terça-feira, 30 de setembro de 2008
O Orfão, o palhaço e os eucaliptais
-Hey tio! Veja como a lua tá bonita – Disse o fedelho.
Olhando pro garoto tornava-se curioso notar o efeito que aquelas dezenas de pigmentos causavam em seu rosto. Nele,as sardas, os olhos azuis e vivos como o mais claro dos céus sobresaiam e os cabelos vermelhos da cor de fogo, cheios no alto e raspados na altura da nuca conferiam-lhe a feição das mais insólitas e irrequietas desse mundo. Era nisso que ele pensava ali na beira do lago, admirando a lua e procurando entre as estrelas aquelas que se derramavam como pequenas lágrimas, num quadro esplendoroso, parido sem qualquer magia, algo tão descomunal e absoluto que faria o mais humilde dos ignorantes acreditar que há um maestro à reger toda aquela sinfonia de coisas perfeitas e exatas. Mas, mesmo estando ali com a lua a espelhar seus reflexos nas águas, mesmo ali com os vaga-lumes desfilando diante dos seus olhos a incessante alegria do piscar de luzes ele não conseguia se manter feliz. Estava farto de ser solitário, palhaço, cansado de trocar sua vida por ninharias, exausto de conviver com os outros dois companheiros, alcoólatras e palhaços iguais a ele que roncavam no trailer de estado deplorável, de 1963. Para ele o que restava era mais um fim de tarde sem esperanças, igual aos milhares suportados em sua vida. Para ele era nada mais que um início de noite,sem ninguém,acompanhado unicamente por seus botões e pelo jargão que ecoa em sua mente - E o “Como vai, como vai, vai, vai? Tudo bem, bem, bem ?” - Um slogan, plausível, o único elo de sua comunicação com o mundo - que agora lhe doía a cabeça, resvalava nas paredes do cérebro, exaurindo sua mente – justo dele – que naquele dia fora merecedo dos aplausos e estrondosas gargalhadas da meninada.
E assim disperso pensava nessas e em tantas outras coisas quando foi acordado dos pensamentos e chamado à realidade por uma pedra atirada pelo garoto. E a pedra saiu em disparada, saltitando na água, ricocheteando na superfície, parecendo um atleta olímpico vencendo seus obstáculos. E a pedra, após uns 4 ou 5 ricochetes afundou e isso o fêz achar graça na destreza do guri. Girando a cabeça, voltou na direção do guri e olhando por cima do topete do menino observava ao fundo a imenso e antigo prédio, construído às custas da Igreja e que abrigava uma centena de meninos órfãos, taais qual aquele que se postara ao seu lado. – “Graças à Deus, meus pais, ao menos eu os tive” – Murmurou para si. Afinal, as coisas poderiam ter sido bem piores – Concluiu conformado e ao ser novamente interpelado pelo garoto:
-Tio, você sabia que meu pai e minha mãe moram naquela estrela? – Disse apontando o dedo indicador na direção da mais reluzente das estrelas.
-Não, não sabia. – Respondeu reflexivo.
E a beleza cruel da frase proferida pelo garoto ainda ainda reverbava em seus: como podia a morte ser tratada com tanta simplicidade? - ele se questionou - enquanto o garoto continuava com o olhar fixo no firmamento. Mas, ainda não lhe tinha dito tudo:
-É sim, tio! Eu queria estar lá, mas não puderam me levar - disse num tom resignado, para depois continuar - A Madre Antonia disse que não me levaram porque lá não há lugar para brincar. E além disso falou que lá é tão pequeno que mal há lugar para a uma cama de dormir – Referiu-se numa expressão crédula, meneando a cabeça afirmativamente - Mas, sabe tio? Eu tenho fé que ainda virão me buscar num dia. - Completou num sorriso esperançoso e tímido.
E dito, um alarme o fez sair em desabalada correria, afinal acabara de soar o sino para a garotada se recolher na sede. Assim que o menino partiu olhou no relógio e percebeu o adiantado da hora. Então permaneceu ali, observando as perninhas magras e lépidas correrem até desaparecerem ao entrar na construção, mofada por umidade e de chuvas. E Também já era a hora de partir – Até as 19:00 hrs – havia lhe comunicado a madre – Portanto, faltando 30 minutos já era a hora de retornar ao trailer, acordar os amigos, recolher os poucos aparatos e sair em busca de mais sobrevivência numa cidadezinha qualquer – E foi isso que fez –
Antes porém, cuidadosamente se dirigiu ao imenso prédio e olhou através dos vidros e uma enorme janela e por sorte notou que o garoto das estrelas, já vestido num surrado pijama flanelado, zanzava solitário pelo saguão – “Talvez à procura de algo perdido” – pensou sem perder o garoto das vistas. Foi então que deu conta que estava ali não por conta do acaso, mas sim para praticar a maior das suas “palhaçadas”.
-Psiuuuuuuuuu! Psiuuuuuuuuu! – Chamou a atenção do garoto, batendo suavemente no vidro. O menino percebendo o barulho aproximou-se da janela e destravou o trinco interno.
-Garoto! Ainda quer visitar seus pais? – Perguntou-lhe. A voz doce e o olhar meigo pareceram ter comovido o garoto.
-Claro Tio! – Respondeu arregalando os olhos enquanto com a ajuda de uma banqueta subia até a base da janela para depois se jogar nos braços do palhaço. E ele pode sentir naquele pequeno e apertado abraço pequeno toda a esperança de uma vida. Sabia que num futuro bem próximo enfrentaria problemas com o menino, afinal, ele acreditava piamente que estavam indo para a casa dos seus pais. Mas, um sentimento bom e de afeto se manifestou em ambos naquele rápido encontro no lago. Percebendo não ter ninguém à espreita, e com o garoto em seu colo e agarrado ao seu pescoço, correu e rapidamente entrou no trailer e partindo tão rápido e atabalhoado que os solavancos do trailer acordaram os amigos.
-Você ficou louco, Raimundo? – Perguntou-lhe Osmar, um dos amigos palhaços, ainda exalando o bafo do álcool, ao ver o garoto sentado no banco dianteiro
-Acho que sim! – Respondeu-lhe um sorrindente Raimundo. Acho que a vida não tem a obrigação de se resumir em tristezas e amarguras, apesar de sermos fortemente compelidos a elas - respondeu resoluto para depois abrir um amplo sorriso e exclamar - A vida tem que dar aos seus consumidores uma certa dose de esperanças?
-Dose do que? Não entendi! – Quis saber Nonato – o terceiro palhaço – que pegou unicamente a frase final das ponderações de Raimundo, imaginando que esse se referia a uma bebida desconhecida.
Raimundo olhou complacente para aqueles dois alcoólatras – Realmente eles nunca entenderiam nada, por mais que nada houvesse a se entender – conformou-se num sorriso cúmplice e consentido.
-Rumo às estrelas, guri? – Perguntou ao garoto, dispersando momentaneamente a atenção na estrada
-Claro, tio! Na direção daquela estrela que brilha forte – Exclamou o garoto dando pulos no banco, apontando o dedinho na direção do parabrisa, procurando pela estrela de maior luminosidade.
Raimundo, satisfeito apenas sorriu para ele que curioso voltava a olhar pela janela, vislumbrando a noite, contemplando o luar que projetava as sombras dás árvores que ladeavam os dois lados da estrada, enquanto seus pequenos pulmões, sadios e ainda isentos de vícios se contaminavam pelo mais puro ar dos ramos dos eucaliptais.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Holly, o estranho escritor da 1/2 noite.
Terminei! – Disse o Sr. Holly ao finalizar com um ponto a extensa obra que acabara de produzir.
Feito, espreguiçou-se na poltrona e salvou “As pegadas” em arquivo "word", fechou a pasta virtual e dirigiu-se à cozinha onde um merecido chá de maçã verde o aguardava no esmero de um jarro de cristal. Era o seu prêmio por ter escrito 15 horas a fio o derradeiro capítulo do seu romance. Mas, como de praxe aos autores, algo ainda o incomodava e no curto percurso entre o escritório e o chá de maçã, ocorreram-lhe outras idéias para o romance - se viu pela primeira vez em sua vida de escritor sujeito a mudar o enredo e por vontade render-se ao clichê dos finais felizes - E isso vinha de encontro da sua necessidade de modificar os destinos, literariamente perversos com os quais geralmente brindava os seus anti-heróis personagens. E munido do sentimento que apaziguava seu espírito e solucionava definitivamente a conturbada e doentia relação entre Julie e Wasford, que juntos com um estranho e indecifrável escritor protagonizavam a trama – afinal, a sua alma inquieta não se satisfizera com os destinos que lhes destinara na peça. Ansioso, puxou uma cadeira e anotou no inseparável bloco de notas todas as mudanças em pouco mais de 40 minutos. Terminado, sorriu tanto satisfeito ao sentir que cada uma das novas frases alterava drasticamente a estória. Revisada a última linha retornou apressadamente ao escritório, equilibrando as pernas e o chá de maçã que num bailado insano ondulava no copo mantido em suas mãos.
E mais: A certeza que estava fazendo o correto, a sua firme convicção que aquele casal, desta vez merecia um destino melhor - E ele o sabia – seria amplamente compartilhada com seus milhares de fãs - "O público é e sempre será afeito aos finais que tornam as pessoas felizes" - sussurrou para si - E ele mais que ninguém sabia disso, como sabia que geralmente, por detrás desses finais perfeitos escondem-se as partes amargas e jamais alcançadas pelo ser. E eles os leitores, redimidos nesses finais sentem-se vingados e o “bem sempre há de vencer o mal” gera-lhes uma sensação de felicidade, como se houvessem estado na pele do personagem e como ele sofrido as mesmas emoções e amarguras, mas, para no fim sobreporem às tragédias e saborearem o triunfo - Concluiu reflexivo ao entrar pela porta do escritório e encaminhar-se para a mesa de trabalhos. Andou menos de 2 metros tamborilando a caneta na capa do bloco de notas quando um calafrio lhe percorreu o corpo:
-Não é possível! O que aconteceu com o monitor? – Exclamou ao notar que havia um imenso rombo na tela.
A fim de verificar se não tratava de engano, esfregou os olhos com as palmas das mãos e afirmou bem as vistas – talvez o reflexo do sol ao atravessar a sala tivesse afetado momentaneamente a sua visão –
-Não. Definitivamente há um rombo aqui! – Exclamou surpreso ao ver que o buraco ainda permanecia lá.
Perplexo, sentou-se na poltrona e percorreu com o dedo indicador o local onde deveria estar o vidro – nada – Só havia o vazio de uma cavidade escura. Procurou por cima da mesa e pelo chão, mas não se via qualquer resquício de estilhaço de vidro, o que tornava o fato amplamente incompreensível. Atônito, enfiou a cabeça dentro do rombo de 17 polegadas na tentativa de encontrar algum indício que o fizesse entender – novamente, nada – apenas vislumbrou o oco, o escuro, exalou o cheiro característico dos componentes eletrônicos, inclusive, sentindo-se incomodado por ele. Lentamente retraiu a cabeça que juntamente com as costas retornava a posição original quando sentiu uma mão pousar em seu ombro.
-Senhor Holly? – Perguntou-lhe um rapaz loiro e de tipo atlético.
-Sim, ele mesmo – Respondeu assustado e sem dar conta de como aquele rapaz viera dar ali.
O rapaz, imediatamente postou-se ao seu lado, e ao mesmo tempo desse breve diálogo perceberam passos vindos pelo corredor, e os ruídos produzidos por saltos altos dos sapatos de uma mulher se fizeram ouvir. E o senhor Holly sem saber exatamente aonde e em quem se fixar virou levemente a cabeça a tempo de perceber que uma jovem de corpo bem moldado sorria-lhe amistosamente. Próxima, postou-se atrás da sua cabeça e suas mãos, cheiradas à fragrância de fino perfume francês, surpreendentemente começaram a pressionar seus ombros numa espécie de massagem. Naquele instante o toque firme da mão feminina pareceu confortá-lo. E foi assim, pressionando nervos e músculos sob a pele flácida que ela, finalmente, se dirigiu a ele:
-Ah, então é o famoso senhor Holly? – Perguntou. A sua voz, sensual e harmônica preenchia o vazio, misturando-se magicamente ao perfume francês, enquanto os dedos empregavam maior volume de força, dando continuidade àquela inesperada massagem.
