sábado, 15 de setembro de 2007

O escritor

-Morra, Tolentino, assassino miserável! - Gritei.

E então detonei e a bala chispou da minha arma e foi se alojar no coração do infeliz. Ainda me restou tempo de ver o seu olhar misericordioso suplicando que a vida  não esvaísse. Porém era tarde, tarde demais, a existência não mais lhe pertencia. E além de tudo, a vida havia sido justo para nós dois;  ele tivera a mesma chance que eu. Ele errara, eu, não.
O povo estava feliz,  afinal, eu livrava a cidade do mais insano assassino que por la se teve notícia. A partir do dia que o infeliz tombou, os velhinhos retornaram às suas rotinas,  à  paz merecida. Agora sim sem a ameaça rondando suas rugas poderiam retornar aos bancos desgastados do INSS, ou às filas bancárias à procura das suas aposentadorias aviltantes. Tudo terminara, a ansiedade, o medo e o pavor de um  psicopata a solta.

Para mim foi uma semana de glórias. No decorrer dos dias fui cumprimentado efusivamente pelos habitantes locais, e até homenageado pelo conselho da câmara municipal. Todavia, o melhor viria depois:  O espetacular prêmio em dinheiro por tê-los livrado do demônio. - Procura-se assassino, VIVO ou MORTO -  Incitava o enorme cartaz afixado na Praça da Matriz, dias antes, à descoberta dos criminoso. O miserável, além de ter fixação por gente idosa, esperto, mal deixava pistas. Contudo, o que o infeliz não contava era com minha picardia e inteligência: há muito eu desconfiava daquele estranhíssimo sujeito por quem Gina nutria verdadeira veneração. E essa impressão viera desde o dia que o conhecera no Bar da Cristal, apresentado que me foi pela sacana. O seu olhar me causava calafrios apesar de reluzir num azul quase celeste. Efetivamente os malandros se conhecem pelo cheiro.  Claro que meu ciúme não ajudava em muito, porém, eu pressentia que ali tinha mais coisas. Enfim... águas passadas, defunto enterrado. 

E a grana viera a calhar. Agora eu reunia condições e poderia me impor à vadia que me fizera sofrer. Dela nada tive exceto um amor  renegado, mesquinho como o avaro que nega ao mendigo um prato de arroz e dois pedaços de carne. Contudo, o que ela não sabia era que, sigilosamente eu tabulava a compra da fedorenta  espelunca onde eram combinados seus sórdidos michês. Ah sim! Não haveria qualquer clemência para Gina. Vingativo, usaria o seu corpo unicamente para me gerar prazer. Queria vê-la menear os quadris em cima da mesa,  trajes ínfimos, chicote à mão e a máscara cobrindo seus devassos olhos amendoados. Iria absorvê-la, ali e por inteiro. Queria-a  devassa,  expelindo palavrões  entre os lábios pervertidos e tingidos de carmim Era bom que soubesse que vida não era apenas um guardar de notas dentro do sutiã de terceira categoria.  Sim! A  trataria de forma quase profissional,  porém,  atiraria em seu rosto as mesmas  migalhas que se dão aos porcos. Eu a faria valorizar  cada dinheiro, cada um dos seus  gemidos de quenga. E ao fim, se ainda pretendesse usar o estabelecimento para seus agenciamentos, eu a faria  passar  meus  ternos de linho branco e  lustrar os negros sapatos de pelica  que ainda haveria de ter.
Afinal, a partir daquele momento ela era  teria que dar por si,  conscientizar-se que era uam simples rameira, uma bunda rebitada e exposta em vitrine como  peças de carne de segunda. Assim seria.  Agora e mais que nunca eu era o novo rei do pedaço, o  dono da cocada preta.

Fim.



E era assim que eu terminava “Vidas Amargas” um romance que após seis meses de trabalho estava em condições de ser entregue. Por conta dele eu já que havia recebido o valor que cobrara da editora.  Leigos, apenas leitores, jamais compreenderão o que é escrever. Jamais saberão que o nosso sangue  jorra em cada palavra, frase ou linha que produzimos numa folha em branco. Nem mesmo as editoras  nos compreendem. Muitas delas nos desprezam, desvalorizam – Teus livros não vendem! – Exclamam ao nos proporem valores absurdos e com os quais, sem alternativas, acabamos por aceitar.  Neste caso em específico menos mal, afinal, além de ter livrado da obrigação, estava libertos dos destinos daqueles quatro personagens  que me deixaram tantas vezes insone.

Os personagens:

Personagem central: Vilfredo Tavares. Um sujeito esperto, tanto vagabundo, mulherengo e galante. Sua natureza mundana  a tornava um sujeito sem rumo e sem prumo. Vaidoso, vivia de pequenas vigarices  no 21 e nas mesas de sinuca.  Depois tínhamos Gina. Prostituta da trama, era de uma beleza fatal, além de ser a amada de Vilfredo. Porém, Gina tinha ojeriza do nosso herói. Transaria o diabo se necessário, mas jamais com Vilfredo Tavares.  Tolentino, nosso terceiro personagem, o mal travestido de bem. Contudo Gina o amava desesperadamente a despeito do déspota que era.  Tolentino era um desses corretores de imóveis chegado à cidade a pouco. Fala fácil, dissimulado, tipo apreciado pelas pessoas e que sempre se da bem com a maioria das garotas. Por fim a nossa quarta personagem;  Jeny. A garota mais linda e casta da cidade. Milionária e inexperiente, fez aquilo que jamais deveria; apaixonar-se por Vilfredo Tavares. Constantemente assediado por ela, Vilfredo a desprezava e a  tratava-a com indiferença apesar de tirar casquinhas com ela.  Conta-se também à boca miúda que, Vilfredo  desvirginou  Jeny. Porém, ela não era  do tipo de garota que ele gostava.


A trama:

Fala de um assassino misterioso e cruel que caçava suas vítimas pela fator da  idade. Suas  preferências eram os velhos,  os fracos,  desvalidos. Preparava seus ataques ao iniciar da noite e ia até ao ponto de ver suas vítimas encurraladas. Para tanto usava de muitos requintes; dos mais simplórios  aos terrivelmente desumanos . Dotado de uma inteligência privilegiada jamais deixava pistas, transformando a Polícia da cidade numa anedota  de muitas gargalhadas.
Indignado com tamanha incompetência, Vilfredo resolveu agir por conta própria e desvendar os assassinados. Claro, para se garantir muniu-se de uma Taurus 38  à bordo de algumas desconfianças praticou campanas diante dos lugares que seu desafeto freqüentava, inclusive à sua casa. No 9º dia  flagrou Tolentino entrando sorrateiramente numa casa de um longo jardim. Corajoso, Vilfredo rezou um padre nosso e escalou o muro pode detrás da casa e  entrou silenciosamente  por uma das janelas abertas. Surpreendido, enquanto tentava sufocar a pobre velhota, Tolentino sacou da arma ao mesmo instante que Vilfredo, porém sem a mesma sorte. Foi o seu fim.

Foi assim que á título de recompensa, que o nosso herói  herdou um vultuoso valor dos fundos da municipalidade, reforçado  generosas cotas do comercio local, já que o turismo,  fonte de vigorosos dividendos à cidade se tornara praticamente inexistente após as notícias dos assassinatos.



Bem, era isso! O fim é aquele que todos já sabem. Sim,  sobre o meu conto?  Pra ser bem sincero, sabia que o enredo era sofrível  e cheio de clichês de toda sorte. Todavia foi o melhor que consegui fazer. Para idéias que não brotaram e pelo valor que foi pago não deveriam aguardar por um Best seller.
Peguei todas as folhas datilografadas e juntei-as para levá-las na manhã seguinte ao sanguessuga do Ezequiel, meu editor. Eu estava desanuviado por conseguir terminá-lo, além do fato  de me desvencilhar dos malditos enredos, por vezes nos tomam noites e noites de sono e saúde.  Recordo-me que mesmo dormindo, quantas vezes não sonhei com a trama e suas dificuldades? Quantas vezes não surgiram caminhos que ao acordar sequer lembrava?
 Portanto, naquela noite eu enchi a cara com a Sputnik, minha vodka favorita até sentir o estômago enjoado, as pálpebras pesarem, e sem perceber, adormecer.

Acordei assustado com uma sensação de aperto. Tentei levantar e senti dor vinda nos pulsos. Olhei para mim e eu estava preso em minha cama. Tentei mover os pés e eles também doeram. Algemas nos pulsos e calcanhares me mantinham refém. Tentava entender o que poderia estar  havendo quando um barulho de descarga seguidos por  passos vindos à direção onde me encontrava. Chegaram e eu a vi.
Incrível, era Gina em lingeries negras  combinando calcinha e sutiã, negros com filetes vermelhos. Ela ria, debochada, cara e trejeitos de puta. Impressionei-me; jamais imaginei que ela pudesse ser tão bela quanto ao que supus ao  dar-lhe a vida em meu livro.

-E aí seu escritor sacana! Porque teve que tornar-me a puta ordinária da tua estória suja? Perguntou. Seis olhos fulminavam

-Ei, Gina! Aquilo é apenas uma estória – Tentei justificar

- Sim, tudo é estória na vida. Mas, não é disso que falo. Pergunto o por que de ter feito de mim a  vadia da tua trama? – Interpelou-me furiosa – Surpreso não reagi. Ela continuou:

- Eu queria era o papel da Jeny!  Aquilo é que é personagem! Linda, olhos azuis, faculdade, pais ricos e carro do ano - . Eu mantinha-me perplexo. Aquilo era muito louco. Gina, nervosa, não se dava por satisfeita:

-Claro, a única coisa que detestaria era  o fato de apaixonar-me  por você.  Sabia que você e Vilfredo são farinha do mesmo saco? A merda do mesmo pinico? Seus olhos expeliam veneno.

Evidente. Gina só poderia estar louca, Vilfredo era o personagem e eu, o escritor. Ela não conseguia separar um do outro, apesar de reconhecer em parte que Vilfredo seria algo como uma extensão de mim.  Porém, aquele não era o local e nem momento de concordar com partes. Ela me parecia um tanto insana. Silenciosamente dirigiu-se à cozinha e voltou com um copo americano na mão. Nele, entornou a minha vodca e sentou numa poltrona de frente à cama. E dali ficou olhando para sua presa. Excitavam-me aqueles olhos dementes e suas lingeries negras.  Seu olhar ainda me consumia quando ouço o fechar da porta da sala. Novos passos ecoam pelo corredor. Entra.

-Ah! Você conseguiu prender o canalha, Gina? – Exultou a garota de aparência juvenil.

Por Deus! Era Jeny.  Linda, faces coradas, olhos azuis e roupas de grife,  rescendendo perfume importado, deixando sempre a impressão que acabar de sair de um banho tal o frescor que  irradiava.  Definitivamente eu não gostava de Jeny e nem das garotas de sua estirpe; eram chatinhas demais.  Ante meu olhar de perplexidade, Jeny continuou:

-E fez muito bem, Gina! Esse babaca não sabe mesmo escolher qualquer  mulher. Idiota fui eu que o amei, dei meu corpo à ele como prova do meu amor. Faria qualquer coisa, até convencer  papai a dar-lhe um emprego de chefia. Mas, ele não quis! Queria a a prostituta. – Expeliu rancorosa.

-Pois é! – Teve que concordar, Gina – Acabei de reclamar com ele que se dependesse de mim teria trocado de lugar com você! É  muito chato bancar a prostituta em romances. Putas apenas soam poéticas em livros. Porém,  na vida real a história é outra e a discriminação dolorosa. –  Discursou  enquanto Jeny a olhava com atenção.

Repentinamente Gina emocionou-se. Percebeu então que era melhor concluir. A voz soava algo embargado, quase ao choro:  

-Aprenda, Jeny... Bêbados e prostitutas são unicamente interessantes na devassidão dos livros ou na sordidez dos  filmes!  Na vida real,  bêbados e putas  uns merdas e só se fodem! – Exclamou dramática. Jeny parecia emocionada.

Por Cristo! Aquilo não poderia estar ocorrendo. Surreal demais para ser verdadeiro.
Era insano  ver-me ali preso na própria cama, ainda mais rendido pelos mesmos personagens que eu criei. Pra piorar, as duas dementes ainda achavam que autor e personagem eram  a mesma pessoa. Momentaneamente me descontrolei ao pressentir algo de ruim:

-Pelo amor de Deus, meninas! . Eu sou apenas o escritor! – Não sou o Vilfredo. Sou o Neves, o escritor! – Eu rogava

No exato momento do meu desespero toca a campainha.  Jeny, cordial e imbecil  como sempre, abandona a cadeira e vai ver quem é. Novamente passos no corredor. Agora uma voz de homem. Pela sua reação,  parecia conhecer Jeny:

-Oi menina! Que saudades! Imaginei que nunca mais veria! – Exclamou

Meu Deus, mais um  louco? –  Questionei-me enquanto os passos vinham na direção donde eu e Gina estávamos.

-Ah! Aí está o canastrão! O pervertido, o  deflorador de jovens inocentes. Além disso, esse canalha é um exterminador de pessoas que pretendem se dar bem na vida! –  A pessoa gritava para mim. Olhei-o minuciosamente.

