuidam dos parques, das flores, plantas, enfim, da natureza... – O velho diz num tom professoral, livrando-se surpreendentemente da rudeza.

-Uai tio, duende cuidar de parque?  Eu jurava que fosse o jardineiro que cuidasse disso aqui! – Exclama o menino apontando para todos os lados. Claro! Aquele homenzinho só podia estar tirando um barato com a sua cara. Muitas vezes ele próprio flagrara ali homens e mulheres limpando, carpindo, podando, e até plantando novas mudas de grama.

-Fique quieto coisa medonha! Logo se vê que você não entende nada! E além dos mais... eles não aparecem pra qualquer um não. Tem que acreditar neles para que você os veja! – Rebate o senhorzinho num tom de sermão dominical – Acreditar... acreditar... – O velho repete num murmúrio enquanto contunua os procura no alto da árvore.

-Uai tio! Acreditar numa coisa dessas de que jeito? Eu não acredito nem nos meus amigos! E olha que eles existem, moram casas que sei onde é, e tem até irmãs peitudinhas ... - O menino deixa escapar num sorrisinho sacana.

O velhote o olha desanimado. Era como se não compreendesse porque aquele garoto tinha que ser tão cabeça dura.

-Por Deus! É por isso que esse mundo está do jeito que está; Perdido! Os jovens de hoje não acreditam em nada, nem mesmo em duendes - Desabafa largando os ombros. Porém algo o faz retomar o tom vigoroso de antes:

-Donavam! Aillen! Desçam daí, já! Estou mandando!

O menino, agora desolado persiste observando o velho; aquilo mais parece um pesadelo e ele sabe que pouco  ou quase nada adiantaria contestá-lo. Ah se ao menos conseguisse ver os pequeninos duendes de Lebre não sei o que... E além do mais a sua vida estava aquem das quimeras daquele velho,  e talvez nem lhe fosse de direito sonhar com tantas fantasias. De fato, de direito, e real,  só sabia o que seria difícil convencer o pai de que o dinheiro fora pouco porque as pessoas não quiseram dar cabo ás suas guloseimas. Ah... e como seria!

E se fosse pra pensar em fantasias, pra que precisava delas? E elas nem era tão importante, afinal, dormiria sabendo que o dia seguinte seria igual á todos,  de privações, com dificuldade mesmo que tentasse acreditar em sonhos tal qual  o de ter bicicleta tão bonita e colorida como as dos garotos do parque.

E foi com esses pensamentos que ele abandonou o pequeno bosque ao fim da tarde. Aintes de ultrapassar o portão de saída voltou o olhar e percebeu o homenzinho numa outra árvore, apontando, gesticulando, andando de lá pra ca. Enfim, apesar de achá-lo meio doido sabia que devia respeito às pessoas, afinal,  era direito de todo louco ter suas manias.

Saindo do parque caminhou uns quatro quarteirões até chegar ao ponto de ônibus onde tomaria um que o deixaria próximo á favela do Marrom, lugar onde morava.
Disposto a enfrentar mais de duas horas e meia de viagem ele adentra a coletivo lotado e com muita dificuldade chega à catraca. Vagarosamente ele sobe o olhar na direção  do cobrador enquanto retira do bolso o dinheiro da sua passagem.

-Não acreditooo! Exclama. Aliás, nem foi exclamação e sim um grito que todos ouviram espantados, inclusive o surpreso cobrador que agora é por ele interrogado.

-O seu nome é Danovam e tem uma irmã chamada Aline, não é? –  Sim! Tudo se aclarava! Eles existiam, sim!

O cobrador o olhou assustado, com medo até; Seria aquele garoto mais um daqueles loucos que tanto se esparram pela cidade?

-Vamos, diga! Aposto que o seu nome é Donavo e que tem uma irmã chamada Aline! Certo?  – Insistia o garoto num tom esfuziante e um brilho intenso no olhar.

Ao cobrador, de natureza tímida e simples, avexado por todos os olhares que repousavam sobre ele só coube responder-lhe a fim de livrar-se daquele embaraço:

-É eu não! Eu é o Lédisnelso!

O menino o olhou com profundo desencantado. Ele tentara acreditar que o cobrador fosse um deles, mas faltou alguma coisa, talvez algo como a diferença que permeia os  sonhos e  os pesadelos, o falso e  o verdadeiro, e finalmente, a vida e a morte.

E foi  desta forma desenxabida que ele retornou à realidade e compartilhou o ínfimo espaço com as demais de 50 ou 60 pessoas do coletivo. Pessoas simples que voltavam cansadas para suas casas após um árduo dia de trabalho, famintas  e com o desejo inconteste de algumas horas de sono.
E ele, triturado pelo sacolejar do ônibus olhou mais uma vez para o cobrador que dava o troco com algumas moedas; Incrível como o rapaz era idêntico á descrição que o velhote fizera dos tais duendes.  La estava um rosto hiper engraçado, orelhas pontiagudas além da pequeníssima estatura de talvez menos de metro e meio. Contudo, o que lhe encantou  nele foi aquele olhar doce e traquina. Porém,  apesar do olhar e das orelhas Lédisnelso não era Donavam.

Com algum esforço venceu a catraca e olhou  para a janela pelo pequeno vão entre as pessoas e notou que a tarde morria mormacenta, preguiçosa - “Em todo o caso foi bom ter tido essa fantasia” – Tentou justificar-se enquanto uma senhora obesa e de estatura imensa como se fosse um trator abria a fila no corredor espalhando as pessoas. Estacionou, espremeu alguns passageiros e se colocou rente ao banco, deixando o menino atrás de si,  apoiando de forma proposital as volumosas nádegas sobre suas mirradas costas  – “Ô saco! Mais uma dessas folgadas!” – O garoto rumina para si mesmo – Enfim, também tinha se acostumado a isso, mas não ao cotovelo no queixo que ela lhe dera  ao virar-se para o lado e procurar na bolsa o celular que tocava de forma estridente.

-Sim querido, sou eu! Aonde você está? Ah.. aqui perto, no parque...sei sei. Hum.. sei, procurando Donavam e Aillen. Hum.. logo vi – Em seguida fez uma pausa onde ela pareceu ouvir com atenção o que a pessoa lhe dizia.

-É, eu sei meu amor! Então... assim que encontrá-los volte logo para casa, ta! Te amo, ta! Tchau!

Desligando o celular a mulher percebe que o rapaz do lado se manteve atento a fala dela.  E ela na sua natureza extrovertida foi logo despachando:

-Ah, era meu marido, sabe,  ele é aposentado e acredita em duendes, saci- pererê e essas coisas todas. Inclusive está às voltas com um casal deles,  Donavam e Aillem la no parque municipal onde está tentando tirá-los duma árvore em que se enfiaram. Mas... sabe moço... fora isso, ah, ele é normalzinho de tudo!

Ao fim da fala a mulher gargalha com estardalhaço enquanto o rapaz com feição cansada apenas lhe sorri um sorriso insípido e olha através da janela à procura de algo que dessa vez lhe traga algum alento.
No corredor  o inconformado garoto ainda tenta se desfazer dos seus duentes quando, irritado,  crava o cotovelo nas desconsertantes proeminências daquela mulher.