-Sim, já disse que sou. Mas, o que significa isso, podem dizer? – Inquiriu o Sr. Holly, nervoso e um tanto apreensivo. Os dois olharam-se maliciosamente e sorrriram. A moça foi a primeira a se manifestar para dirimir as suas dúvidas:
-Sr. Holly, muito prazer em conhecê-lo pessoalmente. Antes só o conhecíamos através dos textos! – Disse simpaticamente, descendo o pescoço por detrás dele, roçando suavemente o pontiagudo par de seios em sua nuca, enquanto o rapaz enfiava a cabeça pelo buraco, como se procurasse entender o que se passara.
A moça se fixava nele quando deu a volta ao seu redor. Volta feita postou-se à sua frente. Agora sim ele podia vislumbrá-la por inteiro. O belo rosto era marcado por uma indisfarçável cicatriz que nascia no canto externo do olho para morrer meio centímetro depois, próximo da orelha. Os cabelos, fartos, oxigenadamente loiros, contrastavam estupendamente com os lábios rubros e carnudos, mas que denunciavam nela uma feição tanto depravada. No corpo, um justíssimo e curto vestido vermelho deixavam expostas magníficas coxas através da fenda do corte frontal. Ela sorria simpaticamente, e isso pareceu surtir algum efeito nele e ao ponto de tranqüilizá-lo quase de imediato. O senhor Holly, sentiu-se mais seguro e olhava amistosamente para o casal, detalhando agora que o rapaz, apesar de bonito, trazia no rosto um ar de "anos 50", um bigodinho a lá Rodolfo Valentino, algo um tanto démodé e sem uso nos dias de hoje e que lhe conferia certo surrealismo. Quanto a ela, ele se dedicava aos detalhes e percebia que no alto da farta cabeleira da cor de fogo repousava uma bela rosa, igualmente, vermelha. Sentindo-se confiante como um avô em presença de netos, perguntou:
-Ah! Então posso concluir me vejo diante de um simpático casal de meus leitores?
A dupla, outra vez se entreolhou divertido para em seguida ceder o ar simpático para dar lugar à ironia do casal:
-Nós? Consumidores dos seus livros? Ah! Não, não é exatamente isso, senhor Holly - Reagiu o rapaz que agora pressionava fortemente os ossos dos seus ombros, fazendo-o sentir demasiadamente desconfortável.
-Bem, então quem são vocês? – Inquiriu-os, mais assustado que curioso.
-Oras! O senhor nos conhece tão bem, senhor Holly! – Posso dizer até que nos é uma espécie de pai - Sussurrou-lhe no ouvido a loira. Em seguida, abriu a bolsa que trazia, procurando por alguma coisa.
Como assim?- Quis saber o escritor. Aquilo, do jeito que estava começava tomar um rumo imprevisto e preocupante –
O rapaz percebendo a sua aflição abaixou-se em sua frente e de cócoras, olhando-o firmemente nos olhos apresentou-se:
-Muito prazer senhor Holly! Sou o Wasford, ao seu dispor! A garota, incentivada pela atitude do amigo, antecipou-se e esticou o braço na direção do escritor, como querendo que ele correspondesse ao cumprimento. Seu braço permaneceu estendido no ar sem que fosse correspondido. E ela então, trazendo de volta o cumprimento recusado riu-se num riso estranho, quase insano:
-Prazer também, senhor Holly! Sou Julie, a sua criada! – Apresentou-se diante de um senhor Holly, atônito, mas com senso de espírito o suficiente para em segundos digerir tudo aquilo e achar que aquele "teatro" nada diferia do que se propunha a oferecer em seus romances: fantasias. Certo de que aquilo se tratava de algo sadio, perguntou com o mais amplo dos seus sorrisos:
-Vocês estão brincando comigo! É gozação, não é? Alguma brincadeira de algum amigo meu. Vamos! Digam-me logo quem é o safado que está lhes pagando para isso. Vamos, digam! - Completou gargalhando.
O casal mais uma vez se entreolhou, perplexos com a conclusão do escritor. A moça, voltando à realidade, continuou procurando por algo perdido na imensa bolsa a tiracolo até que achou. Tateava com prazer o objeto que, aos poucos foi sendo puxado até surgir, cintilante: uma adaga de prata, afiada e que ostensivamente se curvava na extremidade.
O senhor Holly olhou-os aterrorizado: era aquela adaga que ele descrevera no conto. Era a arma branca usada na diabólica trama do seu livro. E fora com ela que o escritor matou a prostitua Julie, com cortes profundos em ambos os pulsos. Um pouco antes havia se livrado do gigolô Wasford, acertando-lhe a cabeça com uma pesada estatueta de bronze. Mas, não o matou, afinal, precisaria dele, já que sobre ele recairia a culpa da morte da prostituta - Teria que deixá-lo desacordado e a tempo suficiente para a chegada da Polícia - E foi exatamente assim que as coisas se deram - E o pobre Wasford foi pego com a adaga em mãos, chorando sobre o corpo da amada, banhado por um sangue que jamais fora o seu, enquanto o nobre e insano escritor, usando uma das duas passagens que comprara, embarcava para Paris sem levar Julie, o amor da sua vida - Ele jamais permitiria dividí-la com alguém -
Era exatamente isso que Holly relembrava quando foi acordado da real pesadelo que enfrentava:
-Então pensou que tudo terminaria daquele jeito, Holly? Você me mataria, culparia Wasford, e sairia numa boa? Vamos, desembuche! Matou mais alguém em Paris?
Holly estava aterrorizado. Aquilo não podia estar acontecendo:
-Mas, mas, entenda. Não era eu! Jones foi um personagem que criei. Um escritor...por coincidência – Holly tentava convencê-la.
-Coincidência? – Exclamou um raivoso Wasford ao ouvir as justificativas do escritor. – Deixe-me ver até onde vão essas “coincidências” – E dito, percorreu o apartamento de Holly a procurava de evidências que se tornassem mais que meras justificativas.
-Chama isso de coincidência Holly? O mesmo perfume Paco Rabanne? Os mesmos sapatos de couro italiano? E ainda por cima o inconfundível terno Hugo Boss? Coincidências uma ova! Era você Holly que estava na pele daquele escritor. Eu sei! Eu sei! Confesse! - Berrava Wasford ao trazer consigo todo o aparato de coisas do escritor.
Holly suava frio. Do alto da testa um filetes e filetes de suor escorriam na direção da face.
-Sim! Tudo bem! Mas o que isso tem a ver? São meras coincidências!– Gaguejava Holly.
-Tem a ver sim, seu velho filho da puta! – Gritou Julie – Tem a ver porque todo escritor discrimina os desvalidos da vida. É sempre assim, e a corda sempre rompe do lado mais fraco. E quem paga a conta? Somos nós! As putas, gigolôs, trombadinhas de esquinas e outros miseráveis. Inclusive pagamos com o próprio sangue. Você me fez pagar com sangue, Holly - Insistia ela num fôlego só -
Desabafo jorrado, cintilou a adaga de prata diante da luz e a posicionou na jugular de Holly, que mesmo na imensidão do seu metro e noventa, se tornara um velho frágil e seus 74 anos já não impunham qualquer resistência.
Julie, num golpe preciso dilacerou a jugular de Holly que, desesperado tentava estancar o sangue com suas próprias mãos: não queria morrer. Wasford, morbidamente sorriu ao sentir o sangue de Holly esborrifar no seu rosto - vingava-se por Julie - E Holly, sentindo o sangue esvair, tomado por uma sensação repentina e gélida como se fora a mais pura pedra de gelo, percebeu o mundo girar em torno de si. E foi então que percebeu que estava partindo. E antes de ir, não podia deixar as coisas naquele estado. Foi então que se lembrou do bloco de notas adormecido ao lado do mouse. Então sorriu para Julie e fez sinal para que ela o pegasse.
Julie entendeu o gesto e então, de posse do bloco de notas leu em voz alta o que estava escrito nele:
“Wasford, mesmo não sendo tão forte quanto o escritor, desviou-se da pesada estatueta de bronze, que riscou sua cabeça como vento em tempestade. E, num golpe preciso de "chave de braço" resgatou a adaga das mãos de Jones e a cravou no seu coração. Julie, ao lado, chorava: sabia que sua vida estava fora resgatada por Wasford. Tinha a certeza agora que não deveria ter cruzado o caminho daquele estranho escritor. Sabia que apesar da podridão que sempre cercou a sua existência estava fadada a ter um final feliz. Seria com Wasford? Isso ainda não sabia. Soube sim, naquele momento que ele a amava e isso a faria tentar. E foi assim que ela olhou para Wasford, que cansado ofegava num canto do quarto e olhava atônito para as mãos vermelhas pelo sangue do escritor e para a adaga que jogara ao chão. Jones respirava com muitas dificuldades, principalmente agora quando sentia o aproximar do seu fim - Que pena! quase fomos à Paris - lamentou-se com as luzes lhes fugindo dos olhos e fazendo os rostos perderem suas feições. E então, com extrema dificuldade puxou pelo pouco ar que havia e inspirou o último cheiro do Paco Rabanne que impregnava o seu Hugo Boss. O aroma, másculo e famoso penetrou em suas narinas e isso o deixou feliz. Vencido, porém tentando manter certa dignidade deslocou a sua atenção na direção donde julgava vir os gemidos e sussurros do casal - sabia que a paixão fora a mais forte e vencera e eles copulavam ignorando o seu estado terminal - E então imaginou olhar para eles e pareceu vislumbrar cada estocada que se davam e penetravam. Sentiu cada um dos beijos que flamejava como tábua em fogueira. Ouviu todos os sussurros e murmúrios e daí sorriu. E nessa hora pensou na batina de um padre e em extrema-unção. Pensou em seus pecados e em arrependimentos, mas o tempo não lhe coube. Como nada mais se fazia necessário ele se foi. E o par, diante do corpo imenso e flácido vorazmente se amava, pisoteando sem perceber a imensa poça de sangue que ele se tornara"
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Crônica: Homenagem aos Solitários, Poetas & Escritores
Há ocasiões que me questiono sobre a solidão e o que talvez ela possa operar em mim.
Em muitas vezes sinto-me farto de ter-me só e acompanhado unicamente dos meus pensamentos e resoluções. Noutras, o maior dos idiotas ao fitar o imensurável vazio e
e ter-me nos devaneios de sempre, e onde o maior deles me traz o doce que poderia ser me dado; Uma Sofia Loren provocante e sensual que, sorrindo me fita
através da janela de um trem.
Vez ou outra me pergunto se a solidão é capaz de enlouquecer um homem. – Acho que sim – concluo. E pra não deixar que isso me aconteça de forma tão indefesa valho-me de alguns artifícios e das partes desse mundo virtual e faço o bálsamo que preciso, um Dorflex cibernético E como a solidão para mim é o sinônimo dos notívagos, digo; meia noite jamais será quatro da manhã. Portanto, a maioria pessoas, diferentes e mim, como janelas virtuais se fecharão e adormecerão no pátio de suas necessidades.
E geralmente não estou lá, no sono dos justos, pois para mim só basta ter os olhos abertos para entrar nesse extenso universo virtual, mundo esse que faz refém a mim e outros milhões de notívagos solitários. E a solidão como a onça que se acua feroz enfincará suas garras mesmo sendo você de boa família, cheio da grana ou possuidor de mil mulheres em seu harém. Portanto não serão as companhias que determinarão o quanto você pode ser solitário, mas, você próprio, pois mesmo estando cercado de pessoas e vozes não serão esses os motivos que o tornarão imune.
E assim, gente como nós, presos nos labirintos do próprio ser, doentes para os quais há a droga medicamentosa unicamente para os males do corpo, mas não para as dores da alma, teremos que nos virar nos trinta, pois a solidão pode acometer à qualquer tempo, e ela, saiba, é como andar em bicicletas, exercício que jamais se desaprende.
E se ela te machuca, fere, tente se livrar dela como um bêbado que vomita antes de ir ao A.A (Alcoólatras Anônimos) pois sempre existirá gente bem intencionada que tentará fazer-te sentir melhor e esquecer-te dela por algum tempo. Aceite iniciativas nesse sentido e isso, deixe se aproximarem, e talvez te dê algum ânimo e faça sorrir, mesmo sabendo que esse sorriso (talvez não tão espontâneo) seja necessário à preservação do vínculo da amizade e de tantos esforços que te devotem.
Ah sim! Tava me esquecendo, claro, o que ela opera em mim?
Bem, as vezes imagino que a solidão nos torna mesquinhos tanto quanto ao gênios.
