terça-feira, 21 de junho de 2011

Uma trepada dos infernos

Acordo sobressaltado numa cama que parece arder em chamas.
Confuso sinto o corpo ferver numa sensação estranha na nítida impressão que a onda de calor inicia nos dedos dos pés e desenfreada sobe até o último fio de cabelo. Abro os olhos e me sinto perdido no tempo e espaço; Quanto será que dormi? Talvez uma hora, pouco menos? - Eu não sabia. Entretanto exceto a temperatura corpórea, tudo parecia estar como antes, inclusive a insônia que me castigava por dias à fio naquela pousada à beira lago, São Joaquim, precisamente no estado de Santa Catarina.
Logo, a onda de calor que me toma é conflitante, afinal, como é possível estar numa cidade onde o clima é demasiadamente gélido para que sinta tal sensação? Não, não há lógica, contra-senso, ainda mais porque,  na praça da matriz, à tarde, ouvi as pessoas comentando que a madrugada faria os termômetros baterem nos quatro negativos. Incomodado reviro-me na cama e procuro o interruptor do pequeno abajur que adormece na mesa de cabeceira. Tateio com a mão e ao encontrá-lo  ligo o botão e vejo surgir uma fraca luz num tom azulado. A opaca claridade apenas me permite ver parte da mobília do pequeno quarto, e ali parece pairar algo de estranho, numa sensação que escorre pelas paredes e transpira tenebrosa, e sem que saiba o porque. Firmo os lhos na direção de cada uma das decorações na estante próxima e noto os contornos de uma peça em especial; um Buda em porcelana que se acomoda impassível no poeiramento da madeira.

Entretanto e sem que vislumbre conclusão percebo que a imagem do Buda me atemoriza. Aliás, o fato não deixa de ser controverso, afinal, a imagem da obesa divindade não foi feita para causar tal medo ou apreensão a quem a olha ou adquire. Portanto, carregando certa dose de culpa esforço-me para rever a impressão que causa, e assim insisto no olhar  enquanto procuro compreender as suas formas arredondas nos seus quase 30 centímetros de altura e outros tantos de diâmetro. Olho daqui, olho de lá e tento encontrar no Buda algo de simpático e que me faça senti-lo acolhedor. No entanto não consigo enxergá-lo com os olhos da aceitação ou da benevolência, e ele persiste me incomodando a ponto de desviar-me e ater o meu olhar no celular que está ao lado do abajur. Pressiono a tecla "On" até surgir um clarão no pequeno visor, e ele escancara as horas em números de tonalidade laranja. Afirmo ainda mais a visão e confirmo que faltam pouco menos de cinco minutos para as três da manhã.

Como corpo ainda flameja desfaço-me dos três insuportáveis cobertores que me cobrem e causam idêntica sensação de estar sendo tostado ao ponto, um frango assado que doura nas máquinas domingueiras colocadas às portas das padarias.
Com algum esforço e com o rosto banhado em suor levanto e vou na direção da janela e noto delicados flocos de neve se prendendo nas partes externas da vidraça. Lá fora paira a propalada madrugada gélida, isenta de lua, e ela parece me convidar  para a vida de um nada de silêncios; E eu topo.
Penso naquele sentimento de paz por alguns momentos, mas mesmo assim sinto perturbado, e minha imaginação escorre pelo meio da escuridão à procura de algo. Ah como gostaria de ouvir uivos de  meia dúzia de lobos famintos e desejosos de carne fresca. E eu, mais osso que carne,  ao lhes ver a quantidade de dentes, fatalmente sentiria o meu nível de adrenalina ir às alturas, mas ao menos estaria vivo, presente, mesmo que as devastadoras arcadas não me julgassem um mortal apetitoso. No entanto não existiam lobos em São Joaquim, mas sim  apenas cães vadios e  friorentos tanto como os milhares de turistas e seus agasalhos coloridos que tomaram a cidade de assalto. Continuo olhando pela vidraça e me disperso no nada, e a nostalgia doma o meu espírito enquanto penso na legião de forasteiros, e concluo que em nada me assemelho a eles, pois não tratam com respeito aquele lugar maravilhoso, assim como não se dão conta do privilégio de estarmos em pleno Brasil e podermos enfrentar um rigoroso inverno ao puro estilo europeu.
Todavia não estamos na França ou Suíça, mas sim em Santa Catarina, e isso se conclui ao andarmos por todos os lados da cidade e notarmos a falta de respeito com os habitantes locais ao espalharem lixos por todos os cantos, invasores apáticos e preguiçosos até para irem a uma lixeira mais próxima com o intuito de se livrarem de suas porcarias.

Porém o protesto anônimo e solitário não detêm  o poder da solução, logo,  me é mais fácil abandonar as questões ambientais para devolver o meu olhar para a estatueta. Balbucio algo como " E então seu Buda, alguma solução?"  para outra vez ele ele se manter calado e nada elucidar.
Entediado e abrasivo abandono o quarto e rumo para a sala, e ao abrir a porta que a separa os cômodos sinto um odor inexplicável e adocicado. O cheiro é bom e impregna as minhas narinas, mesmo que não haja lógica para a sua presença. Pare por sua origem, porém não há sucesso na empreita.
La fora, inesperadamente a noite carrancuda faz gemer o vento, e as folhas tremulam nas árvores ao mesmo tempo que eclodem trovões e  se disparam os raios, e eles varam a janela da sala onde estou e proporcionam uma forte claridade ao lado oposto ao que me encontro.
Foi então que o vi. Era ele, não havia a menor sombra de dúvida!

-Vieil homme, pourquoi avez-vous quitté le lit? – Pergunta-me uma voz grave, mas de entonação afrescalhada.

Claro, surpreendo-me com o instante inusitado, entretanto às custa de minha falecida avó, filha de franceses, consigo compreender aquilo que a criatura questiona; O ser estava curiosa para saber o motivo que me fizera levantar do leito. Perplexo e sem ainda compreender os fatos forço meus olhos na sua direção enquanto o universo parece explodir em raios e trovões. O quarto ganha contornos ainda mais claros e nítidos, e é como se os exercícios de guerra estivessem sendo praticados ali. Repentinamente o clarão se apaga e volta a clarear com raios espocando intermitentes, e dessa vez eles são assustadores, mas possibilitam que eu distingua com mais clareza as feições daquele que senta na poltrona.
"Como? Caraca, eu não acredito!"  - Rumino comigo. Agora a imagem me é quase nítida, e  à minha frente dou de cara com  ninguém mais, ninguém menos que o próprio diabo. Aliás, a bem da verdade não era o diabo, mas sim a diaba.

-Avez-vous peur, ma chère? – Desta feita a coisa maligna questiona e demonstra certa impaciência.

O  tom de sua voz ainda soa grave, mas agora nitidamente feminino e algo sensual. Óbvio, eu não queria, mas estava apreensivo, já que ao macho sempre foi imposto  que nada deve temer, incluindo no pacote  a totalidade das mulheres, apesar do manual silenciar sobre mulheres diabas.

-Não, não meu amor! Não estou com medo! - Respondo tropeçando no idioma mãe de Catherine Deneuve.

Sim, eu estava ansioso, porém tentava demonstrar serenidade, inclusive, serenidade que não havia.
Claro, o que mais poderia fazer numa situação daquela? E outra, eu era macho, muito macho, dono de pênis eficiente e duas bolas no saco escrotal, portanto os da minha estirpe não entregam tão facilmente o ouro, em que pese o pavor de estar na presença do mal.

-Oui! De ce que je vois, eux aussi, un galant homme - Repentinamente ela diz num riso debochado.

Por Deus, ainda mais essa? Não sabia dos seus motivos ao tomar-me por um galanteador. Não, não era, e mesmo que houvesse alguma verdade em suas palavras, juro,  jamais imaginaria sê-lo para qualquer ser das profundezas. Finda sua sentença ela se levanta da poltrona e eu estremeço estupefato diante da realidade, pois sua corpulência é atemorizadora e ao ponto  de reconsiderar as questões da minha antes supremacia mácula. Talvez estejam tão confusos quanto eu estive à frente da diaba com a estatura de um pivô do basquete norte americano,  ou seja, coisa superior aos dois metros de altura.
Eu a olhava incrédulo, porém no quesito tradição trazia no corpo a coloração vermelha, assim como narram bem narram  livros. Inacreditavelmente eu via o tom encarnado e que se assemelhava a cor dos bólidos da Ferrari. Aquilo só podia ser sonhos, aliás, pesadelo, entretanto parecia não ser, já que belisquei o meu braço com vigor e senti a dor das unhas me penetrando a carne. Porém há algo de extraordinário naquela diaba, e finco as vistas no mal e noto que ela está nua da cintura para cima, e o seu tórax é largo e musculoso,  e nele ela ostenta dois de seios fenomenais. Atônito olho abaixo do quadril  e de lá nascem duas longas pernas  esplendorosas, e na junção delas, no alto das coxas um  pequeno e libidinoso triângulo se deixa exposto, e é linda e sensual sua minúscula calcinha negra e transparente, onde nas bordas sobressai a delicadeza dos rendados carmesins.
Óbvio, o insólito me excita, no entanto me mantém apreensivo;  O que ela poderia pretender comigo? E ainda assim, praticamente nua?  Logo, mesmo que temerários,  meus olhos acastanhados não desistiram dela, afinal me sentia hipnotizado, seduzido.

No imprevisto do momento os céus declararem guerra e novos estrondos acompanhados de potentes faiscares  iluminaram a sala de uma alvura que me cega os olhos, e assim que  me acostumo com a claridade detalho-lhe o  rosto de feição quase angelical. Em estado de torpor percorro cada milímetro das linhas das faces e acima, na testa, noto-lhe a pele vigorosa e enrugada, coisa que me faz relembrar os reptis quelônios aquáticos Persisto afixado na figura e são parte da sua anatomia dois pequenos chifres, e eles brotam acima da testa. Nos mantemos  impassíveis, olhos nos olhos, e ela suspira calmamente e vem em minha direção. Cravo-me no no seu corpanzil avermelhado e me assusto, e antes ela não tivesse vindo, pois agora sou o alvo dos clarões, e ela me flagra, humano, limitado, e os sons provenientes da tempestade são grotescos e temerários, e eram como antecipassem que poderia aprisionar-me nas ardiduras das chamas eternas.
O meu pavor se torna  latente quando a diaba encosta os seus seios em mim,  e com mãos firmes comprime as laterais da minha cabeça, levando a minha boca na direção do seu mamilo esquerdo.

- Suck, maintenant! – Ela ordena em tom bravio.

A voz é magnânima e eu me rendo ao poder, pois estraria  numa fria  se não acatasse suas determinações. Evidente, seria bom ser macho o suficiente e dizer um não ao diabo,  inclusive, quem não exultaria ao negar algo ao demônio?  Pois é, eu regozijaria! Entretanto deixei-me levar e sucumbi a minha boca no bico do seu peito, afinal, seios para mim sempre foram irresistíveis. Ela sussurra ao retirar um das mãos da minha cabeça e acariciar a aureola do mamilo direito, e ele eriça,  e ela o enfia bruscamente em minha boca e comprime minha cabeça obrigando-me a sugá-lo com apetite. "Oui..oui" - Ouço a devassidão gemer.
Ah! Eu adorei o seu "Sim..sim" naquela atmosfera que me fez imaginar a primeira das minhas mamadas no seio de mamãe, apesar de não ter sido necessário esticar as pontas dos pés para alcançar o seu seio, assim como sou forçado a fazer agora. E minha boca causa estalidos e me  sinto selvagem, porém prevenido, logo, não perco qualquer reação em seu olhar, já que provavelmente estaria em maus lençóis se demonstrasse insatisfação com o desempenho.
E assim permanecemos por ali, e não era  fácil controlar as sensações que me invadiam, pois dosar a excitação e a razão numa situação é tarefa das mais árduas. Repentinamente em meio à sugada ela rosna:

-De moi!  De moi! - Por Alah! agora os seus sussurros abandonavam a boca e eram guturais. Ela encosta tudo em mim, pernas, peitos, nariz, e resvala em mim  um animal no cio, expulsando e recolhendo freneticamente a língua e a enfiando em minha boca.

