sábado, 24 de agosto de 2013

A Balconista

Era um ótimo dia de céu azul e nuvens brancas. Eu estava no parque e aproveitava o sol da manhã para zanzar pelas alamedas e observar os pombos. Vez ou outra marcava ponto por lá e eles me entretinham, e eu olhava os seus pézinhos lépidos e  bicos frenéticos ciscando o chão nervosamente à cata de miolos de pão e outras bobagens que lhes atiravam. Eu achava engraçado a avidez na qual se entregavam aos alimentos, pois provavelmente deveriam supor que tudo lhes seria comida, inclusive as embalagens plástica vazias deixadas por todos os cantos do parque. O fato me causava certa inveja, não daquele amontado de lixo deixado por um povo sem a mínima civilidade, mas do sistema digestivo daquelas aves que, metabolizavam tudo. Fiquei por lá mais alguns minutos observando seus trejeitos e a forma como interagiam, e não percebia qualquer hierarquia entre eles, mas sim a predominância da lei do mais forte, inclusive a de um deles em especial que, estufando o peito e movendo abruptamente as asas se apossava dos nacos maiores dos famintos companheiros. Evidente, nós os humanos também vivíamos numa sociedade parecida apesar de existir entre nós certa preposição hierárquica. Óbvio, oficialmente há o ordenamento, mas a evidência não é o estado da ordem de fato, mas sim a predominância da lei do gatuno, da coisa espúria, do poder que corrompe e é corrompido, mesmo que os partícipes das milionárias negociatas jamais as admitam. Portanto, se assim ocorresse com as aves seria de questionar se haveria entre elas alguma forma de constituição, e em existindo não seria espanto rezar em suas cartilhas o maldito blá blá blá de sempre, a teoria do "somos todos iguais perante a lei", claro, coisa que só inglês consegue ver.
Bem, perdido na estupidez desses pensamentos passaram-se mais de 15 minutos, e eu me sentia enfadado, portanto resolvi me mandar dali antes que mandasse tudo e todos a puta que pariu. Ao abandonar o parque me lembrei de algo importante, logo, rumei para a drogaria mais próxima. Eram dez horas em ponto quando encosto o umbigo no balcão.

-Moça, por favor, duas Jontex lubrificadas – Peço para alguém na posse dum sorriso comercial.

Evidente, eu estava constrangido, pois nunca havia visto naquela farmácia a figura feminina atrás dum balcão. A resposta veio com outra pergunta, fulminante, descabida. Novamente cravo os olhos na garota, e ela não deveria ter mais que 16 anos, a mais linda querubim num corpo do demônio.

-Pe..Eme ou Ge? – Fulmina-me com expressão maliciosa. Eu a olho desconsertado enquanto a garota dedilha os malditos envelopinhos de preservativos colocados num expositor  atrás de si e na parte interna do balcão. Seus tons e olhares me incomodam, e não sei bem o que fazer. Tento a saída clássica

-Por favor, pode me chamar o farmacêutico? – 

Sim, solicitei a presença do dono, já que fatos como aqueles traziam à tona  a minha convicção que homens de negócio deveriam fornecer cursos prévios aos seus funcionários, elucidando dúvidas dos clientes sobre os produtos. Todavia hoje em dia ninguém quem investir  em nada, imaginam que tudo é custo, mesmo que o investimento em treinamento evitasse acontecimentos absurdos como aquele. Talvez ela nem fosse a culpada pela chacota sobre a questão do tamanho, afinal, quem poderia afirmar que seu último emprego não fora no balcão duma loja de confecções? Para a nossa sorte o dono da farmácia acabava de sair por uma porta lateral ao balcão, dessas, estilo vai-e-vem, que comumente vemos nos filmes do velho oeste.

-Por favor, Adamastor, estou envolto numa pequena questão. Pode me dar um minuto da sua atenção? – Solicito-lhe

Adamastor, o farmacêutico do bairro, sujeito sacana e irremediavelmente mulherengo me olha surpreso.
E já que Adamastor é o foco da vez não é impróprio comentar que ele, segundo as más línguas da vizinhança, vivia cercado de problemas, inclusive com o fardo de três pensões alimentícias pagas para suas ex-mulheres. 
E isso me deixava admirado com a sua resistência e fôlego financeiro, pois não é surpresa que grandes redes de drogarias esmagam os pequenos comerciantes ao dominarem o mercado de medicamentos e congêneres, portanto era um milagre que ainda estivesse de portas abertas. Adamastor persistiu me olhando e se manifestou:

-Claro, um minutinho, por favor! – Foi a resposta. Então se locomove lentamente, entra pelo corredor do balcão e ao passar por detrás do bumbum da garota estaciona o corpo, adianta o quadril mirrado e se encaixa no traseiro da menina num movimento amplamente canalha.

Ao presenciar a cena concluí que poderia estar nascendo ali mais um grande prejuízo financeiro e moral para Adamastor, apesar do fato não constituir novidade diante seus eternos problemas com o universo feminino. Olhei para ambos, Chapeuzinho e Lobo Mau, e nele os mais de 60 gritavam desconexos diante daquele rostinho de anjo e corpo do mal. Balancei discretamente a cabeça, pois talvez a idade estivesse prejudicando seu discernimento à ponto de não perceber que entrava numa fria. E o pior; as coisas poderiam ficar  piores, pois a pedofilia, aliciamento ou prostituição de menores eram encaradas com certa rudeza pela legislação.


-Qual é o seu problema, Juvenal? – Ele pergunta ao se livrar da maciez do jovial traseiro. A mocinha meneia levemente as pernas e o bumbum e mostra seus dentes alvos, brindando-nos com um sorriso vagabundo.

-Bem..não há problema algum comigo, Adamastor! Apenas queria dois malditos pares de preservativos Jontex - Respondo para ele - Ah sim...lubrificados, antes que me esqueça – Concluo ainda constrangido. Ele olha para mim, indiferente.

-Ora Juvenal! Para isso poderia ter perguntado à Moniquinha, e ela o atenderia com toda presteza – Devolveu com perceptível  má vontade. Depois emendou: - Ah, não estranhe a brincadeira, pois a instruí para perguntar ao cliente sobre o tamanho do seu preservativo – Pequeno, médio, ou grande. P.M ou G, captou? - Completou num risinho sacana. 

Não, eu não havia captado, portanto olho para ele, incompreensível, expressão que deveria estar lhe questionando algo do tipo: "Você ficou doido, homem?". Ele continuava me olhando, e eu podia notar o ar zombeteiro. Por fim, talvez incomodado pela minha sisuda fisionomia achou por bem explicar o porque daquilo tudo:

-Sabe, Juvenal, é apenas uma toque de bom humor junto ao cliente. Foi a forma mais light que encontrei para quebrar o clima da timidez costumeiramente estabelecido entre os homens e atendentes mulheres.

Ah... agora captei!– Exclamo idiotamente enquanto Moniquinha insiste no sorriso cretino. Olho para ela , para a sua boca de lábios grossos tingidos por um batom provocante, vermelho, quase sangue,  e parece que ela quer me engolir numa só bocada. Ainda demonstrando impaciência, Adamastor solicita.

-Moniquinha, por favor, continue atendendo o meu amigo Juvenal – 

Daí, ainda de má vontade me faz um sinal de até breve batendo na testa os dedos da mão direita em continência. Daí da dois ou três passos, estaciona novamente no rabo da garota e a encoxa. Feito, some pela porta de cowboy.

A moça outra vez se posta à minha frente e retira dois pares de camisinhas lubrificadas do expositor. Sem desgrudar dos meus olhos coloca-os num envelope,  faz a nota e me entrega.

-Pode pagar pra mim, Juvenal – Diz num tom forçado, assim como dessas atrizes  em início de carreira que se imaginam no mesmo status duma Fernanda Montenegro ou Marília Pera. Depois se dirige para o caixa. Penso naquilo por segundos e estranho o seu tratamento e a falta da palavra “senhor”

Vou ao guichê e tiro algumas notas da carteira e as empurro pela fresta do vidro. Ele confere e me dá  o meu troco. Agradeço com um movimento de cabeça e preparo-me para sair da quando novamente sou interpelado por ela.

-Sabe Juvenal, acho que deveriam mesmo implantar esse negócio de P.M.G.

-Hã, como assim? – Questiono. A garota não esquecera daquela bobagem toda. Ela segue adiante.

-Ah, assim, veja...Certa vez sai com um japonês, e pra minha surpresa ele tinha um treco imenso, deveria ser o jegue de Pequim. Num outro lance saí com um cara super musculoso, de academia, bonitão, saradão, e ele me deu um porre de caipirinha de vodka e me levou prum Motel. Nossa! Fiquei ansiosa, excitada, mas foi fria; Ele tinha um pingulinho que, mesmo estando duro coube na palma da minha mão –  Exclamou com os dedos polegar e indicador paralelos e com pequena distância entre si. Aí riu debochada.

Realmente a garota era surpreendente. Olhei para a mocinha que fez de Pequim a capital do Japão, e murmurei um “hum rum”. Antes de dar-lhe as costas ainda ouvi a sua última questão

-Juvenal, desculpe, mas estou muito curiosa a seu respeito – Confessou num tom estranho, intimista assim como o dos amantes.

-E que curiosidade seria essa,  moça? – Questionei, desconfiado e surpreso.

-Bem...bem.. –  Depois de algum embaraço ela arranha a garganta, e assim que percebe que nada atrapalhará a tonalidade da voz, pergunta: O seu é... P...M ou G? 

-Pequeno, médio ou grande....pequeno, médio ou grande - Desconsertado balbucio as palavras, e continuo olhando para ela, e ela, mais que nunca me parece ser uma trepada inexperiente, mas das boas.

Sem que lhe forneça detalhes Moniquinha persiste com o sorriso devasso, e ele macula  a santidade do seu rosto. Foi meu momento de lamentação, assim como também o de Adamastor há 20 anos num buffet próximo dali ao receber os clientes do bairro para a comemoração dos 15 anos de sua  farmácia. 
E o seu lamento naquela noite não deve reviver em sua memória, como deve ter esquecido das dolorosas porradas que ganhou do pai duma ninfeta de saia justa e pernas grossas que se encontrava na festa. Claro, a culpa coube aos seus atos desastrados e à mão boba que insistiu em aliciar o rabo da jovenzinha que, de era à-toa só tinha a pinta. Foi a hora do "deixa disso", de braços apartando os valentões, e só restou a Adamastor aproveitar os cubos de gelo do uísque vagabundo para consolar o enorme hematoma que se formou no olho esquerdo. Terminado o fuzuê, ouvíamos o farmacêutico murmurar "Eu não tive culpa, não tive culpa". Sim, não tinha culpa o safado, e definitivamente ele era um grande cara de pau, pois o mais provável foi o  bumbum ter se locomovido por livre arbítrio até a  sua mão espalmada.

Pois é!  Agora eu também lamentava, um lamento que não era só meu, mas também do meu amigo Sidenafil  religiosamente carregado comigo num dos bolsos da calça. Aquela tentação juvenil estava brincando com fogo, e eu, com meus 55 e barbas grisalhas jamais seríamos tão otários quanto o Adamastor. Pigarreio e olho atentamente nos olhos que se borram duma maquiagem azul e lilás que, combinam com os cabelos tingidos fortemente de ruivo. 

-Olha moça... Espero ansiosamente por essa mesma pergunta daqui dois ou três anos. Tudo bem? – E pela primeira vez abro-me num sorriso franco e honesto.

Como minha resposta ela gargalha estridente e requebra um samba como se fosse a passista campeã do carnaval carioca. Não há música, mas há as pernas dela e um sapato de salto 8, réplica ded marca famosa. E Moniquinha persiste requebrando...requebrando, até cessar a dança e o sorriso desaparecer dos seus lábios grossos.
Definitivamente aquela garota era louca, além duma descomunal porta de cadeia.

Claro, gora não havia qualquer dúvida; Adamastor estava ferrado!


Copirraiti23Ago2013
Véio China©

sexta-feira, 12 de abril de 2013

- 2182 - Odisseia sobre terroristas, putas e o país do futebol


Part. I  - 2182 – O caos e a última geração humana

Estamos no ano de 2182, e eu com 82 ao nascer cem anos após a virada do segundo  milênio. Todavia algo de muito incomum acontece, pois desde os primeiros meses de 2122 não se teve notícia da geração de vida humana. É situação complicada, e ao não criarmos vida tornamos este mundo num ser velho onde a população decresce a cada ano e em ritmo assustador. Outro fator de preocupação são os inexistentes locais urbanos para a criação de novos cemitérios, pois os que aí estão se abarrotam de valas e corpos, mesmo que, inexplicavelmente a expectativa de vida tenha aumentado, pois mesmo doentes tem muita gente vivendo próxima dos 100 anos de idade. Sobre a falta de ofertas e a exiguidade dos espaços nas grandes cidades especulam que o Poder Central estaria tramando projeto de lei onde a cremação de corpos passe a ser obrigatória, e esta sim, mesmo que desumana por ser ato de arbítrio, reduzirá substancialmente o consumo de velas,  o trafego caótico, assim como os exorbitantes preços das flores, principalmente nos dias das mães e finados.
Agora e a bem verdade o fato de não mais concebermos a vida tornou-se mistério e me deixa incomodado ante a indiferença da maioria, quase num esquecimento global. Todavia é assunto que sempre que vem à tona gera controvérsia,  pois a própria ciência calou-se à época dos fatos, permitindo que a raça humana criasse histórias e lendas sobre a desgraça, principalmente a de que ela estaria ligada à três possíveis fatos que, de forma ou de outra se interligam por questões religiosas.