A solidão aliada ao ser notívago é nada mais que a filha do absurdo, e como tal faz proliferar pensamentos, devaneios, delírios, e até, por vezes concede alguns super poderes. E nestas fantasias você apagará mais um cigarro no cinzeiro abarrotado e se verá ganhando na mega-sena, amando e sendo correspondido, talvez até por entre as pernas de Madona, ou tirando um solo dos bons e de blues ao lado de Eric Clapton. Só não se imagine.fazendo parte do fantástico trio de área junto de Messi e Neymar, pois aí não seria fantasia, mas loucura.
E mais que isso: a solidão pode verter em você algum senso literário. E isso fará você escrever, transformar em textos as idéias que não param de jorrar. E, quando escrever, não se preocupe demasiadamente com que esperam de você. Se disserem que não há qualidade, lembre-se: muitos gênios foram execrados pela crítica e pelo público, portanto....
Então, não se importe muito com isso e nem leve as críticas muito à sério e apenas assuma a necessidade de textualizar seus pensamentos e escreva. É assim que funciona comigo, qualificado ou não.
E, falando em Poetas e Escritores, sempre mantive-me às voltas em compará-los e tentar decifrar-lhes. Afinal, sempre me questionei os motivos de raramente um poeta se fazer escritor ou vice-versa. E essa questão me queimou demasiadamente as pestanas até que em definitivo me convenci de uma vez por todas: Poetas são os sentimentos. E os escritores....Bem, os escritores são as vísceras deles.
Portanto, além de agraciado pela solidão, devaneie, invente, usufrua largamente pois não há limites nisso. Pense em maluquices e deixe vir à mente as maiores insanidades. Case com Madona, faça o um gol numa Copa do Mundo e recebas as reverências de Robinho e toque os blues, sem humildade, mas com sentimentos, tão bom quanto Clapton - você é o único dono da sua imaginação.
E escreva. Escreva sempre e vomite o que a solidão te ajudou a produzir.
Se acharem que ficou bom...ótimo! nem sempre a unanimidade é burra. Se
acharem que não, engula, refaça e regurgite novamente e até que o cheiro
acre incomode pouca gente. É assim que a coisa funciona.
E, acima de tudo, agradeça por todos os aplausos ou vaias à que se propôs quando entrou aqui, afinal, você foi corajoso ao se mostrar na vitrine e fazer-se apreciado como mercadoria
.
Bom, era isso e, evidente, como conheço um pouco da natureza humana sei que vou ouvir: - Porra véio, auto-ajuda não! - Ou – China, Vá se tratar, vá!
E a esses, antecipadamente respondo: vão se foder!.
Analista, não preciso. Não tive qualquer envolvimento emocional com as galinhas quando pequeno.
Auto-ajuda? Bom, se isso me “auto-ajudasse” ganhar algum e sair
da penúria que me encontro.
Aí....bem, aí quem sabe, não é?
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
O livro
“A tarde caía mormacenta na mesmice de sempre . E então se foi, isenta de surpresas, tão inabalada e sem ao menos sentir-se constrangida ou culpada por testemunhar o derreter do homem de gelo”
Na sala, um sofá gasto e puído nas braçadeiras abrigava um homem que acabara de ler o seu livro. A feição, carcomida de tempo e de lembranças, suspirou longamente, o que deixava transparecer que de alguma forma se impressionara com o que lera. E ele, com os olhos grudados nas últimas linhas, saboreava as amarguras que aqueles sentimentos lhes provocavam e ao ponto de relê-los pausada e sussurradamente para si.
Lido, fechou o livro e comparou as muitas semelhanças entre ele e “Sebastian” , o personagem central do conto. E como aquele, sabia que deveria se preocupar mais com a morte do que a conta de telefone em atraso. Evidente, tanto quanto o outro, sabia que esperar algo de alguém, fosse lá quem fosse, seria como acreditar em presentes do papai noel. Pensado nisso por instantes pousou o volume ao lado da perna mantendo-se fixado na cueca, notando as nódoas incrustadas nela, resultados de uma difícil masturbada da noite anterior. O senhor Galindez, fitava aquela coisa esbranquiçada e pensava naquilo que a sua vida se transformara, ou melhor, no que ela lhe deixara como herança. Contas feitas, os resultados apontaram na direção de uma cuecas manchada de porra, algumas roupas antigas e uma filha, distantemente perdida num desses frios países europeus.
Havia também a pensão paga pel Estado, mas, sobre essa nada à reclamar, já que, às custas dela é que sobrevivia: um amargo prêmio pelo avanço da idade. Quanto a Constanza, não via a filha há mais de 20 anos, e dela também de nada poderia se queixar, afinal, a distância e o tempo eram meros bofetões que razão lhe conferia, o seu direito de colheita por tudo aquilo que semeara – Resignou-se num afirmativo meneio de cabeça -
E na amargura, geralmente lhe batia a vontade molhar a goela . Levantou, foi até à cozinha, e olhou para uma garrafa de vodca vagabunda que adormecia num dos cantos da prateleira. Desapertou a tampa, mas, antes mesmo de despejar a bebida no copo, desistiu. Olhou para o aldo oposto e em cima da mesa a garrafa térmica ainda abrigava algum resto de café feito na manhã. Destampou, tomou um gole tanto frio enquanto inspecionava o vitrô da cozinha e se recriminava por não ter substituído os dois vidros quebrados. “Poxa, estão aí há mais de 2 anos” – resmungou ,inconformado com o próprio desleixo - Terminado, empurrou o copo para dentro da pia, onde pratos engordurados aguardavam pela hora da faxina. Na superfície, alagada, boiando como náufragos à espera de socorro, restos da comida do almoço conferiam à cena um toque nauseante. Lentamente deu as costas para a bagunça e refez o caminho de volta pelo corredor. De volta à sala, sentou-se no sofá e outra vez se fixou nas manchas e permaneceu fitando-as atentamente até perceber que elas formavam um desenho semelhante a cabeça de um leão. Deteve-se mais minuciosamente nos contornos da figura até se certificar que, sem dúvidas, pareciam com o animal – Sorriu e ainda sorria ao supor que a cueca fosse uma tela, e ele o pintor, jamais conseguiria grafar aquilo : “Meu Deus! Devo estar me tornando insano” –Disse alto para o espanto do gato que, preguiçoso ronronava no tapete, enquanto ele, com o dedo indicador, persistia no contorno do tecido e do leão feito de esperma.
E ele insistiu na figura até que o desinteresse se fez e cedeu lugar à sua rotineira melancolia. E o senhor Galindez , como de praxe à todo sujeito desesperançado, tinha seus cotidianos acessos de melancolia. E assim, como estivesse em profunda reflexão fechou os olhos e se manteve em silêncio absoluto. A quietude, o ar inerte e quente e um gato que deixara de ronronar permitiram sua mente produzir uma música do seu passado: E ela parecia tão real nas vozes afinadas dos garotos de Liverpool, que ele, como se fosse o 5º elemento da banda, empunhou a guitarra imaginária, e solando cantarolou desafinado: "La,La,La,lalalala, Hey Jude" - E aquela canção de Lennon e MCartney tornou-o frágil e o momento tão propício aos fragmentos do passado que ele, mantendo os olhos cerrados permitiu que eles viessem, em flashes.......
E eles vieram como fachos de luzes, e os fragmentos atravessaram o universos, as barreiras de tempo , travestiram-se de imagens multicoloridas e se instalaram em seu cérebro, reprisando todas cenas de outrora, tornadas agora na mais cristalina das realidades. E as imagens foram se catalogando dentro de si como num filme de sessão contínua , e ele relembrava as coisas boas e ruins que lhes aconteceram. E como estivesse sentado na poltrona de um cinema assistia o vídeo - tape dos tempos das tardes furtivas e ensolaradas e de noites de lua cheia e dos ventos fortes.
E ali, sentado na primeira fileira, socando garganta àbaixo pipocas hipotéticas, recordou as magníficas portarias e as escadas dos bons hotéis que freqüentou naqueles tempos de quase nenhuma dificuldade. E nesse devaneio, saído de uma nuvem de fumaça como se fosse um astro de rock, ele se via subindo os degraus, acompanhado de todas as mulheres que ele havia levado para lá. E uma por uma elas iam com ele. E lá no topo, o tapete rubro e felpudo se estendia e os deixavam à porta da suíte e onde suas “coelhinhas” seriam abatidas. E ele, costumaz em soberba e autoritarismo as empurrava para dentro, incitava, dizía-lhes impropérios, e ouvia com prazeroso sadismo as lamúrias e justificativas por estarem ali, mesmo diante de tantas ofensas de alguém tão vil.
E eram, justamente nessas horas que a libido mais lhe aflorava. E ele, tateava com a língua aquelas bocas vermelhas, mordia avidamente seus lábios carnudos e se excitava como um animal. E no auge da sua loucura desfería-lhes palmadas nos traseiros e as obrigava desfilar com os presentes trazidos de um sexshop fuleiro. E elas, após o ritual das prendas, desfilavam suas novas e diminutas calcinhas, rebolando as nádegas ardidas em brasas, escancarando-se ao mundano, seguindo um script pré determinado, deixando dominarrem-se para depois se verem copuladas selvagemente acima dos lençóis de linho branco.
E assim, ato posto e satisfeito, ele as mandava embora sem não antes dizer-lhes o quanto eram rameiras. E dito, na saída, humilhava-as ainda mais, esbofeteava-lhes as faces com algumas notas graúdas para depois atirá-las ao chão: " Sumam daqui putas rampeiras! Tomem o pagamento por seus buracos fétidos e mal lavados!" - Ele berrava- E elas, corredor afora, como os fervorosos em cultos, ajoelhavam-se e seus rostos quase tocavam ao chão ao recolherem as notas, para depois ouvirem o ranger e a seca batida de porta, enquanto ele, satisfeito, sorrisso de herói estampado no rosto, fumava charutos cubanos, par depois, como besta saciada, dormir e roncar..........
O ronco imaginário o fêz acordar-se assustado desse transe. Tentando firmar a visão em alguma realidade percebeu que os rostos de uma por uma iam desaparecendo da sua mente como sendo apagadas por mãos das quais não se viam os dedos. - “Sim! Eu sempre dizia para elas que eram vagabundas” – murmurou confessado num sorriso quase envergonhado
Novamente, pegou o livro e o abriu na pagina favorita. Ao reler, outra vez a tristeza estampou o seu rosto – Todas aquelas moças eram as mais fuleiras das prostitutas, mas hoje, daria o que tivesse para ter uma única delas ao seu lado: quem sabe assim terminaria aquela solidão desgraçada e e olhar para oito paredes que nunca lhe diziam nada - "Ah, se eu pudesse voltar no tempo teria feito tudo diferente!" – Concluiu olhando o vazio, sentindo repentinamente percorrer no corpo uma sensação estranha de uma dor intensa que começava na nuca, descia pelo ombro e depois morria no braço esquerdo.
E a dor que nunca sentira antes o incomodava. Inerte ele nada fez e nem procurou ajuda, e só ficava lá no aguardo de outras sensações: -"Será que vai doer ainda mais?" - Se perguntou - Ele sabia que teria de morrer um dia - E naqueles instantes de uma quieta aflição conscientizou-se que a morte estava mais ligada as dores da alma que propriamente do corpo. E, morte por morte, ele já sabia-se morto. - "È só o meu espírito que reluta, que resiste" - Convenceu-se, enquanto, mais uma vez, pegava o livro e o abria na última página -
“A tarde caía mormacenta na mesmice de sempre . E então se foi, isenta de surpresas, tão inabalada e sem ao menos sentir-se constrangida ou culpada por testemunhar o derreter do homem de gelo” - Ele ainda leu pela última vez antes que a dor desistisse do braço e avassaladora cravasse no centro do seu peito. E ela foi tão intensa e definitiva que o fez cair no chão e grunhir como um porco. Um pouco depois ele se fez totalmente imóvel. Seus olhos se mantinham inertes e arregalados, e da boca, entre aberta, um filete de uma baba cristalina corria na direção do queixo pontiagudo. O gato o olhou com desinteresse o exalar do último suspiro. E então ele se foi: Jorge Galindez, 68 anos , pensionista de um governo, não tão jovem quanto gostaria e nem tão velho quanto merecia ser.
E se foi sob um sol de uma tarde escaldante e todos os cachorros da vizinhança pareceram perceber e seus uivos de lamentos foram ouvidos como se fossem uma cantiga de adeus, e as moscas nas fétidas lixeiras zuniram alto e tão forte como se entoanssem uma irritante reverência, uma última homenagem ao velho companheiro.