Eu acuso os sinais e noto claramente que é o momento que a diaba quer ser possuída,  pois conheço as a natureza libidinosa de grande parte das mulheres. Entretanto não esperava aquela reação essencialmente humana, e nem a respiração ofegante num peito que arfa devassidão. É o supremo instante da excitação, e ela me puxa pela gola do pijama flanelado e me leva à direção da alcova. Estamos ao pé da cama e ainda sou refém da sua mão firme quando ela nos atira sobre o leito. -  Ploft -Escuto o rouco som e o baque dos nossos cair, fazendo ranger as molas do colchão. Agora estamos deitados e à cabeceira da cama, eu olho para as nossas pernas e sinto uma sensação de incredulidade ao notar a parte inferior das suas pernas estão fora da alcova. Repentinamente o pavor se instala em mim, pois ela percorre o meu corpo com as mãos, e elas parecem maçaricos fundindo cada parte minha numa sensação de estar sendo tosqueado vivo, assim como Joana D¨Arc. Sintomaticamente olhos para as minhas peles e não há qualquer sinal de queimadura, e isso me alivia, logo, partimos para as preliminares e ela me acaricia e me diz impropérios, palavrões ecoando no  no ar, coisas que fariam enrubescer Brigite Bardot. Talvez fosse delírio, e era irrestrito, pois ouvia os acordes da tórrida "Je Taime"  uma canção dos anos 70, de Jane Birkin, onde ela simulava a cópula num enredo que falava de amor. E o demônio persistiu com o seu linguajar chulo, e vociferou que eu era um "filha da puta" - "gigolô barato" - "safado" - "cadelo"  e depois me ofendeu com algo sem precedentes e que escutei claramente - "Seu prostituto de jardim de madame"-  Jamais alguém havia se referido a mim naqueles termos, portanto a minha vontade foi a de rir, porém ante a  possibilidade de ser remetido às saunas do inferno, num contragosto, achei melhor refrear.

E pensei naquelas agressões, e se talvez o jogo de palavrões fosse a demonstração da fome do predador, fome que eu não tinha certeza se estava ou não saciando-lhe. Sim, aquela diaba era a minha caçadora, e elas mordiscava meus lábios e eu sentia o hálito fervente, e ela passava a língua neles quando num movimento brusco com as  mãos  libertou-se da calcinha, estraçalhada num único puxão. O surreal continuou, e me sentia seduzido ao contato daquele  corpo carmim, e seus toques continuavam, assim como a quentura nos seus dedos, eu, um ser humano, um pobre pastel de palmito  no tacho de óleo fervente, se é que seja possível a comparação. Ela parecia excitadíssima, blasfemava coisas quando num lépido movimento de corpo e  com a agilidade dos braços içou-me  sobre ela, estirando-me por sobre o seu corpo. Então fincou as pontiagudas unhas em minhas nádegas, e tive vontade de gritar, mas não gritei, enquanto ela falando uma linguagem que agora eu não compreendia trouxe-me para dentro dela, e assim o meu pênis a penetrou numa única e dolorida estocada.

-Aiiiiiiiiiiiiiiiii combien c'est merveilleux! – E ela urrou ao contato.

O corpo da diaba fremia, e amparando as costas no colchão e meneando a cintura subia os quadris com  movimentos vigorosos, e eu la,  me sentindo um desses brinquedos de parquinho de diversão, gangorra, ora subindo, ora descendo, um elevador de cargas sendo acionado, abaixo,acima, eu, um reles  boneco  "João Bobo" indo e vindo, indo e vindo, de pau duro.

-Ohhhhhhhhhhh! – Ela grita e o seu estremece ante o ápice que se aproximava. E os trovões ecoam mais ensurdecedores, e os focos de claridade parecem holofotes iluminando o mundo. Repentinamente ouço o  "Aiiiiiiiiiiiii"  e ela se contorce num gozo de brasas, consumação de ato, o dela, mas não do meu, pois eu apenas me esquentava quando ela gozou. Olhei para ela perplexo; jamais poderia imaginar que os diabos sofriam de gozo precoce.

Após o orgasmo apenas remexeu os quadris fazendo-me escorrer de cima dela, aninhando-me ao seu lado. Depois retirou um cigarro do meu maço e o acendeu com a ponta do dedo médio e deu uma longa baforada. Olhei atento para a  novidade, afinal, jamais desconfiaria dos demônios, cigarros e isqueiros, assim como nunca suporia das humanidades que envolvem essas bestas, e nem que seriam capazes de deixar nossos paus em brasas e doloridos, e o que é pior; sem jorrar uma única gota de gozo.
Enfim, ato concluso procurei demonstrar toda a calma do mundo ao pegar o papel higiênico e limpar o pênis  de uma gosma esverdeada que o envolvia e que se expelira de dentro dela. E eu olhava para a coisa gosmenta com certa repugnância, porém surpreendeu-me  repentinamente o odor que se alastrou no ar. Olho novamente para o meu pau e sorrio, pois acabara de  descobrir a fonte do odor agradável, a  fragrância deliciosa, coisa  bem  par ao ao perfume J'Adore, da Dior.

 Ela permanecia tranquila, e  eu, agora mais aliviado sentei-me à cama, decepcionado por não ter "chegado lá". Entretanto eu estava orgulhoso e honrado, pois não acho que seja comum a qualquer mortal levar o demônio ao orgasmo. Portanto, diante deste trunfo os meus medos amainaram, apesar do ainda desconforto com a altíssima temperatura. Imitando-a e  retiro um cigarro do maço e  abrindo mão do seu dedo-isqueiro faço uso do meu  Bic e dou uma boa tragada. A diaba permanece em completo silêncio, algo que parece sugerir paz. Decepciono-me, pois acreditava que teríamos um bate papo descontraído após o orgasmo. Não não teve e isso me lava a  concluir que os os demônios não são chegados numa conversa após atingirem o clímax. E o enigmatismo seduz, e eu olho de soslaio sem saber exatamente o que  falar ou como deveria proceder. O que poderia ser tentado numa situação daquelas? Ser agradável, simpático e puxar um dedinho de prosa? - Talvez os diabos gostassem que falássemos das coisas que se exploram numa relação sexual. Sim, eu poderia falar de fatos estupendos, das sensações que senti com ela. Poderia encher a sua bola, dizer sobre o quanto me excitou seu delicioso par de seios, aliás, seios que mais se assemelhavam a melões fartos e suculentos. Não! talvez fosse vulgar demais, ou então poderia me esforçar na tentativa de lhe parecer poético, falando dos odores perfumados que se exalaram da sua ardente vagina. Poderia falar de Dior, J¨Adore, ou quem sabe do Chanel 5, se assim ela preferisse o perfume. Não, melhor não, talvez eu estaria sendo demasiadamente pessoal, e isso os demônios provavelmente não gostam.
Bem..diante tanta dúvida procurei ser o mais trivial possível:

- Então.,..dona diaba, é assim, todos os demônios são franceses? - Perguntei para ela. Ela apenas me olhou, franziu a testa enrugada e persistiu no silêncio. Como nada respondeu, achei que havia tocado num assunto desinteressante. Tentei focar-me noutro questão, talvez lhe parecer espirituoso. Então mandei ver:

-Por acaso os diabos praticam  Board Jump na Torre Eifell? –   Claro, era uma tentativa, válida,  minha e do meu sofrível francês, óbvio,  acompanhado dos meus sorrisos insinuantes. Novamente ela me olhou e se abrigou na clausura do silêncio.  E assim ela permaneceu por um bom tempo até que, repentinamente se manifesta:

-Par chance saviez-vous que Dieu est brésilien? – Questiona-me à queima-roupa.  Abismei-me! Eu acreditada que somente os humanos tinham as características de relacionar nada com nada, dizer monte de asneiras, abobrinhas. Inacreditavelmente o demônio acabava de me perguntar se eu sabia que Deus era brasileiro! - " Deus, um brasileiro? - Perguntei-me.  Fiquei pensando naquilo por alguns segundos, e talvez ela tivesse razão. Será que Deus poderia ter nascido nascido em Maragogi. E por que não? - Concluo o pensamento vestido das incertezas inerentes aos humanos..

Eu a olho perplexo, e surpreso sinto a minha perna direita em chamas. Olho para ela e definitivamente ela está em chamas,  porém ajo rapidamente e abafo o fogo com uma toalha que estava ao lado e sob a cadeira. Olho para a perna e admiro-me, pois não havia marca de queimadura, mas apenas o nauseante cheiro de pelos queimados. Sem estragos maiores continuamos silenciosos ao tragar nossos cigarros de brasas amenas. Na tentativa de lhe parecer calmo, tranquilo, eu  abri meus maxilares e deixei com a boca apenas um formato ovalado por onde se expelia as fumaças, e elas se expeliam redondas, e nessa condição rumavam ao teto do quarto. Me aproveitava para olhar as bolinhas de fumaça para arriscar, vez ou outra,  um rabo do olho naquele corpo espetacular, capaz de enlouquecer o mais pacato dos cidadãos. Por alguns instantes ela fechou os olhos e se aprisionou dentro de si como em estado letárgico. Agora giro minha cabeça e a olho com mais firmeza e seus olhos estão cerrados, e talvez ela pensasse em nosso mundo e nessa globalização perdida entre crenças e fanatismos. Talvez para ela o planeta Terra fosse surpreendente e as pessoas tão tresloucadas que, conseguiam de certa forma a  interação entre elas, assim como são alcançadas  entre Deus e o Diabo, e nós éramos prova disso. Enfim, jamais saberia o que poderia estar ocorrendo em sua mente, aliás, se é que estivesse passando algo.

Terminando o meu cigarro acendi outro na própria  bituca enquanto ela amassava o seu  num cinzeiro de louça ali mesmo, apertado, na pequena mesinha de cabeceira. Foi esse o instante que ela virou para o lado e olhou pra mim e abraçando-me  sorriu de forma tão doce que, ocasionou-me perplexo ao ter, agora, a mais absoluta certeza que os demônios são abastecidos de sensibilidades.
Em seguida retornou para o  seu estágio  meditativo enquanto eu fiquei a matutar sobre a razão de tudo.
E ao questionar me fiz muitas perguntas; Será que morri e não fui avisado? Será que isto é um sonho, ou o pesadelo que se dá após a morte?  Não! Talvez não fosse nada disso e sim  a a minha solitude, abrangente, exacerbada, sempre a me causar síndromes, delírios, e talvez convulsões que nem próprio lembrava.
Entretanto nada disso ocorria, pois o calor ardia em minha pele, e era demasiadamente real e quente para deixar de ser verdadeiro. Novamente olhei para o par de seios e os depilados pentelhos avermelhados logo abaixo do ventre, e sorri; Será que a “coisa ruim” estava ali, atrás da minha alma? Será?
Mas...Se veio com tal finalidade não tardará a me fazer alguma proposta na qual leve vantagem, afinal os demônios são espertos demais - Concluí-

Desviei dos pensamentos e desviei o olhar dos seus peitos e me concentrei no rosto que ainda se mantinha em  estado de êxtase. Talvez ao retornar do transe quisesse me possuir novamente, pois que com o demo não se brinca, pois nem lhes lhes conhecemos as vontades. E pensando dessa forma me mantive atento aos seus movimentos. Agora, analisando por outro lado existia a  possibilidade de que tudo não passasse de ilusão proveniente do excessivo consumo de álcool, já que a garrafa de vodca que abri por volta das cinco da tarde estava ao lado da cama, vazia. Outra vez voltei meu olhar para a estante e o cravei no enigmático e horripilante Buda; O que ele poderia me dizer?  Quem sabe ele fosse camarada e me dissesse que eu estava atormentado, vivendo realidades que só existem na mente dos esquizofrênicos, dos arrasados pelo transtornos dos eventos do sono, pois há um bom tempo não dormia mais que duas horas e meia consecutivas. Lá de onde estava, o Buda continuou nos olhando contemplativo, e dessa vez ele me pareceu um bom camarada. E insisti e continuei a olhá-lo, e ele me transmitia paz, imensurável, algo que antes causava-me  pavor, mesmo que incompreensivelmente. No entanto ele e a sua bondade continuavam nada dizendo, nada sabendo, e ele tanto quanto eu, diferentemente do diabo que ali estava,  nada sabíamos.
Eu me sentia exaurido física e psicologicamente, e agora o sono me pegava e meus olhos pesavam, já que era preciso dormir, e me sentia na paz.