Part. II – Católicos & Fundamentalistas contam suas histórias

Sim! As mentes ainda permanecem criativas e fervorosas apesar de nossas idade, e assim há aqueles que  abraçam a tese de que o Deus do catolicismo seria o gestor da improdutividade dos nossos pobres óvulos e espermatozoides. E dizem mais ainda; que o castigo foi obra do seu aborrecimento diante dos nossos caminhos de pecados,  devassidões e o fruto do desamor que nos fez afastar dos seus 10  intransigentes mandamentos.
 Em contrapartida há a versão dos fundamentalista islâmica, e ela afirma que o plano foi arquitetado por vingança ao assassinato de Osama Bin Laden, dado em 2011,executado pelas mãos dum soldado americano, mesmo que 110 anos distanciassem da data da contaminação de 2121. E sobre ela os Fundamentalistas afirmam que foi executada por cientistas europeus recrutados à preço de ouro pela Al Qaeda, criando nos laboratórios clandestinos o vírus anticonceptivo. E o curioso da versão fica por conta de que a disseminação viral deveria abranger unicamente os reservatórios de águas potáveis das cidades norte-americana, o grande Satã. Porém por descuidos de observância a fórmula acabou por cair em mãos dum grupo  Xiita ultra radical radical  através de um dos mercenários daquela equipe científica, cobrando um valor  três vezes maior que o ouro recebido que na primeira vez. Saliente-se que esses grupos xiitas não mais acreditavam na existência dum mundo como era concebido, pois além de seus próprios povos estarem contaminados pela filosofia libertina e consumista do ocidente, havia dolorosa realidade do seu povo não mais acatar os preceitos de Maomé. Portanto não só os Estados Unidos, mas também a própria existência deveria ser punida e exterminada, mesmo que à longo prazo. E desta forma e em nome de Maomé enviaram extremistas para todas as partes do mundo que, inseminaram o vírus nos leitos dos rios de todo o planeta


Part. III -  Os Evangélicos também tem a sua versão

E por fim há a versão divulgada pelo gigantismo da igreja Universo do Templo do Senhor, do Bispo Emir Macedo Stewart. Com respeito à essa história contam os  bastidores que a finalidade da Universo era a de capturar para os seus templos os milhões de adeptos da arqui rival  "Deus Não Suporta tanta Dor" imputando à esta última a contaminação virótica , inclusive bem assemelhada à versão contada pelos Fundamentalista.  Por consequência a fofoca evangélica persiste até nos dias de hoje como o carro chefe nas pregações dos pastores da Universo, as quais dão conta que a fórmula foi conquistada pela Igreja rival  através do cientista chefe da missão, já que aquele, acometido de grave depressão pelo flagelo imposto ao povo norte-americano, procurou os caminhos da paz nos braços de Deus convertendo-se à  "Deus Não Suporta tanta Dor". E sobre ela é necessário esclarecer que o carisma do seu fundador Reverendo Clodomiro Santiago Jones era tanto, e o seu poder de indução e convencimento tão espetacular que, em menos de duas décadas a igreja já congregava milhões de fiéis, mantendo templos espalhados pelos quatro cantos do planeta. Logo, a "Deus Não Suporta" era uma pedra no sapato da "Universo"

Afirmam ainda as fofocas da "Universo" que à princípio a conversão do cientista não fora o suficiente para dar cabo às dores de sua alma, e ele precisava falar, confessar, pois talvez a sua paz estivesse nos braços do Reverendo Clodomiro, homem de Deus,ele sim capaz de lhe trazer o conforto e o perdão divino.
Daí para frente não foi difícil, e o depressivo cientista foi lobotomizado pela esquizofrenia do Reverendo,  e convencido por este a recriar o vírus, logo, o sofrimento de Deus não seria perene. - " Está próximo o grande dia que a justiça de Deus se dará pelas mãos de algum humilde servo" - Rotineiramente pregava o Reverendo Clodomiro Jones, pois para  ele o homem era  o grande mal que afligia o universo, portanto merecedor de sofrimentos e privações até que houvesse o dia sua redenção. E foi diante deste quadro que a marionete científica, refém da psicopatia destrutiva de Clodomiro acabou por ceder aos argumentos e recriá-lo na mesma forma líquida,  límpida e inodora. E o grande dia da redenção chegou, e as ações despontaram universais, concatenadas através dos abnegados obreiros que misturaram a química virótica às margens dos grandes e pequenos rios. Evidente, todos foram  iludidos ao acreditarem que a água contida nas milhares de garrafas  fosse ungida pelas orações do Reverendo Clodomiro Santiago Jones, e quando ingerida pelas populações sofredoras possibilitaria o alívio para os seus males, afinal, era isto o que lhes afirmavam as vozes dos fanáticos pastores, igualmente tapeados pelo fundador.

Certamente e segundo todas as versões o fanatismo religioso esteve por trás da execução, e não acolho nenhuma. E o difícil em creditar está ligado ao fato dos mandantes não pleitearem a morte química de imediato, aquela que lhes tiraria a vida naquele mesmo ano de 2121 ou seja; todos pretendiam viver, e que recaísse para uma geração futura o ônus do fim da existência. Sobre a história contada pelos católicos fica mais difícil ainda, pois ao acreditar que Deus nos tivesse negado o direito à vida seria o mesmo que aceitar que houve  Paraíso, Eva e a maçã, por conseguinte a excluí também. Todavia aqui não estão e nem mais a esta vida  pertencem os falecidos Emir Macedo Stewart, Clodomiro Santiago Jones, e o líder terrorista da rede Al Qaeda de então, pois se aqui estivessem talvez conseguíssemos saber  quem foi quem neste perfeito samba do crioulo doido. Logo o conjunto das três versões traz fantasias que impressionam, apesar de não constituir novidade a rivalidade das religiões, principalmente as ocorridas entre os igrejas evangélicas, bem como as suas manipulações com a fé e o dinheiro dos incautos. Porém seria pura quimera ou ingenuidade minha acreditar num Deus anti-vida, ou os xiitas, ou mesmo que fanáticos  evangélicos estiveram derramando milhares de garrafinhas de água nos leitos dos rios do mundo
Entretanto reconheço; nesse mundo tudo é e será possível, e haverá sanidade, existirá loucura e transbordarão as ideias e o direito às palavras será  amplamente  livre e defendido, mesmo que não acordado. Portanto é bom termos o máximo de certezas quando os pensamentos abandonam nossas mentes, vibram nas cordas vocais e se expelem pela boca, pois por ela jamais retornará e marcará  posicionamento contundente tal qual ao cravamos a pecha de bêbado num sujeito onde o excesso de bebida produziu os transtornos da fala e da coordenação motora.
Todavia, fanáticos, sonhadores,  bêbados e abstêmios dizem o que querem, ouvem o que precisam, e em meio à tudo haverá realidades e fantasias, trapaceiros e trapaceados, aquilo que sabemos e  jamais saberemos, assim como fatalmente em quem ou no que acreditarmos ou deixarmos de acreditar, pois isto é a vida.


Part. IV –  Arbítrios & Censuras e Retrocessos

Agora, afora as celeumas com a infertilidade há de se destacar que estamos num mundo difícil, lento,  atolado em idéias estacionárias, e isso nos transforma dia a dia numa Cuba do passado. Logo, estamos país retrógrado, obsoleto, e onde só há relativa evolução em segmentos que atendam os interesses do governo, como os setores da informatização. Exceto estes, o nosso parque industrial é arcaico, ultrapassado, como por exemplo, das indústrias dos fármacos e automóveis, já que usamos as mesmas drogas e carros há mais de 60 anos. Porém o segmento que mais nos pune é o automobilístico, pois falidas, as grandes montadoras foram fechadas, legando às pequenas fábricas a produção de poucas peças de reposição, o que nos obriga a vasculharmos o  mercado negro, pagando os olhos da cara por acessórios e equipamentos que há muito estão fora de linha.
E essa é a realidade desalentadora, e estamos assim estagnados, à deriva, afogados em retrocessos, pois não há no Poder alguém de competência e que vislumbre a retomada do progresso, pois a temos como nave-mãe,  Vilma Dirceu Inácio, a “Dama de Lata”  a quarta "Presidenta" da  nossa história, mandatária que naufraga nos fracassos da sua política e administração.
A guisa de mero comentário e sobre o termo "Presidente" é bom não perdermos de vista o quanto se perde tempo com tolices improdutivas, pois ainda nos dias de hoje o termo  confronta inteligências e gramáticos, lançando-os em acirradas e cansativas discussões quanto à propriedade ou não do uso, mesmo que a palavra marque lugar em centenários dicionários como o do Aurélio e  Houaiss.

Retornando à questão da anticoncepção e em se levando em conta que os evangélicos, os  xiitas e o pessoal do Bin Laden nada possam a ter com o peixe, é importante conjecturar a  participação de outras potências, apesar de parecer insano a ideia deles mesmos decretarem a morte do homem em tão curto espaço de tempo. Porém alguns fatos  corroboram, pois desde 2121 a Internet passou a ser fornecida e administrada por governos que se exacerbam em acintes moralistas. E é mais que vidente, no Brasil e com a Internet em mãos o primeiro ato foi o de ter acesso à todos os computadores e promover  ações que visassem erradicar tudo que se relacionasse à sexo, exterminando assim  sites de pornografias, sex shop, revistas de nus, ou outros que pretendessem (2o a visão deles) difundir material que corrompesse a  moral e os  bons costumes. Inclusive e a partir daquele ano  os governos obrigaram as indústrias da computação a criar chips inteligentes que, uma vez instalados em PCs aniquilassem arquivos e mídias caso suspeitassem do conteúdo. Convém realçar que tal tecnologia foi desenvolvida  não só para os computadores, mas igualmente para uma gama de equipamentos profissionais ou caseiros que tivessem por objetivo a gravação e reprodução em mídias, assim como são os aparelhos de DVDs.
Enfim, foi refém desse e outros atos arbitrários que  nos tornamos escravos do reacionarismo, expostos ao conservadorismo ideológico como os que acataram as diretrizes impostas por um movimento conservador denominado Tradição, Família e Propriedade (TFP) que atuou de forma mais incisiva em épocas distantes, algo entre os anos de 1960/70.


Part. V –  A prostituta e os nossos velhos hábitos de sempre

E é neste contexto de tolhimento das liberdades, inclusive a sexual,  aliado à população mundial que indica a proporção de uma mulher para cada grupo de três homens é que torna dificultoso relacionar-se com uma dona das boas. E quando surgem as que valham a pena somos capazes de nos engalfinhar por elas e por suas xotas, mesmo que estas sejam experientes e com longo tempo de estrada. E quando encontramos umas  dessas mais novinhas de  60,  aí sim nos deixam loucos e fazem-nos esmerar em gentilezas e desdobrarmo-nos em  galanteios ao remeter-lhes  buquês de flores caras e e-mails com conteúdo sensível e romântico, as vezes até com gravuras de gatinhos e ursinhos.
E talvez pelos fatos narrados é que estranhem  um sujeito de 82 como eu estar divagando sobre trepadas e mulheres. Entretanto há sim o motivo e ele é fundamental; O avanço da ciência médica foi tanto em épocas passadas que nos legaram poderosas drogas que nos mantém  ativos sexualmente, mesmo que próximos dos 90 anos. E graças a essas maravilhas da medicina, agora não tão moderna é que posso usufruir de alguns prazeres, mesmo que em minha idade.

E como o assunto envolve sexo e prazeres não custa relembrar  uma noite ocorrida no ano passado e em qual dei uma das melhores trepadas de minha vida. O seu nome era Judite e sobre ela só posso dizer que tinha 62 anos, bonita, mas que se prostituía camufladamente ao fazer ponto diante da Igreja Rosas da Vida. E a danada era esperta  ao usar o disfarce de vendedora ambulante que comercializava num pequeno tabuleiro diversos  artigos religiosos como medalhas, terços, fitas, crucifixos e outros amuletos, inclusive, penduricalhos que facilitavam e favoreciam o seu acobertamento.
Recordo que naquela fria noite de junho Judite estava ao meu lado no banco do passageiro do automóvel ao entrarmos no estacionamento dum hotelzinho de quinta categoria. É certo que eu estivera por lá algumas vezes à custa de propinas, pois somente dessa forma é que conseguíamos um quarto, burlando assim não a lei do direito, mas a lei de fato, pois o flagrante de prostituição  ou fatos que desaguassem nele  constituía  prisão inafiançável e eventual julgamento e pena judicial.
Descendo do carro e conhecendo um antigo recepcionista do hotel me dirigi à recepção e lhe entregando os meus documentos paguei antecipadamente a diária juntamente do valor da propina. E sobre o suborno é sabido que têm o dom de deixar certos sujeitos em estado de tensão, principalmente os que estão sujeitos à fiscalização relâmpago. E foi a forma que se deu com recepcionista de olhar ansioso e preocupado, ciente que arriscava não só a sua a liberdade assim como a do hoteleiro que, provavelmente no lazer de sua casa nada devia saber. Assim que conferiu os valores Manuel enfiou a quantia do ágio no bolso da calça e me sorriu com dentes amarelados de nicotina,  esparramando no sotaque português as suas recomendações:

-Olha gajo, cá muito me alegro por te ajudar a dares uma cacetada no bofe, mas peça à rapariga que se contenha nos delírios, pois há ouvidos espiões por todos os cantos e paredes do edifício. Gozar é bom, mas é preciso ter responsabilidade, cuides de mim para que eu possa cuidar de tu  – Ao fim de suas falas professorais  me liberou as chaves do quarto. Evidente, só me coube sorrir discretamente para o nosso universo de canalhices.