E foi assim e dessa forma que ele simplesmente se foi e nada deixou de muito valor. Partiu sabendo que havia uma filha, distante, num desses países da europa e do qual nem o nome sabia. Se foi e fez retornar aos cofres do governo a miserável pensão , paga por gente, que ele sabia, nunca ter se importara com ele.
E partiu de forma tão imprevista e surpreendente que nem tempo houve, que lhe permitisse fechar o livro abandonado num canto de sofá. Uma obra que nada mais foi que um achado despretensioso, hibernado nas prateleiras de um sebo muquetrefe.
Um livro de nome e autor desconhecido, de folhas que não se faziam muitas, mas que tinha dito tanto em tão pouco que se tornou juntamente com o gato e a tarde quente que se respirava, as únicas testemunhas da sua morte. Da morte do homem de gelo.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
A morte de um porra louca
Eu não gostava de me ver ali e nem de sentir o ar adocicado por um perfume natural e que eu odiava. Lentamente, levantei-me da urna, equilibrei-me para que ela e eu não fôssemos ao chão e, já no piso, olhei por debaixo da toalha de tons carregados e percebi que a minha vida se resumia unicamente naqueles 4 pés de madeira, escondidos e que mantinham-nos elevados do chão. O clima era de velório, aliás, era um velório. Lentamente caminhei e fiquei zanzando por ali, atendo-me na expressão de cada rosto e tentando descobrir o que se ocultava atrás deles.
Do meu pai, apenas as olheiras semi-profundas e convites quase furtivos para que meus tios o acompanhasse nos cafezinhos servidos na lanchonete do cemitério. Em minha mãe, olheiras terrivelmente profundas e um olhar distante, como se nada mais pudesse interessar-lhe ou que se fizesse motivo para continuar a sobreviver. Nas minhas irmãs, Tuca e Angelina, cujos relacionamentos nunca foram “aquelas coisas” , apenas olhares de uma aparente tristeza, mas sem um único par de lágrimas – Ative-me nelas por algum tempo e questionei se fazia necessário demonstrar aquele pesar todo – Afinal, estavam bem distante do curso de arte dramática que freqüentavam. Nas demais pessoas notei os olhares de condolência, salvo o de um ex-amigo ( coisa de 3 anos atrás) que parecia se divertir ao trocar impressões com a Raquel, uma ex-namorada minha ( coincidentemente, também da mesma época) E ele, ar de sacana, cochichava em seu ouvido:
-Porra! O Mendes era um completo porra louca! – Para depois completar – Pudera, né Raquel! O cara há mais de 3 anos que não saia daquele quarto. Só vivia computadores, relacionamentos virtuais e aquela sua mania de ser escritor!
Raquel o olhava com ar de um consentido pesar e apenas meneou a cabeça em sinal de concordância e depois se expressou longamente:
-É!
Olhei pra Raquel, afinal, eu gostara dela um bocado, e fiquei pensando no que não deu certo entre a gente. Talvez o nosso problema tenha surgido por de Raquel nunca ter trepado ao vivo como fazíamos diante das webcam. Ela jamais conseguiu me falar, me olhar nos olhos e ser tudo aquilo que escrevia através do teclado do seu Pentium IV – Aí, por mais que quisesse não houve jeito -
Depois dela, lembro que fiz a mesma tentativa com uma garota chamada Tânia. Ah, isso foi há uns 2, e o resultado igualmente péssimo: trepávamos legal pela Net, mas pessoalmente, a merda de sempre.
Vocês devem estar aí se perguntando: Pô, esse cara devia ser doido. Podem falar, eu não ligo... Vamos, falem - eu já morri mesmo - Bem, doido ou não, sobre as trepadas virtuais, foi que após um certo tempo notei o prazer que me dava transar por esse canal. Tudo simples e rápido, e era só ligar a cam para o processo se iniciar: papel higiênico do lado, um cestinho de lixo que eu mesmo me desfazia, e um garrafinha plástica de álcool de 250ml resolviam os meus problemas: sempre fui muito asseado comigo e com a máquina. E isso, apesar de me satisfazer, deixava-me com a vaga impressão de que não deveria ser assim, mas era assim que exatamente era.
E nessas divagações, eu constatava que amigos e mulheres deveriam ser vividos e exauridos na plenitude, e só a virtualidade me fornecia o que eu precisava. E esse tempo me fez ver que cada um dos meus amigos sabia que na virtualidade é necessário ser o mais correto possível, afinal, estamos longe da realidade e das dificuldades que ela impõe. Talvez, a vida que me fora dada na realidade tenha me mostrado o quanto existe de falso nos relacionamentos. Sobre relacionamentos amorosos, confesso: fui chifrado por algumas garotas. Algumas me traíram com amigos, com primos, e até com um ou outro professor. Por exemplo: Tânia foi um desses casos; foi com um primo meu. E pra piorar, o filha da puta me dizia: Primo, sai fora dessa mulher! Isso é chave de cadeia! – E eu, maluco por aquelas pernas bronzeadas respondia que ele estava maluco, com dor de cotovelo, até o dia que ele fez uma aposta comigo. Pois é! Tânia foi a aposta. Bem, isso nem tem qualquer importância agora. Só que hoje quem tem dó dele sou eu: ele se fodeu ao se amarrar nessa vadia, que conseguiu se tornar sua mulher.
Ah, e olha que não sou vingativo. Se fosse, teria lhe dito que passado uns dias do seu casamento, fui procurado por Tânia, que de alguma forma soube que me encontrava sozinho em casa. E ela surgiu do nada, calcinha transparente e peitos sem sutiã e tentou transar comigo. “ Chave de cadeia” – relembrei ao cair fora -
Bem, estou perdendo o meu tempo com essas lembranças carnais. Deixe-me continuar correndo o espaço e vislumbrando as demais pessoas do velório.
Ah, estou vendo mais gente interessante por aqui.
Hum...estão aqui o Cesar, a Ana Maria, o Justos, e ops!... também a gostosinha da Eledice. Sim, essa é gostosinha sim. Essa mina é poeta e escreve numa mesma comunidade que eu, lá no Orkut. Pra te falar a verdade, câmeras em ação, ela é mais eficiente como fêmea-pornô-virtual do que a poetiza que gosta de ser . Evidente, ela ainda não se tocou, mas a sabedoria que emana de si, localizá-se bem no centro das suas coxas. Portanto, o prazer em vê-la desnuda vai muito, muito além do versejar de suas poesias. Não. Não, ela não é um completo fiasco como poetiza, claro, não! Mas o que verseja nela são as formas: com a sabedoria do corpo, a mente não compete. Mas, no caso dela, há de se ter todos os cuidados, e qualquer mancada nossa é o suficiente para fazê-los cometerem atrocidades: poetas são demasiadamente sensíveis. E ela, talvez, por me julgar excessivamente louco e quase nada sensível, nunca aceitou o convite para passar uma noite no meu quarto: por ela eu abriria mão da virtualidade. Ih, olha eu aí,novamente falando de trepadas, surubas: que saco! Bom, deixe-me ver os outros. Ah sim! No caso do Cesar e da Ana, acho que só vieram por ser um sábado de manhã e não terem nada programado pra esse fim de semana. E mesmo na comuna, sempre achei esses dois uns “hiper esquisitos” tímidos em demasia, que se colocados nus diante um do outro, provavelmente agiriam com a mesma desenvoltura infantil daquele casalzinho babaca do filme “Lagoa Dourada”. Enfim, acho que se gostam, mas até que algum deles tenha coragem de se expor, provavelmente terei completado a bodas de prata do meu funeral.
Hã, sobrou quem? Ah, o Justos! Eita!....esse é esperto e bate bem nas duas; poeta e escritor. Um dos raros caras pra quem tiro o chapéu naquela comuna. Talvez ele esteja aqui, não por me considerar algo importante ou inovadora em termos de literatura, mas sim por saber que apesar dos meus erros sempre procurei ser sincero no que escrevi: a sinceridade é o filet mignon que falta na mesa dos escritores, sejam eles poetas ou não.
Nossa! Não param de chegar “coroas”? Porra! Vocês já sabem que detesto flores! Não é à-to-a que to me sentindo nauseado: o cheiro adocicado me embrulha o estômago. Ah, talvez seja um tanto psicológico, afinal, vai ver é pura frescurite, e até onde saiba: defunto não sente náusea. Mas, em todo o caso fica o registro....
Bem, vejamos agora...tios, tias, primos, ex colegas de rua, amigos do CPOR (quartel)..sei, sei.
Hã? O quê? Estou discernindo perfeitamente? Será a professora Athayde? Essa filha de uma puta nunca foi com a minha cara,a pesar de eu ter sempre ido com a cara do rabo dela: me bombou no inglês, apesar dos choramingos. Bem, tinha algo nela que nunca entendi, já que por ela, babávamos eu e toda a classe, mas, mesmo assim, ela parecia não se importar com os olhares sacanas que jamais abandonavam as curvas do seu corpo. O estranho ficava por conta da sua excessiva afeição à Juliet, uma das alunas, neta de franceses, magérrima, alta, olhos azuis e a pele tão branca, igual à avental de açougueiro saído da lavanderia. Bem, não sei, em todo o caso, na época eu estava com 15 ou 16 anos, e talvez não tenha conseguido captar todas as nuances do fato e isso me faz emitir juízo de valor, talvez até baseado em distorções que cometi. Mas pelo sim ou pelo não: bem-vinda prófe! Saiba que a senhora continua um tesão apesar dos pés de galinha que se formaram nos cantos dos olhos.
Mãe! Por favor, vai! Pare de chorar, pelo amor de Deus! Vá dar um giro lá fora, tomar um ar fresco. Vá dar uma "sapeada"no papai. Veja ele lá no canto, sorriso tímido, conversando com meus tios ( Nego-me à assoprar pra ela que meu tio Onofre está comentando sobre a bunda da mulher melancia) Vá lá então mãe. Pegue no braço do velho e faça ele te levar pra um cafézinho: ele já pagou uns 10, que eu vi – E outra coisa mãe...Café é estimulante, deixa a gente ligadão. Lembra que a senhora me encia o saco por eu tomar café e fumar o dia todo? E toda desgraça pouca é bobagem: Meu filho, isso mata! Dizia apontando para o cigarro que um após outro ardia no cinzeiro. Pois é! Pois é, dona Julia! A senhora estava certa.
Caracas! Ah não! O Padre Zezinho, nãooo! Poxa, pai! Tu sabe que há um bom tempo eu larguei mão desse lance de religião. Por favor, mandem o sujeito embora! E além do mais eu não estou a fim de ser ungido com a água benta ( sempre questionei o processo de feitura da água benta. Será que o líquido é destilado, pelo menos?)
Ta bom! Não tem jeito de se livrarem do padre! Tá bem!....Pelo jeito vou ter que me conformar com isso: morto, jamais impõe suas posições filosóficas
Puts! E não é que o Padre me fez lacrimejar? Acho que os momentos finais do meu velório me sensibilizaram. Ele falou tão bonito, tão calmo. Acho que acabei sendo injusto com o Padre Zézinho, afinal, ele me conhece desde pequenininho. Lembro que carregado de pecados e de uma forte convicção católica ( por insistência da minha falecida avó) eu ia nas missas de domingo e sempre confessava algum pecado qualquer; ou tinha roubado a barrocha de alguém, usurpado a esferográfica de outro, e até mesmo sumido com a "Bola Pelé" do meu amiguinho Tinho. E nessas horas o Padre Zezinho me salvava o paraíso. Ele era massa! - Toma lá! – Vá e não volte aqui sem rezar 10 ave-maria, 5 padre-nosso -( ele sempre se recusou a se referir como.. pai-nosso)- E não volte à pecar! Estamos conversados? - Ele finalizava, questionando-me
Opa! Mas, mas, mas! Já querem tampar o meu caixão? Como? Sim?
Ah, claro! Já se faz a hora, né! Tem outro velório agendado para às 16 horas e não podemos deixar a sala ocupada. Sim, entendo sim! Há a necessidade de se fazer uma faxina nas coxas, arrumação de cadeiras, dispor as coroas que já estão à caminho...sei, sei. Tudo bem! Tudo bem!
Bom, então antes de ir deixem-me olhar pela última vez para a luz do sol. Já reparam como o sol arde bonito lá fora? Então.
