terça-feira, 2 de setembro de 2008

A morte de um porra louca


Eu não gostava de me ver ali e nem de sentir o ar adocicado por um perfume natural e que eu odiava. Lentamente, levantei-me da urna, equilibrei-me para que ela e eu não fôssemos ao chão e, já no piso, olhei por debaixo da toalha de tons carregados e percebi que a minha vida se resumia unicamente naqueles 4 pés de madeira, escondidos e que mantinham-nos elevados do chão. O clima era de velório, aliás, era um velório. Lentamente caminhei e fiquei zanzando por ali, atendo-me na expressão de cada rosto e tentando descobrir o que se ocultava atrás deles.

Do meu pai, apenas as olheiras semi-profundas e convites quase furtivos para que meus tios o acompanhasse nos cafezinhos servidos na lanchonete do cemitério. Em minha mãe, olheiras terrivelmente profundas e um olhar distante, como se nada mais pudesse interessar-lhe ou que se fizesse motivo para continuar a sobreviver. Nas minhas irmãs, Tuca e Angelina, cujos relacionamentos nunca foram “aquelas coisas” , apenas olhares de uma aparente tristeza, mas sem um único par de lágrimas – Ative-me nelas por algum tempo e questionei se fazia necessário demonstrar aquele pesar todo – Afinal, estavam bem distante do curso de arte dramática que freqüentavam. Nas demais pessoas notei os olhares de condolência, salvo o de um ex-amigo ( coisa de 3 anos atrás) que parecia se divertir ao trocar impressões com a Raquel, uma ex-namorada minha ( coincidentemente, também da mesma época) E ele, ar de sacana, cochichava em seu ouvido:

-Porra! O Mendes era um completo porra louca! – Para depois completar – Pudera, né Raquel! O cara há mais de 3 anos que não saia daquele quarto. Só vivia computadores, relacionamentos virtuais e aquela sua mania de ser escritor!

Raquel o olhava com ar de um consentido pesar e apenas meneou a cabeça em sinal de concordância e depois se expressou longamente:

-É!

Olhei pra Raquel, afinal, eu gostara dela um bocado, e fiquei pensando no que não deu certo entre a gente. Talvez o nosso problema tenha surgido por de Raquel nunca ter trepado ao vivo como fazíamos diante das webcam. Ela jamais conseguiu me falar, me olhar nos olhos e ser tudo aquilo que escrevia através do teclado do seu Pentium IV – Aí, por mais que quisesse não houve jeito -

Depois dela, lembro que fiz a mesma tentativa com uma garota chamada Tânia. Ah, isso foi há uns 2, e o resultado igualmente péssimo: trepávamos legal pela Net, mas pessoalmente, a merda de sempre.
Vocês devem estar aí se perguntando: Pô, esse cara devia ser doido. Podem falar, eu não ligo... Vamos, falem - eu já morri mesmo - Bem, doido ou não, sobre as trepadas virtuais, foi que após um certo tempo notei o prazer que me dava transar por esse canal. Tudo simples e rápido, e era só ligar a cam para o processo se iniciar: papel higiênico do lado, um cestinho de lixo que eu mesmo me desfazia, e um garrafinha plástica de álcool de 250ml resolviam os meus problemas: sempre fui muito asseado comigo e com a máquina. E isso, apesar de me satisfazer, deixava-me com a vaga impressão de que não deveria ser assim, mas era assim que exatamente era.

E nessas divagações, eu constatava que amigos e mulheres deveriam ser vividos e exauridos na plenitude, e só a virtualidade me fornecia o que eu precisava. E esse tempo me fez ver que cada um dos meus amigos sabia que na virtualidade é necessário ser o mais correto possível, afinal, estamos longe da realidade e das dificuldades que ela impõe. Talvez, a vida que me fora dada na realidade tenha me mostrado o quanto existe de falso nos relacionamentos. Sobre relacionamentos amorosos, confesso: fui chifrado por algumas garotas. Algumas me traíram com amigos, com primos, e até com um ou outro professor. Por exemplo: Tânia foi um desses casos; foi com um primo meu. E pra piorar, o filha da puta me dizia: Primo, sai fora dessa mulher! Isso é chave de cadeia! – E eu, maluco por aquelas pernas bronzeadas respondia que ele estava maluco, com dor de cotovelo, até o dia que ele fez uma aposta comigo. Pois é! Tânia foi a aposta. Bem, isso nem tem qualquer importância agora. Só que hoje quem tem dó dele sou eu: ele se fodeu ao se amarrar nessa vadia, que conseguiu se tornar sua mulher.
Ah, e olha que não sou vingativo. Se fosse, teria lhe dito que passado uns dias do seu casamento, fui procurado por Tânia, que de alguma forma soube que me encontrava sozinho em casa. E ela surgiu do nada, calcinha transparente e peitos sem sutiã e tentou transar comigo. “ Chave de cadeia” – relembrei ao cair fora -