Por satã!  Era Tolentino! Agora sim não faltava mais nada no festival de horrores! Outro louco surgido do nada, supondo que eu fosse o Vilfredo. Assim que Tolentino e Gina se notaram, agarraram-se   e trocaram um longo beijo.
Podíamos ver-lhes as carícias, as mãos do safado  trabalhando avidamente o  majestoso rabo de nossa prostituta. Um pouco mais e separaram-se. Todos cochichavam quando resolveram sentar, beber da minha Sputnik, e ficarem me olhando. Assim que a garrafa esvaziou Jeny foi à cozinha e trouxe outra nova. Eu estava fodido; acabariam com  a minha vodka.  Bem, se me sobrasse vida já estaria fazendo em excelente negócio. – Concluí -

 Jeny, que não tinha o habito de beber,  bebia, e bem. Não demorou para começar a rir. Tentava caminhar em minha direção, porém as pernas não obedeciam.   Tolentino a ajudou levantar  do chão e puxou-a para  si beijando aquela boca de romã. Jeny, cedia enquanto a mão do safado explorava por debaixo do vestido de grife. Jeny gemeu, e sussurrou; estava gostando de sentir a mão do sacana resvalando sua xana por cima do tecido. Aquilo pareceu excitar Gina. Levantou-se calmamente  e se encaminhou até Jeny, desnudando-a das peças externas até deixar seminu  aquele corpinho  esbelto e sem celulites.  Tolentino a tudo olha. Devasso, despe-se  e se engalfinha-se com as duas.  Meu quarto esta se tornando um cômodo de bordel. Os três rolam pelo assoalho enquanto Tolentino bolina as partes íntimas das garotas. Elas gemem, urram e riem, e depois o livram  da cueca com o Pato Duke estampado na parte frontal.  A imensidão do membro surge. Tolentino, o grande galã é dono de um  pau imenso.  Elas deliram e se atiram sobre ele com voracidade enquanto eu, preso, não tive como me insurgir.

Exaustos  e depois de foderem por muito tempo,  os miseráveis praticamente terminaram com a minha última garrafa de Sputnik. Eu mesmo jamais me imaginaria bebendo o que aqueles sujeitos beberam.  O som das talagadas foi cortado pela voz de Jeny:

-Tolentino! Você não vai fazer aquilo, não é? – Tolentino olhou surpreso. Não sabia exatamente ao que Jeny se referia. Foi necessário que Gina viesse ao seu socorro, fazendo-o recordar com daquelas piscadas sacanas.

-Ah, é mesmo! Aquilo! Vou sim, meus amores – Sorriu todo sádico. O imenso pau de Tolentino balangava entre as coxas de uma alvura irritante, diria até que, desbotadas.

Olhei disfarçadamente praquela coisa dependurada e a impressão era horrível. As duas se levantaram e aninharam nele. Cochichavam e riam, suas bocas exalavam palavras e frases que não conseguia decifrar, salvo suas sacanas risadas. Repentinamente Jeny se livra de Tolentino e vai até a cômoda onde abre a bolsa de couro de crocodilo e retira algo que reluze. Olho para sua mão.  Assusto-me. É um revolver Taurus, calibre 22 –
Uma peça linda, prateada, que cintilava ao reflexo da lâmpada no teto. Delicadamente e com aquele sorrisinho besta impregnado nos lábios, num sinal de Gina, passa a arma para as mãos do Tolentino.  De posso do objeto ele ri. Um riso medonho, sarcástico, doentio.  Inspeciona arma, gira o tambor, e me informa:

-Vilfredo, reze! Há uma única bala nesse tambor de seis tiros – Eu o olhei atônito. Iriam me assassinar?

Entre risos, dementes, me comunica:

-Moço! Vamos brincar de roleta russa.

 Todos riram ao se postarem um atrás do outro como se fosse fila indiana.
 O primeiro a deflagrar o tiro foi Gina.  Senti a frieza do metal na minha cabeça onde um fio de suor escorreu da testa indo morrer na ponta do meu queixo. – clik – Nada.  A bala não esteva na agulha, dessa vez. O segundo foi dado por Jeny – Sorte! Novamente eu me safara. O terceiro falhou ante o olhar de desaponto de Tolentino. No quarto e quinto eu ainda não havia morrido.  Gina e Jeny riam, divertidas – surpreendentemente eu ainda estava vivo e me sentindo como um peru de Natal.  Talvez tivesse sido melhor sucumbir ao primeiro tiro. Era muito sofrimento – Assenti arrasado.

Com o meu destino selado nas mãos de Tolentino, o tiro de misericórdia viria justamente daquela a quem assassinei no conto. Aliás, eu não, o personagem!  À essa altura já nem sabia ao certo quem eu era. Portanto não acreditava que surtisse efeito tentar convencê-lo que não fora eu o mentor de sua morte. Eu pagaria pelo erro de ter tentado me tornar um autor.  Era meu destino. Escritores morrem todos os dias. Fenecem diante de suas linhas que não avançam, das idéias que não surgem. Morrem nos  finais óbvios prostrados aos  lugares comuns, ao clichês deformados e descarados.
Tolentino com ares de perversão se dirige ao radio-vitrola e enche o copo com a minha última dose de Sputnik. Com o copo na mão vem ao meu encontro. O sorriso da besta fera se estampava. Olha para mim. Não mais vejo a tonalidade dos seus olhos quando  aporta o revolver em minha têmpora. Senti quando armou o tiro.

- Vai morrer agora seu abusador de virg...
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- TRIMMM... TRIMMMM...TRIMMMM...TRIMMMM -

A mesma campainha irritante de sempre - Era o despertador.

Olho para o relógio; 8:00 hrs.  Travei-o e permaneci quieto, assustado, olhando para o teto enquanto o corpo se mantinha envolto por suores e cobertor. Instantes instigantes onde eu revivia o medonho pesadelo. Repentinamente o telefone toca.  Sem  vontade de atendê-lo esperei que a pessoa desistisse. La pelo décimo toque o aparelho silencia. Levantei, fui à cozinha preparar um café instantâneo. De lá ouço o maldito telefone tocando novamente. Voltei para o meu quarto e fiquei olhando  pro crápula negro e percebi que ele não se calaria tão cedo. Será que o mundo não podia perceber que para  mim pouco importava quem estivesse do outro lado da linha?  Tanto faria se fosse a pompa de uma Jacqueline Kennedy ou o cineasta que mostrou para o mundo a calcinha de Marylin Monroe sendo abatida por um ventilador oculto e gigante. O mundo tinha por obrigação compreender e respeitar o meu  mau humor. Era um direito meu.  O telefone parecia não entender os pensamentos e os desejos humanos, portanto persistia esgoelando, histérico. O som da campainha adentrava em meus ouvidos, pavoroso, estridente, fazendo-me relembrar  a sirene duma fabricava onde trabalhei e que pontualmente ao meio dia avisava-nos da hora da bóia.  Atendi antes que me sentisse pior.

-Alô, Neves, aqui quem fala é o Ezequiel! – Identificou-se o meu editor.

-Ta certo, ta certo! Sei que estou atrasado. Mas, está pronto, terminei nesta noite. – Respondi de má vontade. Ele estava à caça do conto.

-Porra, Neves! Você insiste em nos fazer de palhaços! Faz mais de mês que você promete, promete, só promete! - Inquestionavelmente ele demonstrava sua irritação. Talvez, Neves estivesse mais impaciente  que eu.

-Mas, mas.....  - Tentei argumentar. Fui interropido por ele, aos berros.

-MAS,  MAS, MAS, É  O  CARALHO, NEVES!  SE  VOCÊ  SONHASSE  COM  ESSA  MERDA  TODO  SANTO  DIA,  SE TIVESSE  PESADELOS  COM  ESSE  FAMIGERADO  CONTO  JÁ NOS TERIA ENTREGUE  HÁ  MUITO  TEMPO!

-Ezequiel! – Devolvi calmamente enquanto ele persistia gritando - Ezequiel! Ouça-me, por favor – Insisti. Ele parecia não ouvir. Continuava vociferando seus palavrões,  recriminando a minha falta de responsabilidade. O sangue me subiu aos cornos e eu gritei com ele na mesmice do seu tom:

-EZEQUIELLLLLLLLLLL –  Após o meu desagravo, silêncio. Pelo menos era o sinal que me escutara. Ainda insatisfeito resmungou:

-Fala Neves, o que é agora?

-Ezequiel! – Insisti, suave, quase cordial.

-Sim, Neves, estou ouvindo - Abrandou

-Ezequiel...meu anjo.... VÁ PRA PUTA QUE O PARIU! -  Urrei ao bater o telefone.

No início da tarde o romance estaria em suas mãos. Éramos dois safados cheios das frescuras e conhecidos de longa data. Sabíamos das jogadas um do outro. Sabíamos que haveria mais trabalho. Ah sim! A preço de rabanetes, é verdade, mas, haveria. E isso só era um mero detalhe para quem iria se tornar um dos maiores escritores que esse país ja viu.

Mulheres & Vinhos


Seu horário de almoço estava por dar. Denise, estava uma tanto depressiva pelo desgaste que o seu casamento vinha apresentando de uns tres meses pra cá. Justo ela uma arquiteta de status, afamada e que mantinha seu escritório numa das casas mais caras do jardim Europa. Sergio, seu marido e diretor de negócios de uma mega empresa de informática estava por viajar naquela tarde e ela lembrava da discussão que tivera com ele na noite que passou.

-Let It Be, Denise, Let It Be! Calma Baby, please! – Dizia ele, exasperado.

Fora mais uma noite que ele não conseguira a ereção, quem diria, o orgasmo. Essa situação a afligia e o sentia cada vês mais distante de si. Pensou em lhe fazer uma surpresa e lhe falar o quanto o amava antes que viajasse. A viagem estava marcada para as 18;00 hrs, viagem de negócios; como sempre, portanto ainda havia como lhe encontrar e tentar a reaproximação:

Alo! Catarina! Tudo bem com você? É a Denise. Poderia falar com o Sérgio? – solicitou gentilmente à secretária como sempre o fizera.

-Dona Denise, o doutor Sergio já foi viajar. Ele não lhe avisou? – justificou ainda mais gentil a funcionária.

Para não se constranger ainda mais, criou algumas desculpas com a secretária e desligou. Oras! Mas se a viagem estava marcada para o final da tarde, como ele poderia ter partido? Até onde soubera, e sabia, nos vôos nacionais a necessidade é a de apresentar-se com uma hora de antecedência ao início do vôo. Que estaria aprontando o Sergio? Por onde andaria numa hora dessas? E também não agüentava mais aquela mania miserável de em qualquer situação sair-se com aquele “Let it Be” – alguma afetação, imaginou - já que até onde sabia, ele nunca fora fanático pelos Batles.
Sabendo que não chegaria a qualquer conclusão e com a finalidade de tentar se distrair desceu num dos luxuosos elevadores do edifício e foi numa loja de lingeries - não estava com fome-. Chegando ao Shopping estacionou o seu Mercedes bens numa das vagas e subiu para o andar de lojas. Entrou na “Womans” a sua loja predileta de lingeries.
Era lá que comprava os seus refinadíssimos conjuntinhos da “Victoria Secrets” e os baby-dolls do mais excitantes, mas de uma classe absoluta. Ao entrar na loja reparou numa mulher morena aparentando algo próximo da sua idade. Olhou-a fixamente e ela se distraída apalpando algumas peças apostas sobre o belíssimo balcão em mármore. Certificou-se que poderia ser a própria. Era ela, não havia qualquer dúvida agora.

-Claudiaaaaaaaaa?- chamou exultante..

-Deniseeeeeeee! – Era a amiga de faculdade e uns dez anos as separaram, mas as feições e as vozes permaneceram as mesmas. Identificaram-se com facilidade aquelas duas lindas e apetitosas companheiras de universidade.

Ambas, alegres, mostram-se felizes pela surpresa do inusitado encontro e ali, ajudando uma a outra escolheram os seus adornos, caros e requintados. Sorriam ainda e mutuamente se convidaram para almoçarem naquele refinado e famoso restaurante de uma rede francesa, ali, ao lado da praça de alimentação. Entraram e o maitre, impecavelmente vestido veio lhes dar boas vindas. Ao lado do maitre, o garçom, alinhadíssimo em seu paletó branco, calça negra e gravata borboleta. Anotou os pedidos que foram escolhidos juntamente com a sugestão do maitre. Enquanto aguardavam conversaram amenidades, perguntaram por suas mães já que não havia sido mais de uma única vez que estiveram na casa uma da outra para a realização trabalhos acadêmicos. Claudia mantinha-se bela como sempre fora. Apesar de se formar arquiteta não exercera a profissão e casara e separara-se de um jovem milionário e industrial que a deixou com uma pensão abastadíssima. Portanto, dinheiro e vida apertada, não era com ela.. Denise contara que sua mãe havia falecido porem o pai continuava vivo e morando no mesmo local. Ainda mais; tinha aquele famoso escritório de arquitetura. Os pratos chegaram pouco depois do vinho de procedência francesa. Foram servidas e bebiam descontraída e sorriam ao lembra-se das farras na faculdade.
Recordaram-se até do baile do “cabide” onde ficaram só de calcinhas e soutiens e os rapazes em cuecas. Riram muito ao recordar que Denise ainda conseguiu
Escapar sem ser “traçada” por algum daqueles pervertidos colegas de classe e que a mesma sorte não tivera a Claudia.

-Ah! Mas quer mesmo saber? O Elder era uma graça e foi uma das melhores transas que eu tive – confidenciou Claudia

Como toda patricinha, mal enfiaram os garfos nos pratos. Porém, enxugaram rapidinho o vigoroso vinho francês. Pediram outro. Chegando, encheram os seus copos e bebiam e riam divertidas. As risadas agora soavam altas e chegavam até incomodar o maitre, já que outros clientes entravam no local. As duas já se encontravam um tanto altas e no início da terceira garrafa.

-Denise, e você, têm filhos – perguntou Claudia.

-Sim, um casal, o menino com 6 anos e a menina com 4. – disse Denise , enfastiada

-Ah! Eu tive só uma. Ana Carolina, 8 anos. Fica no colégio de freiras o dia todo e o meu pai vai buscá-la todos os dias. –confirmou Claudia, com o olhar um tanto ébrio.