Está certo, vi. Podem tampar agora. Devagar, devagar, estou morto mas persisto sensível. Devagar com essa tampa...isso! Nossa! Perfeita escuridão aqui! É um bom teste para ver se me acostumo com a escuridão completa, né? Uma experiência, como se fosse a provinha do Enen – sei como é! –
Eita! Por favor! Não chacoalhem caixão dessa forma! Putz pai, não teve jeito né? Isso tem cara sua: Vou ter que ir ladeado por esse monte de flores, é? - Claro! Claro! Vocês não tão nem aí com renite de morto. É! é ilusão, eu sei! Tudo bem! Então, só não chacoalhem tanto....Aqui dentro tudo está saindo de lugar, e tenho pétalas enfiadas até no nariz.
Ta bom! Ta bom! Estou sendo implicante, eu sei.
Ta certo. Enterrem-me agora. Compreendo que chegou o momento da minha segunda verdade: a primeira foi de quando nasci.
Só lhes peço que me deixem ficar lá embaixo, ao menos, com a sensação de sempre e que carreguei por toda a vida : de que nem tudo está fora de lugar.
By Véio China
set/2008
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Os novos gênios serão os donos do mundo
-Manhêê! – Resmungou o garoto para depois completar: -Por que o dele vai bem mais alto que o meu? – Enquanto apontava para o garoto que ao seu lado imprimia tal velocidade ao balanço que se elevava cada vez mais.
Dona Laura, afeita a satisfazer todas as vontades e mimos do fedelho, tentava em vão empurrar as suas costas na ânsia de fazê-lo voar alto e cada vez mais longe – Impossível! Não atingiam o objetivo –
E assim, impassível e contrariada ela se ateve aos movimentos do garoto ao lado e a sua perfeita coordenação de um conjunto de pernas e tórax que, ritmados, faziam-no ir longe. E lá ele pairava absoluto como se um condor tivesse subido aos céus para arrojar-se no mais espetacular dos rasantes. Porém a sua contínua eficiência começava a incomodá-la ao ponto de achar melhor retirar o filho dali para irem num novo brinquedo. Conhecedora das rabugices da cria procurou por algum divertimento que não estivesse sendo compartilhado com outras crianças. Encontrado, caminharam para o gira-gira.
Gira-gira era uma espécie de carrossel, um desses que rodam em círculos e que as crianças os empurram e os alçam em pleno movimento. E assim foi, e tão logo o filho tocou no novo brinquedo, ela, contrariada percebeu que o outro garoto largara a sua cadeira de balanço para vir brincar justamente no brinquedo que escolheram. Chegando, arteiramente retirou o chorão do gira-gira com um empurrão nas costas e agarrou-se a uma das hastes metálicas do carrossel e imprimiu tal velocidade que Dona Laura sentiu vertigens só ao vê-lo girar. E evidente, o seu menino, impressionado com a agilidade daquele atleta dos brinquedos postou-se carrancudo ao lado da mãe, declarando o seu aborrecimento:
-Manhêê! Esse menino deve achar que o mundo é só dele!
Dona Laura, concordando com a opinião do filho olhou sisudamente para o intruso, porém obteve como resposta apenas um olhar vencedor do pequeno exibicionista, que se expressou sem a necessidade de afirmar: “Dona, apesar de seu filho ser bem maior, eu sou melhor que ele”. E para a persistência do seu desconforto o garoto insistia em mantê-la fixa em seu olhar. Dona Laura, tentou, tentou, mas não conseguiu se esconder do seu olhar zombeteiro. E então como se acusasse o golpe, questionou: “Por que meu filho não é tão esperto?”
Bem! O seu filho poderia não ser o melhor em tudo, afinal, seria demais exigir isso dum garoto em idade tão tenra – “E ele já me dá grande alegria ao ser um filho carinhoso, educado. Gosta até de literatura ô danadinho!” – Justificou consigo mesma ao olhar apaixonadamente para o seu guri. Sim, aquele era o seu filho, seu sangue, alguém gerado com todo amor que se possa imaginar, e não um exibicionistazinho qualquer – Murmurou entre dentes, satisfeita ao relembrar que o filho terminara a leitura de “O Pequeno Príncipe” – “Imagine! Apenas nove anos e uma leitura dessa?” – Balbuciou consigo e riu-se patética, orgulhosa.
Foi então que um sentimento de redenção tomou conta dela e a fez relembrar que também fora amante da literatura. Foi na juventude, idade de acalentos, de sonhos, de se tornar uma escritora de sucesso tal qual a Zélia Gattai, seu ídolo. Porém o sonho sucumbiu aos obstáculos impostos por críticas amadoras, o desinteresse de algumas editoras e de alguns pareceres nada lisonjeiros de alguns escritores amigos de seu pai, um renomado professor da língua portuguesa. Portanto, os castelos em sua imaginação ruíram como os feitos de areia e que se desmancham sob a maciez das ondas, guardando a necessária distância da amizade dos escritores, restringindo-se unicamente a admirá-los enquanto exercício de criação, posto para ela que a literatura fabrica egocêntricos, narcisistas, desvios que sempre passaram ao largo da sua natureza correta e leal.
Assim, vacinada contra aquela gente ela aprendeu a relacionar-se e respeitar cada traço de caráter, agora despoja dos sonhos impossíveis, libertando-se das miragens que se locupletam quando os olhos se fecham, principalmente da maior de todas: de que um dia poderia se transformar numa autora de sucesso.
-Manhêê! Agora quero ir à gangorra! – O filho a resgatou das recordações apontando o dedo em riste para outro brinquedo. Ela assentiu com um meneio de cabeça e rumou com ele na direção daquele.
Caminhando, persistia certa curiosidade sobre o menino prodígio. Repentinamente parou e olhou para trás e sorriu ao notar que o serelepe ainda permanecia por lá rodando de forma insana aquele brinquedo maluco– “Que fique aí, seu feio, e deixe a gente em paz!” – Resmungou consigo –
Contudo seu sossego não perduraria e terminaria justamente quando viu as ágeis e encapetadas pernas infantis desistirem do gira-gira e virem correndo aonde estavam . E tão logo chegou sentou-se numa das pontas da gangorra e impulsionou a parte inferior das pernas, elevando-se no ar. E do alto, ao descer e não utilizando os pés como freio para amortecer o encontro do assento contra o chão fez o garoto da outra ponta subir repentinamente e em completo desgoverno. E como já era de se esperar, na outra extremidade se encontrava o filho de Dona Laura, que ante o violento golpe da madeira contra o chão o fez voar em direção à terra, estatelando-se no chão.
-Manhêêê! Olha que esse menino me fez! – Gritou enraivecido ao tentar se erguer no corpo dolorido.
Ao conseguir erguer-se reparou que no tombo raspara o joelho e que em algumas fissuras vertiam pequenos veios de sangue. Ao notá-los vermelhos o guri chorou até não mais não poder.
Para dona Laura foi a gota que transbordou. Ainda mais diante do ar zombeteiro que parecia que nascera no rosto daquele pequeno malfeitor. Desta vez não se conteve:
-Mas que diabos, guri! Você é impossível, mesmo! Parece-me evidente que com essa tua natureza darias num tremendo dum escritor fanfarrão! – Disse-lhe com severidade.
O garoto além de não sentir-se abalado ainda mantinha no sorriso um deboche que lhe emoldurava o rosto.
Contudo, ainda não foi o pior: Qual não foi a surpresa de Dona Laura ao ouvir daquele pirralho de nem 10 anos, a resposta:
-Escritor, eu? Jamais! Eu os acho vaidosos! – E continuou para o desespero da mulher: Eu serei um teatrólogo! Desses escritores ególatras só quero os textos, afinal, terei que adaptá-los! –
Mas o pirralho ainda não se deu por satisfeito:
-Claro! A senhora não teria como saber, mas, estou no meio da minha primeira experiência, tentando adaptar o mais comum dos contos de Hem ; O Velho e o Mar. A tia já ouviu falar? - E dito isso, saiu em disparada na direção de alguns meninos que jogavam futebol, metendo-se entre eles, chutando a bola para longe diante o reclamo geral da gurizada
Perplexa, dona Laura permaneceu parada, sem ação, sem reflexo, sem nada, apenas reverberando dentro de si as derradeiras palavras do garoto – Hem, ao que o garoto se referia era nada mais, nada menos que Ernest Hemingway!
Porém o que Dona Laura não sabia e jamais poderia supor é que a poucos metros dali um irrequieto par de olhos a tudo acompanhava. Aquele garoto não deveria ter mais que onze ou doze anos dentro de um rosto desordenado, engraçado, olhos protegidos por um enorme óculos de armação negra e com lentes tão potentes que pareciam o fundo de uma garrafa de cerveja. E o garoto usava os polegares e os indicadores de ambas as mãos e com eles formava uma figura semelhante ao retângulo e a usava essa janela como se fosse uma câmera, a qual movia de um lado para o outro na tentaiva de focalizar a cena num ângulo que lhe parecesse perfeito. Assim que julgou ser aquele o momento manteve-se com os braços e dedos inertes enquanto que a sua boca fazia um barulho semelhante ao ruido dessas claquetes que se usam nos sets de filmagem.
Ninguém poderia imaginar, mas ali naquele instante o destino lhe incumbia de registrar um fato de grandeza maior ante as cenas tão pueris: Ali, aos dez de idade ela via nascer o mais espetacular cineasta que o mundo haveria de reverenciar.
E o que ela também não sabia era que, Fellini, Scorsese e Spielberg jamais lhe seriam sombra.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Cicatrizes
I - Desempregado metido a escritor
Eu andava às voltas com dois dos meus maiores problemas: por mais que tentasse, nunca fora o suficientemente bom com empregos, menos ainda com as mulheres. E dessa forma eu resistia heroicamente naquele mês às custas da última parcela do meu seguro desemprego, que mal dava pra comer e pagar o quarto onde morava.
Já não me bastassem essas adversidades, eu incluíra outra no rol que, um tanto adormecida aflorava nos infindáveis períodos dos meus desempregos: acháva-me escritor. E essa fixação me fazia zanzar por aí à cata de editores e redações de jornais, na esperança de ser publicado, o que me permitiria sobreviver e quem sabe, talvez, me sobrar o suficiente pra um daqueles frangos domingueiros – eles haveriam de reconhecer o escritor que eu era – Mas, apesar da aparente auto-confiança, impreterivelmente ouvia-lhes a sentença da mesmice de sempre:
-Sr. Jeff – Era assim que eu gostava de ser chamado – Os seus textos nos parecem interessantes, porém, um tanto distantes da nossa linha editorial. Assim que precisarmos de algo nesse gênero contataremos o senhor – Diziam com sorrisos incertos, vestidos em ternos de cortes executivo.
Incrédulo eu me perguntava; Como deixaram de agarrar uma oportunidade dessa? – Como não sabia o que me responder conformáva-me para depois penitenciar-me da própria culpa: Nós, que nos imaginamos escritores, julgamo-nos uma espécie de seres especiais, gênios que percebem o mundo de forma inteligente e egocêntricos o suficiente para não vermos nada à nossa frente que não sejam os encaracolados pentelhos do saco. E isso nos tornava uma mentira, sonhadores tapeados, arrogantes o suficiente para fazer que nenhum emprego estivesse à nossa altura. Portanto, assim, não foi diferente comigo ao me custar serviços não tão nobres que, recusados afastaram-me das caçambas dos caminhões, dos aventais e minha pança resvalada em balcões.
E assim, mentiroso, eu me sentava diante da velha Remington e insanamente martelava as teclas como se a qualquer momento fosse surgir a idéia para uma história genial, capaz de me tornar num best seller: Evidente mais um dos meus enganos: nessas horas a verdade prevalecia e a idéia nunca vingou.
Também, não foram poucas as vezes que exausto diante do "carroção" eu me rendia ao sono e tinha pesadelos absurdos: Num deles, a máquina ria sarcasticamente das minhas estórias para depois assassiná-las ali nos rolamentos metálicos do seu cilindro. E até nisso não havia qualquer engano: até a máquina de datilografia sabia que eu era um blefe.
II – Conhecendo um anjo
E são nessas horas, justamente em fases de marés bravas que as mulheres se aproximavam de mim. Recordo-me que uma deliciosa jovem surgiu do nada ao nos esbarramos casualmente na fila do caixa do “Bullet Café” . Eu estava lá graças ao dinheiro de uma estória bizarra que acabara de vender para um semanário de bairro. Nela, eu retratava as traições entre os animais , principalmente o da hiena que, ao dar a cria, confessou ao parceiro que ele nada tinha a ver com os filhotes que acabara de conceber. E ele, diante da rudeza do golpe deprimiu-se, e não suportando a zombaria dos pares, achou melhor morrer, e gargalhou, como nunca, até a chegada da morte. Um texto absurdo, mas que para mim funcionava como fábula: Um ponto de vista crítico aos seres covardes que nos tornamos quanto a nossa falta de reação a todos tipos de maracutaias que nos impõem, e sem que isso nos abale e nem nos faça tomar qualquer atitude: simplesmente rimos e comemos a merda que nos fazem engolir.