Bem, estou perdendo o meu tempo com essas lembranças carnais. Deixe-me continuar correndo o espaço e vislumbrando as demais pessoas do velório.

Ah, estou vendo mais gente interessante por aqui.
Hum...estão aqui o Cesar, a Ana Maria, o Justos, e ops!... também a gostosinha da Eledice. Sim, essa é gostosinha sim. Essa mina é poeta e escreve numa mesma comunidade que eu, lá no Orkut. Pra te falar a verdade, câmeras em ação, ela é mais eficiente como fêmea-pornô-virtual do que a poetiza que gosta de ser . Evidente, ela ainda não se tocou, mas a sabedoria que emana de si, localizá-se bem no centro das suas coxas. Portanto, o prazer em vê-la desnuda vai muito, muito além do versejar de suas poesias. Não. Não, ela não é um completo fiasco como poetiza, claro, não! Mas o que verseja nela são as formas: com a sabedoria do corpo, a mente não compete. Mas, no caso dela, há de se ter todos os cuidados, e qualquer mancada nossa é o suficiente para fazê-los cometerem atrocidades: poetas são demasiadamente sensíveis. E ela, talvez, por me julgar excessivamente louco e quase nada sensível, nunca aceitou o convite para passar uma noite no meu quarto: por ela eu abriria mão da virtualidade. Ih, olha eu aí,novamente falando de trepadas, surubas: que saco! Bom, deixe-me ver os outros. Ah sim! No caso do Cesar e da Ana, acho que só vieram por ser um sábado de manhã e não terem nada programado pra esse fim de semana. E mesmo na comuna, sempre achei esses dois uns “hiper esquisitos” tímidos em demasia, que se colocados nus diante um do outro, provavelmente agiriam com a mesma desenvoltura infantil daquele casalzinho babaca do filme “Lagoa Dourada”. Enfim, acho que se gostam, mas até que algum deles tenha coragem de se expor, provavelmente terei completado a bodas de prata do meu funeral.
Hã, sobrou quem? Ah, o Justos! Eita!....esse é esperto e bate bem nas duas; poeta e escritor. Um dos raros caras pra quem tiro o chapéu naquela comuna. Talvez ele esteja aqui, não por me considerar algo importante ou inovadora em termos de literatura, mas sim por saber que apesar dos meus erros sempre procurei ser sincero no que escrevi: a sinceridade é o filet mignon que falta na mesa dos escritores, sejam eles poetas ou não.


Nossa! Não param de chegar “coroas”? Porra! Vocês já sabem que detesto flores! Não é à-to-a que to me sentindo nauseado: o cheiro adocicado me embrulha o estômago. Ah, talvez seja um tanto psicológico, afinal, vai ver é pura frescurite, e até onde saiba: defunto não sente náusea. Mas, em todo o caso fica o registro....
Bem, vejamos agora...tios, tias, primos, ex colegas de rua, amigos do CPOR (quartel)..sei, sei.

Hã? O quê? Estou discernindo perfeitamente? Será a professora Athayde? Essa filha de uma puta nunca foi com a minha cara,a pesar de eu ter sempre ido com a cara do rabo dela: me bombou no inglês, apesar dos choramingos. Bem, tinha algo nela que nunca entendi, já que por ela, babávamos eu e toda a classe, mas, mesmo assim, ela parecia não se importar com os olhares sacanas que jamais abandonavam as curvas do seu corpo. O estranho ficava por conta da sua excessiva afeição à Juliet, uma das alunas, neta de franceses, magérrima, alta, olhos azuis e a pele tão branca, igual à avental de açougueiro saído da lavanderia. Bem, não sei, em todo o caso, na época eu estava com 15 ou 16 anos, e talvez não tenha conseguido captar todas as nuances do fato e isso me faz emitir juízo de valor, talvez até baseado em distorções que cometi. Mas pelo sim ou pelo não: bem-vinda prófe! Saiba que a senhora continua um tesão apesar dos pés de galinha que se formaram nos cantos dos olhos.