Certamente eu não desconhecia os motivos de sua preocupação, pois não foram poucos os hotéis tomados e seus donos e gerentes encarcerados por falta da comunicação oficial da hospedagem, ou que agissem de forma permissiva facilitando e contribuindo com os tramites da prostituição. Evidente, seria de total contra-senso não acolher os casais em hotéis, porém, a autorização só contemplava  os pares amorosos que estivessem sob a égide da legalidade civil, fato possível de se averiguar após o registro e  troca de informações via internet entre o estabelecimento e o órgão oficial do turismo. Sim, décadas antes qualquer mortal  jamais imaginaria o arbitrário desses fatos, inda mais de ser a União a detentora de todas informações do indivíduo, mas, efetivamente era assim que funcionava.
Com as chaves em mãos subimos para um quarto no segundo andar e abrimos a porta  de número 21 e adentramos o aposento de três por cinco com um pequeno banheiro incluso. No ar rescendia o  cheiro da naftalina, então  retirei o meu paletó e o pendurei hum cabideiro próximo da porta de entrada. Estirando-me à cama  procurei junto ao console da cabeceira os controles do radio FM e sintonizei  uma estação que tocava exclusivamente Roberto Carlos, um dos imortais do cancioneiro popular. Sim, mesmo que não fosse do seu tempo eu me sentia sendo do dele, apesar de lá pra ter passado quase dois séculos. E outra coisa, Roberto significava para mim algo como Mozart representou para os amantes da música clássica. Bem, deixando Mozart de lado e um pouco mais descontraído aumentei o volume do rádio e ao som de “Eu sou terrível/E é bom parar” desnudei Judite.


Part. VI - Trepadas & Mentiras, Verdades e Constrangimentos

E ela, convenhamos, mostrou-se  atraente apesar dos seios pequenos e flácidos, porém dona de interessantes curvas e duma tez que não trazia na região das pernas e do bumbum o  inexorável estrago provocado pelo tempo e nem as visíveis estrias ou celulites tão próprias das garotas mais novas que ela.  Com coisa levando à outra me despi também.

-Nossa, Mario! Como você tem varizes! – Ela disse ao reparar na parte inferior de minhas pernas. Olhei para elas, para o azulado delas e Judite tinha razão, pois minhas veias pareciam cortar a aridez dos desertos mexicanos com rios de alto relevo.

-Bem, sim, tudo bem.. mas, os seus peitinhos  bem que poderiam ser mais atraentes, não é verdade? – Respondi com uma pergunta. Certamente as suas observações me deixaram chateado, afinal, aquela garota não teria relações com as varizes, mas sim com o meu membro.

Diante do questionamento Judite esboçou um sorriso amarelo, desenxabido, e eu me arrependi de ter falado sobre os seus peitos. Tentando quebrar o gelo retirei duas cervejas do frigobar e dei um gole na minha e abri uma para ela, e não foi sem espanto que a vi consumir a sua cerveja em míseros três longos goles. Peguei outra para Judite, e assim que ela se descuidou com o olhar meti para dentro da goela um “Potentus” um daqueles comprimidinhos azuis que operam maravilhas com nossas auto-estimas e veias que irrigam o pênis. Não, não seria por nada, ou algo de importante,  mas a questão é que sentiria constrangido se ela me visse engolindo um daqueles, mesmo que depois  houvesse nela a certeza que meu desempenho deveria creditado a uma dessas “bombas” da terceira idade. Estávamos indo pro fim da sua terceira cerveja  e eu ainda no início da  segunda quando deitei e abracei o seu corpo. Judite suspirou e procurou a minha boca e enfiou a língua e a espremeu na minha. Foi o suficiente para  me excitar e o pênis içou enquanto ela remexia o seu sexo à procura de maior atrito. Repentinamente ele separa nossos corpos e olha para baixo e na direção do meu pau.

-Olha só, meros 17 centímetros? Que merda! – Ela exclama olhando para mim. O seu olhar parecia desencantado, pois foi extremamente fácil perceber. Ah, cadela filha da puta! - Pensei - A vendedora de araque deveria ter uma fita métrica tatuada no cérebro. Bingo, ela fechara a cartela!  – Disse comigo, invocado.

Enfim, achava sacanagem constranger assim os seus clientes, e talvez ela me fizesse pagar um preço muito caro pela observação dos seus pequenos e flácidos seios. Porém aquilo não me desanimou, ao contrário, me incentivou, eu e o amigo Potentus,  óbvio. E o pau latejou como nunca quando a penetrei e sorvi sua boca de todos os dentes, fossem eles falsos ou não. Dali pra frente eu a possuí como um animal, o rei da selva galgando sua Jane, de quatro, de lado, frente e verso.  E Judite à princípio gemeu, suspirou, depois não mais se conteve e seus ais e uis denunciando prazeres ecoaram pelas paredes, atravessaram portas ao mesmo tempo que dispara o telefone do quarto:

-Hélou! Por favor senhor Mario! Peça à sua sirigaita que se expresse com mais moderação, pois ca ouço  os gemidos da rapariga daqui donde estou na recepção! – Ele esbravejou. Ainda com o interfone no ouvido fiz um sinal para ela ao bater o indicador nos lábios. Judite sorriu, imitou o meu sinal e levantou o polegar da mão direita como dizendo; entendi, tudo bem.

Ficamos por ali enroscados e conversamos sobre  algumas coisas e depois falamos de sua vida, e a dela era como as de tantas outras prostitutas que confessam miséria, culpam a separação dos pais ou a completa omissão dos  familiares  Ao ouvir o seu relato pensei por instantes que deveria existir cursos de prostituição, por debaixo dos panos,  mas deveriam ter por objetivo convencionar a hora do "Beaba" daquilo que deveria ser dito ou não ao cliente.
E ficamos ali tomando cervejas, fumando cigarros até que num  momento o tesão aflorou  outra vez e demos uma rapadinha, porém sem muito alarde dessa vez. Terminado, fui para o banheiro dar uma boa mijada e na volta retirei do frigobar duas pequenas garrafetas de vodca que se acomodavam ao lado das latas de refrigerantes e saquinhos de castanhas de caju. Achei estranho ver os saquinhos ali,  mas talvez o português acreditasse que as castanhas se conservassem por mais tempo se mantidos em temperaturas mais baixas.
Repentinamente estávamos carinhosos, e ela era divertida e eu começava a gostar do seu jeito e sorriso ao consumir a vodca. Terminadas, retornamos  para as cervejas, e rimos bastante, e foi quando Judite quis saber de mais detalhes sobre a minha vida.

- E você, o que faz Mario? - Ela pergunta

-Trabalho com Van de transporte. Pessoas – Respondi.

-Deve ser muito  trabalhoso, não? – Insistiu.

-Sim, muito, mas sozinho. Sou eu e o Guilherme – Respondo secamente. Bem, mesmo  não gostando de falar de mim poderia ter mencionado que estava  viúvo há 10 anos,  e que Guilherme, de 61 anos, seria o meu filho, nascido quase um ano antes da degola dos pobres fecundadores e receptores  de vida. Todavia acreditando que seria mais um motivo para especulações preferi omitir.

-Ah... com o Guilherme...sei, sei, que bom! Então vocês fazem lotação para levar as pessoas ao trabalho?

-Não, não exatamente! Fazemos ponto em agências do SUS, entradas de P.S municipais, estaduais, velório, cemitérios, principalmente em dias de finados, bailes da saudade e em igrejas que tenham missas dominicais,  pois são os  locais mais frequentados por pessoas acima dos 90, logo, o movimento é dos bons. Aliás, por falar em igrejas foi na Rosas da Vida que te conheci, lembras?

-É verdade, lembro sim! - Ela assentiu - Recordo que naquele dia tinha uns cinco ou seis querendo sair comigo, mas é que te achei tão simpático assim que se aproximou. Mas, espera aí! - Ela exclama num gritinho de dúvida - Como você soube que eu fazia programas? –  Judite persiste me olhando com olhos de quem exige a resposta.

-Bem, há muito tempo transito naquela região e o suficiente para saber que todos que se aproximaram de você eram perfeitos garanhões. Inclusive correm boatos que muitos deles deram boas fincadas em algumas beatas do clube das Senhoras da Liga Católica. Portanto foi fácil, pois onde há fumaça há fogo, banana... macacos, putas...salafrários. A vida é enigma só para quem não sabe interpretá-la –  Repliquei num tom divertido e olhar malicioso quando fomos interrompidos pelo som do celular, meu celular.


Part. VII – Odisseia sobre o país do futebol

Olho no visor e reconhecendo o número, atendo:

-Porra, menino, tu é foda mesmo! -  Mesmo antes da pessoa dizer qualquer palavra, antecipo-me. Mas estava tão aborrecido que tive que continuar -  Tu sabes que fico louco quando somes. Sabia  que teus desaparecimentos me matam? Não faça comigo outra vez, por Deus! –  Concluí num tom nervoso. Lógico que estava preocupado com ele, pois nas ruas estavam matando  gente à troco de nada. Era estranho, afinal, como os velhos de hoje podiam ser tão ou mais agressivos que os jovens da minha juventude?

-Quem é? – Judite me pergunta. Ela permanece atenta à conversa e parece preocupada e me olha de um jeito estranho.

-É o Guilherme – Replico. Ela assente com a cabeça enquanto o meu filho continua, sempre tagarela.

-Desculpe pai, sei que deveria avisar, sei que não é comum dormir fora de casa, mas conheci uma loira da hora, talvez uns 67, artista plástica e olhos azuis, linda e os cambaus! Mas, tem outro lace... VELHOOOO!  NÓS ESTAMOS BONITOS NA FITA! – Ele berra ao celular

-Bonitos? Com assim? – Pergunto

-Assim pai, eu recebi um e-mail da diretoria do Corinthians e eles querem assinar um contrato comigo. Pode? Eu nem sabia que o pai do Huguinho era um dos diretores e olheiro dos caras! –  Ele exclamou, feliz. O meu garoto parecia um garoto como eu fora, tal o entusiasmo.

Aqui, e para que entendam m pouco da história, Huguinho, de talvez uns 62, era o companheiro do meu filho no ataque do time de várzea que jogavam. Mas o Huguinho jamais foi o craque, porém meu filho o era, tantas foram as  vezes que o assisti, sempre se destacando com belos gols e jogadas inteligentes, refinadas. Entretanto desconhecíamos o fato que o pai de Hugo fosse um dos diretores do Corinthians.

-Pai? – Meu filho insiste

-O que foi Guilherme? Só falta afirmar que não vamos nos ver hoje! - Reclamo distanciando do futebol e de campos da várzea.

-Claro que vamos! Bora comemorar? Hoje é por minha conta, já que no meu aniversário de 60 no mês passado foi o senhor que pagou o churrasco. Olha...tem um lugar quentíssimo que um amigo me indicou. Ele disse que lá tem umas perrengas legais, cheias de espartilhos e perfumes. Vou te pagar a melhor delas, quer?

-Não, to fora! Estou com uma joia raríssima ao meu lado, talvez algo tão maravilhoso como você!  - Replico com um orgulhoso sorriso de pai cravado no rosto. Judite me olha e parece não entender a conversa, mas sorri encabulada. Lógico que não contaria para ele e na frente dela os detalhes dos seus peitos flácidos, muito menos do tamanho do meu pau que não atingiu suas expectativas iniciais.

-Então está bem pai! Dormirei novamente na casa da loira e amanhã nos vemos lá pras nove da manhã, pois quero que o senhor vá junto negociar meu contrato. Ah... e conforme for vá pensando em se despedir de tua Van, pois o seu novo emprego será de empresário. Topas? Beijos –

-Claro que topo! Eu te amo seu filho da puta! Fica com Deus! E toma cuidado, principalmente com tuas pernas e pés! –

Em seguida desligamos e me enfiei na cueca samba canção e deitando as costas na cama acendi um cigarro e fiquei olhando para o teto, imaginando toda aquela questão. Judite se manteve distante do meu corpo enquanto eu matutava sobre Guilherme e o futebol. Está certo que o futebol de hoje era diferente ao dos nossos antepassados, pois ele é jogado em dois tempos de 20 minutos com meia hora de intervalo para o descanso. Mas mesmo assim reconhecia que o futebol era perigoso, era arma, principalmente para a faixa etária dos sujeitos que o praticavam, pois ativa a pressão arterial,  sanguínea,   acelerando batimentos cardíacos que, às vezes promovem infartos e AVCs, e outras causas menos devastadoras.
Sim, não consigo me desligar das lembranças que dizem que não foram poucos os que pereceram dentro das quatro linhas, geralmente por fatos ligados ao coração. Também não podemos deixar de lado aqueles relegados ao esquecimento diante o acometimento das artrites reumáticas,  bursites, gotas ou aqueles que prematuramente se aposentaram com sintomas das doenças que desafiam os séculos como o diabetes, Parkinson, Alzheimer, além do imbatível câncer como o da próstata e outros.