Bem, o fato é que gostaram e isso me fez estar naquela fila e conhecer Sheila. Acontecido o esbarrão ela me olhou um tanto curiosa – devia estar se perguntando o que poderia estar fazendo um sujeito como eu, perdido ali no meio daqueles jovens perfumados – Talvez tenha sido a minha cara amarrota e o terno puído e em desalinho, ou quem sabe, a culpa tenha recaído nos meus óculos de lentes escuras, apesar das 10 da noite. Eu não sabia, apenas continuava fitando-a e percebendo que a amiga que a acompanhava parecia não compartilhar da mesma curiosidade puxando-a insistentemente pelo braço e encarando-me com cara de poucos amigos. Sem alternativas, sorri-lhes amistosamente antes que desaparecessem no meio dos rostos alegres dos freqüentadores.
Ao ir, Sheila me olhou persistente e lançando os cabelos para o lado, disse-me:
-Estou indo para o Saint Germain!– Comunicação feita, novamente sorriu e se foram a tempo de ainda vê-las saindo do café. O Saint Germain era um desses bares de jovens de classe alta, onde o dinheiro pago por uma única cerveja me faria comprar umas três ou quatro nos botecos próximos de bairro.
Pensativo, avaliei os prós e contras de ir naquele bar. Talvez, chegando lá, ela, arrependida, nem me desse bola, ou se na paquera de alguém fizesse que não me conhecesse. “Há de se correr riscos” – disse decididamente para mim ao dar a partida no carro e rumar para onde ela dizia estar.
III – O desempregado encontra o Bar
Chegando lá, escolhi uma mesa pequena, de canto, e pedi uma cerveja. Eu tragava a segunda garrafa quando algo começou a me irritar: os garotos falavam demais, riam excessivamente e demasiadamente alto. Nervoso, pedi mais cervejas: eu me pegava tal qual a hiena que morrera por com a merda que a fizeram engolir - Eu não necessitava engolir nada e estar ali fora opção – Aceitando definitivamente o fato eu a procurei insistentemente, passando os olhos por todos os rostos sorridentes mas não a achava, num lugar que a cada minuto se abarrotava mais. Então pensei na minha irritação e se haveria outros motivos que me faziam intolerante: talvez fosse o fato de não ser um deles, de estar me tornando velho, uma espécie de Charles Bronson tupiniquim , ridículo, esquecido, pateticamente vestido num par de lentes de sol apesar das 11 da noite. – supus–
Assumida a intolerância, jamais deveria deixar me esquecer que eu fora um jovem igual aos que estavam ali, e que, como eles, gostava de badernas e das farras com os amigos. Claro, os tempos foram outros: mais tranqüilos, menos competitivos e avassaladoramente mais romântico. Porém, o deles, apesar de toda agitação, jamais seria como o meu – concluí num sorriso vitorioso –
E perdido nessas avaliações e emborcando copos após copos foi que senti a nostalgia me invadir: o álcool finalmente surtia efeito e me fazia compreensivelmente fixar-me nos bicos dos sapatos. Sobre mesa, cinzas espalhadas, caídas de um cinzeiro abarrotado de pontas de cigarros, e eu persistia fumando e eles se amassavam nos cantos da minha boca e expeliam uma nébula fétida, escura, que bailava no ar e misturava-se ao cheiro adocicado das madeiras que revestiam o lugar, quando recordei a minha vida, os meus amigos e as poucas e boas garotas que tivera: “Por onde andarão? Será que ainda vivem?” – questionei-me–
IV – Reencontrando o anjo
Eu também não sabia, apenas persistia ali pateticamente quando uma sombra ofuscou a claridade da luminária presa ao teto. Levantei o rosto e dei de cara com Sheila me fitando desafiadoramente. Devolvi o olhar – o que poderia querer uma garota daquelas ? – Insisti novamente - Eu não fazia a menor idéia e nem via muito sentido naquilo– “Talvez tenha se cansado dos garotos perfumados” – tentei me convencer como se fosse necessário justificar o fato de tê-la ali – Como as conclusões não me vinham achei melhor não mais especular os motivos - “O importante, seja qual a razão, é que ela me escolheu” – disse para mim ao sorrir anônimo e satisfeito -
-Oi! Posso me sentar aqui? – Perguntou-me ansiosa, puxando levemente a cadeira que estava do meu lado.
-Claro! – Confirmei sem me levantar
Era mágico ter aquela garota na minha frente. No corpo de curvas perfeitas um vestido amarelo, vivo e curto o suficiente para deixar à mostra o milagre de um fantástico par de coxas . Ela ainda procurava por onde começar:
-Nossa! Você me lembra um ator de cinema. Ô, ô, ô! – Dizia, estalando os dedos, tentando lembrar o nome do sujeito. Como não fazia progressos resolvi ajudar:
-Charles Bronson? –
-Não! Você não se parece com Charles Bronson – Exclamou convicta, porém persistindo no estalar de dedos.
Então pareceu lembrar-se:
- Ah! É o Freeman! Você se parece com Morgan Freeman – Exclamou freneticamente como fosse a lembrança mais importante do mundo. Como resposta obteve de mim a minha expressão de incredulidade - “Caracas! Deve ter algo de errado com essa garota!” – disse comigo mesmo - “Freeman é negro, alto e magro. Eu sou branco, médio e um tanto encorpado” – concluí ironicamente –
Porém, deveria haver algo que nos aproximasse e então continuei procurando o que me assemelhava a Morgan Freeman:
-Ah! Já sei! É a barba grisalha! Sorri-lhe compreensivelmente enquanto Sheila se ajeitava na cadeira.
Sentada, pediu sua bebida e começamos a fazer os primeiros contatos.
E foi conversando que nos conhecemos melhor. E então me falou do último ano de jornalismo, se confessou fanática por computadores, roupas de grifes, bares da moda e todas essas coisas dos jovens. Eu a olhava extasiado e tentava aceitar o fato dela ter se interessado por mim. Eu me revigorava diante de Sheila que poderia ter no máximos uns 22 ou 23 anos – “ o que essa menina quer de mim?” – me perguntei novamente - Talvez eu sentisse algum complexo , talvez eu achasse que me faltasse algum contraste e então tentei me esquecer disso enquanto conversávamos e bebíamos: e aquela menina bebia muito e após a emborcar a 4ª ou 5ª dose da sua vodka favorita deu de implicar com minhas lentes negras:
-Cara, tu ta uma figuraça com esses óculos! Só que ele é feio demais! – Ria, quem sabe curiosa dos motivos que me faziam usá-lo. Pensei em justificar-se em qualquer bobagem, mas me pareceu tão ou mais idiota do que o próprio fato de o estar usando, que achei melhor deixar pra lá.
V – O anjo perdido
Novas bebidas vieram e já fazia um bom tempo que estávamos conversando, tornando-nos cada vez mais íntimos e cúmplices quando me falou do pai. E falando dele tive a impressão de sentir-lhe certa amargura: era filha de um desses figurões que vivem metidos na mídia. Como retribuição, de mim soube apenas que eu era um duro e metido a escritor. Continuamos conversando, porém seu olhar estava distante, e a sua alegria parecia não ser a mesma de momentos e o que me fez tentar não deixar a bola cair e entrar num papo sobre literatura e me surpreender ao saber que curtia o Jack Kerouac. Pra mim surpresa, já que ela me parecia uma dessas garotas românticas, mais fanática por Sidney Sheldon do que Mickey Mouse. E isso pareceu animá-la e com o sorriso retornado comentei que gostava de algumas das coisas que havia escrito, mas que meus favoritos eram Céline, Fante e Buk. Ela estremeu ao ouvir o nome desse último:
-Está falando de Charles Bukowski, por acaso? – Perguntou assustada
- Claro! - Confirmei
Antes mesmo que eu tecesse qualquer comentário sobre o por que da minha predileção, Sheila exclamou algo que me fez gargalhar:
-Eu não faria amor com aquele “Velho Safado! nem que ele fosse o único homem do universo!
Ainda eu gargalhava quando concordei com ela:
-Nem eu! – respondi.
Definitivamente parecia-me que ela havia esquecido das introspecções de momentos antes, e um tanto“tocada” sua voz ecoava pastosa que as vezes não me permitia entendê-la, perfeitamente. Olhei no relógio e me surpreendi com o horário:
-Caracas! São duas e meia da matina! -
Ela me olhou e com ar de desinteresse se manifestou:
-E daí que são duas e meia da manhã? –
Não respondi, apenas continuei fitando aqueles olhos negros e sua feição de anjo perdido. Com o rosto apoiado entre os dois cotovelos me perguntou:
-Cara, cê ta de carro aí? –
- Estou! – confirmei.
Então fez charme e naqueles lábios carnudos me convidou:
-Vamos dar umas bandas por aí? Só não vou com o meu porque não estou legal pra dirigir. Passei um pouquinho da conta! – Disse num sorriso ébrio, sinalizando a sua condição através de um pequeno vão entre os dedos indicador e polegar.
Sorri, aceitei o convite e concordei com ela; não havia a menor condição de pegar um volante. Enfim, era tudo o que eu queria e precisava.
Pedimos a conta que ela fez questão de pagar com o seu cartão de crédito – “ A próxima é sua ” – me disse ao assinar o boleto - grana jamais seria problema pra Sheila – Quanto ao seu carro, resolveu que ele permaneceria no estacionamento do bar e pelo jeito já estavam acostumados com esse desfecho -
-Amauri! Mais tarde eu venho buscá-lo – Disse ao eficiente gerente do lugar. Amauri concordou e sorridente nos viu sair para o estacionamento onde meu carro também se encontrava. Ao chegarmos, abri-lhe a porta do passageiro e ela exclamou alto:
-Que porra é isso? – Claro! se referia ao meu Gol 1989.
-Um automóvel – Respondi um tanto sem jeito.
-Cê ta louco meu! Isso não é um automóvel. Isso é uma carroça! – Contestou gargalhando.
-Bem! É isso ou nada! – Tentei impressioná-la.
-Bora! – Ela concordou entrando no veículo.
Tão logo sentou, passou o dedo indicador pelo painel e se surpreendeu ao vê-lo impregnado de um pó negro e pegajoso.
-Porra, Jeff! Que seja velho, até que vá. Mas, imundo desse jeito? Pelo amor de Deus, né!
Não respondi. Sentado, notei-a com o canto do olho e percebi que batia as mãos espalmadas no colo do vestido na tentativa de retirar a poeira que se levantou ao sentar-se. Aquilo me deixou meio constrangido e ela percebeu e tentou consertar:
-Ahhhh Jeff! Não liga não, vai! É que sou chata, mas com você eu vou pra onde quiser – Disse meigamente, virando-se para mim espremendo os seios no meu braço direito. Depois, bruscamente virou o meu rosto na direção do seu e me beijou selvagemmente.
VI – O anjo, o motel e o recepcionista
E a beijando, eu senti o sabor de todo o álcool que desprendia de sua alma. Senti o gosto da língua, entrando e saindo da minha boca, colando na minha como se fossemos dois pedaços de carne crua, dois órfãos miseráveis e desejosos; ficava claro que aquela noite seria especial e seria findada com uma bela trepada. E pensando nisso me ocorreu a dúvida; ou um motel ou meu quarto de pensão. Pensei por instantes e decidi por um motel já que as paredes do meu quarto eram demasiadamente finas e indiscretas. Resolvido, rumei para um que já conhecia de outras paradas; um local simples e de pernoites em bem em conta. Certamente aquém do que Sheila gostaria ou estava acostumada, mas, era o que meu dinheiro poderia oferecer. Além do mais, fazê-la ou deixá-la pagar por um motel de primeira seria demasiadamente constrangedor. Ao entrarmos, se tornou indisfarçável a falta de classe do lugar, que ficou evidente mediante a observação do atendente ao lhe dar o meu documento: ele olhava descaradamente para as coxas de Sheila, que sentada com as pernas abertas não se dera conta que o vestido subira, ficando rente à calcinha:
-Aê heim “tio” Tu não é fraco não! – Disse piscando um dos olhos, maliciosamente.
Achei uma desgraça aquela observação.