Mãe! Por favor, vai! Pare de chorar, pelo amor de Deus! Vá dar um giro lá fora, tomar um ar fresco. Vá dar uma "sapeada"no papai. Veja ele lá no canto, sorriso tímido, conversando com meus tios ( Nego-me à assoprar pra ela que meu tio Onofre está comentando sobre a bunda da mulher melancia) Vá lá então mãe. Pegue no braço do velho e faça ele te levar pra um cafézinho: ele já pagou uns 10, que eu vi – E outra coisa mãe...Café é estimulante, deixa a gente ligadão. Lembra que a senhora me encia o saco por eu tomar café e fumar o dia todo? E toda desgraça pouca é bobagem: Meu filho, isso mata! Dizia apontando para o cigarro que um após outro ardia no cinzeiro. Pois é! Pois é, dona Julia! A senhora estava certa.

Caracas! Ah não! O Padre Zezinho, nãooo! Poxa, pai! Tu sabe que há um bom tempo eu larguei mão desse lance de religião. Por favor, mandem o sujeito embora! E além do mais eu não estou a fim de ser ungido com a água benta ( sempre questionei o processo de feitura da água benta. Será que o líquido é destilado, pelo menos?)
Ta bom! Não tem jeito de se livrarem do padre! Tá bem!....Pelo jeito vou ter que me conformar com isso: morto, jamais impõe suas posições filosóficas


Puts! E não é que o Padre me fez lacrimejar? Acho que os momentos finais do meu velório me sensibilizaram. Ele falou tão bonito, tão calmo. Acho que acabei sendo injusto com o Padre Zézinho, afinal, ele me conhece desde pequenininho. Lembro que carregado de pecados e de uma forte convicção católica ( por insistência da minha falecida avó) eu ia nas missas de domingo e sempre confessava algum pecado qualquer; ou tinha roubado a barrocha de alguém, usurpado a esferográfica de outro, e até mesmo sumido com a "Bola Pelé" do meu amiguinho Tinho. E nessas horas o Padre Zezinho me salvava o paraíso. Ele era massa! - Toma lá! – Vá e não volte aqui sem rezar 10 ave-maria, 5 padre-nosso -( ele sempre se recusou a se referir como.. pai-nosso)- E não volte à pecar! Estamos conversados? - Ele finalizava, questionando-me

Opa! Mas, mas, mas! Já querem tampar o meu caixão? Como? Sim?
Ah, claro! Já se faz a hora, né! Tem outro velório agendado para às 16 horas e não podemos deixar a sala ocupada. Sim, entendo sim! Há a necessidade de se fazer uma faxina nas coxas, arrumação de cadeiras, dispor as coroas que já estão à caminho...sei, sei. Tudo bem! Tudo bem!
Bom, então antes de ir deixem-me olhar pela última vez para a luz do sol. Já reparam como o sol arde bonito lá fora? Então.

Está certo, vi. Podem tampar agora. Devagar, devagar, estou morto mas persisto sensível. Devagar com essa tampa...isso! Nossa! Perfeita escuridão aqui! É um bom teste para ver se me acostumo com a escuridão completa, né? Uma experiência, como se fosse a provinha do Enen – sei como é! –
Eita! Por favor! Não chacoalhem caixão dessa forma! Putz pai, não teve jeito né? Isso tem cara sua: Vou ter que ir ladeado por esse monte de flores, é? - Claro! Claro! Vocês não tão nem aí com renite de morto. É! é ilusão, eu sei! Tudo bem! Então, só não chacoalhem tanto....Aqui dentro tudo está saindo de lugar, e tenho pétalas enfiadas até no nariz.
Ta bom! Ta bom! Estou sendo implicante, eu sei.

Ta certo. Enterrem-me agora. Compreendo que chegou o momento da minha segunda verdade: a primeira foi de quando nasci.

Só lhes peço que me deixem ficar lá embaixo, ao menos, com a sensação de sempre e que carreguei por toda a vida : de que nem tudo está fora de lugar.


By Véio China
set/2008

3 comentários:

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Sandra disse...
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