Copirraiti 23Mar2012
Véio China©

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Olhos Azuis

Era o dia das homenagens aos mortos. No parque o sol se fazia alto e os pombos corriam desesperados à cata de alimentos que as pessoas lhes atiravam. Ah, também era o dia de passear com Felipe, 10 anos, seu bisneto. O ar se impregnava dum cheiro bom enquanto as folhas ao chão eram levadas pelos ventos de novembro, alçando pequenos voos, valsando despretensiosas sobre os bancos carcomidos pelas estações.
O homem se mantinha  sentado num dos assentos com feição reflexiva, afinal, o que poderia pretender senão apenas uma velhice mais acentuada e com urgência de alguma acomodação?
Seu corpo sugeria desconforto apesar de sua aparência negar-lhe os  68 anos completos. Como de praxe ele estava ali  para o vai-e-vem das pessoas, tão comum nas manhãs dos domingos.
No rosto a insistência dos raios de sol discretamente cora-lhe a pele e a brisa refresca seu corpo no instante que uma vigorosa lufada faz pequenas flores se desprenderem das árvores e elas forram o chão com pétalas das mais diversas cores.
Felipe, à sua frente sorria e equilibrava-se em sua cross mantendo as pernas esticadas sobre as pedaleiras.
O avô se afastara das reflexões e se manteve observando o ar inocente e pueril que estampa o rosto do neto. Pouco mais adiante dois sujeitos mais idosos vem em sua direção; Na verdade um par de anciões que lentamente percorrem as alamedas sem se darem conta que as flores espalhadas e os trajetos percorridos precedem a data duma morte que se aproxima rápida ou lentamente “Ah morte, morte! - Ele pensa nela ao notar a dificuldade dos movimentos nos senhores. Sim, a morte era destino inexorável, término, o asfalto numa estrada onde se sabe que há fim. Em contrapartida suas certezas diziam que a vida era nada mais que dor gestada e imposta num mundo onde o que prevalece é a juventude. Enfim, ele não tinha a morte por castigo, mas como prêmio pelas batalhas travadas, algumas às custas de dor e sangue - E ele bem sabia.

Eram esses seus pensamentos quando os velhos passando próximos de si deixaram no ar um odor estranho. Impressionado com o cheiro ele crava o nariz nos poros do braço à procura do mesmo ranço; Nada! Apenas distinguiu um suave odor de sabonete - "Que bobagem foi essa a minha"- Resmunga ao afastar o braço das narinas -  Novamente se fixa nas figuras e os vê distanciando e se põe a relembrar os caminhos do seu passado tatuados ali nas mesmas alamedas. Ele sorri ao recordar a praça ainda jovem e de como era bom ficar ali zanzando, absorvendo vidas assim como agora o fazia. E aos poucos as imagens vão se aprisionando nos labirintos da juventude como se fossem parte dum amarelado álbum de fotografias.  Com suavidade tateia o banco e sente nas extremidades dos dedos as porosidades das madeiras desgastadas e isentas agora de boa parte da espessa tinta à óleo. “Ah natureza, tu não perdoa ninguém” – Murmura diante dos bancos parcialmente descascados.
Porém  reviver o passado era  bom e ele persiste num tempo que a vida desfilava sob um olhar tão repleto de esperanças que competia com o fulgor do sol e a melancolia da lua. Ah, que saudades da jovial aparência e da autoconfiança incrustada naquele rosto repleto de acnes, que não se livrava, mesmo que as espremendo diariamente diante o espelho do armário do banheiro. Aonde se escondera a esperança e nobreza do espírito? Talvez sua herança fosse apenas o tapa de pelica dado pela vida, um riso sarcástico  e zombeteiro diante dos sonhos que imaginou possíveis. Sonhos? Sim, ele os tivera, mas foram tão poucos que se traduziam numa casa com varanda que lhe abrigasse o corpo na velhice, uma boa esposa de olhos azuis que lhe desse um casal de filhos com a mesma tonalidade no olhar.
Sim, olhos azuis! Sempre se encantara com eles, portanto os procurava  em cada garota. "Olhos azuis"- Balbuciou e riu dessa insistência do passado,  fato que por vezes fazia as pessoas  o rotularem de abobalhado  ao perceberem-no cravado nos rostos femininos, sentinela obsessivo por olhos além  dos sentimentos humanos. Ah, que tempo aquele...

 -Vô, disfarça e olha a menina que ta vindo para cá! – O garoto cochicha para o avô, resgatando-o da imersão existencialista em que estava atolado;

 -Sim, to vendo! É a que está vindo de bicicleta com um cestinho?  Mas, o que tem ela? – Pergunta ao neto.

-Ih vô, parece que o senhor ta sempre no mundo da lua. Essa aí é a Laura. Lembra da garota que lhe contei  que eu tava gostando e que estuda na minha escola?

 -Ah sim, me lembro! Ah! Mas, fala pro vô, porpetão... essa garota tem olhos azuis?

 -Ô vô, nem me lembre disso! Ela tem olhos azuis e eu odeiooo!

-Hã, odeia olhos azuis? – O avô se surpreende.

 -É..não gosto! Mas, vô, por que ela não tem os olhos assim como os nossos? –  Queixa-se ao velho. Claro, Felipe se refere à tonalidade castanha, comum em todos os olhares da família.

 -Bah! Que castanho o que! Você um bobão, um maledeto sortudo que quer jogar a sorte fora! – O velho recrimina. O neto arregala os olhos tentando assimilar as críticas do avô.

-Ué, não entendi! Se o vô gostava tanto, por que não se casou com uma mulher de olhos azuis? - Dessa vez foi o velho que arregalou os olhos.

 -E você pensa que não tentei seu bezerro lambido? Ah... e como seu avô tentou! – Finalizou com um ar implicante estampado no rosto.

 -Gente velha é fogo, mesmo! Nunca se conforma com o que têm!–  Ri Felipe ao impulsionar a bicicleta para ir ao encontro da garota.

Ah Laura! Mesmo não tendo os olhos castanhos que tanto gostava, sabia como mexer com ele. Pensou ao estar próximo dela. Então se encontram com olhares e sorrisos.
O velho os nota e os vê com a simpatia de quem sabe que em Felipe corre seu sangue, agregam-se coisas hereditárias, manias e imperfeições.
E talvez todo esse seu pensamento voltado para o passado esteja ligado à visita que faria à Ornella, no Cemitério da Paz naquela tarde de finados. Será a terceira vez que estaria presente, desta vez sozinho, pois seu filho e a mulher foram visitar a falecida esposar nas primeiras horas daquela manhã. Todavia era bom não pensar no compromisso, mesmo que sentindo em paz no ambiente verdejante, um lugar calmo e depositários das lágrimas de sua saudade. Repentinamente repassa a primeira vez que esteve lá e que perdeu o controle das emoções e chorou copiosamente, depois envergonhou-se diante das pessoas que o observavam. Talvez questionassem; Por que o velho chora tanto? – Era essa a pergunta que ele lia expressa naqueles olhares – Não! Não queria sentir-se novamente constrangido e nem que soubessem da falta e nem  da intensidade dum amor que foi sepultado junto da mulher de olhos castanhos. Sim, os olhos de Ornella  jamais foram azuis, contudo foram os olhos mais lindos que conheceu e que amou até se cerrarem definitivamente. Não! isso só interessava a ele e sobre isso não precisavam saber...

Todavia o parque se faz cúmplice dessas dolorosas recordações, mesmo que gotas ameaçassem desabar do seus olhos. Porém não era hora de choro, mas de levantar-se e voltar para casa. “Raios! Onde se meteu esse moleque?" – Perguntou-se ao procurar Felipe com os olhos. Ergueu-se do banco e saiu caminhando pelas alamedas até que divisa a bicicleta do garoto. E o menino trajando a camiseta do Palmeiras, seu time de coração, vai de encontro do velho seguido por Laura e uma mulher de aparência madura e de cabelos  levemente tingidos duma tonalidade avermelhada. Assim que se encontram, a mulher de talvez 58 ou 59  anos, mas ainda bonita e atraente o cumprimenta com simpatia:

 -Muito prazer, sou a avó da Laura! E o senhor deve ser o avô do Felipe. Certo?