E outra! O que eu poderia temer? Nada! Pois até o diabo abrira mão da empáfia ao insinuar que Deus é  brasileiro. Poderia alguém afirmar que a história entre Deus e Diabo não é algo manipulado para causar pavor ao homem, aos cristãos manipulados pelo medo do fogo eterno? Quem poderia afirmar ou negar com a mais absoluta das convicções que o Diabo não seria  o lado obscuro de Deus?
Quem? Afinal, não existe o bem e o mal?  Não é certo concluir que muitas fatos divergem enquanto outros são tão nítidos quanto ao amor concebido entre mãe e cria ? Não são esses os fatos dum conjunto que ocasiona e dá certo sentido a existência? Por acaso não somos amor , ódio, brancos, negros, ricos e pobres? Não amamos o doce, convivemos com o amargo, tanto quanto estamos benevoleantes  e mesquinhos, heróis ou covardes? E então, não poderemos concluir que  o bem e o mal sejam unos, interligados no agir e conforme convêm cada situação?
E eu? Por acaso não posso estar  levando vantagem sobre os demais da minha espécie? Sim, posso concluir que que sim, pois não creio que os demônios andam propondo a fila indiana aos mortais para uma trepadinha grátis! Não, é óbvio que não, pois mesmo que não eles e eu não joguemos no mesmo time, foi assim que um deles veio e me legou um punhado de paz.

E era o que concluía e meus olhos pesavam quando a  Diaba deu um salto da cama e se colocou em posição ereta ao lado da estante, bem próxima à complacência do Buda. E ela se postou diante de mim, e era enorme e estava linda, ela e seus peitos empinados vermelhos! Ela e suas  pernas grossas e sem  varizes ou estrias.
O demônio apenas sorriu e sua voz soou grave e sensual, algo que me fez relembrar a gostosíssima Marilyn Monroe sussurrando uma canção de  aniversário para o então amante, presidente Kennedy. E a diaba agora cantava a sua, além do mais, mundialmente conhecida.

- Allons enfants de la Patrie Le jour de gloire est arrivé ! - Era cantou maravilhosamente  a Marselhesa, o hino nacional da França.

Depois disso desapareceu no ar como se fosse um truque de David Copperfield, um mágico que às década de 80/90  invadiu os televisores do planeta terra para fazer desaparecer fatos materiais, inclusive aviões de carreira. Claro, era um belo truque do mágico! Aliás, tudo nessa vida é nada mais que truque. E você é um truque, eu sou truque, e a existência é apenas a mais perversa e deliciosa das mágicas, e ela faz surgir a alegria para depois perpetrar-lhe sofrimentos com a mesma singeleza que se pede um guaraná em balcão de bar. E é esse o meu e o seu legado, é a herança da vida  sendo partilhada para a raça humana, onde alguns de mais sorte poderão ficar com a melhores fatias do bolo. Logo, faço um gesto à frente do buda, mas minhas mãos não são mágicas, assim não lhe concedem vida, mas estou sonolento, e ele me parece recíproco ao me olhar com ternura. E sua expressão cerâmica é afável, o que me faz olhá-lo de outra forma, pois talvez a falta do sono tivesse me tornado intransigente e inacessível.

Enfim, estas coisas são de um sujeito cansado e relutante em acreditar nas cenas ocorridas, pois talvez não passassem da mais deslavada das mentiras, ou mesmo a  imaginação fértil que faz delirar um notívago destroçado pela falta do sono. Porém, mesmo que truque fosse é certo que o próprio David Copperfield poderia explicar  passo a passo  todas as cenas desfiladas diante do olhar meu e do Buda. Entretanto e o mais provável é que David Copperfield  naquela hora estivesse em sua mansão de Malibú aproveitando os primeiros raios do sol em sua piscina olímpica. E mesmo levando em conta a diferença de nossos fusos horários é como se eu pudesse vê-lo sentado à borda com os pés imersos na água, e ele  num ridículo e fosforescente short verde limão com listras laranjas bateria os pés e espirraria água para os lados diante os surpresos olhos dum Garfield estampado em sua alva camiseta.
E isto posto, o mais correto me seria ter a certeza que o mágico jamais perderia o seu tempo com um desregrado como eu, que, além de ter sentido aversão pelo pobre Buda, ainda sairia por aí alardeando à boca grande que andou copulando com o demônio.

Portanto apago as luzes e  penso na trepada com a diaba e sorrio de tudo. Loucuras ou verdades desfilaram ali, ou não. E com os olhos praticamente fechados e a mente entorpecida de incertezas é que encosto e apoio o corpo na estante e procuro a imagem do Buda com as mãos.
Ao achá-lo acaricio as suas formas arredondadas e estalo um beijo em sua lisa calvice de porcelana.
E a cúmplice negritude da noite predomina, no entanto seria capaz de apostar que, se repentinamente  acendesse a luz  flagraria o gorducho com um risinho sonolento e de paz cravado no rosto.
Ainda tateio a protuberante barriga da estatueta e dou graças a Deus e ao Diabo, pois agora sim tinha a plena certeza que seria brindado com uma exuberante  noite de sono.

-Boa noite! Um beijo na bochecha e na baita bunda balofa do bondoso e bolachudo Buda! -

Digo para ele num sorriso que não lhe mostra os dentes,  pois certamente eu era o idiota que, vez ou outra gostava de brincar com uma única letra e com elas formar as frases. Evidente, um tipo da frescura que só cabe na mente dum sujeito notívago e sem muita noção para as coisas.

-Tudo bem, eu sempre fora um desmiolado mesmo! Admiti em alto e bom som ao atirar-me à cama e outra vez cobrir o gélido corpo com os três acolhedores cobertores.



Copirraiti 21Jun2011
Véio China®

terça-feira, 14 de junho de 2011

O Sr. Kasparov, meu neto e um Surfista Prateado

-Dad, sabia  que sempre eu penso em Nossa Senhora com um manto cor de rosa e calça jeans? Geralmente a imagino  em cima dum palco com focos de luzes, assim como  num show de rock.

Esse era meu neto, Jean-Paul, 12 anos. Minha filha Dynáh escolhera esse nome em homenagem ao grande filósofo Jean-Paul Sartre, de quem era fã e ávida  leitora. Dynáh sempre fora inteligentíssima (QI 148) Portanto, nada mais óbvio que Jean Paul, mistura genética com um pai de QI 154, fosse algo próximo à genealidade. Talvez,  Dynáh já o tivesse pressentido através dos carinhosos mimos de suas mãos na enorme barriga dos tempos de gravidez.

-Mas.. Jean Paul, veja, Nossa Senhora não é  popstar como a Madona,  muito menos uma estrela do mundo do rock – Contestei

-Ih vô! Numa dessas minhas viagens aposto que não vai querer saber  dos lugares que vi Jesus percorrendo...

Claro, o bom senso dizia-me  que não deveria questioná-lo dessa vez. As suas  reticências e o ar vago e maroto  deixavam-me vaga impressão dos locais por onde ele fizera o filho de Deus transitar.

E assim era com Jean Paul, onde sua criação excessivamente católica viera com as fraldas e o limpar de bunda, herança herdada do meu genro, um rico industrial na área da informática.
Paradoxalmente, minha filha, agora também  afeita  ao catolicismo, esquecera de suas crenças antigas em clara oposição aos seus filósofos favoritos,  mas em comunhão com Antenor, seu marido,  um católico praticante e que sempre teve ótimo acesso ao pároco. Convem ressaltar que meu genro  jamais agiu com mesquinharias  nas doações feitas para a Igreja do bairro, independentemente de jamais fechar os olhos para alguns fatores que ocorriam naquela igreja e com o padre Luisinho,  tal qual o habito do religioso trocar o modelo do automóvel todo o santo ano. Evidente que eu me questionava quem poderia estar arcando com esses gastos. Claro, crentes, os fiéis afirmavam que essas despesas eram bancadas pelo Vaticano. Porém, cético, sempre desconfiei que o dinheiro do Antenor estava  metido no meio nessas aquisições..

E assim foi que, cercado de religiosidade  por todos os lados praticamente não restou alternativa para Jean Paul que não fosse aceitar a imposição dos pais para que de trilhasse o caminho da fé. Fé que ajudei a desvirtuar ao transportá-lo no tempo e aos caminhos pregressos da minha revoltada juventude. Comum era desviá-lo da rota  cristã ao contar-lhe parte das minhas estórias  mais amenas ou fazê- lo cadenciar o par dos seus pezinho 38 sobre o tapete persa do Antenor.  Naquelas ocasiões e para seu delírio,  no mini system colocado acima  da minha mesinha de cabeceira eu desfilava para ele os pesados  rocks progressivos, principalmente os das bandas The Who,   Led Zeppelin, Pink Floyd entre muitos outros. 

E aquele maroto de inteligência formidável assimilou tudo de forma rápida e precisa às custas de alguns dos DVDs das minhas bandas  favoritas. Devido a alguns filmes antigos que ele ele aprendera a dar os pulinhos iguais ao do  Pete Townshend e do Angus Young. E eu me divertia ao vê-lo curtir um som e atravessar o quarto empunhando a sua guitarra imaginária, saltando pra lá e pra ca com as pernas ora dobradas para um lado, ora esticando-as para o outro  numa  perfeita imitação dos seus ídolos. Nada incomum também eram os momentos onde as delicadas mãos de minha filha batiam à minha porta com toques apreensivos e que sugeriam um demasiado nervosismo: “Ô pai, não vá me dizer que senhor tá induzindo o Jean Paul a ouvir esse barulho dos infernos?” –  Evidente, esses  lances da Dynáh quebravam completamente o  nosso barato, e o que me obrigava a diminuir consideravelmente o volume. Depois, claro,  eu  ria dessas passagens.  Mas o que as batidas de Dynáh não conseguim impedir era a minha cumplicidade para com aqueles pequenos delitos de Jean Paul. Delitos esses que nos aproximavam ja  que seria improvável que ele praticasse aqueles "absurdos"   na presença dos pais.

-Dad, eu não sei se você sabia, mas... Platão desenvolveu uma teoria que foi esboçada no Mênon: A teoria da reminiscência –  La vinha ele com suas afirmativas num descolado sorriso. Óbvio, eu saquei que ele estava  pretendendo me gozar.

-Mas... que merda quer dizer isso,  eim sabichão? - Ele riu divertido com a complexidade da minha frase.

-Ah, é assim, vô: A gente nasce com a razão e as idéias verdadeiras. E aí a Filosofia nada mais faz do que nos relembrar dessas idéias. Isso é conhecido por maeutica, entendeu? – Ele afirma com um olhar de sabe-tudo.

-Ah sim...agora que entendi! Bem, mas como eu diza.... – Rapidamente eu tentava abortar aquele seu lero-lero

Eu não suportava aqueles momentos em que Jean Paul  cismava de desfilar a vidas dos filósofos, os seus amores, as suas desilusões e até as suas mortes singulares. Pra falar a verdade eu achava aquilo tudo um porre. Portanto só me restava livrar-me dos bocejos ao tentar desviar a sua atenção.  Sem dar tempo pra ele raciocinar, impostei a voz e mandei brasa:

-Diz aí pirralho sabe-tudo! Quem foi o “Surfista Prateado”? – Eu jamais fora homem de levar desaforo para casa. Era olho por olho, dente por dente.

-Surfista o que...? – Ele questiona com olhos esbugalhados. Parecia que eu estava lhe perguntando sobre caramujos tailandeses.

Claro, compreensível que ele não soubesse me dizer.  Jean Paul jamais poderia saber do “Surfista Prateado”. Evidente, meu neto desconhecia que eu me referia a uma  leitura do meu tempo de ginásio. Foi então que pacienciosamente expliquei para ele que o "Surfista Prateado" fora um herói de uma revista em quadrinho e que dava conta que ele viera  de uma outra galáxia  a mando de um dos chefões do cosmos com a finalidade de devorar a Terra ( Os seus olhos se arregalaram  quando citei  que ele viera devorar a terra) Mesmo diante da sua reação continuei esplanando que o super-herói levitava  na sua prancha prateada e que se encantara com a nobreza dos sentimentos terrenos. E em se encantando  ele resolvera permanecer entre os humanos, travando guerras contra todos os tipos de mal e crueldade.
Talvez com o tempo o meu neto pudesse compreender que a minha predileção por aquele super-herói se a atrelada ao seu perfil psicológico; um super-herói nostálgico, solitário, e excessivamente melancólico. Evidente, eu e o Surfista tínhamos tudo em comum, exceto o fato de eu jamais ter sido um super-herói.

Foi então que Jean Paul com cara de pouca surpreso e concluiu: - Ah sim.. Então esse que é o tal  Surfista Prateado.. .Nossa, nada punk!

