domingo, 28 de novembro de 2010

E por falar em poesia......

Ele saíra de um desses prédios comerciais onde fora entregar para a firma  alguns contratos importantes e que deveriam ser vistados pela outra parte. Já  na rua, sentou-se numa das mesas dum barzinho da moda e em plena Av. Juscelino Kubitschek. Olhou para o relógio; quase 18 horas dum estúpido horário de verão. Olhou também para o cardápio e deu por falta do rol de bebidas. Estalou os dedos e chamou o garçom que voltava de uma mesa próxima:

-Meu rapaz, você pode me servir uma dose da Sputnik.

- Espu... o quê senhor? - O garçom arregala os olhos

-Sputnik! - Paciencioso esclarece e depois complementa - Sputnik é uma vodka, nacional, muito boa por sinal!

-Ah, é uma pena, mas,  não temos, senhor! – Ele confirma e depois sugestiona - Senhor, o que temos é uma polonesa,  ótima, aWiborowa, ou, se preferir a Stolichnaya, russa. Maravilhosas, ambas!

-Humm... e quanto sai a dose? - O senhor pergunta-lhe com um olhar cravado no desinteressante cardápio. Talvez o incitador dessa  apatia foi o preço do primeiro sanduíche que pousou os olhos  - X Burguer à moda do Rei - 28 reais.

- Bem...A polonesa, 42 reais. A russa, 46,  a dose, senhor! - Ele respondeu num sorriso encabulado - Claro, a essa altura o garçom devia ter percebido os trajes do sujeito que,  aliado à deplorável aparência de sua barba de  mais de três dias faziam-no um peixe fora da água e  bem distante das praias que costumava frequentar. Em todo o caso, o forasteiro se surpreende com os valores.

-Nossa! Tudo isso? -  Assusta-se

-Bem senhor.... em promoção temos a tônica da Antártica. Dois reais e cinqüenta! Sabe como é, né? Esses jovens não querem saber de água tônica. Pra falar a verdade acredito que nem saibam que gosto tenha – Completa com ares de  propriedade naquilo que fala.

O cliente o olha de cima àbaixo. Ele tal qual o garçom  também viera de baixo, ele podia perceber. E vindo de baixo  tinha a certeza de quanto é duro subir nessa selva de vidraças e concretos. Contudo, simpatizou-se pelo rapaz.

-Seu nome? - Ele pergunta.

-Genivaldo, senhor! - Devolve-lhe o garçom  dirigindo-lhe a mão em cumprimento.

-Prazer! Gonçalves –   Retribui.

Então ele pede ao rapaz  duas garrafinhas de 290 ml  daquele refrigerante; era necessáio se refrescar do calor que rachara mamona naquele tarde embolorado.
Talvez Genivaldo fosse um sábio ou uma criatura bondosa como Madre Teresa de Calcutá, afinal poderia ter-lhe  indicado o boteco mais próximo e que fugisse daquele corredor de ostentação. Portanto, com a sua simpatia induziu-o às duas garrafetas, pressentindo talvez que o sujeito estivesse propício á embebedar-se  caso encontrasse preços compatíveis com o poder aquisitivo do su bolso pelos bares da redondeza.

Colocadas em cima da mesa, o velho despejou o conteúdo num  copo alto e sorveu o líquido em fortes talagadas,  estalando a língua no céu da boca assim que o copo se esvaizou.  Genivaldo sorriu.
Atrás do forasteiro, numa mesa,  dois garotos e uma garota riam alto. Ele olhou para  eles e percebeu que eram bem bonitos e que vestiam roupas caras, de grife, e provavelmente estivessem ali às custas de seus carros do ano e contas de poupanças mantidas pelos pais. Continuou bebendo seu refrigerante enquanto os observava pelos cantos dos olhos. Eles continuavam rindo, rindo muito,  sabe-se la de quê. Repentinamente os risos foram cessando quando um deles consultou um laptop colocado à sua frente. Achado o que procurava, o silêncio. Ele pigarreia duas vezes, enquadra os ombros numa postura ereta  e solta a voz na declamação de um poema; uma poesia de sua criação.

“Que pensaram as araras,
divisando ao longe as naus
naquele dia de abril?”
Que terão pensado as onças,
as tainhas e os saguis
quando os botes do homem branco
vieram dar ao litoral?
Teriam previsto o destino?
Teriam sentido que......."