Porém não era o caso de Guilherme, não agora, pois o garoto é dotado de excepcional forma física, além de ter um coração de touro, afinal vaidoso como é jamais se descuida do corpo e dos periódicos exames essenciais.
Entretanto, mesmo que haja o comprometimento médico ao prevenir e salvar vidas, há acidentes se multiplicando pelo país, principalmente nas estradas por  motoristas sonados ou de reflexos lentos, ou nos ares com os aviões, comandantes, controladores de vôos com isentos de discernimentos precisos. Logo, o futebol, que é paixão mundial, também sofre com as mazelas dos transportes, das viagens,  pois pra ganhar dinheiro, muito dinheiro, o jogador se vê na necessidade de atravessar oceanos e zanzar de lá pra ca e vice versa. E há sim casos onde eles ganham um bom dinheiro em nosso país, raros, diga-se, pois talvez o futebol seja o único segmento que permite alguém nascido em favela se tornar tão famoso como um dono de TV ou  frequentar as festas do dono de um site milionário.


Part.  VIII – A Europa reverencia o craque e a puta despreza Paris

Ah Guilherme! Que Deus te ajude e nunca desampare - Desejei comigo em pensamentos - Confio em teus pés e sei que eles no levarão à Londres, no Chelsea, ou à Madri, no Real, ou quem sabe em Barcelona, Milão, Frankfurt, até em Moscou, e por que não? Afinal a gama de milionários que mais investem no futebol é a russa, mesmo que não saibamos da onde surgiram essas incontáveis montanhas de dinheiro...

-Ah Guilherme, eu te amo, mas, por favor, quero mais, me dê mais! É justo, e quero estar com você em Paris, no Saint Germain. Quero e vou estar com você barbarizando a Europa! Sei que veremos o brilho da Cidade-Luz, a apaixonante  Torre Eifell e suas milhares de lâmpadas que fazem a noite parisiense cintilar como milhões de insones vaga-lumes. Ah, eu quero poder sentar à calçada de bistrôs nas tardes de verão e degustar em cálice de cristal o mais puro vinho produzido das melhores parreiras do universo  –  Repentinamente sou acordado pelo som da minha própria voz juntamente ao da válvula de descarga sendo acionada. Olho para a porta do banheiro e surge Judite. Firmando as vistas  reparo que está totalmente vestida e retoca a maquiagem diante do espelhos de um desses pequenos estojos maquiadores.

-O que foi meu anjo? Que aconteceu? – Pergunto, aturdido, pois no meu delírio com os times e países da Europa perdi-me dela e não dei conta dos seus movimentos pelo quarto. E ela continuava me olhando, e seus olhos eram duro e cruéis e seus lábios tremiam quando sambou um carnaval de insanidades.

-Que foi...o que foi? Ora homem, tem coragem de perguntar? Justo você, uma biba enrustida?

-Mas, como assim? - Questionei assustado com sua agressividade, e sem saber ao que se referia.

-Como assim o cacete, Mario!  Eu falava com você e você nem me ouvia. De repente iniciou frases estranhas, do tipo  “Ah Guilherme, eu te amo, mas, por favor, quero mais, muito mais” Ora! Isso só pode ser coisa de homossexualidade na terceira idade,! Terei que desenhar? – Dito, pegou a sua bolsa, enfiou o estojo de maquiagem dentro dela e deu duas batidas de saltos de sapatos ao chão enquanto eu tentava explicar, impressioná-la com certa dose de romantismo e fineza. Eu não a deixaria ir embora tão facilmente.

-Soyez calme putain belle ! Vous emmène à connaître Paris , la ville du monde . Vous faites une grosse erreur! - Ainda tentei

-O que?  Que tem essa porra de vila do mundo? Pensa que vai me  enrolar com essa conversinha cheia de mimis? Vá te catar cara! E outra coisa seu merda...não precisa pagar porra nenhuma. Saiba, tive nojo de ter transado com você!  –  Judite esbravejou. E foi assim que ela bateu a porta de número 21 e nunca mais  a vi pelas imediações da  Rosas da Vida ou de qualquer outro canto.

Depois, sozinho à cama e analisando os acontecimentos foi que percebi que gastei inutilmente com ela o assimilado em quase dois anos de estudo e nos mais de 50 DVDs recebidos do Correios, referentes ao  curso de francês por vídeo correspondência. Enfim, era tão incontestável sua precipitação e eu só queria que suas agressões cessassem e que soubesse do equívoco que estava cometendo. Aliás, eu  poderia querer bem  mais que compreensão, pois tinha me afeiçoado a ela, e talvez num futuro próximo estaríamos em Paris, e sairíamos para compras, e depois, de mãos dadas perambularíamos pelas ruas da Cidade Luz. E havia urgência, já que a morte me que riria, e ela galopava à patas largas em minha direção, mesmo  sabendo que estava concedendo algum tempo para mim. E antes que ela chegasse e me pegasse de calças curtas e num estágio bem mais avançado onde urinóis permanecem sob as camas e dentaduras amanhecem sobre as mesas de cabeceiras levantei e fui ao banheiro onde a ducha quente dum  Lorenzetti me relaxou o suficiente, e eu cantarolei "C'est la vie, c'est l'amour" uma das frases de uma canção do igualmente imortal Charles Aznavour.

Todavia o imortal francês não durou muito - "Ah sua filha da puta, bicha enrustida, é?" -  Relembrei no exato momento que meus olhos arderam ao serem atingidos pelas espumas do sabonete. - "Você já era! Não reclame, teve a sua oportunidade nenê" - Exclamei em alto som e injetei a língua para fora como se fosse um garoto birrento. A puta camuflada de vendedora de badulaques religiosos zombara da chance para uma vida melhor, e talvez continuar vendendo a sua xoxota lhe fosse a sina. Ainda revoavam em minha mente as suas mentiras e a grave difamação enquanto a água continuava escorrendo pelo corpo. Olho para o alto e os minúsculos furos do chuveiro ejetavam água em meus olhos, e Paris outra vez me captura os devaneios  e eu  penso  nas mulheres, nos milhões delas espalhadas  por aí, perdidas em filas de ônibus, metrôs, nos caixas de supermercados, aguardando em bancos, esperando a vez nas ante-salas dos geriatras, oftalmologistas, dentistas e outros tantos lugares. E  quanto mais penso nelas mais me convenço que não preciso de todas elas, mas apenas uma, da boa,  quem sabe até parisiense, uma que se entrelace em minhas pernas,  me olhe com doçura e sussurre em meu ouvido um "bonne nuit mon amour". Sim! E por que não? Paris! Paris! Paris! Paris me enamora e talvez as suas mulheres me aguardem,  e mesmo que não me queiram sempre haverá as prostitutas, provavelmente mais charmosas, educadas e compreensíveis.
De banho tomado volto para o interior do quarto e vestido abandono a porta 21 deixando a toalha molhada sobre o ordinário edredom da cama. Desço para a recepção e acerto com o recepcionista o consumo do frigobar. Antes de sair me chama a atenção a lapela do paletó de Manuel, pois vejo nela algo que não estava ali ao chegar. Olho mais atentamente para a figura estampada no pequeno botton  e não distingo o canonizado que exibia acima da cabeça uma circunferência luminosa.

-Que santo é esse, Manuel? - Pergunto para ele com o olhar fixado no pequeno broche alfinetado

-Ah, este a ca é meu  santinho Padre Cícero! - Ele exclama satisfeito num mesmo momento que acaricia o botão - Ca sou eu muito devoto desta santidade, sabias que ele nasceu no Rio Grande do Sul?.

Tive vontade de gargalhar, porém me contive e apenas sorri e depois lhe disse um "Até a próxima". e ele me retribui.

Judite além de ser uma prostituta caluniadora era também  dotada de ignorância e vigarice por vender gato por lebre, pois o brasileiro Cícero Romão Batista, popularmente conhecido pelas bandas do nordeste  como Padim Pade Ciço,  além de não ser santo, portanto não canonizado pela igreja, fatalmente jamais fora gaúcho, cearense de nascimento que era.



Copirraiti12Abr2013
Véio China©









quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Atrás de cada cavalo sem dente sempre há um bom motivo



Enfim havia chegado o grande dia. Coloquei meu melhor terno, caprichei o gel nos cabelos grisalhos sem me esquecer de aparar a barba e decorar o rosto com inseparáveis óculos Ray-Ban safra 81.
Saí de casa exatamente as dez pras oito da manhã e faltando 25 minutos para as nove guardava o Weekend 98 num estacionamento da Av. Paulista que me cobrou 30 pratas por duas horas, apesar de usar pouco mais da hora cheia. Saindo da garagem  facilmente encontrei o edifício, próximo dali. Tomei o elevador e pedi o 33º andar. Ao descer percebi que o pavimento se ocupava totalmente pela empresa que visitava. Pontualmente as quinze pras nove adentrei a recepção e fui atendido pela secretária que me acolheu com simpatia e pediu para que me a comodasse no sofá defronte de sua mesa. Assim procedi e ela me olhou algumas vezes  pelos poucos mais de 10 minutos que permaneci ali.
Claro, o fato de olhar com  frequência me instigou, porém fiquei mais tranquilo ao inspecionar o terno que parecia não trazer sinal de sujeira ou manchas de gordura. Pensei no motivo de suas flagradas e divaguei se a sua curiosidade deveria  ser creditada à minha feição amassada e o nariz largo e achatado adquirido logo após a juventude ao meter-me nas lutas de boxe.
Evidente, à época eu gostava de ouvir aquilo que me acariciava o ego, portanto, iludido pelo dono da academia e seu sócio, talvez mais interessados nas mensalidades que em mim, foi que me fizeram acreditar que eu seria um ótimo lutador. É importante lembrar que no início obtive alguns bons resultados em torneios amadores, mas a verdade surgiu nos quase cinco anos de profissionalismo e numa última luta me inutilizou para o boxe devido a um deslocamento de retina.
Enfim, uma triste história em  cima dos tablados que me deixou de herança socos que devastaram o meu rosto com jabs, cruzados, diretos e pontas de queixo desferidos por adversários que não desperdiçavam chances assim como um caçador sabe que não pode errar sua última bala diante do leão que se aproxima.

-Sr. Norman, por favor! – Às nove horas em ponto a secretária me rapta das lembranças e  nocautes  solicitando que a siga. Incontinenti iço o meu corpo de mais de 90 kg do estofado de couro e acompanho seus passos que seguem à minha frente.

Mesmo sendo pouca a distancia me era possível apreciar naquela moça a graciosidade dum corpo de cintura fina, rabo generoso e um grosso par de coxas. Talvez  não fosse exatamente moça na exceção da palavra e sim uma bela mulher na faixa dos 31 ou 32 anos. E ela seguia à frente deixando atrás de si a suavidade dum perfume adocicado, desfilando sua elegância no conjunto de saia e blazer em tons de cinza combinando com a blusa branca em voil e um lenço vermelho de seda que, contornando o pescoço sacramentava nela o enigmatismo das musas do cinema dos anos 50. Eu persistia observando o seu caminhar de glúteo acima, glúteo abaixo sem poder negar-lhe o estilo e a elegância das roupas de boa marca, equilibrando suas poderosas pernas em delicados sapatos de salto agulha.
Continuei seguindo a magia daquelas nádegas quando dobrando à direita atravessamos outro extenso corredor e no final dele ganhamos um luxuoso escritório de áreas parcialmente envidraçadas. E ao entrar na sala, sentado numa confortável poltrona estava um sujeito com um sorriso de Gugu Liberato. Eu seguia em sua direção observando com os cantos dos olhos o mobiliário local de arranjo quase futurístico, principalmente sua mesa de trabalho em aço escovado onde o tampo de  Blindex deixava visível as pernas da calça do seu terno azul marinho. Como sempre eu fora afeito a comparar coisas e pessoas, instantaneamente os detalhes da sala me fizeram recordar o escritório de George, do seriado "Os Jetsons" personagem dum antigo desenho animado da década de 60 onde o futuro dizia estarmos no ano de 2062 ou coisa parecida.

Evidente, ainda moleque à época imaginava se o futuro seria exatamente aquele apresentado pelos criadores da série e se haveria tanto progresso que nos fizesse voar naquelas pequenas naves espaciais que lhes eram o meio de transporte. Anonimamente sorri dessas recordações ao olhar para a enorme vidraça que, às costas do executivo completava aquele lado da parede. Impressionado com amplitude da visão e os prédios mais baixos que nos cercavam procurei vestígios de naves espaciais estacionadas do lado de fora, e outra vez sorri das minhas fantasias de garoto. Sim, fato, e novamente sorri anônimo, agora para uma  fase púbere onde imaginei  Sandra Brea sendo a minha namorada, pois me marcou a sensualidade de sua participação na novela "O bem Amado"

-Senhor Norman... - Outra vez fui acordado por uma voz que não era da secretária.

