terça-feira, 26 de julho de 2011

Álbum de Fotografias - Uma quase estória de amor -


Perdido nos labirintos dos meus medos/ Quero ser  água de cachoeira/ Desprender-me do alto e jorrar/ Num voo livre e denso/ Sentir a força deste amor/ Em cada sorriso do teu olhar/ Não vou  mais me arrebentar/ Em pedras de sabores amargos........
Foi o que jurei para mim


Era uma poesia minha. Uma poesia à procurava de algum rosto, algum traço que pudesse trazer  alegria e um motivo de fazer persistir-me nesse acordar do dia-a-dia,  nessa vida de tantos tropeços. Eu andava numa solidão de dar dó, auto-imposta, premeditada até. Afinal,  nada surgia que me interessasse à ponto de fazer desprender-me da concha para perceber o que se passava à minha volta. Deixados para trás  ficaram  dois casamentos, mulheres, alguns fracassos, e filhos. Aliás, uma penca deles, cinco para ser mais exato, esses sim jamais “ex”..
Recordo também que esta solidão foi colocada em xeque na Rua Barão de Itapeteninga, no centro de Sampa. No meio da multidão um rapaz  gritava os dizeres de um cartaz preso às costas: "Case bem e deixe essa vida de vai-e-vem!" Evidente, achei muito engraçado a cena. Porém algo curioso aconteceu ao olhar praquele  garoto. Repentinamente me senti impulsionado a ir no endereço indicado, um pressentimento que  pudesse dar certo. Memorizei o destinoo e na mesma rua, no 318, conjunto 301- achei a agência de csamentos - CASE BEM -
Ansioso, subi ao 3o andar e fui ao encontro da minha felicidade.
Ao adentrar ao conjunto uma moça de cabelos avermelhados me olha de cima abaixo:

-Boa tarde, senhor....senhor...

-Oh, desculpe, Kelldian! Marco Kelldian – Respondi.

-O Senhor está á procura da felicidade? – Ela me pergunta com certa doçura na voz.

Tive vontade de responder que  jamais existiu e nem existiria a felicidade e essa tal pessoa ideal. Talvez eu estivesse sendo um tanto radical pois numa  certa vez alguém cruzou o meu caminho. Uma dessas pesssoas fabulosas e que temos por hábito de rotular por "sob medida”  Contudo, e contrariando o outro lado da moeda ela percebeu à tempo que eu não era a medida para o seu tamanho.

Todavia achei melhor não contrariá-la  em demasia. Eu não queria parecer-lhe antipático.

-Sim! Estou à procura da felicidade, senhorita.....

-Carla! Carla Dambrózio – Respondeu caprichando ainda mais no sorriso comercial.

Ela puxou uma cadeira e pediu para sentar-me. Ainda com naquele sorriso forçado deu-me a ficha cadastral onde eu deveria fornecer meus dados pessoais, situação sócio-econômica e outros tantos detalhes que por pouco imaginei estar ante um fiscal da Receita Federal. Após preenchido ela faz um recibo e me entrega. Retiro o talão de cheques da carteira e preencho a penúltima folha com a quantia solicitada.

Ao entregar-lhe o cheque  imaginei se aqueles trezentos reais seriam um indício para minha felicidade. Era mais que certo na vida sempre será necessário pagar pra ver, portanto, eu estava fazendo a minha parte. E também porque se fosse bem sucedido  naquela louca procura haveria de concordar; o preço era irrisório.

Em seguida levantou-se da sua mesa e me encaminhou para uma das diversas salas do conjunto. Ali numa delas colocou alguns álbuns de fotografias sobre uma mesa de reunião.

-Senhor Kelldian, aí estão as fotos de algumas de nossas mulheres Aquelas que ainda no encontram a sua cara metade.

Dito, novamente sorriu o seu melhor sorriso empresarial, encostou a porta e deixou-me só. - “Nossas mulheres” - O termo ecoava em minha mente. “Nossas mulheres..nossas mulheres” - Eu estava impressionado pelo fato delas custarem tão barato...apenas trezentos reais – Concluí.

Na mesa três volumes de álbuns. Abri pacienciosamente e no primeiro percebi algumas mulheres interessantes, bonitas até. Eu achei curioso o fato de todas as fotos apresentarem o mesmo fundo, uma paisagem de nuvens límpidas e um céu extremamente azul. Isso me levou a deduzir  que as fotos eram tiradas ali mesmo, provavelmente em alguma daquelas salas.

Em todo caso o passe de mágica veio com o segundo álbum. La estava ela! Eu achara!
Eduarda Reys indicava o nome na contracapa do seu pequeno book. A descrição do seu perfil indicava para um cargo de assistente social. Além de divorciada dizíasse poetisa. Logo mais adiante fazia menção à dois filhos ainda menores. Algo me apaixonava nela e naqueles olhos tão cheios de vida. Um sorriso repleto de esperanças me fez imaginar campos verdejantes, calor das mãos dadas e sussurros de eterno amor.
Nas fotos mais à distância notava-se um corpo de alguém beirandos aos  quarenta, porém de curvas excitantes e pernas bem torneadas. Tudo isso se emoldurava num vestido dum vermelho Ferrari com  5 dedos acima dos joelhos.
Claro, o entusiasmo evitou  que eu perdesse  tempo com os demais álbuns.
Levantei e me encaminhei à recepção.

-Senhorita Dambrózio, eu a encontrei!

-Um minuto senhor Kelldian. Já vou vê-lo e conversamos melhor. – Ela respondeu ao interromper a ligação em que estava.

Menos de 5 minutos la estava a recepcionista me indicando de que forma  proceder.
Sobre a pessoa em questão a senhorita Dambrozio relatou que a "dona Eduarda" preferiria ver antecipadamente  as fotos do eventual pretendente. E no caso de manter algum interesse, que o contato seria feito pela própria e por  telefone.

- Tem certeza que há o interesse, Senhor Kelldian?

-Plenamente! Todo interesse – Concluí mais palavras.

A senhorita Dambrózio sorriu e pediu para acompanhá-la, novamente. Mais uma vez eu me via perdido naquele labirinto de salas quando entramos noutra delas. E foi  lá, sob a limpidez de nuvens alvas e dum céu cretinamente azul que tirei as fotos para o meu book.  Era estranho. Repentinamente eu me sentia uma espécie de top model - "Vire mais pra ca, pra lá, sorria, não franza a testa" - Ela orientava a mim e ao meu constrangimento.
Por sorte eu havia me barbeado na manhã  e minha aparência, complementada por um terno social  de um cinza escuro e uma camisa branca me aferiam um certo ar de respeitabilidade.

-Bem....É só isso senhorita? – Perguntei. Além de me sentir incomodado achava estranho todas aquelas formalidades – Pensei - . E o amor, eim? Bem...o amor.. quem diria... o amor tinha se tornado mera transação comercial, um grande negócio.

-Sim, é sim, senhor Kelldiam.  Aguarde que manteremos contato. Telefonaremos, avisou no final.

Despedimo-nos cordialmente e retornei para casa com o sorriso de Eduarda impregnado na mente. A senhora Reys impressionara, sensivelmente.
Nos dois dias seguintes  não me dispersara do seu olhar quando o telefone toca.

-Alô, o senhor Kelldian, por favor?

-Sim, ele! –

Era Carla. Conversamos por alguns momentos e ela me disse que Eduarda Reys havia se interessado por mim, e que faria contato. Mal desliguei ele toca novamente.

-Alô, por favor, o senhor Kelldian? – Ela era, a voz dela, Eduarda Reys.

-Eduarda? – Pergunto no aguardo de sua  confirmação – A tonalidade  parecia combinar com os seus olhos castanhos e o sorriso que tanto me encantara.

Foi o que bastou para iniciarmos uma conversa e desligarmos depois de mais  de três horas. Falamos sobre diversas coisas, relacionamentos, família, sobre ela, sobre mim, e finalmente o nosso gosto pela literatura. Sensível, poetisa dotada de extrema percepção Eduarda acabou por recitar uma de suas poesias como estivéssemos num sarau. Também falei daquilo que  me era paixão. Falei dos meus contos, de alguns personagens sem rostos mas com resquícios de alma. Ali mesmo trocamos nossos e-mails com promessa de não perdermos contato. Ao desligar parecia que eu conhecera aquela mulher pela vida inteira.

No decorrer do mês persistimos no contato diário, ora por telefone, ora por correio eletrônico. Inclusive nos tornamos recíprocos ao ponto de comentarmos todas as  mazelas de nossas vidas, nossos fracassos e os poucos sucessos. Constantemente trocávamos e-mail com poesias, contos, ora sugestionando, ora criticando.
Recordo-me também que ela se impressionara com um dos meus personagens; Erico Zambini era seu nome, e segundo ela, ele se caracterizava por uma melancolia de um amargor doce.
Porém faltava-me algo. Faltava a posse daqueles  aqueles olhos  e  do sorriso tão perturbador e que não me permitia dormir sem relembrar dele. E a coisa fluiu até o chegado o momento de nos conhecer. Marcamos para um sábado; 19 horas.
Pontualmente e conforme o combinado eu a peguei defronte ao prédio que residia. Eduarda estava simplesmente sensacional. Eu senti arrepios ao cumprimentá-la à saída do edifício, uma sensação gostosa de tocar as suas mãos,  de sentir o perfume delicado e feminino envolvendo o ar.
Ao abrir-lhe a porta do carro, discretamente e sem que fosse sua intenção deixou-me ver uma nesga de suas exuberantes pernas, algo dum apelo tão sensual que jamais senti por outra mulher, apesar dos meus muitos relacionamentos.

Partimos e a duas quadras dali ganhei o estacionamento dum supermercado; meus cigarros  tinham terminado. Estacionei, desliguei a chave do contato e fitei-a. Eduarda jamais saberia, mas, existia nela tanta luz, talvez o suficiente para alegrar miseráveis e descartar incrédulos iguais a mim.
Portanto, ainda permanecíamos sentados e em completo  silêncio quando lembrei-me que na véspera  havia pedido para que me fizesse uma poesia. Como resposta ela dissera que não conseguiria assim de forma tão simples:

- Kelldian,  poesia não se encomenda. O que nela se traduz é simplesmente o estado de paixão por alguém ou algo.

Claramente Eduarda estava coberta de razão e eu não deveria ter tocado no assunto, mas, impulsivo que era, não consegui evitar. Em todo o caso tentei me justificar:

- Ultimamente ando muito pidão, né Duda? ( Eu gostava de chamá-la de  Duda ) - Ah....coisa de velho! Deixa pra lá! -  Completei sem perder o costume de ser tanto chantagista.

- Imagina, Kelldian...pidão nada. Se o não é dado, não custa buscar um sim. E outra coisa; “velho é trapo". Então, sem chances de você ser um. – Respondeu concentrada. Duda era escolada, e não seria tão fácil sugestioná-l.a

- Mas..não ando te pedindo muito  Duda? Veja...peço poesias, atenções, carinhos....
Ando abusando, não é meu anjo? Confesse! Juro que aguento! – Novamente um chantagismo psicológico em cena.

- Ta abusando não meu lindo...pronto, confessei. Você me faz bem- Devolveu com um sorriso nos lábios. Dessa vez eu tinha me dado um pouco melhor.

- Sabe...As vezes gostaria de ter uma bola de cristal para descobrir o que a Du pensa de tudo isso. Mas.....infelizmente eu não a tenho. Assim só resta deixar as letras descobrirem – Afirmei cerimonioso, assim, como se houvesse chegado a algum fantástico pensamento.

- Bem...a Eduarda, ou Duda, se preferir, pensa só coisas boas. Não gosto de deixar coisas ruins ocuparem espaços em minha vida, senão acabam por alastrar – Ela devolveu séria, determinada.