-Sim, sou sim!  E muito prazer, meu nome é Domênico - Se apresenta. Depois continua - Olha..pra  falar a verdade ele é mais que um neto, é bisneto. – Corrige à bordo dum sorriso tímido, já que fazia tempo que uma mulher de porte tão elegante o abordava

-O prazer é todo meu, seu Domênico. Sou Maria Cecília! E esta surpresa agradável só foi possível por ter encontrado o seu neto no supermercado ontem, e ele ter insistido para que trouxesse minha neta no parque – Ela explica gentilmente

Ele se encanta com a presença e repara nela com mais atenção e nota que a mão esquerda acomoda duas alianças no mesmo dedo anelar, evidente sinal de viuvez. Antes que pudesse tecer qualquer comentário o neto se antecipa e à queima roupa pergunta:

 -Vô! O senhor tá notando alguma coisa na avó da Laura?

O velho sente-se constrangido ante a pergunta. A mulher também se sente incomoda e sorri timidamente - "Moleque enxerido!" - O velho sussurra; O garoto podia tê-lo poupado da saia justa. Maria Cecília tentando  driblar o desconforto de ambos faz o possível para reverter a situação.

 -Ah, seu Domênico! Será que o senhor nutre simpatia por mulheres que passaram do ponto e são um tanto "cheinhas"?

 -Bem... eu acho que sim! Aliás, nutro sim! Mas, desculpe... não acho que a senhora passou do ponto ou que seja "cheinha"! – Responde timidamente e com certo gaguejo na voz.

Ela sorri envaidecida. Alguma coisa nela modificava a situação e sua repentina vontade de sair dali, agora dissipava qual fumaça de cigarro. Sim, evidente que Ornella seria visitada um pouco mais à tarde, assim como em todos os finados que teria pela frente. Mas o momento lhe confidenciava que não era a hora de se concentrar na visita ao cemitério.

 -Vocês gostariam de sorvetes? – O velho pergunta-lhes tentando ganhar algum tempo e ficar um pouco mais na companhia de Cecilia. - Os garotos sorriem e aceitam, inclusive ela.

 Os olhos de Domênico se alegram e ele chama o sorveteiro com um aceno de mão e faz o pedido diante de duas perolas cintilantes que lhe  sorriem enquanto os garotos descem de suas bicicletas e se acomodam sob a sombra duma árvore. Após distribuídos os sorvetes, Domênico e Maria Cecilia se postam mais ao lado e se se perguntam e colhem respostas. Nos olhos dele há algo que se colore, e a praça parece mais viva, o verde se faz mais verde e as flores mais bonitas. E a conversa segue com questões despretensiosas e gentis e até chegarem ao ponto onde o velho discorre sobre a visita ao cemitério. Assim que Cecilia o ouve  foi impossível deixar de manifestar a surpresa:

- Nossa! Não me diga.. que espantosa coincidência seu Domênico! Meu falecido marido também está sepultado no Cemitério da Paz. Como o senhor ainda não foi e eu também não, e se não se importar poderíamos ir juntos um pouco mais à tarde. O que acha?

 -Podemos sim! Claro, dona Maria Cecília. Será um imenso prazer!- Ele responde com um ar de satisfação.

 Ambos sorriem tímidos enquanto os garotos acabam seus sorvetes. Felipe novamente se adianta e monta no selim da bicicleta, pedala rapidamente e para um pouco mais adiante. Ele desce da  Caloi e examina alguma coisa na roda, pois parece haver complicações. Depois meneia a cabeça negativamente e chama pelo avô:

 -Vô! Quebrou uma coisa aqui! Vem ver! – O velho pede licença para Cecilia e vai até ele. Assim que se posta ao lado do garoto o neto cochicha num tom discreto:

 -Vô,  abaixe e faça de conta que ta vendo algum defeito - O velho, surpreso e sem nada compreender satisfaz a vontade do neto, porém sem deixar de questioná-lo:

 -Que foi agora, seu filho dum camundongo?

 -Vô! O senhor viu que bárbaro? Os olhos da avó da Laura são azulzinhos! - Diz o neto com um sorriso maroto estampado na boca e no olhar.

-Sim, reparei! São azuis e muito bonitos! Mas..não vejo qualquer problema! - O velho se faz de dissimulado numa clara tentativa de dar o fim  na conversa.

-Ih vô, quer para de me tratar como criança? Sabe.. não nasci ontem! - O neto murmura num tom de empáfia.

 -Como assim? - Pergunta-lhe  avô, insistindo em fazer-se de desentendido.

-Ara vô, eu percebi a troca de olhares entre vocês! Sou capaz de apostar que alguma coisa ta pegando. Quer saber mesmo, vô?

-Saber o que, seu caneloni apimentado? - O ar de surpresa e de dúvida ainda permanece estampado no rosto velho.

-Ora vô! Parte pra cima dela que essa coroa é das boas! - Ele diz para o velho e ri algo malicioso. O velho permaneceu estático, atônito, só houve um tempo de agitar o braço numa ameaça murmurada:

-Seu filho duma jararaca! Vai ver a tua bunda quando chegar em casa! - O velho responde irritado, agitando os braços nervosamente.

-Calma vô! O senhor tá dando bandeira. Olha lá a avó da Laura  prestando atenção na gente! - O garoto devolve com um riso mais acentuado, enquanto toma o assento de sua bicicleta imprimindo força nas pernas, distanciando do avô,  retornando à companhia de Laura.

O velho agita a cabeça discretamente em negação e depois faz o trajeto de volta com um sorriso insosso incrustado nos lábios.

 -Algum problema com a bicicleta do Felipe? - A mulher pergunta com certa apreensão assim que o vê pela frente.

-Não não, nada não dona Maria Cecília, fique tranquila! Foi apenas a correia dentada que escapou dos dentes.

-Ah que bom que não foi nada sério - Ela devolve aliviada. Depois se veste num sorriso e propõe: Seu Domênico, vamos combinar que a partir de agora poderíamos apenas nos tratar por  Domênico e Cecília?

-Sim, claro, combinado! Seremos Domênico e Cecília - Assentiu satisfeito

E o velho lhe sorri um sorriso de quase todos os dentes, e havia nele a esperança e a nobreza do espírito. Não podia negar algo ardiloso, talvez até tramado pelo neto. Sim, houve alguma mentira, pouca, mas por vezes  necessária para ajudar aquilo que pode dar certo.
Não podia negar poesia entre o verde das plantas e o cinza das alamedas, e estava tão feliz que seria capaz de compor versos românticos, e eles se misturariam aos cheiros das rosas e à algazarra das crianças.
Entretanto era a hora de partir e ela lhe passou seu endereço para se encontrarem e irem ao cemitério. Despediram-se com apertos de mãos e olhares cúmplices e seguiram cada  qual para seu canto.
As bicicletas de Felipe e Laura agora separadas manobravam suas peripécias enquanto Domênico assobiava uma canção dos velhos tempos; Era "Blue Eyes" de Elton John.


Copirraiti 27fev2012
Véio China©

domingo, 22 de janeiro de 2012

Espanhola


I – A Espanhola


-Vem aqui cabron! Quiero cincuenta reales entre los pechos de su Dolores, ahora!  - Ela ordena. 

Gosto disso. Gosto desse seu jeito de cobra e da hora imprevista do bote. Portanto sabendo que vai me pegar de um momento para outro é que coloco a nota entre seus seios e adentro o seu pequeno quarto, sua caverna que fede à perfume e cigarro barato.

Sim meus senhores! Apresento-lhes Dolores, a “Espanhola”.