Porém os seus olhos e atenções estavam distantes daquilo que eu falava. Foi quando tentei penetrar naquele nos seus  olhos azuis como as águas do oceano Atlântico. Como era de se esperar, não consegui.  Não conseguindo levei-me a concluir que por mais qu tentasse jamais flagraria Jean Paul interessado por esse tipo de coisa. Ainda mais para alguém como ele; um apaixonado por mitologia grega, culturas milenares e tudo aquilo que se distanciava de minha parca intelecutualidade.

-Ô vô! Mudando de assunto... Já ouviu falar duma tal de Maria Madalena? -  Ele desconversou, provavelmente insatisfeito com aquele papo de super-herói. Porém o sexto sentido me sinalizava que ele estava prestes a me colocar numa outra fria.

- Ah...Cê ta falando daquela da bíblia?

-É! Essa mesmo, vô! - Ele confirma.

-Sim... O que  sei que é ela foi uma prostituta, e que queriam apedrejá-la. Mas sei também que Jesus interviu à tempo – Confirmei convicto. Peguei o bandido! Dessa ve eu tinha a história e a bíblia a meu favor.

-Bem, vô, até que enfim você acertou uma...  Mas...se disser que Jesus Cristo fez aquilo porque estava com outras intenções na cabeça, o senhor acreditaria? - Dito, ele me fez a cara mais sacana que um safado de 12 anos poderia  me proporcionar.

Atônito ao ouvir tal despautério minha boca ressecou e eu mal consegui piscar.

-Como assim? Que leviandade é essa seo  moleque sem-vergonha, safado!  - Seus olhos se assustaram com a rispidez da minha reação.

Horrorizado abro a porta do quarto e vocifero:

-Ô Dynáh! Vem tirar esse demônio daqui! - Minha voz ecoou pelo corredor, forte, irritada, absurda.

Ouço os saltos altos de Dynáh, e eles estão a caminho, mas o danado, esperto, nem esperou a chegada da mãe. Quando dei por mim ele subia em desabalada as escadas que davam acesso ao seu quarto. Provavelmente la dentro e em seu notebook de última geração ele travaria uma feroz batalha virtual contra um poderososo software de xadrez desenvolvido com  as complexas informações  do lendário  Gary Kasparov.

-Que foi pai? O que o Jean aprontou dessa vez?

-Ah filha! Nada não. Bobagem! - Desconverso.

Dynáh me olha com ar de repreensão. No mínimo me achava um tolo por tirar sua atenção de algo que deveria estar fazendo. Eu olho para ela ao se afastar e sinto um imenso carinho por aquela figura femina. Ela some pelo corredor e adentra à biblioteca e eu penso no meu garotinho;
Eu não me surpreenderia se ele desse uma boa sova no programinha daquele russo metido à besta.

-Xeque Mate! - Exclamo para as paredes e uns poucos quadros à óleo. Atrás da porta, num poster envelhecido, Janis Joplin me olha, esquizofrênica.


Copirraiti 13Jun2011
Véio China©

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Subterrâneos

-Paizinho, sobreviveremos a Junho? – Ela pergunta

O senhor Onadia a olhou enquanto pensava sobre o que poderia ser compreendido nas divagações da garota. Ele sempre soube que as perguntas eram mais difíceis que as respostas, ainda mais para ele, que andou bons pedaços da vida metido em situações que jamais se equacionaram.
De toda forma se recordou que ela surgiu numa bela manhã de Maio. Naquele dia a brisa acariciava o seu rosto enquanto o sol e as cores das ruas tornavam a vida com algum sentido. O sorriso da garota resplandecia e iluminava parte dos seus subterrâneos. Subterrâneos que sempre foram a sua vida. Não que ela fosse plena em amargura, tristeza, porém, insensível, não dimensionando as emoções que o cercavam, apenas obrigando-o a se conformar com a monotonia excessivamente linear.

-Paizinho, sobreviveremos a Junho? – Ela insistia

A pergunta, pelo tom, travestia-se dramática e desafiadora, mas ele não quis decepcioná-la. Realmente não tinha a certeza se sobreviveriam a Junho. Por milagre estavam superando aquele Maio, mesmo que creditando-o a uma força superior.
Sim! Sabia também que milagres aconteciam, e mesmo que raros, numa proporção de um por milhão pretendeu supor que ele poderia ser essa chance. Todavia, calejado, jamais contava com a sorte e não desconhecia que as possibilidades daquele relacionamento dar certo eram as mesmas de na marca do pênalti tentar fazer o gol do campeonato chutando uma bola de concreto.

Nela, um ar jovial e as impacientes mãos na cintura tornavam-na algo peculiar. Tão incisivo quanto a pergunta, em seu rosto sobressaia a maquiagem de tonalidades fortes, azul e algo rosáceo. No corpo a justa calça de jeans delimitava as formas perfeitas e um bumbum empinado. Ele apenas continuava a olhando e sorrindo com ternura. Ela tinha idade pra ser sua filha. O que ela poderia ter visto ou sentido por ele?
Em todo o caso tudo estava ocorrendo da forma que imaginara. Sabia que mais cedo ou mais tarde surgiria nela algum outro interesse que revigorasse as batidas do seu jovem coração. Ele podia pressenti-las. Via no olhar daquele rosto quase juvenil e ainda sem as marcas do tempo toda a esperança que era de direito aos jovens, apesar da pouca experiência.
Nada, absolutamente nada fugiu-lhe ao script ou se furtou ao seu comando. Tudo era tão óbvio e previsível como naquela manhã de sol quente e de ruas coloridas quando se apaixonou por aqueles enormes olhos castanhos.

A garota se impacientava pela resposta que não vinha. Então ele levantou os braços e os deixou cair desleixadamente ao pronunciar, sereno:

-Filha, to me guardando para quando o carnaval chegar!

Ela o olhou surpresa. Chico Buarque também o olharia. Ambos jamais o compreenderiam. E Chico, principalmente, talvez até por jamais se ver metido em questões daquela ordem. Contudo e ao fim ele sabe que o senhor Buarque teria sorrido e lhe pagado uma cerveja estalada antes de voltar a cuidar dos seus próprios problemas.

A garota permaneceu atônita com a conclusão. Além do posicionamento não lhe fazer sentido, era ela necessariamente jovem a ponto de não perceber que era nela que as respostas se acomodavam.

E, o senhor Onadia continuou a olhá-la em seu desconforto. Ele sabia que os subterrâneos o aguardavam ansiosamente e com certa saudade. Talvez, numa relação quase que sado masoquista, ambos, ele e as profundas colunas de si se apegaram um ao outro. Era passada a hora de retornar. Ele compreendia perfeitamente que ficara tempo demais exposto ao sol, e que isso poderia matá-lo
O senhor Onadia encaminhou-se para o pequeno bar anexo à sala e de la retirou dois copos e os completou com Jack Daniels. Para ele sem pedras de gelo, para ela, três.
À princípio tocaram seus copos e depois ele içou os braços no nada e brindou:

-Tim tim, meu caro Chico!

Após o brinde inusitado ele persistiu sorrindo enquanto a fantasia em sua mente desvairava a ponto de vislumbrar ali o Sr. Buarque com cara de bons amigos, mesmo que sem entender os seus motivos. O senhor Onadia continuou sorrindo daquele seu jeito, como se no momento pudesse alçar Chico e dar-lhe um abraços dos mais amistosos.
Ao fim do drink os três entenderam que era a hora do adeus. Toda a ternura no mais doce dos seus beijos selou a despedida. Em seguida a musa de Maio choramingou por alguns instantes e se foi. Não havia o amor, é claro, mas toda despedida causa algum tipo de dor. Eles o sabiam.
Sozinho agora, o senhor Onadia serviu-se de mais uma das várias doses do uísque que tragaria naquela noite de alguma tristeza. Era o processo de retorno para dentro de si por atalhos e rotas que somente ele conhecia.
Seus subterrâneos se mantinham risonhos, dolorosamente.


Copirraiti 09Jun2011
Véio China®

domingo, 29 de maio de 2011

Os ventos da PLaza de Mayo

Ventos vindos da Plaza de Mayo uivavam gélidos e tormentosos.
Batiam nas janelas, quebravam vidraças, avassalando o que encontravam pela frente, levando de si o seu amor, maior que ele

Ainda recorda-se do indecente sorriso dela, dos seus lábios carnudos e do admirável sarcasmo:

- Hasta la vista, baby! -

Ela disse num sorriso maldito e desdenhoso ao ajeitar as suas roupas (na maioria de, striper) no banco traseiro de um carro de aluguel. Ele, olhava a impassividade do motorista que em nada ajudava enquanto o vento levntava seu vestido rodado, ameaçando e fazer decolar o chapéu no mais puro estilo “Rita Hayworth” .

Dentro, na sala, pousados em cima do tampo de um pequeno bar, dois copos de uísque tomados até à exaustão jaziam nostálgicos. Num canto oposto a melancolia dum rádio vitrola,solitário:

El día que me quieras
la rosa que engalana,
se vestirá de fiesta
con su mejor color.

Cantava Carlos Gardel.
De duas, uma; ou ele sobrevivia a Junho, ou a trazia de volta, humilhado como na vez anterior. Foi um momento de indecisão, difícil para ele, até que sua voz desprendeu-se do nó que se dera na garganta:

- Adios! Hija de puta! ¡Me habían matado ya otras veces!
¡Pero restablezco siempre!

Dessa vez ele não deu dinheiro ao motorista.
Ao partir, ela voltou o olhar pelo vidro traseiro e o percebeu cada vezes mais diminuto à medida que o automóvel ganhava novos espaços. Houve tempo ainda de vê-lo retornando para dentro da casa.

Seria uma longa noite de tangos, bebedeira, e de todos os esquecimentos.


Copirraiti 26Mai2011
Véio China©

http://letras.terra.com.br/carlos-gardel/15882/

domingo, 22 de maio de 2011

O Olhar de Marcela

O telefone tocou naquele fim de manhã de domingo. De inusitado naquele dia só um rato que me desafiou na porta da entrada de casa. Tentei alcançá-lo com a ponta do tênis do pé direito, em vão, ele escapou e eu fiquei com um baita trauma na perna ao acertar em cheio o primeiro degrau da escada, em concreto puro.

-Bom dia Véim! Domingo Azulado pra ti. Um Beijo! – Era a Marcela, ou, Tchela, como eu gostava de chamá-la, talvez por ser eu oriundi de italianos.

Eu a conhecera na fila do supermercado. Ela me olhava atentamente e eu me perguntava o que ela poderia estar achando de interessante ou hilário em mim. Isso foi até ao ponto dela desinibir e vir questionar-me se eu seria o Eulenardo, o criador do Velho Zina, um nada famoso personagem publicado em meu livro único. Provavelmente ela deve ter me reconhecido pela foto da contracapa do best seller fracassado. Claro, adorei ouvir aquela voz um tanto teatral e juvenil apesar dela estar, talvez, pela casa dos 30.

- Bom dia também, Tchelinha! Que esteja azul e cheio ondas calmas! Beijos pra ti, meu amor!

-Mar calmo? Nãooooo! Estou cansada de calmaria e de coristina R. To numa gripe danada!

- Bem... tem o Camaleão..lembra-se? - Brinquei

O Camaleão era uma casa de shows onde se tocava rock pesado e as pessoas ficavam enlouquecidas e gingavam seus corpos na pista de dança. E segundo ela, la seria comum encontrarmos bêbados, drogados, gays, lésbicas e os cambaus A4.  Fora ela mesma que me falara do lugar no dia que nos conhecemos.

- Ô se Lembro! Massa!  Espero ficar boa logo. Assim poderei sair com o véim e dar boas risadas.

Pronto, mais uma vez o personagem interferia na minha intimidade. Desde o primeiro dia ela me tratava por “Véim” Tanto faria se meu nome fosse Justus, Cassandro ou Teófilo. Pra ela eu seria sempre o “Véim" – Eu mal chegara a essa conclusão quando ela veio com outra, evidente, sobre o safado:

-Sabe, essa noite sonhei com ele, acredita? Acho que conversamos tanto sobre ele, acabei sonhando. Nada de importante... ele surgiu no nada – Concluiu com uma voz bonita, mas um tanto desalentada por aquilo ser apenas um sonho. Era assombroso como ele podia ser tão real para ela.

- Bem... Poderíamos levar o Véio num show de rock pesado, preferência heavy metal. Seria engraçado vê-lo com as mãos na cabeça, intimando o diabo,  achando que o mundo estaria acabando – Devolvi num riso tanto irônico. Claro! Eu pagaria os tubos pra colocar o velho numa saia justa dessa, não duvidem.