Depois sorriu e continuou -

-Pode ter certeza disso, Kelldian...se não jamais estaria aqui no carro com você. Deixa de tentar ser um Herculano Quintanilha...seja somente o Erico Zambini do brasil do meu coração – E riu. Um riso maroto, apesar da singeleza do tom.

Aquela mulher sabia como mexer comigo, parecia conhecer o meu ponto “G” afetivo. Eu saboreei cada espaço da sua frase, cada entreabrir de lábios. Eu simplesmente não consegui me conter e ri:

- Herculano Quintanilha, Du? Quer me fazer morrer de rir? . Adorei isso! Hum...Erico Zambini do Brasil do coração da Duda. – Depois continuei as minhas impressões:

-Bem... Acho que temos problemas à vista, Du! Tem um tal de Kelldian fazendo sinal. Provavelmente queira viajar nesse nosso trem. Sei não! Será melhor ele ficar de fora?
.
-Hum...O nome dele Kelldian, é? E o que você sabe sobre esse tal Kelldian? - Ela questionou  trazendo nos olhos um misto de surpresa.

- Sobre esse tal de Kelldian? Bem....às vezes acho que sei tudo. Outras...quase nada. Por vezes um sonhador que se impressiona com  sorrisos meigos ou com detalhes de sensíveis em textos.

Ela me olhava, questionadora. Era como se pretendesse saber com toda segurança quem era aquele homem.  Tossi discretamente  e segui:

-Vez em quando ele e suas atitudes me surpreendem. Como agora por ex; Ele entra no e-mail só pra checar se há mensagens suas. E quando não encontra  se torna lacônico e decepcionado. Estranho ele, não acha?

Eduarda prestava atenção. Depois desviou o olhar e o cravou no toca CDs como se ali houvesse respostas pras suas perguntas. Pensou por alguns instantes e falou:

-Bem, to começando a achar que esse tal Kelldian é igualzinho a todos nesse aspecto.
Os sonhadores são pessoas inteligentes. Eles encontram uma forma mais bonita de viver. Tentam colocar flores no caminho para melhor percorrê-lo aproveitando-se do perfume! –  Devolveu entusiasmada. Pelo jeito Duda achava os sonhadores interessantes. Depois continou:

- Eles são pessoas sensíveis, que se impressionam com sorrisos, com carinhos, com palavras! Para as pessoas sensíveis as pequenas coisas são gigantescas e fazem toda diferença – Aí então finalizou num tom emocionado: - Sabe Kelldian, obrigada pela sua sensibilidade e overdose de carinho!

Aquilo foi demais para mim. Eduarda sabia como ninguém tocar-me com suas conclusões.

- Olhe Duda! Estou sorrindo para você! Eu e você  somos permeados por overdoses de sonhos e realidades. Eu um sonhador, e você, bem, assim, excessivamente  realista e gentil.

Eduarda não fazia a menor idéia, mas me sentia sonhador, disposto  talvez a voar para Marte, África e lutar por algo que acreditasse. Talvez ela fosse o inverso. Talvez ela precisasse  sentir o chão e a terra por entre os vãos dos dedos. –  Duda persistia encanta, atenta à minha fala, aos meus gestos. Eu, por outro lado, desembestara a falar sem parar:

-Perceba, Duda.  Aqui estamos nós. Lados opostos num embate interessante, um jogo de quase sedução permeado por sonhos e realismos. Acho que o poeta sempre soube, apesar de jamais me sentir um, que o sonho jamais prevalece à razão. Finalizei num tom desanimado.

Ela continuava me fitando, algo encantada, talvez preocupada com a visão que passei. Ainda pensativa ela desviou o olhar de mim e outra vez fixou-se  no painel do veículo. Permanecíamos em silêncio. Repentinamente a tonalidade de sua voz transborda numa   poesia.. Duda declamava para mim :

Sonho e realidade/Sonho é poético/A vida também/Sonhar realidade/Ou realizar sonho/Faz muito bem!
A vida é irreversível/Poupá-la não convém/Jamais saberá o fim/Se não for além!

A vida é festa de alegria/É flor desabrochada/É sabido que a dor penetra/Mesmo sem ser convidada!
A fuga nunca foi segura/Só resta viver de fato/Na vida o que perdura/É o amor, e o seu ato!
E a razão, morre de paixão/Porque não dá o braço a torcer/Ela vibra de emoção/Mas tenta sempre esconder

Eu a ouvia deslumbrado. Tudo que conversáramos até então se encaixava em contexto. Poesia sua, feita no ato, de fato. Eu persistia aturdido e ela, ante a minha reação brincou:

-Kelldian, a vida é festa de alegrias! Uhuuuu... Mesmo sem ser convidada! quase fiz esta poesia

-Que gostoso, Duda! Ta vendo porque você- me deixa em estado de constante paixão? - Devolvi. E continuei:

-E saiba dona Eduarda....isso é poesia sim! Uma poesia da Duda para o Kelldian. Bem, .pelo menos isso, né? –  Naquele instante me sentia feliz.  
Mesmo que não quisesse seria impossível não gostar daquela mulher de olhar jovem e de atitudes surpreendentes. Eu me sentia um verdadeiro  jovem, um desses garotos galantes em suas calça jeans desbotadas que cursam o primeiro semestre de faculdade. Contudo, Duda era tímida ,dessa timidez franca, sincera, essas  que só encontramos em pessoas que realmente valem a pena:

- Kelldian, deixei de mencionar nesse projeto de poesia que é difícil escrever para poetas como você. Tu escreves pacas, te curto um absurdo. Gosto de te ler.
E saiba: a razão é uma invejosa que canta de galo, se acha a poderosa, mas prefere a emoção em prosa.

Outra vez o encanto. Eu me sentia indefeso; era como se uma serpente naja pudesse sair por entre aqueles bancos  e me picar; e eu nem sentiria.
Antes que déssemos a partida na direção do bar onde tomaríamos alguns drinks ela me sai com essa:

-Kelldian,.ia me esquecendo.... Nõ existe ninguém perigoso, ganhador ou perdedor.
O que existe é uma forma certa para negociar! – Ela sorriu e piscou.

Eu entendi o recado. Eu não era um ganhador, mas havia ali uma batalha onde  não se podia  tombar morto sem lutar. E em cada batalha haverá a possibilidade da vitória. E, para isso eu deveria seguir adiante e jamais desistir.

-Independência ou morte! – Exclamei.Ela riu,  nós rimos.

Dei a partida e o carro avançou suavemente. No primeiro farol o vermelho se abriu majestoso. Aguardei as pessoas passarem e elas pareciam tão sisudas,  preocupadas com suas vidas, seus tantos problemas e obrigações. Um fim de tarde morno fez surgir do nada um rapaz e seus malabares com o fogo. A vida estava dura, muito dura, dava para entender aquelas roupas de circo e o nariz de palhaço. Pouco antes do verde eu desço o vidro e lhe  dou algum dinheiro. Ele sorri e me olha agradecido. Antes que o carro partisse, ele diz:

-Aêêê tio! Boa sorte no babado! - Eu sorri. Provavelmente o “babado” ao que ele se referia deveria ser a  Eduarda - Eu olhei divertido. "Boa sorte no babado" murmurei e sorri novamente. Ele tão esperto como as suas tochas de fogo. De algum jeito ela sabia que eu precisaria de alguma sorte.

Mais uma vez fitei  aquela mulher madura e duma beleza quase juvenil e percebí que seus olhos cintilavam tão lindos que poderiam ofuscar o fulgor do sol ou a exuberância da lua.
O farol abriu e seguimos em frente. Sempre em frente. Em frente, para os lados, mas nunca para trás. Naquele instante  entrar  à direita ou à esquerda não faria a menor diferença. Era só seguir adiante procurando as marcas dum novo destino e jamais retroceder no olhar.

-Independência ou morte! – Exclammei mais uma vez para uma Eduarda que parecia feliz.

Talvez aquela noite não fosse uma como outra qualquer.

Copirraiti 26Jul2011
Véio China®

sábado, 2 de julho de 2011

Palhaço!

E o mundo gargalha diante aos olhos do palhaço; Ele não é engraçado, sabe que não.
Insiste, mas não consegue compreender o motivo de acharem tanta graça em seu jeito.
Talvez seja o olho maior que o outro ou a tinta esbranquiçada que tinge seu rosto ou mesmo o nariz avermelhado e arredondado do tamanho de uma bola de golfe.

Ele jamais pensou ou quis ser palhaço. Relembra a infância e o circo na cidade.
Um olhar encantado nas lonas coloridas e no leão peludo que parecia tão bravio
Vou ser domador – Exclamou divertido - Haveria de ser herói, igualmente, e ter as feras ao seu comando. E aquele leão que aguardasse! Haveria de ter o seu respeito e o medo era apenas passageiro O peludo haveria de sentir a autoridade de sua voz e os estalidos do chicote. Ah se haveria!

O tempo passou e não houve o leão e nem qualquer outra fera
Não houve quem obedecesse a tom de sua voz ou os estalidos da chibata que acoitava o ar.
Persistiu sim aquele encanto que jamais o abandonou, mesmo que socado a se ver fantasiado em roupas largas e super coloridas. Ele mesmo achava divertido aquele nariz enorme e vermelho, mas que não era o seu


Todo palhaço é solitário, sabiam?
E pra ele jamais houve companhia que não fosse o riso
Palhaço, palhaço! – Ele adorava quando gritavam, incentivavam
Ria palhaço! Pediam. E ele ria e ria e até acreditar que era o mais verdadeiro dos palhaços.
Palhaço não precisa de amor. Palhaço necessita do riso e de olhos de criança... Convencia-se

E agora, depois de tantos anos passados ele persiste palhaço.
Um palhaço de gestos lentos e rosto enrugado
Apenas um palhaço que ri, ri e continua a rir tanto
Até seu riso explodir num pranto de dor
Que ninguém sabe, imaginam ser apenas risadas
As risadas que ele sente da própria dor

Que palhaço eu fui? Escarnece de si. Para isso jamais houve resposta
E então ele continua rindo, rindo e rindo. É unicamente o que ele sabe fazer
Não mais incomodam as lágrimas que se fundem aos poros e borram o rosto até desabarem e fenecerem na boca imensa e azul
Ele é apenas um palhaço! É a única certeza que tem
Um palhaço a rir da compaixão que tem por si.


Copirraiti 02Jul2011
Véio China©

terça-feira, 21 de junho de 2011

Uma trepada dos infernos

Acordo sobressaltado numa cama que parece arder em chamas.
Confuso sinto o corpo ferver numa sensação estranha na nítida impressão que a onda de calor inicia nos dedos dos pés e desenfreada sobe até o último fio de cabelo. Abro os olhos e me sinto perdido no tempo e espaço; Quanto será que dormi? Talvez uma hora, pouco menos? - Eu não sabia. Entretanto exceto a temperatura corpórea, tudo parecia estar como antes, inclusive a insônia que me castigava por dias à fio naquela pousada à beira lago, São Joaquim, precisamente no estado de Santa Catarina.
Logo, a onda de calor que me toma é conflitante, afinal, como é possível estar numa cidade onde o clima é demasiadamente gélido para que sinta tal sensação? Não, não há lógica, contra-senso, ainda mais porque,  na praça da matriz, à tarde, ouvi as pessoas comentando que a madrugada faria os termômetros baterem nos quatro negativos. Incomodado reviro-me na cama e procuro o interruptor do pequeno abajur que adormece na mesa de cabeceira. Tateio com a mão e ao encontrá-lo  ligo o botão e vejo surgir uma fraca luz num tom azulado. A opaca claridade apenas me permite ver parte da mobília do pequeno quarto, e ali parece pairar algo de estranho, numa sensação que escorre pelas paredes e transpira tenebrosa, e sem que saiba o porque. Firmo os lhos na direção de cada uma das decorações na estante próxima e noto os contornos de uma peça em especial; um Buda em porcelana que se acomoda impassível no poeiramento da madeira.