É uma história tanto complicada. Dela só sei que veio da Espanha, região basca propriamente dita e está há pelo menos dois anos aportada no Brasil. Não, não! Não chegou ao nosso país atrás das folclóricas festas dos bois amazonenses ou dos badalados desfiles das escolas de samba na Marques de Sapucaí. Ela pisou o nosso território à custa dum casamento prometido numa louca história de Internet. Confidências suas e que apesar do pouco tempo de nossa convivência  fez questão que eu soubesse.
Não, Dolores não é mulher de chorar o leite derramado apesar dos seus momentos de fragilidade. E sei disso, pois certamente sou um dos seus melhores e privilegiados clientes.  Enfim, é uma melancólica e arrebatadora história de uma mulher que se apaixonou e que acalantou durante um tempo o grande sonho da felicidade. Felicidade que virou pesadelo a partir do dia que pisou o par de calçado 39 no Aeroporto Internacional de Cumbica. Antes, porém é necessário procurar o fio nesse novelo emaranhado. Vamos a ele...




II –  O Golpe Vagabundo ( O Brasil envolvido)


-Dodô! – Sussurrou com voz adocicada (era assim que o vagabundo chamava a Dolores) - Depois de pequena pausa continuou:

-Sabe amor, de nada vai adiantar você trazer esse tanto de dinheiro ao Brasil já que é quase certo que a Federal vai confiscar a sua grana assim que pisar no aeroporto...

Dolores a tudo ouvia. Ela estava prestes a embarcar para o Brasil e o seu coração estava apertado e as dúvidas corroendo suas certezas. Contudo o que ela jamais poderia imaginar era que estava diante dum sujeito que, além de boa pinta, era frio, calculista, um verdadeiro artista na arte de atuar e ludibriar.

-E outra, amor! Aqui os federais são uns ratos! Esses caras da lei vasculham tudo, inclusive a genitália para ver se abriga drogas nas entranhas. É um terror! - O malandro dramatizou naquela última conversa  diante de webcams.

O homem percebia que causara a aflição da mulher. Agora quase não havia mais dúvida; O ardil seguia em bom caminho:

 - Sí, mi amor. Entonces, qué podemos hacer? Puede usted decirme?

Bingo! Daí para frente foi fácil. O canalha a convenceu de que fizesse em seu nome uma ordem de pagamento. O dinheiro veio dar numa agência dum banco na Avenida da Liberdade. Óbvio, tudo frio, nome, conta, documentos, menos o banco e o dinheiro sacado, claro.


III – A Espanha invade a Coréia


-Dónde está el descarado Eustógio? Quiero hablar com esse hijo de una puta!- Ela irrompeu o local em altos brados enquanto que batia os pés  e balançava as duas mãos nos quadris.

Depois de algum tempo o perplexo coreano  pateticamente  protestou.

-A senhola só pode tá lôca, dona! Aqui tem Istógio nenhum!  Aqui é loja de internet, lugar de ganha pão de Dong Hwan! Vá ploculá a sua turma, vá!   –

Sim, Dong Hwan fora pego de bermudas justas, literalmente,  diante da intempestividade da mulher de corpo farto e encapetado como o próprio demônio.

Claro que não houvera no aeroporto e conforme o combinado o amado juntamente dum buquê de flores para festejar o seu desembarque. E isso ela só foi dar conta após duas cansativas horas de espera no saguão sem que algum sujeito com cara de apaixonado desse as caras e dissesse: - Meu amor, é você? Que felicidade!”- Por fim, acabou desistindo de permanecer ali. Depois disso só restou a esperança de algum contratempo além  das malas e um endereço num pedaço de papel no qual foi deixada pelo taxi. Com o trio de malas na calçada ainda conferiu por duas ou três vezes o endereço e confirmou ser aquele o local que certa vez o homem mencionando ao acaso a aflorada premonição mandou  guardar.

E o lugar não poderia ser outro, afinal, até o telefone para o qual esporadicamente ligava estava impresso na placa indicativa da atividade comercial.  Finalmente, depois de muito olhar para o letreiro, ela entrou e sabemos agora o desenrolar da parte inicial da história. Porém, somando-se todos os infortúnios ainda mantinha-se distante da compreensão da espanhola o fato de ali ninguém conhecê-lo, saber do seu paradeiro, ou de qualquer detalhe que a levasse à presença do indivíduo.

A pendenga perdurava e o coreano tentava convencê-la. E ela por mais que se esforçasse não o entendia e muito menos se fazia entender. De certo só a persistente afirmação do coreano que dizia desconhecer o tal "Eustógio". 
E era esse o motivo que a deixava incontrolável.

- Mi San Antonio, usted no entiende, hombre de Dios! Pero este fue el número de telefono e o local que Eustógio me disse!  Está a cá! – Gesticulava ela mostrando o pedaço de papel

Somente com a ajuda de um moço que acabara de adentrar a loja e que mantinha parco conhecimento da língua espanhola é que o coreano tomou ciência do que pretendia a mulher.


IV – A Coréia contra-ataca e a Espanha bate a retirada


-Ahhh sim! Agora entende, mas Dong Hwan tem nada a ver com isso!  E esse telefone é de lanhouse e não desse pessoa. Hwang ás vezes emplesta telefone pra fleguês! Só isso!

Foi então que a seu modo tentou explicar para a espanhola que era um serviço a mais que prestava aos seus clientes. E para isso era necessário apenas que o cliente fornecesse para ele o número de quem faria a ligação e ele a transferiria para a cabine assim que  fosse identificado no aparelho.

-Ta pecebendo minha senhola? - 

Ele tentava mostrar como as coisas funcionavam apontando para um caderninho onde fazia as anotações dos números e depois para o  moderno aparelho telefônico com o identificador de chamadas e transferência de ramais. Para que não houvesse margem de dúvida ainda a levou  para uma das cabines e lá mostrou o interfone que só se prestava para receber as chamadas.

Ela, por sua vez insistia na leitura dos lábios do coreano e às explicações do recém chegado, porém compreendia porcamente o que dizia um e o outro.  Por fim extenuada desistiu de tudo e também daquele coreano maluco que dera de mostrar aparelhos e sistemas que ela jamais conhecera. Trágica, apenas persistia olhando o ambiente e pras máquinas diabólicas manejadas por garotos que jogavam games em rede e que berravam tão medonhos quanto furiosos gorilas. E se não bastasse, os seus gritos  se juntavam aos ensurdecedores tiros de metralhadoras, às explosões de bombas e minas terrestres, estrondos tão dilacerantes que mais davam a sensação que seria ali o próprio inferno. Foi então que suas lágrimas rolaram pelas faces; Agora ela compreendia tudo; jamais encontraria o patife.

- Que gran desgraciado fue usted, Eustógio! – Bradou ferida de morte ao abandonar a Lan House sem ao menos se despedir do coreano

E foi desta forma naquela fria e melancólica segunda feira que Dolores descobriu que havia sido mais uma vítima dos golpes virtuais.


V – A Meretriz da Espanha em terras brasileiras

-Cómo pude ser tan ingenua e estúpida? –

Por coincidência foram àquelas as recordações que fizeram-na  interromper num sofrível portunhol a nossa "espanhola" de 50 pratas que estava em pleno andamento. O movimento brusco e irritadiço do seu torax fez escapulir o meu pau do meio dos seus peitos.

- Ah mi encantador Pujol... como soy tonta e abestada! – Ela me olha e se desarvora no lamento. Óbvio, irrito-me; tinha que haver maior profissionalismo.

-Ei, ei, Manolita!  Que merda que é essa? Não tenho nada a ver com esse teu lance. Eu paguei 50 pratas antecipadas pra ter o meu bibelô no meio das tuas tetas! Portanto... faça o serviço bem feito!

