domingo, 7 de novembro de 2010

O exterminador de mendicantes.


Sargento,   posso colocar fogo nesse aqui ?

-Nao, não pode! Vai feder à churrasco de terceira –

-Certo, senhor! - Acata o soldado ao dirigir sua arma para a cabeça do mendigo.

E o miserável o olha assustado ao receber o balaço. Há tempo ainda para  um último gemido; não se soube se de dor ou resignação. No ar, agora,  apenas os odores fétidos emanados do seu  corpo  e um nauseante cheiro de sangue que  escorre da  sua têmpora  esfrega-se ao chão numa trajetória impune por entre as imperfeições do asfalto da calçada.
Não se sabem os mandatários e nem os motivos; uns dizem ser  os comerciantes locais enquanto outros apenas indicam  a índole desumana e carniceira das milícias. Pensasse também, porém  improvável nesse caso,  nos filhos das classes mais abastadas;  garotos mimados  e truculentos, que vêem os mendicantes como  meras tochas de balões de São João ou batatas doces em  brasas vivas.
Todavia, seja qual for o grupo o fato remete-nos ao hediondo, à uma espécie de inquisição dos tempos modernos onde o discernimento se faz sentença de morte num julgamento instantâneo, desonesto, sem defensor, promotor,  júri ou juiz.  
Contudo a cena me parece tão escabrosa que a seqüência, infame,  não me custa devanear......
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-Sargento, com esse são três vagabundos. Duzentinho cada....dá seiscentas pilas, é isso?

-Exatamente, soldado! Seiscentas pratas! Pagamento na segunda, no boteco e hora combinada

-Graças à Deus! – Exclama o milico; nos seus lábios paira o riso dos  inocentes.

-Graças á Deus, por que? Não entendi! – Espanta-se o sargento.

-Bem, chefe...é que agora vai sobrar algum pra uma festinha e cervejinhas pros  amigos. Sábado é o batizado da minha menorzinha – Confessa o soldado ao recolher a arma  e alojá-la na cintura. No ar agora  uma atmosfera mais carregada, ocre mistura entre os cheiros de pólvora e do corpo do pobre infeliz.

-Tô nessa, soldado! Gosto de prestigiar os homens da minha corporação -  Presunçosamente convida-se o sargento.

-Certo chefe! Será um prazer ter o senhor em nossa casa! A minha bonequinha vai estar linda como um anjo no vestidinho de rendas brancas que vi e vou comprar nas Casas Pernambucanas.  Cento e cinquenta mangos, custa! - O subalterno  exclama feliz  ao comunicar o moitivo da sua alegria.

- Clao que  ela vai estar linda! Crianças nessa idade são como  anjos da guarda! – Sorri o sargento ao dar  tapinhas amigáveis no ombro do seu rapaz.

Serviço executado, os corpos transcendem numa atmosfera fúnebre como se fossem resultados dum  campode batalha.   Silenciosos, os assassinos ajeitam suas roupas respingadas à de gotas de sangue e entram no carro  sem placas e somem na calada de uma noite sem lua.

No alto do poste apenas uma lâmpada neon sombria e enfraquecida pelo tempo. A  tristeza é tão sentida que parece inferir em sua tênue luminosidade. Testemunha solitária dos horrorres daqueles momentos, impassível à tudo  olha.
Porém,  se questionada do caso, precavida, dirá que nada viu.

Um comentário:

Silvia 'Sam' Cássivi disse...

Nem acho dificil isso acontecer de verdade... do jeito que o mundo tá o povo mata por até menos.

Até mais, moço