Entretanto e sem que vislumbre conclusão percebo que a imagem do Buda me atemoriza. Aliás, o fato não deixa de ser controverso, afinal, a imagem da obesa divindade não foi feita para causar tal medo ou apreensão a quem a olha ou adquire. Portanto, carregando certa dose de culpa esforço-me para rever a impressão que causa, e assim insisto no olhar  enquanto procuro compreender as suas formas arredondas nos seus quase 30 centímetros de altura e outros tantos de diâmetro. Olho daqui, olho de lá e tento encontrar no Buda algo de simpático e que me faça senti-lo acolhedor. No entanto não consigo enxergá-lo com os olhos da aceitação ou da benevolência, e ele persiste me incomodando a ponto de desviar-me e ater o meu olhar no celular que está ao lado do abajur. Pressiono a tecla "On" até surgir um clarão no pequeno visor, e ele escancara as horas em números de tonalidade laranja. Afirmo ainda mais a visão e confirmo que faltam pouco menos de cinco minutos para as três da manhã.

Como corpo ainda flameja desfaço-me dos três insuportáveis cobertores que me cobrem e causam idêntica sensação de estar sendo tostado ao ponto, um frango assado que doura nas máquinas domingueiras colocadas às portas das padarias.
Com algum esforço e com o rosto banhado em suor levanto e vou na direção da janela e noto delicados flocos de neve se prendendo nas partes externas da vidraça. Lá fora paira a propalada madrugada gélida, isenta de lua, e ela parece me convidar  para a vida de um nada de silêncios; E eu topo.
Penso naquele sentimento de paz por alguns momentos, mas mesmo assim sinto perturbado, e minha imaginação escorre pelo meio da escuridão à procura de algo. Ah como gostaria de ouvir uivos de  meia dúzia de lobos famintos e desejosos de carne fresca. E eu, mais osso que carne,  ao lhes ver a quantidade de dentes, fatalmente sentiria o meu nível de adrenalina ir às alturas, mas ao menos estaria vivo, presente, mesmo que as devastadoras arcadas não me julgassem um mortal apetitoso. No entanto não existiam lobos em São Joaquim, mas sim  apenas cães vadios e  friorentos tanto como os milhares de turistas e seus agasalhos coloridos que tomaram a cidade de assalto. Continuo olhando pela vidraça e me disperso no nada, e a nostalgia doma o meu espírito enquanto penso na legião de forasteiros, e concluo que em nada me assemelho a eles, pois não tratam com respeito aquele lugar maravilhoso, assim como não se dão conta do privilégio de estarmos em pleno Brasil e podermos enfrentar um rigoroso inverno ao puro estilo europeu.
Todavia não estamos na França ou Suíça, mas sim em Santa Catarina, e isso se conclui ao andarmos por todos os lados da cidade e notarmos a falta de respeito com os habitantes locais ao espalharem lixos por todos os cantos, invasores apáticos e preguiçosos até para irem a uma lixeira mais próxima com o intuito de se livrarem de suas porcarias.

Porém o protesto anônimo e solitário não detêm  o poder da solução, logo,  me é mais fácil abandonar as questões ambientais para devolver o meu olhar para a estatueta. Balbucio algo como " E então seu Buda, alguma solução?"  para outra vez ele ele se manter calado e nada elucidar.
Entediado e abrasivo abandono o quarto e rumo para a sala, e ao abrir a porta que a separa os cômodos sinto um odor inexplicável e adocicado. O cheiro é bom e impregna as minhas narinas, mesmo que não haja lógica para a sua presença. Pare por sua origem, porém não há sucesso na empreita.
La fora, inesperadamente a noite carrancuda faz gemer o vento, e as folhas tremulam nas árvores ao mesmo tempo que eclodem trovões e  se disparam os raios, e eles varam a janela da sala onde estou e proporcionam uma forte claridade ao lado oposto ao que me encontro.
Foi então que o vi. Era ele, não havia a menor sombra de dúvida!

-Vieil homme, pourquoi avez-vous quitté le lit? – Pergunta-me uma voz grave, mas de entonação afrescalhada.

Claro, surpreendo-me com o instante inusitado, entretanto às custa de minha falecida avó, filha de franceses, consigo compreender aquilo que a criatura questiona; O ser estava curiosa para saber o motivo que me fizera levantar do leito. Perplexo e sem ainda compreender os fatos forço meus olhos na sua direção enquanto o universo parece explodir em raios e trovões. O quarto ganha contornos ainda mais claros e nítidos, e é como se os exercícios de guerra estivessem sendo praticados ali. Repentinamente o clarão se apaga e volta a clarear com raios espocando intermitentes, e dessa vez eles são assustadores, mas possibilitam que eu distingua com mais clareza as feições daquele que senta na poltrona.
"Como? Caraca, eu não acredito!"  - Rumino comigo. Agora a imagem me é quase nítida, e  à minha frente dou de cara com  ninguém mais, ninguém menos que o próprio diabo. Aliás, a bem da verdade não era o diabo, mas sim a diaba.

-Avez-vous peur, ma chère? – Desta feita a coisa maligna questiona e demonstra certa impaciência.

O  tom de sua voz ainda soa grave, mas agora nitidamente feminino e algo sensual. Óbvio, eu não queria, mas estava apreensivo, já que ao macho sempre foi imposto  que nada deve temer, incluindo no pacote  a totalidade das mulheres, apesar do manual silenciar sobre mulheres diabas.

-Não, não meu amor! Não estou com medo! - Respondo tropeçando no idioma mãe de Catherine Deneuve.

Sim, eu estava ansioso, porém tentava demonstrar serenidade, inclusive, serenidade que não havia.
Claro, o que mais poderia fazer numa situação daquela? E outra, eu era macho, muito macho, dono de pênis eficiente e duas bolas no saco escrotal, portanto os da minha estirpe não entregam tão facilmente o ouro, em que pese o pavor de estar na presença do mal.

-Oui! De ce que je vois, eux aussi, un galant homme - Repentinamente ela diz num riso debochado.

Por Deus, ainda mais essa? Não sabia dos seus motivos ao tomar-me por um galanteador. Não, não era, e mesmo que houvesse alguma verdade em suas palavras, juro,  jamais imaginaria sê-lo para qualquer ser das profundezas. Finda sua sentença ela se levanta da poltrona e eu estremeço estupefato diante da realidade, pois sua corpulência é atemorizadora e ao ponto  de reconsiderar as questões da minha antes supremacia mácula. Talvez estejam tão confusos quanto eu estive à frente da diaba com a estatura de um pivô do basquete norte americano,  ou seja, coisa superior aos dois metros de altura.
Eu a olhava incrédulo, porém no quesito tradição trazia no corpo a coloração vermelha, assim como narram bem narram  livros. Inacreditavelmente eu via o tom encarnado e que se assemelhava a cor dos bólidos da Ferrari. Aquilo só podia ser sonhos, aliás, pesadelo, entretanto parecia não ser, já que belisquei o meu braço com vigor e senti a dor das unhas me penetrando a carne. Porém há algo de extraordinário naquela diaba, e finco as vistas no mal e noto que ela está nua da cintura para cima, e o seu tórax é largo e musculoso,  e nele ela ostenta dois de seios fenomenais. Atônito olho abaixo do quadril  e de lá nascem duas longas pernas  esplendorosas, e na junção delas, no alto das coxas um  pequeno e libidinoso triângulo se deixa exposto, e é linda e sensual sua minúscula calcinha negra e transparente, onde nas bordas sobressai a delicadeza dos rendados carmesins.
Óbvio, o insólito me excita, no entanto me mantém apreensivo;  O que ela poderia pretender comigo? E ainda assim, praticamente nua?  Logo, mesmo que temerários,  meus olhos acastanhados não desistiram dela, afinal me sentia hipnotizado, seduzido.

No imprevisto do momento os céus declararem guerra e novos estrondos acompanhados de potentes faiscares  iluminaram a sala de uma alvura que me cega os olhos, e assim que  me acostumo com a claridade detalho-lhe o  rosto de feição quase angelical. Em estado de torpor percorro cada milímetro das linhas das faces e acima, na testa, noto-lhe a pele vigorosa e enrugada, coisa que me faz relembrar os reptis quelônios aquáticos Persisto afixado na figura e são parte da sua anatomia dois pequenos chifres, e eles brotam acima da testa. Nos mantemos  impassíveis, olhos nos olhos, e ela suspira calmamente e vem em minha direção. Cravo-me no no seu corpanzil avermelhado e me assusto, e antes ela não tivesse vindo, pois agora sou o alvo dos clarões, e ela me flagra, humano, limitado, e os sons provenientes da tempestade são grotescos e temerários, e eram como antecipassem que poderia aprisionar-me nas ardiduras das chamas eternas.
O meu pavor se torna  latente quando a diaba encosta os seus seios em mim,  e com mãos firmes comprime as laterais da minha cabeça, levando a minha boca na direção do seu mamilo esquerdo.

- Suck, maintenant! – Ela ordena em tom bravio.

A voz é magnânima e eu me rendo ao poder, pois estraria  numa fria  se não acatasse suas determinações. Evidente, seria bom ser macho o suficiente e dizer um não ao diabo,  inclusive, quem não exultaria ao negar algo ao demônio?  Pois é, eu regozijaria! Entretanto deixei-me levar e sucumbi a minha boca no bico do seu peito, afinal, seios para mim sempre foram irresistíveis. Ela sussurra ao retirar um das mãos da minha cabeça e acariciar a aureola do mamilo direito, e ele eriça,  e ela o enfia bruscamente em minha boca e comprime minha cabeça obrigando-me a sugá-lo com apetite. "Oui..oui" - Ouço a devassidão gemer.
Ah! Eu adorei o seu "Sim..sim" naquela atmosfera que me fez imaginar a primeira das minhas mamadas no seio de mamãe, apesar de não ter sido necessário esticar as pontas dos pés para alcançar o seu seio, assim como sou forçado a fazer agora. E minha boca causa estalidos e me  sinto selvagem, porém prevenido, logo, não perco qualquer reação em seu olhar, já que provavelmente estaria em maus lençóis se demonstrasse insatisfação com o desempenho.
E assim permanecemos por ali, e não era  fácil controlar as sensações que me invadiam, pois dosar a excitação e a razão numa situação é tarefa das mais árduas. Repentinamente em meio à sugada ela rosna:

-De moi!  De moi! - Por Alah! agora os seus sussurros abandonavam a boca e eram guturais. Ela encosta tudo em mim, pernas, peitos, nariz, e resvala em mim  um animal no cio, expulsando e recolhendo freneticamente a língua e a enfiando em minha boca.