-E tem mais, eu não quero mais casar. Homem pra mim é só pra curtir a vida. Sair, se divertir e terminar a noite num bom e caro Hotel. Nada de Motel. Motel é coisa de proletário! – riu-se Claudia, divertida com o que acabara de dizer.

-Ah! Comigo não tem nada disso. O meu casamento já dura oito anos e está bem desinteressante. Meu marido de uns quatro ou cinco meses pra cá tem se mostrado distante.
-Ih menina! Vá viver a vida! Se o marido não te dá bola, procure outro.b Eu já fazia isso no tempo que estava casada. Numa das vezes sai com um dos gerentes da empresa dele. Quando ia lá o sujeito me comia com os olhos. Atraente, atlético, olhos azuis, moreno, simplesmente um deus! – gargalhou dessa vez a nada discreta Claudia diante de uma Denise, constrangida e meio que envergonhada pelo espalhafato da outra.

Permaneceram em silêncio por minutos e Denise estava sufocada, inconformada pela atuação sexual do Sergio que nem mesmo a ereção conseguira.
E isso a sufocava e era necessário desabafar.

-Claudia, vou te contar uma coisa. Morrendo de vergonha, mas vou. Nessa noite o meu marido não conseguiu nem mesmo a ereção. Ficou só nas desculpas evasivas, virou a bunda pro lado e roncou que nem um porco. – Denise parecia bem desanimada ao lhe confidenciar.

-Eu já te disse menina! Saia para a vida! Mergulhe nela. Faça como eu. Homens são descartáveis e eu os uso conforma a necessidade. Agora mesmo, estou com um garanhão que me da prazer extremado. Aquilo não é homem; é um cavalo de raça!

-Poxa! Quem me dera meu marido fosse assim, mas sabe que nunca teria coragem de traí-lo. Juro! – Uma pequena lágrima rolava numa das faces de Denise.

Pela primeira vez na tarde, o sorriso de Claudia se extirpou e ela percebeu que a amiga precisava de um ombro amigo e não de fanfarronices. Percebeu ali a amiga da faculdade, honesta, sincera e pau pra toda obra; ela bem se lembrava. O Seu rosto se entristeceu e então tentou ajudar:

-Leit It Be, Denise! Calma baby, please! Tudo há de melhorar!

A taca do vinho francês, de um rubro esplêndido - como todo bom e sofisticado vinho deve ser – escapuliu de sua mãe e estilhaçou-se ao chocar com a dureza da pedra.
E no chão de um branco infinito, quase celestial, as lágrimas transformadas num pequeno rio de sangue, escorreram.

A taca do vinho francês, de um rubro esplêndido - como todo bom e sofisticado vinho deve ser – escapuliu de sua mão e estilhaçou-se ao chocar com a dureza da pedra lá embaixo. E no chão de um branco infinito, quase celestial, as lágrimas transformadas num pequeno rio de sangue, escorreram..

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Lana


O bar fervia. No interior as fumaças acinzentadas dos cigarros  tornavam o ar irrespirável e tanto abafado. Tossiu, pigarreou, olhou para o relógio; duas da manhã. Recriminou o próprio vício enquanto olhava para as pontas dos dedos que  amassavam o toco do cigarro no fundo de um cinzeiro. Sim, havia certa simpatia aos movimentntos anti-tabagistas, mas, inviáveis pra ele. Acendeu outro Marlboro e resolveu mudar de lugar. Escolheu uma das banquetas do balcão e acomodou-se.
- Outro uísque, por favor! – Pediu  ao barman.
Enquanto aguardava passou os olhos pelo ambiente; alguns rostos amuados contrastavam com os sorrisos e dentes das mais diferentes pessoas.  Perto dali numa mesa, apesar de não distinguir perfeitamente, reparou numa mulher que aparentava algo próximo dos trinta. De onde estava só se viam as pernas bem torneadas,  levemente deixadas à mostra num curto vestido azul.  -"Mais uma prostituta" -  Pensou - Tranquila, a moça sorvia o seu drink,  reticente, não se dando conta do que se passava à sua volta. Nesse  transe ela circundava o dedo indicador pela borda do copo com um líquido de tonalidade esverdeada.

Novamente olhou e a achou interessante. Perguntou-se; “ O que deve passar pela cabeça duma prostituta?" –  Não teve  resposta. Nem ele sabia.  Após o insólito questionamento, sorriu: Talvez as pessoas estivessem mais preocupadas com as suas contas de água, luz e telefone. Talvez as preocupações com  pais idosos, queixas de desencanto de ex-esposas, ou mesmo,  o lamento  juvenil dos filhos engravidados pelo  tesão de instantes fossem mais importantes que a questão  – Concluiu. 
Exorcizando as divagações persistiu na mulher vestida de azul. Num impulso confiante levantou e encaminhou-se  na direção onde ela estava. Contudo os impulsos por vezes são covardes. Disfarçou e sentou-se numa mesa à frente a dela.  Preocupado olhou por cima do ombro; será que o garçom tinha percebido o deslocamento?  Assim que os olhares se cruzaram o atendente fez um sinal de positivo.  Ele sossegou. Agora, bem mais próximo estacionou os olhos na moça o suficiente pra perceber que havia beleza ali, apesar da precocidade de algumas rugas. Talvez tenha insistido em demasia e ela percebeu. Soergueu o rosto e interromopeu o ato contínuo de voltear o copo. Os olhos dele persistiam cravados nela, que, constrangida devolveu um sorrisso nostálgico e suave.
De alguma forma a mulher o impressionava, principalmente o sorrriso que, além de triste parecia ser sincero.  Era  como se ela dissesse  falas que não conseguia ouvir -  “Ei moço! Posso parecer uma puta,  mas sou uma pessoa decente” - Sabiam ele e ela da importância das aparências das pessoas. Todavia, sabiam também que as aparências enganam e, humanos que somos vivemos do incorrer em  grandes equívocos. Talvez pessoas que exarcebem  classe e perfumes de 300 dólares são aqueles que vao te trair diante dum interesse  maior.  Ele mesmo já fora vítima de um desses punhais cravado nas costelas.
O sorriso ainda se emoldurava no rosto da mulher quando seus impulsos renderam-se  à coragem  fazendo-o levantar. Com a sua bebida na mão  estacou-se  à frente dela.

-Oi! Tudo bem com você – Perguntou amistoso. Afinal, tinha que começar por algum lugar.

-Sim, tudo bem! E com você? – Ela se manteve a reciprocidade.

Bem, daí para frente a noite se transformou em magia. Como se fossem dois velhos amigos falaram de suas vidas, contaram  suas ilusões, desilusões, algumas alegrias e um tanto das tristezas.  Beberam bastante, mais que o aconselhável. Evidente, um sujeito de classe paga a conta. Ele tinha classe, pagou.

Lana o impressionava cada vez mais com seu sorriso ora nostálgico, ora misterioso. No rosto,   lábios carnudos e carmins adornavam-se por fileiras de dentição perfeita. Ela sabia se cuidar - Deduziu satisfeito.
Assim que se levantaram ele pode observar que o corpo da mulher ainda se encontrava em plena forma. O porte ereto realçava a maturidade de sua beleza enquanto a voz um tanto rouca e grave conferiam à ela  um ar de fêmea fatal.

Convidada, aceitou: Iriam para o apartamento dele. Atravessaram o bar e deixaram para trás a fumaça azulada e o alarido das bocas insones . Lá fora o ar úmido e o denso nevoeiro  faziam das lâmpadas dos postes  focos de luminosidades  opacas, num efeito semelhante ao do gelo seco. Não  se surpreenderia se um  astro do rock surgisse da cerração. 
Atravessaram a calçada, tomaram um táxi e rumaram para o apartamento. Ali, espremidos no banco traseiro de um fusca trocaram carícias, beijaram-se e, só não foram mais longe porque ainda não era o momento e nem o lugar. Ele, apesar de excitado, aguardava; Era afeito às surpresas. Entraram no edifício, subiram pelo elevador e ela o excitou ao aninhar-se de costas e pressionar a bunda bem no centro do seu pau. Ela sabia como fazê-lo, meneando sensualmente os quadris como se procurasse o encaixe para algo. Ansioso,  ele atravessou os braços por suas llaterais e os cruzou no peito dela, massagendo os seios por cima do sutiã. Surpreendeu-se com  volume e o fato dela mantê-los em tal estado de rigidez. No curto trajeto até o apartamento comparou-a às atrizes dos anos 50, e aos filmes que jamais perdia. Relembrou alguém que carregava o mesmo nome  - "Ei, você me lembra  Lana Turner" - Disse-lhe - Ainda viajou e recordou-se da bela Grace Kelly e da ingênua Audrey Hepburn. Enfim, só foi abortado das cinéfilas recordações ante o fato do elevador ter chegado ao  seu destino. Ele estava feliz; havia encontrado alguém que falava a sua língua, que entendia a sua melancolia, e  fundamentalmnte; alguem que sabia excitá-lo como ninguém..

Claro, não era jovem. Sabia que o sentimento da paixão já havia desistido de si. Todavia Lana inspirava-lhe confiança com aquele olhar cativante e compreensivo.
Na sala, Lana repousou a bolsa de couro em cima da estante e pediu para fazer uso do toalete. Estava ansiosa por um bom banho; “ Querido, preciso livrar-me desse cheiro de cigarros. Posso tomar uma ducha?”  – “Sim, claro meu anjo!” – Foi sua resposta.  Lana perguntou também se ele tinha uma camiseta folgada,  que pudesse deixá-la mais confortável. “Sim, meu amor! Tenho uma das grandes” – Confirmou ao procurar em suas gavetas um dos seus camisetões GG que tanto gostava de vestir ao dormir. Por sorte encontrou um novo na cor de um amarelo canário. “Uau! Ela vai ficar um show” – Concluiu ao entregar-lhe a peça. Vomo não poderia deixar de ser,  um risinho sacana se estampado em seu rosto.

Assim, à merce das devassidões da imaginação foi que Lana rumou para o banheiro. Ele  ouviu o barulho do chuveiro enquanto preparava  drinks para os dois. Tudo teria que ser perfeito -  Concluiu – Prontos,  colocou-os acima da cômoda do quarto. Desastrado, ao retirar a mão acabou por esbarrar num dos copos. derrubando-o.  Ansioso, voltou à cozinha e refez o drink.  Ao retornar deu com Lana e a luz apagada; Ela deixara acesa apenas  a tênue luz dum abajur de estilo oriental, ali,  à  mesinha de cabeceira. Estava linda naqueles  cabelos negros escorridos pela água. Deitada de costas, sedutoramente deixou as fenomenais pernas à mostra, talvez um palmo acima do joelho. Tal como previra, a tonalidade amarela caíra-lhe estupendamente.  Agitado,  entregou-lhe a bebida e sorveu a sua  num longo gole. Olhou para ela que bebericava seu drink com delicadeza de uma dama. Procurou ter a mesma gentileza ao  retirar-lhe o copo de sua mão e os repô-lo à cômoda.
Fazia frio, muito frio. Lana aninhou-se debaixo do espesso edredom.  Deitou-se de bruços. Estimulado, ele se desfez de suas roupas e permaneceu apenas de  cueca. Sentia frio, porém logo esqueceu-se da sensação ao correr as mãos por cima da manta pressionando as nádegas estupendamente rijas.  Inflamado, foi para debaixo do edredom e levou as mãos por dentro do camisetão - Surpresa! -  Lana estava sem a calcinha. Voluptuosamente imprimiu força nas mãos e massageva a sua bunda  quando empinou o rabo.  Aquilo o deixou transtornado. Excitadíssimo e ofegante ele se ajeitou em cima dela  e penetrou-a como um animal. Sentia-se na pele dum leão que devorava a sua presa.
Lana gemeu, rebolou, fazendo que ele fosse cada vez mais fundo. Ela agora sussurrava grave e sensual. - "Vai amor! mais! mais fundo!" - Ela o estava deixando maluco.  Com movimentos  perfeitos Lana facilitava a penetração. Foi no ir e vir das bestas feras que ele atingiu o orgasmo enquanto ela gemia, agora alto.
Ela ainda arfava quando desceu da montaria e deitou-se de costas. Olhou para o teto e depois para ela.  Carinhosamente usou os braços para fazê-la virar na sua direão. Queria beijar a boca daquela mulher, retribuir  em ternura aquilo tudo que houvera ganho.

E foi beijando que procurou pela vagina de Lana. Gostava de sentir os líquidos femininos escorrendo pelos vãos dos dedos. Ah sim! Também penetraria o dedo médio em sua vagina assim como fazia com suas poucas mulheres. Talvez Lana não soubess, porém, isso lhe causava imensurável  prazer.

Repentinamente o horror.

E foi assim, perdido mais na alma que num corpo de mulher que ele conheceu João Antonio.
Talvez para não demonstrar a sua estupidez e a falta de conhecimento da anatomia  humana  persistiu na conversa como se nada tivesse acontecido. Falaram do como e dos porques. Contudo, impossível. João Antonio alias... Lana, percebia o constrangimento do companheiro, e isso os afastou; sentía-se um pássaro no aguardo do descuido de uma porta aberta na gaiola. Após um interminável olhar para  o nada, levantou-se,  pegou suas roupas e rumou para o toalete. Ela se encontrava tão surpresa quanto ele. "Babaca!" - Susssurrou ao se defrontar com a própria imagem no espelho. Ela jamais poderia imaginar que o imbecil não soubesse diferenciar um travesti à uma mulher.

-Foi um prazer enorme, Getulio – Vestida e já maquiada despediu-se do dono da casa.