Retornei o olhar para o interior da sala e concentrei-me no homem que pronunciava o meu nome e prestei atenção na parede ao lado da vidraça, e ela ostentava um quadro com um diploma da FGV, trazendo logo abaixo uma placa retangular contendo letras negras e em alto relevo. Firmei as vistas e li com clareza:

                                                Jefferson Augusto Maneiro
                                                   Vice diretor executivo
                                                 Ficci Buk & Corporation

Agora eu sabia com quem falava, porém, para ser sincero nem supunha por que fora sondado para aquela reunião, afinal, mesmo sendo usuário eu era de fato num dos mais ferrenhos críticos do Ficci Buk e  seus métodos alienantes. A princípio Gugu me estendeu a mão e eu retribuí a um mesmo tempo que nos apresentávamos. Foi estranho sentir seus dedos apertando os meus, chacoalhando-os no ar como se fossem eles uma dessas britadeiras que perfuram asfaltos.  E aquilo me parecia ridículo e nossas mãos continuavam tremulando até o instante que, percebendo o descabimento soltou-se dos meus dedos.
A secretaria bonitona ainda continuava às minhas costas quando o sujeito num aceno de mão me pediu que sentasse numa das poltronas defronte à sua mesa. Entrei pelo vão de uma delas e escolhi a da esquerda por natural aversão a tudo que era de direita. Acomodado, olhava para aquele seu sorriso de animador de auditório quando gentilmente pergunta:

-Bebe alguma coisa, Sr. Norman? - Acomodava-me ainda  mais à poltrona e encaixando a bunda no assento, respondo:

-Sim, uma dose de uísque, por favor! – Pigarreio levemente puxando a bainha do paletó para que não entrasse Nas nádegas. Ele me olhou surpreso.

-Desculpe Sr. Norman, mas não temos bebidas alcoólicas aqui. Mas há águas e sucos naturais. Aceita um  de caju, manga... – Oferece solicito.

-Não, obrigado! Teriam água mineral com gás? – Ele me olha sem surpresa e consente num meneio de cabeça. Por instantes penso sobre a isenção de bebidas alcoólicas nos escritórios, e se não seria a falta delas a responsável por boa parte das idéias tacanhas e sem criatividade dos executivos – Concentro-me pouco mais na questão, e naquele caso eu tinha a certeza que sim.

-Dona Mariana, água com gás para o senhor Norman e suco de caju para mim. Traga a senhora mesmo, pois me pareceu muito atabalhoada essa nova copeira.

-Sim senhor! -  Ela responde, e se preparava para a retirada quando o sujeito lembrando-se de algo esquecido exclama se dando um leve tapa na testa

-Ah sim, por favor, nada mais que doze gotas de adoçante, certo? – Ele  instrui num tom afetado, afeminado, ao qual a secretaria acusa num discreto sorriso.

Outra vez olho para ele e dessa vez com certa desconfiança. Imediatamente penso em sua afetação e conjecturo se o afrescalhamento não era causado por uma austera educação na infância, a estreita convivência com irmãs, ou demasiadamente com as pessoas do sexo oposto. Talvez não fossem esses os motivos e nem houvera irmãs e amigas, e sim apenas uma juventude enclausurada e distantes dos divertimentos, desses onde a falta de permissão se sacramentam nos decretos matriarcais ao suporem o mundo como um Lobo Mau  abocanhando  suas incautas e inocentes crias. Evidente, por mais que não quisesse assim  tive que concluir  por ter conhecido alguns casos onde o idêntico o dano foi provocado pelo exagero dos mimos caseiros,  pais tratando seus fedelhos por “filhinho” mesmo que esses sujeitos já estivessem com barbas nos rostos e consultórios médicos para sustentarem.  Entretanto, mesmo que se aplicasse a Jefferson nada eu tinha a ver com esse passado que, só me servia apenas para divagações. Tão logo a secretária saiu à cata das bebidas ele voltou a sorrir como um dos animadores dos programas de domingo. Ainda incomodado pelo olhar exaustivamente cravado em mim retribui com discreto sorriso enquanto ele ajeitava o nó da gravata desvendando os motivos que fizeram eu estar presente naquela sala:

-Bem, Sr. Norman chegou ao nosso conhecimento que é um dos usuários mais descontentes com o Ficci Buk. E ter cliente insatisfeito é fato que não só entristece, mas  nos preocupa. Primeiro, é inquietante não estarmos atingindo o topo das nossas expectativas, já que rotineiramente o senhor escreve crônicas e pequenos contos dando conta do quanto estúpidos somos.  Segundo, porque gostaríamos de saber o que pensa exatamente e naquilo que poderia oferecer de colaboração para progredirmos, melhorarmos... e...

Estrategicamente ele fez a pausa quando fomos interrompidos pela secretária carregando a bandeja inox repleta de bebidas Assim que a moça colocou a peça sobre o tampo de vidro olhei no interior e lá estava o suco de caju e a garrafa de 500ml de água, além de dois copos de cristais e um par de guardanapos dum tecido alvo e encorpado. Com gestos delicados Mariana despejou parte da água em meu copo e depois serviu o chefe.
Retirei o copo e um dos lenços da bandeja e fiz careta ao sorver um profundo gole  que fez arder a garganta. Jefferson Augusto sorriu da minha feição e com alguma sutileza deu o trago inicial no suco. Eu apenas o olhava e continuava bebendo a água em pequenos goles a fim de evitar novas contrações faciais quando, suavemente  recolocou seu copo sobre o tampo no instante que a secretária batia em retirada a caminho da recepção. Agora foi a sua vez de pigarrear, e ele retomou o assunto interrompido:

-Sr. Norman, sejamos sinceros, não vê nada de bom em nosso Ficci Buk? – Olhei para ele com algum desinteresse e pensei no quanto aquela conversa poderia se tornar desgastante.  Pigarreei arranhando a garganta numa tonalidade exagerada, digamos,  até desagradável, e desembuchei:

-É, pois então, assim como estava falando Sr. Clerderson, acho que o Ficci Bu... – Mal iniciava a fala quando fui interrompido por ele. Definitivamente aquele era um sujeito insensível com as frases do próximo, porém dono de oratória obstinada:

-Não é Clederson, é Jefferson - Ele me corrige e depois continua - Sabe Norman, desculpe-me tê-lo interrompido, talvez ao ser leigo no assunto não perceba a dinâmica e a diversificação, o  fátuo dos interesses que envolvem tanto a corporação como os seus usuários. É mais que certo que não tenha se derramado às questões e por consequência não sabe o que e como pensamos. Porém tenha a certeza que o Ficci Buk não é apenas  um mero site de relações e entretenimentos assim como a grande maioria que existe por aí –   Foi nesta  parte do discurso que aspirou profundamente e continuou:

-Definitivamente Sr. Norman, não é assim que o tomamos, pois temos o Ficci Buk como o fator mais importante para a aglutinação dos internautas do mundo todo. Portanto já sendo o número um pretendemos nos tornar algo mais, um novo estilo de vida assim como foi o sonho americano, nos queremos interminável, algo que se assemelhe à revolução cultural dos nos 60, principalmente a mais fulgurante delas, a de Liverpool promovida pelos quatro Beatles - Ele disse num tom entusiasmado e eu sorri discretamente. Talvez o danado do Jefferson pretendesse ser a reencarnação tupiniquim de Brian Epstein, o lendário empresário dos quatro cabeludos. Mas pelo jeito ele não intencionava parar por ali, ah não... então continuou:

-E o por que queremos revolucionar é o que deve estar se questionando, não é mesmo Sr. Norman? - Ele insistia  nos argumentos e olhava para mim crente que causava grande impacto. Depois se assentou num tom de veemência sindical: Ora bola, muito, demasiadamente simples! Porque tanto quanto hoje naquele momento o que o jovem repudiou foi o arcaísmo e a prosaica forma de viver e pensar o planeta azul... - Foi justamente nesse outro ponto que Jefferson promoveu outro intervalo. Era estranho, mas agora algo em sua voz soava à Cássia Eller:

- Veja Sr. Norman, a contemporaneidade muito deve aos Beatles, pois suas influências são inegáveis e o processo iniciado nas terras da rainha ensejou mudanças, o mundo mudou de mãos, cedeu o poder, deu voz ao novo e articulou a juventude planetária em torno de seus ritmos e idéias... - Com Jefferson era sempre assim, dava suas pausas, porém jamais esquecia entusiasmo dos seus comícios. Eu olhava para ele e desta feita ele me pareceu impaciente ao perguntar:

-Sr. Norman assistiu a um filme dos Beatles chamado “Os reis do iê, iê, iê”?

-Não, não assisti - Devolvi de forma lacônica. Óbvio, eu tinha visto o filme, mas supondo que ele usaria os argumentos da fita com o intuito de me evangelizar, neguei.

Na verdade eu assistira o filme na televisão, e não somente esse, mas outros dos Beatles que, em minha opinião eram bem piores do que comentávamos. Certamente Jefferson jamais entenderia o fato de achar o tal do "Os Reis do iê, iê, iê" um filme pra lá de imbecil e que apenas se propunha a registrar hordas de garotas alucinadas, gritando e perseguindo os pobres diabos sem dar-lhes o tempo sequer de uma boa mijada. Mas, a impressão que tive era de que os produtores pretenderam demonstrar os excessos histéricos e o quanto eles nos tornam irracionais. E o festival de psicopatias não terminava ali, e então vinham outras cenas com as garotas ululando tal hiena, arrancando cabelos, perdendo saltos e sapatos em ruas e vielas, deixando partes de saias e vestidos em grades de ferros, só para terem a oportunidade de triscarem suas unhas vermelhas nos terninhos bem comportados dos rapazes, ou ao menos, nos vidros Ray-Ban das limusines que os transportavam...  Portanto ciente que Jefferson não veria com os meus olhos, achei melhor omitir.

-Pois é Sr. Norman! - Ele prosseguiu - É pena, pois perdeu uma obra de arte e o quanto eles influenciaram gerações, já que suas canções impressionavam pelo novo estilo musical, a verve em suas composições, algumas até de pura poesia, enquanto outras, num plano contestador inquiriam o conservadorismo dos costumes e valores daquele momento. Talvez não tenha percebido à época, mas era como se dissessem a nova e casta juventude; Hey! Vocês são os novos reis do mundo! Saiam por aí, pois o planeta é todo vosso! - Está certo, poderão alegar que nem tudo foi perfeito, pois havia o muro de Berlim, Mao Tse-Tung na China, e a Rússia, através de Cuba, apontando seus mísseis para o coração dos Estados Unidos, mas...

Foi nesse instante que se deu outro habitual intervalo em sua conversa, demorado dessa vez, reflexivo até.
Eu continuava olhando para ele e os olhos de Jefferson pareciam perdidos no nada - Jesus Cristo! O homem além de ser um fanático pela biografia dos Beatles, talvez estivesse louco, ou no melhor das hipóteses ainda mantido sob o efeito das ervas ingeridas nos seus tempos de FGV - Tive que concluir.
Eu  continuava olhando para ele e Jefferson permanecia calado, distante como um desses roteiristas que não lembram o próprio enredo.  Porém eu estava enganado, e ele ressurgiu como um desses pregadores que solapam o mundo, esses que jamais desistem de abocanhar fatias que não são deles. Ele era um bravo e seguia adiante:

-Sim, Sr. Norman! Eu sei o que deve estar se passando nessa sua mente de escassa informação - Disse para mim ajeitando seu corpo à poltrona, olhando-me com imponência, assim como se fosse o mago das premonições - Provavelmente, Jefferson sofria de prepotência e ansiedade - Pensei - O que eu gostaria era dar um safanão naquele sujeito, absorvê-lo das nuvens. Porém eu estaria fadado ao fracasso, pois Jefferson era um demente, apesar de que os dementes também não desistem.

-Então é isso! Fique atento, é tão fácil perceber Sr. Norman! O que pretendemos é causar a verdadeira revolução dos hábitos e costumes do século 21. Entende a plenitude das nossas intenções? Pode perceber a abrangência cultural que estamos nos propondo? - Ele persistia nos olhos arregalados e gestos bruscos no irrequieto conjunto dos braços e mãos.

Apreensivo e receoso que Jefferson pudesse ser acometido de algum infarto, olhei para ele e para aquela situação de gesticulação estapafúrdia, mas natural, e cheguei à conclusão que se ele fosse lançado ao mar e conversasse consigo mesmo nadaria tão lépido que alcançaria o Porto Galinhas antes do horário de almoço do dia seguinte. Entretanto, mesmo que pesando a pujança da retórica, suas colocações me pareciam confusas e incompreensíveis. Sim! Jefferson provavelmente fora lobotomizado, e agora pretendia desforrar, e aquilo me irritava profundamente. Claro, deveria ter me calado, ficado quieto, porém quando dei por mim as palavras já não pertenciam à minha boca:

- Bla bla bla! Que diabo você está falando, Jackson? Quanta perda de tempo com esses fatos nostálgicos, inclusive porque nem os vivenciou! – Ruminei - Só está te faltando me dar a ciência com voz de Heron Domingues do assassinato de John Kennedy  ou das mirabolantes jogadas do melhor time que o Harlem Globe-Trotters montou, e isso no Ginásio Ibirapuera em fins de 65.