-Vá se foder, cara! – Respondi enquanto pegava as chaves da suíte número 13. Antes de sair fui obrigado a ouvir outra das suas observações idiotas:
-Hum...cuidado com o número 13! Dizem que não dá sorte!– Disse num tom de chacota.
Olhei-o com indiferença. Podia novamente mandá-lo se foder ou mesmo descer e dar-lhe umas boas porradas, mas, seria pura perda de tempo, e tempo era coisa que não queria perder. Saí dali e rumei para o estacionamento da suíte ouvindo as gargalhadas e gozações de Sheila:
-Aê heim “tiozão”! O cara foi campeão com essa!
Estacionado, descemos e entramos no quarto e ela quase perdeu o equilíbrio ao tocar com força uma das pernas na outra. Antes mesmo que eu a fechasse a porta, Sheila se despiu e ficou unicamente de calcinha e sutiã. Eu olhava fixamente para o meu presente e novamente me perguntei o que me fizera merecer. Sheila exalava sexo e aquela lingerie branca e transparente aprisionava seios fartos que pareciam clamar por liberdade e se verem libertos daqueles bojos de rendas delicadas. Tudo, absolutamente tudo se acomodava nela e no seu corpo, perfeito, natural e bronzeado.
-E aê tio! Gostou de mim? – Perguntou desafiadoramente enquanto desfilava, requebrando como manequim.
-Dá pro gasto! Dá pro gasto! – Devolvi, olhando para as curvas da sua bunda, firme e arrebitada
Como era de se esperar, ao tentar girar esbarrou novamente as pernas e sem conseguir manter o equilíbrio, estatelou-se dessa vez sobre o desgastado carpete do quarto. Caída, esforçou-se para se levantar mas não conseguiu. - Procurei não intervir - Num novo esforço atingiu a borda lateral da cama e apoiada nos dois cotovelos impulsionou o corpo e conseguiu manter-se em pé.
-Tá vendo, tio? – Riu-se ao se despachar, atirando-se na cama e procurando no “radio-toca fitas” uma estação Fm. Repentinamente, um som de guitarras distorcidas invadiu o ambiente e me irritou; ela, pelo jeito, encontrara a sua estação favorita.
-Que merda é isso? – Perguntei tapando os ouvidos.
-Merda? Cê ta louco tio? Esses caras são os “Simple Pain”! – Respondeu, cantarolando a música enquanto deitava de costas pedalava as mágicas pernas no ar, como querendo acompanhar o ritmo frenético e insano das guitarras.
Eu, por meu lado, procurei e encontrei o cabide fixado atrás da porta. E achado, me despi, ficando de cuecas para depois dobrar a calça e a camisa e as guardá-las nele, tomando o cuidado para que não se amarrotassem ainda mais como se isso tivesse alguma importância Assim que a música terminou, ela me percebeu quase nu. Novamente eu ouvi as suas gargalhadas que começavam soar bem familiar:
-Mas que porra ta fazendo esse pintinho aê, tio? Exclamou.
O “pintinho” que ela se referia era a figura de um pinto, a cria da galinha que estampava a parte da frente da cueca. -Eu ri desajeitado – Ela me fora dada de presente por uma das garotas da firma onde eu trabalhava; foi por gozação num amigo secreto de fim de ano. E, além do mais, se eu tivesse bola de cristal e previsse que uma noite daquela aconteceria, jamais vestiria a tal cueca. Bem, o fato é que ela ria e eu, tentando me livrar da sua zombaria convidei-a para tomarmos banho:
-Não,Jeff, agora não! Vá na frente que depois eu tomo. Gosto de tomar sozinha – Respondeu embolado e sem que quase a entendesse.
Entrei no chuveiro e fiquei por lá uns 20 minutos com a água escorrendo pelo corpo. Naquela noite eu queria estar bem desperto - eu merecia –
Ao terminar, me enxuguei e enrolei a toalha na cintura e voltei para o quarto. Ao entrar, Sheila ressonava alto e do canto da sua boca um ínfimo filete cristalino escorria lentamente na direção do queixo – “Enfim o álcool te venceu, garota!”– sorri - Mas, mesmo assim, vendo-a desfalecida, continuava sendo mágico desfrutar aquela beleza toda, perceber os seus cabelos longos e perfumados, uma obra de arte em forma de mulher.
-Sheila! Sheila! – Tentei acordá-la, tocando-a sutilmente com a mão.
-Hã, quê! – Foi a sua resposta. Ela tentou abrir um dos olhos para depois cerrá-lo novamente.
VII - Volúpia
E a situação me fazia vê-la como refém, rendida aos meus impulsos mais profanos, e daquilo tudo que eu quisesse fazer. A idéia de tê-la sem o seu consentimento me excitou. Rapidamente me desvencilhei da toalha e subi para a cama e comecei a beijar os dedos dos seus pés, um por um. Ela, incomodada, apenas os mexia.
Extasiado, destravei o fecho do sutiã, libertei os fantásticos seios; eram lindos. Com um suave toque de ponta de língua toquei o seu mamilo que se enrijeceu e a fez sussurrar algo que mal compreendi. Novamente voltei para as pernas e com a boca fui subindo dos pés e em direção do seu órgão.
A minha língua salivava ao se deparar defronte da calcinha. Extasiado, puxei sutilmente o elástico, separando-o da carne e até que o seu sexo surgisse. Ela sussurrou novamente e dessa vez ouvi os “não, não,não”. Aquilo não me deteu, ao contrário, excitou-me ainda mais a visão. O elástico ao ceder, deixou exposta a sua vagina e uma mistura de cheiro de sexo e desodorante íntimo impregnou-se em minhas narinas, espalhando por todo ar em volta. E então, enfurecido como o leão que mata para não morrer penetrei-a bruscamente com a língua. Ela, ao sentir-se penetrada, estremeceu e depois choramingou algo que pude entender:
-Não, papai! Por favor, não! A mamãe pode estar por aí. Por favor, não faça isso! – Ela balbuciava, aflita, remexendo as pernas, pressionando uma contra a outra como pretendesse lacrá-las
Aquilo me surpreendeu e achei que naquele instante ela pudesse estar no meio de um terrível pesadelo.
-Sheila! Sheila! – Toquei-a mais fortemente, sacudindo seus ombros.
Ao contato do novo toque sussurrou como se estivesse confessando seus pecados num confessionário:
-Tá bom papai! Não me bata! Por favor não me bata. Não conto nada pra mamãe - Concluiu, com os olhos fechados e deixando perceber duas pequenas pérolas rolarem nas suas faces.
Foi aí que eu pude perceber tudo: não era somente um pesadelo, era quase real. Foi ali naquele momento que dei conta do que se passava: o pai de Sheila a molestava.
-“ Há quanto tempo isso deve estar ocorrendo?” – me perguntei - Eu não sabia - Só percebi que naquele momento ela sofria. Ainda, sem saber como agir, acariciei suavemente a testa e os cabelos:
-Calma, filha! O papai não vai te machucar. O papai nem vai te tocar – Disse-lhe sussurrando docilmente num dos seus ouvido.
Repentinamente ela se acalmou, sua respiração ofegante foi se normalizando e ela virou para o lado e após remexer-se uma ou duas vezes e dormiu em paz Assim que via tranqüila deite-me por cima do edredom e fiquei pensando por algum tempo em tudo o que ocorrera. Passado um bom tempo meus olhos pesavam e então o sono veio e me pegou.
Acordei sobressaltado diante de uma Sheila que animalescamente sugava o meu pau; demasiadamente ereto e naquele ritmo eu gozaria rapidamente – sabia disso – Então, Instintivamente rolei para o lado e ele escapou da sua boca.
-Qualé, Jeff? – Olhou-me surpresa – Vêm aqui, vêm! Eu quero esse “pintinho” pra mim!
Eu nada respondi e apenas olhei pelo vão da porta e a claridade da luz do dia denunciava que já amanhecera.E foi ainda mais desapontada que ela me viu vestir as roupas. Provavelmente sentindo-se humilhada, fez o mesmo.
Silenciosos abandonamos o quarto, entramos no carro e rumamos para a recepção: Para o meu azar, o mesmo imbecil ainda se encontrava por lá – “provavelmente é o final do seu turno” – praguejei comigo – Olhando-o rudemente pedi a conta e paguei. Assim que me devolveu o documento ouvi-o falar:
-Aê, heim tio! Assou um peixão! – É e sempre será assim; idiotas, dificilmente ficam com a matraca fechada!
O sangue me subiu e pensei em sair do carro e dessa vez, mas isso não faria melhorar a situação em nada. Olhei com indiferença para ele e aquele jamais seria um lugar de classe e a culpa era só minha. “ O que esperar de um pernoite de 45 pratas? Suíte com cascatas naturais? Faça-me o favor, senhor Jeff!” – justifiquei-me para depois me conformar–
Dando a partida, olhei para o espelho lateral e percebi que Sheila permanecera com o braço esticado para fora da janela e fizera um sinal para o imbecil, direcionando o polegar para baixo num evidente sinal que a noite havia sido um fiasco.
Surpreso, rapidamente voltei-me para o espelho retrovisor e vi o desgraçado estremecer numa gargalhada – ele entendera o significado do gesto de Sheila –
Aquilo me aborreceu e, momentaneamente, pensei em me vingar de ambos: jamis poderiam imaginar o quanto eu poderia ser ferino. Pensei por instantes e controlei a raiva: vingar de quem e pra que? Do idiota? Da Sheila?
Não, definitivamente não. Ele era apenas um pobre miserável que batalhava em empregos de 500 pratas, com direito à panetone de fim de ano. Apenas um sujeito desesperado tanto quanto eu, tentando levar meia dúzia de pães e um litros de leite para as crianças no café da manhã. E quanto a ela?: Oras, Sheila era simplesmente a vítima.
VIII - Cicatrizes
E era essa a idéia que eu fazia ao abandonamos as dependências do motel. Ainda calados fui engatando marchas, comendo asfalto, rumando na direção do estacionamento. Olhava-a pelo rabo do olho e ela permanecia calada, séria. Eu torcia por aquele anjo de mau humor.. Torcia por aquela garota e para que em algum ponto de sua vida surgisse alguém que curasse suas feridas. E que curadas, nada mais restaria que não fosse aquelas profunda cicatriz cravada em sua alma. Torcia para que nunca se visse fraca e que enfrentasse esse golpe e se tornasse forte e o suficiente para perceber que travara a mais dura das suas batalhas, que se ferira mas não morrera. E esse alguém, por mais que eu quisesse ser eu, jamais poderia sê-lo. Ao seu favor conspiravam toda a sua juventude e a misericordiosa possibilidade que lhes é dada de se refazerem dos revezes da vida e conviverem com suas cicatrizes. À meu, quase nada, a não ser a experiência de saber ficar calado e não complicar ainda mais as coisas. E esse era um desses momentos.
Evidente, eu não era o seu pai, mas naquele momento não haveria nada que me fizesse sentir como se não fosse. E aquilo doeu em mim ainda mais que as dores da máscara de ferro que me visto e só me faz complacente com as próprias desgraças. Definitivamente, eu estava cansado de tudo aquilo. Estava cansado de ser meu acusador e juiz. Havia vida afora de min. Haviam dores maiores que as minhas: dores que não se curavam com pinceladas de merthiolate mas que, não sendo próprias jamais compartilharia. Eu não queria ser o salvador do mundo ou a besta do apocalipse. Eu queria apenas viver. Não queria mais me sentir enojado com as desgraças, não queria ser mais um atleta insensível, mesquinho e preocupado unicamente com os 100 metros rasos das suas próprias emoções.
IX – Redenção
Ao chegarmos, meus olhos marejavam e eu me esforçava para não piscar e nem deixar a lágrima cair, mas o seu humor não a deixou notar. Ao saímos do carro e ela acenou para o senhor que tomava conta do local. No pátio apenas o seu carro aguardava, solitário.
Lentamente ela caminhou até lá, e entrou e deu a partida. Com o carro em movimento veio rápido na minha direção, ali parado junto ao portão de entrada. A quase 2 metros do meu corpo freou bruscamente e depois deixar o carro rolar suavemente até postar-se do meu lado. Parada, eu a vi procurar por algo no porta luvas do carro. Assim que o achou, retirou um pequeno estojo embrulhado em papel de presente. Olhou para mim, sorriu e me entregou. Mais surpreso que assustado eu o abri na sua presença: um importado e caríssimo óculos de sol - Eu não tinha condições de ter um daqueles -
-Era o presente do meu irmão. Hoje é aniversário dele! - Disse, justificando o presente-
E além do mais, esse seu é pavoroso! – Completou, cerrando os olhos e meneando negativamente a cabeça num sinal de desaprovação.