-Hahahhaha... Que figuraça é o Véim! Imaginando ele curtindo, batendo os pés, o corpanzil desconjuntado, balangando a cabeça insanamente e mandando todo mundo à pequepê! Certamente roubaria a cena e faria o show.

-Roubaria, é? Preciso dar um jeito nesse Véim decrépito! – Momentaneamente eu fora absorvido por um ciúme doentio e inexplicável.

- Que jeiiiiito? – Ela questiona assustada.

- Calma! To pensando aqui... Cicuta? Não não é platônico demais.
Overdose de Vodka? Jamais! seria matá-lo do jeito que gostaria de morrer.
Fazendo amor? Nunca! Pois sei a quem ele queria. Morte natural? Também não... demoraria mais que deveria – Retruquei um tanto entediado.

- Seu desalmado! Isso la é coisa que se deseja pra alguém? Coitadinho do véim – Ela protestou.

- Bem... estou sujeito a outras eficientes sugestões! E aí, o que me diz?

- Faz isso não... ele é um pobre coitado! Mas... posso falar uma coisa? Acho que ele viverá 100 anos. – Tchela retruca.

E Marcela falava como se houvesse nela toda a certeza desse mundo. Era como se o danado respirasse entre nós e que o visitássemos num asilo em fins de semana com os bolsos forrados de bolachas água e sal e chicletes Adams.

- O que?  Aos 100 anos? Você ta louca? A maldição pairará sobre minha vida.
Oh destino cruel! Viver à sombra dum bebum de bloodmary. Você é a décima terceira que ele me rouba! To pensando em me mudar pro oriente médio. Seria menos turbulento... acho.

-Hahaha – Marcela gargalhou daquele seu jeito único e que fazia o mundo ter algum colorido. Depois complementou - Olha... não gosto de ferir as pessoas. Vou contar uma coisa no seu ouvido Eulenardo, mas, não conta pra ele não ta? É que eu gosto mais de você do que dele. Claro!...Conheci ele primeiro... ele é uma graça de véim..mas, fazer o que?

-Ah é?!!!!!! – Poderia parecer a coisa mais imbecil desse mundo, porém aquilo me deixou feliz. Tão feliz que exclamei:
Que tenha longa vida o Véim!!!! - Eu sei, inacreditável mas, eu fiz isso. Era como se ele e eu travássemos uma guerra nas estrelas pela supremacia do universo.

-Haahhaaaa – Novamente ela gargalhou daquela forma zombeteira. Depois finalizou - Olha! só te liguei pra saber se está tudo bem contigo. Até mais véim, e um beijo no seu lindo coração

-Até mais, Tchela! Um beijão no seu também. –  Era bom saber que nossos corações eram lindos.

Marcela desligou o telefone e eu recordei aquele primeiro dia. Lembro-me do seu olhar, nostálgico e belo. Lembro-me da garota de mini saia, pernas bonitas, pintura discreta e que me olhava dum jeito como se eu fosse uma pessoa muito importante. Não, eu não era. Era apenas um escritor medíocre e que criara um personagem com o qual ela se identificara. Após pagarmos nossas compras eu a convidei para um café. Ali na mesma rua encontramos um Franz e ficamos la por quase duas hora. Tomamos alguns capuccinos e falamos um pouco de nossas vidas e muito sobre as desventuras do Véim, seu ídolo. No fim trocamos telefones e olhares. Talvez os mais de 20 anos de diferença pesassem e fizessem a diferença, pensei ao vê-la partir. Ela olhou para trás e sorriu. Um sorriso lindo, algo melancólico e de alguém que esperava que algo de bom acontecesse em sua vida.
E sorri e acenei um “até logo”, pois sabia que ainda não era o adeus.
Eu simplesmente adorava os olhares iguais ao dela.


Copirraiti 22Mai2011
Véio China®

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Tchau tchau Manaus!

Lembro-me como se fosse hoje. Constantemente a libido vazava entre os dedos das minhas mãos masturbatórias. Em mim um desejo incontrolável de algo que não fosse as conversas dos garotos mais velhos que em pormenores narravam as transas imaginárias com garotas que eles jamais foderam.

Recordo ainda que foi quase bom sentir aquele calorzinho subindo e descendo pelo corpo e explodir num orgasmo. Porém eu não entendia muito bem daquelas coisas, afinal, as minhas experiências com as garotas, até então, se resumiam à uma relação quase que literária, ou, melhor, com as revistinhas de sacanagem que singelamente tratávamos por "catecismos".

E as resvistas me excitavam. Eu gostava dos desenhos pornográficos, das moças de bundas enormes, seios imensos e mamilos generosos. Gostava dos "ahhhhs, uhhhhs" grafados nas semicircunferências logo acima dos desenhos.

Portanto, crente que deveria ser assim foi que tive a minha primeira relação sexual.
O nome dela era Dulcinéia e estava na faixa dos dos 18 ou 19. Relembro que foi na casa dela, um quarto e cozinha num cortiço enorme onde outras pequenas moradias serviam de aluguel. Filha de enfermeira de período integral, Dulcinéia ficava com os dias livres, numa composição que poderíamos poetizar assim - Dulcinéia, o tempo e a solidão -

Naquela tarde, enfurnado na cama de casal onde dormia com a mãe, e sem o "quebra-gelo" aconselhável foi que partimos para o crime.
Com os catecismos avivados na memória tentei impressionar - "ahhhhh - uhhhhh" - Foi o bastante para que uma Dulcinéa preocupada abortasse a cópula.

-Cara! Para com isso! Os vizinhos.....

Para mim foi um balde de gelo, e se fatalmente com uns 50 e tantos  teria broxado. Contudo, garoto e dono de uma aparência que mais parecida 20,  prém sem ultrapassar os exuberantes 16, foi me que mantive firme e na ponta dos cascos. Todavia, fora ruim, também: O legado de minha família dizia que sexo significava amor e vice-versa,  portanto, me apaixonei.

Foi uma das fases mais doloridas da minha vida.
Eu amava Dulcinéia.
E ela apenas ria na minha cara e dava pra todo mundo.


Copirraiti mai2011
Véio China®

sábado, 30 de abril de 2011

A Realeza e a Plebe ( Croniqueta )

Meus intestinos fervem e os gases acumulam-se, graves e hediondos.
Contudo, alguém quereria saber de minhas flatulências? Ninguém, aposto!
Enquanto meus gases não criam fama e nem ganham espaço top entre os vídeos do Youtube, na casa real, provavelmente, tendo em vista o matrimônio, o orifício anal da duquesa foi depilado com tecnologia laser.
Uau! Isso sim é coisa muito chique!  - Provavelmente diria Elton John -

Em que pese tais inerências serem afeitas ao poder, o dinheiro e futilidades, acredito termos (a duquesa e eu) alguns traços no patamar do comum e naquilo que o exercício de nossas sacrossantas existências afere.
Claro! Diferenças existirão já que não me verão sob o sol de Côte d'Azur ou nos paddock de Monte Carlo, eu sei.  Portanto, elas serão bem outras que as de nossas vis humanidades.
E nem há de se falar do sangue. Não há o sangue azul e nem Real! Há um mesmo que é vermelho lá como é rubro cá. Talvez apenas difiram os tipos sanguíneos ou o teores álcoólicos impregnados neles.

O que preciso, de verdade, é urgentemente encontrar formas mirabolantes de chamar as atenções da platéia global e sem que precisse  ostentar uma melancia de 450 quilos na corrente de ouro 14 com Lady Gaga acima e nua.
Sim, claro! Para mim não há a menor dúvida; A princesa e eu somos  parte dessa mesma turba que processa, boceja e defeca diariamente toneladas de merdas que entopem os esgotos das cidades.

Contudo, para mim é pouco, para ela não. Quem sabe se eu pudesse saltar de qualquer uma das pontes ao longo do Rio Paraná e me afogar junto aos bagres dos dentes serreados ou às tilápias de rabos dourados? Surtiria algum efeito prático? Provavelmente não! Persistiria sendo muito pouco ou quase nada para chamar a atenção daquilo que reside superficial em nós meros mortais com batimentos cardíacos entre 70 a 120 vezes por minuto
E,  certamente se afogado fosse, talvez o meu tanto de fama não superasse a reles nota de rodapé duma página policial num desses jornalecos populares e de baixa tiragem. A notícia bem ínfima persistiria grandiosa nas mais necessárias fantasias:

“Bêbado morre afogado ao colidir com uma vaca e cair da ponte"
*Nota da Redação: Não houve tempo sequer de ver na TV o matrimônio da realeza britânica”


Copirraiti Abr2011
Véio China©

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Madá, Justin Bieber, e outras Drogas & Afins

Havia algo de errado, começando pelas rugas e descendo pela minha proeminente barriga, e ela fazia dobras e que recaiam sobre a cueca. E essas disparidades jamais combinavam com a textura suave da sua pele de fêmea, e muito menos com os seus surpreendentes 37 anos incompletos que não pareciam 29. Talvez outras coisas deixavam-nos distantes daquilo que deveríamos ter ou poderíamos ter sido. Eu, apesar dos 58, que à verdade mais se assemelham aos 62, queria apenas curtir as minhas bandas de rock pesado. Ela, em direção oposta, estacionara num universo teen frequentado por ídolos pop. Talvez fôssemos o par da coisa desconexa,  duas aberrações e cada qual ao seu estilo. E as disparidades me fazem lembrar duma certa ocasião.

-Paizinho, ta sabendo que hoje a tua gatinha ta hiper carente? – Ela me piscara um dos olhos naquela  noite mormacenta enquanto em seus ouvidos  imensos headphones davam-lhe um ar de alguém deslumbrado com o momento.Para ela era como se não existisse a tristeza do roxo ou o negro, mas somente o rosáceo das alegrias e dos bons sonhos.

O seu corpo serpenteava á melodia que ouvia, algo que eu supunha ser a irritante “S.O.S” dos Brothers.
Porém, aquela canção parecia praga, uma grande desgraça e que ela tanto insistiu e cantou  pelos cantos da casa que acabei por me apegar à maldição melódica assobiando-a constantemente como se isso fosse  a coisa mais natural desse mundo. Para piorar,  quando não assobiava eu a cantava, na sala, cozinha, debaixo do chuveiro, e algumas vezes à cama enquanto fazíamos amor.
Por outro lado eu não dera a mesma sorte que a dela. Ela era radical comigo, e isso foi escancarado e inconteste numa das últimas fodas que tivemos; Eu queria ação, me sentir um revolucionário, portanto deixei deixara rolando um som do AC\DC no system da sala. Claro, rock para mim tinha que ser alto, heróis vikings sentindo o gosto da lâmina, mas abatendo seus inimigos um á um. Entretanto os efeitos do volume não demoraram a se manifestar:

-Paizinho, pelo amor de Deus! Com esse barulho não dá! – Ela reclamou ao virar o corpo fazendo-me sair de dentro dela de cima dela

Talvez o tom grave e abrangente do contrabaixo que fazia trepidar os vidros da sala a incomodasse. Incomodava-a também os riffs de Angus, principalmente em “Black in Black”. Como eu não fizera qualquer menção de levantar-me para dar um jeito na situação, ela, furiosa curvou as costas sobre o colchão e num impulso soergueu-se abruptamente fazendo-me deslizar em cima.

E, desequilibrado me lamentei, e  foi pena, afinal, depois de mais de 20 e tantos minutos duma árdua batalha aquilo começava a ficar muito bom.

- Ah papai, desculpe, mas... trepar com esses caras canindo como leões esfomeados, não dá! –

Evidente, com ela eu me divertia por muitos fatores; Ao estar nervosa sua burrice e outras pequenas coisas extravasavam. Naquelas ocasiões um de seus olhos se tornava bem mais dilatado que o outro. Portanto ao vê-la com um olho maior eu ri e tive vontade de corrigi-la, explicar que leões não cachorros.Entretanto, por experiência própria achei melhor fingir que não ouvira, pois havia toda a possibilidade de ser quebrado o encanto e  sedução que ás duras penas eu consegui
Também nao estaria com conversa fiada ao admitir que Madá fosse mesquinha, e que parte das suas atitudes e reclamações jamais se justificaram. E digo assim porque numa noite daquelas fizera-me ver três vezes  consecutivas o DVD dum ídolo teen retardado cantando suas idiotas e alienantes canções; “Baby Ft Ludacris” era uma delas. Claro, eu  faria qualquer coisa por Madá,  assistir como assisti Justin com aquele seu ridículo corte de cabelo, inclusive de pernas entrelaçadas como dois adolescentes comendo  pipocas e tomando o guaraná Taí.