Verdade! Aquele sujeito era mala e me dava nos nervos. E sei lá, mas os fatos dum passado morto e enterrado me eram o chute dum sapato 48 nas bolas do saco. Absurdos também eram seus bordões cheios das nove horas e uma linguagem executiva lastreada em argumentos que, funcionariam espetacularmente com os caras da sua tribo, porém, não comigo. Para ser bem realista, ele nem percebeu o quanto a minha resposta trazia de inconformismo, mas não se esquivou à minha nova confusão com o seu nome.

-Jackson, não. Espere aí! Jackson, não!... Jefferson Augusto, já lhe disse tantas vezes Sr. Norman, tantas vezes! – Respondeu com a feição fechada. Depois chacoalhou os dedos da mão direita no ar como num passar de mãos nas nádegas do vento, incentivando minhas observações. Foi o suficiente para entender o seu recado, e fui franco e honesto:

- Muito bem meu jovem! Já que te parece tão relevante a minha opinião, então aqui vai; Acho o Ficci Buk o maior incentivador e veiculador das boçalidades que boa parte dos homos-sapiens são capazes de produzir.
Sim, entendo que há e haverá exceções, pois também há vida inteligente, apesar de muitas delas se renderem à futilidade, mas também há sujeitos de fantástica criatividade, e tenha a mais absoluta certeza; estes jamais darão a face aos bofetes e nem farão marcha atlética à beira de precipícios.
Entretanto a vida inteligente não é regra, é exceção, pois ao criarem esse monstrengo foi como se abertas fossem as porteiras do absurdo para uma carente manada humana, ávida por espaços e meios onde possa sobressair e transbordar  inteligências, além, óbvio, os dotes artísticos...

Como assim? Não estou entendendo onde quer chegar - Ele me interrompe. Olho para ele friamente e reinicio:

-Calma rapaz, já saberá,  já que no frigir dos ovos a tua empresa deu luz a um descomedido teatro de horrores, e somos nós os seus melhores atores, e trabalhamos para vocês gratuitamente e fazemos do fantástico Ficci Buk algo onde se vive alguma verdade, mas há uma imensa parte de desajustados e enganadores, e o que  vejo sim são poucas e boas ideias, mas o que vinga são as boçalidades, e o todo se une e digladia entre si. Para mim o espaço que dão a cada um de nós, usuários, é a possibilidade de escrevermos um  livro que qualquer editor jamais publicaria, e então temos que escrever, escrever, pois não nos reconhecem, e aí nos vingamos, e não importa se sujemos as linhas com nossas merdas ou as deixemos incólumes ou perfumadas duma fragrância francesa...

-Ah, então o senhor é contrário à criatividade individual? - Novamente ele interrompe abortando meus pensamentos. Minha irritação se torna previsível.

-Hã? criatividade individual? - Devolvo. Provavelmente meus olhos devem tê-lo fulminado. Então continuo: Criatividade individual é o cacete! E vocês nada mais são que a  parte diabólica de tudo isto,! Então esmeram no layout e nas novidades tecnológicas, e nos hipnotizam e nos dão espaço para colocarmos fotos, nossas e de nossos parentes, carros, gatos,  cachorros, carros, fotos de nossos filhos isentos dos dentes de leite belezas, e todas outras que a criatividade individual consegue imaginar! Sim, talvez até haja alguma validade em  preenchermo nossa ociosidade com sentimentalismos e singelezas, porém não paramos aí, e extrapolamos e preenchemos novos vãos com imagens estapafúrdias e tantas outras aberrações, e ainda  insatisfeitos forramos nossas linhas do tempo com babaquices, as quais muitos julgam o top da criatividade, como dissessem para quem os leria:  Hey, veja como impressiono! Puderam alcançar a jogada? Conseguiram captar a genialidade do meu sarcasmo, e como posso ser mais descolado que vocês?
Sim meu ami....

-Mas, mas - Novamente ele aborta as minhas falas. - Foi demais para mim.

-Mas, mas...é o cacete! - Ele se assustou com minha reação e se calou. Continuei: E para mim são essas as fatias maiores deste bolo chamado Ficci Buk, e vocês estão furtando a vida das pessoas, já que  navegam pelo teu site por horas a fio, sem almoço, janta ou mesmo um tempo para o namoro ou uma boa trepada. Uns até deixam de trabalhar e outros até perdem o emprego, e é isso que lhes devemos, pois ao criarem esse troglodita infame devem ter pensado em nossas carências e nas porções do ego que também nos compõem. Entretanto meu jovem, vacina de graça só é dada em posto de saúde, portanto o Ficci Buk foi criado com a finalidade de ser um negócio rentável, hoje aliás, mega milhardário. Portanto moço...não me venha com essa história de que para vocês o que importa é a interação. pois é mentira deslavada, é balela da grossa, é poesia de anjo que faz o demônio gargalhar.

-Como assim Sr. Norman? Outra vez não estou compreendendo onde o senhor está pretendendo chegar. Não nos consideramos um.. negócio - Ele justificou-se, mas não com tanta firmeza. Evidente, o Ficci Buk tinha as suas espertezas, e aquele era o momento de espetá-lo

-Como assim.. eu vou dizer. Ao iniciarem o site vocês bancavam gratuitamente a totalidade das publicações dos usuários nas páginas dos amigos. E agora? Agora simplesmente não bancam mais, já que os meios de comunicação dão conta que estão restringindo o acesso às informações, propondo valores para aqueles que, não vivendo longe dos holofotes queiram ter suas patacoadas lidas por maior número de pessoas. E se assim o fazem é na suposição que este planeta caótico e absurdo está cheio de otários e a carência da raça humana é tanta que não prescinde da atenção, nem que seja necessário pagar por ela. Enfim, vocês são uns belos aproveitadores...

Neste momento a pausa foi minha, pois realmente não tinha a intenção de continuar aquela conversa inócua. Claro, talvez eu tivesse sido ranzinza e inflamado como são esses sujeitos que discutem o time do peito nos botecos das esquinas - Paciência - Porém, Jefferson não desgrudava os olhos de mim numa expressão aturdida, talvez estivesse arrependido de propor a entrevista, e a qual pensei que pudesse declinar algum convite de emprego. Sim, e por que não? Talvez a análise detalhada do meu perfil ensejasse o envio do e-mail onde dizia que, em aceitando, deveria agendar dia e horário para a reunião. Ali, ainda constava o nome e o telefone da pessoa que deveria ser procurada. E foi o que fiz, e falei com dona Mariana, apesar de não me fornecer qualquer informação sobre os motivos do convite.

E assim ficamos lá olhando um para o outro sem saber a razão de comparar aquele sujeito dos seus trinta e tantos anos ao Fernando Collor de Melo, além das mencionadas semelhanças com Liberato e Cássia Eller. Talvez tenha sido a sua compleição atlética adquirida em academias, ou o mesmo penteado de cabelos repartidos ao meio. Sim, talvez tenham sido aqueles os fatores. E com Jefferson me levando a Collor foi impossível não relembrar a delirante atuação do ex-presidente “daquilo roxo” e de quanto o brasileiro sofreu humilhações provocadas por ele e seus asseclas. Evidente, se há palhaços no Poder Central, no Senado, nas Câmaras, e por aí afora, por que não estender a estupidez para um plano mais globalizado? Então deixe vir esses sites de relacionamentos como o H5, Badoo, Orkut, Ficci Buk, certamente os dois últimos os gigantes do ramo. É óbvio, o Orkut está em baixa, pois talvez tenha estagnado no tempo, algo comparável a hoje como se Hitler e seu bigodinho mofado estivessem zanzando pelas dependências do McDonald á procura de alguma McOferta.
Já o Ficci Buk não, o Ficci é moderno, jovem, interface gráfica avançada e, de tal forma que, resguardadas as devidas proporções mais lembram os efeitos especiais de George Lucas para os filmes de Steven Spielberg. Sim, não discordarei dos fatos, porém o Ficci não desmotiva e jamais desmotivará a idiotia que pode haver nas pessoas, pois opostamente ela incita e muitos de nós adoramos parecer imbecis, se agarrando uns aos outros como as criaturas siamesas.

E deixando o Ficci de lado e retornando às vacas gordas da política nacional, creio que a grande massa se cansou de parecer “politicamente correta” num tempo que ser “politicamente correto” traduzia algo aceitável e compreensível. E não me venham falar em partidos conservadores, progressistas ou radicais. Muito menos em agremiações de direita, esquerda, centro, pois ao que me lembro jamais vivi de moderações, e fui um esquerdista ferrenho num tempo onde a jingle “Olê olê olê ola, Lula, Lula” e aquilo me emocionava e arrepiava os pelos do meu saco. Sim, na primeira eleição o barbudo perdeu para Collor e as vergonhosas montagens da emissora do Marinho. E eram verdadeiras as aspirações do povo e os anseios por ética e decência na política, tanto que não nos perdemos numa nova oportunidade e elegemos o “companheiro”.  E naquele momento o país havia sido entregue para um homem do povo, operário, um líder carismático e aglutinador das massas, ele sim talvez o prometido Messias, o cirurgião a extrair os nódulos malignos da nação, impondo ética, ceifando a canalhice e a corrupção. Sim, foi isso, pois estávamos cansados dos erros, das roubalheiras e dos falsos milagres brasileiros como aquele fabricado à década de 70 por Delfim Neto sob o mando dos generais da ditadura que, praticamente levaram o país ao estado de insolvência. Entretanto e mesmo com o que parecia novo e esperançoso não extirpamos os problemas, ao contrário, logo, o governo da estrela solitária se assemelhou a todos os outros apesar dos favoráveis números populares à aceitação do alto mandatário.  Portanto hoje não tenho qualquer ilusão política, nem por nomes, nem partidos, e acredito que possa haver exceção aqui ou acolá, todavia o todo é asqueroso, o meio é canceroso. E agora não me bastassem todas as mentiras ainda vêm esses sites de entretenimentos, alienadores e que mais se assemelham ao um espetáculo de circo montado para uma tarde de domingo, e excretam óticas anarquistas sobre aquilo que imaginam o que é e como é relacionar-se, entreter-se, divertir-se, enfim...

-Psiuuuu, psiuuuu! Sr. Norman, em que galáxia o senhor está? – Ele estala os dedos - Há mais de dois minutos o senhor está aí sem falar nada e apenas fitando o lado externo das vidraças– Concluiu num olhar que parecia dizer; Hey velhinho... venha para o pátio tomar o recomendável sol das dezessete horas! - Eu olhei pra ele e sorri, pois provavelmente também deveria me achar um boçal.

-Oh, queira me desculpar, Anderson! Perdi-me em algum lugar do passado - Justifiquei-me num sorriso que tentava ser infantil, mas que o sabia cretino.

-Anderson não, é... Jefferson, por favor, Sr. Norman, é simplesmente... Jefferson - Mais uma vez me chamou a atenção, irritado, óbvio. Depois amansou a raiva e continuou: Mas... em que pese essa sua visão severa quanto a nós, eventualmente não encontra em nosso site matérias que lhe despertam interesse?   Não tem por hábito usar o “curtir” para coisas postadas por seus amigos, em suas comunidades. Por acaso o senhor "curtiu" algo no dia de ontem, por exemplo?

-Não, nenhum! –

-Bem... e na última semana?

-Também não. Quase, mas também não!

-Pelo amor de Deus, Sr. Norman, e no último mês?

-Never! Ai nóti moli nóti!  Contudo a fase pior foi a do mês retrasado.

-O que houve no mês retrasado, Sr. Norman? - Ele perguntou num ar de surpresa.

-Bom...  É que fui obrigado a ler um monte de mensagens de Natal, algumas delas acompanhadas de fotos de Papai Noel. Deve saber como são essas imagens fabricadas em estúdios que usam o Photoshop. Havia sim uma ou outra interessante tal qual a do sujeito que com as rédeas nas mãos se postava dentro do trenó guiando quatro grotescas renas de isopor.  Evidente, apesar do ridículo havia algo de positivo na barba do sujeito, já que parecia ser natural...

-E o senhor acha desestimulante receber votos de feliz Natal ou Ano Novo através do Ficci Buk? – Ele interrompeu outra vez, drasticamente. Eu percebia a raiva em sua voz.

-Bem, Wellington, pra te falar a verdade... acho sim!  Mandaram aos montes, assim, como se fossemos um bando de alienados, como se a felicidade e as realizações estivessem batendo á nossa porta, e que seria apenas necessário pedirmos para que entrassem e as servíssemos com um bom café passado na hora, para aí sim concretizarmos o negócio! – Retorqui impaciente – E outra... antes que o senhor me inquira sobre o que “curti” nas semestralidades passadas, antecipo; No último ano, cinco vezes. Apenas vinte vezes devo ter clicado no maldito “curtir” inclusive mais da metade desses cliques foram em coisas postadas por meus sobrinhos.

-Poxa Sr. Norman! Além de o senhor ser... como dizem? Ah, sim, um osso duro de roer, o senhor insiste em chamar-me por um nome que não é meu; Não é Wellington, é... Jeffer... Ah, deixa pra lá!

-Desculpe Jonathan, ops, quer dizer, Jefferson – Dessa vez eu o sacaneei só para vê-lo irado. E irritado ele foi grosso e mal educado

-Sabe Sr. Norman... Por acaso o senhor tem feito periodicamente exames em sua próstata?  – Fulminou à queima roupa com aqueles seus braços de nadador.