Não foi um bom momento de esfregar-lhe nas fuças o quanto fora imbecil.  Senti isso em seu olhar rude, estranho, daqueles que não gostam de levar desaforos para casa.

- Oscar, yo sempre me pregunto; cuando su pequeño “pipi” se convierte se em uno de um hombre de verdad? – Ela diz com pouco caso.

Claro, era chacota com o tamanho do meu pênis. Era sua forma de se vingar Mas, quem era ela pra ferir o orgulho de um homem; o que a espanhola pretendia provar com a galhofa fora de hora? Pretendia que eu broxasse? Pois bem, espere!

-Sua rameira catalã! Não é meu pau que é pequeno, e sim os teus peitos que são descomunais! – Devolvi furioso. Antes de tudo teria que saber que eu não era flor que se cheirasse.

Sim, confesso; era o amor próprio atingido. Porém eu tive que atacar aquele indescritível par de seios, dono de um sutiã cujo número nem mesmo sabia como calcular. Todavia a mera insinuação que os seus peitos pudessem se assemelhar aos da vaca leiteira, foi demais.  Ela não terminara comigo.

- No, no! No puedes te quejar jamas, Oscar! O que me paga és unicamente la miesma proporción de tamaño de su “pingulim” Ou seja,  niente! Usted me recuerda a um toro..Um toro capado, Oscar!


VI – O Brasil rendido à “fúria” Espanhola


Furiosa como o touro estocado de morte ela se levanta e recoloca a calcinha de rendas amarelas com pequeno furo numa das nádegas. Continuo olhando enquanto Dolores abotoa o sutiã lilás. Fixo-me na região do colo e sou capaz de apostar a vida que naqueles bojos caberiam tranquilamente duas ótimas bolas de boliche. Depois a vejo dirigir-se à penteadeira, uma peça antiga que abriga um espelho com algumas ranhuras e marcas do tempo.
E lá ela senta e chora. No início um choro contido, calmo como as mansas ondas depois do vento sul. Insisto o olhar no espelho e no reflexo da sua imagem percebo que nela ainda se emoldura algo da nobreza de outrora. Fidalguia da qual ela se desfaz a cada visita dos nossos hermanos brasilianos. Visitas que pagam seus favores sexuais,  que permitem a sua subsistência e o pagamento do aluguel  dum obscuro quarto de pensão onde se esconde.

E ela apenas persiste chorando baixinho, sem estardalhaço, e isso me faz supor as tantas ilusões e mentiras que se fartam nesse meio virtual. E a coisas tomam formas e cores tão dramáticas que me fazem crer que neste mesmo momento outras pessoas estão sendo enganadas, lesadas, passando por situações parecidas ou bem piores que a dela. Ainda penso nisso quando me levanto da cama e visto a calça, abotôo a camisa e ajeito os cabelos com os dedos. A noite para nós está irremediavelmente perdida. Agora o momento era outro; o da necessária solidão para chorar feridas e o pavor  de sair deportada do Brasil.  Mais que ninguém Dolores sabia da necessidade de voltar para casa. Mas ela é altiva, orgulhosa, não é bandida, portanto não pretende sair daqui algemada e muito menos pela ação da sua embaixada - "Prefiro ter essa vida de cão a sujeitar-me aos olhares de desdém dos meus compatriotas" - Ela disse ao sair de lá quando lá esteve numa vez pedindo ajuda para retornar. Óbvio, tinham percebido que ela se prostituía. E isso a preocupa; eles são orgulhosos,  preferem dedurar à migração brasileira os próprios compatriotas que estejam nessa situação

Antes que eu saia Dolores já está em pé e veste um robe de cetim rosa onde notamos visíveis manchas de gordura. Eu insisto com os olhos na sua figura e percebo que ainda há beleza em seus olhos negros, olhos que provavelmente reluziram mais que hoje. Assim que me coloco à saída ela vem em minha direção com a nota de 50 e enfiando a mão em meu bolso se livra dela. Faço menção de protestar, de dizer que não quero o dinheiro, porém ela refuta. E quando Dolores refuta nada a faz  retornar. Ao sair ela beija a minha boca e eu sinto um gosto acre como se ela tivesse degustado uma salada de alho misturado ao atum. Momentaneamente sinto-me nauseado e engulo a saliva e fabrico outra na esperança que o gosto se dissipe ou que amenize.

Ouço o bater da porta e a sua sombra desaparece pela fresta da soleira. Agora sozinho aguardo alguns segundos e retiro do mesmo bolso duas notas de 50 e as coloco juntas e as empurro pelo mesmo vão.
La dentro as luzes já estão apagadas e o que me faz crer que Dolores deságua a dor da saudade com a mesma dolorida frieza dum oceano contaminado pelo vazamento das petroleiras.

-Hasta la vista, baby! – Digo ao lançar um beijo na direção da casa - Juro que não sei o porquê, mas, gosto de você! – Sussurro ao sair pelo portão e dirigir-me ao ponto de ônibus mais próximo.

Assim que o coletivo estaciona subo os degraus encapados por uma grossa borracha negra e acomodo-me no banco ao fundo. O ônibus está completamente vazio e ainda há em mim um resquício do gosto do alho e do atum. Abro e olho pela janela e as ruas se desfazem das luzes das casas. Já é noite quase alta e as pessoas se preparam para descansar no aguardo da ferocidade do leão diário. No primeiro semáforo vermelho o veículo faz a parada obrigatória e eu me esforço para fabricar mais uma pequena porção de saliva.
Ainda continuava nauseado.


Copirraiti 22Jan2012
Véio China©

sábado, 24 de dezembro de 2011

Operação Tequila - The Natal -


Olho para baixo e as pessoas parecem do tamanho de brinquedos. É na sacada do 23º andar que vejo parte da minha  cidade amanhecer e depois repousar. Sento-me na espreguiçadeira e retiro um cigarro da  carteira enquanto observo as luzes natalinas cintilarem  nas janelas e varandas dos edifícios vizinhos.
Algo me incomoda. Levanto e encaminho-me para o peitoril  e novamente olho  para baixo e noto que muitas pessoas zanzam pelos jardins do nosso edifício enquanto outras rapidamente abandonam o condomínio.
É noite de Natal, noite onde cada um de nós tenta  parecer ou sugerir a ideia de ser ou estar feliz. No apartamento vizinho ouço a mesma música de anos anteriores e Simone canta "Então é Natal". Olho no relógio e os ponteiros indicam algo mais que 23 horas, e o "facto totun" diz que em  menos de uma hora champanhes serão estouradas num brinde com os votos de Feliz Natal. E as pessoas sorrirão e serão simpáticas e  trocarão presentes e abraços antes da ceia natalina ser avidamente consumida.

As pequenas lampadas multicolores continuam piscando quando amasso o cigarro no cinzeiro e volto ao bar no fundo da sala e sirvo-me de outra generosa dose do meu Ballantines. Era o meu primeiro Natal sozinho.

-Aristides, seu devasso! Por que essa falta de Deus? – A pergunta me fora feita por minha ex-mulher, um ano antes, precisamente dia 23,  antevéspera do Natal.

-Jesus! Você é uma criatura vil e pecadora! –  Nervosamente ela insista.

Naquele momento, Eleonora deixou cair pesadamente o corpo sobre o nosso sofá  de cinco lugares.
As coisas ficariam muito ruins para o meu lado; É que apenas não percebera que ela chegara em casa e adentrou o meu escritório sem que percebesse que se postou às minhas costas. E qual seria  o motivo para tanta indignação e ira? Simplesmente o que ela viu na tela do meu computador.