-O prazer foi todo meu, Joa...  - Respondeu disperso, porém à tempo de se lamentar da gafe -

-Perdão...Quero dizer...Lana - Tentou desculpar-se coagido pela asneira que acabara de cometer

-Não, meu querido! Nada me deve, nem cerimônia! Pra você é... João Antonio de Alburque – Finalizou com a voz rouca que ele achara tão sensual, mas que agora consentia máscula.

Despediram-se  forçados quando João Antonio assoprou um beijo nas pontas dos dedos e saiu meneando o inacreditável bumbum na direção do elevador. Getúlio  ainda fixava  as estupendas nádegas dentro daquele atraente vestido azul. Os saltos de Lana deixaram de tamborilar no piso quando o elevador chegou. A porta se abriu e depois fechou fazendo desaparecer a silhueta de alguém aparentemente feminina, quase mulher.

Assim que ouviu o som das engrenagens  do elevador em movimento, ja na posse da paz  e de sua consciência,  sentiu-se ridículo . Circunspecto teve vontade de estapear-se - "  Oh Deus! por que somos tão imperfeitos?" - Reclamou.
O inconformismo cedeu à princípio ao sorriso desenxabido, depois um outro mais estranho, indecifrável, talvez quase que insano.
Surpreso, não soube confirmar para si se seria aquela a sua primeira e única vez com esse tipo de gente.

Copirraiti 2007Ago
Véio China®

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Contos e Crônicas postados no Bar do Escritor part.II


DELIRIUM TREMENS

Ele estava doído. Seria a solidão?
Doía ao sentir-se irritado com a própria presença. Ela lhe machucava mesmo na rua quando pouco importava, se era noite ou dia. Percebia-se na própria dor ao conversar no telefone por insistência dela, justo ela, que tanto amara e hoje nada mais representava que o desalento em palavras, morto em transmissões via satélite e sepulto nos fios do seu viva-voz. Afinal, o que exatamente lhe incomodava?? Perturbava-o a sensação de haver falhado em algum lugar. Incomodava-o o fato de não ter conseguido causar ou manter qualquer interesse que fosse. Doía se ver dilacerado, sentir-se por si enganado. Feria-se ao vestir da falsa fé e ainda crer que poderia surgir fatos bons, todos por acontecer. Sangrava porque não sabia a fórmula e, não havia nada que o fizesse voltar a sorrir. Foram tantas as coisas que imaginou. Foram tantos os sonhos que, hoje, havia até o medo de sonhar. E quanto as ilusões? Foram exaustivas e todas haveriam de vingar mas, no fim um blefe e tudo se perderia em devaneios, inconsistentes, tal qual o ar passar por entre os vãos dos dedos. Era preciso manter os pés nos chão e qua jamais deveria permitir que os desvarios sobrepusessem-se aos fatos e, fundamentalmente, da forma que eles eram. Fórmulas mágicas? Para ele existia uma única; a bebida. E com ela, ele bebia a vida, tragava a realidade , nua, crua e sem ilusão. Era necessário beber para se manter na lucidez. E o pleno estágio da verdade se dava ao sentir-me embriagado. . E assim, a boca mole, silabando “SSSSSS”, em frases babadas no balcão, endireitava até o chão se lhe parecesse torto mas, era o efeito o poder da bebida que o tornava suficientemente forte pra questionar de si o seu conflito mediante a vida.. Então perguntava por que a vida o dilacerava.
Por que ela insistia em zombar de si. Quais os motivos ele lhe dera para que fosse transformado no mais vil e indiferente dos humanos. Não lhe havia qualquer traço de afeição, nem mesmo com o pai, a mãe ou qualquer parente. Não havia em si a menor sensibilidade que o fizesse discernir a beleza duma flor e o alívio do espírito no regalo do amor. E por que os momentos de incerteza o faziam confiar menos em Deus e mais no diabo?
Ele não sabia de todos esses por quês Ele só sabia que enquanto sóbrio não vivia. Só sabia que bêbado, ignorado no mundo, jogado num canto num monólogo absurdo e insano ele não sofria. Não havia a parte física da dor, já que era a alma que lhe doía.
E então, sabendo de tudo isso, cada vez mais, ele bebia.


AOS MENINOS DOS ANOS 60...UMA HOMENAGEM

Eu queria as suas "minas", ter aquelas "bekas", vestir suas "Levis" e seus sapatos da "Cougar". Eu queria os seus fuscas, as putarias nas madrugas, queria estar no Arouche passando a mão nas bundas das safadas. Eu queria as estaturas dos grandes, ser os seus corpos em movimentos, fazendo amor com uma gostosa, tão inacessível ali, num banco reclinável do carro estacionado no drive-in do bairro. Eu queria ter as penugens no rosto , queria estar no Aurora, primeira fila, assobiando, pênis ereto ali, diante dos streapteases das bundas mal feitas e dos peitos de fora. Eu só queria ter a grana pros "catecismos" a cada quatro semanas. Eu queria, ser o garoto prodígio, tipo de "Robin", queria ser o escolhido pela garota do rosto mais bonito, nas noites de carnaval do meu time favorito. O que eu queria era me sentir um deles. Eu queria estar na "crista da onda", tomar o guaraná do "Teobaldo" com o uisque Red Label. Eu queria "muita coisa", queria ser de Liverpol mas, não podendo, ao menos, ser tal qual o Lennon, correndo dos gritos das gurias e, se pego, agradecer num inglês de jogadas, carregado nas gírias. Ah, como eu queria. E eu queria tanto, queria o mundo e a porra da idade não me deixava. Eu tinha apenas treze anos.




Contos e Crônicas postados no Bar do Escritor part.I


INTROSPECÇÃO

Talves a natureza aguarde algum momento propício. Talvez, aguarde que o amor esmoreça, que a lágrima não role e que os sentimentos nos abandonem.
Talvez ainda veja em nós algo de amor e alguma solidariedade nas sensíveis lágrimas roladas nas faces dos emotivos. E quando esse dia chegar o sol e a lua se aperceberão. Ele, a sorrir um riso triste, morno, inerte, quase que sem vida. Ela, nostálgica, melancolicamente refletida como a lágrima de mulher.
E, se assim for, talvez ao se encontrarem, sol e lua resultem em fenômenos, sei lá, daqueles que torne insano o mercúrio dos termômetros ou, que derreta em segundos todo o gelo dos aceanos glaciais. Talvez, permanecemos aqui porque os sentimentos ainda não se foram por completos e, as lágrimas, por hora, ainda descem em faces emocionadas. Talvez, e só por isso, que ela, a natureza ainda nos dê um pouco mais de tempo.
E, talvez, quando nada mais houver pra ser vivido, quando de nós tudo houver partido, eles, sol e lua se unirão num mútuo e doloroso abraço e, ali, no riso o triste e de escárnio, no ato irônico e lamentável irão nos proporcionar o fim. E então nada mais haverá que possamos fazer e, nem mesmo nos será permitido agraciar a grandeza desse momento. Ele será magnífico, devassador, eclodido na mais deslumbrante pororoca sideral.





A FOTOGRAFIA

Sempre o mesmo cenário. Noite chuvosa, raios e trovoadas.
Num cômodo de cortiço, ele bebia. A feição sombria e o olhar de gelo não deixavam transparecer qualquer emoção naquele sujeito. Talvez fosse o seu olhar mais gelado que a estúpida cerveja que emborcava. Fitava fotografias de mulheres, fixadas atrás da única porta. Curiosamente, todas as fotos eram de mulheres grávidas. Eram sete fotografias, todas presas por taxinhas. Das sete, cinco estavam assinaladas com um imenso "X". Ele detinha-se na sexta e achava bonita aquela garota loira, talvez 25 ou 26 anos, o seu serviço de logo mais. Retirou-a meticulosamente da porta, e com o necessário cuidado para não lhe rasgar o papel. Com o dedo indicador contornou sutilmente o rosto de um sorriso meigo e acariciou os cabelos aloirados para em seguida fixá-la no mesmo lugar.
Tinha que certificar-se que que não haveria a menor condição de algo dar errado. Pousou os olhos na mesinha de cabeceira e lá, acima do tampo repousava uma kodac, dessas baratas, descartáveis. Desprezou-a, já que não precisaria dela por hora.
Ao seu lado se encontrava a navalha, essa sim, necessária. Foi até lá, pegou-a e colocou a lâmina no bolso dianteiro da calça. Caminhou até a cadeira e do encosto retirou a jaqueta e, antes que saísse fixou-se na sétima foto. Ela se dispunha um pouco distante das outras. A princípio olhou-a com indiferença. Os segundos, nervosamente passaram e então a surpresa; Do rosto gélido rolou a lágrima.
Foi única. Uma lágrima de dor, de dilaceração. Pegou-se piegas ao estar chorando, ali, diante de um pedaço de papel. Sim, papel e não foto. Nele, não havia qualquer fotografia e, apenas algumas letras mal grafadas e com a falta do til, onde se lia; MAMAE. Vestiu a jaqueta e saiu. Julgava ser mais um serviço necessário e que por ele deveria ser feito. Nunca existiu uma mãe pra si, então, justo não era que houvesse para outros. Estar vivo, pra ele, nada representava.
E, na posse da plena loucura se lamentou de não ter tido pra si, um igual a ele.


3054. O VÔO DA MORTE

3054; três, zero, cinco, quatro.
Não, não foi o prêmio de milhar.
Foi o número de um vôo, da Tam. Foi mais um descaso dos que acham que não há a obrigatoriedade de vidas a se manter. Pra que? Besteira! São seres humanos Dá nojo do descaso com o qual somos tratados. Afinal, que nós somos além de seres humanos? Foram 186 de vidas assassinadas. Vidas ceifadas pelas irresponsabilidades das autoridades competentes. Competentes? Isso sim é uma piada! Talvez o mais triste não é o saber que se morreu (se é que há como saber)
E às vezes morremos por nossa conta e riscos. Morremos pelo desgaste dos nossos corpos ou dos muitos anos. É obvio. E, se aqui estamos, sabemos aqui é para morrer. Então, o problema não é esse. O infame, nesse caso, foi ter partido sem saber, sem ter ao menos a chance e de se bater o dedo no sinto de segurança. Se foi a pista, a drenagem, a imperícia, o comando aéreo ou outro qualquer órgão que e tenha um mínimo de responsabilidade, foda-se! Gostaríamos de saber, se é que aparecerá o responsável (nunca o governo exerce qualquer culpa). No fim, e após uns bons anos de desgaste, fazem um acordo indenizatório e fica “tudo como dantes no quartel de Abranches” Isso é muito triste e injusto. Eu só sei que se foram quase duzentas vidas. Bobagem! O que eram eles?
Sómente seres humanos. Pra que se preocupar?
Sei lá, porra!

domingo, 22 de julho de 2007

Loucos felinos.


As coisas, pra ele não estavam boas. Dado Gutierrez, o pseudônimo de Gustavo, um escritor não publicado, rejeitado por editores, frustrado por receber sucessivas negativas dos contos que incansavelmente enviava pelo Correios. Algo não andava bem dentro de si e talvez as suas estórias revelassem a viciada ótica que dissecava o mundo. Invariavelmente seus textos falavam das desgraças e misérias afeitas ao ser. Eram contos que privilegiavam o desamor ao amor, desagregados de qualquer bom sentimento humano. E, da sua mente nada fluia que não fossem os assassinatos, coisas desesperançadas, chegadas ao fundo do poço e que tinham a morte como companheira. Estava se sentindo um quase morto-vivo. Disperso, jogado no sofa, emborcava seus vinhos ordinário, e com o olhar cravado no nada deixava-se flutuar nas lembranças e, então se pegava questionando o que fizera da sua vida. Onde estava a coragem da juventude? Onde estava a época que encarava com altivez os desafios que a vidalhe impunha? Ele não sabia. Sabia da angústia dentro si, talvez a falta de alguém que o fizesse deixar de sentir-se daquele jeito. Mas quem seria o alguém? Onde estaria? Há muito já desistira de procurar, e não mais haviam os anseios e ilusões que o motivaram na juventude. A frivolidade imperava em seus relacionamentos e, tudo lhe paraceia tão falso. E assim, solitário, fizera do mundo virtual a sua única arma, a legítima defesa diante das hipocrisias de um mundo real e ferino. Plea virtualidade transitava em comunidades literárias, procurando algum reconhecimento naquilo que se julgava injustiçado, como se as pessoas pudessem vislumbrar o brilhantismo dos seus contos, coisa que os insensíveis editores não conseguiam assimilar. Uma cambada de idiotas!pensou.
Mas, Injustiçado? Como? Sabia que se apegava aos seus enganos já que nada de interessante conseguia criar e, os leitores não se satisfaziam com contos que insistiam em re tratar a vida como uma desgraça respirada, suspirada pelos miseráveis do submundo, danca perfeita de perdidas alegrias.E assim, desesperançado, fugido da realidade tal qual um bandido descuidado, só se apercebia que no mundo virtual os relacionamentos se davam fortuitos, gélidos, insinceros. Sem saída, se via abandonado pelas idéias e desprezado por uma boa estória que insistia em não lhe vir na mente, que o fizesse conhecido. Em sonhos, agora, meros pesadelos, se via dedicando livros em noite de autógrafos, sentindo os tapinhas da bajulação a lhe acariciar as costas. Delírios!
Ansioso, procurava desvincular-se do escritor fracassado que era e, então começou a frequentar as salas de bate-papo. Quem sabe não encontrasse ali alguém que pudesse ver nele algo mais do que um escritor sem talento? Quem sabe se não pudessem vê-lo que não um peso morto? Seria bom que lhes percebessem o sujeito legal e sensível que era, exímio construtor de frases de efeito, ledor das sensibilidades carregadas na alma. Saberia sair-se bem?
Ah, sim! E ele haveria de prová-lo.