Eu acuso os sinais e noto claramente que é o momento que a diaba quer ser possuída,  pois conheço as a natureza libidinosa de grande parte das mulheres. Entretanto não esperava aquela reação essencialmente humana, e nem a respiração ofegante num peito que arfa devassidão. É o supremo instante da excitação, e ela me puxa pela gola do pijama flanelado e me leva à direção da alcova. Estamos ao pé da cama e ainda sou refém da sua mão firme quando ela nos atira sobre o leito. -  Ploft -Escuto o rouco som e o baque dos nossos cair, fazendo ranger as molas do colchão. Agora estamos deitados e à cabeceira da cama, eu olho para as nossas pernas e sinto uma sensação de incredulidade ao notar a parte inferior das suas pernas estão fora da alcova. Repentinamente o pavor se instala em mim, pois ela percorre o meu corpo com as mãos, e elas parecem maçaricos fundindo cada parte minha numa sensação de estar sendo tosqueado vivo, assim como Joana D¨Arc. Sintomaticamente olhos para as minhas peles e não há qualquer sinal de queimadura, e isso me alivia, logo, partimos para as preliminares e ela me acaricia e me diz impropérios, palavrões ecoando no  no ar, coisas que fariam enrubescer Brigite Bardot. Talvez fosse delírio, e era irrestrito, pois ouvia os acordes da tórrida "Je Taime"  uma canção dos anos 70, de Jane Birkin, onde ela simulava a cópula num enredo que falava de amor. E o demônio persistiu com o seu linguajar chulo, e vociferou que eu era um "filha da puta" - "gigolô barato" - "safado" - "cadelo"  e depois me ofendeu com algo sem precedentes e que escutei claramente - "Seu prostituto de jardim de madame"-  Jamais alguém havia se referido a mim naqueles termos, portanto a minha vontade foi a de rir, porém ante a  possibilidade de ser remetido às saunas do inferno, num contragosto, achei melhor refrear.

E pensei naquelas agressões, e se talvez o jogo de palavrões fosse a demonstração da fome do predador, fome que eu não tinha certeza se estava ou não saciando-lhe. Sim, aquela diaba era a minha caçadora, e elas mordiscava meus lábios e eu sentia o hálito fervente, e ela passava a língua neles quando num movimento brusco com as  mãos  libertou-se da calcinha, estraçalhada num único puxão. O surreal continuou, e me sentia seduzido ao contato daquele  corpo carmim, e seus toques continuavam, assim como a quentura nos seus dedos, eu, um ser humano, um pobre pastel de palmito  no tacho de óleo fervente, se é que seja possível a comparação. Ela parecia excitadíssima, blasfemava coisas quando num lépido movimento de corpo e  com a agilidade dos braços içou-me  sobre ela, estirando-me por sobre o seu corpo. Então fincou as pontiagudas unhas em minhas nádegas, e tive vontade de gritar, mas não gritei, enquanto ela falando uma linguagem que agora eu não compreendia trouxe-me para dentro dela, e assim o meu pênis a penetrou numa única e dolorida estocada.

-Aiiiiiiiiiiiiiiiii combien c'est merveilleux! – E ela urrou ao contato.

O corpo da diaba fremia, e amparando as costas no colchão e meneando a cintura subia os quadris com  movimentos vigorosos, e eu la,  me sentindo um desses brinquedos de parquinho de diversão, gangorra, ora subindo, ora descendo, um elevador de cargas sendo acionado, abaixo,acima, eu, um reles  boneco  "João Bobo" indo e vindo, indo e vindo, de pau duro.

-Ohhhhhhhhhhh! – Ela grita e o seu estremece ante o ápice que se aproximava. E os trovões ecoam mais ensurdecedores, e os focos de claridade parecem holofotes iluminando o mundo. Repentinamente ouço o  "Aiiiiiiiiiiiii"  e ela se contorce num gozo de brasas, consumação de ato, o dela, mas não do meu, pois eu apenas me esquentava quando ela gozou. Olhei para ela perplexo; jamais poderia imaginar que os diabos sofriam de gozo precoce.

Após o orgasmo apenas remexeu os quadris fazendo-me escorrer de cima dela, aninhando-me ao seu lado. Depois retirou um cigarro do meu maço e o acendeu com a ponta do dedo médio e deu uma longa baforada. Olhei atento para a  novidade, afinal, jamais desconfiaria dos demônios, cigarros e isqueiros, assim como nunca suporia das humanidades que envolvem essas bestas, e nem que seriam capazes de deixar nossos paus em brasas e doloridos, e o que é pior; sem jorrar uma única gota de gozo.
Enfim, ato concluso procurei demonstrar toda a calma do mundo ao pegar o papel higiênico e limpar o pênis  de uma gosma esverdeada que o envolvia e que se expelira de dentro dela. E eu olhava para a coisa gosmenta com certa repugnância, porém surpreendeu-me  repentinamente o odor que se alastrou no ar. Olho novamente para o meu pau e sorrio, pois acabara de  descobrir a fonte do odor agradável, a  fragrância deliciosa, coisa  bem  par ao ao perfume J'Adore, da Dior.

 Ela permanecia tranquila, e  eu, agora mais aliviado sentei-me à cama, decepcionado por não ter "chegado lá". Entretanto eu estava orgulhoso e honrado, pois não acho que seja comum a qualquer mortal levar o demônio ao orgasmo. Portanto, diante deste trunfo os meus medos amainaram, apesar do ainda desconforto com a altíssima temperatura. Imitando-a e  retiro um cigarro do maço e  abrindo mão do seu dedo-isqueiro faço uso do meu  Bic e dou uma boa tragada. A diaba permanece em completo silêncio, algo que parece sugerir paz. Decepciono-me, pois acreditava que teríamos um bate papo descontraído após o orgasmo. Não não teve e isso me lava a  concluir que os os demônios não são chegados numa conversa após atingirem o clímax. E o enigmatismo seduz, e eu olho de soslaio sem saber exatamente o que  falar ou como deveria proceder. O que poderia ser tentado numa situação daquelas? Ser agradável, simpático e puxar um dedinho de prosa? - Talvez os diabos gostassem que falássemos das coisas que se exploram numa relação sexual. Sim, eu poderia falar de fatos estupendos, das sensações que senti com ela. Poderia encher a sua bola, dizer sobre o quanto me excitou seu delicioso par de seios, aliás, seios que mais se assemelhavam a melões fartos e suculentos. Não! talvez fosse vulgar demais, ou então poderia me esforçar na tentativa de lhe parecer poético, falando dos odores perfumados que se exalaram da sua ardente vagina. Poderia falar de Dior, J¨Adore, ou quem sabe do Chanel 5, se assim ela preferisse o perfume. Não, melhor não, talvez eu estaria sendo demasiadamente pessoal, e isso os demônios provavelmente não gostam.
Bem..diante tanta dúvida procurei ser o mais trivial possível:

- Então.,..dona diaba, é assim, todos os demônios são franceses? - Perguntei para ela. Ela apenas me olhou, franziu a testa enrugada e persistiu no silêncio. Como nada respondeu, achei que havia tocado num assunto desinteressante. Tentei focar-me noutro questão, talvez lhe parecer espirituoso. Então mandei ver:

-Por acaso os diabos praticam  Board Jump na Torre Eifell? –   Claro, era uma tentativa, válida,  minha e do meu sofrível francês, óbvio,  acompanhado dos meus sorrisos insinuantes. Novamente ela me olhou e se abrigou na clausura do silêncio.  E assim ela permaneceu por um bom tempo até que, repentinamente se manifesta:

-Par chance saviez-vous que Dieu est brésilien? – Questiona-me à queima-roupa.  Abismei-me! Eu acreditada que somente os humanos tinham as características de relacionar nada com nada, dizer monte de asneiras, abobrinhas. Inacreditavelmente o demônio acabava de me perguntar se eu sabia que Deus era brasileiro! - " Deus, um brasileiro? - Perguntei-me.  Fiquei pensando naquilo por alguns segundos, e talvez ela tivesse razão. Será que Deus poderia ter nascido nascido em Maragogi. E por que não? - Concluo o pensamento vestido das incertezas inerentes aos humanos..

Eu a olho perplexo, e surpreso sinto a minha perna direita em chamas. Olho para ela e definitivamente ela está em chamas,  porém ajo rapidamente e abafo o fogo com uma toalha que estava ao lado e sob a cadeira. Olho para a perna e admiro-me, pois não havia marca de queimadura, mas apenas o nauseante cheiro de pelos queimados. Sem estragos maiores continuamos silenciosos ao tragar nossos cigarros de brasas amenas. Na tentativa de lhe parecer calmo, tranquilo, eu  abri meus maxilares e deixei com a boca apenas um formato ovalado por onde se expelia as fumaças, e elas se expeliam redondas, e nessa condição rumavam ao teto do quarto. Me aproveitava para olhar as bolinhas de fumaça para arriscar, vez ou outra,  um rabo do olho naquele corpo espetacular, capaz de enlouquecer o mais pacato dos cidadãos. Por alguns instantes ela fechou os olhos e se aprisionou dentro de si como em estado letárgico. Agora giro minha cabeça e a olho com mais firmeza e seus olhos estão cerrados, e talvez ela pensasse em nosso mundo e nessa globalização perdida entre crenças e fanatismos. Talvez para ela o planeta Terra fosse surpreendente e as pessoas tão tresloucadas que, conseguiam de certa forma a  interação entre elas, assim como são alcançadas  entre Deus e o Diabo, e nós éramos prova disso. Enfim, jamais saberia o que poderia estar ocorrendo em sua mente, aliás, se é que estivesse passando algo.

Terminando o meu cigarro acendi outro na própria  bituca enquanto ela amassava o seu  num cinzeiro de louça ali mesmo, apertado, na pequena mesinha de cabeceira. Foi esse o instante que ela virou para o lado e olhou pra mim e abraçando-me  sorriu de forma tão doce que, ocasionou-me perplexo ao ter, agora, a mais absoluta certeza que os demônios são abastecidos de sensibilidades.
Em seguida retornou para o  seu estágio  meditativo enquanto eu fiquei a matutar sobre a razão de tudo.
E ao questionar me fiz muitas perguntas; Será que morri e não fui avisado? Será que isto é um sonho, ou o pesadelo que se dá após a morte?  Não! Talvez não fosse nada disso e sim  a a minha solitude, abrangente, exacerbada, sempre a me causar síndromes, delírios, e talvez convulsões que nem próprio lembrava.
Entretanto nada disso ocorria, pois o calor ardia em minha pele, e era demasiadamente real e quente para deixar de ser verdadeiro. Novamente olhei para o par de seios e os depilados pentelhos avermelhados logo abaixo do ventre, e sorri; Será que a “coisa ruim” estava ali, atrás da minha alma? Será?
Mas...Se veio com tal finalidade não tardará a me fazer alguma proposta na qual leve vantagem, afinal os demônios são espertos demais - Concluí-

Desviei dos pensamentos e desviei o olhar dos seus peitos e me concentrei no rosto que ainda se mantinha em  estado de êxtase. Talvez ao retornar do transe quisesse me possuir novamente, pois que com o demo não se brinca, pois nem lhes lhes conhecemos as vontades. E pensando dessa forma me mantive atento aos seus movimentos. Agora, analisando por outro lado existia a  possibilidade de que tudo não passasse de ilusão proveniente do excessivo consumo de álcool, já que a garrafa de vodca que abri por volta das cinco da tarde estava ao lado da cama, vazia. Outra vez voltei meu olhar para a estante e o cravei no enigmático e horripilante Buda; O que ele poderia me dizer?  Quem sabe ele fosse camarada e me dissesse que eu estava atormentado, vivendo realidades que só existem na mente dos esquizofrênicos, dos arrasados pelo transtornos dos eventos do sono, pois há um bom tempo não dormia mais que duas horas e meia consecutivas. Lá de onde estava, o Buda continuou nos olhando contemplativo, e dessa vez ele me pareceu um bom camarada. E insisti e continuei a olhá-lo, e ele me transmitia paz, imensurável, algo que antes causava-me  pavor, mesmo que incompreensivelmente. No entanto ele e a sua bondade continuavam nada dizendo, nada sabendo, e ele tanto quanto eu, diferentemente do diabo que ali estava,  nada sabíamos.
Eu me sentia exaurido física e psicologicamente, e agora o sono me pegava e meus olhos pesavam, já que era preciso dormir, e me sentia na paz.