-Não, por quê?  Seriam importantes estes exames? - Inquiri surpreso. Ele apenas me olhou e riu.

Percebi o tom de galhofa na pergunta, e honestamente, aquilo me deixou emputecido. Ainda mais porque houve falta de respeito para minha pessoa. E aquilo me abalou e tanto que, após alguns instantes eu procurava traduzir as entrelinhas da questão colocada. Seria alguma metáfora?
Sim, sendo ou não, não consegui ir muito longe à análise, porém duas alternativas me pareceram inevitáveis;
a) acho que o fedelho engomadinho acreditasse que me tornasse mais receptivo à estupidez após uma boa enfiada de dedão no rabo, ou;
b) que meu estado prostático tinha alguma coisa a ver com o senso de humor

 Ele olhava para mim e eu podia sentir o regozijo estampado nos olhos e nos cantos sorridentes de sua boca de lábios finos. Evidente, ele se tornou para mim a zombaria e agora eu podia ver-lhe a fileira de dentes alvos escancarando numa gargalhada cheia de viadagens, diga-se de passagem.

-Me perdoe Sr. Norman, foi apenas uma brincadeira com o senhor, um ato de relaxamento de espírito – Concluiu sem perder o sorriso cretino no rosto. Definitivamente ele tinha procurado, e como dizem; Quem procura... acha.

-Puta que pariu seo moleque afrescalhado e sem educação. Se há alguém aqui que tem cara de gostar dum grosso dedo urológico és tu e não eu! – Vociferei ao me levantar da poltrona.

De imediato ele pegou o interfone e ligou para a secretária:

-Dona Mariana, por favor, peça para a segurança vir à minha sala!

-Ops! Não precisa de segurança não paspalho! Sei o caminho da saída – Disse-lhe ao me dirigir para a porta de sua sala.

-Cancele a segurança, dona Mariana. O Sr. Norman já está de saída.

Novamente atravessei o corredor e ao final dele encontrei a recepção. A secretária me aguardava, e parecia preocupada.

-Desculpe Sr. Norman. Sei o que deve ter passado lá dentro com aquele sujeito petulante. Mas... ele é assim mesmo, é metido à gênio.

-Não... não se preocupe com isso dona Mariana. Está tudo bem! – Disse a ela já me dirigindo para a porta de saída do conjunto.

-Sr. Norman, Sr. Norman!  - Fui chamado por ela. A voz era bonita, afinal, ela era toda bonita.

-Sim dona Mariana? – Respondi olhando para os seus olhos. Repentinamente eles me pareceram tímidos assim com ela.

-Então, depois que o pessoal da análise de clientes selecionou o seu perfil e nos passou, tomei conhecimento do senhor e daquilo que escreve. E vou ser sincera; Estou fascinada! Escrevo alguma coisa, poesias, porém não tenho coragem de postá-las. Criei um blog, mas lá só há citações de Fernando Pessoa e Clarice Lispector. O senhor se importaria se marcássemos algum dia para tomarmos alguma coisa e discutirmos um pouco de literatura e desse seu mundo literário? – Perguntou-me num sorriso apaixonante. Olhei para ela com simpatia, Mariana poderia ser minha filha, mas o fato dizia que não era.

-Claro! Vamos sair um dia desses e falaremos sobre – Devolvi solícito. Foi o momento que ela retirou algo do porta-cartão acima de sua mesa e me passou. Era seu telefone residencial e o número do celular.

-Feito, dona Mariana! Ah, posso dispensar o “dona”? – Perguntei num galanteio. Sim, eu era velho, 59 pra ser exato, mas não imprestável.

-Claro, Norman! Fique à vontade. Como vê, já aboli o “senhor” por minha conta –
Respondeu com um sorriso que continuou me fascinando. Concretamente, Mariana era um doce, uma joia.

Despedimos-nos com um “Até” num caloroso aperto de mãos. Estava mais que na cara que algo iria rolar.
Ao descer pelo elevador pensando em Jefferson deixei escapar o pensamento em sussurradas palavras.

-Não falei que no Ficci Buk só da louco? – Expressei.

Claro, era a minha reação ao pouco entender o interesse daquela mulher por um sujeito tão limitado como eu. O ascensorista de talvez 27 ou 28 anos ao ouvir o meu murmúrio olhou-me desconfiado, pois deve ter pensado que estava interagindo com ele ou com um dos faxineiros do edifício que limpava o espelho ao fim da cabine, afinal, havíamos os três em seu interior

-É sim sinhô - Me respondeu o faxineiro diante o silêncio do colega que comandava os botões. Sorri para ele e o funcionário continuou: -Óia...outro dia mesmo o ofsbói da constutrora do séutimo andar me falou que esse tal de feicibuqui é o fiofó do capeta! – Concluiu à queima roupa aquele sujeito de uma simplicidade cativante e num sotaque norte do país. O ascensorista riu veladamente, talvez para ele não fosse novidade do seu colega de trabalho.

Chegamos ao andar térreo somente os três e meu estômago doía em virtude das contrações provocadas pelo surto de gargalhadas que enfrentei por quase quatro andares enquanto descíamos.

-É isso aí garoto! – Confirmei ao me despedir do faxineiro com tapinhas nas costas. Ao que prontamente respondeu:

-É isso aí gêntis boa! Estamos às órdis!  O criente tá sempre ca razão! - Ele também se despediu com um sorriso e a demonstração inequívoca de já assimilar parte dos hábitos e maneirismos dos paulistanos.

Eu ainda sorria ao entrar em meu carro.



Copirraiti20Fev2013
Véio China©


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Tecnologias & Carnavais e o cu do Diabo



Sim, estou bêbado e quero falar sem me importar sobre o que. Posso dissertar mulheres, futebol,  religião ou mesmo relembrar coisas minhas antigas bandas progressivas. Presumo porém que seria um papo dos mais chatos, logo, vou poupá-los.
Bem... e que tal se falássemos de carnaval? E por que não? Afinal neste momento os foliões de Rei Momo enchem o saco à porta de casa, assim como o fizeram no ano passado, retrasado, ado, ado. Isso! Falemos então do carnaval desse ano, 2013, onde tivemos Vila Isabel e Mocidade Alegre como campeãs no Rio e em São Paulo!
Lembro do carnaval do ano retrasado e eu  estava mal ou pior que estou agora. Não há como esconder que  minha vida se parece com uma dessas bolhas de sabão levitando no ar, graciosas, mas que nos  desafiam. Logo, há um prazer em  ser menino e apontar o dedo, dar uma cutucada, e "ploc", acabar com a festa.
E é assim que me sinto, algo in, meio acabado como terminaram com o carnaval, este inclusive que achavam estar curtindo lá fora, numa cantoria desenfreada. E eles não me são surpresa, fazem parte do "Bloco da Cachaça" e são mais ou menos uns 400 ou 500 integrantes. E  eles não são só vozes, são outras coisas que fazem a música se assemelhar ao trem bala em movimento,  repiques de baterias,  batidas de surdos e  tamborins, acompanhados por sonoros trombones, cornetas, pistões e tubas. "Olha olha olha a água mineral, água mineral.." - É o que eles cantam. E o que me incomoda não é o fato da zorra provocada pela histeria popular e nem  de estar bêbado como estou. Não, não é isso, pois para mim tais  fatos me são clichês, aliás, assim como sou  o clichê em pessoa. O que na verdade me deixa puto da vida é a mesmice de  todos os anos, pois à tempos deixou de existir o verdadeiro carnaval, restando apenas coisas que pretendem ser interessantes,  presas  a uma  tecnologia  imprevisível e inovadora.

 Para mim a festa deixou de ser a festa do povo e para o  povo, pois o carnaval de Momo se tornou um hipermercado globalizado que expõe em suas vitrines  ilustres figuras da sociedade, artistas de  TV, jogadores de futebol, top models, políticos, além de astros e pessoas proeminentes do Jet Set internacional. E aquilo que unicamente era para ser alegria e música se tornou um show de transformações ao expor aos meios de comunicação todas as novidades da medicina estética. Verdade, outro dos nossos clichês,  já que  renomados cirurgiões cobram os olhos da cara para despejarem nos salões e nas avenidas televisivas mulheres esculpidas à dedos e bisturis,  ludibrioso  festival de peitos, bundas, culotes e abdomens, tudo milimetricamente reformado como  se fosse um veículo saído da  mecânica, funilaria e pintura.
E não vejo exageros ao reafirmar, pois é só apreciarmos as beldades na Sapucaí  para  percebermos os  tantos ml dos seios siliconados. E a isso se aglutinam outras benesses estéticas como as  lipoesculturas,  preenchimentos dos glúteos e em  tantas partes. Convém frisar que para essas reformas se utilizam fartamente de materiais importados, e por  quê?  Porque as mulheres, além de suas vaidades, dinheiro e glamour levam em conta aquilo que acreditam ser os cuidados para a saúde, e muitas descartam a matéria prima nacional como se fosse de péssima qualidade, afinal estamos um pouquinho aquém do terceiro mundo, óbvio. E sobre tais questões até que são fáceis de compreendê-las, já que tudo se resume em tentar manter o padrão,  o status quo, a aparências subjugando o espírito, alvo de escolhas, assim como pedir a qualquer socialite à escolha entre Erasmo Carlos ou Bono Vox para tietar numa foto. Evidente, para ela não haveria qualquer dúvida, e todos sabemos a resposta.

Pois é! E assim de tecnologia em tecnologia o meu tempo está se esvaindo assim como rareiam as tradições que se dobram ao avanço do tempo. E o progresso está por todos os cantos, todos os lados onde há e se respira um pouco de vida. E a evolução deixa marcas por onde quer que passe, são maiôs e seus tecidos criados em laboratório quebrando os recordes das piscinas mundias. É um simples frango à passarinho preparado por eletrodomésticos de última geração em menos de cinco minutos, e sem necessitar uma única gota de óleo. Qual é o segredo neste caso?  Sim, eu conto; são 200 graus hermeticamente fechados, gerando vapores circulantes, quadruplicando a pressão e cozendo. Depois é só abrir as cervejas  e eis aí o galináceo pronto para ser degustado. Sim, juro, não é mentira, eu vi  a propaganda na televisão. E essa e outras maravilhas apontam para um fator preocupante, pois num futuro bem próximo poderemos dando um bye  bye  para as substâncias gordurosas, principalmente ao óleo de soja, e o que também não seria de todo mal, afinal, até  transgênicos andam empurrando por nossa goela abaixo.

Sim, sei que deverão estar deduzindo "Porra, ouvir papo mala e de de bêbado é foda". Verdade, eu disse que estava bêbado, ébrio,  invocado com essa merda toda de tecnologia. E já que estou pra lá de Bagdá, e já que estamos falando em progresso, há a questão da segurança, essa mesma que falta ao cidadão comum e que se estampa em manchetes diárias. Me questiono; Será possível nos tornamos insensíveis ante as barbáries e crimes hediondos? Pois é, acredito que não, mas, até nisso a tecnologia expandiu seus tentáculos. Hoje quase não há a necessidade do velho e bom policial com faro de justiça, aquele como Peter Falk  do "Columbo", um popular  seriado de TV  da década de 70. Não, hoje não há Columbos, pois combatem o crime com fartas doses de ciência onde a necessidade de pistas ou testemunhas passou a ser circunstancial, afinal, ínfimos fragmentos de DNA colhidos no local do crime poderão apontar  os culpados.
E esta realidade me faz revoar o romantismo do passado e imaginar coisas absurdas como um Sherlock Holmes sentado numa poltrona de tecido imundo num conjunto de 20 m2  na Barão de Itapeteninga. Sou capaz de vê-lo com olheiras profundas, alguma desnutrição e os olhos pregados ao telefone no aguardo de um único cliente.  Óbvio, Holmes  seria obsoleto à moderna ciência investigativa.
Evidente, e o com o carnaval  não é diferente, e ele cede espaço ao progresso e a finalidade se perde e tudo se torna tão sem  graça. Sim, concordo, algumas coisas não mudam e jamais mudarão, como a sede dos foliões que, agora e com bebidas ás mãos cantam neste sábado de carnaval  coisas desconexas como  - Olha olha olha a água mineral.. - Sim, sei que tenho a minha parcela de culpa; quem  mandou morar no festivo e boêmio bairro do Bixiga?

Aliás, além das ébrias cantorias que desfilam diante das vistas do meu portão, o que não falta em época de samba na avenida é hipocrisia. E ela.é farta e começa com governo distribuindo camisinhas à custo zero, como se a contaminação do HIV fosse exclusividade dos foliões. E se assim considerássemos, deveríamos dar um par de camisinhas a cada um dos participantes dos bailes funks por esse  Brasil fora, princialmente na cidade e nos morros do Rio de Janeiro. Acredito que talvez não saibam, mas ás vezes gostaria de estar na pele dum desses jovens de hoje, estar cantando la fora, ser o número um do  Ita, fazer parte e compreender toda essa tecnologia, a qual  por vezes gera desemprego. E não seria só isso, talvez aí então eu conseguisse entender  parte de suas realidades e utopias - Sim, sei que vão dizer que sou amargo e que sinto inveja, ao que respondo; Sou amargo, confuso e sinto inveja, e daí?
Portando, pensando em todos esses fatores é que levanto da mesa  e espreguiço corpo e vou ao refrigerador e consumo dois copos de água gelada. Fecho a garrafa de Coca-Cola de 2 litros onde acondiciono a água e volto para a minha cadeira de estimação e sorvo parte duma dose da  Sputnik.
Num  olhar vago repouso o copo à mesa e dedilho três dos meus cinco dedos da mão direita no casco até fazê-lo gemer um som oco e de vidro. Óbvio, é o indicador que a bebida já era. Depois persisto o olhar no nada, absoluto, quando flashes da esplendorosa Leila Diniz pipocaram em minha memória. Não me contenho; Leila sempre foi a minha ideia de perfeição.