Para ela, a vida também não se mostrava maravilhosa. Nanda, assim lhe chamavam carinhosamente seus amigos e parentes. Amanda, nome de nascença, era uma mulher bonita, mãe de um de adolescente e que já passara por maus pedaços nesta vida. Separada há anos, ainda não conhecera um verdadeiro amor. Na juventude, poucos relacionamentos, aliás, dois, já que, filha de pais severos nada logrou que senão namoros vigiado pelos olhos atentos dos pais, no casto sofá da sala, . Criada numa época de conservadorismos e conservadores, saiu de casa para ir pro altar com o segundo namorado por quem se julgou apaixonada . E era isso que ela vasculhava na memória, ali, sentada na cadeira da sala de reuniões da escola do município. Acabara de sair exausta de uma aula onde os alunos lhe deram trabalho. Pacienciosa, procurava cativá-los e, mesmo que não o conseguisse por completo ritimava suas aulas de forma que não atrapalhasse o planejamento diário. Suspirou longamente, levantou-se e encaminhou até a pequena geladeira adormecida num canto da sala e de lá retirou a jarra do chá-mate.Adorava o chá. Ah! se a vida pudesse ser tão saborosa quanto o delicioso líquido negro. Tentava ser feliz e o era em parte. Imprimia ao dia-a-dia a mesma filosofia traçada para enfrentar aqueles garotos difíceis. Nunca fora de procurar qualquer relacionamento afetivo e, muito menos rodar por bares da moda a cata de alguém, mesmo que interessante. Convites, claro, nunca lhe faltou e eram comuns já que suas amigas, insistentes, ligavam convidando-a para algum programa. Por vezes se pegou aceitando-os, afinal, um pouco de divertimento jamais lhe faria mal. E, nestas ocasiões não ficava a mercê das vontades das amigas e ia com o seu carro e, assim poderia retornar quando quisesse, caso a noite não lhe parecesse interessante. Fizera isso algumas vezes e, chegado em casa, sentia o vazio na procura do nada, já que nunca se acostumara com os relacionamentos boêmios e sempre desconfiada dos homens que faziam da noite a sua forma de vida. Portanto, imune, preferia retornar e ficar em casa, ao lado do filho onde, invariavelmente o encontrava jogando no computador
- Mãe! Acabei de usar o pc, quer entrar na net? – Perguntou Paulo, numa dessas noites.
- Sim filho, vou entrar! – E assim adentrou na cotidiana virtualidade da costumeira sala de bate-papo.

(22:30:24) – N@nda entra na sala :
(22:31:08) - N@nda fala para todos : Boa noite, gente!

Naquela sala fizera muitas amizades e, onde, inclusive, teve um breve relacionamento virtual mas, como a virtualidade nunca se fazia real, não prosperou.
Entrava ali para conversar, se divertir com os amigos e com as brincadeiras que se davam por lá. Igualmente, ficava atenta à leitura da sala e, perspicaz que era, reparava em toda sua movimentação, sabendo desta forma o que estava se passando por lá. Em retribuição, foi cumprimentada por todos, conforme reza a cordialidade virtual.
Naquele momento um nick entrava na sala e ela, por motivos que não sabia, se sentiu atraida.

(22:35:19) - D@do entra na sala :

Dado era quem a atraia. Ele, assim que antrou, por curiosidade percorreu a lista de nicks dos que lá estavam. Haviam muitos; Larissa, Boneca de Pano, Amor (M), MorangoDoNorte, Loba Faminta, Perdidonacidade, dentre tantos outros. Olhou novamente e achou curioso aquele “@” do nick da N@nda. Coincidentemente o seu "@" era a segunda letra. Inexplicavelmente uma sensação gostosa e agradável lhe invadiu. Fixou-se no nick por mais alguns instantes e então se decidiu:

(22:40:10) - D@do (reservadamente) sorri para N@nda : Oi! Tudo bem?

Haveria resposta?

(22:40:40) - N@nda (reservadamente) fala para D@do : Tudo bem, e com você?

Daquele momento em diante algo mágico acontecera. Naquela mesma noite conversaram por horas a fio e sem que ninguém os lesse. Foi um diálogo gostoso, agradável e a ponto de se verem pegos em afinidades, sincronicidades; diriam os mais intelectualizados.
A partir daí começaram a se relacionar. À princípio, uma relação de amizade e, com o passar dos dias algo mais forte. Por interesse e necessidade trocaram os seus MSN. E lá, naquele íntimo meio de comunicação se conheceram a valer. Lá, falaram de si, de suas angustias, tristezas e expectativas. Falaram de suas famílias, desilusões e esperanças. Viram-se através de imagens, falaram por meio de microfones e a intimidade, cada vez mais tornava-se inevitável. Percebiam-se nas reações um do outro e, entaõ, finalmente, fizeram amor virtual. Inicialmente as palavras soaram tímidas, depois, viscerais, possessivas, dessas que fogem à compreensão de quem não tem por hábito frequentar a internet. Lá, eles praticaram todas as formas a virtualidade do amor. Se excitavam ao ouvirem suas vozes, sussurros e as expressões de um linguajar erótico, sem rodeios, sem constrangimentos.Era uma sensação deliciosa e tudo lhes parecia tão real, como estivessem possuindo e se deixando possuir, completos e sem qualquer pudor. E o sentimento fortalecia-se e tão latente era o carinho de intensa a cumplicidade, como se pudessem os toques e os sons de suas vozes vestirem a louca fantasia da realidade, perdidos naquele oceano de sensações. Lá , eles se amavam com fúria, aflorarados em seus desejos, e devaneios. Em Nanda, a libido exacerbava e fazia dela, mesmo que virtual, a felina qu no cio, uma navalha afiada, cortante, retalhando o invólucro e deixando transparecer o belo, o romântico, o sensual. Lá, eles se possuíram, se tocaram, doaram suas essências em líquidos de tantas noites, deliciados em prazeres, ouvidos nos sussurros, extasiados em gozos. E era tanta a expectativa e a inabalável sensação de felicidade que lhes foi impossível protelar o encontro.

Quarta-feira, 20 horas, combinaram ambos. No dia e hora acertados, o encantamento de dois seres se encontraram. Foram momentos mágicos e, nem importava qualquer dessemelhança que não correspondesse às imagens que cada um havia para si, isso já não fazia qualquer diferença. Foi inevitável o render-se ao deslumbramento dos olhares, de perceber o mesmo timbre na voz, o aroma da pele e o doce dos lábios.
E foi assim, naquele bar. Cúmplices em olhares, tomavam os seus drinks e sorriram todos os sorrisos que haviam para sorrir. Sentiam-se dois adolescentes apaixonados. Ali, sentados em cadeiras de bar , suavemente acariciando as mãos úmidas e ansiosas foi que vislumbraram a real possibilidade de terem sido feitos um para o outro. Certeza? Não havia a certeza de nada e era apenas a infinita vontade para que tudo desse certo.
E então, perdido no sensível beijo de mulher ele percebeu que as coisas poderiam ser diferentes para si. O sorriso brotava de sua alma. Era a nova possibilidade, mais que real, de se desfazer dos insucessos, dos fracassos, tal era a sensação que emanava daquele ser tão meigo, tão feminino e irremediavelmente doce.

domingo, 8 de julho de 2007

Avô e neto......francamente.


- Vovô! Por que minha mãe nunca está aqui? Perguntou ao senhor Duílio. Ele, 63 anos, sentado num espreguiçadeira, enrolava o cigarro de palha, de fumo-de-corda, hábito adquirido ainda nos tempos de roça. Em que pese toda a riqueza acumulada com os grãos de soja, obtida através de muita obstinação, era o seu Duílio, uma pessoa humilde, carinhosa e de nenhuma afetação. Pensou por alguns instantes na questão do neto:
- Sabe Felipinho. Sua mãe é uma mulher sonhadora, daquelas que acham a vida do mundo mais interessante que a vida em família. – Atento, percebia a curiosidade do pequeno Felipe, quase 11 anos de idade que o olhava fixamente por sobre “O Pequeno Príncipe” que portava entre as mãos.
- Vô! O que quer dizer “TORNAR-SE RESPONSÁVEL POR TUDO AQUILO QUE CATIVAS” - questionou o pequeno ao ler naquele momento a passagem no livro. O avô parou de enrolar o cigarro, pensou por alguns segundos e respondeu:
- Felipinho, quando você conquista uma pessoa, um mérito ou até mesmo a amizade de um animal, significa que deverá ser responsável pelo que conquistou. Terá a responsabilidade de tratá-los bem, com respeito e muito carinho.
- Ah, vô! Entendi! Por exemplo.. Estou “namorando” a Angélica e isso significa dizer que sempre serei responsável por ela, é Isso? – disse, arregalando os olhos O seu Duílio sorriu e meditou sobre a profundidade da argumentação do neto, afinal, o garoto era esperto, mas, levava ao pé da letra o que ouvira dele. Tentou rmediar a situação.
- Felipinho! Definitivamente, as mulheres não se incluem nesse entendimento, portanto, não fazem parte desta regra. - O garoto ficou a olhá-lo e a dúvida não abandonara o seu rostinho já que, a resposta do avô o deixará sem qualquer base de entendimento. O avô, percebendo que lhe causara mais dúvidas, tentou explicá-lo de uma maneira que Felipe pudesse entender.
-Felipinho, o que eu quis dizer é que, por mais que tentemos conquistar uma mulher, por mais que sejamos carinhosos, atenciosos e lhes causemos o bem estar, por mais que façamos isso, na verdade, ela nunca nos entenderá e procurará de alguma forma ou de outra levar algum tipo de vantagem.
O garoto a tudo ouvia mas, ao contrário do que supunha o avô, isso lhe trouxera mais dúvidas do que novas explicações. Nesse meio tempo soou a campainha. Era o advogado do senhor Duílio que fora em sua casa para colocá-lo a par dos últimos acontecimentos. Encaminharam-no exatamente onde se encontravam o velho e a criança. Vencido o jardim, o advogado encontrou o seu cliente, deliciosamente espreguiçado na piscina. Ao percebê-lo, o senhor Duílio cordialmente se levantou. Cabelos grisalhos, corpo ainda razoavelmente bem conservado, além da velha e boa classe.
- Quais são as novas, doutor Carlos? – educadamente se reportou. - O advogado, com ares de preocupação, retirou da maleta executiva o calhamaço de papéis e então, depois de acomodado noutra espreguiçadeira, deslanchou:
- A Martha, sua ex-esposa reivindica uma pensão mensal de R$ 15.000,00 e quer para si um outro imóvel, exatamente o apartamento do Guarujá, já que, segundo ela, o foi adquirido na união estável, portanto, fora do alcance da “separação parcial de bens”
-Aquela garota, a Dione, nos procurou. Disse que não lhe disse já que ficou com medo da reação do senhor mas, garante que há um filho dentro de si e, que esse filho é seu. Nos fez uma proposta: antes do DNA aceita uma pensão mensal de R$ 18.000,00 e abre mão de todo o resto. Agora...Se for necessário o DNA..Aí diz que o assunto será tratado de outra forma....
- Déborah, sua filha, mãe do Felipe, está em Londres e novamente solicita dinheiro para a sua manutenção. Exatamente 50.000 euros - Tudo relatado, aguardava as instruções do seu cliente.
O senhor Duílio ouvira com atenção as explanações do advogado e então rebuscou na memória.
Martha. Conhecera essa mulher havia dois anos. Era prostituta. Lembrou-se da noite chuvosa e do ponto que fazia na República do Líbano. Estacionado o veículo, Marta dirigiu-se a ele, amparando os cotovelos na janela do passageiro. O rosto bonito, o corpo perfeito dos seus 24 anos e a maciez da voz de quem sabia que ali estava um figurão. Encharcada, mostrou-se tão frágil e próxima que, as suas carências, seriam a partir dali, divididas. Daí a estar dentro da sua casa dando ordens aos empregados fora um pulinho. Estabilidade conseguida, havia deixado de existir a prostituta. Em seu lugar surgira alguém que em roupas caríssimas e de grife, trepava descaradamente com os melhores amigos de Duílio.
Dione: uma menina linda, talvez uns 22 anos, vinda do sul e que se candidatara ao posto de camareira em sua casa. Foi nervosa para a entrevista já que encontrava-se em situação difícil, morando de favor numa kit de uma amiga, incomodada com a sua presença. Dona de incríveis olhos azuis, de um rabo fenomenal e do exótico sotaque gaúcho, supria em parte e de forma satisfatória as habituais “escapadas” de Dona Marta. Foi demitida por esta ao ser surpreendida furtando-lhe uma de suas jóias.
Déborah: sua filha, mãe de Felipe, uma porra louca, sempre envolvida com os homens da pior espécie, rodava o mundo incessantemente e sempre, profundamente se sentindo infeliz. Portadora de revolta incontida, cujos os motivos jamais os foram sabidos, tivera Felipe com alguém que nem ela sabia quem. O instinto impudico havia se manifestado desde o tempo que a falecida mãe ainda gozava de saúde. De todos, era ela o caso que mais o amargura.
Saído do transe, voltou-se para o doutor e lhe passou as instruções necessárias.
O pequeno observava-os e acompanhou com o olhar a saída do advogado jardim afora.
Novamente a sós, avô e neto, Felipe, outra vez o olhou por sobre o Pequeno Príncipe;
- Vovô! entendi agora. Pelo jeito, o senhor tem cativado coisas em demasia! - E abriu um sorriso com um que de malicioso. Aquilo fez o velho Duílio rir. A princípio discreto, depois, entrondoso. O velho soluçava de tanto gargalhar e a sua barriga doia de tanto ir e vir quando o pequeno ouviu a resposta esganiçada:
-Ô!