E outra! O que eu poderia temer? Nada! Pois até o diabo abrira mão da empáfia ao insinuar que Deus é  brasileiro. Poderia alguém afirmar que a história entre Deus e Diabo não é algo manipulado para causar pavor ao homem, aos cristãos manipulados pelo medo do fogo eterno? Quem poderia afirmar ou negar com a mais absoluta das convicções que o Diabo não seria  o lado obscuro de Deus?
Quem? Afinal, não existe o bem e o mal?  Não é certo concluir que muitas fatos divergem enquanto outros são tão nítidos quanto ao amor concebido entre mãe e cria ? Não são esses os fatos dum conjunto que ocasiona e dá certo sentido a existência? Por acaso não somos amor , ódio, brancos, negros, ricos e pobres? Não amamos o doce, convivemos com o amargo, tanto quanto estamos benevoleantes  e mesquinhos, heróis ou covardes? E então, não poderemos concluir que  o bem e o mal sejam unos, interligados no agir e conforme convêm cada situação?
E eu? Por acaso não posso estar  levando vantagem sobre os demais da minha espécie? Sim, posso concluir que que sim, pois não creio que os demônios andam propondo a fila indiana aos mortais para uma trepadinha grátis! Não, é óbvio que não, pois mesmo que não eles e eu não joguemos no mesmo time, foi assim que um deles veio e me legou um punhado de paz.

E era o que concluía e meus olhos pesavam quando a  Diaba deu um salto da cama e se colocou em posição ereta ao lado da estante, bem próxima à complacência do Buda. E ela se postou diante de mim, e era enorme e estava linda, ela e seus peitos empinados vermelhos! Ela e suas  pernas grossas e sem  varizes ou estrias.
O demônio apenas sorriu e sua voz soou grave e sensual, algo que me fez relembrar a gostosíssima Marilyn Monroe sussurrando uma canção de  aniversário para o então amante, presidente Kennedy. E a diaba agora cantava a sua, além do mais, mundialmente conhecida.

- Allons enfants de la Patrie Le jour de gloire est arrivé ! - Era cantou maravilhosamente  a Marselhesa, o hino nacional da França.

Depois disso desapareceu no ar como se fosse um truque de David Copperfield, um mágico que às década de 80/90  invadiu os televisores do planeta terra para fazer desaparecer fatos materiais, inclusive aviões de carreira. Claro, era um belo truque do mágico! Aliás, tudo nessa vida é nada mais que truque. E você é um truque, eu sou truque, e a existência é apenas a mais perversa e deliciosa das mágicas, e ela faz surgir a alegria para depois perpetrar-lhe sofrimentos com a mesma singeleza que se pede um guaraná em balcão de bar. E é esse o meu e o seu legado, é a herança da vida  sendo partilhada para a raça humana, onde alguns de mais sorte poderão ficar com a melhores fatias do bolo. Logo, faço um gesto à frente do buda, mas minhas mãos não são mágicas, assim não lhe concedem vida, mas estou sonolento, e ele me parece recíproco ao me olhar com ternura. E sua expressão cerâmica é afável, o que me faz olhá-lo de outra forma, pois talvez a falta do sono tivesse me tornado intransigente e inacessível.

Enfim, estas coisas são de um sujeito cansado e relutante em acreditar nas cenas ocorridas, pois talvez não passassem da mais deslavada das mentiras, ou mesmo a  imaginação fértil que faz delirar um notívago destroçado pela falta do sono. Porém, mesmo que truque fosse é certo que o próprio David Copperfield poderia explicar  passo a passo  todas as cenas desfiladas diante do olhar meu e do Buda. Entretanto e o mais provável é que David Copperfield  naquela hora estivesse em sua mansão de Malibú aproveitando os primeiros raios do sol em sua piscina olímpica. E mesmo levando em conta a diferença de nossos fusos horários é como se eu pudesse vê-lo sentado à borda com os pés imersos na água, e ele  num ridículo e fosforescente short verde limão com listras laranjas bateria os pés e espirraria água para os lados diante os surpresos olhos dum Garfield estampado em sua alva camiseta.
E isto posto, o mais correto me seria ter a certeza que o mágico jamais perderia o seu tempo com um desregrado como eu, que, além de ter sentido aversão pelo pobre Buda, ainda sairia por aí alardeando à boca grande que andou copulando com o demônio.

Portanto apago as luzes e  penso na trepada com a diaba e sorrio de tudo. Loucuras ou verdades desfilaram ali, ou não. E com os olhos praticamente fechados e a mente entorpecida de incertezas é que encosto e apoio o corpo na estante e procuro a imagem do Buda com as mãos.
Ao achá-lo acaricio as suas formas arredondadas e estalo um beijo em sua lisa calvice de porcelana.
E a cúmplice negritude da noite predomina, no entanto seria capaz de apostar que, se repentinamente  acendesse a luz  flagraria o gorducho com um risinho sonolento e de paz cravado no rosto.
Ainda tateio a protuberante barriga da estatueta e dou graças a Deus e ao Diabo, pois agora sim tinha a plena certeza que seria brindado com uma exuberante  noite de sono.

-Boa noite! Um beijo na bochecha e na baita bunda balofa do bondoso e bolachudo Buda! -

Digo para ele num sorriso que não lhe mostra os dentes,  pois certamente eu era o idiota que, vez ou outra gostava de brincar com uma única letra e com elas formar as frases. Evidente, um tipo da frescura que só cabe na mente dum sujeito notívago e sem muita noção para as coisas.

-Tudo bem, eu sempre fora um desmiolado mesmo! Admiti em alto e bom som ao atirar-me à cama e outra vez cobrir o gélido corpo com os três acolhedores cobertores.



Copirraiti 21Jun2011
Véio China®

terça-feira, 14 de junho de 2011

O Sr. Kasparov, meu neto e um Surfista Prateado

-Dad, sabia  que sempre eu penso em Nossa Senhora com um manto cor de rosa e calça jeans? Geralmente a imagino  em cima dum palco com focos de luzes, assim como  num show de rock.

Esse era meu neto, Jean-Paul, 12 anos. Minha filha Dynáh escolhera esse nome em homenagem ao grande filósofo Jean-Paul Sartre, de quem era fã e ávida  leitora. Dynáh sempre fora inteligentíssima (QI 148) Portanto, nada mais óbvio que Jean Paul, mistura genética com um pai de QI 154, fosse algo próximo à genealidade. Talvez,  Dynáh já o tivesse pressentido através dos carinhosos mimos de suas mãos na enorme barriga dos tempos de gravidez.

-Mas.. Jean Paul, veja, Nossa Senhora não é  popstar como a Madona,  muito menos uma estrela do mundo do rock – Contestei

-Ih vô! Numa dessas minhas viagens aposto que não vai querer saber  dos lugares que vi Jesus percorrendo...

Claro, o bom senso dizia-me  que não deveria questioná-lo dessa vez. As suas  reticências e o ar vago e maroto  deixavam-me vaga impressão dos locais por onde ele fizera o filho de Deus transitar.

E assim era com Jean Paul, onde sua criação excessivamente católica viera com as fraldas e o limpar de bunda, herança herdada do meu genro, um rico industrial na área da informática.
Paradoxalmente, minha filha, agora também  afeita  ao catolicismo, esquecera de suas crenças antigas em clara oposição aos seus filósofos favoritos,  mas em comunhão com Antenor, seu marido,  um católico praticante e que sempre teve ótimo acesso ao pároco. Convem ressaltar que meu genro  jamais agiu com mesquinharias  nas doações feitas para a Igreja do bairro, independentemente de jamais fechar os olhos para alguns fatores que ocorriam naquela igreja e com o padre Luisinho,  tal qual o habito do religioso trocar o modelo do automóvel todo o santo ano. Evidente que eu me questionava quem poderia estar arcando com esses gastos. Claro, crentes, os fiéis afirmavam que essas despesas eram bancadas pelo Vaticano. Porém, cético, sempre desconfiei que o dinheiro do Antenor estava  metido no meio nessas aquisições..

E assim foi que, cercado de religiosidade  por todos os lados praticamente não restou alternativa para Jean Paul que não fosse aceitar a imposição dos pais para que de trilhasse o caminho da fé. Fé que ajudei a desvirtuar ao transportá-lo no tempo e aos caminhos pregressos da minha revoltada juventude. Comum era desviá-lo da rota  cristã ao contar-lhe parte das minhas estórias  mais amenas ou fazê- lo cadenciar o par dos seus pezinho 38 sobre o tapete persa do Antenor.  Naquelas ocasiões e para seu delírio,  no mini system colocado acima  da minha mesinha de cabeceira eu desfilava para ele os pesados  rocks progressivos, principalmente os das bandas The Who,   Led Zeppelin, Pink Floyd entre muitos outros. 

E aquele maroto de inteligência formidável assimilou tudo de forma rápida e precisa às custas de alguns dos DVDs das minhas bandas  favoritas. Devido a alguns filmes antigos que ele ele aprendera a dar os pulinhos iguais ao do  Pete Townshend e do Angus Young. E eu me divertia ao vê-lo curtir um som e atravessar o quarto empunhando a sua guitarra imaginária, saltando pra lá e pra ca com as pernas ora dobradas para um lado, ora esticando-as para o outro  numa  perfeita imitação dos seus ídolos. Nada incomum também eram os momentos onde as delicadas mãos de minha filha batiam à minha porta com toques apreensivos e que sugeriam um demasiado nervosismo: “Ô pai, não vá me dizer que senhor tá induzindo o Jean Paul a ouvir esse barulho dos infernos?” –  Evidente, esses  lances da Dynáh quebravam completamente o  nosso barato, e o que me obrigava a diminuir consideravelmente o volume. Depois, claro,  eu  ria dessas passagens.  Mas o que as batidas de Dynáh não conseguim impedir era a minha cumplicidade para com aqueles pequenos delitos de Jean Paul. Delitos esses que nos aproximavam ja  que seria improvável que ele praticasse aqueles "absurdos"   na presença dos pais.

-Dad, eu não sei se você sabia, mas... Platão desenvolveu uma teoria que foi esboçada no Mênon: A teoria da reminiscência –  La vinha ele com suas afirmativas num descolado sorriso. Óbvio, eu saquei que ele estava  pretendendo me gozar.

-Mas... que merda quer dizer isso,  eim sabichão? - Ele riu divertido com a complexidade da minha frase.

-Ah, é assim, vô: A gente nasce com a razão e as idéias verdadeiras. E aí a Filosofia nada mais faz do que nos relembrar dessas idéias. Isso é conhecido por maeutica, entendeu? – Ele afirma com um olhar de sabe-tudo.

-Ah sim...agora que entendi! Bem, mas como eu diza.... – Rapidamente eu tentava abortar aquele seu lero-lero

Eu não suportava aqueles momentos em que Jean Paul  cismava de desfilar a vidas dos filósofos, os seus amores, as suas desilusões e até as suas mortes singulares. Pra falar a verdade eu achava aquilo tudo um porre. Portanto só me restava livrar-me dos bocejos ao tentar desviar a sua atenção.  Sem dar tempo pra ele raciocinar, impostei a voz e mandei brasa:

-Diz aí pirralho sabe-tudo! Quem foi o “Surfista Prateado”? – Eu jamais fora homem de levar desaforo para casa. Era olho por olho, dente por dente.

-Surfista o que...? – Ele questiona com olhos esbugalhados. Parecia que eu estava lhe perguntando sobre caramujos tailandeses.