Porém, como o tempo é o senhor da razão, repentinamente aos seus olhos  fui perdendo o charme, o encanto, a novidade. Eu deixara de ser o velho e descolado transgressor para me tornar apenas um idoso que vestia surradas calças Levis e tênis acamurçados da Adidas. Não estranharia se inesperadamente surgisse na estante de casa um volume do “Estatuto do Idoso”. O descaso, inclusive abrangeu os meus CDs do Led, Floyd, Who, Clapton e Bob Dylan e outros tantos que passaram a ser desdenhados e tratados meras relíquias dum  museu musical. Nos últimos tempos ela me tinha como o grande troglodita, um dinossauro tão velho quanto aos seus velhos ídolos. Recrimináva-me também ao dizer que eu me tornara obsoleto, desses que se fazem acompanhar dum tempo onde o aperto de mão equivalia à palavra e um fio de barba um documento de idoneidade. Óbvio que havia um grande exagero de sua parte.

As coisas persistiram  desta forma e tomaram contornos dramáticos quando deixei de ser o seu “papai” para tornar-me simplesmente “Alfredo”. Daí para o fim era um pulo de brincar amarelinha, e eu sabia.

Malas postas na sala. Madá maquiada ao estilo de Mortícia Gomes esperava por algo ou por alguém. Não tardou e a campainha se fez soar.

-Pode deixar que eu atendo, Alfredo. – Ela comunicou.

-Tudo bem - Eu disse.

Ao abrir a porta soou uma voz de tonalidade juvenil. Esgueirei o olhar o suficiente para ver a quem pertencia. Um garoto de olhos verdes e de pernas magras que pareciam dois bambus fincados sorria e tagarela bastante. Repentinamente ela voltou para a sala e pegou um dos três volumes de suas malas. Fiz menção de ajudar:

-Pode deixar aí onde está Alfredo! Sou independente! – Ela disse com certa empáfia.

-Tudo bem outra vez!  – Eu concordei ao dar de ombros.

Assim que o último volume saiu eu ouvi um clik e a porta se fechou. Definitivamente Madá não fazia mais parte do meu mundo. Curioso, fui até a janela e a tempo de vê-los saindo diante uma das cenas mais engraçada que Madá me proporcionou.
Foi  hilário ver aquele pirralho grudado à cintura de Madá. Os quase um metro de oitenta dela contrastavam com pouco mais de metro e sessenta do meninote. Pareciam um gráfico de variações de produtividade; altos e baixos
Estranhamente, Madá era a mulher dos opostos, das inconsistências.

E assim eu os vi partirem. Talvez Madá carregasse na mala algo que jamais pendurou no cabide ou nos guarda-roupas de sua vida; a sensatez. Eu não estranharia se o seu próximo alvo fosse um tenor fracassado ou algum perspicaz pagodeiro.
Dei uma última olhada quando fecharam o portão da frente e percebi que o garoto tinha aquele mesmo corte de cabelo do tal Justin.  Eu ri gostoso.

Encaminhei-me para o rack, liguei o system e “Perfect Stranger” foi curtida no último. Gillan continuava sendo um dos maiores vocalistas do rock mundial, e Steve Morse um espetacular virtuose que fazia sua guitarra Enie Ball gemer como a mais espetacular das prostitutas. Contudo, saudosista que sempre fui dou por falta de Ritchie Blackmore e do Deep Purple dos anos 70.

Ao fim da canção me lembrei da cena de Madá e do seu garotinho Bieber agarradinhos um no outro.

-É isso aí, Madá! Uvas verdes também fazem vinho bom – Concluí ao colocar  "Black Dog" do Zeppelin.

-Caraca! Como eu gostava do John Borman! Ele batia legal. – Lamentei ao ouvir os primeiros acordes e relembrar a estupidez de sua morte no próprio vômito.

Eu sabia que nós enquanto humanos temos a necessidade da lamentação, da automutilação e da falta de comiseração por nós mesmos; Meã culpa, meã culpa, mea máxima culpa, gostamos de nos sentenciar. Porém o transcorrer da vida me ensinou algumas coisas, e alguns  conselhos bons que procuro seguir; Se a vida te deu um limão, faça uma limonada -  Lamentar? Lamente-se sim!  Mas somenten aquilo onde haja algum verdadeiro valor a ser lamentado.

-Boa sorte, Madá! Que ela nunca te abandone! - Brindei ao tocar as cordas da minha guitarra imaginária.

Eu e Jimmy Page éramos o máximo. Melhores que os outros três, óbvio!


Copirraiti Abr28/2011
Véio China®

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cenas pueris


-Tio, tio! Eu quero avisar pro senhor que o ca...

-Quereria meu rapaz! Quereria... –

Respondeu bruscamente o sujeito de aparência austera enquanto batia as mãos nas pernas e nos fundilhos da calça. Ele acabara de levar um tombo medonho ao tropeçar no meio-fio daquela movimentada rua. Contudo e para piorar o que bom não era,  a barba,  numa tonalidade arruivada e o olhar severo acrescido da calvice tornavam sua feição mais rude que propriamente era.

-Não tio, mais é só pra te dizer pro senhor que...–  Novamente foi interrompido

-Jovenzinho, antes de tudo seja mais cordato e tenha para você que não se pode ficar interpelando desta maneira pessoa que mal conhece!

-Eu sei tio, mais é que..

-De novo? Que garoto maçante! Certamente a civilidade e polidez não lhe foram ministradas em casa, muito menos herdadas de berço. Será que é nesse desentoar maleducado que caminha para a sua puberdade? - Dessa vez o homem o admoestava tão braviamente que parecia que seus olhos poderiam saltar das cavidades oculares.

-Eu sei tio! Mais, mais... – O garoto tentava expressar, porém e apesar da insistência não obtinha sucesso.

-Não tem mais mais e nem menos menos! E saiba! Não é mais, é MAS! - Praticamente berrou.

-Eu sei tio, mais  pelo amor de Deus, o senhor não ta entendendo que o Maic.. - Definitivamente aquele jamais seria o seu dia. O homem se mantinha irredutível e o abortou com rudeza, novamente

-Por que não se cala, ser pueril e inconveniente? – Foi a nova bravata, porém, dessa vez,  num  mesmo grau de rudeza, mas com maior sofisticação.

-Ta bom, tio! Se o senhor acha melhor assim... - Desestimulado o menino deu de ombros, virou as costas e se retirou.

Assim que o garoto se afastou o homem caiu em si. Havia agido com muita severidade com menino e sem oferecer-lhe ao menos a oportunidade de dizer o que se entalava na garganta. Arrependido chamou o garoto:

-Ei, meu jovem! O que poderia apalavrar-me de tão importante e essencial? – O garoto girou sobre o próprio eixo e voltou para ter com ele.

-Bem, tio. Agora nem dá mais jeito. Agora é tarde! - Exclamou com certo receio.

-Tarde? Tarde pra que?

-Bem... é assim tio. Quando o senhor tropicou na calçada e se esborrachou, não percebeu, mas... a sua peruca avuou pra bem longe.

-Voou... - O homem o corrigiu irritado com a opacidade do seu linguajar. Porém não bastaram mais que poucos segundos para que desse pela gravidade da informação

-Como? A minha peruca? - Questinou enquanto levava uma das mãos ao cocurutu  e dava por falta dos cabelos.

-Isso, tio! Ela avuou pra longe. E foi nessa hora que tava passando o cachorro do Tininho, o Maicou Jéquison, e ele abocanhou aquele negócio cheio de cabelo e deu no pé! -  O homem o olhou com certa raiva:

-E por que não me disse naquele momento, garoto indolente?

-Indo, quem, tio? –  Obviamente, além de não saber o peso das palavras, perguntava-se o porque do homem usar palavras tão difíceis para ele.

-Indolen... ah, deixe pra la! – Irritou-se ainda mais o suejito que não deixou de  insistir: Deveria ter-me avisado a tempo, garoto aparvalhado e lerdo!

De fato o homem, apesar da ira, sentia-se constrangido sem os seus cabelos avermelhados. Todavia agia de forma insólita e hilária ao tentar esconder a calvice espalmando ambas as mãos onde antes havia o chumaço de cabelos. O garoto, sentido-se cobrado tentou defender-se:

-Bem.. tio. Eu até que tentei, mas o senhor ficou me ensinando o dicionário todinho... Mais aí já era! Não deu mais tempo - Concluiu derrubando os ombros.

-Então, tudo está sacramentado! -  O Homem suspirou inconsolável. Porém, brasileiro, surgiu a luz, esboçou-se a esperança:

-Ei garoto, você tem o endereço do tal canídeo? -  Perguntou num olhar de súplica e ainda com as mãos no alto da cabeça.

Afinal, era a chance que a sua calvice  precisava. Talvez nem tudo estivesse perdido.
O olhar de rogo se manteve cravado em sua fisionomia diante do garoto que parecia matutar.
Passado alguns segundos, vestido numa expressão de incerteza, o garoto se manifestou:

-Canídio, Canídio...  bem tio, desse eu não tenho não. Pra falar a verdade eu nem sei se esse sujeito mora por aqui. Se ainda fosse o do Maicou Jéquisom dava pra quebrar um galho!


Copirraiti Abr2011
Véio China©


Violação

São Paulo, março de 1984.

Linda. Talvez 18 ou 19 anos. Menina de predicados, boa alma e o xodó dos pais apaixonados.
Humana, a libido e os desejos se dobraram à razão e à aparência máscula de um corpo perfumado e muitos músculos. Dos gemidos e sussurros apenas a lembrança do que trazia no ventre, apesar de ainda pouco perceptível. – Graças a Deus o bebê estará bem – Dizia para si ao perambular em seu calvário dos dias que não tinham fim.

Do namorado, o que lhe fizera o mal, não mais dera sinal. Relembra que ele se desapareceu. A casa onde Cesar morava, pequena, agora se abandonava e deixava-se varrer pelos ventos de outono que assopravam as folhas no jardim.
Contudo em sua vida não existia trégua.
Imprescindível,  ela o sabia, era acreditar nos seus sonhos e numa existência que poderia ser melhor, apesar de saber difícil contar com o fato.

Ah! Se fosse somente essa a dor! Não, infelizmente não era. Lembra-se da outra, logo após,  ocorrida na volta da faculdade para casa.  23h30min, horário de sempre. Recorda-se até do trajeto que  ônibus fez naquela noite. Um caminho de ruas sombrias e alumiadas de lua cheia, das luzes fracas  nos postes e por faróis do coletivo que a desembarcou na parada de todo dia.
Recorda que ainda pensava nele quando fora do coletivo caminhou pelas ruas solitárias e fantasmagóricas, pouco menos de 15 minutos até chegar em casa.
Rememora ainda que escutou barulhos enquanto prosseguia. Eram sons das solas de sapatos que vinham logo atrás e freneticamente tamborilavam o asfalto, aproximando-se rapidamente.
Tensa, tentou apressar os passos até dar no fim da rua onde se abria um enorme descampado. A relativa claridade permitia que distinguisse as marcas de cal no campinho de terra onde seu sobrinho Euzébio fazia bonitos s gols para o time da escola municipal.

Foi naquele ponto que os passos a alcançaram. A mão forte e ágil selou a sua boca enquanto uma pontiaguda lâmina de retalhar churrasco reluziu ao luar, ameaçando-a.
Um calafrio percorreu todo seu corpo ao reparar na feição transtornada do homem. Era horrível, principalmente o seu olhar insano. Foi então que esperou pelo pior.
Talvez se a vida fosse unicamente se dua posse  não se importaria em reagir e tentar gritar. Talvez os gritos de horror apavorassem o maníaco e aquele nauseante odor de bebida deixado no ar. Porém sabia; há quase três meses a vida deixara de ser apenas sua. Portanto, não poderia arriscar.