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Porfírio num dia de Satanás.


Acordei desconfortável e sentindo  totalmente gélida a parte posterior do meu corpo. Abri os olhos e surpreendi-me ao me ver deitado sobre uma espécie de lápide de mármore. Assustado,  levantei rapidamente. Assim que me vi de pé olhei para mim e eu estava completamente nu. - Mas que porcaria era aquela? - Desconsertado, eu não sabia explicar que diabos poderia estar fazendo num lugar daqueles, ainda mais com o corpo tilintando naquela vastidão alva. Repentinamente ouço um ranger de porta  e um homenzinho de  cabelos ralos e barba branca surge por ela. Óbvio,  não era o Papai Noel.

- Ah! Estou vendo que acordou! – Exclamou ao inspecionar-me de cima abaixo. Todavia, carregava no semblante uma doçura que há muito eu não percebia na humanidade.
.
Achei-o curioso. Era baixo, talvez um pouco mais de metro e meio e vestia uma túnica tão alva quanto o resto,  e isso me incomodava os olhos. A surpresa  o desconserto e a perplexidade não cederam, portanto nada fizeram para que eu  compreendesse aquele lugar de tonalidade tão clara quanto os flocos de neve.

- Venha! – Pediu-me gentilmente e se pôs a caminhar. Segui-o, já que instinto prevenia-me pra não perdê-lo de vista.

Indo em frente ultrapassando portas e mais portas demos num corredor que de um lado ao o outro se estendia interminável sem que  pudéssemos precisar o fim. O velhinho caminhava adiante e eu não pude deixar de reparar nos seus passos curtos que se separavam um do outro por uma distância ínfima. Portanto, como nada havia a ser feito, salvo andar, lá fomos nós; qual seria o significado de seguir o homenzinho? E por que eu estava nu? E sobre a situação?
Bem, quanto à situação, ela começava a me perturbar:

- Senhor, não leve a mal, mas poderia dizer o que está  havendo?- Ele estancou o passo chinês, olhou-me firmemente, e perguntou

- Meu filho! Ainda não percebestes?

- Perceber o que?  Fora o fato de estar nu e perseguindo o senhor por todos os cantos, o que mais deveria perceber?  -  Refutei e ele me interrompe:

-Ora, que falta de percepção, meu filho. Tu estás no paraíso!

- Paraíso? Como assim?- Questionei surpreso. Aquele sujeito só poderia estar maluco,  drogado ou coisa que o valha.

-Deve estar pensando que estou doido ou drogado, não é meu filho? - Perguntou-me com bondade. O velhinho parecia ser bom naquele negócio de ler mentes.

Bem, adivinho ou não, eu estava inquieto. Ele percebeu a minha aflição e,  tentando apaziguar  o meu espírito alargou o seu melhor sorriso e explicou o básico daquilo que eu necessitava saber. Disse-me  que eu havia morrido num acidente de automóvel. Para que entendesse perfeitamente avançou a mão direita por cima da esquerda, numa simulação do atropelamento.

-  Foi assim?  Um automóvel? -  Insisti fazendo os mesmos  movimentos das suas mãos. Meu Deus! Eu só podia estar sendo alvo de pesadelo, tal o absurdo daquilo -  Concluí por instantes -

-Sim, não é absurdo, meu filho. É tão real quanto não estar acometido de pesadelo. Simplesmente faleceu ao ser atropelado por um desses sujeitos desajustados e que fazem do carro a arma da morte – Ele discorre docemente. Eu o olho perplexo, aturdido.

- Pretendes que eu seja mais detalhista? - Ele crê que ainda não me dava por convencido.

-Sim, claro! - Repliquei  - Apesar das esquisitices do sujeito, eu achava que todo indivíduo tinha o direito de saber como e porque bateu as botas.

-Você foi atropelado pelo Manoel Calazans, um chofer de praça que dirigia  um taxi tão branco quanto a cor desse ambiente de glorificação - Finalizou levantando os braços para os céus.

Olhei para ele. Os mesmos olhos piedosos continuavam ali testemunhando uma conversa sem pé e  nem cabeça. Imaginem? Eu morto e  nu, e ainda por cima  dando ouvidos para um matusquela  saído do meio daquela alvura toda?   O problema é que não me recordava de tudo.
O diálogo, fora de lugar, fez-me tentar recordar outros dos meus passos  e a ultima coisa que relembro foi de estarem numa faixa de pedestre la pelas duas da madrugada. Recordo-me também que tinha saído dum bar onde que estivera com amigos. Talvez por lá e sem que eu percebesse me tornei refém dalgum delírio causado por substância alucinógena, misturada à bebida  por aqueles paspalhos. Eu não sabia, apenas e como de hábito eu havia bebido o suficiente para estar trôpego e solitário atravessando a maldita faixa.
Bem... e depois? Depois... Estranhamente,  não me recordava do baque e nem do atropelamento.
Eu pensava nessas tantas coisas, e Paulo,  ao me flagrar reflexivo finaliza a conversa.

- Então, meu filho! Foi exatamente assim que ocorreu.  E você só se recorda parcialmente em virtude do imprevisível do acidente. Talvez se ele estivesse em  velocidade em menor haveria alguma chance pra você - Obviamente concluiu com a mão saltando uma por sobre a outra.

Por Deus! Era assim? Simplesmente morrer e boa?
Quem era aquele filha da puta que me atropelou? E o velho, como poderia saber de tantos detalhes? Merda! - Exclamei - Aquela conversa sobre o paraíso a contragosto começava a fazer algum sentido.
Assim que me notou um tanto conformado virou-se  e retomou o caminho Surpreendentemente os passos apesar de ainda curtos tornaram-se rápidos, obrigando-me a correr atrás. E, quanto mais os seus passos se apressavam mais as minhas doloridas pernas achavam a situação tanto verossímil.

Seguindo, entramos num portal onde um imensurável e maravilhoso jardim abriu-se à nossa frente. Nele  todas as espécies de flores e plantas se dispunham milimetricamente e os seus aromas exalavam cheiros doces e esses contribuíam pra quela perene sensação de paz. Aquilo me intrigava ao mesmo tempo que notava milhares de pessoas transitando pelos jardins percebia que não havia um único homem nu, exceto eu. Dobrávamos a esquerda numa das alamedas quando  repentinamente, saído detrás de um jasmineiro surgiu um segundo homenzinho de barba branca. Achei-o curioso,já que suas feições me remetiam ao outro apesar da sua estatura pouco maior e barba mais rala.  O ancião estacionou à nossa frente e igualmente inspecionou-me. Depois de algumas olhadelas voltou-se para o meu anfitrião e perguntou:

- Paulo, esse é aquele  rapaz que foi atropelado no semáforo de esquina daquele antro de prostituição?

- Sim, Pedro, na Rua Augusta, é  ele mesmo. -  Confirmou para o colega. Os olhos  de ambos cintilavam compreensão.

Olhamo-nos os três. Caraca! Até esse sabia onde eu atravessara  a maldita  faixa de pedestres?
Bem... - Pensei  comigo -  Menos mal, ao  menos já lhes conheço os nomes;  Pedro e Paulo -
Opa! Pedro e Paulo... Paulo e Pedro? Mas, Pedro e Paulo não foram os baluartes da Igreja Católica Apostólica Romana? Caracoles! Sim, eram  eles, em carne e ossos!  Jamais poderia imaginar conhecê-los, ainda mais numa situação dessas. Eles me fitavam amorosos  quando momentaneamente relembrei da minha criação cristã e que martelava os seus nomes em minha mente pecadora.  Porém, naquela época eu achava que Céu e Inferno  fossem meras invenções do catolicismo  A necessidade que a Igreja sempre teve de nos controlar, nem que pra isso nos fizesse acreditar que éramos pecadores por essência, de nascência, malfeitores existenciais que deviam se purificar no sacramento da confissão para assim se tornarem livres do reino de satã,

- Paulo esse é Porfírio, Porfírio esse é Paulo - Apresentações feitas, seguimos caminhando pelas alamedas ajardinadas quando Pedro cochichou com Paulo -

-Já lhe foi dito da entrevista? - Entrevista? Acho que pensaram que não ouvi.

- Entrevista? Mas que entrevista? – Perguntei, desconfiado.

- Calma, Porfírio! Quando for entrevistado há de saber tudo. Porém esse ainda não é esse o momento.

Achei aquilo um tanto confuso.  Afinal, que merda de conversa seria aquela?
Silenciosos, seguimos em frente por um tempo que não sei determinar até darmos na imensidão de outro saguão. Caminhando, demos num portal, talvez do tamanho de um transatlântico contornado por fios de ouro, abrigando no centro, mais alto que um prédio de 10 andares, o cálice e a pomba, esculpidos em Carrara e em alto relevo
Entramos. Logo adiante a imensa mesa onde 10 pessoas se acomodavam. Dispostas sobre o granito travessas de vime se abarrotavam de pães, peixes, e se faziam acompanhar por muitos, muitos jarros de vinho. Com a nossa chegada todos se levantaram em sinal de respeito.

- Desculpem-nos o atraso! – Justificou-se Pedro.

Após um breve sinal e ainda em pé fizeram suas orações agradecendo ao bom Deus pelo alimento concedido. Ao  novo sinal de Pedro sentaram-se.

- Paulo, por favor, apresente o Porfírio para o pessoal - Pedro solicitou.

O tom suave, mas autoritário deixou bem claro que seria o velho Pedro era um dos executivos do paraíso. E mais claro ainda; o bom Paulo, seu secretário particular, assistente de diretoria, ou coisa que o valha.
Prestativo, Paulo  apresentou-me a cada uma daquelas figuras. Seguiram-se João Evangelista, Judas Tadeu, André, Bartolomeu, Matias, Mateus, Simão, Tiago, Tomé e Judas Iscariotes.

Por Deus! Judas Iscariotes? Então era isso? Eu me encontrava sentado á mesa com os 12 apóstolos.

Como visitante tive o privilégio de sentar-me à direita  de Pedro. Ele  acenou  e todos se debruçaram sobre seus pratos para o deguste do almoço.
Perplexo,  a única coisa que me incomodava era o olhar traiçoeiro de Judas Iscariotes  Ele não me olhava nos olhos e sim na direção do meu peito nu onde um cordão banhado á ouro cintilava junto de uma medalhinha de Che Guevara. Havia no olhar dele um brilho estranho, algo covarde e interesseiro daqueles que acham que para tudo há um preço. O resto da refeição ocorreu dentro da normalidade e terminamos tão silenciosos quanto começamos. Em pé, novamente fizeram orações de agradecimento. Terminada a confraternização, Pedro solicitou a Paulo que me conduzisse ao “LOCAL”.

Conduzir-me? Conduzir pra onde e pra que? Ansioso, me tornei inseguro ao perseguir Paulo naquele meio de infinitude alva.  E o pior; um fato  insólito começou tornar a situação incontrolável e nada prazerosa: Pelo jeito Paulo sofria de um mal que expelia em  público, de forma estrondosa, e como se fosse a coisa mais natural desse mundo; Gases - Ele não caminhava 10 passos sem que deixasse de soltar um dos seus. Aquilo começou a me irritar. Foi inevitável, então:

- Seo Paulo,  poderia fazer a gentileza de deixar de soltar  esses desagradáveis gases por algum tempo? - Ele me olhou aturdido, talvez mais decepcionado que aturdido. Provavelmente ninguém se importava com os traques do bom velhinho

- Ora, ora, Porfírio! São apenas gases! Flatulência é algo extremamente natural. É um fator orgânico onde o acúmulo de gases se concentra  na região abdominal. Portanto, é mais que salutar expeli-los antes que se acumulem de forma a nos causar cólicas dolorosíssimas! - Justificou angelicalmente.

Dito, continuou seus passinhos curtos, soltando peidos, causando-me ânsias tal a putrefação aromática. Todavia era muito engraçado  também;  o seu andar o fazia  rebolar as mirradas nádegas
À princípio tentei conter, mas tão hilário que me foi impossível conter a gargalhada.
Novamente Paulo para e me fita. Eram lindos aqueles olhos de um azul tão mágico e pueril que por momentos tive vontade que fossem meus. E o mais insólito; além de magníficos eles pareciam emanar pureza, assim como crianças em aula de catecismo.
Eu estava cansado, destroçado de tanto caminhar um tempo que não sabia quanto. 
Desgraçadamente íamos pra onde?  Eu não sabia. Só tinha o conhecimento que haveria uma entrevista. Momentaneamente viajei e sorri ao imaginar João Batista como âncora dum programa de variedades.  Que besteira!
As pernas ardiam, formigavam tanto que comecei a gemer baixinho; quem sabe o velhinho flatulento se sensibilizasse.  Nada!