Eu agradeci pelo presente, retirei os óculos, coloquei no rosto, me vi refletido no vidro esverdeado do carro, e gostei de como ficou em m mim.
-Até qualquer dia, tio! – Exclamou, divertida, assoprando-me um beijo escapulido do centro da palma da mão
-Até qualquer dia, beleza! – Respondi com uma certa tristeza na alma. – eu havia jogado fora a única chance – eu sabia disso também.
Então, bruscamente pisou no acelerador e o motor rugiu forte e alto como era de se esperar de um BMW conversível. Assim que a marcha automática entrou em 1ª, o carro deslizou suave, esperando que o tráfego permitisse entrar na via. Passado o último veículo, Sheila acelerou e entrou. O seu último sorriso ainda foi o mesmo e se manterá forjado na minha lembrança para sempre como lembra o gado o ferro que o marcou.
E então, o carro seguiu em frente até não lhe perceber mais a forma e nem ouvir o barulho do motor. Ao se aproximar da esquina era somente algo
quase abstrato e de uma cor prateada. Com a luz de seta ligada, Sheila dobrou à esquerda para nunca mais vê-la.
Talvez estejam certos em afirmar que a vida é feita de novas chances.
Talvez eu não esteja errado por não acreditar nelas, jamais .
By Véio China,
ago/2008
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Bêbados conversam com Deus
Ele tentava livrar-se de si, desesperadamente. E quanto mais se debatia, mais viá-se alçado ao fundo, numa descida vertiginosa. E tudo lhe parecia surreal e ele nem podia se dar conta se era sonho, pesadelo, ou mesmo, realidade. Seus pulmões já davam à falta de ar. Na louca descida, pareceu ter visto salamandras, sereias e até o palhaço Piolim. " Isso só pode ser um pesadêlo" - tentava se convencer - Só isso justificaria o terror do qual se via refém. Ainda de posse do seu último ar, pareceu dar-se por vencido e então questionou não se sabe à quem:
-Vais me deixar matar a mim? – A frase, balbuciada, apesar de difícil assimilação, foi ouvida. Provavelmente dialogava com Deus
Birinha, seu amigo de porre, também um tanto alterado, sentado ao seu lado numa mesa de Bar, percebeu que o amigo, momentaneamente perdera os sentidos e entrara numa epécie de transe. Com se fosse possível resolver a questão do amigo, interferiu:
-Sabe o que é, Astolfo? É que você é demasiadamente permissivo. Quando as coisas estão feias pro seu lado, geralmente você foge de si mesmo –
Astolfo, acordado pelo colega se deu conta que havia tido um pesadelo, ali mesmo, sentado na cadeira. Certamente o teor alcoólico que corria em suas veias era provavelmente quinze vezes superior ao recomendado pelo Ministério da Saúde. Mas como isso não lhe fazia a menor diferença, Astolfo tratou de voltar ao mundo real e das luminárias sobre as mesas de bar.
-Cento e vinte reais – Comunicou o garçom com as comandas em mãos e diante daquela imensidão vazia de garrafas de cervejas, copos de caipirinhas, amendoins torrados e frangos à passarinho.
- O que? Cento e vinte reais? – Horrorizou-se Astolfo enquanto tentava conferir os papéis que caqiam das suas mãos.
Novamente Astolfo pareceu cair num profundo sono e voltou à debater-se. Sua respiração estava como antes; um tanto ofegante,forçada, que fazia rarear o ar que deveria abastecer os seus velhos e cansados pulmões. Ele permanecia com olhos fechados e da sua boca, aberta, escorria um filete de baba, espesso, nojento e esbranquiçado. Os lábios tremeram e então a sua voz, mole e bêbada, questionou-se outra vez:
-Vais me deixar matar a mim? – Ele recomeçava de onde parara um dos seus infindáveis diálogos com o Todo Poderoso.
Birinha, ao seu lado, apenas sorriu. Sorriu como um bêbado acostumado. E um tanto capenga, mas ainda discernindo o valor do dinheiro, pagou a conta e sumiu.
Relacionamentos, suas Mentiras, Verdades e Mitos.
Ele parecia infeliz. Talvez, resguardadas as devidas proporções, encontrara algum tipo de felicidade nos poucos momentos da juventude e nas raras, mas boas bebedeiras. Agora Porém agora a vida não lhe parecia grande coisa e a impressão de ser sempre o voto vencido deixavam-no com a sensação de ser como aqueles jogadores que fazem do blefe o único trunfo para a vitória, como se suas cartas tivessem que mentir para sempre. Convinha-se, isso lhe era pouco, portanto comum era tê-lo angustiado, acompanhado da eterna sensação de incompetência, algo inatingível em sua vida, mesmo que soubesse os motivos; Relacionamentos.
E manter um relacionamento, para ele e em teoria correspondia sentir-se muito próximo da felicidade. Na sua mente, a relação deveria se galgar ao sucesso, inadmitida a hipótese para dois sujeitos apaixonados não se permitirem a mais cumplicidade, a solidariedade dos amantes, e esta sim o mais perfeito instrumento de convivência. Portanto, estar com uma mulher e sentir-se isento era o mea culpa, a admissão que a vida pode existir sem finalidades e interesses de qualquer ordem. E era esse o momento vivido por ele; desilusão plena.
Apegado aos jogos de cartas, era comum comparar a sua vida à um exímio jogador de pôquer que, em poder dum avassalador Straight Flush, imagina-se o ganhador da bolada, quando, inesperadamente, surge por entre os dedos do oponente o quase impossível Royal Straighgrandet Flush, fazendo calar a sua soberba, definitivamente. Sim, esse sujeito era um perdedor tanto quanto ele.
E isso o fazia concluir que tudo poderia ser ou estar melhor se não se envolvesse tanto, ou mantivesse a calma e conseguisse levar seus relacionamentos em “banho Maria”. Que fosse devagar e sempre, que não deixasse subir a fervura, nunca. Mas, o simples fato de ir para a a cama com um estupendo par de pernas e uma bunda arrebitada já não fazia sua cabeça, afinal, era deprimente e tanto solitário a vagina de uma mulher servi-lhe apenas de depósito para o esperma. Não, definitivamente isso, agora, não fazia o menor sentido.. E se fosse para compactuar com esse estado de coisas, melhor seria alguns DVDs de sacanagem, pois também haveria a garantiria do gozo com a masturbação. Sim, ele queria muito mais, merecia mais, palavras, olhares, bocas, marcas de batom e coisas sussurradas nos ouvidos, além de mãos se embrenhadas em seus cabelos. Seria tão difícil encontrar uma mulher sensível que lhe dissesse o quanto era importante.
No seu dia-a-dia com as pessoas o mal humor d suplantava a generosidade e sorrisos, e a mesquinhez dos sentimentos espocavam por todos os cantos, um sabor ordinário de vinho barato, desses que se compram em adegas e custam o mesmo que um maço de cigarros.
Enfim, havia a premente necessidade de virar o jogo, e cobrar mais da vida, pretender a felicidade. Chegara a hora de procurar suas falhas, problemas, afinal, estivera tanto tempo ausente de relacionamentos reais que, talvez perdera o traquejo de como manejar uma boa mulher.
E assim, munido de tudo que sua consciência avaliara, surpreendentemente resolveu procurar a sessão de classificados de um jornal e publicar um anúncio. No jornal, e antes mesmo de ser emitida a nota do serviço teve que testemunhar o olhar divertido do funcionário. E foi esse o anúncio:
- Procura-se -
“Senhor em situação economicamente confortável procura pessoas do sexo feminino, com idade entre 40/50 anos para relacionamento estável e duradouro. Exige-se apenas que a pessoa tenha caráter. É importante lembrar que solidão não é moeda de troca, e ter na mesma cama uma mulher não significa necessariamente “não estar só”. Exijo também a autorização para a gravação de fita de vídeo onde a candidata diga com toda clareza o que espera do relacionamento, especificando suas peculiaridades e preferências pessoais. O material gravado será duplicado e cada qual manterá a sua cópia para, a qualquer momento discutirmos os eventuais desvios de rotas e que não foram contemplados na proposta inicial.
Após o anúncio saiu do jornal com a convicção que houvera feito o certo apesar do preço. Ah, que se dane o dinheiro! - Disse consigo mesmo. Estava farto das sereias. Farto de garotas que o encantavam com melodias que seus ouvidos queriam ouvir. Não, definitivamente não! Algo seria mudado, e agora queria apenas aquilo que se constituísse nas verdades.
E assim pensando seguiu em frente e venceu quarteirões rumando à estação do metrô que lhe deixaria num bairro classe média de São Paulo. Antes de chegar do metrô percebeu um cachorro urinando num poste de esquina. Sorriu do fato, e aproximou-se do animal, e disse-lhe num tom intimista:
-Amigo, temos que ser assim. Essa coisa de se fiar nas palavras de uma mulheres, ou mesmo, no fio do bigode, ficou lá atrás no tempo dos nossos bisavós! Hoje é necessário estar tudo documentado, pois a tecnologia, mesmo sendo louca está aí pra nos ajudar!
O cachorro, parou momentaneamente de urinar e o olhou para ele, desinteressado, e se pudesse falar ao latir, diria: Cara, você só pode ser doido! - Terminado as falas, o cão atravessou a rua abanando o rabo, de lá pra cá, deliciosamente. E o homem apenas permaneceu pensativo e, assim que perdeu o cachorro de vista continuou em frente por mais algumas quadras até se deparar com uma sofisticada loja de equipamentos eletro-eletrônicos. Alguma coisa ainda o incomodava e dizia-lhe que ainda não encontrara a solução ideal para suas questões. Então novamente se questionou - "Valfredo! Será que somente essa gravação resolverá todos os problemas? - E foi assim, sem aguardar a resposta e como um zumbi em algo que adentrou a tecnológica loja. Ao vê-lo pelos andando pelo corredores olhando uma coisa e outra um sorridente atendente se aproximou:
-Pois não senhor! No que podemos ajudá-lo?
A pergunta veio no mesmo instante em que viu um equipamento que fez seus olhos saltarem de ansiedade. Certamente parecia um aparelho de última geração, cheio de fios, conectores, pintado com uma tinta prateada.O vendedor, experiente, percebeu o seu interesse pelo equipamento. “Este está no papo” - Concluiu - E para impressionar ainda mais o cliente empostou a voz e esmerou nos comentários:
-Senhor, o - TRUENOW DPT21B - é um equipamento de uma eficiência extrema, ideal para pessoas de fino trato, exigentes, e que merecem mais. Portanto fará ótimo negócio ao adquiri-lo - Disse para o cliente com uma confiança exagerada e após ter demonstrado algumas utilidades da máquina. Depois continuo com o macete do convencimento: - Agora o que o senhor jamais imaginaria...Para ter uma ideia, ligando esses fios às laterais da cabeça é possível ser avaliado o pensamento humano – Concluiu diante o olhar embevecido do cliente. Claro, Valfredo estava no papo! E foi assim que o vendedor levou-o gentilmente pelo braço à direção do caixa central. Valdredo, que de bobo nunca teve nada, sabia que aquele blábláblá era conversa de vendedor. Mas, fazer o que se ele ficara hipnotizado por aquela máquina?
E assim foi, sorridentes e satisfeitos, comprador e vendedor, que Valfredo deixou um cheque de valor considerável naquela loja de tecnologia de primeiro mundo.
“Será que vai funcionar?” Se perguntou ao acenar para um táxi postado ao lado de enormes caixas de grosso papelão..
Um dos "grandes" parou ao seu aceno, e o motorista um tanto contrariado ajudou-o a colocar as caixas no porta-malas que mal fechou. O taxista, mesmo sem saber o destino seguiu em frente enquanto Valfredo, no banco traseiro ainda se questionava; " Será que isso vai funcionar?" - Pensou, mas como não houve a resposta, desistiu dela. Se iria ou não funcionar ele ainda não sabia. O que Valfredo sabia era que acabara de adquirir um caríssimo e sofisticado "detector de mentiras". Então sorriu entre matreiro e ansioso, pois a estréia da máquina se daria com a primeira entrevistada, desde que, óbvio, ela concordasse com todos aqueles eletrodos em sua cabeça.
"Que venham as novas e gostosas sereias!" - Disse para si, tentando demonstrar confiança.
Algo, internamente, lhe garantia que tudo seria diferente, agora. E assim, convencido, ordenou ao pracista:
-Por favor! Rua do Triunfo!
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