Ao vê-la  desfalecida preocupei-me correndo à cozinha e trazendo-lhe um copo de água gelada com algumas gotas do adoçante predileto. Auxilio o copo em sua boca que lentamente ingere o líquido. Se refaz, levanta-se ainda amparada em pernas titubeantes e procura na bolsa a cartela do Prozac; Eleonora é depressiva e viciada em comprimidos. Depois com ela em mãos  vai ao meu computador  e salva alguns arquivos e os envia diretamente para o seu e-mail. Por fim abandona o PC e caminha para o bar das sala onde escolhe a garrafa de um bom vinho do Porto. Escolhida,  ela  a passa para mim; Eleonora jamais conseguiu a suficiente força nas mãos para abrir uma daquelas. Abro e derramo a bebida em sua taça enquanto sua indiferença olha para o líquido rubro  como se fosse ele o sangue escorrido dos meus pecados. Vagarosamente leva a taça à boca e ingere uma boa dose junto de duas drágeas. Fora  pouco; Serve-se mais duas vezes antes que o corpo e  a mente se tornem refém da fluoxetina. Em menos de uma hora está completamente bêbada e dopada, porém me acostumara com aquilo.

No dia seguinte acordo com alguém tagarelando ao meu lado. Era Eleonora que convocava nossos filhos para naquela mesma noite estarem na ceia de Natal. “Precisamos tratar de assunto de vital importância ” ela  diz ao final de cada das ligação - " E por favor, não falte" -. Ela recomenda a cada um deles. Desligado o aparelho e sem me olhar ela  levanta-se da cama como o robbie ajustado ao corpo e retira-se do quarto. Sua atitude me deixou reflexivo já que desde a noite anterior ela e eu não mais trocáramos qualquer palavra.

À noite, precisamente às 20 horas lá estavam os nossos três filhos: Alessandra, 28 anos, psicóloga.  Alberto, 27 anos, advogado, e Kaic, 24 anos, grafiteiro profissional. Ah sim,  presente também Cecilia, nossa caçula de 12 anos e que morava conosco. Sobre ela é aquilo que  defino como a paixão de minha vida. Alegre, inocente, linda, infelizmente Cecília  requer atenções e cuidados especiais.
Após os cumprimentos rotineiros Eleonora se mune do seu notebook e junto dos  filhos se dirige à biblioteca anexa à sala de estar; A reunião tinha o seu início apesar de não compreender a necessidade de  Cecília estar entre eles. A bem da verdade, assim que a porta foi fechada  um pressentimento dos piores se instalou em mim.

Passados talvez uns 30 minutos eles saem com feições carregadas tal qual a minha premonição, exceto os largos risos de Cecília, provavelmente sem compreender o motivo de tanta alegria.  Colocados diante de mim Alessandra convida-me à sala de estar,  talvez por ser a filha mais velha. Como era de se esperar o seu ranço autoritário  assume o comando e ela  exerce aquilo que pude deduzir como perícia psicológica.  Pelo jeito o veredicto seria pronunciado.

- Papai, você sabia... - Ela começa empurrando para cima os óculos que deslizam pelo nariz - ...que meus amigos psicanalistas comentam que hoje em dia o sentido de culpabilidade dos pacientes não é mais fundado sobre o interdito, mas sobre esta injunção de pretender o prazer? - Nesse ponto ela assume um tom professoral. Aí finaliza entregando-me o troféu " A carapuça do ano" - Agora, assim como o senhor as pessoas não mais se sentem culpadas quando têm prazeres ilícitos ou infiéis, e...

Deus! Eu não suportava aquele blábláblá acadêmico. Seguramente  o que me irritava em Alessandra era aquele fanatismo por Freud, Lacan e tantos outros.  Para mim e sem exceções eram  uns desajustados.
Eu olhava Alessandra e ouvia-lhe a voz e assumia que eu fora um dos responsáveis por sua mocidade enfiada em livros acadêmicos  e nas salas de aulas de duas faculdades. Terminadas ambas sobraram-lhe responsabilidades mas, faltaram as alegrias de um bom casameto e um par de filho brincando num play ground qualquer. Aliás,  houve o casamento, porém, outro dos seus enganos.
Eu persistia o olhar nos seus lábios carnudos e percebia claramente  que a solidão cobrava o seu preço ao deixar-lhe a alternativa dum próprio e concorrido consultório na charmosa  Avenida Europa. Aliás, eu sabia muito mais sobre o seu sucesso; Ricos, como três mais três são seis, sempre supusseram-se problemáticos; Óbvio que a tese jamais se aplicaria a mim, um rico de raízes humildes e dos pés e mãos fincados em terras de produção de laranjas.  Sendo assim, Alessandra nada poderia trazer que me fizesse modificar a postura ou alterar a visão que eu tinha da vida e dos problemas que enfrentávamos.

Porém não era somente Alê a dona de todas as verdades desse mundo caótico. Agora era chegada a vez de Alberto, um rapagão de  inteligente rara, mas de tão baixa- estima como a  de se tornar atormentado pela traição de Claudia, sua ex- noiva, roubada por seu melhor amigo e bem debaixo de suas lentes esverdeadas.  Após veio o cancelamento de um casamento que tinha tudo para ser pomposo. Lembro-me que naqueles dias, amargurado,  apegára-se à mãe como se ela pudesse protegê-lo mais essa vez  e evitar que seus  olhos marejassem além do sugerido pelo bom senso.
Portanto com aquilo que ele poderia supor como "coincidências"  é que chegou a sua vez. Sem dúvida que defenderia a mãe a qualquer preço, ainda mais agora  preso pelo cordão umbilical.

- Papai, na separação judicial litigiosa o cônjuge protagonista da separação tem que comprovar os motivos elencados no artigo 5.o da Lei do Divórcio - E pelo jeito foi nisso que o senhor incorreu; em grave conduta de desonra...

Ainda com a severidade citou que o artigo estabelecia que a separação judicial devia ser pedida por um dos cônjuges quando esse imputasse ao outro a conduta desonrosa ou que importasse em grave violação dos deveres do casamento... - Nesse instante ele faz uma pausa, dessas que tentam impressionar o corpo de jurados para uma sentença favorável; Provavelmente para ele ali não estava o pai, mas sim o réu.

Por fim acusou-me de permitir que a situação chegasse nesse ponto de incompatibilidade. E ele estava certo. Era esse o preço a ser pago por ter sido pego com a “boca na botija”.  Poxa vida!  Por que Eleonora aparecera naquela hora?

Foi o instante que a eloqüência jurídica de Alberto foi abortada por Kaic. Ah! Ele também necessitava tirar uma lasca do pobre Aristides. Porém, o que Kaic poderia me dizer? Justo ele, um sujeito de vida tão aparvalhada, envolvido com escândalos, meretrizes e boemia?
E ele disse o previsível,  porém de forma bem menos sofisticada que os irmãos:
-
-Aí  velho! To sabendo do teu Hip Hop com a gringa do MSN. Pelo jeito tua casa caiu! O que você fez foi crocodilagem das grandes. Ainda mais porque a mãe te pegou. Sabe mano, esse lance de pretender ser Freestyle não combina com você!

Despejou de forma jocosa. Eu sentia o seu sarcasmo ante os implacáveis olhos de Eleonora.
Após, simulou calma voltando- se para a mãe num tom demasiadamente forçado, desses que por  mais que nao queiramos acabam por soar falso.