Seguimos em frente, não sei se por dias, horas, ou minutos até entramos num infindo jardim. Lá milhões de plantas se misturavam às árvores e se abriam para esplendorosas alamedas. Foi então que ele percebeu que eu arfava exausto. . E foi extenuado nesse paraíso celestial que eu vi a multidão. E eu  olhava surpreso para o vai e vem das pessoas. E elas seguiam  silenciosas, meditativas, olhares perdidos se fixando nas suas sandálias, extraindo do raso toda paz que necessitavam.  E assim permaneciam e não levantavam seus olhares por nada e nem por ninguém.
E eles iam e vinham cruzando-se entre si num emaranhado de túnicas brancas, puras, quando dei uma por uma voz e um som de piano. Apurei os ouvidos; Impossível! Eu era capaz de jurar  que a voz era de Ray Charles. A melodia seguiu suave e eu pude reconhecê-lo na bela  "Geórgia On My Mind”. Num outro instante e mais adiante outra voz;  Reconheço a voz de Sinatra. Com gestos estudados o mafioso galã interpretava a famosíssima "My Away" -

Repentinamente outra voz geme num lugar qualquer. Inacreditável! Era ele!  O rei Elvis Presley  em carne e osso. E ele  se contorcia e o seu topete caia sobre a testa enquanto os suores desciam por suas faces rosadas. Fantástico ver aquele homenzarrão vestido de túnica e galardões além dos botões dourados. Freneticamente ele entoava uma das canções que revolucionaram o nosso tempo - "Thats All Right" – Ele rebola numa dança pra lá de sensual, quase erótica, como se fizesse amor consigo próprio. Surpreendentemente não havia lágrimas e nem histerismos. Não se ouviam gritos, balzaquianas se descabelando, seguranças corpulentos espalhados pelos cantos e nem fãs querendo  despedaçar mais a ele que aos pedaços da sua roupa de artista que seriam guardados como souvenir. Não havia nada, apenas as suas atitudes e a voz soando para a candura dum rebanho sem vida, alegria e tristeza.


- Estas muito cansado, Porfírio? – O velho pergunta.

Diante a minha confirmação ele estica o braço direito e estala o dedo médio ao polegar como se chamando o garçom.  Estarreço-me! Não foram garçons que surgiram, mas sim duas confortáveis poltronas brancas como tudo. Foi inacreditável vê-las descendo de um outro firmamento que nem suporia existir.  Sentamo-nos.  Ao me acomodar o pênis balançou como o badalo de um sino diante dum velho com sorrisinhos sacanas. Era estarrecedor estarmos sentados em meio à turba e tão próxima e submissa  que mais se assemelhava às ovelhas dum pastor.
Continuamos a conversar e pela primeira vez Paulo  tocava-me no ombro. Fitava-me com os seus magníficos olhos quando explicou:

- Porfírio, tenhas a absoluta certeza  que estás aqui porque morreste.  Estás vendo todas essas almas zanzando por aqui e ali?  Pois bem. Elas tiveram seus merecimentos para estarem na casa de Deus. – Eu o escutava aturdido.  Ele continuou:

- Nem mesmo o Elvis não foi unanimidade entre nós. Houve discórdia entre Pai e Filho, cada um com o seu ponto de vista. Jesus não o queria, mas foi voto vencido ante a teimosia do Pai.  Talvez não saiba, mas o Pai é extremamente autoritário, mas, bondoso. Entendes tudo agora? Se estás aqui é para ser entrevistado pelo Senhor. A grande maioria nem passa pela entrevista; Ou vem para cá ou vão direto ao inferno. No seu caso, Deus acredita que só uma conversa poderá resolver.

-Como assim, uma conversa? – Inquiri.

-Aguarde Porfírio! Tenhas calma e verá que tudo será sacramentado – Ele limitou-se dizer

Seria possível aquilo? - Não havia  respostas para as minhas questões. – “Porfírio, - acorde! Acorde, Porfírio” - Disse para mim.  Eu queria acordar daquele horror, levantar e olhar pela janela e saber que mais um dia me esperava, fosse ele de sol ou chuva.  Foi dividido entre o desespero e a sanidade que cravei  as unhas em minhas carnes. Nada! Não senti o tato, nem dor, nem ao menos sangue. Eu estava morto e nada poderia modificar o fato. Persistente, ainda tentava me salvar desse oceano de perplexidades quando fui acometido por visões. Algo parecido com  imagens de um vídeo tape em preto & branco se estacavam nos meus pensamentos quando as cenas do atropelamento foram exibidas em minha mente. Era como se estivesse diante dos meus olhos, como se eu fosse um espectador da minha morte, lugar privilegiado, a primeira fila num cinema imenso. E foi assim que me vi morrer.

Vi e senti o exato momento do baque - Ploft!-  A pancada  violenta que me arremessou a uns de 15 metros de local do choque. Eu pude ver o voo extraordinário, o filete de sangue escorrendo da têmpora esfacelada  ao colidir com o asfalto.  Fora ali e naquele instante que a vida se foi levando-me a alma e o corpo.

- Ok seu Paulo! Ok! Lembrei-me agora. Tudo terminou – Assenti com um gesto de cabeça.

As cenas e o sacramento da minha morte chocaram tanto que tentei desanuviar e livrar-me dos horrores das imagens.

- Seo Paulo, aqui é sempre assim?-

Claro, me reportava a toda àquela gente ordeira, vestida em reluzentes túnicas, silenciosas, zanzando incompreensivelmente de um lado para outro. Antes mesmo de responder novos acordes soam e dessa vez vindos de um homem sentado ao piano. Impossível! - Era a Nona Sinfonia, de Beethoven -  E eu o vi diante dum piano Steinway, branco tal os cabelos. A execução, misto de amor e ódio,  parecia deixá-lo obcecado, e Ludwig martelava o piano com mão lépidas, exímias, um dos grandes gênios da humanidade, ali, absorto, tomado por sua música assim como as nuvens reféns do céu. E foi ali, ouvindo os acordes da obra que pude observar o quanto aquilo aborrecia o velho Paulo, tal o desinteresse; simplesmente ele parecia não se entreter com qualquer daqueles astros.
Não compreendendo a situação tentei argumentar:

- Seu Paulo, o senhor parece não gostar de Beethoven... –

Mais uma vez me fitou na infinitude dos seus olhos azuis e eles pareciam ganhar brilho,  o viço, achados no entusiasmo ao admirar o nada.  Eu o olho fixamente, demoradamente, algo me dizia que lá atrás, num passado de milhares de anos houvera um sujeito revolucionário, resguardada as proporções, um Che Guevara do seu tempo. As contas azuis, agora expressivas faiscavam, cintilavam. O velho Paulo num salto entusiasta pôs-se a falar, falar:

- Que nada, Porfírio, o surdo do Ludwig já era! Eu não aguento esse  sua lengalenga com a Nona Sinfonia. É obsoleto demais, maçante demais, arcaico demais, enfim...

Eu estava perplexo; Como alguém poderia estar diante de um dos maiores gênios da humanidade e sem nisso sentir qualquer prazer? Bem, para não contrariá-lo, não o contestei. O velho parecia uma cachoeira de força, e continua:

-Porfírio, o que você me diz dessa multidão, esse silêncio sepulcro? – Eu não sabia o que falar, não tinha opinião formada. Ele insistia; Se sabia lá há quantos séculos não lhe davam ouvidos?

-E outra Porfírio... Todos esses babacas, Elvis, Charles, Sinatra, são uns verdadeiros malas. Eu to de saco cheio de tudo! Cheio deste lugar de algodões alvos, de Pedro, do mensageiro que lhe sou – “Paulo, faz isso! Paulo faça aquilo” - Definitivamente, to transbordando! – Eu me encontrava surpreso e perplexo com o desabafo, duro, lamentoso. Então ele se achegou bem próximo, e seus olhos, como à procura de espiões, se certificaram que tínhamos privacidade. Certo agora que não podíamos ser escutados, grudou-se de vez e segredou em meu ouvido:

- Porfírio! O que eu mais queria era estar com a turma "lá de baixo". Aqueles garotos sim é que sabem das coisas! Daria tudo por aquelas surubas infernais, aquelas mesas repletas de gente falante, emborcando suas cervejas, curtindo os peitões e os bumbuns empinados daquelas malditas diabas!

Ele se entusiasmava cada vez mais. Para ele parecia não haver qualquer limite, agora:

-Sonho estar lá embaixo, curtir um som com Hendrix, Cobain, Mercuri, Ramone, Lennon, e muitos outros. Eu já não aguento mais as frescuras e estrelismo do Elvis, nem os óculos escuros e a voz pastosa do  xarope do Charles e muito menos o estilo "pego todas"  do Sinatra. Quanto ao outro, Ludwig, “o surdindo” bem, desse eu já falei o que penso.

Eu o olhava aturdido. Não havia qualquer pessoa ou divindade capaz de freá-lo:

-Queria estar lá e esquecer essa minha vida celibatária, e curtir uns becks, transar um mundo vermelho e da cor do blood Mary! Queria sentir as labaredas tosquiando à pele, aquecendo a alma. Queria ser menos santo, sentir o as chamas me consumindo, fazendo o sangue rubro e quente correr nas minhas veias.

Por fim, finalizou deprimido:

-Estou tão enojados dessas coisas tão alvas e reluzentes que ferem meus olhos, dilaceram a minha alma.

Terminado, o olhar mais tinha o brilho, apenas alguma dor, dessas que se perdem, que parecem jamais deixar de doer. Ainda o talho parecia doer quando se levantou lentamente e, com se a existência lhe pesando nas costas outra vez se pôs a caminhar novamente, chamando-me:

- Vamos Porfírio! O HOMEM te aguarda! –

Hesitei, mas o segui. Que mais poderia fazer a não ser seguir o seu mirrado rabo?  - PUM! - Definitivamente  não era o meu dia da sorte; agora soltava gases ainda mais explosivos.
Outra boa caminhada até darmos num local belíssimo. Adentrávamos uma área privativa onde a construção seria digna dos grandes arquitetos e engenheiros do nosso tempo. As portas, revestidas de um material que lembrava  a textura das pérolas com fechaduras de ouro, maciço. O piso poderia ser definido, Carrara, alvo, e nas paredes centenas de pintores imortais.
Lá estavam, Picasso, Van Gogh, Rembrandt. Da Vinci, Monet, Renoir, uma galeria que se destinada aos humanos decorreríamos em algumas centenas de milhões de dólares.
Nos resplandecentes corredores eu via outras obras imortais, de Aleijadinho a Michelangelo. - Deus era refinado -

Meu coração, como seria  de se esperar,  acelerou-se à medida que o grande momento  se aproximou. - Eu ia ter com o Todo Poderoso - Paulo  me introduziu numa ante-sala donde nébulas iguais ao do gelo seco eram emanadas; Eu estava  eu soube na ante sala do dono do paraíso, no quartel general de Deus -  Paulo estanca os passos e me vejo diante algo que jamais poderia imaginar; uma porta de  diamante. O apóstolo deu três batidas e aguardou até que a joia se abrisse. Meu coração escapulia pela boca. – tunc, tunc, tunc - Entramos, foi então que o vi.

E o PAI me pareceu fantasticamente medonho. Duas cabeças saiam do tronco sem que houvesse pescoço. Nelas, seis pares de horríveis olhos alaranjados saltavam daquilo que podíamos imaginar como sendo suas faces. Em apenas uma delas algo que supus um nariz tinha a aparência duma chaminé onde escorria um pegajoso líquido avermelhado. Da sua única boca nada se via a não ser a imensidão negra, um túnel negro e interminável, donde, de forma cíclica, labaredas azuladas eram expelidas. 
Minhas pernas bambeavam e Deus, inteligente, intuitivo, sabia da decepção que me causara.

- E aí? - ELE me pergunta

- Mas, mas, mas,... - Atemorizado eu tentava  expressar-me. Contudo, não conseguia.

ELE me olha tremer como se estivesse em turismo no Alasca.

- Porfírio vou te dar um tempo! - Advertiu-me. Ele não tinha pressa. Enfim, era infinita a sua tranqüilidade, misericórdia, e paciência.

Eu estava diante “do cara". O que diriam os bêbados amigos meus se lhes dissesse que estivera com Deus? Certamente me chamariam de louco.
Eu me pegava apavorado, sim, apavorado! Eu dispunha dos momentos de glória, dos meus 15 minutos de fama. Eu falava com Deus! Com Deus! Entenderam bem? – Eu queria urrar – Todavia um horror imenso evitava que eu fosse longe.
E Deus? Bem... Deus... parecia não estar para brincadeiras:

-E então?  Noto que estás desapontado....  - Ele ruminou numa tonalidade amável. As labaredas azuladas golfavam próximas a mim.

- Mas, mas, mas... - Eu tentava falar algo. Simplesmente eu não consegui ir alem dos “mas” tal era o horror da comoção.

··. E assim  o tempo urgiu e a divindade pareceu esgotar  naqueles  doze olhos, antes alaranjados, agora  arregalados, chicoteando raios ultravioletas. As chamas que desprendiam da sua bocarra totalmente dilatada, já não eram azuis e sim de um rubro escurecido que mais lembravam o fluxo menstrual. E, antes que me desse por achado me senti tremer como estivesse sacudido por um terremoto avassalador das ruas de Los Angeles. E o meu o corpo num estado de convulsão se fez refém da  fúria divina e da voz que  trovou com a força de uns milhões raios:

- Mas, mas, mas, é uma pinoia   Você imaginava que por ser eu o seu Deus, deveria ser bonitinho que nem o Wood Allen? – Hã, como? Wood Allen? Deus tinha um conceito estranhíssimo sobre a beleza. Porém não seria eu o estúpido a contestá-lo naquele momento fúria.

E ele me fazia sentir a sua ira por minha culpa, ou diriam os beatos, por minha máxima culpa. Eu tivera a minha chance e a desperdiçara.  Talvez pela coragem que não tive de tê-lo como um verdadeiro pai a quem se sorri um sorriso que se desprende aos que amamos.  Ah se eu tivesse me feito mais simpático, sensível, eloquente  agora, talvez o destino me fosse melhor. E tudo aquilo que poderia ter sido e não fora mexeu com o ego divino, ou talvez a dor  a dor da rejeição, repúdio que não existiu, e sim o medo, mas que ensejava agora os trovões e raios multicoloridos que rajavam tão próximos que previa o meu próprio fim.
Repentinamente tudo se acalmou e sua voz enérgica e autoritária soa ao ordenar ao apóstolo:

- PAULO!  TIRE  ESSE  RAPAZ  DAQUI  ANTES QUE EU CHUTE  O  SEU  RABO GORDO  PROS QUINTOS  DOS  INFERNOS!  ALIÁS,  PENSANDO BEM, E REDUNDÂNCIAS À PARTE, EU  O  QUERO  NOS  QUINTOS  DOS  INFERNOS!