Claro, compreensível que ele não soubesse me dizer.  Jean Paul jamais poderia saber do “Surfista Prateado”. Evidente, meu neto desconhecia que eu me referia a uma  leitura do meu tempo de ginásio. Foi então que pacienciosamente expliquei para ele que o "Surfista Prateado" fora um herói de uma revista em quadrinho e que dava conta que ele viera  de uma outra galáxia  a mando de um dos chefões do cosmos com a finalidade de devorar a Terra ( Os seus olhos se arregalaram  quando citei  que ele viera devorar a terra) Mesmo diante da sua reação continuei esplanando que o super-herói levitava  na sua prancha prateada e que se encantara com a nobreza dos sentimentos terrenos. E em se encantando  ele resolvera permanecer entre os humanos, travando guerras contra todos os tipos de mal e crueldade.
Talvez com o tempo o meu neto pudesse compreender que a minha predileção por aquele super-herói se a atrelada ao seu perfil psicológico; um super-herói nostálgico, solitário, e excessivamente melancólico. Evidente, eu e o Surfista tínhamos tudo em comum, exceto o fato de eu jamais ter sido um super-herói.

Foi então que Jean Paul com cara de pouca surpreso e concluiu: - Ah sim.. Então esse que é o tal  Surfista Prateado.. .Nossa, nada punk!

Porém os seus olhos e atenções estavam distantes daquilo que eu falava. Foi quando tentei penetrar naquele nos seus  olhos azuis como as águas do oceano Atlântico. Como era de se esperar, não consegui.  Não conseguindo levei-me a concluir que por mais qu tentasse jamais flagraria Jean Paul interessado por esse tipo de coisa. Ainda mais para alguém como ele; um apaixonado por mitologia grega, culturas milenares e tudo aquilo que se distanciava de minha parca intelecutualidade.

-Ô vô! Mudando de assunto... Já ouviu falar duma tal de Maria Madalena? -  Ele desconversou, provavelmente insatisfeito com aquele papo de super-herói. Porém o sexto sentido me sinalizava que ele estava prestes a me colocar numa outra fria.

- Ah...Cê ta falando daquela da bíblia?

-É! Essa mesmo, vô! - Ele confirma.

-Sim... O que  sei que é ela foi uma prostituta, e que queriam apedrejá-la. Mas sei também que Jesus interviu à tempo – Confirmei convicto. Peguei o bandido! Dessa ve eu tinha a história e a bíblia a meu favor.

-Bem, vô, até que enfim você acertou uma...  Mas...se disser que Jesus Cristo fez aquilo porque estava com outras intenções na cabeça, o senhor acreditaria? - Dito, ele me fez a cara mais sacana que um safado de 12 anos poderia  me proporcionar.

Atônito ao ouvir tal despautério minha boca ressecou e eu mal consegui piscar.

-Como assim? Que leviandade é essa seo  moleque sem-vergonha, safado!  - Seus olhos se assustaram com a rispidez da minha reação.

Horrorizado abro a porta do quarto e vocifero:

-Ô Dynáh! Vem tirar esse demônio daqui! - Minha voz ecoou pelo corredor, forte, irritada, absurda.

Ouço os saltos altos de Dynáh, e eles estão a caminho, mas o danado, esperto, nem esperou a chegada da mãe. Quando dei por mim ele subia em desabalada as escadas que davam acesso ao seu quarto. Provavelmente la dentro e em seu notebook de última geração ele travaria uma feroz batalha virtual contra um poderososo software de xadrez desenvolvido com  as complexas informações  do lendário  Gary Kasparov.

-Que foi pai? O que o Jean aprontou dessa vez?

-Ah filha! Nada não. Bobagem! - Desconverso.

Dynáh me olha com ar de repreensão. No mínimo me achava um tolo por tirar sua atenção de algo que deveria estar fazendo. Eu olho para ela ao se afastar e sinto um imenso carinho por aquela figura femina. Ela some pelo corredor e adentra à biblioteca e eu penso no meu garotinho;
Eu não me surpreenderia se ele desse uma boa sova no programinha daquele russo metido à besta.

-Xeque Mate! - Exclamo para as paredes e uns poucos quadros à óleo. Atrás da porta, num poster envelhecido, Janis Joplin me olha, esquizofrênica.


Copirraiti 13Jun2011
Véio China©

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Subterrâneos

-Paizinho, sobreviveremos a Junho? – Ela pergunta

O senhor Onadia a olhou enquanto pensava sobre o que poderia ser compreendido nas divagações da garota. Ele sempre soube que as perguntas eram mais difíceis que as respostas, ainda mais para ele, que andou bons pedaços da vida metido em situações que jamais se equacionaram.
De toda forma se recordou que ela surgiu numa bela manhã de Maio. Naquele dia a brisa acariciava o seu rosto enquanto o sol e as cores das ruas tornavam a vida com algum sentido. O sorriso da garota resplandecia e iluminava parte dos seus subterrâneos. Subterrâneos que sempre foram a sua vida. Não que ela fosse plena em amargura, tristeza, porém, insensível, não dimensionando as emoções que o cercavam, apenas obrigando-o a se conformar com a monotonia excessivamente linear.

-Paizinho, sobreviveremos a Junho? – Ela insistia

A pergunta, pelo tom, travestia-se dramática e desafiadora, mas ele não quis decepcioná-la. Realmente não tinha a certeza se sobreviveriam a Junho. Por milagre estavam superando aquele Maio, mesmo que creditando-o a uma força superior.
Sim! Sabia também que milagres aconteciam, e mesmo que raros, numa proporção de um por milhão pretendeu supor que ele poderia ser essa chance. Todavia, calejado, jamais contava com a sorte e não desconhecia que as possibilidades daquele relacionamento dar certo eram as mesmas de na marca do pênalti tentar fazer o gol do campeonato chutando uma bola de concreto.

Nela, um ar jovial e as impacientes mãos na cintura tornavam-na algo peculiar. Tão incisivo quanto a pergunta, em seu rosto sobressaia a maquiagem de tonalidades fortes, azul e algo rosáceo. No corpo a justa calça de jeans delimitava as formas perfeitas e um bumbum empinado. Ele apenas continuava a olhando e sorrindo com ternura. Ela tinha idade pra ser sua filha. O que ela poderia ter visto ou sentido por ele?
Em todo o caso tudo estava ocorrendo da forma que imaginara. Sabia que mais cedo ou mais tarde surgiria nela algum outro interesse que revigorasse as batidas do seu jovem coração. Ele podia pressenti-las. Via no olhar daquele rosto quase juvenil e ainda sem as marcas do tempo toda a esperança que era de direito aos jovens, apesar da pouca experiência.
Nada, absolutamente nada fugiu-lhe ao script ou se furtou ao seu comando. Tudo era tão óbvio e previsível como naquela manhã de sol quente e de ruas coloridas quando se apaixonou por aqueles enormes olhos castanhos.

A garota se impacientava pela resposta que não vinha. Então ele levantou os braços e os deixou cair desleixadamente ao pronunciar, sereno:

-Filha, to me guardando para quando o carnaval chegar!

Ela o olhou surpresa. Chico Buarque também o olharia. Ambos jamais o compreenderiam. E Chico, principalmente, talvez até por jamais se ver metido em questões daquela ordem. Contudo e ao fim ele sabe que o senhor Buarque teria sorrido e lhe pagado uma cerveja estalada antes de voltar a cuidar dos seus próprios problemas.

A garota permaneceu atônita com a conclusão. Além do posicionamento não lhe fazer sentido, era ela necessariamente jovem a ponto de não perceber que era nela que as respostas se acomodavam.

E, o senhor Onadia continuou a olhá-la em seu desconforto. Ele sabia que os subterrâneos o aguardavam ansiosamente e com certa saudade. Talvez, numa relação quase que sado masoquista, ambos, ele e as profundas colunas de si se apegaram um ao outro. Era passada a hora de retornar. Ele compreendia perfeitamente que ficara tempo demais exposto ao sol, e que isso poderia matá-lo
O senhor Onadia encaminhou-se para o pequeno bar anexo à sala e de la retirou dois copos e os completou com Jack Daniels. Para ele sem pedras de gelo, para ela, três.
À princípio tocaram seus copos e depois ele içou os braços no nada e brindou:

-Tim tim, meu caro Chico!

Após o brinde inusitado ele persistiu sorrindo enquanto a fantasia em sua mente desvairava a ponto de vislumbrar ali o Sr. Buarque com cara de bons amigos, mesmo que sem entender os seus motivos. O senhor Onadia continuou sorrindo daquele seu jeito, como se no momento pudesse alçar Chico e dar-lhe um abraços dos mais amistosos.
Ao fim do drink os três entenderam que era a hora do adeus. Toda a ternura no mais doce dos seus beijos selou a despedida. Em seguida a musa de Maio choramingou por alguns instantes e se foi. Não havia o amor, é claro, mas toda despedida causa algum tipo de dor. Eles o sabiam.
Sozinho agora, o senhor Onadia serviu-se de mais uma das várias doses do uísque que tragaria naquela noite de alguma tristeza. Era o processo de retorno para dentro de si por atalhos e rotas que somente ele conhecia.
Seus subterrâneos se mantinham risonhos, dolorosamente.


Copirraiti 09Jun2011
Véio China®

domingo, 29 de maio de 2011

Os ventos da PLaza de Mayo

Ventos vindos da Plaza de Mayo uivavam gélidos e tormentosos.
Batiam nas janelas, quebravam vidraças, avassalando o que encontravam pela frente, levando de si o seu amor, maior que ele

Ainda recorda-se do indecente sorriso dela, dos seus lábios carnudos e do admirável sarcasmo:

- Hasta la vista, baby! -

Ela disse num sorriso maldito e desdenhoso ao ajeitar as suas roupas (na maioria de, striper) no banco traseiro de um carro de aluguel. Ele, olhava a impassividade do motorista que em nada ajudava enquanto o vento levntava seu vestido rodado, ameaçando e fazer decolar o chapéu no mais puro estilo “Rita Hayworth” .

Dentro, na sala, pousados em cima do tampo de um pequeno bar, dois copos de uísque tomados até à exaustão jaziam nostálgicos. Num canto oposto a melancolia dum rádio vitrola,solitário:

El día que me quieras
la rosa que engalana,
se vestirá de fiesta
con su mejor color.

Cantava Carlos Gardel.
De duas, uma; ou ele sobrevivia a Junho, ou a trazia de volta, humilhado como na vez anterior. Foi um momento de indecisão, difícil para ele, até que sua voz desprendeu-se do nó que se dera na garganta:

- Adios! Hija de puta! ¡Me habían matado ya otras veces!
¡Pero restablezco siempre!

Dessa vez ele não deu dinheiro ao motorista.
Ao partir, ela voltou o olhar pelo vidro traseiro e o percebeu cada vezes mais diminuto à medida que o automóvel ganhava novos espaços. Houve tempo ainda de vê-lo retornando para dentro da casa.

Seria uma longa noite de tangos, bebedeira, e de todos os esquecimentos.


Copirraiti 26Mai2011
Véio China©

http://letras.terra.com.br/carlos-gardel/15882/

domingo, 22 de maio de 2011

O Olhar de Marcela

O telefone tocou naquele fim de manhã de domingo. De inusitado naquele dia só um rato que me desafiou na porta da entrada de casa. Tentei alcançá-lo com a ponta do tênis do pé direito, em vão, ele escapou e eu fiquei com um baita trauma na perna ao acertar em cheio o primeiro degrau da escada, em concreto puro.

-Bom dia Véim! Domingo Azulado pra ti. Um Beijo! – Era a Marcela, ou, Tchela, como eu gostava de chamá-la, talvez por ser eu oriundi de italianos.

Eu a conhecera na fila do supermercado. Ela me olhava atentamente e eu me perguntava o que ela poderia estar achando de interessante ou hilário em mim. Isso foi até ao ponto dela desinibir e vir questionar-me se eu seria o Eulenardo, o criador do Velho Zina, um nada famoso personagem publicado em meu livro único. Provavelmente ela deve ter me reconhecido pela foto da contracapa do best seller fracassado. Claro, adorei ouvir aquela voz um tanto teatral e juvenil apesar dela estar, talvez, pela casa dos 30.