E assim foi sob o clarão da lua que ela foi estuprada, submissa e deixada ao relento num chão de terra batida. Talvez se ele a estacasse no solo não haveria qualquer surpresa e nem desencantos.  Para ela naquele momento tanto faria ser pau, pedra, sol ou chuva.
Sarcástico, o estuprador antes de partir  ajeitou as calças na cintura e subiu o zíper. Ele a fitava com os mesmos olhos insanos. Todavia era hora de ir. E antes mesmo que desaparecesse na noite clara, ainda lhe pareceu por bem galantear:

-Menina, jamais esquecerei estes olhos tão grandes que poderiam ser bolas de futebol –

Depois da vergonha e humilhação a vida teve que persistir apesar da doença. Houveram noites que pensou em desistir, mas, logo recobrava a força interior e pensava no seu bebê. Os meses passaram e ela quase se deu por morta-viva. Não havia mais a beleza e o seu corpo definhava apesar da pequena bola arredondada em sua barriga. Todavia, diante de todas orações e rogos e o bebê nasceu saudável e liberto da doença.


Dezembro de 1985

Até que chegou o dia que um dos seus poucos desejos foi concretizado; Investigadores bateram à sua porta e disseram que era necessário que ir à delegacia reconhecer um homem.
Pelos relatos dos policiais talvez houvessem capturado o maníaco  daquela noite de lua clara
O coração acelerou ao adentrar no distrito. Em companhia do pai e sentada numa cadeira de rodas remexeu o corpo cadavérico por detrás do vidro espelhado e que a mantinha isolada dos suspeitos. Focos de luzes fortes desnudaram todos aqueles rostos. Um a um ela os observou com muita atenção apesar da comoção.

-Sim, é ele! Confirmou ao ver o detido com plaqueta de número 5 .

-Por favor! Eu preciso ter com ele! – Rogou ao delegado num tom fraco e quase que inaudível.

Apesar de tentar perssuadí-la sem sucesso, e com pena da pobre moça a autoridade cedeu e o trouxeram.

O maníaco quase nada entendeu a se ver diante daquela criatura definhada e esquelética. Por segundos se olharam.
Algo o incomodava além da sua tosse seca e persistente, pois o seu olhar não conseguia se desvencilhar da mulher
.
-Lembra-se de mim? – Ela perguntou firme e decidida, como se algo sobrenatural a fortalecesse.

-Talvez! – Ele respondeu, para  depois, finalizau: Apesar que tenho a impressão que conheço os seus olhos.

-E conhece! – Sou a garota dos olhos tão grandes quanto bolas de futebol. Lembra-se?

Estarrecido ante figura tão disforme,  pergunta:

-Por Deus, menina! O que Aconteceu com você?

-Comigo nada! Apenas com você.

-Comigo? Como assim? – Parecía-lhe um diálogo desconexo e surreal. A moça devia estar delirando – Concluiu.

Ela continuou olhando-o firmemente. Seus lábios ressecados tremiam, emocionados.

-Moço, você está morto! Sabia?

Ele riu o riso dos ignorantes. Tudo parecia tão incompreensível.

-A dona deve estar maluca. Tenho uma saúde de ferro. – Riu-se com escárnio.

-Moço, re o pare no meu estado. Sabe o que é isso? Se não fosse o pavor de morrer eu teria dito a você que era portadora do HIV..

Dito isso levou as mãos à cadeira de rodas e girou o aparelho no sentido da porta de saída. O pai percebendo as dificuldades da filha ajudou.

Para trás ficou apenas um olhar estarrecido dum  homem que ja apresentava os sinais da doença.


Copirraiti abr2011
Véio China®

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A editora, o litígio e o mala

Eu andava preocupado, aliás, mais que preocupado, atazanado talvez fosse o termo exato. E esse atazanamento tinha nome: Editora J.J.Gusmão, herança vinda de família, propriamente dos meus bisavós paternos.

Porém, os negócios e a realidade nua e crua e da quase nenhuma rentabilidade esbofeteavam-me no rosto, esfacelando os meus bolsos. Talvez fosse chegado o momento inadiável de abrir mão daqueles escritores cujas publicações pretendiam entreter o leitor com material fartamente culto e erudito, e substituí-los por alguns da nova geração e que estivessem mais antenados com os fatos do nosso tempo, além do uso de um linguajar, mas abrangente, abrasivo e popular.
Lembro que era a primeira vez em seis anos que não renovaríamos com Jonathan Seinberg, que inclusive já possuía farto material para a publicação de mais um livro.
Com certa tristeza relembro da reunião que mantivemos e discutimos esses e outros fatores que motivavam a minha decisão.

-Seinberg, sinto muito, mas, nesse ano não faremos e edição do seu novo livro.

-Como? Assim, sem mais e nem menos? Após seis anos de uma convivência produtiva e rentável é isso o que tem a me dizer? Acha que meus leitores cansaram do bom trato gramatical, dos termos refinados, estilizados, rebuscados até? – Dito isso deixou pousar desanimadamente as mãos sobre os joelhos

Provavelmente Seinberg andava tão distante da realidade que não notara que seu último livro vendera nada mais que míseras 434 unidades. Também não deveria saber que a renda sequer superou os 20% de custo de produção. Evidente, tais assuntos não eram da sua seara. Contudo era minha obrigação manter-me e mantê-lo com os pés fincados no chão.

-Perceba Seinberg, os leitores estão cada vez mais distante daquilo que possamos considerar cultura. Estão também aquém da prolixa erudição que os teus livros carregam - E continuei -
Isso pode ter funcionado há mais de três décadas onde qualquer estudante ou leitor guardava em sua estante edições dos grandes como Machado e Aluízio, além, claro, dos grossos dicionários para consultas.

Eu, procurando ser razoável argumentei inclusive que nos dias de hoje não há mais a obrigatória necessidade de dicionários se empoeirando em prateleiras. E que o fato, tão cristalino, se dava pela obtenção pela consulta online em diversos sites de internet, assim como em softwares que nos trazem Aurélio, Houaiss e outros tantos gravados em CDs. Todavia ele não se deu por vencido:

-Veja, Dra ( Dra era a simplificação do meu nome, Dráuzio, e como gostava de me chamar) Voltando à questão da leitura e do aparato leitoril, não é nenhuma novidade a baixa receptividade da prosa nos tempos de hoje. – Tentou se justificar.

-Epa! Não é bem assim não, Seinberg! – Protestei – Estão aí escritores que a despeito de nem mais existirem ainda faturam altas somas para seus herdeiros genéticos.

-Quais, por exemplo? – Ele desafiou;

-Oras! Só pra te falar dos malditos, alvos de minha preferência, lá vão alguns; Celine, Bukowski, Fante, Hemingway, Miller, Kerouac e tantos outros abarrotando as livrarias. Agora... Imagine se falarmos dos escritores universais e suas obras de maior expressão? Inimaginável seria nos aproximarmos desses números! – Exclamei.

- Bem.. – Ele respondeu – Eles são exceções concedidas a temas polêmicos. Esse pessoal que citou só vê arte em pornografia e devassidão. São escritores para um classe de leitores (a ralé) que se ufanam e interagem com os autores como se eles ainda se mantivessem vivos. Não é de se duvidar que nos aniversários de suas mortes haja um sem números de bêbados e pervertidos golfando vodkas e fazendo surubas em seus túmulos – Ironizou.

-Sim, mas... – Tentei interferir. Foi impossível.

- Mas, mas nada meu caro Dra! Nessas questões de más escolhas literárias o que menos se vê é o trato e discussão da literatura, propriamente ditos - Ele persistia -
Esses que você citou nada mais são que lixo escrevendo sobre lixo – Discursou num tom de raiva, invejoso diria até.

Ficamos em silêncio por alguns instantes. O seu olhar nervoso passeava pela sala e se atinha ao quadro de meu bisavô postado acima de minha poltrona. Lá estava o velho João Juvenal Gusmão, o desbravador de toda essa sinuca de bico em que me metera. Naturalmente, parceiro mudo de todos os meus dias, JJGusmão deveria saber que a J.J Gusmão estava num quase regime pré falimentar devido a minha pífia atuação empresarial. Claro, ainda haviam algumas chances e eu tinha que agarrá-las. E elas começavam por Seinberg, o number one da lista.

-Seinberg, desculpe. Agradeço pela parceria que tivemos por todos esses anos, mas agora é inevitável. Não mais temos interesse em suas obras. Ok?

- Jonathan Seinber desgrudou o olhar em JJ Salomão e fuzilou-me com aqueles seus olhos negros.

Ansioso levantou-se estapeou duas Mont Blanc prateadas que se encontravam em meu porta-canetas. Em pé, o homenzarrão de mais de metro e noventa esbravejou. Sua voz soou forte apesar de não conseguir distinguir os lábios que se escondiam sob a espessa barba grisalha.

-Ad infinitum, Allegatio partis non facit jus! Audiatur et altera pars! – Disse-me numa impostação pedante tal qual ele. Depois completou:

-Em breve terás notícias minhas, meu caro! – Dito isso ajeitou a gravata borboleta dentro da imensidão daquele seu paletó de risca de giz, caminhou até a porta de saída e ganhou a rua.

O que aquele chato não sabia é que eu fizera três anos de direito até desistir e abraçar a editora após o falecimento do meu saudoso pai. Portanto eu entendi o recado. Em todo caso era inacreditável o fato dizer-me que estaria colocando a Editora no “pau” num pretensioso latim jurídico, peça fundamental dos grandes advogados. Assim que ele se foi eu apenas ri.
Até naquilo o sujeito conseguia ser um grandíssimo mala.


Copirraiti 2011Abr
Véio China©

sábado, 9 de abril de 2011

Flagrantes da virtualidade consentida

Tudo estava como devia ser. Banho tomado, cabelos aparados e os inconfundíveis óculos escuros apesar de estarmos em plena noite. Também me perfumara com farta porção de Paco Rabanne, apesar de nem haver a necessidade.
Já era hora, aliás, passara da hora de conhecê-la menos virtual que até então.
Naqueles dois meses de chat em uma sala de bate-papo travei contato com sua alma e ela se abriu como as asas de borboleta num voo inicial e discorreu seus sentimentos e flertou-me com frases carinhosas e de fácil assimilação.Evidente e como era de se esperar na última de nossas conversas trocamos nossos endereços de msn.

Sentei  ao rack ansioso como uma criança que assiste o seu primeiro filme da Walt Disney  e retirei o equipamento da embalagem e li o manual de instruções e o acoplei ao meu antigo notebook seguindo as instruções do fabricante. Isto posto coloquei o CD de instalação e depois de pronto testei o microfone e a webcam. Com tudo funcionando ajustei o brilho e uma tonalidade menos densa em cor e de forma a me deixar mais amorenado que propriamente sou. Daí foi só domar as expectativas e conectar àquele programa de comunicação utilizado por 10 entre 10 internautas,  e apesar da minha pouca experiência com câmeras tive a certeza que aquela configuração escondia  os pequenos orifícios em meu rosto e outras perceptíveis imperfeições. Com tudo pronto estava chegando o momento de conhecê-la, e eu torcia para que tivesse uma webcam, para não continuarmos naquele esquema de fotos estáticas e visíveis num chat, mas sim vermos com nossos próprios olhos os trejeitos do ser, a expressão do olhar, os contornos dos lábios e aquilo que me sempre foi fundamental, ou seja, a  forma de sorrir.

A angustiante espera me apavorava, portanto, para abrandar o anseio  fui à cozinha e de lá voltei a munido de duas garrafinha de Ice da Smirnoff. Decorridos 20 minutos eu a aguardava online e a ansiedade me tomava, então da segunda  pra  terceira, e da quarta para a quinta garrafinha de Ice  foi vapt e vupt. Olhava atentamente para a tela e a dona não aparecia, e a  minha agonia dizia que aquela bebida continha muito açúcar, portanto voltei à geladeira e peguei duas Skol e retornei para o notebook. "Era doce, mas era gostoso, porra!" - Disse para mim ao terminar a segunda latinha de cerveja - " Bem...e se misturamos o Ice e as cervejas?" - Questionei - "É...é boa ideia " - Convenci-me. Portanto lá fui eu para cozinha e voltei com mais duas Ice e um par de latinhas de cerveja. E a espera persistia e a dona não aparecia e ao terminar as bebidas retornei mais duas vezes á cozinha. Portanto não seria necessário mencionar que  ao fim dos primeiros oitenta minutos eu estava bêbado.

Plimmmmmmmmmm – No canto direito inferior direito do meu notebook um aviso  visual seguido de um som de fliperama indica que Manuela, uma loira de mais ou menos  35 anos acabava de entrar online.
Sim, era ela.

-Oi, Augusto, boa noite! desculpe o atraso. Tudo bem com você? - Apuro as vistas e leio na tela a sua saudação

-Tudp mwu amorr. E vpcè? To morrwmdp de saidade de bocé – Respondo, aliás, eu não, os meus dedos. e por intuição.