-Sabe mãinha...Se esse lance tivesse sido comigo eu chamava os Ratos de cinza. Olha minha mãe, saiba que sempre estarei no mil grau contigo. Pode confiar! - Para finalizar abrandou a voz - Apesar de que às vezes você minha mãe parece-me algo "Wilde style", porém isso não quer dizer que  te considere uma Toy -

Eleonora, perplexa,  olhou para ele e não emitiu qualquer comentário. Da minha parte freei a vontade de rir, afinal, não um bom momento. Ah sim, sobre Kaic apenas a elucidação que passou duas temporadas grafitando murais de Salvador. Portanto o “meu rei” e “mãinha” eram mais que justificáveis.

Naquela mesma noite fiquei matutando sobre o seu palavreado de maneirismos e a curiosidade  fez-me procurar na internet alguns desses significados do universo hip hop. E encontrando algumas traduções  consegui compreender o recado que o "Brow" nos dera, principalmente sobre os tais  “Ratos Cinza” que significavam o uso de força policial. Depois, na parte mais amena me julgou um "free"  no “Freestyle” ou seja; um sujeito libertino, porém muita responsabilidade.  
A parte que coubera à Eleonora se encaminhou com mais suavidade, já que “Wild style” é alguém que não se faz entender por completo, e “Toy” que condiz com a pessoa que não faz o mal, que não é má e nem pretende prejudicar alguém.

Terminada as colocações  Eleonora pigarreia e depois de certa que a garganta encontra-se limpa e que sua voz soaria será audível, dirige-se para mim. A sua feição é dura, e a voz também.

-Aristides, eu quero o divórcio! Ouço o seu pedido com a máxima atenção.

-Sim, eu dou! - Concordo. Era mais que sabido que o nosso casamento vivia de indifrenças e horas extras.

-Aristides, também pretendo ficar com a casa – Ela diz apontando o indicador para o piso de jacarndá.

-Claro! Tudo bem. –  Aceito. Pelo jeito a primeira parte do acordo estava am andamento.

Depois dos advogados veio o acordo  dos bens, o valor da pensão pensão judicial e a necessária paz para estar  neste apartamento de quatro quartos e três suítes encontrado às pressas. Apartamento que não me exime da análise de nossa vida e da probabilidade do casamento ter feito água após o nascimento de Cecília. E concluo dessa forma porque sempre nos fora  difícil aceitar que ela era um bebe dotado de excepcionalidade. É é mais que provavel que até hoje culpemos um ao outro pela gravidez  fora de tempo e imprevista.  Contudo,  depois de constatada a tal anomalia tentamos a fé,  promessas, ofertórios e tudo que um bom cristão possa imaginar.  Lembro até que num rompante da crença fomos à Aparecida do Norte certos de  que providências divinas seriam tomadas e elas  livrariam o nosso anjo de toda e qualquer imperfeição.  Não deu certo e nem a foi a fé que faltou; Talvez Deus tivesse outros planos para nossa garotinha.

Daí em diante eu me vi desmoronado nos caminhos do Senhor. Eleonora não, contrária, se apegou á Deus na espera que ainda se operasse o milagre.  E não fora unicamente a Deus que ela se apegou, mas  também aos ansiolíticos e o vício da bebida. E isso isolava nossa vida comum que aos poucos deixava de ter coisas em comum; Eu ia ao futebol, ela, à missa. Ao jantares e comemorações, ela, às novenas. Eu precisava de sexo, eventual, porém ela abraçara o celibato apesar de se permitir uma vez ou outra, aliás, talvez nem fosse ela, mas sim a bebida.
E o que já não vinha bem piorou quando insistiu em colocar um imenso quadro de Cristo defronte à nossa cama. E mesmo bêbada já não me permitia ver partes do seu corpo e nem sentir o cheiro bom dos seus perfumes de mulher. Ainda tentei por quatro ou cinco vezes fazer  amor diante da imagem santa. Porém a frieza  de Eleonora aliada aos espetaculares olhos do filho de Deus freavam toda e qualquer iniciativa. Por vezes eu fitava o azul dos olhos  e eles parecia um oceano ameaçador; Sempre tive para mim que os olhos  daquela tonalidade eram mais desafiadores e penetrantes dos que quaisquer outros. Assim, com pouca intimidade eu e Cristo também fomos  nos afastando e tornando-nos indiferentes ao outro.
Quanto a mim e a Eleonora os nossos  antigos traços de intimidade cúmplice foram exaurindo  até se extirparem de vez. Não restara mais nada. Não havia conversas, críticas ou incentivos, mas apenas a indiferença, a bebida e os ansiolíticos. Lembro duma vez que vendo o barco naufragar tentei uma conversa com Jesus quando disse : “Ei filho de  Deus, você pactua com tudo o que está acontecendo?” - Como resposta eu só obtive o exuberante olhar azul além do temor que ele me causava.

E assim,   meio que sem eira e nem beira é que fui me afastando de Eleonora até chegar àquilo que os experts em internet taxam de "SECOND LIFE" -  Ou seja uma outra vida,  virtual -  Na época recordo-me que pouco conhecia desse mundo virtul,  fato que persistiu até que o chefe do RH da empresa me ensinou os caminhos e eu comecei a navegar. Foi com ele que descobri as salas de bate-papo, que aprendi a interagir com as pessoas e esquecer-me um pouco da solidão. E essa vida virtul acentou-se quando Eleonora mudou-se para um outro quarto vago sob a alegação de que eu roncava e que isso não a deixava dormir, numa argumentação estranha já que eu roncara por toda uma vida.  Com os corpos e quartos separados comecei a usar a internet de forma intensa e descobrir outros sites de relacionamentos. E foi num daqueles que conheci Tâmara, a “gringa do MSN”.  Á princípio meu relacionamento com aquela mulher 15 anos mais nova foi cordial e respeitoso. Entretanto, o tempo e a carência que esbofeteiam as faces dos solitários fizeram- nos aproximar até tornarmo-nos tão íntimos quanto cúmplices naquele nosso novo jogo; o sexo virtual, o qual, infelizmente foi presenciado por Eleonora naquela ocasião.

E aqui estou na solitude desta noite de Natal. Eu gostaria muito  mas,  Tâmara não poderá estar comigo já que está às voltas com um casamento tão fracassado quanto o meu. Enfim,  ela é persistente e aguarda o milagre num marido que a valorize, corteje e que ache o seu corpo e sexo mais atraente que aqueles que lhes são dados de forma gratuita ou que o seu dinheiro tenha que comprar. Enquanto o milagre  não se realiza, Tâmara insiste na crença das mudanças fazendo que não percebe o sentimento que nutro por ela.  E eu não tenho pressa, pois a precipitação nunca foi e jamais será o meu forte. Não vou forçá-la e nem pressioná-la, mas chegará o dia que ela notará que o seu jogo de canastras foi vencido mas,  que não foi por ela. E é desse jeito que aguardo o desfecho de mais uma novela,  uma mais às tantas que a vida sempre nos impõe.

É nisso que penso  quando ouço um "plim plim" distante que me avisa que o peru á Califórnia está no ponto . Vou á cozinha e retiro do microondas uma dessas embalagens prontas que comprei numa rotisserie próxima de casa. Acomodo no aparelho uma porção de arroz para ser aquecida e vou ao refrigerador  retirar a travessa de salpicão de frango e uma torta de amoras.
Não passam  mais que 10 minutos e a mesa está posta e será acompanhada duma imprevisível garrafa de Tequila. Sim, sei que pode parecer absurdo, mas dei preferência a acidez da Tequila que ganhei de um amigo mexicano. Olho para a bonita embalagem que trazia um pequeno copo estilizado e o retiro da caixa colocando-o sobre a mesa.