- Bom dia também, Tchelinha! Que esteja azul e cheio ondas calmas! Beijos pra ti, meu amor!

-Mar calmo? Nãooooo! Estou cansada de calmaria e de coristina R. To numa gripe danada!

- Bem... tem o Camaleão..lembra-se? - Brinquei

O Camaleão era uma casa de shows onde se tocava rock pesado e as pessoas ficavam enlouquecidas e gingavam seus corpos na pista de dança. E segundo ela, la seria comum encontrarmos bêbados, drogados, gays, lésbicas e os cambaus A4.  Fora ela mesma que me falara do lugar no dia que nos conhecemos.

- Ô se Lembro! Massa!  Espero ficar boa logo. Assim poderei sair com o véim e dar boas risadas.

Pronto, mais uma vez o personagem interferia na minha intimidade. Desde o primeiro dia ela me tratava por “Véim” Tanto faria se meu nome fosse Justus, Cassandro ou Teófilo. Pra ela eu seria sempre o “Véim" – Eu mal chegara a essa conclusão quando ela veio com outra, evidente, sobre o safado:

-Sabe, essa noite sonhei com ele, acredita? Acho que conversamos tanto sobre ele, acabei sonhando. Nada de importante... ele surgiu no nada – Concluiu com uma voz bonita, mas um tanto desalentada por aquilo ser apenas um sonho. Era assombroso como ele podia ser tão real para ela.

- Bem... Poderíamos levar o Véio num show de rock pesado, preferência heavy metal. Seria engraçado vê-lo com as mãos na cabeça, intimando o diabo,  achando que o mundo estaria acabando – Devolvi num riso tanto irônico. Claro! Eu pagaria os tubos pra colocar o velho numa saia justa dessa, não duvidem.

-Hahahhaha... Que figuraça é o Véim! Imaginando ele curtindo, batendo os pés, o corpanzil desconjuntado, balangando a cabeça insanamente e mandando todo mundo à pequepê! Certamente roubaria a cena e faria o show.

-Roubaria, é? Preciso dar um jeito nesse Véim decrépito! – Momentaneamente eu fora absorvido por um ciúme doentio e inexplicável.

- Que jeiiiiito? – Ela questiona assustada.

- Calma! To pensando aqui... Cicuta? Não não é platônico demais.
Overdose de Vodka? Jamais! seria matá-lo do jeito que gostaria de morrer.
Fazendo amor? Nunca! Pois sei a quem ele queria. Morte natural? Também não... demoraria mais que deveria – Retruquei um tanto entediado.

- Seu desalmado! Isso la é coisa que se deseja pra alguém? Coitadinho do véim – Ela protestou.

- Bem... estou sujeito a outras eficientes sugestões! E aí, o que me diz?

- Faz isso não... ele é um pobre coitado! Mas... posso falar uma coisa? Acho que ele viverá 100 anos. – Tchela retruca.

E Marcela falava como se houvesse nela toda a certeza desse mundo. Era como se o danado respirasse entre nós e que o visitássemos num asilo em fins de semana com os bolsos forrados de bolachas água e sal e chicletes Adams.

- O que?  Aos 100 anos? Você ta louca? A maldição pairará sobre minha vida.
Oh destino cruel! Viver à sombra dum bebum de bloodmary. Você é a décima terceira que ele me rouba! To pensando em me mudar pro oriente médio. Seria menos turbulento... acho.

-Hahaha – Marcela gargalhou daquele seu jeito único e que fazia o mundo ter algum colorido. Depois complementou - Olha... não gosto de ferir as pessoas. Vou contar uma coisa no seu ouvido Eulenardo, mas, não conta pra ele não ta? É que eu gosto mais de você do que dele. Claro!...Conheci ele primeiro... ele é uma graça de véim..mas, fazer o que?

-Ah é?!!!!!! – Poderia parecer a coisa mais imbecil desse mundo, porém aquilo me deixou feliz. Tão feliz que exclamei:
Que tenha longa vida o Véim!!!! - Eu sei, inacreditável mas, eu fiz isso. Era como se ele e eu travássemos uma guerra nas estrelas pela supremacia do universo.

-Haahhaaaa – Novamente ela gargalhou daquela forma zombeteira. Depois finalizou - Olha! só te liguei pra saber se está tudo bem contigo. Até mais véim, e um beijo no seu lindo coração

-Até mais, Tchela! Um beijão no seu também. –  Era bom saber que nossos corações eram lindos.

Marcela desligou o telefone e eu recordei aquele primeiro dia. Lembro-me do seu olhar, nostálgico e belo. Lembro-me da garota de mini saia, pernas bonitas, pintura discreta e que me olhava dum jeito como se eu fosse uma pessoa muito importante. Não, eu não era. Era apenas um escritor medíocre e que criara um personagem com o qual ela se identificara. Após pagarmos nossas compras eu a convidei para um café. Ali na mesma rua encontramos um Franz e ficamos la por quase duas hora. Tomamos alguns capuccinos e falamos um pouco de nossas vidas e muito sobre as desventuras do Véim, seu ídolo. No fim trocamos telefones e olhares. Talvez os mais de 20 anos de diferença pesassem e fizessem a diferença, pensei ao vê-la partir. Ela olhou para trás e sorriu. Um sorriso lindo, algo melancólico e de alguém que esperava que algo de bom acontecesse em sua vida.
E sorri e acenei um “até logo”, pois sabia que ainda não era o adeus.
Eu simplesmente adorava os olhares iguais ao dela.


Copirraiti 22Mai2011
Véio China®

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Tchau tchau Manaus!

Lembro-me como se fosse hoje. Constantemente a libido vazava entre os dedos das minhas mãos masturbatórias. Em mim um desejo incontrolável de algo que não fosse as conversas dos garotos mais velhos que em pormenores narravam as transas imaginárias com garotas que eles jamais foderam.

Recordo ainda que foi quase bom sentir aquele calorzinho subindo e descendo pelo corpo e explodir num orgasmo. Porém eu não entendia muito bem daquelas coisas, afinal, as minhas experiências com as garotas, até então, se resumiam à uma relação quase que literária, ou, melhor, com as revistinhas de sacanagem que singelamente tratávamos por "catecismos".

E as resvistas me excitavam. Eu gostava dos desenhos pornográficos, das moças de bundas enormes, seios imensos e mamilos generosos. Gostava dos "ahhhhs, uhhhhs" grafados nas semicircunferências logo acima dos desenhos.

Portanto, crente que deveria ser assim foi que tive a minha primeira relação sexual.
O nome dela era Dulcinéia e estava na faixa dos dos 18 ou 19. Relembro que foi na casa dela, um quarto e cozinha num cortiço enorme onde outras pequenas moradias serviam de aluguel. Filha de enfermeira de período integral, Dulcinéia ficava com os dias livres, numa composição que poderíamos poetizar assim - Dulcinéia, o tempo e a solidão -

Naquela tarde, enfurnado na cama de casal onde dormia com a mãe, e sem o "quebra-gelo" aconselhável foi que partimos para o crime.
Com os catecismos avivados na memória tentei impressionar - "ahhhhh - uhhhhh" - Foi o bastante para que uma Dulcinéa preocupada abortasse a cópula.

-Cara! Para com isso! Os vizinhos.....

Para mim foi um balde de gelo, e se fatalmente com uns 50 e tantos  teria broxado. Contudo, garoto e dono de uma aparência que mais parecida 20,  prém sem ultrapassar os exuberantes 16, foi me que mantive firme e na ponta dos cascos. Todavia, fora ruim, também: O legado de minha família dizia que sexo significava amor e vice-versa,  portanto, me apaixonei.

Foi uma das fases mais doloridas da minha vida.
Eu amava Dulcinéia.
E ela apenas ria na minha cara e dava pra todo mundo.


Copirraiti mai2011
Véio China®

sábado, 30 de abril de 2011

A Realeza e a Plebe ( Croniqueta )

Meus intestinos fervem e os gases acumulam-se, graves e hediondos.
Contudo, alguém quereria saber de minhas flatulências? Ninguém, aposto!
Enquanto meus gases não criam fama e nem ganham espaço top entre os vídeos do Youtube, na casa real, provavelmente, tendo em vista o matrimônio, o orifício anal da duquesa foi depilado com tecnologia laser.
Uau! Isso sim é coisa muito chique!  - Provavelmente diria Elton John -

Em que pese tais inerências serem afeitas ao poder, o dinheiro e futilidades, acredito termos (a duquesa e eu) alguns traços no patamar do comum e naquilo que o exercício de nossas sacrossantas existências afere.
Claro! Diferenças existirão já que não me verão sob o sol de Côte d'Azur ou nos paddock de Monte Carlo, eu sei.  Portanto, elas serão bem outras que as de nossas vis humanidades.
E nem há de se falar do sangue. Não há o sangue azul e nem Real! Há um mesmo que é vermelho lá como é rubro cá. Talvez apenas difiram os tipos sanguíneos ou o teores álcoólicos impregnados neles.

O que preciso, de verdade, é urgentemente encontrar formas mirabolantes de chamar as atenções da platéia global e sem que precisse  ostentar uma melancia de 450 quilos na corrente de ouro 14 com Lady Gaga acima e nua.
Sim, claro! Para mim não há a menor dúvida; A princesa e eu somos  parte dessa mesma turba que processa, boceja e defeca diariamente toneladas de merdas que entopem os esgotos das cidades.

Contudo, para mim é pouco, para ela não. Quem sabe se eu pudesse saltar de qualquer uma das pontes ao longo do Rio Paraná e me afogar junto aos bagres dos dentes serreados ou às tilápias de rabos dourados? Surtiria algum efeito prático? Provavelmente não! Persistiria sendo muito pouco ou quase nada para chamar a atenção daquilo que reside superficial em nós meros mortais com batimentos cardíacos entre 70 a 120 vezes por minuto
E,  certamente se afogado fosse, talvez o meu tanto de fama não superasse a reles nota de rodapé duma página policial num desses jornalecos populares e de baixa tiragem. A notícia bem ínfima persistiria grandiosa nas mais necessárias fantasias:

“Bêbado morre afogado ao colidir com uma vaca e cair da ponte"
*Nota da Redação: Não houve tempo sequer de ver na TV o matrimônio da realeza britânica”


Copirraiti Abr2011
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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Madá, Justin Bieber, e outras Drogas & Afins

Havia algo de errado, começando pelas rugas e descendo pela minha proeminente barriga, e ela fazia dobras e que recaiam sobre a cueca. E essas disparidades jamais combinavam com a textura suave da sua pele de fêmea, e muito menos com os seus surpreendentes 37 anos incompletos que não pareciam 29. Talvez outras coisas deixavam-nos distantes daquilo que deveríamos ter ou poderíamos ter sido. Eu, apesar dos 58, que à verdade mais se assemelham aos 62, queria apenas curtir as minhas bandas de rock pesado. Ela, em direção oposta, estacionara num universo teen frequentado por ídolos pop. Talvez fôssemos o par da coisa desconexa,  duas aberrações e cada qual ao seu estilo. E as disparidades me fazem lembrar duma certa ocasião.

-Paizinho, ta sabendo que hoje a tua gatinha ta hiper carente? – Ela me piscara um dos olhos naquela  noite mormacenta enquanto em seus ouvidos  imensos headphones davam-lhe um ar de alguém deslumbrado com o momento.Para ela era como se não existisse a tristeza do roxo ou o negro, mas somente o rosáceo das alegrias e dos bons sonhos.