-Ah, que merda - Exclamei -! Leila sim era o sinônimo de festa e alegria. Leila era vida. Leila era o próprio carnaval! - Lamento ao olhar o pinguim, um  pequeno bibelô que reside há   anos no alto da minha geladeira. Ele apenas me olha e  pude ver o sorriso cretino estampado em seu rosto de louça. E apesar de não tirar os olhos de mim ele nada fala, apenas me olha e olha.

- Ah, quer saber? Foda-se o carnaval! Foda-se a toda essa tecnologia! - Digo para ele ao sacolejar meus ombros. Definitivamente acho que jamais vou me libertar dessas besteiras que me acompanham   e nem do seu olhar que nada diz.

Carnaval..carnaval...Mas também pouco ou nada eu perco, de fato. Para  falar a verdade tenho pena desse pessoal aloprado  curtindo carnavais pelo  Brasil afora e ao som de trios elétricos. São guitarras, baterias e contrabaixos plugados a potentes amplificadores, substituindo a genuinidade dos sons das cuícas, pandeiros e reco-recos. Já não é surpresa o show de pirotecnia no alto desses carros, principalmente na Bahia, onde  fogos de artifícios espocam colorindo os céus num espetáculo visual que sufoca a simplicidade e o romantismo dos velhos tempos. Sim, há toda a saudade duma época onde quem sambava eram passistas e não efeitos especias. Sou da velha guarda, daqueles que, juntamente das escolas de samba da década de 60 jamais sonharia com  engenharia eletrônica incorporada ao desfiles, George Lucas na Sapucaí. Quem em sã consciência e à partir daquela década poderia supor homens carregando às costas coisas parecidos com extintores de incêndio que, os fariam sobrevoar a avenida?. Não, jamais, era totalmente louco imaginar tais incorporações naqueles tempos. Logo, não sabíamos de nada, assim com essa juventude nada sabe sobre o passado, nem mesmo faz ideia que a melhor marchinha do carnaval de todos os tempos foi aquela que sempre fez o Brasil cantar...."A Estrela Dalva, no céu desponta e a lua ... -  Sim, sei que sou nostálgico, melancólico, e..estou bêbado, porém jamais serei falho em lucidez e memórias, pois a mais louca sandice  deixei para lhes contar agora ao fim.

Sim, e a loucura ocorreu no domingo de carnaval  do ano retrasado, exatamente de 2011.   Tanto quanto nesse momento o Bloco da Cachaça cantava lá fora, e eu estava alcoolizado e  num estado mais miserável se comparado ao desse e do último ano. Como seria de se esperar questionava nesta mesma cadeira coisas parecidas com as quais questiono agora ( por isso disse que sou clichê)
E as dúvidas prosseguiam até o ponto que uma voz de tonalidade grave me subtraiu das importantes reflexões, sugando meus pensamentos como se fosse um aspirador de pó.


-Calma..calma, Carlos Quaresma - Dizia ela. Olho para um lado, para outro e, nada.  Talvez estivesse sentindo na própria carne os distúrbios da bebida - Pensei naquele instante  - Descompassado tamborilei os dedos no tampo da mesa, quando novamente....

-Calma, muita calma nessa hora! -  A voz insistiu num tom mais ameno. Desconfiado  fui à janela e abri as cortinas e olhei pelos vidros e não havia ninguém lá fora. Receoso me dirigi  à porta e pé ante pé inspecionei o olho mágico e não vi qualquer criatura postada atrás dele.

-Quem é que ta falando? - Perguntei  ao vento. Claro, estava assustado, afinal nesses tempos nos sentimos inseguros  dentro das próprias casas. Procurei não fazer qualquer ruído e apurei os ouvidos e a voz soou ainda mais  nítida ao parecer próxima:

-Calma, devagar que o santo é de barro! - Ela disse e me fez lembrar frases de vovó - Fique tranquilo homem, não tenha medo. sou eu, o teu subconsciente... - Concluiu. Desconfiado, pensei que ja tinha passado da hora parar de beber. Ainda olhava ressabiado para os lados quando o tom volta à carga:

-Quaresma, estou te vendo tão macambuzio e apático, que resolvi vir aqui e te dar uma força. Cara, o carnaval e o mundo não são tão pavorosos como está pintando.. - Concluiu num tom professoral. A voz soava pretensiosa e talvez pretendesse me catequizar um pouco mais, porém, assustado o interrompi numa única pergunta que cabia ante o estapafúrdio da situação:

-Comasim?  Não estou te entendendo! Você é meu subconsciente? - Mal acabei de perguntar e veio a resposta

-Mas que merda! Tu é surdo veinho? E que coisa mais babaca esse negócio de ..comasim...comasim!

-Comasim? - Persisti. Eu estava perplexo demais. Dessa vez ela pareceu mais austera, realmente estava brava ao responder

- Acorde pra vida homem! Estamos na era da coletivismo insano, a Babilônia dos tempos modernos. Para ser mais coerente com seu raciocínio retrógrado resumirei tudo numa linguagem que está afeito - Estamos em tempos do sem pés e nem cabeça - Finalizou.  Bem, além da veemência, a  voz me tratou como se eu fosse um ser pré histórico, descoberta arqueológica, assim,  um Tiranossauro Rex. Certamente aquilo me irritou e eu não engoliria o seu despautério e nem permitiria os seus desaforos, não ali na cozinha da minha casa

-Sim, seu monte de excremento!  E qual o grande problema da vida estar sem pés e cabeça? -  Indaguei ao não entender bulhufas do estrambótico raciocínio. Talvez o meu subconsciente estivesse sofrendo de distúrbios equizotípicos ou coisa assim.

-Bem..e daí...e daí!  E daí veinho, é que você tem que sair por aí, se enturmar. Esqueça o Word e essas coisas pavorosas que você escreve, não vai ganhar dinheiro com isso e nem faturar o Jabuti. Saia homem! Saia e vá viver, curta uns baseados, alcoolize-se com uma daquelas belas garrafetas do Absinthium 1792 tcheco, legítimo.  Você sabia que os Rolling Stonnes voltando à moda? Então... tem mais é que curtir a vida, velhote, é isso! Saia, tome uma boa ducha e  encharque sua camisa  negra de Paco Rabanne comprado há dez anos e vá dar uma bandas por aí, olhar os rabos de algumas rampeiras da Rua Augusta. Se não dar certo, procure uma boa cinquentona nos bailes da saudade da vida. Ó...ali na Alameda Barros tem um da hora!

Estupefato eu ouvi as suas grotescas sugestões e propostas. Uma cinquentona de baile da saudade? Era só o que ma faltava!   Ele só podia estar louco, apesar que o mais  provável era o fato de ser ver perdido do conceito  "politicamente correto". Enfim, meu subconsciente estava pior que imaginei. Ao fim, foi tanta asneira que,  inevitável foi  resistir à minha indignação. Explodi:

-Vá à merda seu subconsciente pervertido! -  E após a agressão  o estapeei fisicamente, aliás, estapeei a  minha própria fronte

-Ai..ui..ai. Para!  -  Queixou-se, dolorido. Depois se saiu com uns "Tsc..tsc..tsc" - numa clara intenção de zombar de mim

E aquilo me deixou mais irado que estava, pois, não há nada pior que um subconsciente gozador, desses que se escarnecem às custas do próprio senhorio -  Tive que admitir  com certa frustração. Todavia ele era o rei da persistência.

-Quaresma, aqui vai a minha derradeira sugestão, talvez seja tua última chance de ser feliz.  Topas? -

Olhei para ele. Ele me parecia sincero dessa vez. E outra...eu estava muito carente.

- Claro, tô dentro! Pra ser feliz faço qualquer merda - Devolvi com alguma esperança tirada não sei de onde, talvez do poço seco de mim.

Assim que as palavras abandonaram a minha boca me arrependi, afinal, aquilo era loucura, insanidade, talvez o  efeito da bebida ordinária. Mas pensei no ditado; Deus escreve certo por linhas tortas. Sim, eu estava longe da religião e isso não vem ao caso, mas.. por que não dar ao meus subconsciente a chance da remissão? E outra, o estado democrático sempre defendeu que deve ser livre toda forma de expressão, portanto a palavra é o mais contundente jeito de se exprimir. E por fim, talvez o subconsciente estivesse me chacoalhando,  ensinando-me a ser mais otimista e condescendente. Claro, tudo me parecia tão nítido agora, e outra, talvez o pessimismo de sempre  me fizesse negar que o subconsciente é como uma moeda e tem dois lados, cara e coroa, ganhador e perdedor, talvez quisesse me presentear com o lado da vitorioso,  cara ou coroa, tanto faria, desde que eu não perdesse. E outra; e ele me parecia tão cúmplice e acolhedor....

Ainda pensava em suas propostas quando sua voz soou autoritária,  marcial, fazendo-me recordar dos tempos autoritários, AI5, General Costa e Silva. E eu estava ansioso, queria me livrar da vida miserável em que me metera.

-Hã rã -  Ele pigarreou. Depois continuou: Carlinhos, é o seguinte! Aqui está o remédio para todos os seus males; CRIE UM PERFIL NO FICCI BUK...O MUNDO ESTÁ LÁ!  - Ele proferiu a queima roupa.

-Hã, como assim..como assim...criar um perfil no Ficci Buk? - Repliquei estarrecido. Aquele sujeito provavelmente era um irresponsável ao indicar o Ficci Buk para um  sociopata como eu. Evidente, não poderia deixá-lo sair dessa impune. Eu estava colérico:

-Comasim...seu grande filho duma puta! - Contestei -   Em vez de tu me indicar uma boa e saudável cagada, me avia um receituário que acelera evacuações freqüentes e abundantes?  O que você quer é me ver morto com diarreia mental  -  Vociferei. Partes dos meus gritos provavelmente foram ouvidos pelos foliões que berravam lá fora a cretina "Doutor eu não me engano, meu coração é corintiano". A princípio a voz se mostrou surpresa, porém, insensível   Alguns instantes dum silêncio constrangedor e o meu subconsciente se abriu no mais amplo dos seus sorrisos. Ele não se calava nunca!

-Carlos Quaresma,  você é um recluso da contemporaneidade .. Saiba homem....o FICCI BUK  É  O CU  DO  DIABO! - Bradou. Depois completou;-  Provavelmente o teu computador é um 386, usa o Windows  95 e ainda com  drive de disket 1.44 Mb  - Caçoou. Após a imbecilidade de sua chacota seus risos à princípio intermitente, tornaram-se  sucessivos.

Suas gargalhadas ainda reverberavam em minha mente quando numa corrida trôpega fui  à direção do banheiro para vomitar. Ao retornar a náusea cedera e não havia mais a voz, entretanto sei que suas gargalhadas jamais me abandonariam, logo não é falso afirmar que o histérico dos seus risos me remetiam às gargalhadas de Satã nesses filmes classe B.

Sim meus amigos, foi uma loucura o que ocorreu. Por conseguinte deixa-me voltar à geladeira e me servir de mais dois copos de água naquela mesma garrafa de Coca-Cola e retornar à minha cadeira de estimação e recordar outros detalhes. Sei que naquele domingo e ao fim da tarde esteve  sobre a mesa a garrafa da vodca  Sputnik, nacional, meia boca , consumida em menos de cinco horas após tê-la comprado no mercadinho da esquina  um mercado de propriedade de japoneses que, tanto quanto eu querem que o carnaval se  foda.
Recordo também que com as pernas bambas chutava a vassoura à porta da sala, e num impeto de raiva quase atirei o pobre do pinguim quintal afora. Porém ao pegá-lo à mão contornei a sua silhueta de louça e voltei com ele para o alto da geladeira. Olhei novamente e lá estava ele e o seu sorriso impassível, nem de feliz, nem triste, apenas impassível e misterioso. Retornei para a mesa, sentei á minha cadeira de estimação e emborquei o último gole da garrafa de vodca. Em seguida, trêmulo,  fui para o quarto de dormir, afinal, precisava ferrar no sono sem dar chances para  que outras mirabolantes demências me fizessem pirar de vez.

Certamente vocês devem estar me achando um sujeito louco, batendo bielas, um carburador entupido. Claro, e é compreensível, e eu também me acharia. Porém, talvez eu não seja louco, apesar de sempre me sentir como um.
Entretanto mesmo com toda essa parafernália tecnológica sabemos que vivemos na era das  meias palavras, meias verdades, meio tudo. Enfim...mas mesmo assim sei que seriam poucos os que teriam a coragem de admitir a própria insanidade.
Que venha o carnaval do ano que vem.

Copirraiti06Fav2013
Véio China©