Cravo o olhar no relógio e penso que o bom velhinho bem que poderia estar descendo pela tubulação do exaustor. Insisto na imaginação e sorrio; Sim! Mas o que poderíamos dar de presente um ao outro? Talvez um bom scotch de 25 anos?  Uma vodka polonesa ou russa?   Eu reflito sobre a sabedoria daquele olhar de quem tem sobrevivido aos séculos e  tento supô-lo-o safado, passando a mão no rabo da estarrecida  Matilde ,minha fanática empregada evangélica - "O sangue de Cristo tem poder! Aos quintos dos infernos satanás barbudo!" - Ela o excomunga enquanto o bom velhinho mescla os infinitos “HO HO HO”  aos ébrios soluços da bebida.....

Continuo a escapulir de mim e persito delirando enquanto outros devaneios me tomam  a mente  levando-me a questões absurdas e insólitas. -  Será que algum dia Papai Noel ficou de pileque? - Sem qualquer indício ou pista eu abro a  Tequila e abasteço meu copo duma dose farta que me queima as estranhas ao percorrer um emaranhados de capilares - E se eu e o velho Noel convencêssemos algumas garotas “da noite” para nos brindarem com um “pulling dance”?  Heim? - Dessa vez aquilo que há de devasso em mim o imagina  excitado  num momento que suor lhe banha o rosto e o óculos tal qual o de Alessandra desliza no  nariz de tez oleosa.  Porém Papai Noel é íntegro e  perturbado com  a proposta não permite que elas se dispam, abortando assim a pecaminosa dança - “HO HO HO” -  O bom velho brada ao colocar-se ao lado do seu véiculo de  ilusões  -  “Entrem garotas.Todos nos esperam!" -   Ele as convida  para uma volta ao redor do mundo no trenó encantado – “Há muito trabalho para fazermos!” –  Bonachão ele brada para elas ciente de que não está solitário, agora. Elas se mostram surpresas e aceitando o pedido tomam seus assentos - “ HO HO HO. ADIANTE!” - Ele ordena assumindo as rédeas, incentivando  suas renas para o  alucinante voo  daquele serviço que executa com  a mesma presteza de sempre . - "HO HO HO” - Eu o vejo feliz ao zarpar  com destino à imensidão do nada; Ele  sabe que nesse dia o Planeta lhe pertence. E ele vara o espaço e seus "HO HO HO"  ecoam pelo universo, de polo a polo, de mar a mar até riscarem todos os ceus e à tempo de se livrar de todos os seus embrulhos. E eles, um a um são jogados por todos os cantos diante das garotas  que gargalham depravadas enquanto suas  saias, la no alto , deixam à mostra nacos de suas coxas alvas e indecentes....

- Ou Ou Ou......... - Acorda-te Aristides! Ordeno para o pouco que há de sóbrio em mim,  incrédulo das minhas tantas sandices quando o telefone chama. E eu olho para ele que nervosamente reverbera em meus ouvidos num claro sinal que não pretende parar. Com alguma  dificuldade motora saio trançando as pernas e  vou atendê-lo; Eu precisava dar um fim naquilo.

-Alôuuuu! É o  papai? – Eu reconheço a puerilidade da voz da minha garotinha.

-É claro que é o papai, filha! Estou morrendo de saudades de você! – Respondo, feliz. Ao fundo e do outro lado ouço a voz de Simone numa antiga canção de Natal. Emociono-me.

-Papai, sabe de uma coisa? -

-Não filha! O que?

Silêncio do outro lado. Aos poucos percebo o estralos de sua língua ao encontro do céu da boca; Geralmente ela o fazia quando algo a excitava ou a deixava ansiosa.

-Papai, você sabia que amo você? – Ela confessa, pura e delicada como sempre.

-Claro que sabia! O papai também te ama muito, filha! – Eu fazia o possível para renegar as gotas que ameaçavam brotar abaixo das pálpebras.

-Papai? - Ela pergunta continuando a estalar a boca.

-Sim filha!

-Sabe que acho o senhor muito “espétinho”?  – Eu sorri; Cecília sempre teve dificuldade com essa palavra. Certamente ela pretendeu falar “espertinho”

- Eu sou sim! E você sabe o que é? Você é o meu chocolate branco, a minha doce paixãooooooooooo! – Prolongo a sílaba final; Cecília adorava quando eu lhe falava daquele jeito.

-Papai...Eu sinto muito a sua falta, viu?  Um Feliz Natal pro senhor! - Ela conclui.

Em seguida a ouço desligar do telefone. Repentinamente, como se fosse uma onda extraordinária sinto-me invadido por uma sensação melancólica que agora não me polpa as lágrimas. Tento bancar o durão e dispenso-me de usar guardanapo da mesa e procuro me afogar em outras recordações quando percebo o resto do whisky deixado no copo ao lado do da Tequila – “Sim cara! Você bebeu muito, muito!” - Confesso cheio de repreensões - "Seu maledeto! Pretende acabar comigo?" -  Brigo com aquele dedo de ótimo malte. Eu continuo a olhar para o líquido como se me devesse algum pedido de desculpa. Naturalmente, nao houve qualquer resposta -  Talvez o Sr. Ballantines não pretendesse perder o seu tempo comigo....

Lá fora, agora,  a algazarra é intensa  e  gritos de comemoração são ouvidos enquanto e o céu se colore do espocar dos fogos. Vou à varanda e clarões de todas as matizes riscam o céu  deixando  rastros duma homenagem mais que merecida. Olho para a noite tão diferente de todas  e tudo me parece dotado de racionalidade e lógica. Continuo olhando para aquelas cintilações multicolores e sei que em tudo há a esperança  tanto quanto existe o bem e o mal, o amor e o ódio,  o negro e o branco. Retorno para a cozinha e tomo  o meu lugar à mesa e sorvo mais uma Tequila que desce queimando como as abrasivas cascaveis dos desertos mexicanos. Uma a uma trago na minha direção as travessas da ceia e sirvo num prato de dimensão avantajada um pouco de arroz, uma colher do salpicão, farofa e um bom pedaço do do peru à Califórnia. Tudo me parecia estar muito bom.

"Ho Ho Ho!" Feliz Natal, Aristides! - É como se a quimera ouvisse diante a fantasia dos meus olhos que flagrava o bom Noel saindo pela tubulação e despencando pela coifa. Insisto no duto  branco  duma tinta martelada à espera dum milagre igual o de Cristo ao multiplicar os pães e dividir o vinho. Insisto mais um pouco e nada acontece e jamais acontecerá. Fixo a mão que segura aquele copo de formato estranho e o sujeito de vidro mais me parece um dos  muitos cucarachas que se perdem de sua terra assim como distancio-me dos meus. E a cena  parece fazer algum sentido e mesmo sem  a noção exata do que faço ergo o copo num brinde vazio: "Feliz Natal, Aristides!" -  A mão ainda o mantém no topo quando patético volto o braço e recoloco o copo sobre a mesa. Sem saber se é o momento da ceia olho para o prato e todas aquelas travessas de prataria e observo um pouco mais além a sobremesa que repousa incauta na  toalha de rendas brancas. Como se hipinotizado atenho-me nela e noto que no  alto  amoras graúdas  duma coloração rubra imergem numa calda encorpada e de um vermelho menos intenso. Persito no olhar à procura dos mais ínfimos dos seus detalhes e percebo que há beleza ali,  há poesia e finalmente há o amor. E um a um aqueles sentimentos e sensações se avolumam e me confundem  transportando-me para a questão que o momento  torna crucial; Nao poderia a vida ser tão descomplicada quanto àquela torta de amoras? - Penso naquilo por uns bons 20 segundos ante os dedos que novamente irão manchar o copo mexicano.

-Talvez...talvez, Aristides - Foi a única resposta encontrada ao completá-lo com Tequila  enquanto  la fora a vida persistia em festas e num oceano de esperanças.


Copirraiti 24Dez2011
Véio China©