Era uma poesia de época e que retratava um Brasil descoberto, as aflições, os transtornos que esse descobrimento causou aos povos indígenas, à flora e à fauna.
De onde ele estava pode ouví-lo com toda clareza; o poema seguia linhas descompromissadas com o sentimento do ser ou de suas inexploradas profundezas.
E o seu poema era lido sem interpretação, raso, um desses que não se envolvem em demasia, que não  falam  da dor, do amor e nem de nada que demande alguma carga emotiva contundente. Ao terminar  pode ouvir dos  amigos que o acompanhavam os mais efusivos elogios: “Oh, que bárbaro” ... “Putz, cara! Que bacana!"

Ele sorriu. De fato não gostara do poema com um todo. Houvera sim uma ou outra parte interessante, porém distante das viscerações e daquilo que ele tinha como valores. E analisando a situação concluiu que  hoje,  mais que ontem,  lhe parecia que o importante era ser o explorador dos seus próprios oceanos. Que era necessário mergulhar e de lá submergir trazendo consigo as dores, esperanças e as desilusões que não foram encontradas na superfície, mas que certamente estariam  escondidas nas profundezas e entre as pedras mais rasteiras.
 E o tema?  Oras! Tanto faz! - Concluiu - Não lhe parecia importante desde que trouxesse sentimentos ao chegar-se na superfície.


Após a declamação os rapazes voltaram aos sorrisos e discutiam os caminhos da poesia enquanto o nosso cliente consultava o relógio se dando conta das horas.  Pago os refrigerantes, apertou a mão de Genivaldo e seguiu o seu caminho;  ainda pensava naqueles três. Sorriu novamente ao olhar para trás. Dessa vez um sorriso cúmplice; Naquela idade ele também fora um contestador do seu tempo. Recordou que  gostara de alguma de suas namoradas. Mas, gostava-as acima de tudo quando entre de quatro paredes, sem  exposição.
Amou algumas delas,  é verdade, mas não admitia demonstrar publicamente o seu afeto. Palavras meladas então, nem pensar! À seu ver eram coisas sentimentalóides, de babacas! Claro, ele jamais quis  pagar o mico já que sabia que seria interpretado pelos amigos como um mero atorzinho afeito aos dramalhões, assim como eram as novelas mexicanas de então.
Portanto vencida a juventude e com a maturidade lhe batendo nos calcanhares foi necessário que mergulhasse nos mares da existência e de lá surgisse à tona com a sensibilidade debaixo de um braço e a fragilidade por baixo do outro.

Antes de dobrar a esquina parou e voltou o olhar. De  donde estava ainda era possível ver-lhes as roupas.
O rapaz de camisa amarela que aplaudira a poesia parecia estar agora compenetrado no laptop do seu amigos,  provavelmente à caça de outros poemas  ou de fotos de garotas no HD . A garota loira,  de pernas bonitas e lindamente bronzeadas atirava os seus lindos cabelos, ora para o lado, ora para trás, enquanto  o poeta,  de camisa vermelha, não conseguia  traduzir que aquele lance da menina e dos seus cabelos eram  com ele. O velho sorriu saudoso do tempo. Provavelmente jamais tinham alertado aquele poeta – Concluíu  - À ele alertaram sim! Isso quando entrou pela casa dos 14 ou 15: - "Filho, toda mulher que insistentemente joga os cabelos enquanto conversa com você, é porque tem a intenção de conhecê-lo mais intimamente – Instruiu-lhe o pai. Houveram muitas ocasiões em que seu pai errou já que nunca fora um sábio. Mas....e quanto a isso?

-Te devo essa, velho! Isso naunca falhou! - Admitiu num sussurro de saudade. Depois sorriu para o nada, sacanamente.

Sobre àquele garoto poeta,  ainda havia tempo para ele.  Tempo suficiente para que aprendesse essa e outras coisas da vida, além dos sentimentos e das esmeradas poesias, é claro!


Copirraiti 2010NOV
Véio China©

Um comentário:

JULENI ANDRADE disse...

Enfim...

achei o blog do Véio!

Nem preciso dizer que sou fã, né?

Onde pego a carteirinha?

Abração