O seu corpo serpenteava á melodia que ouvia, algo que eu supunha ser a irritante “S.O.S” dos Brothers.
Porém, aquela canção parecia praga, uma grande desgraça e que ela tanto insistiu e cantou  pelos cantos da casa que acabei por me apegar à maldição melódica assobiando-a constantemente como se isso fosse  a coisa mais natural desse mundo. Para piorar,  quando não assobiava eu a cantava, na sala, cozinha, debaixo do chuveiro, e algumas vezes à cama enquanto fazíamos amor.
Por outro lado eu não dera a mesma sorte que a dela. Ela era radical comigo, e isso foi escancarado e inconteste numa das últimas fodas que tivemos; Eu queria ação, me sentir um revolucionário, portanto deixei deixara rolando um som do AC\DC no system da sala. Claro, rock para mim tinha que ser alto, heróis vikings sentindo o gosto da lâmina, mas abatendo seus inimigos um á um. Entretanto os efeitos do volume não demoraram a se manifestar:

-Paizinho, pelo amor de Deus! Com esse barulho não dá! – Ela reclamou ao virar o corpo fazendo-me sair de dentro dela de cima dela

Talvez o tom grave e abrangente do contrabaixo que fazia trepidar os vidros da sala a incomodasse. Incomodava-a também os riffs de Angus, principalmente em “Black in Black”. Como eu não fizera qualquer menção de levantar-me para dar um jeito na situação, ela, furiosa curvou as costas sobre o colchão e num impulso soergueu-se abruptamente fazendo-me deslizar em cima.

E, desequilibrado me lamentei, e  foi pena, afinal, depois de mais de 20 e tantos minutos duma árdua batalha aquilo começava a ficar muito bom.

- Ah papai, desculpe, mas... trepar com esses caras canindo como leões esfomeados, não dá! –

Evidente, com ela eu me divertia por muitos fatores; Ao estar nervosa sua burrice e outras pequenas coisas extravasavam. Naquelas ocasiões um de seus olhos se tornava bem mais dilatado que o outro. Portanto ao vê-la com um olho maior eu ri e tive vontade de corrigi-la, explicar que leões não cachorros.Entretanto, por experiência própria achei melhor fingir que não ouvira, pois havia toda a possibilidade de ser quebrado o encanto e  sedução que ás duras penas eu consegui
Também nao estaria com conversa fiada ao admitir que Madá fosse mesquinha, e que parte das suas atitudes e reclamações jamais se justificaram. E digo assim porque numa noite daquelas fizera-me ver três vezes  consecutivas o DVD dum ídolo teen retardado cantando suas idiotas e alienantes canções; “Baby Ft Ludacris” era uma delas. Claro, eu  faria qualquer coisa por Madá,  assistir como assisti Justin com aquele seu ridículo corte de cabelo, inclusive de pernas entrelaçadas como dois adolescentes comendo  pipocas e tomando o guaraná Taí.

Porém, como o tempo é o senhor da razão, repentinamente aos seus olhos  fui perdendo o charme, o encanto, a novidade. Eu deixara de ser o velho e descolado transgressor para me tornar apenas um idoso que vestia surradas calças Levis e tênis acamurçados da Adidas. Não estranharia se inesperadamente surgisse na estante de casa um volume do “Estatuto do Idoso”. O descaso, inclusive abrangeu os meus CDs do Led, Floyd, Who, Clapton e Bob Dylan e outros tantos que passaram a ser desdenhados e tratados meras relíquias dum  museu musical. Nos últimos tempos ela me tinha como o grande troglodita, um dinossauro tão velho quanto aos seus velhos ídolos. Recrimináva-me também ao dizer que eu me tornara obsoleto, desses que se fazem acompanhar dum tempo onde o aperto de mão equivalia à palavra e um fio de barba um documento de idoneidade. Óbvio que havia um grande exagero de sua parte.

As coisas persistiram  desta forma e tomaram contornos dramáticos quando deixei de ser o seu “papai” para tornar-me simplesmente “Alfredo”. Daí para o fim era um pulo de brincar amarelinha, e eu sabia.

Malas postas na sala. Madá maquiada ao estilo de Mortícia Gomes esperava por algo ou por alguém. Não tardou e a campainha se fez soar.

-Pode deixar que eu atendo, Alfredo. – Ela comunicou.

-Tudo bem - Eu disse.

Ao abrir a porta soou uma voz de tonalidade juvenil. Esgueirei o olhar o suficiente para ver a quem pertencia. Um garoto de olhos verdes e de pernas magras que pareciam dois bambus fincados sorria e tagarela bastante. Repentinamente ela voltou para a sala e pegou um dos três volumes de suas malas. Fiz menção de ajudar:

-Pode deixar aí onde está Alfredo! Sou independente! – Ela disse com certa empáfia.

-Tudo bem outra vez!  – Eu concordei ao dar de ombros.

Assim que o último volume saiu eu ouvi um clik e a porta se fechou. Definitivamente Madá não fazia mais parte do meu mundo. Curioso, fui até a janela e a tempo de vê-los saindo diante uma das cenas mais engraçada que Madá me proporcionou.
Foi  hilário ver aquele pirralho grudado à cintura de Madá. Os quase um metro de oitenta dela contrastavam com pouco mais de metro e sessenta do meninote. Pareciam um gráfico de variações de produtividade; altos e baixos
Estranhamente, Madá era a mulher dos opostos, das inconsistências.

E assim eu os vi partirem. Talvez Madá carregasse na mala algo que jamais pendurou no cabide ou nos guarda-roupas de sua vida; a sensatez. Eu não estranharia se o seu próximo alvo fosse um tenor fracassado ou algum perspicaz pagodeiro.
Dei uma última olhada quando fecharam o portão da frente e percebi que o garoto tinha aquele mesmo corte de cabelo do tal Justin.  Eu ri gostoso.

Encaminhei-me para o rack, liguei o system e “Perfect Stranger” foi curtida no último. Gillan continuava sendo um dos maiores vocalistas do rock mundial, e Steve Morse um espetacular virtuose que fazia sua guitarra Enie Ball gemer como a mais espetacular das prostitutas. Contudo, saudosista que sempre fui dou por falta de Ritchie Blackmore e do Deep Purple dos anos 70.

Ao fim da canção me lembrei da cena de Madá e do seu garotinho Bieber agarradinhos um no outro.

-É isso aí, Madá! Uvas verdes também fazem vinho bom – Concluí ao colocar  "Black Dog" do Zeppelin.

-Caraca! Como eu gostava do John Borman! Ele batia legal. – Lamentei ao ouvir os primeiros acordes e relembrar a estupidez de sua morte no próprio vômito.

Eu sabia que nós enquanto humanos temos a necessidade da lamentação, da automutilação e da falta de comiseração por nós mesmos; Meã culpa, meã culpa, mea máxima culpa, gostamos de nos sentenciar. Porém o transcorrer da vida me ensinou algumas coisas, e alguns  conselhos bons que procuro seguir; Se a vida te deu um limão, faça uma limonada -  Lamentar? Lamente-se sim!  Mas somenten aquilo onde haja algum verdadeiro valor a ser lamentado.

-Boa sorte, Madá! Que ela nunca te abandone! - Brindei ao tocar as cordas da minha guitarra imaginária.

Eu e Jimmy Page éramos o máximo. Melhores que os outros três, óbvio!


Copirraiti Abr28/2011
Véio China®

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cenas pueris


-Tio, tio! Eu quero avisar pro senhor que o ca...

-Quereria meu rapaz! Quereria... –

Respondeu bruscamente o sujeito de aparência austera enquanto batia as mãos nas pernas e nos fundilhos da calça. Ele acabara de levar um tombo medonho ao tropeçar no meio-fio daquela movimentada rua. Contudo e para piorar o que bom não era,  a barba,  numa tonalidade arruivada e o olhar severo acrescido da calvice tornavam sua feição mais rude que propriamente era.

-Não tio, mais é só pra te dizer pro senhor que...–  Novamente foi interrompido

-Jovenzinho, antes de tudo seja mais cordato e tenha para você que não se pode ficar interpelando desta maneira pessoa que mal conhece!

-Eu sei tio, mais é que..

-De novo? Que garoto maçante! Certamente a civilidade e polidez não lhe foram ministradas em casa, muito menos herdadas de berço. Será que é nesse desentoar maleducado que caminha para a sua puberdade? - Dessa vez o homem o admoestava tão braviamente que parecia que seus olhos poderiam saltar das cavidades oculares.

-Eu sei tio! Mais, mais... – O garoto tentava expressar, porém e apesar da insistência não obtinha sucesso.

-Não tem mais mais e nem menos menos! E saiba! Não é mais, é MAS! - Praticamente berrou.

-Eu sei tio, mais  pelo amor de Deus, o senhor não ta entendendo que o Maic.. - Definitivamente aquele jamais seria o seu dia. O homem se mantinha irredutível e o abortou com rudeza, novamente

-Por que não se cala, ser pueril e inconveniente? – Foi a nova bravata, porém, dessa vez,  num  mesmo grau de rudeza, mas com maior sofisticação.

-Ta bom, tio! Se o senhor acha melhor assim... - Desestimulado o menino deu de ombros, virou as costas e se retirou.

Assim que o garoto se afastou o homem caiu em si. Havia agido com muita severidade com menino e sem oferecer-lhe ao menos a oportunidade de dizer o que se entalava na garganta. Arrependido chamou o garoto:

-Ei, meu jovem! O que poderia apalavrar-me de tão importante e essencial? – O garoto girou sobre o próprio eixo e voltou para ter com ele.

-Bem, tio. Agora nem dá mais jeito. Agora é tarde! - Exclamou com certo receio.

-Tarde? Tarde pra que?

-Bem... é assim tio. Quando o senhor tropicou na calçada e se esborrachou, não percebeu, mas... a sua peruca avuou pra bem longe.

-Voou... - O homem o corrigiu irritado com a opacidade do seu linguajar. Porém não bastaram mais que poucos segundos para que desse pela gravidade da informação

-Como? A minha peruca? - Questinou enquanto levava uma das mãos ao cocurutu  e dava por falta dos cabelos.

-Isso, tio! Ela avuou pra longe. E foi nessa hora que tava passando o cachorro do Tininho, o Maicou Jéquison, e ele abocanhou aquele negócio cheio de cabelo e deu no pé! -  O homem o olhou com certa raiva:

-E por que não me disse naquele momento, garoto indolente?

-Indo, quem, tio? –  Obviamente, além de não saber o peso das palavras, perguntava-se o porque do homem usar palavras tão difíceis para ele.

-Indolen... ah, deixe pra la! – Irritou-se ainda mais o suejito que não deixou de  insistir: Deveria ter-me avisado a tempo, garoto aparvalhado e lerdo!

De fato o homem, apesar da ira, sentia-se constrangido sem os seus cabelos avermelhados. Todavia agia de forma insólita e hilária ao tentar esconder a calvice espalmando ambas as mãos onde antes havia o chumaço de cabelos. O garoto, sentido-se cobrado tentou defender-se:

-Bem.. tio. Eu até que tentei, mas o senhor ficou me ensinando o dicionário todinho... Mais aí já era! Não deu mais tempo - Concluiu derrubando os ombros.

-Então, tudo está sacramentado! -  O Homem suspirou inconsolável. Porém, brasileiro, surgiu a luz, esboçou-se a esperança:

-Ei garoto, você tem o endereço do tal canídeo? -  Perguntou num olhar de súplica e ainda com as mãos no alto da cabeça.

Afinal, era a chance que a sua calvice  precisava. Talvez nem tudo estivesse perdido.
O olhar de rogo se manteve cravado em sua fisionomia diante do garoto que parecia matutar.
Passado alguns segundos, vestido numa expressão de incerteza, o garoto se manifestou:

-Canídio, Canídio...  bem tio, desse eu não tenho não. Pra falar a verdade eu nem sei se esse sujeito mora por aqui. Se ainda fosse o do Maicou Jéquisom dava pra quebrar um galho!


Copirraiti Abr2011
Véio China©