-Hã, como assim, o que você quis dizer  com isso Augusto? – Ela parecia não entender as frases que eu me esforçava por digitar

-É tap sinpled  de emtander queruds, tá tudi aí! - Tentei explicar

-Hã? - Ta gozando com a minha cara, não é Augusto?

-Nap! Clsro quy nai meu samor! Jamaid! - Justifiquei

Lógico, achei que lhe faltou um pouco de boa vontade, afinal, mesmo que não entendesse as  palavras não seria  impossível para qualquer inteligência mediana  utilizar o poder de dedução, ou, no pior das hipóteses substituir os caracteres  errados  pelos vizinhos para que entendesse perfeitamente, apesar de saber que o trabalho seria maior.
Logo notei que não iríamos longe na interação, pois meus dedos incertos tocavam teclas que pareciam dançar rumba. Enfim, se pretendesse interagir com a linda moça da foto era necessário parar de digitar, afinal, não fora para isso que me preparara à noite toda? Portanto seria aquele o grande momento, e então  percebendo o ícone indicativo de sua webcam enviei o convite para a liberarmos as nossas câmeras, já que estávamos em condições de igualdade. Minha pulsação acelerou e eu ofeguei   quando Manuela aceitou o convite e alguns segundos após lá estava ela em carne e osso, maquiagem e resolução. Definitivamente Manuela era um pedaço de mau caminho.

-Auguuuuuuuuuusto! É você? – Ela exclama num sorriso bom.

-Zzzuzu bem meu amor? - Respondo sem precisar digitar, via microfone, atropelando palavras e com a fala de quem tivesse um ovo cozido na boca. Pelo jeito não eram somente as teclas e os  dedos que estavam com problemas.

-Augusto, por que desses óculos escuros? Por acaso você é deficiente visual?

Foi então que dei por mim ao me olhar atentamente no vídeo do canto esquerdo da tela. Nos meus olhos a  armação metálica e as lentes negras e redondas me conferiam a aparência dum gangster distrital. Nos ouvidos os imensos fones  estouravam meus tímpanos com a “Wont¨t get fooled again” do Who. Assim que percebi o ridículo da situação tentei disfarçar e tirei os óculos, desconectei os plugs do fone de ouvido  e o retirei da cabeça. E óbvio, ao tomar essas medidas acabei por  trazer a música para um som ambiente.
A essa altura os meus olhos brilhavam, e não somente de ansiedade, mas também pelo estado de torpor.
Ao lado direito e esquerdo do rack se aglomeravam alguns pares de  garrafetas de Ice e outras tantas de latas de cerveja, todas vazias. E com a noite extremamente quente deixara os botões da minha camisa negra abertos até a altura do umbigo e isso deixou à mostra os grisalhos pelos do peito de alguém com pouco mais de cinquenta anos. Ao me ver sem os ósculos ela exclama:

-Uiiiiii Augusto! – Você é maduro, tem um olhar insinuante e é bonitão! Que tórax forte você tem!

-Você acha  meu amor? - Respondi ainda tropeçando nas palavras.

-Acho! Ah, vem cá, que música mais barulhenta é essa? Parece que estamos na pista de pouso  do Galeão! Posso ouvir as turbinas daqui.. Quem são esses metaleiros horrorosos? -  Manuela me pergunta colocando ambos os indicadores nos seus ouvidos.

-Essa é a "Uante guét fuuled Aguém" E a banda é o De Hu  – Respondo num inglês incompreensível e continuo meneando a cabeça e compassando o solado do tênis  direito ao chão na mesma batida da bateria.

-Nossa! Que música pavorosa! Que péssimo gosto musica você tem, Augusto! – Ela disse com cara de insatisfeita. Depois me pergunta – Ah, você não tem aí alguma coisa de Daniel, Zezé di Camargo e Luciano, Chitão e Xororó? Acho eles tão românticos!

-Hã? - Dignei-me a responder.  Por Deus! Aquela mulher só poderia estar louca. Onde estava aquele oceano de sensibilidades que me falava coisas tão inteligentes? Zezé di Camargo e Luciano, não me faltava mais nada.  Mas, infelizmente não parou só por alí.

-Você fuma? – Questionou num tom professoral ao me ver colocando um cigarro na boca – Isso causa câncer, além de um mau hálito desagradável, sabia? - Complementa torcendo nariz e boca.

Foi outro choque para mim! Traguei o cigarro e expeli uma longa baforada e a fumaça serpenteou à frente da tela e eu olhava pra quela figura atraente e  me fixava no vão do decote generoso dum tomara que caia de alças onde seios fartos e redondos pareciam suplicar por liberdade. Sim, a impressão que tive é que eles queriam se ver livres como os  pássaros, afinal era  visível a olho nu  que seus seios eram dois números maiores que o sutiã que vestia. E  digo isso porque também deu pra ver uma parte da peça vermelha e com a  bordas rendadas.
Manuela percebeu que eu olhava, então deu um jeito de deixar o decote e os seios mais á mostra. Inesperadamente disse que não se sentia bem com aquela a roupa e me pediu licença e se levantou e pude reparar os contornos do seu corpo voluptuoso. Ao sair rebolou as nádegas empinadas que se ajustavam esplendidamente num desses trajes femininos em cotton. E seguida ouvi o ranger da porta de um guarda roupas e pela sombra projetada na parede notei que trocava de roupa. Passados alguns minutos ela retorna com uma blusa ainda mais decotada juntamente duma saia amarela rodada e de talvez quatro ou cinco dedos acima dos joelhos. Diante a surpresa dos meus olhos esbugalhados  afastou-se da webcam o suficiente para manter o seu corpo em foco e deu duas voltas sobre o próprio eixo e sua saia subiu permitindo-me ver rapidamente uma sensualíssima calcinha negra. Depois com um jeito de mulher fatal  penetrou os dedos nos cabelos e os empurrou para trás como se fosse Ingrid Bergman, uma das musas do cinema dos anos 50.

-Manu, vou me ausentar um pouquinho, mas volto num minuto - Foi a minha reação.

Claro, mesmo  bêbado eu estava excitado e alguém parecia ganhar vida por debaixo da cueca,  todavia não pretendia dar bandeira,  não naquele momento. Saio da rack um tanto trôpego e com a mão cobrindo a frente da bermuda  vou à cozinha onde dou um tempo e depois volto com outro Ice e mais uma cerveja. Olho para o monitor e Manuela não se encontra em sua cadeira giratória,  mas deixa sua  impressões registradas na tela do msn.

“Augusto, to reparando que você bebe um bocado. Homem, isso pode te matar, apodrecer teu fígado. Quanto ao cigarro, já te falei e todos devem te falar,dá câncer, além do mau hálito e dentes amarelos. Agora... to achando extremamente juvenil uma pessoa na sua idade estar curtindo rock pesado. Isso nada mais é que barulho, é transferência de crise existencial adolescente, sendo que você não é adolescente. Você não percebe que já passou da idade?”

Porra! Eu não acreditava no que estava lendo. Tantas mulheres para conhecer e eu fora dar com uma do tipo - "Mamãe é gostosa e te quer" -  mas cheia dos  - “ Mas mamãe não gosta disso” -   E o pior, a severidade das suas críticas se assemelhavam à somatória de tudo que pode tolher a liberdade e o bem estar  de um homem. Em poucos minutos Manuela exercera a profissão de crítica musical, odontóloga, psicóloga, médica oncologista, hepatologista e personal trainer, dessas que malham doentiamente ao acreditarem que a saúde perfeita se adquire nas malditas esteiras ergométricas (sim, eu havia visto uma ao fundo, no canto direito do seu quarto) Se por acaso Manuela curtisse Yoga  fatalmente eu desconectaria o meu msn.

Repentinamente perdi a vontade e o encanto de conversar com Manuela. Ela retornou e apenas ficamos nos olhando enquanto as músicas se sucediam uma após outra. Porém para não desagradá-la por completos coloquei as canções  mais maneiras do `Pink Floyd, Led Zeppelin, Purple e do Genesis do Peter Gabriel. Ainda    não recordo se foi sonho, mas passou algum tempo e me peguei ligado e de olhos bem abertos e nossas câmeras ainda permaneciam abertas, porém ela não estava lá, mas tinha a nítida  impressão de tê-la visto se desfazer da blusa e da saia.  Olhei para mim e a braguilha de minha bermuda estava aberta, mas não havia nada que denunciava que houvera algo de sexo. Mesmo que tenha sido sonho as lingeries eram deliciosamente devassas e os seus seios  simplesmente mágicos. Ainda me lembro de ter tomado outra garrafeta de Ice e uma latinha de cerveja, tê-la esperado por alguns minutos antes que apagasse de  vez.
Acordo três horas e meia depois ao me sentir incomodado com a friagem da madrugada. Olhei para todas aquelas garrafas e latas vazias e pensei – Ainda vou morrer disso -
Concentro o olhar na tela e não mais havia a webcam ligada e nem Manuela, mas sim e apenas a  página offline do MSN e um recado deixado em caixa alta:

“AUGUSTO   VOCÊ  É  O FIM  DA  PICADA. UM SUJEITO VELHO, BÊBADO E DESINTERESSANTE. E O QUE É PIOR...ALÉM   DE BABAR,  RONCA!  BYE”

Sim, acabei sorrindo. Foi a última vez que falei com a devorada de sujeitos bêbados e idosos, se é que realmente tenha existido aquele fantástico strip-tease de lingeries negras.
Talvez eu não precisasse de virtualidade, mas somente daquilo que tinha e que era só meu; cigarros, rocks e algumas bebidas. Talvez eu precisasse de muito mais.
Talvez eu devesse me enquadrar à normalidade e ao que pessoas aparentemente sensatas aguardam de outras que não aparentam sensatez alguma.
Talvez o universo virtual detivesse o tom da contradição, o dom de fazer parecer o que é insano em algo perfeitamente viável, e aquilo  que é correto em coisa sórdida e feito na cabeça de malucos.
Pela primeira vez pensei em jogar o meu notebook fora e tentar a sorte no Bingo da esquina. Pensei naquilo por segundos e desisti, pois estava muito velho para abrir mão de pequenas futilidades, e não precisava de sorte  ou do prêmio da milhar completa, mas sim apenas de compreensão.
Porém... bem, porém, os anormais não se rendem jamais.

Tirei a bermuda e me olhei e reparei nas minhas pernas e apesar de uma ou outra artéria sutilmente azul a musculatura ainda não aparentava a idade que tinha. Olhei para trás e tentei ver a minha bunda, porém sem saber o motivo, afinal, quem se preocupa com o glúteo são as mulheres.
Fui ao banheiro dei uma mijada, escovei os dentes, lavei o rosto e me dirigi para o quarto. Lá puxei a colcha e o coberto e entrei para dentro e uma sensação agradável e quente me tomou; era a hora de completar  o sono que me faltou. Antes de dormir olhei para o teto á procura de aranhas e não havia qualquer vestígio delas. Ainda pensei em rezar, já que há muito eu não o fazia, mas desisti também;  Provavelmente ele não perderia o seu tempo com alguém como eu.

Antes de ferrar no sono relembrei o obsoletismo do meu note e da chatice de ficar ajeitando a webcam  numa posição que me favorecesse. Sim, pensei e resolvi que seria hora de economizar com as bebidas e adquirir um note de última geração, desses que já vem com câmera e o microfone embutido. Tal como nós as máquinas se tornavam ultrapassadas e eram substituídas sem qualquer apego por outras  mais novas e de tecnologias recentes. Revi todos os conceitos e percebi que mesmo que evitasse a rota da velhice também me tornava obsoleto, pois em sã consciência jamais correria contra alguém com 23 de idade. Mas o que era obsoleto para um obsoleto se vestiria de novidade para algo recente como o meu neto que, adoraria inclusive o fato da webcam estar inclusa no pacote de doação.

-Pô, vô, que bacana! Obrigado! Agora dá pra conversar e ver os meus colegas e amigas de classe com essa câmera! - Fatalmente ele me diria em agradecimento vestido  do mais belo dos seus sorrisos.

-Creison, tem certeza que não utilizará essa webcam pra qualquer safadagem? - Perguntaria para ele, preocupado, óbvio.

-Com assim, vô? - Ele me questionaria com olhos surpresos mas sem perder o sorriso nos lábios

-Nada não, Creison! Nada nao! - Eu responderia para ele, esquecido por instantes que o fedelho só tinha a pureza dos dez anos de idade.



Copirraiti 11Jan2013
Véio China©