Paulo estremecia ao pegar no meu braço. Da testa vertiam veios de suores e suas pernas se mantiveram trôpegos  ao sairmos de la.  Ainda assim, ouvimos a última recomendação do TODO PODEROSO;

- E  FECHEM  A  PORRA  DESSA  PORTA!

Eu desprezara a sorte e chutara meu destino. Agora, eu sabia afinal, nada de paraíso ou a glória eterna.  O que aguardava este pobre miserável seria o fogo e o reino de Satã.
A feição desesperada de mim fez o apóstolo perceber o meu desânimo:

- É meu filho! Nada mais há a se fazer.

E então lá fomos nós pela enésima vez, ele na frente, flatulando, agora desvairadamente - “Que Merda!” - Exclamei comigo mesmo.

Seguíamos aqueles intermináveis corredores quando os peixes e vinhos do almoço surtiram efeito no bom Paulo.  Os gases reviravam o seu estômago e os desesperados filamentos despencavam da testa descendo por suas faces, gotejando na alvura do piso. Agora, os sons dos flatos, pavorosos, transfiguravam as feições do seu rosto enquanto suas mãos massageavam o estomago na tentativa de abortar a dor. Os flatos espocavam em barulhos audíveis indicando a possibilidade de diarreia.

- Porfírio!  - Ele chamou-me com aquela expressão cravada no rosto - Vou ali e já volto. Não saia daí! – Ordenou e saiu em disparada para o toilete.

Eu jamais fugiria de lá. Afinal, pra onde iria? Assim que o velho sumiu de minhas vistas pressenti alguém se aproximando por trás. Virei rapidamente e dei de cara com o patife;  Judas Iscariotes!

- Oi! Tudo bem com você?- Ele pergunta dissimulado. Não respondo.

- Estás a fins de se mandar daqui? Eu posso te ensinar o caminho!

- É?  - Perguntei-lhe com desprezo.

Eu não fora com a cara daquele indivíduo, já que a bronca viera desde os tempos de garoto e das aulas de religião. E vê-lo no paraíso me foi surpreendente; Incompreensível, tanto o Pai como o Filho deixarem um traidor daqueles entre eles.

Iscariotes interrompe meus pensamentos e retoma a proposta:

- Pra você eu faço um precinho camarada. Uma pechincha! 30 moedas de prata!

“Que merda!” – Exclamei. Se havia coisa que  não suportava eram os cambistas e traidores. Por tudo que eu havia lido e aprendido, odiava aquele sujeito que sacaneou o filho do Pai.  Ah! Como gostaria de ver aquele miserável arder nos infernos! Aliás, não só eu, mas os católicos de todo o mundo.

- Judas, seu filho duma puta! Se eu tivesse 30 moedas de prata eu não teria bebido naquele boteco fuleiro, e muito menos faria turismo nessa porra de paraíso! Se manda, cara, cai fora!

Naquele exato instante Paulo apontava ao longe voltando da sua defecação.  Judas percebendo que as coisas ficariam ruins para o seu lado, evadiu-se sorrateiramente do local antes de ser pego num flagrante de suborno.  E o miserável se foi, provocante, assobiando “New York, New York”.
Retomada a caminhada andamos algumas horas até chegarmos ao início do meu novo destino; o hall dos elevadores.
 Lá, imensas portas da cor do sangue se sobressaiam num contraste de pavores.  Placas instaladas naquelas paredes alvas não deixavam qualquer margem de dúvida. Nelas poderíamos identificar seus destinos. A da direita, HEAVEN, recebia as almas para a entrevista com Deus. À esquerda, HELL, era para os desgraçados, sentenciados iguais a mim. Paulo me pareceu triste ao pressionar aquela placa. Após o toque ouvimos sons de ferragens em movimento ao mesmo tempo em que estacionava no andar o elevador HEAVEN. Dentro dele pessoas nos olhavam assustadas, talvez sem saberem que haviam morrido. Todos teriam a mesma possibilidade que tive; A entrevista com Deus - “Coitados” - Suspirei.

Era  chegado o instante de despedir-me do bom velhinho de olhos azuis e flatos fétidos.
Ele parecera gostar de mim, e tive a certeza ao sentir o seu abraço  fraterno e carinhoso.

-Garoto de sorte! - Ele disse e me piscou o olho.

Naquele momento tudo me pareceu tão triste.  Era uma sensação de estar perdendo algo que nunca tive. Meus olhos marejaram ao fitar a sua aparência cansada e o corpo mirrado, diminuto. Seus olhos azuis estavam tristes quando me pediu:

- Porfírio! Faça um favor pra esse velho. Diga a toda rapaziada que sempre me amarrei nos lances de suas vidas. Exageraram, é verdade, mas jamais se dobraram ou se comportaram como rebanho de ovelhas dóceis e submissas –

-Sim, eu digo sim, seo Paulo. – Respondi tristemente. Mas ele queria falar mais uma vez antes que eu sumisse pelo elevador que vinha pelo caminho.

-Sabe, Porfírio, são sujeitos iguais a eles que resistem bravamente à estagnação e aos estagnadores. Ah! E diga pra quelas donas gostosas que eu sinto uma tristeza dos infernos em não poder estar em lá embaixo pagando-lhes uns drinks!- Finalizou com um sorriso resignado e triste.

Eu me sentia estranho, sensível. Aquele velho sabia como me tocar.

-Deixa comigo, seo Paulo! -  Garanti com os olhos marejados.

O HELL chegou e a porta abriu. Ao entrar, duas garotas  pareciam me aguardar enquanto o velhinho ajeitava os ralos cabelos e piscava para elas. Elas se entreolharam e apenas gargalharam. E antes que a porta se fechasse selando a minha sina eu o vi dar meia-volta e bater em retirada nos seus passinhos chineses. A porta se fechando pareceu-me o ar faltar pela temperatura que subiu abrasivamente; Meu corpo começava sentir os efeitos daquilo.  Dentro, envoltas em nuvens de fumaças avermelhadas as duas criaturas assumiram aquilo que de fato eram; mulheres-diabas. Libidinosas, donas de  corpos  fenomenais e diabolicamente lindas eu lhes via sair do traseiro horrendas caudas que se afunilaram ao chegarem próximas do chão. Um forte odor de enxofre tomava conta de tudo fazendo-me refém das náuseas, sufocando-me

No teto, luzes negras se acenderam e sob os efeitos estroboscópicos pequenas labaredas que se desprenderam das paredes chamuscando os pelos do meu corpo. Com o odor de pelos queimados eu sentia a força de Satã. As garotas gargalharam insanas aos sons de guitarras vindos do teto e num volume ao ensurdecedor e amplificado que causavam em mim a mesma sensação de estar com ouvidos próximos de uma turbina dum Boeing 747. “Satisfaction” dos Stones  dilacerava-me os tímpanos enquanto os efeitos psicodélicos das luzes transportavam-me de volta para os  pirados e loucos anos 70. As sensuais diabas persistiam roçando em mim, esgueirando como se fossem serpentes da luxúria, emaranhando em minhas carnes, mordiscando meus lábios,  bafejando hálitos abrasivos enquanto os seus rabos estalavam a milímetros do meu corpo. Bastaria a agressão de único deles para que nem inferno houvesse. para mim

E a sandice terminou juntamente ao fim da música e diante a abertura da porta que nos despejou num imensurável túnel.  Saindo,  elas riscavam minhas costas com suas unhas pontiagudas causando-me imensa dor. E seguíamos em frente e elas me empurravam e eu me equilibrava para não ser atingido pelas labaredas desprendidas das paredes.
Não muito longe eu ouvia  gritos e urros pavorosos. Eu adentrara no reino de Satã, sem direito à passagem de volta.  Agora, tomando a minha frente elas se locomoviam rapidamente e eu fazia o possível para acompanhá-las, pois tive medo de perdê-las e ficar-me ali, sozinho tostando qual carne de segunda. Eu percebia  agora que era fração, que era parte da orgia e que eles  beberiam da minha alma e abrasariam o meu corpo.

Novos acordes de guitarras soaram na imensidão rubra e “Won¨t Get Fooled Again” do The Who, fez todos aqueles diabos gargalharem, urrarem, pularem. E eles ensandecidos, copulavam, transavam sem qualquer distinção de sexo, raça e cor. Tinham relações sexuais e gemiam enquanto  labaredas jactavam em seus corpos  à medida que explodiam em orgasmos. Eu me sentia em completo desarrumo e sem fé; Ah, se pelo menos eu soubesse uma oração!
Não mais  me sentia dono das minhas vontades e nem de  mim. Minha alma  fora negociada por bagatela. Repentinamente me tornei iguais a eles e pulei,  urrei até atracar-me com uma daquelas diabas e a penetrar algo incandescente ao som de  “Starway to Heaven” do Led Zeppelein. Eu a estocava forte e os seus olhos faiscavam e da sua boca chamas eram golfadas as chamas e elas tocavam-me o rosto. Eu precisava alcançar o orgasmo para me tornar um deles, um diabo, e acabar com todo aquele meu sofrimento. E eu empurrava o meu membro para dentro do dela e ofegava exaurido ao passo que do meu rosto desprendiam veios de suores que se evaporavam antes de chegarem ao queixo.

Subitamente escureceu e do estrondo surgiram chamas tão descomunais num mesmo tempo em que procurava compreender toda a loucura.
Mais acordes de guitarra e  Blackmore, do  Purple dedilhava os acordes  de “Smoke on the Water”. Os poderosos riffs fizeram a turba de pobres diabos pularem como bestas, injetando ânimo na diaba que proferia palavrões e puxava-me para dentro dela de forma cruel e impiedosa. A sensação era de estar me tornando brasa, porém eu estava a caminho; Era necessário que eu explodisse dentro dela. E o meu corpo ia num vai-e-vem, frenético, lascivo,  e eu estava quase chegando la, mais alguns segundos e eu estava quase chegando...

Trimmmmmm, Trimmmmmmmm, Trimmmmmmmm.

Era o telefone de casa.

- Alô! É o Porfírio?

- Sim, ele mesmo – Respondi de mau humor, sonolento,  virando-me na cama, da direita para a esquerda  para silenciar a histeria do aparelho.

- Porfírio, aqui é o seu senhorio. Estou te ligando para um último aviso; se não pagar o aluguel até segunda considere-se no olho da rua. Ouviu bem? No olho da rua! - Repentinamente o silêncio e o click do telefone sendo desligado sem que eu esboçasse qualquer reação.

Mas que merda! Olhei para mim e meu corpo estava banhado em suor - Aquele miserável tinha que me acordar numa hora daquela? Esbravejei voltando o telefone para a base e me cobrir na tentativa de ferrar no sono novamente. Não consegui.
Com preguiça e deixando os minutos passarem relembrei o excitante pesadelo. Ainda deitado cruzei os dedos por detrás da nuca e me mantive concentrados numa teia de aranha no teto e próxima ao globo de luz. E lá no alto eu percebia sua persistência em tecer os fios que lhes serviam de armadilha e abrigo. Talvez ela estivera trabalhando por algum tempo enquanto eu mantive mergulhado na infâmia daquele pesadelo. Em seguida desviei o olhar e verifiquei o despertador; 7: 30 da manhã duma prometida segunda feira de sol.
Mais uma vez ruminei alguns desaforos para aquele unda de fome que me acordou meia hora antes do necessário. Virei de um lado para o outro e como o sono não vinha encaminhei-me à cozinha  para o preparo dum café. La fora uma nova etapa me esperava. Olhei pela janela acima da pia e os primeiros raios despontavam tímidos. Com um copo de café eu retornava para o quarto quando estaciono  na sala  e insiro no system um CD   do Pink Floyd.  Colocado, a primeira faixa é  "Darkside of the Moon" Após os primeiros acordes volto para o quarto e vou à  janela olhar o sol, as nuvens e o belíssimo azul do firmamento; Iguais aos olhos de Paulo, pensei. Inesperadamente me pego sorrindo; Quem em sã consciência poderia afirmar  que eu não toparia por aí com aquelas diabas vadias? De certo só a morte. A morte e o fato que continuo vivo e que a vida jamais me  daria algo de mãos beijadas. Eu estava farto de saber disso.

Agora me pego circunspecto e o sorriso me abandona – “Cara! Pare de pensar merda! Filosofias baratas jamais foram o seu forte” - Repreendo a mim mesmo. Volto à sala, troco de Cd e coloco um do King Crimson. O som daquela banda estranha e pirada fez-me a viagem de volta  e retorno para as recordações do pesadelo e concentro-me na figura carismática do flatulento Paulo. Foi inevitável  o riso saboroso. Eu já sentia uma ponta de saudade do velhinho e da magia daqueles olhos tão belos quanto o firmamento.

-Ah, seu safado! Como gostaria que você não fosse ilusão proveniente do meu sono! – Exclamo para ele e comigo.

Outra vez volto para a cama e tento dormir. Talvez eu pretendesse retornar ao pesadelo; Mas, creio que jamais conseguiria.
Decorrem alguns minutos e minhas pálpebras pesam e eu sinto suas unhas, como garras, e elas, afiadas  penetram-me nas costas. Mesmo dormindo há tão pouco tenho a sensação que tudo é tão real que sou capaz de sentir a úmida boca de mulher percorrendo-me o lóbulo e sussurrando obscenidades em meus ouvidos.....
La vou eu, novamente.


Copirraiti11Jan2013
Véio China©